A Lenda da Meia-Noite

Manuel Pinheiro Chagas · Capítulo 20 de 46

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A Lenda da Meia-Noite

Capítulo III

De repente senti aos meus ouvidos uma voz ligeira como um murmurio, que me fallava n'uma linguagem desconhecida, mas que eu, por uma intuição inexplicavel, comprehendi immediatamente.

Voltei-me, e com grande pasmo, vi a bolsa verde em cima da meza.

Era ella quem me fallava.

—Amigo, dizia-me a velha bolsa, tu valeste-me n'uma grande afflicção, e é justo que tenhas a recompensa. Queres escrever? A tua imaginação preguiçosa, enervada pelos effluvios d'esta noite de primavera, recusa-se a dictar-te o que deves lançar no papel? Eu substituirei a tua imaginação. Pega na penna, e escreve o seguinte no alto d'essa pagina branca: «Memorias d'uma bolsa verde.»

Eu, estupefacto, obedeci machinalmente, e ahi vão vêr os meus leitores o que a pobre bolsa velha me dictou. Desculpem os erros do auctor. Não ha nada que se pareça menos com um litterato do que uma bolsa. A rasão é muito simples. A bolsa tem muitas vezes dinheiro, e um escriptor... Vamos ao assumpto.

 

III

 

«Gira, gira, agulha ligeira, impellida por mão tão delicada. Cinge a fragil seda em suave abraço, enlaça os tenues fios uns aos outros, e prepara esse corpinho gentil, a quem ha de o amor dar vida.

«O amor, sim. Não vês a loira cabecinha do anjo de meigo sorriso, debruçando-se por cima do hombro da tua formosa dona, a contemplar curiosamente os teus rapidos movimentos?

«Gira, gira, os instantes são preciosos, e póde subitamente chegar quem transtorne a surpreza tão cuidadosamente preparada! Gira, gira sem cessar, agulha, agulha subtil.

«Que suave serenidade transparece no limpido olhar d'aquella cuja mão febril te dirige! Quando um sorriso anima a graciosa physionomia, contempla-se com enlêvo o céo azul que lhe ri nos olhos, e as perolas, que os labios entre-mostram! A quem fôr perspicaz tambem esse sorriso mostra a alma, que é mais celestial do que o olhar, mais candida do que as perolas da boquinha.

«Mas a esse limpido firmamento doira-o agora o sol de um affecto suave, cujo brilho não é offuscado por nenhuma nuvem. Os seus raios aquecem-lhe o coração, e alegram-lhe ao mesmo tempo todos os horisontes da vida.

«Porque vem misturar-se, comtudo, uma inquietação febril com o sentimento de felicidade que lhe anima as feições? Oh! não receieis nada! Essa mesma inquietação é um prazer. Teme não ter completo o presente que desejava offerecer a seu marido, que fazia annos n'esse dia.

«E por isso a agulha girava, girava com impetuosidade, e os fios de seda agrupavam-se com uma ligeireza inconcebivel!

«Está a concluir-se a tarefa. A agulha approxima-se do sitio marcado. Um mate, um mate risonho lá surge no horisonte. Apressa-te, agulha, faze prodigios de celeridade. Emfim!

«Dera-se o mate. As doiradas borlas pregaram-se instantaneamente. Eil-o, o gentil producto de oito dias de trabalho! A formosa senhora contempla-o com ternura. O amor sacode o regaço cheio de perolas, e em cada ponto faz pullular mil pensamentos apaixonados.

«O ente, que nascera, era nem mais nem menos do que esta humilde bolsa verde que lhe está dictando essas linhas, senhor mandrião.