A Montanha Mágica
Hans Castorp sonhava, os olhos fitos no…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Verdade é que por enquanto se acostumara a considerar como o autêntico objetivo e o genuíno conteúdo das suas férias todas essas emoções, tensões, satisfações, decepções, provenientes da sua delicada relação com a enferma; habituara-se a entregar-se totalmente a elas e a deixar depender o seu humor do seu desenvolvimento próspero ou não. As circunstâncias favoreciam o seu culto com a maior benevolência, uma vez que viviam um perto do outro, num espaço limitado, e com um programa do dia preestabelecido e obrigatório para todo mundo.
Ainda que Mme. Chauchat morasse num outro andar, o primeiro, e fizesse a cura de repouso no terraço do sótão, o mesmo onde o Capitão Miklosich havia pouco apagara a luz, existia contudo a possibilidade e até a inevitabilidade de constantes encontros, da manhã à noite, pelo simples fato de haver cinco refeições. E isso, tanto quanto a ausência de preocupações e dificuldades, parecia sumamente simpático a Hans Castorp, ainda que lhe causasse certa angústia a sensação de estar preso na mesma cela com a quase-oportunidade favorável.
Mesmo assim, ele acelerava ainda um pouco a marcha dos acontecimentos; fazia cálculos e punha o seu cérebro a serviço da causa da sua felicidade. Visto Mme. Chauchat chegar habitualmente atrasada à mesa, Hans Castorp esforçou-se por se atrasar também, a fim de encontrá-la no caminho. Vestia-se com vagar, de modo que não estava pronto quando Joachim vinha buscá-lo, pedia ao primo que descesse sem ele e dizia que o seguiria imediatamente.
Dirigido pelo instinto peculiar ao seu estado de alma, aguardava determinado momento que lhe parecia indicado. Então descia correndo ao primeiro piso; a partir dali, não continuava a servir-se da mesma escada pela qual chegara, mas percorria quase toda a extensão do corredor até o patamar da outra escada, passando por uma porta que havia muito conhecia, a do quarto número 7. Durante esse caminho, ao longo do corredor, de uma escada à outra, cada passo oferecia, por assim dizer, uma probabilidade, pois a qualquer instante podia abrir-se a referida porta, e repetidas vezes isto se deu de fato. Estrondosamente fechava-se ela atrás de Mme. Chauchat, que, por sua vez, saía silenciosamente, e silenciosamente se encaminhava para a escada... E logo descia diante dele, segurando a trança com a mão, ou Hans Castorp ia à sua frente, sentindo-lhe o olhar na nuca e experimentando nos membros como que uma cãibra e nas costas a sensação de um formigueiro. Mas, no desejo de fingir que lhe ignorava a presença e vivia uma vida individual vigorosamente independente, enterrava as mãos nos bolsos do paletó, encolhia os ombros ou pigarreava sem necessidade, batendo no peito com o punho – tudo isso para patentear a sua indiferença.
Em duas ocasiões, levou a manha ainda mais longe. Quando já se achava sentado à mesa, disse, entre perplexo e irritado, apalpando os bolsos com as mãos: – Ora essa, esqueci o meu lenço! Preciso subir outra vez. – E subiu, para que ele e “Clávdia” se encontrassem, o que constituiria um acontecimento diferente, mais perigoso, cheio de atrativos mais picantes do que ir à frente ou atrás dela. A primeira vez que realizou essa façanha, Mme. Chauchat mediu-o com os olhos, de cima a baixo, a certa distância, e de modo bastante atrevido, livre de qualquer acanhamento; mas quando foram se aproximando, desviou o rosto com displicência e passou por ele de tal maneira, que ao resultado desse episódio não merecia ser atribuído grande valor. Da segunda vez, porém, encarou-o, e não só de longe; encarou-o durante todo o tempo com ar firme
e até um pouco sombrio, e quando seus caminhos se encontraram, chegou mesmo a virar a cabeça para ele. O pobre Hans Castorp sentiu-se penetrado até a medula. Por outro lado não convém lastimá-lo, já que fora ele próprio que quisera tudo isso. Esse encontro causou-lhe, todavia, um veemente abalo, enquanto ocorria e sobretudo posteriormente; pois, quando tudo já pertencia ao passado, foi que percebeu com precisão o que se dera. Nunca antes tivera o rosto de Mme. Chauchat tão perto dele, tão nitidamente distinto em todos os seus pormenores. Pudera divisar os cabelinhos curtos que se desprendiam do emaranhado da trança loura, de um tom metálico, arruivado, e que estava simplesmente enrolada em volta da cabeça. Houvera apenas uns poucos palmos de distância entre o seu próprio rosto e o dela, rosto de feições esquisitas e todavia tão familiares, que lhe agradavam como mais nada no mundo; feições estranhas e cheias de caráter – pois só o estranho nos parece ter caráter –, de um exotismo nórdico misterioso, que induzia à análise, visto suas particularidades e proporções não serem fáceis de determinar. A característica essencial eram, sem dúvida, as maçãs salientes, altas e acentuadas que comprimiam os olhos descomunalmente distantes entre si e situados quase à flor do rosto; até lhes impunham uma certa obliqüidade e ao mesmo tempo originavam o suave côncavo das faces, que, por sua vez, e indiretamente, causava a exuberância dos lábios um tanto grossos. Mas antes de tudo havia os próprios olhos – esses olhos quirguizes, de corte estreito e, conforme a opinião de Hans Castorp, simplesmente mágico, olhos cuja cor cambiava entre azul e cinzento, qual a de uma cordilheira longínqua, e que às vezes, por ocasião de certos relances para o lado, que não se fixavam em nada, eram capazes de se envolver, languidamente, em trevas misteriosas – os olhos de Clávdia, afinal, que o haviam contemplado atrevida e um tanto sombriamente, de muito perto, e que, na sua posição, cor e expressão, se pareciam de modo surpreendente e mesmo assustador com os de Pribislav Hippe. “Pareciam” nem é sequer a expressão adequada; não!, eram os mesmos olhos, e também a largura da parte superior do rosto, o nariz levemente achatado, tudo, até a brancura rosada da pele e a tez sadia, que em Mme. Chauchat apenas dava a ilusão de saúde, e, como nos casos dos demais pensionistas, não passava de um resultado superficial do repouso ao ar livre – tudo isso era tal qual o rosto de Pribislav, e o olhar com que este o contemplava no pátio da escola, quando um passava perto do outro, tampouco era diferente.
