A Lenda da Meia-Noite

Manuel Pinheiro Chagas · Capítulo 10 de 46

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A Lenda da Meia-Noite

Capítulo IX

Os labios d'ella estavam frios como os de uma estatua.

Olhou para mim com olhar meigo e recuou.

Entrei no quarto e cahi-lhe aos pés, balbuciando:

—Julieta, amo-te!

E cobri-lhe as mãos de beijos devoradores.

Ella olhava para mim com uma expressão indefinivel. Não podia dizer se era ternura, se ardor, se frieza, o que esse olhar continha; sei sómente que quanto mais ella me encarava, mais eu me sentia enlouquecer.

—Vem, meu amante, murmurou Julieta passando-me o braço á roda do pescoço, e arrastando-me com meiguice para uma porta entre-aberta, vem! sobre o lilaz florido do meu jardim embalsamado descanta o rouxinol as suas trovas de amores! é tudo mysterio n'esta hora encantadora! Vem!

Abriu-se a porta e nós entramos n'um jardim esplendido.

 

IX

 

Era na hora mysteriosa em que das urnas das flôres se expandem na atmosphera thesouros de aroma e de languidez, e em que o homem absorto julga escutar vagamente na esplendida immensidade a longiqua harmonia das espheras.

Na hora em que o rouxinol espalha sobre a terra as perolas do seu canto, e em que a natureza escuta embevecida o hymno mavioso do seu interprete sublime.

Porque n'essa hora dormem as paixões terrenas, e o mundo parece envolver-se por momentos no manto da sua virgindade, afim que Deus possa reconhecer a sua feitura, desfigurada pelo agitar convulso do verme pretencioso que se chama o homem.

E o Omnipotente immovel no throno da sua grandeza, revê-se silencioso no espelho da Creação.

Oh! como a lua desenrola graciosamente o seu manto luminoso sobre as alamedas desertas do esplendido jardim! Como os seus raios se baloiçam mollemente no berço fluctuante da folhagem! Como se miram descuidosos no crystal das fontes!

E as estatuas primorosas dos deuses do paganismo, parecem espreitar complacentes os mysterios da voluptuosidade que se vão abrigar nos caramanchões floridos! E emtanto as acacias que lhes assombreiam os vultos immoveis, inundam com a chuva perfumada das flôres vermelhas as pregas ondeantes da sua roupagem marmorea!

E eu e Julieta caminhavamos silenciosos por entre os alegretes, e a voz do rouxinol da balseira despertava no meu coração um rouxinol desconhecido que me fallava de amor e de ternura.

Inclinei-me para ella e beijei-a! E parecia-me que sentia ao tocar-lhe nos labios as azas brancas do anjo da pureza que davam áquella fronte limpida um resplendor celestial.

Por um sentimento involuntario troquei o meu annel pelo annel de Julieta.

Julguei que Deus santificava o nosso amor, e nos contemplava com indulgencia!