A Chave do Enigma
Capítulo XXXIX
A 23 de Outubro de 1826 entravamos, com o alvoroço da novidade, e cheios de vagos projectos não pequenos, pela alpestre região ás abas da serra do Caramulo.
¡Nada mais avêsso ás amenidades que nos ficavam em Coimbra! ¡solo magro, ondado, mattagoso, ermo, roto de quebradas e algares, selvoso por intervallos, salpicado a longe e longe de alguma escassa póvoa recoberta de loisas ou de feno, e retalhado de rios e ribeiros profundos e pedregosos! ¡No descampado um passal, antiga quinta das Limeiras dos Condes da Feira, que ali se iam pelos verões montear javardos! ¡Ao centro do passal, e á beira da via publica, o templo de S. Mamede com seu adro arrelvado cingido de cerejeiras, platanos e nogueiras! ¡Por detraz do templo, emboscada, a residencia parochial! ¡Por detraz d'ella despenhadeiros até um rio, que o sol não avista em cada dia por mais de uma hora!
Repicavam os sinos dando as boas vindas ao novo Pastor.{100}
—«¿Onde está a freguezia?» perguntavamos nós maravilhados:
¿Qui teneant (nam inculta videt) hominesne, feræne?
—«Dispersa, escondida pelos oiteiros, a uma parte e a outra, distancias muito largas.» O unico visinho proximo da egreja e do presbyterio era, lá para a orla do passal, S. Sebastião na capellinha branca, como que posto de guarda á sua profusa e rumorosa matta de sobreiros.
Solidão silvestre mais caracterisada, não quero que a haja. A poesia e as festas da serra (que nada ha tão desamparado que não tenha suas festas e poesia) só depois e com o tempo é que tinham de nos vir apparecendo.
Entrança tão desabrida infundiu-me tristeza; e o alvoroço em que o movimento e variedade da jornada nos trouxera, breve me degenerou em esmorecimento. ¡Se me vinham tão frescas e presentes as memorias, não só da cidade do Mondego, senão tambem da minha Lisboa natal, d'onde tão poucas semanas havia que eu sahira! ¡Vermo-nos agora de improviso sequestrados de todo o trato humano, em paragem na qual não havia porquê nem para quê numerar as horas, e onde a carranca dos sitios tinha um cunho tão profundo de immutabilidade, que o espirito se confrangia, e se gelava o coração!
Pela primeira vez ali o namorado da Natureza se amuou, e teve com ella os seus arrufos.
Se o permittis, ouvir-lhe-heis versos em que procurou desabafar:
A PRIMEIRA NOITE NA SERRA
.................ibi hæc incondita solus
Montibus et silvis studio jactabat inani.
¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! Em solitario monte,
que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte
nada avistou jamais no amplissimo horizonte
do mundo a tumultuar, de cidades a rir...
n'este ermo ignaro, frio? mudo...
aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo,
¡o meu presente e o meu porvir!{101}
Genio invisivel da montanha,
de astros, de sol, o ceo te banha;
o mar de longe te acompanha
no livre cantico sem fim.
Escada de Jacob da terra ao firmamento,
a mansão tua é monumento
da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.
Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
se volve, se transforma, e sua angustia exprime
n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
a variedades sobranceiro
mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,
e do diluvio assolador.
Silencio e paz comtigo habita;
o ermo é como o eremita;
loucas vaidades não cogita;
ama o seu rustico trajar;
em apparente inercia ama que ferva occulto
de seus affectos o tumulto,
seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.
Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
póde ouvir de tua harpa a casta melodia,
e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
sim; mas eu, frivolo, profano,
á solidão extranho, affeito ao mundo insano,
¿que hei de esperar? ¿que tenho aqui?
¿Toda a minh'alma se entristece,
e se confrange, e se ennoitece,
ao ver que a sorte lhe destece
de um sopro os aureos sonhos seus.
Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!
sonhava mundo... ¡acho um deserto!
sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!
Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.
¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,
quem me resurgirá! Dos montes a linguagem...
oiço... escuto... medito... e em vão quero entender;
é como uns sons d'ignota fala;{102}
qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,
sem me abalar, nem me embeber.
