A Lenda da Meia-Noite
Capítulo II
Tudo n'este mundo acaba, inclusivamente as doces palestras enamoradas. Mais infeliz do que a desditosa heroina de Shakespeare, a donzella da casa da praia não pôde esperar que o grito matinal da cotovia saudasse o alvorecer. Ainda a noite não chegára ao meio do seu giro, e já era forçosa a separação.
Trocaram-se suaves promessas, mil vezes se affastou o nosso Romeu da fachada branca, mil vezes voltou a ella, como se as ondas, que lhe vinham quasi banhar os pés, o arrastassem comsigo nas incessantes ondulações do fluxo e do refluxo.
Afinal a palavra «Adeus» escoou-se, como um timido murmurio, pelos labios dos dois namorados; o elegante moço affastou-se rapidamente, e, dando um pulo bem calculado, foi cair em pé dentro do barco, que as ondas baloiçavam.
Ao choque inesperado acordou em sobresalto o barqueiro. Ergueu-se á pressa, e, depois de reconhecer seu amo, fitou os olhos com certa inquietação no céo estrellado, chronometro infallivel dos homens do mar.
—Ah! senhor, disse elle com a voz entrecortada, que tanto se demorou! É forçoso apressarmo-nos, e não sei ainda se chegaremos a tempo á praia.
—Que medo tens tu, homem? perguntou o que embarcára, sentando-se commodamente na pôpa do bote. Está o mar de leite, e nem a mais ligeira brisa lhe agita as ondas, nem uma nuvem ameaçadora assoma no horisonte! As tempestades repousam, amigo!
—Não temo a procella, tornou o barqueiro, abanando a cabeça; eu e o vendaval somos conhecidos velhos, e não me assusta a tormenta em noite escura, nem receio ser engulido pelas ondas! Assim como assim um homem ha de morrer uma vez, e vale mais adormecer livremente envolto n'esta mortalha de espuma, do que ser cozido n'um lençol branco, e mettido em uma cova, onde o nosso pobre corpo nem uma vez só se poderá regalar com o cheiro da marezia! Mas ainda que a temesse, não é n'uma noite d'estas que um velho marujo receia a tempestade. V. s.a tem rasão: o mar está de leite, e o barco ha de deslisar tão commodamente por sobre as suas aguas como uma carruagem por cima da poeira da estrada real.
—Então o que te assusta, meu velho?
—Está quasi a dar meia-noite, senhor.
—Percebo! Receias que o fuso da tua companheira não corra tão ligeiramente nas suas mãos enrugadas, de farta que esteja de te esperar. Socega, homem! Irei eu mesmo acalmar as rabugices da Catharina, e prometter-lhe uma estriga de linho para os serões do inverno. Verás que a velhita ha de ficar tão contente, que nem pensará em ralhar comtigo por causa da desusada demorada.
—Não esteja com cuidado na Catharina, senhor, que ella bem sabe que me não demoro por culpa minha. Oh! se sabe. Antes de ser velha desdentada já foi moça e louçã, e ha de se lembrar de como nós esqueciamos as horas, que passavam, ella sentada á porta da choupana a concertar as rêdes de seu pae, eu assentado no areial a fallar-lhe fallas de namoro, que lhe punham o rosto mais vermelho do que uma rosa de maio. Ainda não é isso, meu amo.
—Então o que é, finalmente? perguntou o seu interlocutor, já um tanto enfadado.
—É que não resulta bem algum ás almas de dois christãos de estarem assim no mar por estes sitios ao bater da meia-noite.
—Porque?
O barqueiro olhou com inquietação em torno de si, e depois murmurou em voz baixa que mal se ouvia:
—É por causa da egreja profanada!
O esbelto moço olhou espantado para elle.
Durante a conversação, o pescador desamarrára o barco, e, lançando mão dos remos, déra-lhe um impulso vigoroso. Jà estavam longe da praia, as ondas vinham bater no costado do bote com um murmurio queixoso, que acompanhava o som compassado do bater dos remos na agua.
O pescador tornou a fitar o céo com inquietação, e, sem responder a uma nova pergunta do seu passageiro, curvando-se para diante, metteu os remos nas ondas, e, entezando depois os musculos vigorosos, fez, erguendo-os de novo, espadanar uma cascata de espuma de cada lado do ligeiro bote.
Este, como um corsel generoso, que ao sentir enterrarem se-lhe nos ilhaes as esporas do cavalleiro, se empina primeiro, depois, sacudindo as crinas, desata em vertiginoso galope, e, saltando de um pulo uma onda, que vinha orgulhosa para elle, deslisou por sobre as aguas com incrivel rapidez.
Ainda o passageiro não tivera tempo de repetir a pergunta, quando vibrou o espaço com as lentas pancadas da meia-noite, que soava lá muito ao longe, no sino de uma egreja situada á beira mar.
Produzia um effeito sinistro aquelle som distante. Cada uma das vibrações vinha, em intervallos eguaes, expirar no ouvido dos dois navegantes, e casar-se melancolicamente ao rugir contínuo das vagas.
O barqueiro deixou cair os remos, e bradou: «Jesus, meu Deus!» O mesmo seu amo não se pôde eximir a um inexplicavel receio.
Ambos silenciosos, o barqueiro com os cabellos em pé, o nosso enamorado com vaga curiosidade, e um tal ou qual terror, contaram as lentas pancadas do bronze sagrado.
