A Montanha Mágica
Hans Castorp sonhava, os olhos fitos no…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“belos caracteres”. Settembrini perguntou se os primos já tinham ouvido falar de Brunetto, Brunetto Latini, escrivão municipal de Florença, por volta de 1250, e autor de um livro sobre as virtudes e os vícios. Esse mestre fora o primeiro a esmerilar a cultura dos florentinos e a ensinar-lhes a oratória bem como a arte de dirigir a sua república conforme as regras da política. – Aí está, meus senhores! – exclamou Settembrini. – Aí está! – E passou a falar do “verbo”, do culto do verbo, da eloqüência, que qualificou de humanidade. Pois o verbo era a honra dos homens, e só ele tornava a vida digna de seres humanos. Não somente o humanismo, mas também a humanidade em geral, toda dignidade humana, todo respeito pelos homens e toda estima que eles sentiam de si próprios, eram inseparáveis do verbo, e por conseguinte, da literatura... (– Está vendo? – disse Hans Castorp mais tarde ao primo. – Está vendo que na literatura o que importa são as belas palavras? Eu percebi logo...) – E dessa forma, prosseguiu o italiano, achava-se também a política ligada à literatura, ou melhor, tinha a sua origem na aliança, na fusão de humanidade e literatura, já que a bela palavra gerava a bela ação. Faz dois séculos, disse Settembrini, vivia no país dos senhores um velho poeta, um excelente conservador, que atribuía suma importância à beleza da caligrafia, porque, segundo a sua opinião, esta conduzia à beleza do estilo. Devia ter ido um pouco mais longe e dizer que um belo estilo conduz a belas ações. Pois escrever bem já era quase pensar bem, e daí a agir bem não havia muita distância. Toda moralidade e todo aperfeiçoamento moral derivava do espírito da literatura, desse pundonor humano que era ao mesmo tempo o espírito da humanidade e da política. Sim, tudo isso era uno e indivisível, era uma e a mesma força e idéia, e podia ser resumido num único termo. Qual era
esse termo? Ora, ele se compunha de sílabas familiares cujo significado e cuja majestade os primos, sem dúvida, nunca haviam compreendido. Seu nome era: civilização! E ao pronunciar essa palavra, Settembrini ergueu a amarelada mãozinha direita como quem faz um brinde.
O jovem Hans Castorp achava tudo isso digno de ser escutado -sem compromisso e a título de experiência apenas, mas em todo caso digno de atenção. Foi nesse sentido que falou com Joachim Ziemssen, o qual, porém, por andar com o termômetro na boca, não podia responder senão indistintamente, e que a seguir se mostrou por demais ocupado em decifrar os graus e inscrevê-los na papeleta, para que pudesse formular uma opinião acerca dos pontos de vista de Settembrini. Hans Castorp, porém, inteirava-se, cheio de boa vontade, dessas opiniões e abria-lhes o seu íntimo, a fim de estudá-las; o que deixa ver quanta vantagem leva o homem acordado sobre o homem que dorme estupidamente – pois, nos seus sonhos, já acontecera diversas vezes a Hans Castorp tratar o Sr. Settembrini, à queima-roupa, de tocador de realejo, e procurar empurrá-lo com toda a força, porque “era demais ali”. Mas, como homem acordado, ouvia-o atenta e cortesmente e esforçava-se com muita imparcialidade por suavizar e diminuir a oposição que nele desejava levantar-se contra as idéias e as exposições do seu mentor. Não se pode negar que tal oposição existia na sua alma; baseava-se em resistências antigas que sempre haviam operado ali e também em outras, resultantes da situação presente, das experiências ora indiretas ora secretas que Hans Castorp fazia ali em cima.
Que é o homem, e com quanta facilidade pode ser ludibriada a sua consciência! Como é perito na arte de perceber na própria voz do dever a licença para se entregar à paixão! Era por um senso de dever, por eqüidade, pela necessidade de um contrapeso, que Hans Castorp escutava os discursos do Sr. Settembrini, examinando, com muita complacência, as suas considerações quanto à razão, à república e à beleza do estilo, e dispondo-se a deixar-se influenciar por elas.
Tanto mais lícito lhe parecia depois dar livre curso aos seus pensamentos e aos seus sonhos, a fim de que rumassem numa direção diferente e até oposta – e para formularmos desde já o resultado total do que suspeitamos ou adivinhamos, seja dito que escutava o Sr. Settembrini com a finalidade exclusiva de obter da sua consciência plenos poderes que esta primitivamente não lhe quisera outorgar. Mas, o que ou quem é que se encontrava do lado oposto ao patriotismo, à dignidade humana e às belas-letras, desse lado onde Hans Castorp pensava ter reconquistado o direito de dirigir seus pensamentos e seus atos? Ali se achava Clávdia Chauchat, indolente, carcomida, com seus olhos de quirguiz, e enquanto Hans refletia sobre ela – a palavra “refletir” é, aliás, muito mansa para expressar o modo como, no seu íntimo, se ocupava com ela –, era novamente como se andasse de barca por aquele lago de Holstein e dirigisse os olhos deslumbrados e confundidos pela luminosidade vítrea da margem ocidental, para a noite de luar, entremeada de brumas, dos céus do Oriente.
O termômetro
A semana de Hans Castorp ia de terça a terça-feira, visto ele ter chegado numa terça-feira.
