A Lenda da Meia-Noite

Manuel Pinheiro Chagas · Capítulo 40 de 46

Páginas do PDF

A Lenda da Meia-Noite

Capítulo IV

Ora um dia, ou antes uma noite, o duende chamou Patricio e disse-lhe com modo benevolo:

—Meu amigo, determinei casar. Estou a fazer mil annos, e parece-me que é tempo de tomar estado e familia. Escolhi para minha noiva a formosa Jenny, e vamos esta noite buscal-a.

Patricio bem desejaria responder que os olhos azues, as tranças loiras, a rosea bocca e as faces nevadas da formosa Jenny não deviam ser para um velhote como elle, e que um noivo de mil annos, a querer tomar estado, devia escolher uma centenaria, e não uma rapariga na flôr dos seus vinte annos, e que, além d'isso, rasão de todas a mais forte, Jenny casára n'esse mesmo dia, e n'esse instante devia-se estar celebrando a boda em casa do noivo. Mas Patricio bem sabía que o duende não gostava de reflexões, e portanto, sem tugir nem mugir, montou a cavallo n'uma folha de couve, que era o corcel de gala, e seguiu seu amo pelos ares fóra.

 

IV

 

Tudo era festa e riso em casa de Jenny. Brindes sem conta soavam a cada instante, as violas desprendiam os seus alegres epithalamios, e a meza, servida á farta, ostentava-se com a alvissima toalha no meio da casa.

A noiva era realmente galante a mais não poder ser. Nos olhos tão azues e tão meigos parecia que se refugiára a côr do céo, expellida do firmamento pelas nuvens, e com a côr do céo a doçura dos anjos.

Os cabellos tinham o colorido das espigas de trigo; na bocca pequenina esvoaçava um sorriso de amor, como borboleta em rosa. As faces eram tão brancas, tão brancas, que desmaiaria junto d'ellas a neve das montanhas de Erin; mas n'esse momento incendia-as o prazer e tingiam-se de reflexos roseos, como a nivea toalha dos pincaros, quando o sol a illumina ao descair no occaso.

O noivo era um rapaz esbelto e varonilmente formoso. O olhar ardente com que, para assim dizermos, enlaçava Jenny, mostrava o immenso amor que lhe tinha; a meiguice dos raios de luz, que emanavam dos olhos da gentil irlandeza, revelava que a voz d'esse amor encontrára um echo no coração da formosa que o duende cubiçava para noiva.

Os convivas agrupavam-se em torno da meza, e no logar de honra, campeava o gordo padre prior, que fazia frente a um magnifico prato de cabeça de porco, flanqueada de feijões, que lhe levava os olhos, como a formosa physionomia de Jenny enlevava o enamorado esposo.

O duende e o seu criado entraram sem ninguem dar por elles, e foram sentar-se commodamente n'uma das traves do tecto. Os cavallos haviam ficado no telhado fóra do alcance das outras cavalgaduras, que seriam muito capazes de as devorar, sem respeitarem por fórma alguma a confraternidade que as pobres folhas de couve allegariam.

Empoleirado alli assim, Patricio estava talvez um tanto incommodado, principalmente porque lhe chegava o cheiro dos bons manjares que ufanos campeavam em cima da meza, e o seu estomago segredava-lhe que seria muito melhor fartal-o a elle do que fartar os olhos com as saborosas iguarias.

Mas o bom irlandez bem sabia que o seu duende nunca lhe consentiria mostrar-se, e, portanto, consolava-se pensando que talvez a ceia das bodas do seu amo fosse ainda melhor do que essa que o estava namorando.

Depois relanceou os olhos para a noiva, e em seguida para o seu companheiro da trave, e pensou que era realmente uma barbaridade ligar assim tão donosa primavera a tão encarquilhado inverno.

N'isto a noiva espirrou.

Um espirro não é coisa que envergonhe ninguem, mas o espirro de Jenny fez tanta bulha, que a pobre menina corou muito, sentindo que todas as vistas se haviam voltado para ella.

Excepto, ainda assim, as do padre prior; o anafado sacerdote empunhava o garfo e a faca, e com os olhos cravados na cabeça de porco, a nada mais dava attenção.

Era natural, meus meninos, que dissessem á formosa Jenny o consagrado Dominus tecum; ninguem, effectivamente, queria faltar a esse dever; mas a cortezia ordenava que se deixasse o padre prior tomar a iniciativa, e, por conseguinte, todos esperaram.

O padre prior tomava n'esse instante a iniciativa, mas era de se deitar á cabeça de porco; cravou o garfo destramente, vibrou com certeza rara a faca a um bom tassalho, e transportou-o do prato geral para o seu prato particular.

Terminada essa difficil operação, o padre prior poisou as armas triumphantes ao lado do prato, travou gravemente da colhér, e, em tres ou quatro viagens, fez mudar de gasalhado, e erigiu, em enorme acervo, uma respeitavel quantidade de feijões.

Ninguem ousou advertil-o do seu esquecimento, e, depois d'esse

pequeno incidente, a festa continuou com o mesmo estrondo e enthusiasmo.

A bulha dos queixos do padre prior superava o tumultuoso acompanhamento.

Mas o duende é que dava pulos de contente na trave, e dizia a Patricio:

—Se ella dá mais dois espirros e ninguem lhe diz Dominus tecum, é minha; foi isso o que Satanaz me prometteu.

O pobre Patricio enfiou; decididamente, o nosso irlandez tinha boa alma: se não fosse a tal avareza...

Emfim, ninguem póde ser perfeito.

D'ahi a instantes Jenny espirrou de novo, mas a pobre menina ficára tão envergonhada da primeira vez, que o segundo espirro comprimiu-o por tal fórma, que ninguem o ouviu, nem mesmo o seu noivo, que se via obrigado n'esse instante a escutar uma enorme dissertação de seu sogro sobre o cultivo da batata.

O padre prior comia.

Por conseguinte, ainda d'essa vez passou o espirro sem o competente Dominus tecum.

O duende pulava, dava cabriolas, fazia bulha tal, em fim, que por mais de uma vez um ou outro conviva olhou para o tecto, mas, não vendo coisa alguma, julgou que seriam ratos e continuou a divertir-se.

Patricio scismava; era realmente uma dôr d'alma vêr tão gentil menina cair em poder d'aquelle espirito malicioso; pensava que talvez a podesse salvar, mas lembrava-se das iras de seu amo, que podiam cair sobre elle, e abanava a cabeça deixando-se ficar mudo e quêdo.

Finalmente, soou o terceiro espirro da menina, ainda mais comprimido que os dois primeiros.