Era inquietante sob todos os aspectos. Hans Castorp estava entusiasmado pelo encontro que acabava de ter, e ao mesmo tempo sentia qualquer coisa como um temor nascente, uma angústia semelhante àquela que lhe causava a sensação de estar preso na mesma cela com a quase-oportunidade favorável: também o fato de Pribislav, havia muito olvidado, vir-lhe ao encontro ali em cima, na pessoa de Mme. Chauchat, fitando-o com aqueles olhos quirguizes, também isso fazia com que Hans Castorp se sentisse preso em companhia do inevitável e do irremovível –
irremovível num sentido venturoso e atemorizador. Era um fato auspicioso, mas ao mesmo tempo fatídico, apavorante mesmo, e o jovem Hans Castorp sentiu algo como uma necessidade de socorro. No seu íntimo operavam-se movimentos vagos e instintivos que poderíamos qualificar de olhares, tateios e gestos em busca de apoio, conselho e ajuda. Sucessivamente, pensou em diversas pessoas, das quais, talvez, lhe fosse útil recordar-se.
Havia ali, a seu lado, Joachim, o bondoso e honrado Joachim, cujos olhos, no decorrer desses últimos meses, tinham assumido uma expressão melancólica, e que às vezes encolhia os ombros daquele jeito desdenhoso e violento que em outros tempos não lhe fora peculiar; Joachim, com o “Joãozinho Azul” no bolso, para empregarmos o termo com que esse recipiente era designado pela Srª. Stöhr, cuja fisionomia obstinadamente descarada nunca deixava de causar horror a Hans Castorp... Havia, pois, o brioso Joachim, atormentando e maçando o Dr. Behrens, a fim de obter a licença de partir e de fazer o almejado serviço na “planície”, na “baixada”, como os que viviam aqui em cima chamavam, com leve mas nítido desprezo, o mundo das pessoas sadias. Para que chegasse mais rapidamente ali e poupasse um pouquinho daquele tempo que aqui se gastava tão generosamente, dedicava-se com o máximo rigor à cura regulamentada; fazia-o para recuperar a saúde, sem dúvida, mas também, como Hans Castorp adivinhava de vez em quando, por amor ao próprio regime, que, afinal de contas, era um serviço como qualquer outro,
e cumprir esse dever era cumprir seu dever. Por isso acontecia todas as noites que Joachim, ao cabo de um quarto de hora, já insistia com ele em que abandonassem a reunião dos pensionistas e se recolhessem ao repouso noturno, e isso tinha as suas vantagens, pois a pontualidade militar do primo acudia ao espírito civil de Hans Castorp, que sem ela talvez preferisse demorar-se por muito tempo a contemplar, sem proveito nem esperança, a saleta ocupada pelos russos. No entanto, o fato de Joachim ter tanta pressa de abreviar a vida social no salão era também devido a outro motivo de natureza secreta, mas que Hans Castorp compreendia perfeitamente, desde que conhecia tão bem aquela palidez terrosa de Joachim e o modo particularmente doloroso com que a boca do primo se crispava em determinados momentos. Ora, Marusja, a sempre risonha Marusja com o pequeno rubi no formoso dedo, com o perfume de flor de laranjeira e com os seios opulentos, mas carcomidos, também costumava estar presente às reuniões sociais, e Hans Castorp percebeu que essa circunstância afugentava Joachim, precisamente porque o atraía em excesso, de uma forma pavorosa. Joachim também se sentia “preso numa cela”, e de modo ainda mais opressivo e angustiante do que ele próprio, pois Marusja, com seu lencinho perfumado, não comia cinco vezes por dia à mesma mesa que eles? Em todo caso achava-se Joachim por demais ocupado consigo mesmo para que a sua existência pudesse significar uma ajuda íntima para Hans Castorp. Sua fuga da sala de reuniões, que se repetia diariamente, sem dúvida o honrava, mas o seu efeito era pouco tranqüilizador para Hans Castorp, que por momentos tinha a impressão de descobrir aspectos perigosos no bom exemplo que lhe oferecia Joachim quanto ao cumprimento rigoroso dos deveres do regime, e nas instruções de perito que o primo lhe dava.
