A Montanha Mágica
Behrens estava encantado; sentia-se lisonjeado até o…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Chamava-se isso o último tributo, apesar de ser rendido antes em consideração aos vivos do que ao morto. Era preciso fazê-lo a tempo, imediatamente depois da morte; pois, uma vez formada a miosina nos músculos, tornava-se impossível; então o cadáver permanecia estendido, olhando fixamente, e já não se podia manter a doce ilusão do “adormecimento”.
Como perito, sentindo-se no seu elemento sob mais de um aspecto, Hans Castorp detinha-se ao lado da cama, cheio de competência, mas também de piedade. – Parece dormir –
disse por compaixão, se bem que houvesse grandes diferenças. A seguir, numa voz convenientemente abafada, entabulou uma conversa com a viúva do aristocrata, informando-se sobre o martírio do marido, sobre os últimos dias e instantes, e sobre o futuro transporte do corpo para a Caríntia. A simpatia e a compreensão que suas perguntas demonstravam tinham um caráter ao mesmo tempo médico e sacerdotal. A viúva expressava-se no seu dialeto austríaco, numa fala arrastada e fanhosa, às vezes interrompida por soluços. Pareceu-lhe notável que dois jovens manifestassem tanta disposição para participar da mágoa alheia; ao que Hans Castorp respondeu que seu primo e ele também estavam enfermos; quanto à sua própria pessoa, já se achara, em idade muito tenra, junto ao leito de morte de parentes próximos; era órfão de pai e mãe, e por conseguinte familiarizado com a morte havia muito tempo. Ela indagou pela profissão que Hans Castorp escolhera. Ele explicou que “fora” engenheiro. Fora? Sim, no sentido de que agora a enfermidade e a duração bastante incerta da sua permanência ali em cima lhe haviam estorvado os planos, o que, indubitavelmente, representava um marco importante e talvez um novo rumo para a sua existência. Isso não se podia prever. (Joachim lançou-lhe um olhar observador e espantado.) – E o senhor seu primo? – perguntou ela.
– Ele deseja ser soldado, lá embaixo. É aspirante.
– Ah! – disse a viúva, e acrescentou que a profissão militar era, com efeito, apropriada para induzir à seriedade. Um soldado devia andar preparado para certas circunstâncias que o pusessem em contato direto com a morte. Talvez lhe fizesse bem habituar-se desde cedo ao seu aspecto. E ela despediu os jovens, expressando gratidão com uma calma amável que não podia deixar de causar respeito a quem considerasse a sua situação angustiosa e, sobretudo, a elevada conta de oxigênio que lhe legara o marido. Os primos voltaram aos seus quartos. Hans Castorp mostrou-se satisfeito com a visita e piedosamente inspirado pelas impressões que acabava de receber.
– Requiescat in pace – disse. – Sit tibi terra levis. Requiem aeternam dona ei, Domine. Você está vendo, quando se trata da morte, ou quando a gente se dirige a um morto ou se refere a ele, o latim entra novamente nos seus direitos. É a língua oficial para esses casos. Vê-se que a norte é coisa bem especial. Mas não é por mera cortesia humanística que se fala latim em sua honra. A língua dos mortos não é o latim que se aprende na escola, sabe? Tem um espírito muito diferente, um espírito completamente oposto, pode-se dizer. É o latim sacro, o dialeto monacal, é a Idade Média, em certo sentido, um canto surdo, monótono, que sai de baixo da terra. Settembrini não
gostaria dele; isso não agrada a humanistas e republicanos e a esse tipo de pedagogos; nasceu de outra mentalidade, da outra das duas que existem. Acho que devemos adquirir clareza a respeito das diferentes tendências do espírito, ou talvez seja melhor dizer: a respeito dos seus diferentes estados. Há duas atitudes: a livre e a piedosa. Ambas têm as suas vantagens, mas o que me faz antipatizar com a atitude livre, quero dizer, a de Settembrini, é que ela pretende ter o monopólio da dignidade. Isso é exagerado. A outra atitude encerra também, a seu modo, muita dignidade humana e resulta num vasto conjunto de decência, de procedimento correto e de nobre cerimonial, muito mais do que a atitude livre, embora vise especialmente à fraqueza e à instabilidade dos homens e nela desempenhe um papel importante o pensamento da morte e da decomposição. Você já viu no teatro o Dom Carlos e as coisas que se passam na corte espanhola, quando entra o Rei Filipe todo vestido de preto, com a Ordem da Jarreteira e a do Tosão de Ouro, e tira lentamente o chapéu, que se parece muito com os nossos chapéus-coco. Levanta-o e diz: “Cobri-vos, meus grandes!” ou qualquer coisa nesse sentido. Não se pode negar que isso é um comportamento sumamente comedido. Nele nada nos lembra relaxamento e costumes descuidados. Pelo contrário, a própria rainha diz: “Na minha França tudo era diferente”. Claro, ela acha que tudo isso é excessivamente complicado e meticuloso; desejaria um ambiente mais alegre, mais humano. Mas que quer dizer humano? Tudo é humano. O elemento devoto, humildemente solene, rigorosamente regulado, que é peculiar aos espanhóis, é um gênero muito digno da humanidade, penso eu, e por outro lado essa palavra “humano” pode encobrir qualquer desordem e negligência. Não está de acordo?
