A Lenda da Meia-Noite

Manuel Pinheiro Chagas · Capítulo 26 de 46

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A Lenda da Meia-Noite

Capítulo IX

«Era um bello espectaculo o d'esse rapazito rôto, esfarrapado, mais feliz no seu throno de cortiça do que os reis no seu throno de oiro, comendo as laranjas do proximo com mais satisfação, de certo, do que a que sente o czar da Russia ao devorar o producto dos roubos de que é victima a infeliz Polonia.

«Mas por fim de contas vinha a ser eu quem soffria as más consequencias dos prazeres do meu senhor. Para poder comer á sua vontade, o meu amigo largava-me e pendurava-me no primeiro ramo que lhe ficava á mão. O vento baloiçava o ramo; ás vezes um gatinho, que andava passeiando por cima dos muros, vendo-me ondular na extremidade, saltava e principiava a brincar comigo. A isto reunia-se o susto de me vêr n'uma altura para mim desmesurada. Era necessario que os latidos de um cão de guarda viessem inquietar o meu dono, para que elle se lembrasse de me tirar da minha incommoda posição, afim de operar a sua retirada.

Já vê, por conseguinte, que a minha existencia aventurosa, se tinha as suas vantagens, tinha tambem os seus inconvenientes.

 

IX

«O meu possuidor reconhecera, desde o primeiro momento, que eu não estava vasia, mas ainda se não dera ao trabalho de verificar a quanto montava a sua nova riqueza. Finalmente, depois de estar saciado de laranjas, cançado de trepar ás arvores, entendeu que era já tempo de attender aos negocios do thesouro. Sentou-se por conseguinte n'uma pedra da estrada, abriu-me com toda a gravidade, e tirou de dentro triumphalmente a moeda de cinco tostões.

—«Olá! um caiado!—bradou elle com alegria, e para demonstrar melhor o seu regosijo entoou a aria da Saloia, e atirou comigo ao ar a uma distancia immensa, com grande desespero meu, porque vim assustadissima, aos trambolhões pelo espaço, cair na mão aberta do garoto.

«Este não ficou em contemplação diante do seu thesouro; metteu o outra vez no sitio em que estava, levantou-se, e continuou o seu caminho, cantando com uma voz de Stentor, atirando comigo ao ar, e tomando, para me receber, attitudes de tambor-mór.

«A estrada, que se ia approximando da cidade, ia sendo tambem mais frequentada. Os caminhantes multiplicavam-se, e as casas começavam a apparecer. Nem por isso o gaiato deixou de cantar a Saloia a plenos pulmões, com grande escandalo das velhas sentadas nos degraus das portas, que acompanhavam cada estrophe da aria popular com um desafinadissimo côro de imprecações.

—«Valdevinos!—Bregeiro!—Gaiato sem emenda!—D'onde vens tu, maroto?—Ah! boa sova!—Fosse eu tua mãe que te havia de moer o corpo com pancadas!—Só se perdiam as que caissem no chão!— D'onde vens tu, desavergonhado, vens de roubar laranjas?—Tu vaes direitinho para o inferno!—Berzabum te valha, démo pequeno! —O descarado vem a cantar para quebrar a cabeça ás almas christãs!—Quem te puzesse uma farda ás costas!