Parece que aquellas vibrações não eram produzidas pelo simples sino de uma egreja, mas que fôra o anjo das vinganças do Senhor quem fizera vibrar o bronze, e quem lhe dera aquella voz sobrenatural e pavorosa.
Contaram uma... duas... tres... doze. A ultima vibração assemelhava-se a um gemido terno, ao uivo lamentoso do genio da meia-noite, que, abrindo as suas negras azas, annunciasse aos phantasmas o começo do seu imperio.
O barqueiro, que se levantára, caíu de novo no meio do barco e escondeu o rosto entre as mãos; seu amo soltou uma exclamação de espanto.
Um clarão avermelhado tingira subitamente as ondas, como se um incendio começasse a lavrar no fundo do Oceano. As vagas soltaram um gemido plangente, como creanças açoitadas.
E um concerto horrivel, formado por muitas vozes, erguera-se do fundo dos mares; e essas vozes cantavam os psalmos da penitencia.
Mas as palavras, cheias de uncção, e impregnadas de tristeza das sublimes poesias do rei propheta, tomavam uma accentuação ironica, como se passassem pelos labios requeimados dos anjos malditos.
No meio d'essas vozes roucas fez-se ouvir de repente uma voz suave e argentina de mulher, doce como o gemer da brisa nas solidões do Oceano, feiticeira como a voz das seductoras sereias.
Mas aquella mesma doçura tinha um não sei quê de medonho, e n'essas melodias celestiaes reverberava-se o fogo do inferno.
No meio das notas mais ternas, vibrava subitamente uma outra aspera e dissonante, que produzia o effeito que produziria no meio das harmonias da harpa o som do estalar de uma corda.
E essa voz tinha ao mesmo tempo uma profunda tristeza, uma plangente intonação, uma pungente ironia e um não sei quê d'attraente e seductor que fazia pensar na fatalidade.
Os olhos do moço passageiro encheram-se involunta Os olhos do moço passageiro encheram-se involuntariamente de lagrimas, e com os braços estendidos, perdido n'um vago extasi, parecia querer voar nas azas da melodia para o antro sub-marinho, onde se aninhava a infeitiçada sereia.
E a voz cantava:
Co'a vossa santa colera,
raio que fere e brilha,
ao impio que se humilha
não fulmineis, Senhor!
N'este meu seio embebe-se
a vossa frecha ardente,
e a mão omnipotente
me opprime em seu furor.
Da vossa ira o halito
seccou-me membro a membro,
e ai! se então me lembro
do meu longo peccar,
de como olvidei, réprobo,
santos dictames vossos,
oh! sinto até meus ossos
um frémito agitar!
O fardo immenso e horrido
da minha iniquidade,
á voz da Divindade,
a fronte me curvou.
Da minha carne as ulceras
corrompe-as a lembrança
da impia atroz folgança,
que a Deus me arrebatou.
Era triste, profundamente triste a voz, que assim cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo pouco a pouco até desfallecer quasi de todo no ultimo verso, mas então a voz vibrava de novo com aspere Era triste, profundamente triste a voz, que assim cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo pouco a pouco até desfallecer quasi de todo no ultimo verso, mas então a voz vibrava de novo com aspereza, e era quasi uma gargalhada infernal, de desafio ao Eterno, o grito ironico com que voltava a cantar os seguintes versos:
Co'a vossa santa colera,
raio que fere e brilha,
ao impio que se humilha
não fulmineis, Senhor!
N'este momento rasgaram-se as ondas, como se um novo Moysés lhes tocasse com a varinha magica. Entremostraram-se aos olhos do espantado moço as profundidades do mar. Foi isso rapido como um relampago, mas deu-lhe tempo sufficiente para vêr o interior de uma egreja gothica esplendidamente illuminada com uma immensa profusão de cirios. Uma longa fileira de guerreiros da edade média cercava os altares, mas no meio da nave campeiava, coisa estranha! a meza de uma orgia, e as taças de oiro, cheias de vinho espumoso, ostentavam-se em cima da toalha. Uma mulher formosa como os anjos, mas tendo na fronte pallida não sei que inexprimivel sêllo da maldição divina, ergueu-se, como se fosse sustentada por azas invisiveis, até á superficie dos mares. Cerrou-se de novo o abysmo, e as ondas purpureadas pelo reflexo dos cirios estenderam por cima d'essa mysteriosa egreja o seu liquido docel.
E o vulto feminino, com as vestes alvejantes ondeando por cima das vagas, e roçando a fimbria na orla da espuma, que o clarão vermelho fazia espuma de sangue, com a corôa da orgia ainda na fronte, encaminhou-se lentamente para o sitio onde o barco parára, porque o pescador ainda não ousára nem sequer levantar-se.
O phantasma deslisava por cima das ondas, como se invisivel mão o impellisse; já estava proximo do bote, e os seus olhos negros, onde scintillava uma chamma infernal, exerciam uma incrivel fascinação no nosso heroe. Afinal parou, e os seus braços estenderam-se vagarosamente para elle, a fronte pallida tombou-lhe para o hombro, como lyrio pendido pelo tufão. Ignota languidez suavisou-lhe o fogo do olhar. As tranças negras desprenderam-se-lhe e fluctuaram-lhe nas espaduas. Os labios descerraram-se, e a sua voz doce e melodiosa suspirou, como um triste queixume os versos: