A Lenda da Meia-Noite

Manuel Pinheiro Chagas · Capítulo 19 de 46

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A Lenda da Meia-Noite

Capítulo II

Quer me acreditem, quer não, o que eu lhes posso assegurar é que a tal pobre e velha bolsa verde, quando viu a minha physionomia séria no meio de tantos rostos zombeteiros, lançou-me um olhar supplicante a pedir-me que a livrasse d'aquella triste posição.

E o caso é que a comprei, com grande espanto de todos os circumstantes, que principiaram por olhar para mim com uns olhos muito abertos, e que concluiram por sorrirem uns para os outros, dando a entender que me julgavam doido. O pregoeiro entregou-me a bolsa, e recebeu o dinheiro, tendo cuidado de interpôr, como se fosse por acaso, uma cadeira entre nós ambos, com receio que me d'ésse alguma furia.

Escuso de dizer que ninguem me disputou o lanço. Nem mesmo esses agentes, que tem, em giria de leilão, o nome expressivo de picadores, ou, por abuso de metaphora, de toireiros, ousaram erguer a voz para m'a fazerem pagar mais caro.

A surpreza emprestára-lhes um bocadinho de consciencia.

Pois o que é certo é que eu comprei a bolsa, e saí com ella muito ancho, sem me importar com as largas alas que me abriam as pessoas presentes, imitando a prudencia do que m'a vendêra.

E, como eu passo a mostrar-lhes, não tive motivo de me arrepender.

 

II

 

Era uma noite de maio. Eu estava sentado á meza do trabalho. Um caderno de papel, ainda virgem de letras, estendia-se diante de mim aterrador na sua alvura, que me advertia mudamente da obrigação que eu tinha contrahido de a fazer desapparecer debaixo de uma alluvião d'esses monstrosinhos negros, que se chamam letras, que, amontoando-se umas em cima das outras, formam as palavras, essas mysteriosas colmeias, dentro das quaes se agita o candido enxame das idéas. O tinteiro, boquiaberto, não cessava de me mostrar o oceanosinho sombrio que tumultuava dentro de seus vitreos muros. A penna, debruçando se sobre esse mar tenebroso, contemplava-o com indifferença, preparando-se para o sulcar atrevidamente, quando eu julgasse opportuno começar a navegação.

Uma janella aberta oppunha aos meus designios um obstaculo insuperavel.

Uma janella aberta?—diz o leitor; porque a não fechava?

O leitor de certo se não recorda de eu lhe ter dito que estavamos em maio.

Fechar uma janella quando a fada da primavera percorre as urnas das flôres, colhe todos os aromas que encontra, e vae espalhal-os prodigamente no regaço das brisas, que doidejam depois na atmosphera, alegres como as creanças folgazãs que correm na campina com as suas arregaçadas de flôres! Fechar uma janella! E porque não fecha o leitor os ouvidos quando está escutando uma melodia de Bellini, e os olhos quando está vendo um quadro de Raphael?

Eu, com um charuto na bocca, docemente recostado na minha cadeira, aspirava os perfumes do ambiente, sem me importar com as provocações do papel, com as agitações da tinta, e com as suggestões da penna. Devo até dizer, para ser completamente veridico, que me deliciava em desprezar tudo isso.

Fi donc! Um escriptor!

Eu queria vêl-os no meu logar! Uma larangeira a enviar-me perfumes perfidos, e, quando me via prestes a estender a mão para a penna, a baloiçar-se sem piedade, e a remetter-me directamente nas azas da viração uma taça inebriante, cheia a trasbordar dos seus effluvios! E um rouxinol, um travesso rouxinol, muito escondido n'uma alcovasinha de folhas, que o demonico da laranjeira lhe tinha arranjado de proposito para acabar de me tentar, a desentranhar-se em melodias que era um enlêvo escutal as! Sem fallar n'umas roseiras, que a pretexto de serem dilletanti, e de serem impellidas pela aragem, prepassavam por diante da minha janella para ouvirem mais de perto aquelle Tamberlik plumoso! Não mettendo em linha de conta a lua, que se ria no céo a bandeiras despregadas, escancarando com os frouxos de riso umas nuvens teimosas, que por força queriam esconder-lhe as perolas que ella com as gargalhadas mostrava á natureza, e que tinha a innocente vaidade de contemplar espelhadas nas fontes! Vão lá, com tudo isto, debruçar-se sobre um caderno de papel e escrever!

Escrever; mas escrever o quê? Um romance de amores?! Um poema?! Romances e poemas tinha eu na imaginação, sublimes, portentososos, admiraveis, como todos os tem, e como ainda ninguem os escreveu.

Se elles se desprendem, capitulo a capitulo, estrophe a estrophe, e vão fluctuar na atmosphera de envolta com os perfumes da rosa, com os canticos do rouxinol, e com os raios da lua!

E, apesar d'isso, não deixam que outros, que se possam entornar sobre o papel, nos occupem ao mesmo tempo a imaginação.

Assim estava eu, torturando o espirito para obter uma idéa, e encontrando n'elle mundos de poesia, não digo bem, um chaos de poesia, cujo fiat lux eu nunca poderia descobrir.

De vez em quando revestia-me de animo, e tentava levantar-me para ir fechar a janella! Mas a larangeira baloiçava-se e deixava cair uma chuva de perfumes, o rouxinol redobrava de gorgeios encantadores, os ramos da roseira prendiam-se, ao perpassar, no parapeito da janella, e deixavam ficar as suas rosas de cem folhas, purpureas e embalsamadas, a mirarem curiosamente o meu quarto; a lua desprendia indolentemente dos hombros o seu manto de luz, arrastava-o no firmamento, e eu caía desanimado na cadeira.