– Nesse ponto concordo com você – disse Joachim. – Eu também não suporto a negligência e a moleza. A disciplina é indispensável.
– Pois é. Você diz isso como militar, e eu não nego que no exército entendem desse assunto. A viúva tinha perfeitamente razão quando asseverou que o ofício de vocês tem um caráter sério, porque é sempre preciso contar com a pior das eventualidades e estar preparado para um encontro com a morte. Vocês têm o uniforme que é limpo e justo e requer um colarinho engomado. Essas coisas dão às pessoas um certo decoro. E existem ainda a hierarquia e a obediência, e um soldado presta honra ao outro, cerimoniosamente. Tudo isso se faz dentro do espírito espanhol, por devoção, e no fundo me agrada bastante. Entre nós, os civis, deveria haver muito mais desse espírito, nos nossos costumes e na nossa atitude. É o que eu prefiro e que julgo conveniente. Parece-me que o mundo e a vida foram feitos de tal sorte que deveríamos sempre andar de preto, com uma golilha engomada em lugar do colarinho, e manter uns com os outros relações graves, reservadas e formais, recordando-nos da morte. Eu gostaria que fosse assim.
Acho que isso corresponde à moral. Olhe, aí temos mais um desses erros e dessas presunções de Settembrini. É ótimo que a nossa conversa me proporcione uma oportunidade para falar sobre isso. Ele imagina ter monopolizado não somente a dignidade humana, mas também a moral, por causa da sua “atividade prática” e das suas solenidades domingueiras em prol do progresso –
como se precisamente nos domingos não se pensasse em coisas bem alheias ao progresso – e com o seu extermínio sistemático dos males; é esse um assunto de que você não está inteirado, mas do qual ele me falou para me instruir. O homem quer exterminá-los sistematicamente, por meio de uma enciclopédia. E se justamente isso me parece imoral?... Claro que não o digo a ele, porque logo me esmagaria com a sua lábia plástica e diria: “Eu o estou prevenindo, engenheiro!”
Mas pelo menos tenho o direito de pensar o que quero. “Majestade, conceda-nos liberdade de pensamento!” Vou lhe dizer uma coisa – acrescentou. Nesse meio tempo haviam chegado ao quarto de Joachim, e este se preparava para o repouso. – Vou lhe dizer o que tenho a intenção de fazer. Vivemos aqui lado a lado com pessoas agonizantes e com o mais grave sofrimento e martírio, mas essa gente não só se comporta como se nada tivesse que ver com isso, mas também é protegida e abrigada contra o mínimo contato com essas coisas e contra o seu aspecto. Tenho certeza de que farão desaparecer o aristocrata austríaco, clandestinamente, enquanto estivermos almoçando ou tomando o chá da tarde. Acho isso contrário à moral. A Stöhr já ficou furiosa, quando apenas mencionei o falecimento. Não suporto tamanha estupidez. Que ela não tenha a
mínima cultura e pense que “Leise, leise, fromme Weise” é do Tannhäuser, como afirmou há poucos dias à mesa, vá lá; mas, com tudo isso, poderia ter sentimentos um pouco mais morais, e os outros também. Por isso me propus ocupar-me no futuro dos enfermos graves e dos moribundos da casa. Isso me fará bem. Essa visita que acabamos de fazer também me animou, em certo sentido. O coitado do Reuter, do número 25, aquele rapaz que eu vi através de uma frincha da porta, logo nos primeiros dias da minha estadia aqui, provavelmente se encaminhou ad penates, há muito tempo, e foi escamoteado discretamente. Já naquela ocasião tinha os olhos exageradamente dilatados. Mas restam muitos outros; a casa está cheia, e nunca faltam entradas novas. A Irmã Berta ou a Superiora, ou talvez o próprio Behrens nos ajudarão certamente a entrar em relações com algumas dessas pessoas. Isso não pode ser difícil. Supondo que um moribundo esteja fazendo anos, e a gente fique sabendo da data... São coisas que se podem descobrir. Pois bem, enviaremos ao quarto desse homem, ou dessa senhora – a ele ou a ela, segundo o caso –, um vaso com flores, como atenção de dois companheiros anônimos, com os nossos melhores votos para o seu restabelecimento – a palavra “restabelecimento”, por pura cortesia, nunca deixa de ser adequada. Naturalmente acabarão por revelar os nossos nomes às referidas pessoas, e ele ou ela, no seu estado de fraqueza, manda-nos, através da porta, uns cumprimentos amáveis, e talvez nos convide para entrarmos um instante no seu quarto. Então trocaremos algumas palavras humanas com essa pessoa, antes de ela se desagregar. É assim que eu imagino a coisa. Você está de acordo?
Quanto a mim, estou resolvido.
Joachim pouco tinha que opor a esse projeto. – É contrário ao regulamento da casa –
disse. – Sob certo ponto de vista, você o infringiria. Mas, excepcionalmente, e como você insiste tanto, pode ser que o Behrens lhe dê a licença. Refira-se ao seu interesse pela medicina.
– Sim, entre outras coisas vou me referir a isso também – respondeu Hans Castorp, e, realmente, os motivos de que nascera o seu desejo eram complexos. O protesto contra o egoísmo reinante era apenas um dentre eles. O que ainda contribuía para a sua decisão era, antes de tudo, a necessidade que experimentava o seu espírito de tomar a sério e de poder honrar o sofrimento e a morte; necessidade que ele esperava satisfazer e fortificar pelo contato com os enfermos graves e os agonizantes; tal contato compensaria os múltiplos insultos a que a dita necessidade se via exposta a cada passo, cada dia e cada momento, e que confirmavam, de um modo chocante, certas opiniões de Settembrini. Exemplos que corroborassem isso existiam em abundância. Se interrogássemos Hans Castorp, ele citaria, talvez, em primeiro lugar certos habitantes do Berghof que, segundo a sua própria confissão, absolutamente não estavam doentes e viviam ali por livre e espontânea vontade, sob o pretexto oficial de uma ligeira infecção, mas em realidade só para se divertir, e porque lhes comprazia o estilo de vida dos enfermos; um caso desses era a viúva Hessenfeld, já mencionada ocasionalmente, mulher muito viva cuja paixão era apostar. Apostava com os cavalheiros, apostava a respeito de qualquer assunto, apostava no tempo que haveria, nos pratos que seriam servidos, nos resultados dos futuros exames gerais e no número de meses que seriam impostos a determinada pessoa, em certos trenós, campeões de esqui ou de patinação, quando das competições desportivas, no desenvolvimento das intrigas amorosas que eram tecidas entre os pensionistas, enfim, em mil coisas na sua maioria insignificantes e indiferentes; apostava chocolate, champanha ou caviar, que então eram solenemente consumidos no restaurante, apostava dinheiro, entradas de cinema e beijos a dar ou a receber – numa palavra, com essa sua mania animava e enchia de vida a sala de refeições. Mas tal conduta afigurava-se pouco séria ao jovem Hans Castorp, e a sua simples existência parecia-lhe uma afronta à dignidade desse lugar de sofrimentos.
