A Lenda da Meia-Noite

Manuel Pinheiro Chagas · Capítulo 7 de 46

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A Lenda da Meia-Noite

Capítulo VI

E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo nas ruas solitarias.

Quando ali chegámos, a desconhecida entrou resolutamente na travessa, e eu parei. Sentia o coração palpitar-me com violencia, e... tive medo, confesso o.

Era tão extraordinario o que me estava succedendo, que este sentimento, devem confessal-o, era um pouco desculpavel.

Comtudo venci a timidez passageira, e entrei resolutamente n'essa rua tão deserta.

Quando a minha desconhecida chegou ao pé de uma casa isolada no meio da travessa, parou, voltou-se para mim, e bradou com uma voz melodiosissima:

—Ámanhã á meia-noite, debaixo d'esta janella.

Eu estaquei attonito de surpreza.

 

VI

 

Descrever-lhes a lucta que se travou no meu espirito, quando voltando para casa me fui sentar á mesa de trabalho, e comecei a reflectir fria e pausadamente na aventura nocturna, seria contar-lhes a historia longa e fastidiosa do combate da rasão com as minhas tendencias para o sobrenatural.

Dir-lhes-hei, resumindo, que sem attender a outra coisa que não fosse a seducção inexplicavel, que me attraía para esse ente incomprehensivel, fui no dia seguinte á meia-noite ao rendez-vous aprazado.

Soava não sei em que relogio a ultima badalada da meia-noite, quando se abriu a janella, e appareceu ante os meus olhos deslumbrados o formoso rosto da gentil desconhecida.

Balbuciei phrases sem sentido, mas a lingua pegou-se-me ao céo da bocca, e não pude dizer uma palavra que se entendesse.

—Porque me seguiu hontem? perguntou ella com uma voz melodiosa e triste, como o gemer da brisa nos cyprestes.

—Porque a amo.

—Sabe quem eu sou?

—Que me importa! Quem vae perguntar ao anjo que nos afaga em sonho o nome com que o distinguem nas phalanges celestiaes?

—E ama-me?

—Mais do que a vida!

—Só?!

Que poder incrivel tinha aquella mulher sobre mim? Não sei; sei que lhe respondi com o olhar inflammado:

—Mais do que Deus!

—Não estranha o mysterio em que me envolvo?

—Não sei. Este amor é uma paixão fatal. Virgem ou devassa, candida ou profanada, anjo ou demonio, amo-a cegamente, sem me importar com o passado nem com o futuro, desejando só ter o presente meu, só meu. Este amor é para mim um vinho que embriaga, e se no fundo da taça encontrar veneno, que importa? morrerei abençoando as horas da embriaguez. Isto é uma loucura, bem sei, mas se podesse conhecer a atonia moral em que o meu espirito tem existido! Se soubesse como eu anhelo por estas commoções extraordinarias, que devoram n'um minuto a existencia de um homem! Já vê quão pouco exigente eu sou; não me negue um raio d'essa aureola d'amor que lhe circunda a fronte. Essa luz tenuissima transformal-a-hei em chamma esplendida, que ha de illuminar as trevas do meu viver prosaico.