Não fazia ainda nem sequer duas semanas que Hans Castorp estava no Berghof, mas parecia-lhe muito mais tempo, e o programa do dia, ali em cima, esse programa que ele via Joachim observar com tanto zelo piedoso, começara a adquirir a seus próprios olhos um quê de intangibilidade sagrada e natural, tanto assim que a vida lá de baixo, na baixada, vista assim de cima, se lhe afigurava quase anormal e errada. Já chegara a um alto grau de habilidade no manejo dos dois cobertores, mediante os quais a gente, nos dias frios, se transformava, por ocasião do repouso, num pacote simétrico, parecido com uma verdadeira múmia; pouco faltava para que igualasse a destreza de Joachim na arte de envolver-se segundo as regras; quase que se admirava ao pensar que lá embaixo, na planície, ninguém sabia dessa arte. Pois é, isso era estranho, mas ao mesmo tempo Hans Castorp sentia estranheza diante do fato de que assim lhe parecia, e novamente nascia nele o desassossego que o fazia perscrutar o seu íntimo em busca de um conselho ou de um apoio.
E ele pensou no Dr. Behrens e no seu conselho, oferecido sine pecunia, de viver exatamente como os pacientes e até de tomar a temperatura; lembrou-se também de Settembrini, que desatara a rir às gargalhadas ao ficar sabendo desse conselho, e depois citara qualquer coisa da Flauta mágica. Sim, nesses dois também pensou a título de experiência, para ver se essa recordação lhe trazia algum proveito. O Dr. Behrens era um homem de cabelos brancos, poderia ser o pai de Hans Castorp. Além disso, era o diretor do estabelecimento, a mais alta autoridade que existia por ali, e era justamente de autoridade paterna que o coração do jovem Hans Castorp, na sua inquietude, sentia necessidade. E todavia, por mais que tentasse, não conseguia recordar-se do conselheiro áulico com confiança filial. O médico enterrara ali a esposa, sofrendo um golpe que passageiramente o tornara um tanto esquisito. Depois permanecera em Davos, porque o túmulo o retinha, e também por estar ele mesmo atacado pela enfermidade. Quem sabia se isso já passara? Gozava o Dr. Behrens de boa saúde, e estava sinceramente decidido a curar as pessoas para que pudessem sem demora regressar à planície e voltar ao serviço? Suas faces estavam sempre azuis, e ele dava a impressão de estar febril. Mas talvez fosse isso apenas uma ilusão, e a cor do seu rosto se devesse ao ar das alturas. O próprio Hans Castorp experimentava todos os dias um ardor seco, sem que tivesse febre, ao menos pelo que se podia julgar sem termômetro.
Mas, quando se ouvia o conselheiro falar, tinha-se, às vezes, novamente a impressão de ele estar com temperatura elevada; alguma coisa não parecia certa na sua maneira de expressar-se; embora as suas palavras soassem enérgicas, corretas e joviais, havia nelas qualquer coisa singular, exaltada, sobretudo para quem observava ao mesmo tempo as faces azuis e os olhos lacrimosos que faziam acreditar que ele ainda chorava a mulher. Hans Castorp lembrou-se do que Settembrini dissera da
“melancolia” e dos “vícios” do conselheiro áulico, a quem chamara de “alma atarantada”. Nisso podia haver malícia ou leviandade, e contudo Hans Castorp achava muito pouco reconfortante a recordação do Dr. Behrens.
Mas havia ainda esse Settembrini, o oposicionista doidivanas e “homo humanus”, como se definia a si próprio, o homem que o censurara com abundantes palavras enfáticas, porque qualificara a combinação de estupidez e enfermidade, de contradição e de dilema para o sentimento humano. Que tal era ele? Era proveitoso ocupar-se com esse homem? Hans Castorp sabia ainda muito bem o quanto, em diversos daqueles sonhos excessivamente agitados que aqui em cima lhe enchiam as noites, exasperara-se por causa do sorriso fino e seco do italiano, que se esboçava sob a bonita curva do bigode; recordava-se de o ter tratado de tocador de realejo e de haver procurado afastá-lo do lugar, porque lhe parecia demais ali. Mas isso se passara num sonho, e Hans Castorp acordado era diferente, menos livre de inibições do que quando sonhava. Em estado de vigília, tudo isso podia ser de outro modo; talvez fizesse bem tentando conformar-se intimamente com essa maneira de ser, completamente nova para ele, que representava Settembrini; quem sabia se não eram dignas de ser estudadas sua rebeldia e sua crítica, posto fossem choramingueiras e gárrulas? O próprio Settembrini chamara-se de pedagogo.
Evidentemente desejava exercer influência, e o jovem Hans Castorp anelava por alguém que o influenciasse. Naturalmente não era preciso levar a docilidade a ponto de se deixar induzir por Settembrini a arrumar as malas e a partir antes do tempo, conforme a sugestão que este lhe dera recentemente com toda a seriedade.
Placet experiri, pensou sorrindo: pois, para isso, sabia bastante latim, ainda que não se pudesse qualificar de homo humanus. Assim, não perdia Settembrini de vista e escutava com gosto, embora com atenção crítica, tudo quanto o italiano produzia no decorrer das entrevistas que se realizavam ocasionalmente, durante os comedidos passeios prescritos pelo regime, até o banco na encosta da montanha ou até Davos-Platz. Havia também outras oportunidades para fazê-lo, quando Settembrini, após a refeição, era o primeiro a levantar-se e, com as suas calças xadrez e com um palito entre os dentes, atravessava indolentemente a sala, a fim de fazer, em completo desacordo com o regulamento e os costumes, uma visitinha à mesa dos dois primos. Postava-se então diante deles, numa atitude graciosa, com os pés cruzados, e palestrava gesticulando com o palito. Ou talvez puxasse uma cadeira, para instalar-se num canto entre Hans Castorp e a professora, ou então entre o jovem e Miss Robinson, e para observar como os nove comensais comiam a sobremesa à qual ele mesmo parecia ter renunciado.
– Peço que me admitam nesta roda ilustre – dizia, apertando as mãos dos primos e abrangendo as demais pessoas numa única reverência. – Esse cervejeiro aí... para nem mencionar o aspecto desolador da senhora cervejeira... Mas esse Sr. Magnus acaba de fazer uma conferência etnopsicológica. Querem saber pormenores? “Nossa querida Alemanha é um grande quartel; não há dúvida. Mas ela encerra muita energia, e eu não trocaria as nossas sólidas virtudes pela cortesia dos outros. Que me adianta a cortesia, se me enganam pela frente e por trás?” E outras coisinhas nesse estilo, que simplesmente não agüento mais. Além disso, tenho à minha frente uma pobre criatura com rosas de cemitério nas faces, uma solteirona da Transilvânia, que não pára de falar de seu “cunhado”, um homem do qual ninguém sabe nada nem quer saber. Numa palavra, não agüentei mais. Preferi bater em retirada.
– Pois é, em debandada, o senhor se pôs a fugir – disse a Srª. Stöhr. – Posso imaginar.
– Exatamente! – exclamou Settembrini. – Fugi! Estou vendo que aqui sopram outros ventos. Não há dúvida, cheguei a bom porto. Sim, senhora, em debandada... Ah, se todos soubessem cunhar frases assim!... Posso informar-me dos progressos da saúde da prezada senhora?
Era horroroso observar a afetação da Srª. Stöhr. – Ah, meu Deus! – disse ela. – É sempre a mesma coisa; o senhor sabe muito bem. Damos dois passos para a frente e três para trás. Cada
vez que a gente acaba de cumprir cinco meses da pena, vem o velho acrescentar mais meio ano.
Ai de mim, são verdadeiros suplícios de Tântalo! Vai-se empurrando, empurrando, e quando se pensa que a pedra está em cima...
– Ah, como a senhora é gentil! Concede a esse coitado do Tântalo uma pequena mudança de ocupação. Para variar, deixa-o rolar o famoso bloco de mármore. É o que se pode chamar de genuína bondade da alma... Bem, talvez me possa explicar uma coisa: passam-se histórias misteriosas em torno da senhora. Já ouvi falar de sósias, de corpos astrais, mas nunca acreditei nessas coisas. No entanto, o caso da senhora me faz duvidar...
– Parece-me que o senhor quer se divertir à minha custa.
– Nem um pouquinho. Não penso nisso. A senhora me tranqüilize, antes de mais nada, quanto a certas facetas obscuras da sua existência e logo poderemos pensar em diversões. Ontem à noite, entre as nove e meia e dez horas, saí ao jardim, para fazer um pouco de exercício. Meus olhos vagaram ao longo da fachada, e notei que a lampadazinha elétrica na sacada da senhora luzia através da escuridão. Concluí que a senhora estava observando o repouso, como ordenam o dever, a razão e o regulamento. “Ali jaz a nossa bela doente”, disse eu de mim para mim,
“obedecendo fielmente às prescrições, para que possa o mais depressa possível voltar aos braços do Sr. Stöhr.” E, faz poucos minutos, que ouço? Que àquela mesma hora e senhora foi vista no cinematógrafo – o Sr. Settembrini pronunciava essa palavra à italiana, com o acento na quarta sílaba
– no cinematógrafo da colunata do estabelecimento termal, e depois na confeitaria, com vinho doce e merengues, e dizem...
A Srª. Stöhr retorcia os ombros de tanto rir; afogava risinhos no guardanapo; dava cotoveladas em Joachim Ziemssen e no taciturno Dr. Blumenkohl; piscava um olho de modo entre astucioso e petulante, e demonstrava de todas as formas possíveis a mais idiota satisfação consigo própria. Para esquivar-se do controle, costumava colocar na sacada a lampadazinha acesa.
Então fugia em busca de algumas distrações no bairro inglês. Enquanto isso, seu marido, em Cannstatt, estava à sua espera. Por outro lado, não era ela a única paciente que tinha esse hábito.
– ... e dizem – continuou Settembrini – que a senhora saboreava esses merengues em companhia... de quem? Em companhia do Capitão Miklosich, de Bucareste. Há quem afirme que ele usa espartilho, mas, meu Deus, que importância pode ter isto, no nosso caso? Por amor de Deus, madame, onde estava a senhora? É acaso capaz de se desdobrar? Sem dúvida, achava-se dormindo, e enquanto a parte terrestre da sua existência se entregava ao repouso solitário, a parte espiritual espairecia em companhia do Capitão Miklosich e de outras coisas doces...
A Srª. Stöhr requebrava-se e gesticulava como se alguém lhe fizesse cócegas.
– Não se sabe se convém desejar o contrário – acrescentou Settembrini –, quer dizer, que a senhora tivesse saboreado sozinha aquelas coisas doces e feito o repouso com a assistência do Capitão Miklosich...
– Hi, hi, hi...
– Conhecem os senhores a história de anteontem? – perguntou o italiano, sem transição.
– Alguém foi raptado, levado pelo Diabo, ou mais precisamente pela senhora sua mãe, uma dama muito enérgica, que me agradou bastante. Trata-se do jovem Schneermann, Anton Schneermann, que tinha o seu lugar ali na mesa da Srta. Kleefeld. Como os senhores vêem, está vazio. Será preenchido daqui a pouco; não me preocupo com esse problema. Mas Anton desapareceu nas asas da tempestade, num abrir e fechar de olhos e bem de repente. Achava-se aqui havia um ano e meio, com as suas dezesseis primaveras, e justamente agora acabavam de impor-lhe mais seis meses. E que aconteceu então? Não sei quem teria dado certas informações à Srª. Schneermann.
Em todo caso, ela ficou sabendo das relações de seu filhinho com Baco et cceteris. Sem aviso prévio entra em cena uma matrona, três palmos mais alta do que eu, encanecida e furiosa.
Administra, sem dizer nada, uma porção de bofetadas ao Sr. Anton, segura-o pelo pescoço e mete-o no trem. “Se ele deve ir a pique”, grita ela, “pode muito bem fazê-lo na planície.” E lá se vão...
Riram-se todos os que podiam ouvir o Sr. Settembrini, pois contara a história com muita graça. Manifestou-se que o italiano andava bem informado sobre as últimas notícias, ainda que considerasse com crítico sarcasmo a vida coletiva dali de cima. Estava a par de tudo. Conhecia os nomes e grande parte do passado dos recém-chegados. Relatou que ontem Fulano ou Fulana sofrerá uma ressecção de costelas. Sabia de fonte fidedigna que a partir do outono próximo já não seriam admitidos doentes que tivessem temperaturas acima de 38,5°. Segundo a sua afirmação, dera-se à noite passada o seguinte incidente: o cachorrinho da Srª. Kapatsoulias, de Mitilene, sentara-se sobre o botão do sinal luminoso no criado-mudo da sua dona. Desse fato haviam resultado muitas correrias e grande tumulto, tanto mais que a Srª. Kapatsoulias não fora encontrada sozinha, mas sim em companhia do assessor Düstmund, de Friedrichshagen. Nem sequer o Dr. Blumenkohl pôde deixar de sorrir ao escutar essa história. A bela Marusja esteve a ponto de se asfixiar com o seu lencinho perfumado de flor de laranjeira, e a Srª. Stöhr soltou uns gritos estridentes, comprimindo o seio esquerdo com ambas as mãos.
Mas, aos dois primos, Lodovico Settembrini falava bem de si próprio e da sua origem, quer nos passeios, quer por ocasião das reuniões noturnas ou depois do almoço, quando a maioria dos pensionistas já saíra da sala e os três cavalheiros permaneciam ainda sentados por alguns instantes à extremidade da mesa, enquanto as criadas tiravam os pratos e Hans Castorp fumava o Maria Mancini, cujo sabor, no decorrer da terceira semana, tornara a agradar-lhe um pouco. Com atenção crítica e freqüentemente com estranheza, embora disposto a aceitar a influência do italiano, escutava o jovem essas palavras que lhe abriam um mundo singular, completamente novo.
Settembrini falava de seu avô, que fora advogado em Milão, mas antes de tudo grande patriota, uma mistura de agitador público, orador e publicista. Também ele pertencera à oposição, tal qual o neto, mas praticara a coisa num estilo mais elevado, mais audacioso. Ao passo que Lodovico, como ele mesmo observava com amargura, via-se reduzido a escarnecer a vida e a condição do pessoal do Sanatório Internacional Berghof, a castigá-las com críticas zombeteiras e protestar contra elas em nome de uma humanidade bela e cheia de atividade, dera o avô muito que fazer aos governos, conspirando contra a Áustria e a Santa Aliança, que naquela época haviam oprimido a sua despedaçada pátria, reduzindo-a a uma pesada servidão. Fora ele membro fervoroso de certas sociedades secretas, difundidas na Itália – um carbonário, como explicou Settembrini, abaixando de repente a voz, como se ainda fosse perigoso falar dessas coisas. Numa palavra, segundo os relatos do neto, afigurava-se esse Giuseppe Settembrini aos dois ouvintes como um indivíduo sombrio, apaixonado, insurgente, um rebelde e um conjurado. Não obstante o respeito que os primos, por motivos de cortesia, procuravam sentir, não conseguiram apagar por completo das suas feições uma expressão de antipatia desconfiada e até de repugnância.
Verdade é que se tratava de um caso especial: o que ouviam passara-se numa época remota, fazia quase cem anos, pertencia à história, e do ensino de história, sobretudo da antiga, era-lhes teoricamente familiar a mentalidade em questão, o fenômeno do apego desesperado à liberdade e do ódio inflexível à tirania, se bem que nunca esperassem entrar em contato tão direto com esse espírito. Além disso houvera, como ficaram sabendo, na natureza revolucionária e conspiradora desse avô, um grande amor à pátria, que ele desejava ver livre e unida. Com efeito, a sua atividade sediciosa fora o fruto e a emanação desse sentimento respeitável, e por estranha que parecesse a cada um dos primos essa mistura de rebeldia e patriotismo – já que estavam acostumados a identificar o espírito patriótico com um senso de ordem conservador –, tinham de admitir, no seu íntimo, que, sob as circunstâncias especiais daquela época e daquele país, podia ter havido identidade entre insurreição e dever cívico, de um lado, e do outro entre comedimento leal e indiferença preguiçosa, quanto à causa pública.
Mas o avô de Settembrini não fora somente um patriota italiano, senão também um concidadão e um irmão em armas de todos os povos sedentos de liberdade. Pois, após o malogro de certa tentativa de golpe de mão e de golpe de Estado, empreendida em Turim, e da qual ele participara com palavras e ações, escapando só por milagre aos esbirros do Príncipe Metternich,
empregara seus anos de desterro a lutar e derramar seu sangue, ora na Espanha, em prol da Constituição, ora na Grécia, para a independência do povo helênico. Ali é que viera ao mundo o pai de Settembrini – talvez fosse por isso que ele chegara a ser um grande humanista e adorador da Antigüidade clássica. Nascera, aliás, de mãe de sangue alemão, pois Giuseppe casara-se com uma moça suíça e levara-a consigo em todas as suas andanças ulteriores. Mais tarde, depois de dez anos de exílio, pudera regressar à sua terra. Exercera em Milão a profissão de advogado, mas absolutamente não renunciara ao direito de concitar a nação pela palavra falada e escrita, em versos e em prosa, à liberdade e à instauração da república unida, de esboçar, com um brio passional e imperioso, programas revolucionários, e de proclamar, num estilo claro, a unificação dos povos libertados em prol da felicidade universal. Um pormenor mencionado por Settembrini, o neto, impressionou sobremaneira o jovem Hans Castorp: durante toda a sua vida, o avô Giuseppe mostrara-se aos seus compatriotas vestido de preto, alegando que usava luto pela Itália, sua pátria, que definhava na miséria e na escravidão. Ao ouvir isso, Hans Castorp voltou a fazer uma comparação que já fizera diversas vezes mentalmente: lembrou-se de seu próprio avô, que também, durante todo o tempo em que o neto o conhecera, sempre usara roupas pretas, mas com um espírito totalmente diferente do que animara esse outro avô; recordou os trajes fora de moda, mediante os quais a natureza genuína de Hans Lorenz Castorp, aquela que pertencia a uma época remota, se adaptara ao presente, a título provisório e com acentuação da antipatia que os tempos modernos lhe inspiravam, até o dia em que, no seu leito de morte, assumira solenemente a sua forma verdadeira e própria, com a golilha pregueada do tamanho de um prato. Havia deveras uma profunda diferença na maneira de ser dos dois avôs. Hans Castorp refletia sobre ela, enquanto o seu olhar se fixava no vazio, e meneava a cabeça de uma forma cautelosa que tanto podia significar um sinal de admiração por Giuseppe Settembrini quanto uma manifestação de surpresa e desgosto. Por outro lado, esforçava-se lealmente para não condenar o que lhe parecia estranho, procurando não ir além da comparação e do exame dos fatos. Diante dele, na sala, surgia o rosto comprido do velho Hans Lorenz, que, pensativo, se inclinava sobre a concavidade redonda, levemente dourada, da pia batismal, a relíquia da família na sua progressão imutável; e a boca do avô formara as sílabas “bis, tris, tetra”, esses sons surdos e piedosos que evocavam a lembrança de lugares onde as pessoas avançavam num andar reverente, cadenciado. E ao mesmo tempo via Hans Castorp como Giuseppe Settembrini, segurando a bandeira tricolor numa das mãos e brandindo um sabre na outra, erguia, num juramento sagrado, os olhos negros ao céu e se lançava à frente de um grupo de defensores da liberdade contra a falange do despotismo. Ambas essas atitudes tinham, sem dúvida, sua beleza e seu valor, pensava Hans Castorp, empenhando-se em ser justo, tanto mais que, pessoalmente, ou com parte do seu ser, se sentia um pouco parcial.
Pois o avô de Settembrini combatera com o fim de obter direitos políticos, ao passo que a seu próprio avô ou, pelo menos, aos antepassados dele, haviam pertencido, originariamente, todos os direitos, e fora a canalha que lhos arrancara no decorrer de quatro séculos, por meio da violência e de chavões... Eis que um e outro tinham andado vestidos de preto, o avô do norte e o do sul, cada qual com o objetivo de interpor uma rigorosa distância entre si mesmo e o malvado presente. Mas um agira assim por piedade, em homenagem ao passado e à morte, para os quais pendia a sua natureza; o outro, ao contrário, por rebeldia, a fim de honrar um progresso inimigo da piedade. “Certamente, isto são dois mundos, dois pontos cardeais”, disse Hans Castorp de si para si, e enquanto o Sr. Settembrini prosseguia contando, o jovem viu-se, por assim dizer, colocado entre eles, lançando olhares examinadores ora a um ora a outro. Parecia-lhe então que uma coisa semelhante já lhe ocorrera antes. Recordou um solitário passeio de barca, ao crepúsculo, num lago de Holstein, passeio que fizera em fins de verão, alguns anos atrás. Fora perto das sete horas; o sol já se pusera e a lua quase cheia se elevara a leste, por cima das margens do lago cobertas de arbustos. E durante dez minutos, enquanto Hans Castorp sulcava, remando, as águas silenciosas, reinara uma constelação perturbadora, fantástica qual um sonho. A oeste resplandecera, como em pleno dia, uma luz vítrea, prosaica, decidida; mas bastara voltar a cabeça para deparar com uma paisagem de luar, igualmente típica, entremeada de brumas úmidas e cheia
de mágico encanto, Esse contraste esquisito durara um quarto de hora, pouco mais ou menos, antes de se completar o triunfo da noite e da lua. Com um pasmo alegre, os olhos deslumbrados e confundidos de Hans Castorp haviam passado de uma iluminação e de uma paisagem à outra, do dia para a noite e da noite para o dia. E nesse instante, ao comparar os dois avôs, não pôde deixar de se lembrar daquela impressão.
Fosse como fosse – continuou ele na marcha dos seus pensamentos –, era impossível que o advogado Settembrini, ao levar uma vida dessas e em face de tão vastas atividades, houvesse chegado a ser um grande jurisconsulto. Mas, segundo as afirmações plausíveis de seu neto, fora o princípio geral da justiça o que o animara desde a infância até o fim da vida. Hans Castorp, embora não tivesse, nesse momento particular, a cabeça sobremodo lúcida e sentisse o seu organismo ocupado com a digestão dos seis pratos de uma refeição do Berghof, procurou compreender o que Settembrini queria dizer ao chamar esse princípio de “fonte da liberdade e do progresso”. Essa última palavra significara para Hans Castorp, até então, qualquer coisa parecida com o desenvolvimento dos guindastes no decorrer do século XIX. Agora verificava que o Sr.
Settembrini não desprezava essas coisas, seguindo nesse ponto, evidentemente, o exemplo do avô. O italiano rendia à pátria dos seus dois ouvintes uma grande homenagem em vista do fato de terem sido inventados ali a pólvora, que fizera ferro-velho das armaduras do feudalismo, e o prelo, que possibilitara a difusão democrática das idéias, quer dizer, a difusão das idéias democráticas. Quanto a isso, elogiava a Alemanha, e também pelo que se referia ao passado dela, se bem que lhe parecesse de justiça conceder a palma ao seu próprio país, uma vez que este fora o primeiro a desfraldar a bandeira do esclarecimento, da cultura e da liberdade, enquanto os demais povos ainda vegetavam presos na superstição e na servidão. Porém, se Settembrini tratava a técnica e o tráfego – o campo de trabalho propriamente dito de Hans Castorp – com tanta reverência como já demonstrara por ocasião do primeiro encontro com os primos, junto ao banco na encosta da montanha, aparentemente não o fazia por amor a essas forças, senão por causa da importância que elas tinham para o aperfeiçoamento moral dos homens, e que ele constatava com satisfação. A técnica – expôs Settembrini – subjugava cada vez mais a natureza, pelas comunicações que criava, pelas redes de estradas e telégrafos que construía, e pelas vitórias que conquistava sobre as diferenças de clima; dessa forma apresentava-se como o meio mais seguro para aproximar os povos, para favorecer o contato entre eles, para levá-los a acordos humanos, para destruir os preconceitos existentes, e, finalmente, para estabelecer a união universal. A raça humana tinha a sua origem na escuridão, no medo e no ódio, mas avançava e subia por um caminho brilhante, rumo a um estado terminal de simpatia, luminosidade íntima, bondade e felicidade. O veículo mais apropriado para transpor esse caminho era a técnica, declarou Settembrini. Mas, ao falar assim, associava, num abrir e fechar de olhos, categorias que Hans Castorp até então imaginara separadas por um largo abismo. “Técnica e moral”, disse o italiano, e a seguir entrou mesmo a falar do Salvador cristão, que fora o primeiro a revelar o princípio da igualdade e da união; depois, o prelo viera favorecer poderosamente a divulgação desse princípio, e por fim a grande Revolução Francesa fizera dele uma lei. Por razões pouco definíveis, mas muito reais, parecia isso sumamente confuso ao jovem Hans Castorp, se bem que o Sr. Settembrini o formulasse em palavras tão claras e tão belas. Uma vez – contou o italiano –
uma única vez na vida, ao começo da sua maturidade, o avô sentira-se plenamente feliz: foi ao receber a notícia da Revolução de Julho em Paris. Em altos brados e publicamente proclamara então que todos os homens, um dia, equiparariam aqueles três dias de Paris aos seis dias da Criação. Nesse instante, Hans Castorp não pôde evitar bater com o punho na mesa e experimentar uma surpresa extraordinária. Achava um pouco forte colocar os três dias de verão do ano de 1830, durante os quais os parisienses haviam dado a si próprios uma nova Constituição, ao lado dos seis dias no decorrer dos quais Deus, Nosso Senhor, separara a terra firme da água e criara as luzes eternas do firmamento, bem como as flores, as árvores, as aves, os peixes e tudo quanto vive; e ainda mais tarde, ao conversar a sós com seu primo Joachim, disse expressamente que essa afirmação lhe parecia muito forte e até mesmo chocante.
Mas estava disposto a deixar-se influenciar, no sentido do provérbio segundo o qual era agradável experimentar. Assim refreou o protesto que sua piedade e seu bom gosto faziam contra a concepção settembriniana das coisas, ponderando que aquilo que se lhe afigurava blasfêmia podia ser qualificado de audácia, e que as aparentes banalidades talvez tivessem sido manifestações de generosidade e nobre entusiasmo, pelo menos naquele país e naquela época, como, por exemplo, quando o avô de Settembrini chamara as barricadas “o trono do povo” e declarara que cumpria “consagrar a lança do cidadão sobre o altar da humanidade”.
Hans Castorp sabia por que escutava os discursos do Sr. Settembrini; não que fosse capaz de explicar os motivos com clareza, mas sabia-os. Havia entre eles uma espécie de senso do dever, além daquela ausência de responsabilidade, peculiar às férias de um viageiro e visitante, que não se fecha a nenhuma impressão e deixa as coisas se aproximarem, na certeza de que amanhã ou depois abrirá as asas e voltará à ordem habitual. Era, por conseguinte, como que uma voz da consciência, e para ser exato, o preceito e a exortação da sua consciência pesada, o que o induzia a prestar atenção ao italiano -sentado de pernas cruzadas, a fumar o Maria Mancini, ou subindo com ele e o primo pela estrada que conduzia do bairro inglês ao Berghof.
Segundo as digressões de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a.posse do mundo: a força e o direito, a tirania e a liberdade, a superstição e a ciência, o princípio da estagnação e o do movimento efervescente, do progresso. Podia-se chamar a um o princípio asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da atividade transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso inerte.
Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das duas forças terminaria por triunfar; só poderia ser a da luz, a do aperfeiçoamento guiado pela razão. Pois a humanidade arrastava mais e mais povos pelo seu caminho brilhante; ganhava cada vez mais terreno na própria Europa e estava a ponto de penetrar na Ásia. No entanto, faltava ainda muito para que a sua vitória fosse completa, e grandes, magnânimos esforços eram exigidos dos homens de boa vontade, dos que haviam recebido a luz, até que raiasse o dia em que desmoronassem as monarquias e as religiões também naqueles países que na verdade nunca tinham gozado o seu século XVIII nem seu ano de 1789.
Mas esse dia haveria de chegar, disse Settembrini, esboçando um fino sorriso sob a curva do bigode. Se não chegasse pelos pés das pombas, chegaria sobre as asas das águias. Nasceria como a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da razão, da ciência e do direito.
Acarretaria a santa aliança da democracia dos cidadãos, em esplêndido contraste com aquela três vezes infame aliança dos príncipes e dos gabinetes, cujo inimigo mortal foi o avô Giuseppe; numa palavra, a República Universal. Mas, para alcançar esse objetivo final era, antes de mais nada, necessário ferir o princípio asiático, o princípio servil da inércia, no centro e no nervo vital da sua resistência, que era Viena. Tratava-se de vencer, de aniquilar a Áustria, primeiro para tirar desforra das suas façanhas do passado, e depois para encaminhar o reino da justiça e da felicidade sobre a terra.
Esse último rumo e essa conclusão das altissonantes expansões de Settembrini já não interessavam a Hans Castorp. Causavam-lhe desagrado e até o chocavam porque via neles a expressão de um rancor pessoal ou nacional, cada vez que se repetiam. No que tocava a Joachim Ziemssen – quando ele ouvia o italiano discorrer dessa forma, voltava mesmo a cabeça, de cenho carregado, e cessava de escutar; às vezes também dizia que estava na hora do repouso ou tentava mudar de assunto. Hans Castorp tampouco se sentia obrigado a prestar atenção a idéias tão extravagantes, que, evidentemente, ultrapassavam os limites das influências que a voz da sua consciência lhe aconselhava admitir, a título de experiência; e essa voz era todavia tão forte que ele próprio se punha a pedir ao Sr. Settembrini lhe explanasse as suas idéias, sempre que o italiano ia sentar-se à mesa dos primos ou os acompanhava durante um passeio.
Essas idéias, esses ideais e essas aspirações, observou Settembrini, faziam parte das tradições da sua família. Pois os três lhe haviam consagrado a vida e as forças do espírito: o avô, o pai e o neto, cada qual à sua maneira, o pai não menos que o avô, se bem que não tivesse sido,
como este, um agitador político e um paladino da liberdade, senão um sábio quieto e delicado, um humanista que vivia amarrado à sua escrivaninha. Mas, que era afinal o humanismo? Era o amor aos homens, nada mais, nada menos, e por isso mesmo implicava também a política, a insurreição contra tudo quanto mancha e desonra a dignidade humana. .Haviam censurado ao humanismo o apreço exagerado da forma; mas ele cultivara a bela forma unicamente por amor à dignidade humana, em esplêndida oposição à Idade Média, que vivia não só entregue à misantropia e à superstição, como também enfeada por uma ignominiosa falta de forma. Desde os seus inícios, defendera a causa do homem, os interesses terrenos, a liberdade do pensamento e o prazer de viver, opinando que o céu, por motivos de eqüidade, pertencia aos pardais. Ah, Prometeu! Fora ele o primeiro humanista e idêntico àquele Satã, ao qual Carducci dedicara o seu hino... Oh, meu Deus, se os primos pudessem ouvir como o velho inimigo da Igreja, em Bolonha, maldizia e zombava da sensibilidade cristã do Romantismo! Dos hinos sacros de Manzoni! Da poesia de sombras e luares dos românticos, que ele comparava à “Lua, a pálida monja celeste!” Per Bacco, que prazer sublime, escutar esse homem! E também deveriam ter ouvido Carducci interpretando Dante: celebrara-o como cidadão de uma metrópole, que defendia, contra a ascese e a negação do mundo, a força ativa que revolucionava e melhorava o mundo. Ora vejam, não era a sombra enfermiça e mística de Beatriz a quem o poeta honrava sob o nome de “donna gentile e pietosa”; pelo contrário, assim designava a esposa que no poema representava o princípio do conhecimento das coisas deste mundo e da atividade prática na vida.
Dessa maneira, Hans Castorp aprendia isto e aquilo sobre Dante, e da melhor das fontes.
Não se fiava irrestritamente nesses seus novos conhecimentos, dado o espírito estouvado de quem lhe servia de intermediário. Mesmo assim, valia a pena saber que Dante fora um cidadão de uma metrópole e tivera um espírito vivaz. E a seguir, Hans Castorp prestava atenção ao que Settembrini contava de si próprio. Declarava o italiano que no neto Lodovico, isto é, em sua pessoa, se haviam combinado as tendências dos seus ascendentes imediatos, a cívica do avô e a humanística do pai. Assim ele se tornara um literato, um escritor livre. Pois a literatura não era outra coisa senão isto: a associação de humanismo e política, associação que se realizava com a maior naturalidade, visto o próprio humanismo ser política e a política significar humanismo... A essa altura das explanações, Hans Castorp escutava com grande atenção, esforçando-se por compreender tudo direitinho; pois esperava aprender finalmente em que consistia a crassa ignorância do cervejeiro Magnus e ficar sabendo por que a literatura era outra coisa que não