Já fazia alguns dias que liquidara a conta da segunda semana – com a importância modesta de uns cento e sessenta francos, razoável e justificada segundo a sua própria opinião, mesmo que deixassem de ser consideradas as vantagens impagáveis da estadia ali, justamente por ser impossível pagar por elas, e embora figurassem nela certos suplementos que poderiam ser faturados, se assim o quisessem, como, por exemplo, o concerto bimensal e as conferências do Dr. Krokowski. O total de cento e sessenta francos referia-se exclusivamente à pensão propriamente dita, ao que oferecia o hotel como tal, à hospedagem confortável e às cinco refeições reforçadíssimas.
– Não é caro, não; é até barato, e você não pode se queixar de ser explorado aqui em cima
– disse o visitante ao morador antigo. – Você gasta, em média, uns seiscentos e cinqüenta francos por mês com o quarto e a comida, e nisso já está incluído o tratamento médico. Muito bem!
Admitamos que você gaste ainda uns trinta francos por mês em gorjetas, porque quer mostrar-se
generoso e faz questão de ver em toda parte caras sorridentes. Temos então seiscentos e oitenta francos. Você vai me dizer que existem ainda extras e despesas por fora. Vai-se algum dinheiro para bebidas, para cosméticos e charutos; de vez em quando se faz uma excursão, um passeio de carro, e um dia vem a conta do alfaiate ou do sapateiro. Perfeitamente! Mas com tudo isso, você não consegue, nem querendo, ir além de mil francos por mês. Não são nem sequer oitocentos! O
total não chega a dez mil francos por ano. Disso não passa. É o que você gasta...
– Grau dez em cálculo mental – disse Joachim. – Eu nem sabia que você era tão forte nisso. E acho mesmo generoso da sua parte fazer logo a conta do ano inteiro. Mas você exagerou a despesa. Eu não fumo charutos e não tenciono chegar à situação de precisar de roupas novas aqui; não, senhor!
– Bem, então é ainda menos – disse Hans Castorp um tanto confuso. Mas, fossem quais fossem os motivos que o haviam induzido a incluir na conta do primo charutos e roupas novas, a rapidez do seu cálculo mental não passava de uma ilusão, e Joachim se enganara a respeito dos dons naturais do primo. Pois, nesse terreno como em todos os outros, Hans Castorp era antes lerdo e pouco inspirado. No caso em apreço, não se tratava de uma improvisação, realizada com tamanha facilidade, senão do produto de um trabalho executado por escrito: uma noite, durante o repouso – pois também ele acabara por deitar-se depois do jantar, já que todo mundo o fazia –, levantara-se especialmente da sua magnífica espreguiçadeira e, obedecendo a um súbito impulso, fora ao quarto buscar papel e um lápis para calcular. Dessa forma verificara que seu primo – ou melhor, que um pensionista do sanatório – precisava, tudo incluído, de uns doze mil francos por ano, e convencera-se, assim por brincadeira, de que ele próprio estava financeiramente mais do que à altura das despesas exigidas ali em cima, uma vez que dispunha de dezoito a dezenove mil francos por ano.
Sua segunda conta semanal fora, portanto, liquidada havia três dias, e ele recebera o devido recibo e agradecimento. Significava isso que Hans Castorp alcançara a metade da terceira e, segundo os seus planos, da última semana da sua estadia. No domingo próximo assistiria a mais um dos concertos quinzenais; na segunda-feira escutaria outra das conferências igualmente bimensais do Dr. Krokowski – assim disse de si para si e também o declarou a Joachim. Mas na terça ou quarta-feira partiria e deixaria o primo sozinho, o pobre do Joachim, a cuja pena Radamanto voltara a acrescentar sabe Deus quantos meses, e cujos olhos meigos e negros se cobriam de um véu melancólico, cada vez que se falava da partida iminente de Hans Castorp.
Cruzes! Como tinham corrido essas férias! Haviam voado, fugido, evaporado – não se podia dizer como. Eram, afinal de contas, vinte e um dias que os dois primos deviam passar em companhia um do outro, uma longa série cujo fim, no início, parecia muito distante. E agora, de repente, não sobravam mais que três ou quatro míseros dias, um resto insignificante, que, na verdade, se tornava um pouco mais importante pelas duas variantes periódicas do programa habitual, mas sobre o qual já pesava o pressentimento da arrumação das malas e da despedida. Três semanas não representavam quase nada ali em cima – todos o haviam prevenido desse fato. A menor unidade de tempo era ali o mês – dissera Settembrini, e como a estadia de Hans Castorp no Berghof não chegasse a tanto, era uma permanência de nada; não passava de uma visita de médico, como a qualificara o Dr. Behrens. Talvez fosse devido ao aumento da combustão geral que o tempo corria ali tão vertiginosamente? Tal rapidez de vida podia, afinal, servir de consolo a Joachim, quando ele pensava nos cinco meses que tinha à sua frente, contando que não houvesse mais do que isso. Mas, durante essas três semanas deveria ter prestado maior atenção ao curso do tempo, assim como se fazia ao tomar-se a temperatura, quando os sete minutos regulamentares se convertiam num lapso de tempo considerável... Hans Castorp sentia sincera compaixão pelo primo, em cujos olhos se podia ler a mágoa de perder em breve o companheiro; com efeito, experimentava a mais viva compaixão, pensando em que o coitado permaneceria dali por diante sem ele, que tornaria a viver na planície e trabalharia a serviço da técnica das comunicações que ligavam os países. Era uma compaixão tão ardente que em certos momentos lhe doía o coração, e tão viva que às vezes o fazia perguntar seriamente a si mesmo se teria a coragem de deixar
Joachim sozinho ali em cima. E justamente por ser esse sentimento tão ardente, Hans Castorp evitava o mais possível falar da sua partida. Era Joachim quem de vez em quando dirigia a conversa para ela, pois Hans Castorp, como já acabamos de dizer, pareceu, por tato e delicadeza naturais, esquivar-se a esse assunto até o último instante.
– Tomara – disse Joachim – que você ao menos tenha descansado aqui, e que lá embaixo se sinta mais forte.
– Sim, vou dar lembranças a todo mundo – respondeu Hans Castorp – e dizer que você voltará daqui a cinco meses, o mais tardar. Você disse “descansado”? Se eu descansei bem nestes poucos dias? Acho que sim. Creio que mesmo um tempo tão curto deve fazer bem à gente. É
verdade que as impressões que recebi aqui foram muito estranhas, estranhas sob todos os pontos de vista, e assim lhes devo grande número de idéias novas; mas também foram fatigantes, tanto para o corpo como para o espírito. Não me parece que já digeri tudo isso e que me aclimatei, o que seria a base de todo descanso. O Maria, graças a Deus, voltou a ter o mesmo sabor de antes.
Faz alguns dias que gosto dele novamente. Mas acontece ainda às vezes, quando me assôo, que meu lenço se tinja de vermelho, e este maldito ardor do rosto junto com aquelas absurdas palpitações não me abandonarão, ao que penso, até o fim da minha estadia. Não, senhor! Não se pode falar, no meu caso, de aclimatação. E nem é possível com tão pouco tempo! Seria preciso uma permanência mais longa para a gente se adaptar e assimilar as impressões novas, antes que se possa começar com o descanso e o tal acúmulo de proteínas. É uma lástima! Digo “lástima”, porque certamente foi um erro da minha parte não ter reservado mais tempo para esta viagem, porque era fácil consegui-lo. Assim me parece que lá em casa, na planície, terei antes de mais nada de descansar deste descanso. Vou dormir três semanas a fio, tão esgotado estou. E
infelizmente tenho ainda este catarro...
Com efeito, Hans Castorp parecia fadado a regressar à planície com um resfriado de primeira classe. Constipara-se, provavelmente durante o repouso, e para fazermos uma segunda conjetura, durante o repouso noturno, do qual participava havia uma semana, apesar do tempo frio e úmido, que não dava mostras de melhorar antes da sua partida. Mas ficara sabendo que esse tempo não era considerado mau. O conceito de mau tempo não existia, propriamente, ali em cima; não se temia tempo nenhum; mal se preocupavam com a sua qualidade; e com a docilidade elástica peculiar à juventude, com toda a sua facilidade de adaptação às idéias e aos hábitos do ambiente ao qual se achava transferido, Hans Castorp pusera-se a imitar essa indiferença. Quando chovia a cântaros, não se devia pensar que por isso o ar fosse menos seco. E não parecia mesmo sê-lo, pois a gente continuava a ter a cabeça em brasa, como se se achasse numa peça superaquecida ou tivesse tomado muito vinho. No que se refere ao frio, que era forte, teria sido insensato refugiar-se no quarto para escapar dele. Enquanto não nevasse, não se acendia a calefação central, e sentar-se no quarto não era mais confortável do que ficar deitado no compartimento da sacada, agasalhado com um sobretudo de inverno e envolto, conforme as regras, em dois bons cobertores de pêlo de camelo. Bem ao contrário, essa última posição era infinitamente mais cômoda; era, nem mais nem menos, a posição mais prazenteira que Hans Castorp se recordava já ter experimentado – opinião que não mudaria pelo fato de um literato e carbonário a qualificar, com uma segunda intenção equívoca e maliciosa, de posição “horizontal”.
Principalmente à noite, ela lhe agradava muito, quando a lampadazinha acesa luzia na mesinha a seu lado, e Hans Castorp, bem embrulhado nos cobertores cálidos, tendo entre os dentes o Maria Mancini, de sabor reencontrado, entregava-se ao gozo das vantagens dificilmente definíveis que oferecia esse tipo de cadeira; gozava-as, embora com a ponta do nariz gelada e as mãos que seguravam um livro – ainda o Ocean steamships – rígidas e avermelhadas pelo frio, olhando através dos arcos da loggia para o vale cada vez mais escuro, com as luzes ora dispersas ora aglomeradas, e escutando a música que dali vinha quase todas as noites durante uma hora, sons agradavelmente abafados, familiares e melodiosos: fragmentos de óperas – trechos de Carmen, do Trovador, do Freischütz –, valsas ligeiras, marchas que faziam com que a gente marcasse o ritmo com a cabeça, e alegres mazurcas. Mazurca? Em realidade ela se chamava Marusja, a mocinha com o pequeno
rubi, e no compartimento vizinho, atrás da espessa parede de vidro opaco, jazia Joachim. De vez em quando, Hans Castorp trocava com ele algumas palavras em voz baixa, procurando não incomodar os outros “horizontais”. No seu compartimento, Joachim achava-se tão bem instalado quanto Hans Castorp, se bem que não entendesse de música e não soubesse achar prazer nos concertos noturnos. Tanto pior para ele! Em vez disso, lia provavelmente a sua gramática russa.
Hans Castorp, porém, deixava o Ocean steamships descansar sobre o cobertor e saboreava com sincera simpatia os sons da música, sondando completamente a profundeza translúcida do seu feitio e encontrando tão franco deleite em determinada invenção musical cheia de caráter e de graça, que só com hostilidade recordava as coisas que Settembrini dissera a respeito da música, considerações irritantes, no sentido de ser ela politicamente suspeita, e que, realmente, não valiam mais do que o dito do avô Giuseppe sobre a Revolução de Julho e os seis dias do Gênese...
Joachim não participava, portanto, do gozo musical e ignorava também a distração aromática do tabaco. Mas, fora isso, estava no seu compartimento igualmente agasalhado, estendido num abrigo pacato. Terminara o dia, terminara tudo por essa vez, e podia-se ter certeza de que nada mais se produziria, que já não haveria emoções, que mais nenhum esforço se exigiria do músculo cardíaco. Mas ao mesmo tempo não havia dúvida de que no dia seguinte tudo voltaria a repetir-se e recomeçaria, com toda a probabilidade que acarretava essa existência monótona, garantida e regular. E essa dupla segurança era sumamente reconfortante; unida à música e ao sabor ressuscitado do Maria, fazia com que o repouso da noite representasse para Hans Castorp um estado de verdadeira felicidade.
Mas tudo isso não impedira que o visitante e noviço pouco resistente se houvesse gripado violentamente durante o repouso ou em qualquer outra ocasião. Anunciava-se um intenso resfriado, que se instalara na cavidade frontal, comprimindo-a. A úvula estava irritada e dolorida.
O ar não passava normalmente pelo canal que a natureza destinava a esse fim; atravessava-o, frio, com dificuldade, provocando incessantes acessos de tosse. A voz de Hans Castorp adquirira de um dia para outro a tonalidade de um contrabaixo surdo, como que macerado por bebidas fortes.
Segundo ele dizia, não pregara olho durante a noite, porque uma secura sufocante da garganta o sobressaltara de quando em quando.
– É bem desagradável – disse Joachim. – É quase escandaloso. Você deve saber que aqui em cima os resfriados não são permitidos, que se nega a sua existência. Oficialmente, são impossíveis, com esse ar seco, e um paciente que se apresentasse ao Behrens como gripado seria muito mal recebido. Bem, com você o caso é diferente. Você, afinal, pode se permitir uma coisa dessas. Seria bom se conseguíssemos cortar a gripe. Lá na planície há métodos de fazê-lo, mas aqui... Não acho que o seu caso vá despertar grande interesse. É preferível não adoecer aqui, porque ninguém se preocupa com a gente. Isto é uma velha regra que você pode aprender ainda antes de partir. Quando cheguei aqui, havia uma senhora que durante uma semana a fio tapou a orelha com a mão e gemeu de dor. Finalmente, o Behrens foi examiná-la. “A senhora pode ficar completamente tranqüila”, disse ele. “Isso não vem da tuberculose.” E nisso ficou a coisa. Sim, senhor! Temos que dar um jeito. Amanhã falarei com o massagista, quando ele vier ao meu quarto. Com ele começa a via hierárquica, e dali o caso passará pelos canais regulamentares. E, talvez, acabem fazendo qualquer coisa por você.
Assim falou Joachim, e a via hierárquica foi brilhantemente posta à prova. Na sexta-feira, quando Hans Castorp regressou do passeio matinal, bateram à sua porta, e daí resultou uma oportunidade para travar conhecimento pessoal com a enfermeira-chefe, Srta. von Mylendonk, ou Superiora, como a chamavam. Até então, enxergara apenas de longe essa personagem aparentemente muito ocupada; vira-a sair do quarto de um enfermo, para atravessar o corredor e entrar em outro quarto do lado oposto; ou ouvira-lhe a voz coaxante, durante uma das suas rápidas passagens pela sala de refeições. Desta vez, porém, a visita destinava-se a ele próprio.
Atraída pela sua gripe, dera com os ossudos dedos rápidas batidas à porta do aposento. Transpôs o limiar, ainda antes de ele dizer “Entre”, e deteve-se por um instante, para certificar-se do número do quarto.
– Trinta e quatro – coaxou sem abafar a voz. – Está certo. Escute, rapaz, on me dit que vous avez pris froid. I hear you have caught a cold. Wy, cajetsia, prostudilisj – e continuou em alemão: – Ouvi dizer que está resfriado. Qual é a língua que compreende? Ah, já vejo que é alemão. Pois é, a visita do jovem Ziemssen, já sei. Estão esperando por mim na sala de operações, por causa de um indivíduo que será anestesiado e acaba de comer salada de feijão. Quando a gente não tem os olhos em toda parte... Então, rapaz, acha mesmo que se resfriou aqui?
Hans Castorp ficou perplexo ante esse linguajar de uma senhora da alta aristocracia.
Enquanto ela falava, parecia passar por cima das suas próprias palavras, voltando a cabeça de cá para lá, num movimento irrequieto, circular, e erguendo o nariz, como para farejar, assim como fazem as feras na jaula. A mão direita sardenta, apenas cerrada, com o polegar levantado, bamboleava no punho, como para dizer: “Depressa, depressa! Não escute o que eu digo! Fale, afinal, para que eu possa sair”. Era uma quarentona, de reduzida estatura, sem formas atraentes, vestida de jaleco branco, cinturado, de hospital, e trazia sobre o peito uma cruz adornada de granadas. Sob a touca de enfermeira apareciam uns escassos cabelos arruivados; o olhar parecia inseguro, e num dos olhos congestionados, de um azul aquoso, havia um terçol bastante adiantado. O nariz era arrebitado, e a boca tinha algo de sapo, enquanto o lábio inferior avançava obliquamente e fazia, ao falar, um movimento de pá. Hans Castorp, não obstante, contemplou a Srta. von Mylendonk com toda a afabilidade singela, cheia de indulgência e confiança, que lhe era peculiar.
