A Lenda da Meia-Noite
Capítulo IV
Pieno d'amor
Mi balza il cor;
Ma pur discreto
Serba il segreto.
E no olhar da minha formosa desconhecida lia-se em letras de fogo a mesma confissão inebriante:
Pieno d'amor
Mi balza il cor.
IV
Tinha acabado a opera. Levantei-me e saí.
Fiz um esforço sobre mim, não querendo olhar para o camarote fatal. A pessoa que o occupára durante a noite produzira em mim uma impressão tal que cheguei a ter medo... medo da influencia pasmosa que ella ía tomando sobre o meu pobre coração.
Oh! fatalidade! Quando cheguei ao corredor, o primeiro vulto, que passou por diante de mim, foi o vulto elegante e nobre da gentil desconhecida. Ia só!
Tive como que uma vertigem, quando ella, ao passar, me lançou um d'esses olhares que endoidecem o homem de rasão mais fria, que lançam no inferno o mais virtuoso santo do paraizo.
Não tive forças para luctar contra a fascinação irresistivel d'esse olhar. Se elle tinha sobre mim a influencia magnetica do olhar de José Balsamo sobre a pobre Lorenza ideada por Alexandre Dumas! Debalde a pobre italiana se torcia desesperada debaixo d'aquelle jugo oppressor, debalde oppunha toda a força da sua vontade e do seu odio á tenacidade diabolica do terrivel magnetisador, debalde resistia com todo o ardor da sua devoção, com todo o vigor da sua alma virginal áquelle poder incomprehensivel, mas horrendamente verdadeiro; tinha de recuar diante d'esse olhar, como diante d'uma espada chammejante, até caír oppressa e desesperada aos pés de José Balsamo. Então esse corpo quebrado pela resistencia, reclinava-se nos braços da voluptuosidade, e a voz que ia terrivel a bradar: «Odeio-te», terminava supplicante a balbuciar: «Adoro-te».