A Lenda da Meia-Noite

Manuel Pinheiro Chagas · Capítulo 38 de 46

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A Lenda da Meia-Noite

Capítulo II

Por isso, quando á noite dançam e folgam nos ares, toda a natureza se compraz em lhes adornar os festejos; as brisas volteiam com as suas urnas cheias de aromas; os rouxinoes descantam as suas arias; a orchestra immensa dos pinhaes, das carvalheiras e dos salgueiraes entrega aos arcos invisiveis do vento as frementes cordas das suas franças, ou deixam que mão ignota doideje vagamente nas teclas das suas frondes! E tudo canta, ri e folga, porque são as fadas que dançam, as fadas aéreas, os travêssos duendes.

E o homem entretanto, encerrado nas suas mesquinhas moradas, respira uma atmosphera corrompida, sente o suor a borbulhar-lhe na fronte depois de dar um giro na sala abafadiça, e cerra cuidadosamente as janellas, para que lhes não chegue nem um murmurio, nem um effluvio, nem um raio de luz.

E a natureza aproveita a ausencia do rei da creação, e canta, e folga, e ri, porque são as fadas que dançam, as fadas risonhas, os duendes maliciosos.

 

II

 

Em toda a parte ha fadas, meus meninos; mas, como podem suppôr, não tem o mesmo genio, a mesma indole nos differentes sitios. N'uns pontos persegue-as o infortunio, n'outros sorri-lhes a ventura.

Na nossa terra abençoada, em que temos o céo de veludo, aguas de crystal, sol de oiro vivo; onde nos ares limpidos parecem brotar por encanto musicas suavissimas; onde viçam flôres com profusão; onde as brumas são véo ligeiro que touca as cumiadas dos montes, e não gélido manto que envolve as planicies, folgam as fadas de viver. É este o paiz dos seus sonhos, este e a Hespanha, e a Italia e a Grecia, onde viveram por tanto tempo as nymphas, as naiades e as dryades, que eram as fadas dos pagãos.

Livres no ar, alimentando-se de perfumes que nunca lhes faltam, abastecendo-se nas madre-silvas e nas magnolias, aquentando-se nos ninhos das avesitas, viajando n'um raio da lua, não tendo mais em que cuidar senão em pentear os seus lindos cabellos, em mirar-se e em banhar-se nas aguas transparentes, apenas uma vez por anno, na bemdita noite de S. João, tem de ser oraculos das donzellinhas, que lhes vem perguntar qual o porvir dos seus amores.

Donosa occupação! Sair do asylo da folhagem e entrar na alma ingenua da donzella, é apenas mudar de ninho, e não sei qual será mais suave, mais macio, mais delicioso e mais immaculado.

Estava com passarinhos, com passarinhos vae estar! Pois o que são os amores? E se escutavam deliciosos gorgeios, finas trovas, podiam nunca ser tão mimosos esses cantares como o poema seductor, cujas estrophes resoam n'um coração de vinte annos?

Mas ai! nem sempre é assim. Nos frios paizes do norte, na nevoenta

Inglaterra, na verde mas tristonha Irlanda, não encontram as fadas e os duendes as doçuras d'estes ares, os esplendores d'estes céos, a suavidade d'estas brisas. Mal que chega o inverno, gelam-se as aguas, morrem de frio os passarinhos implumes nos pobres ninhos devastados pela procella, a neve mata as flôres, embacia-se o clarão da lua, desmaia a luz e affrouxa o almo calor do sol, não ha perfumes nem galas, e ai de quem intentasse dançar nos ares quando o graniso cae!

Coitados dos pobres duendes! Coitadas das gentís fadas! Elles, que adoram a liberdade, vêem-se obrigados a refugiar-se nos quentes curraes, na cinza do lar, e até na chaminé! Ah! como os seus irmãos dos paizes do sul teriam dó d'elles se os vissem com as azas brancas maculadas de fuligem, a não ser que estejam expostos ao frio e á neve á porta de casa pouco hospedeira, onde não lhes abram sequer uma fisga por onde possam metter os corpinhos enregelados.

Mas os homens são crueis e egoistas, e não concedem um favor sem mirarem a galardão; estão promptos a acolher os pobresinhos dos espiritos, com a condição que estes os hão de servir. E aqui temos os nossos duendes e as nossas fadas, fieis á sua palavra, a ordenhar as vaccas, a guardar as ovelhas, a tratal-as nas doenças, a evitar-lhes o mau-olhado, a proteger os donos da casa, emfim, a fazer o que dez criados não fariam.

Mas, meus meninos, os homens, não contentes com isso, traçam muitas vezes fazer-lhes mal, livrar-se d'elles, descumprir a sua palavra, e isso tudo exacerba-os, e fal-os tambem, ás vezes, maus e vingativos.

Ah! meus meninos, a miseria é a mãe terrivel do mal, tanto nos homens como nos duendes. A miseria, e a escravidão, e a ausencia da luz! Ah! quando virdes um criminoso, não o anathematiseis, mas vêde primeiro em que atmosphera viveu, quaes foram as primeiras idéas que teve, qual o estado da sua intelligencia. E vereis sempre a miseria, o embrutecimento e as trevas.

Por isso, quando fôrdes homens, dedicae-vos á grande obra da regeneração dos vossos similhantes, ao seu esclarecimento e á sua educação moral.

E assim tereis cumprido a vossa missão na terra, assim tereis cumprido o grande preceito da nossa religião «a caridade», preceito que encerra em si todos os outros, raio de luz que, em se espraiando pelo mundo, basta para dissipar as sombras mais cerradas.

Mas voltemos aos nossos duendes, de que já nos iamos afastando tanto.