– Que tipo de resfriado é esse? – voltou a enfermeira-chefe a perguntar, esforçando-se por dar a seus olhos uma insistência penetrante, o que no entanto não conseguiu, porque seu olhar se desviava logo. – Não gostamos de resfriados. Resfria-se com freqüência? Seu primo também se resfria a cada instante, não é? Que idade tem o senhor? Vinte e quatro? É uma idade perigosa. Só agora chegou aqui e já se resfriou? Num caso desses não convém falar de resfriado, meu prezado rapaz. Isto é lero-lero lá embaixo. – A palavra “lero-lero” soava horrorosa e extravagante na sua boca, proferida com aquele movimento de pá do lábio inferior. – O senhor tem um belíssimo catarro nas vias respiratórias; isso não se discute, basta ver os seus olhos. – E
de novo ela fez a estranha tentativa de encará-lo com um olhar penetrante, sem que dessa vez tivesse melhor êxito. – Mas catarros não vêm do frio. Eles vêm é de uma infecção para a qual a gente está predisposta. Agora resta apenas saber se se trata ou não de uma infecção inofensiva.
Todo o resto é lero-lero. – Mais uma vez essa palavra repugnante! – É bem possível que no seu caso a predisposição tenha caráter inócuo – acrescentou fitando-o de um modo inexplicável, com o terçol adiantado. – Aqui tenho um simples anti-séptico, pode ser que lhe faça bem. – Com isso tirou da bolsa de couro negro, que lhe pendia do cinturão, um pequeno embrulho que colocou na mesa.
Era Formaminto. – Mas o senhor me parece corado, como se tivesse febre. – Ela não parava de fitá-lo, com um olhar que sempre se afastava do seu alvo. – Já tomou a temperatura?
Hans Castorp disse que não.
– Por que não? – perguntou, e o lábio inferior, avançado obliquamente, permaneceu nessa posição...
Ele não respondeu. O bom Hans Castorp era ainda muito jovem e conservara o hábito do silêncio, próprio dos colegiais que se plantam na carteira, nada sabem e por isso se calam.
– O senhor não toma nunca a sua temperatura?
– Tomo, Srª. Superiora; quando estou com febre, tomo.
– Olhe, meu rapaz, a gente toma a temperatura justamente para ver se tem ou não tem febre. E segundo a sua opinião não está com febre, no momento?
– Não sei, Srª. Superiora. Não tenho certeza. Desde que cheguei aqui já sinto ao mesmo tempo calor e frio.
– Hum, hum! E onde está o seu termômetro?
– Não trouxe nenhum comigo, Srª. Superiora. Para quê? Eu vim aqui apenas de visita.
Estou bem de saúde.
– Lero-lero! O senhor me mandou chamar porque está bem de saúde?
– Não, senhora – riu-se ele cortesmente. – Mas porque estou um pouco...
– ...resfriado. Já vi muito resfriado desses. Aqui, tome! – disse ela e pôs-se novamente a mexer na bolsa. Por fim retirou dois estojos alongados, de couro, um preto e outro vermelho, que colocou igualmente na mesa. – Este custa três francos e este custa cinco. Claro que o senhor fica melhor servido com o de cinco. É para toda a vida, se o manejar com cuidado.
Sorrindo, Hans Castorp tirou da mesa o estojo vermelho.
Abriu-o. Faceiro como uma jóia, jazia o utensílio de vidro na concavidade exatamente adaptada à sua forma e forrada de veludo encarnado. Os graus completos eram marcados com riscas vermelhas, e os décimos, com riscas pretas. Os números eram vermelhos. A parte inferior, que ia se adelgaçando, estava cheia de cintilante mercúrio. A coluna aparecia baixa, marcando uma temperatura muito inferior ao grau normal do calor animal.
Hans Castorp não ignorava o que devia a si mesmo e ao seu prestígio.
– Vou comprar este – disse, sem prestar a mínima atenção ao outro. – O de cinco. Será que lhe posso...
– Feito! – coaxou a enfermeira-chefe. – Não convém fazer economias quando se trata de compras importantes. Não há pressa, que vão pô-lo na conta. Deixe-me vê-lo. Para começar, vamos fazê-lo descer completamente, assim. – Tirou-lhe o termômetro da mão e agitou-o repetidas vezes no ar, fazendo com que a coluna de mercúrio parasse abaixo de 35. – Já vai subir, o mercúrio, já vai subir – acrescentou. – E agora tome a sua aquisição. Sem dúvida já sabe como se procede aqui. Debaixo da sua prezada língua, durante sete minutos, quatro vezes por dia, e mantenha bem fechadinhos os seus simpáticos lábios. Adeusinho, meu rapaz. Desejo-lhe um bom resultado. – E saiu do quarto.
Hans Castorp, que fizera uma mesura, quedava-se junto à mesinha, e seu olhar passava da porta pela qual saíra a enfermeira-chefe ao instrumento que ela deixara. “Então é essa a Srta. von Mylendonk”, disse de si para si. “Settembrini não gosta dela, e realmente ela tem seus lados ruins.
O terçol não é nada bonito, mas isso, com certeza, não é permanente. Mas por que me chama sempre de ‘rapaz’? Que rudeza estranha! E logo me vendeu um termômetro. Anda sempre com alguns na bolsa. Parece que aqui há termômetros em toda parte, em qualquer loja, inclusive nos lugares onde ninguém os esperaria encontrar, segundo afirma Joachim. Ora, eu nem tive o trabalho de procurar um, pois já me caiu nas mãos.” Tirou do estojo o frágil objeto, contemplou-o e pôs-se a andar nervosamente pelo quarto. Seu coração batia depressa e violentamente.
Lançou um olhar para a porta aberta da sacada. A seguir fez menção de se encaminhar à do quarto, na intenção de ir ter com Joachim. Mas desistiu disso e deixou-se ficar de pé, perto da mesa, pigarreando, para verificar a rouquidão. Depois tossiu francamente. “Pois é, agora vou ver se o resfriado me deu febre”, falou com os seus botões, enquanto introduzia, num movimento rápido, o termômetro na boca, com a ponta de mercúrio sob a língua, de modo que o instrumento, apontando obliquamente para cima, saía por entre os lábios que ele cerrava bem para não dar entrada ao ar. Feito isso, olhou o relógio de pulso. Eram nove e trinta e seis. E
começou a esperar que decorressem sete minutos.
“Nem um segundo a mais”, pensou, “nem um a menos. Em mim podem ter confiança, nas duas direções. Não há necessidade de me dar uma ‘irmã muda’, como àquela criatura de que falou Settembrini, a tal Ottilie Kneifer.” A seguir pôs-se a passear pelo quarto, comprimindo o instrumento com a língua.
O tempo ia se arrastando. O prazo parecia infinito. Somente dois minutos e meio haviam passado quando ele olhou os ponteiros, receando ter ultrapassado o momento marcado. Fez então um sem-número de coisas: agarrou objetos e os recolocou no lugar, saiu à sacada, procurando esquivar-se à atenção do primo, deixou que os olhos vagassem por sobre a paisagem, esse vale situado a grande altura, já profundamente familiar ao seu espírito, em todas as suas formas, com seus picos, cordilheiras e paredes rochosas, onde, do lado esquerdo, avançava o platô de Brämenbühl, cuja encosta se inclinava para a aldeia e cujos flancos eram cobertos pelo matagal agreste dos prados alpinos, com as formações das montanhas, à direita, cujos nomes
aprendera também, e com a Alteinwand que, vista do lugar onde se achava Hans Castorp, parecia fechar o vale do lado do sul. E seu olhar passava por sobre as veredas e os canteiros do terraço ajardinado, com a gruta rupestre e o abeto. Escutava um murmúrio que subia do alpendre, onde alguns pensionistas se entregavam ao repouso. Voltou então ao quarto, enquanto procurava melhorar a posição do instrumento na boca. A seguir avançou o braço, para afastar a manga do pulso e aproximar o relógio do rosto. Com muito trabalho e esforço, por assim dizer sob o efeito de empurrões, golpes e pontapés, haviam decorrido seis minutos. Mas, como então se deixasse estar no quarto e se abandonasse a devaneios, dando livre curso aos seus pensamentos, passou despercebido o último minuto, como nas patas silenciosas de um gato até que um novo movimento do braço lhe revelasse a sua fuga clandestina. E já era um pouco tarde; a terça parte do oitavo minuto já se escoara, quando Hans Castorp, dizendo consigo que isso não tinha importância, não fazia mal nem modificava o resultado, tirou o termômetro da boca e cravou nele os olhos desorientados.
Não conseguiu decifrar imediatamente a indicação do instrumento. O brilho do mercúrio confundia-se com o reflexo luminoso do achatado tubo de vidro. A coluna parecia ora ter subido muito ora não existir de todo. Hans Castorp achegou o termômetro aos olhos, virou-o de um lado para outro e não distinguiu nada. Finalmente, depois de um movimento feliz, a imagem tornou-se nítida; ele reteve-a e submeteu-a depressa ao trabalho da sua inteligência. Com efeito, o mercúrio dilatara-se, dilatara-se consideravelmente. A coluna subira bastante alto e parará a vários décimos acima do limite normal. Hans Castorp tinha 37,6.
Em pleno dia, entre as dez e as dez e meia, 37,6 era demais; era temperatura elevada, era uma febre que resultava de uma infecção à qual estava predisposto, e restava apenas saber de que tipo de infecção se tratava. 37,6! O próprio Joachim não tinha mais; ninguém ali tinha mais, com exceção daqueles que se achavam acamados por estarem gravemente enfermos ou até moribundos; nem a Kleefeld, com o seu pneumotórax, nem... nem tampouco Mme. Chauchat.
Naturalmente, no seu caso particular não era a mesma coisa; ele tinha o que lá embaixo chamava de uma simples gripezinha. Mas seria difícil estabelecer uma diferença clara. Hans Castorp não sabia com certeza desde quando andava com essa temperatura, e se era somente desde que se resfriara. Lamentou não ter interrogado o mercúrio mais cedo, logo no início da sua estadia ali, como lhe aconselhara o Dr. Behrens. Era um conselho bem sensato, como se manifestava agora, e Settembrini fizera muito mal ao rir-se dele daquele modo ruidoso e zombeteiro – aquele Settembrini com sua república e seu belo estilo! Hans Castorp desprezava a república e o belo estilo, enquanto examinava uma e outra vez a indicação do termômetro, que não raro se lhe esquivava, em virtude dos reflexos, e que então ele voltava a apanhar, virando e revirando fervorosamente o instrumento. Eram 37,6, e isso de manhã!
Experimentou uma violenta emoção. Pôs-se a atravessar o quarto de um lado para outro, com o termômetro na mão, que mantinha horizontalmente, a fim de evitar o mínimo abalo por uma sacudidela em sentido vertical. Depois colocou-o com todo o cuidado no anteparo do lavatório e, pegando o sobretudo e os cobertores, foi entregar-se ao repouso. Sentado, envolveu-se nos cobertores, assim como aprendera, pelos dois lados e por baixo, manejando-os um após outro com a habilidade já adquirida. A seguir permaneceu imóvel até a hora do café da manhã, à espera da entrada de Joachim. Às vezes sorria, e era como se sorrisse a alguém. Às vezes levantava-se-lhe o peito num tremor angustiado, o que o fazia tossir, com o peito opresso pelo catarro.
Joachim encontrou-o ainda deitado, quando, às onze horas, depois das badaladas do gongo, foi buscá-lo para a refeição.