¡Oh! ¿á minh'alma taciturna
que importa, ó montanha soturna,
que de perfumes sejas urna
da terra erguida sobre o altar?
¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,
que o sol doirado, ao teu deserto
mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?
Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,
bramirei:—«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!
¡são mais pesares, mais saudades,
mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,
mais tentações a dar-me fel!...»—
¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!
¡Tanto vate a ceifar louvores!...
¡Tanto moço a colher amores!...
¡Tantos loireiros e rosaes...
E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,
qual roble que geme indignado,
vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!
Assim ruge, baldão de vingativo nume,
esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
assim nos gelos sua, agrilhoado ao cume
do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.
Só o abutre de eterna fome,
que o grande coração algoz sem fim lhe come,
responde em ais á sua voz.
Fenece o dia. ¡Hora jocunda,
que eu tanto amava! ¡hora fecunda
dos cantos meus! ¿porque me inunda
nova amargura o coração?
¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?
a serra em luto se me encobre;
a nocturna mudez duplica a solidão.
Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.
De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;{103}
tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir
de luzeiros um labyrinto.
¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto
é vento em selvas a rugir.
Calae, fugi, ventos agrestes;
sumi-vos, lampadas celestes;
n'um seio a delirios já prestes
não susciteis mais tentações.
Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...
vós, astros, cifras de diamantes,
O arcano me aclarae lá d'essas regiões.
¡Oh! se á minha razão, contradictoria, altiva,
que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,
de vós, faroes do Geo, baixasse a crença viva,
que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...
¡se me volvesseis as ditosas
esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,
com que se enfeita e esconde a Cruz!...
Tornar-se-me-hiam de improviso
a solidão, em paraizo;
a magua, em perenne sorriso;
em alto cantico, a mudez;
a mallograda lyra, o não colhido loiro,
em harpa augusta, em palmas d'oiro;
e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.
Delirios sempre vãos, fugi d'um peito enfermo;
tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;
ermo para ambições, e inferno, e não ermo;
para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.
Gentis phantasmas de cidades,
vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,
como um esquife em aureo veo.
¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
(embora em saudades me eu queime)!
O somno, as vigilias enchei-me
da vossa esplendida vizão.
¿Val o riso choroso as festas da loucura?
vinde, guiae-me á sepultura,
crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.{104}
¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.
Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos
dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
não, no silvestre seio vosso,
nem de amenas ficções apascentar-me posso,
nem menos as posso esquecer.
¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro
sondou jamais o abysmo escuro?
¡Apenas chego e já murmuro!
¿O de que tremo acaso sei?
Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,
aqui me aguardem, recatados,
dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.
Se além, no presbyterio, humillima choupana,
(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
mais que fraterno amor sollicito se afana
em me afofar o ninho, a vida em me inflorar;
se n'um retiro verde e mudo,
por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,
sombras no estio, o inverno ao lar;
se a solidão que me apavora,
sómente o fôr vista de fóra;
se em seus recôncavos demora
gente feliz, povo de irmãos;
se do antigo viver, das crenças de outra edade,
vestigios guarda a soledade;
se poesia se vive entre estes aldeãos;
se a alegria, serena, isenta de pesares,
como a fresca saude, habita os puros ares;
se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares,
se Deus em toda a parte a Natureza ri...
coração meu, não desanimes,
gozos que não prevês, e cantos mais sublimes
encontrarás talvez aqui.
¡Ah! sendo assim, que importa a fama!
Tambem philomela derrama
sua harmonia ás selvas que ama
longe de ouvintes e do sol.
Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria{105}
que a viva, a lustrosa poesia
de perolas que a flux borbóta o rouxinol?
Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos difficeis e arrastados, do que o eu temêra, ao trocar, tão a subitas, cidades e amenidades por brenhas alpestres, tão desconversaveis á primeira vista. Tivemos tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e haurindo poesia mesmo dos penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas tudo isso pertence a outro livro, onde algum dia folgarei de hospedar os meus leitores; chama-se por signal O Presbyterio da Montanha.