Pois, no íntimo, ele se empenhava lealmente em proteger essa dignidade e em mantê-la perante si próprio, por mais difícil que isso se lhe tornasse depois de quase meio ano de permanência entre os dali de cima. Os olhares que pouco a pouco conseguira lançar à vida, às atividades, aos hábitos e aos conceitos desse pessoal não eram apropriados para incrementar a sua boa vontade. Havia lá aqueles dois peralvilhos magros, de dezessete e dezoito anos, respectivamente, e cognominados de “Max e Moritz”; suas escapadas noturnas, com o fim de
jogar pôquer ou de cair na bebedeira, davam abundante assunto às conversas do mundo feminino. Recentemente, isto é, oito dias depois do Ano-Novo – não nos esqueçamos de que, enquanto contamos a nossa história, o tempo progride sem descanso no seu curso silencioso –, difundiu-se, durante o almoço, a notícia de que o massagista encontrara, em plena manhã, os dois rapazes estendidos sobre as suas camas, ainda trajando os smokings amarrotados. Também Hans Castorp se riu disso; mas essa história, por mais que lhe envergonhasse os sentimentos elevados, não era nada em comparação com as aventuras do advogado Einhuf, de Jüterbog, um quarentão com cavanhaque e com mãos cobertas de pêlos negros, que fazia algum tempo ocupava, à mesa de Settembrini, o antigo lugar do sueco restabelecido; não somente voltava ele noite após noite a casa em estado de completa embriaguez, mas alguns dias atrás nem sequer regressara, sendo encontrado no dia seguinte estatelado no jardim. Passava por um estróina perigoso, e a Srª. Stöhr era capaz de apontar com o dedo para a jovem noiva de um senhor na planície, que, a determinada hora, fora vista saindo do quarto de Einhuf, envolta unicamente num abrigo de peles, sob o qual, segundo o que se afirmava, havia apenas uma combinação. Era escandaloso, não só com respeito à moral em si, mas também escandaloso e ofensivo para Hans Castorp pessoalmente, em consideração aos seus esforços espirituais. Acrescia a isso que ele era incapaz de pensar na pessoa do advogado, sem incluir nos seus pensamentos também Fränzchen Oberdank, aquela mocinha de cabelos lisos, que havia poucas semanas chegara ali, apresentada pela mãe, uma digna matrona provinciana. Quando da sua chegada e após o primeiro exame, Fränzchen Oberdank fora considerada um caso leve. Mas, seja porque houvesse cometido alguma imprudência, seja porque se tratasse de um daqueles casos em que o ar era bom não para combater, senão para fomentar a doença, ou seja ainda porque a pequena se tivesse enredado em certas intrigas e desgostos que lhe tinham prejudicado a saúde – em todo caso sucedeu o seguinte quatro semanas depois do seu internamento: ao voltar de um segundo exame e ao entrar na sala de refeições, jogou a bolsinha ao ar e exclamou em voz muito alta: “Viva! Tenho de ficar aqui um ano inteiro!”, o que provocou uma gargalhada homérica em toda a sala. Quinze dias após, porém, circulou o rumor de que o advogado Einhuf se portara como um canalha para com Fränzchen Oberdank. Aliás, essa expressão é nossa, ou melhor: vai por conta de Hans Castorp, já que os portadores do boato não julgavam o assunto de natureza bastante inédita para justificar palavras tão violentas. Além disso, deram a entender, encolhendo os ombros, que para tais coisas era indispensável a presença de duas pessoas e que, sem dúvida, nada ocorrera sem o consentimento e o desejo de ambos os interessados. Pelo menos era essa a atitude e a opinião moral da Srª. Stöhr diante do caso em apreço.
Carolina Stöhr era simplesmente horrorosa. Se havia algo capaz de perturbar Hans Castorp nos seus sinceros esforços espirituais era a existência e o comportamento dessa mulher.
Suas gafes contínuas já teriam bastado. Dizia “agônia” em vez de “agonia”, “insolvente” em lugar de “insolente”, e produzia as mais espantosas tolices sobre os fenômenos astronômicos que originavam um eclipse solar. Afirmava que o excesso de neve era um verdadeiro “flagício”, e certo dia provocou a prolongada surpresa do Sr. Settembrini ao dizer que estava lendo um livro, tirado da biblioteca do estabelecimento, e que lhe interessaria: “Benedetto Cenelli, na tradução de Schiller”3. Ela usava de preferência lugares-comuns que atacavam os nervos do jovem Hans Castorp, devido à sua insipidez e à vulgaridade inerente a locuções em moda, como, por exemplo,
“É de tirar o chapéu” ou “É um colosso”. E como o adjetivo “formidável”, que o linguajar da moda durante muito tempo usara em lugar de “esplêndido” ou “perfeito”, se mostrasse totalmente gasto, debilitado, prostituído e, por isso, antiquado, adotou ela o último grito, que era a palavra “fenomenal”, achando desde então, seriamente ou por brincadeira, tudo fenomenal, a pista de trenós tanto como a sobremesa vienense e a temperatura do seu próprio corpo – o que igualmente causava uma impressão asquerosa. Acrescia a isso a sua desmedida mania de mexericar. Que ela contasse que a Srª. Salomon usava hoje a sua mais preciosa calcinha de rendas, 3 Referência a Vita, memórias do escultor Benvenuto Cellini, traduzidas por Goethe. (N. do E.)