– Então? – perguntou admirado, aproximando-se da espreguiçadeira.
Hans Castorp permaneceu calado durante um momento, olhando apenas para a frente.
Por fim respondeu:
– Quer saber da última? Estou com uma temperatura um pouco elevada.
– Que significa isso? – perguntou Joachim. – Você tem a impressão de estar com febre?
Hans Castorp mais uma vez demorou um pouco a dar a resposta, antes de replicar com certa indolência:
– Olhe, meu caro, já faz tempo que me sinto febril, desde que estou aqui. Desta vez não se trata de impressões subjetivas, mas de uma verificação exata. Tirei a temperatura.
– Você tirou a temperatura? Com quê? – gritou Joachim, assustado.
– Com um termômetro, ora essa – respondeu Hans Castorp, com um ar irônico e severo.
– Comprei um da enfermeira-chefe. O que não sei é por que ela trata a gente de “rapaz”. Pelo menos não acho isso muito correto. Mas me vendeu a toda pressa um ótimo termômetro, e se você quiser convencer-se da temperatura que ele indica, pode ver ali dentro, no lavatório. É uma elevação insignificante.
Joachim deu bruscamente meia-volta e entrou no quarto. Quando saiu outra vez, disse num tom hesitante:
– Pois é, são 37,5.
– Nesse caso baixou um pouco – tornou Hans Castorp imediatamente. – Eram 37,6.
– Não se pode dizer que isso seja insignificante, já pela manhã – opinou Joachim. – É
uma bonita surpresa – acrescentou, plantando-se em frente da espreguiçadeira do primo, como para admirar a “bonita surpresa”, com as mãos à cintura, e com a cabeça baixa. – Você terá de ficar na cama.
Hans Castorp já estava com a resposta preparada.
– Não vejo nenhum motivo – retrucou – para ficar deitado com 37,6 quando você e tantos outros que têm a mesma temperatura andam passeando livremente.
– Mas isso é diferente – disse Joachim. – No seu caso trata-se de uma coisa aguda e inofensiva. Você tem febre porque está resfriado.
– Primeiro – replicou Hans Castorp, subdividindo o seu discurso em “primeiro” e
“segundo” –, não compreendo por que com uma febre inofensiva – admitamos que exista uma coisa dessas – por que com uma febre inofensiva a gente deva ficar na cama, e com outra febre não. E segundo, já lhe disse que o resfriado não me fez mais quente do que eu estava antes. Na minha opinião – concluiu – 37,6 é igual a 37,6. Se vocês podem passear com uma temperatura dessas, eu também posso.
– Mas quando cheguei aqui tive que permanecer deitado durante quatro semanas –
objetou Joachim. – E só quando verificaram que a cama não fazia desaparecer a febre foi que me deram licença para levantar-me.
Hans Castorp sorriu.
– E daí? – perguntou. – Eu pensava que o seu caso fosse diferente. Tenho a impressão de que você se contradiz a si mesmo. Primeiro estabelece uma diferença e logo depois equipara. Isto é lero-lero...
Joachim deu meia-volta sobre os calcanhares, e quando novamente se dirigiu ao primo, viu que seu rosto trigueiro se tornara ainda mais escuro.
– Não, senhor – disse ele. – Não equiparo nada. Quem faz confusão é você. Eu acho apenas que você anda resfriadíssimo. Basta ouvir a sua voz. E você deveria meter-se na cama para abreviar a coisa, uma vez que tenciona partir na semana que vem. Mas, se não quiser... quer dizer, se não tiver vontade de ficar na cama, deixe. Eu não lhe dou ordens. Em todo caso está na hora do segundo café da manhã. Ligeiro, já estamos atrasados.
– Perfeitamente. Vamos então – disse Hans Castorp, afastando os cobertores. Entrou no quarto, para arrumar o penteado com a escova. Enquanto o fazia, Joachim foi ao lavatório a fim de olhar mais uma vez o termômetro, como Hans Castorp observou de longe. Depois desceram, sem falar, e voltaram a instalar-se nos seus lugares, na sala de refeições, que, como sempre a essa hora, resplandecia branca de tanto leite.
Quando a anã levou a Hans Castorp a cerveja Kulmbach, este a recusou com um ar de grave renúncia. Preferia hoje não tomar cerveja; não beberia nada, obrigado; quando muito, um
copo d'água. Isso causou surpresa a seu redor. Mas como? Que novidades eram aquelas? Por que não queria cerveja?
– Tenho uma temperatura levemente elevada – disse Hans Castorp displicentemente. –
37,6. Coisa insignificante.
Eis que todos o advertiram com o dedo. Era estranho de ver. Tornavam-se engraçadinhos, inclinavam a cabeça para o lado, piscavam um olho e coçavam a orelha com o indicador, como para ouvirem melhor as coisas escabrosas, picantes, a respeito de alguém que até então se fingira inocente.
– Ora, ora, meu amigo! – disse a professora, e suas faces ruborizaram-se, enquanto o advertia sorrindo. – Ouve-se cada coisa! Vejam só!
– Imaginem! – gritou a Srª. Stöhr, enquanto erguia o curto dedo avermelhado à altura do nariz. – Ele tem tempus, o nosso visitante. Essa é boa! Que grande gozador!
A própria tia-avó, na outra extremidade da mesa, advertiu-o com o dedo, irônica e manhosamente, quando a novidade chegou até ela. A bela Marusja, que até então mal prestara atenção a ele, inclinou-se para enxergá-lo melhor e olhou-o com seus grandes olhos redondos, apertando contra os lábios o lencinho perfumado de flor de laranjeira. Também o Dr.
