A Lenda da Meia-Noite
Capítulo XVI
«Isto repetia-se todas as noites. O costume já me tornára indifferente.
«Passaram-se talvez seis annos, durante os quaes eu nunca saí da minha prisão, e em que, pelo contrario, entraram muitas novas companheiras que vinham augmentar o volumoso peculio, e, ao bater da meia-noite, tornar tambem mais numeroso o funebre cortejo dos phantasmas.
«No fim de seis annos morreu o meu usurario! Morreu de repente! Não tivera tempo de fazer testamento, e, segundo me disseram, iamos passar para as mãos de uma herdeira, parenta muito afastada do finado.
«Com effeito, poucos dias depois da morte de Bartholomeu Nunes, vieram uns quatro gallegos para levar a burra a pau e corda.
«Tivemos a consolação de os derrear!
«Quando chegámos á casa para onde iamos, os gallegos escorriam em suor, e praguejavam como uns damnados.
«Uma voz argentina fez-se ouvir junto de nós. Esta voz não me era desconhecida; mas onde a ouvira eu? Impossivel lembrar-me!
«Finalmente rangeu a chave na fechadura, e abriu-se o cofre. Que rosto imagina que me appareceu? O de Camilla! o da minha creadora!
«Descrever-lhe a alegria que senti é-me completamente impossivel.