A Lenda da Meia-Noite

Manuel Pinheiro Chagas · Capítulo 39 de 46

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A Lenda da Meia-Noite

Capítulo III

 

Oiçam pois, meus meninos, esta historia, em que vereis como os duendes se transformam com a miseria e com o mau exemplo dos homens.

Aqui tem eterna juventude, lá chegam a envelhecer e tem uma velhice repugnante; aqui não pensam senão nas suas fadas, lá ousam querer raptar as filhas dos homens.

Ora pois, havia na Irlanda um camponez chamado Patricio, que pedira um favor a um duende, offerecendo-se a recompensal-o; mas, apenas se viu servido, fiado no caracter bom d'esses genios benevolos, não pensou mais em similhante galardão.

O duende, que já era velho e rabugento, e moido de trabalho, enfadou-se com esta falta de palavra, e condemnou o camponez a servil-o sete annos e um dia.

Sentença dada por duende irritado inscreve-se no livro do destino, e lá não é possivel arrancarem-se as folhas, como se fez em Portugal, nem queimar a casa onde o livro está, como se fez em França.

O pobre Patricio, que não quizera dar uma pequena recompensa, viu-se obrigado a servir seu amo sete annos, sem ao menos ter a esperança que teve Jacob, que se viu mettido em eguaes danças, como os meus amiguinhos sabem, mas a quem fôra promettida em premio a formosa Rachel.

E, ainda assim, Jacob não tinha senão que pastorear os rebanhos de Labão, o que, por fim de contas, não é uma occupação desagradavel.

Mas o pobre Patricio, esse estava em peiores circumstancias. Além dos trabalhos habituaes, fazia tambem de escudeiro de seu amo, e tinha de o acompanhar nas suas excursões nocturnas, excursões que eram sempre feitas a cavallo.

Mas a cavallo em quê? Imaginam que iam montados em guapos corceis, como esses em que os seus papás montam, ou em pacatos burrinhos, como esses em que os meus meninos vão tambem dar os seus passeios?

Pois não; as coudelarias do nosso duende tinham outra casta de cavalgaduras; eram immensas porque abrangiam toda a natureza, e porque, a fallarmos verdade, os cavallos não occupavam muito espaço. Chegavam, por exemplo, ao meio de um campo, viam duas feveras de palha, o duende pegava n'uma, dava outra a Patricio, e dizia-lhe: «Monta».

Montar era facil de dizer, mas de fazer? Parece-me, realmente, que o mais perito mestre de equitação se havia de vêr seriamente embaraçado.

Patricio arrancava os cabellos, amaldiçoava a sua avareza, que o levára áquelle misero estado; mas como arrancando os cabellos ficava calvo, e não transformava a palhinha nem em burro nem em corcel, não tinha remedio senão montar, e lá ia elle por esses ares fóra atraz de seu amo, que cavalgava tão ufano como se montasse no celebre Bucefalo de Alexandre, em que os meus meninos talvez já ouvissem fallar.

De que elle tinha medo principalmente era que os seus visinhos o vissem n'aquella figura, mas d'isso não havia perigo; o duende, sendo invisivel para olhos profanos, tornava-o invisivel tambem a elle.

Outras vezes não eram feveras de palha, mas juncos e cannas os corceis escolhidos; o bom do Patricio quiz vêr se conseguia que seu amo acceitasse dois paus de vassoura, que sempre seriam, emfim, cavalgaduras mais commodas; mas, apenas elle abriu a bocca, o duende respondeu-lhe com tanta dignidade que isso era bom para as bruxas, que o pobre irlandez não ousou insistir, e tratou de vêr se aprendia as regras da picaria aeria, e de escolher a posição mais commoda que podesse na tal fevera de palha que o transportava pelos ares.