A Lenda da Meia-Noite

Manuel Pinheiro Chagas · Capítulo 8 de 46

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A Lenda da Meia-Noite

Capítulo VII

—Acceito o seu amor, se essas palavras não o exageram. Não queira penetrar no mysterio que me envolve. Quando fôr necessario, eu mesma o rasgarei, e confie em mim, ha de encontrar-me digna do seu amor. Entretanto creia e espere. Adeus.

—Já?

—Não me posso demorar nem um minuto.

—Oh! mas diga-me uma palavra consoladora. Este amor immenso não encontrou echo no seu coração?

—Amo-o.

—Mas com um amor semelhante ao meu, inebriante, immenso?

—Immenso... como a eternidade.

E fechou a janella, deixando-me ficar extatico e cada vez mais espantado da estranheza dos seus modos.

 

VII

Assim continuou todas as noites aquelle amor excentrico. Todas as noites eu tomava a firme resolução de não tornar lá, e sempre as badaladas da meia-noite me surprehendiam na travessa do Moreira, por baixo da janella fatal.

No tempo em que me succedeu esta aventura, tratavam meus paes do meu casamento com uma menina rica, que não desgostava de mim, e por quem eu, não sentindo amor, não sentia tambem antipathia.

Era ella uma menina capaz de inspirar uma affeição fraternal, mas nunca uma paixão a um espirito arrebatado como este meu.

Era bonita, mas um typo vulgar, horrivelmente vulgar. A pobre menina não tinha culpa d'isso. Demais a mais era o que se podia chamar um acerto: dote soffrivel, excellentes qualidades de mulher e de dona de casa.

Creio que juntava a isso tudo o fazer marmelada perfeitamente. Não sendo muito guloso, não era eu o mais proprio para poder apreciar dignamente esta prenda, que a distinguia.

Nunca mais appareci em casa d'ella, desde a noite de S. Carlos. Um

dia passei occasionalmente por lá, e vi-a com os olhos vermelhos de chorar. Comprimentei-a, ella correspondeu me tristemente, e retirou-se da janella.

—Ora adeus, disse eu comigo mesmo, foi deitar assucar nos marmelos. Talvez ali esteja um coração! accrescentei eu no monologo mental. Não creio, continuei, o coração desarranja as cassarolas, e incommoda-a no varrer da casa.

Foram estas idéas falsas que me perderam, meus senhores; idéas d'um espirito extravagante que procurou sempre em regiões inaccessiveis a felicidade, que nunca pude encontrar, e que talvez caminhasse ao meu lado sem eu dar por isso.