Blumenkohl, ao qual a Srª. Stöhr acabava de comunicar o fato, não pôde deixar de fazer o gesto que todos faziam. Unicamente Miss Robinson mostrou-se indiferente e reservada como sempre.
Joachim, numa atitude muito correta, mantinha os olhos baixos.
Hans Castorp, satisfeito pelo interesse que despertava, acreditou ser do seu dever desmenti-los modestamente.
– Não, senhores – disse –, estão enganados. A minha febre é a coisa mais inofensiva que se pode imaginar. Estou apenas resfriado. Estão vendo: meus olhos lacrimejam, tenho o peito opresso, e ando tossindo a noite toda. É bastante desagradável. – Mas eles não aceitaram as suas desculpas; riam-se, e com a mão faziam-lhe sinais, para que deixasse de insistir, enquanto gritavam: – Sim, sim, sim! É conversa fiada! Já se conhece essa do resfriado, já se conhece! – E
todos exigiram subitamente que Hans Castorp se apresentasse sem demora a um exame médico.
Essa notícia excitara-os. Dentre as sete mesas foi esta, durante o café da manhã, a mais animada.
Sobretudo a Srª. Stöhr, com o estúpido rosto todo vermelho por cima do jabô, e com pequenas gretas na pele das faces, demonstrou uma loquacidade quase frenética. Pôs-se a fazer digressões a respeito da natureza fascinante da tosse. Sim, era mesmo uma distração e um prazer sentir como no fundo do peito se intensificava e crescia o prurido, que as pessoas procuravam, por assim dizer, pegar, esforçando-se convulsivamente e comprimindo-se para acalmar a irritação. E um divertimento análogo era oferecido pelo espirro, quando o desejo de soltá-lo aumentava poderosamente e se tornava irresistível, a ponto de a gente, como que inebriada, fazer algumas respirações violentas, antes de se entregar com delícia, esquecendo o resto do mundo ante a felicidade da explosão. E essa delícia podia produzir-se duas ou três vezes seguidas. Eram esses os prazeres gratuitos da vida, entre os quais também figurava o de coçar as frieiras, na primavera, quando elas picavam tão docemente – coçar-se com um fervor cruel, até sair sangue, abandonando-se à raiva e ao gozo, e quem, por acaso, se olhasse no espelho, num momento desses, depararia com uma careta diabólica. Com essa minúcia horrorosa, a inculta Srª. Stöhr discursou até o fim da curta mas substanciosa refeição intermediária. Então, os dois primos começaram o seu segundo passeio matinal, que os levaria a Davos-Platz. Joachim andava meio absorto e Hans Castorp, gemendo de tão resfriado que estava, dava pigarros do fundo do peito enferrujado. Ao regressarem, Joachim disse:
– Vou lhe fazer uma proposta. Hoje é sexta-feira. Amanhã, depois do almoço, tenho o meu exame mensal. Não se trata de um exame geral; o Behrens percute um pouquinho e manda o Krokowski tomar notas. Você poderia me acompanhar e pedir que aproveitem a ocasião para auscultá-lo rapidamente. É mesmo ridículo... Se isso lhe acontecesse em casa, mandaria chamar o Heidekind. E aqui onde temos dois especialistas, você dá passeios, sem ter idéia a quantas anda nem a que ponto vai a infecção; nem sequer sabe se não seria melhor meter-se na cama.
– Ótimo! – disse Hans Castorp. – Boa idéia! Claro que posso fazer isso. Será até interessante para mim assistir a um exame médico.
Estava, pois, tudo combinado, e, quando chegaram ao sanatório, quis o acaso que encontrassem o Dr. Behrens em pessoa. Assim tinham uma oportunidade favorável para formular imediatamente o seu pedido.
Da ala avançada do edifício saía o alto vulto de Behrens, com o pescoço vigoroso, as faces azuladas e os olhos saltados. Tinha o chapéu-coco atirado para trás e um charuto na boca.
Parecia em plena atividade, a ponto de se dirigir para a aldeia, a fim de visitar sua clientela particular. Segundo declarou, acabava de trabalhar na sala de operações.
– Salve, cavalheiros! – exclamou. -sempre passeando, hein? Que tal o mundo grã-fino? Eu volto justamente de um duelo desigual, a faca e serra. Um caso sério, sabem? Ressecção de costelas. Antigamente ficavam na mesa uns cinqüenta por cento. Agora temos mais jeito, mas ainda acontece que o prazer se acabe antes do fim, mortis causa. Bem, o de hoje não era nenhum desmancha-prazeres. Por enquanto agüenta firme... Uma coisa louca, um tórax humano que já se foi todo. É uma pasta mole, sabem? Nada bonito! Por assim dizer, uma leve adulteração da idéia!... Bem, e os senhores? Como vai a prezada constituição? A existência é mais divertida a dois; não é, Ziemssen, velha raposa? Mas, por que está chorando, senhor turista? – acrescentou, dirigindo-se de repente a Hans Castorp. – É proibido chorar em público. É contra o regulamento da casa. Se todo mundo fizesse isso...
– É por causa do meu resfriado, doutor – respondeu Hans Castorp. – Não sei onde o peguei, mas estou com uma gripe terrível. Tenho também tosse, e meu peito está opresso...
– Vejam só! – exclamou Behrens. – Nesse caso, talvez fosse conveniente consultar um bom médico.
Os dois desataram a rir, e Joachim explicou, juntando os calcanhares:
– É o que tencionávamos fazer, senhor conselheiro. Amanhã é o dia do meu exame, e queríamos justamente pedir-lhe que tivesse a bondade de auscultar meu primo na mesma ocasião.