visto ter hora marcada para um exame e ostentar nessas horas a sua roupa-branca mais fina diante dos médicos, seria ainda admissível; o próprio Hans Castorp já tivera a impressão de que o ato do exame médico, independente do seu resultado, causava prazer às senhoras, que para essa ocasião se enfeitavam com uma garridice toda especial. Mas, que se deveria pensar quando a Srª. Stöhr assegurava que a Srª. Redisch, de Posen, suspeita de sofrer de tuberculose da medula espinhal, era obrigada a marchar uma vez por semana, completamente nua diante do Dr. Behrens? A inverossimilhança dessa afirmação quase igualava o seu caráter escabroso, mas a Srª. Stöhr defendia-a com a maior obstinação e jurava dizer a verdade, apesar de ser difícil compreender por que a coitada despendia tanto zelo, ênfase e insistência em tais assuntos, uma vez que suas próprias preocupações já lhe davam bastante que fazer. De vez em quando acossavam-na acessos de um desassossego covarde e lamuriento, motivado aparentemente por um aumento da sua
“lassidão” ou pela ascensão da sua curva. Chegava ela então à mesa soluçando, as faces ásperas e vermelhas inundadas de lágrimas; abafando o choro com o lenço, contava que o Behrens tencionava metê-la na cama; mas ela queria saber o que o médico dissera às suas costas, queria saber o que tinha, o que seria dela, queria arrostar a verdade. Com grande espanto notou certo dia que os pés da sua cama achavam-se dirigidos para o portão de entrada, e quase que desfaleceu ao fazer essa descoberta. Sua raiva e seu horror não foram compreendidos imediatamente; sobretudo Hans Castorp custou a encontrar uma explicação plausível. E daí? Como era isso? Por que não devia a cama estar colocada dessa maneira? – Mas, por amor de Deus, o senhor não compreende? “Com os pés para a frente!...” – Fez um estardalhaço medonho, e foi necessário mudar a posição da cama, se bem que, depois, a luz lhe desse em pleno rosto e lhe prejudicasse o sono.
Tudo isso não era sério e ajudava muito pouco as aspirações espirituais de Hans Castorp.
Um incidente pavoroso, que naquela época ocorreu durante uma das refeições, causou ao jovem uma impressão particularmente profunda. Um pensionista recém-chegado, o Professor Popov, homem macilento e taciturno, que tinha o seu lugar à mesa dos “russos distintos”, em companhia da sua noiva igualmente magra e silenciosa, foi tomado, no meio do almoço, por um violento ataque de epilepsia; lançando aquele grito cujo caráter demoníaco e inumano tem sido descrito freqüentemente, caiu ao chão e revirou-se ao lado da cadeira, nas mais horripilantes contorções, agitando os braços e as pernas. Acrescia a isso uma circunstância agravante: acabavam de servir um prato de peixe, de maneira que era de recear que Popov, no seu enlevo convulsivo, cravasse alguma espinha na garganta. O tumulto foi indescritível. As mulheres – em primeiro lugar a Srª.
Stöhr, sem que, no entanto, lhe ficassem atrás as senhoras Salomon, Redisch, Hessenfeld, Magnus, Iltis, Levi, etc. – tiveram os mais variados chiliques, a ponto de algumas se igualarem ao Sr. Popov. Seus gritos eram estridentes. Não se via mais que olhos histericamente cerrados, bocas abertas e corpos retorcidos. Uma única senhora preferiu desmaiar em silêncio. Houve crises de sufocação, já que todos haviam sido surpreendidos pelo tremendo incidente no ato de mastigar e de engolir. Parte dos pensionistas desapareceu por tudo que era porta, também pelas do avarandado, não obstante o frio e a umidade que reinavam fora. Mas essa ocorrência tinha, além do seu caráter horrendo, ainda um cunho especial e chocante, em virtude de uma associação de idéias que se impunha e a relacionava com a última conferência do Dr. Krokowski. É que o analista, no decorrer das suas explanações acerca do amor como fator patogênico, tratara justamente na segunda-feira passada da epilepsia; esse mal que a humanidade, em tempos pré-analíticos, considerara alternadamente uma prova sagrada, até mesmo profética, e uma possessão do Demônio – o Dr. Krokowski qualificara-o, em termos ora poéticos, ora inexoravelmente científicos, de equivalente do amor e de orgasmo do cérebro; numa palavra, interpretara-o de tal forma que, aos seus ouvintes, o comportamento do Professor Popov, espécie de ilustração da conferência, afigurava-se como uma revelação descomedida ou um escândalo misterioso. Assim se exprimiu um certo pudor na fuga das senhoras. O próprio Dr. Behrens assistiu a essa refeição, e foi ele, com o auxílio da Mylendonk e de alguns companheiros de mesa jovens e robustos, quem retirou da sala o extático, azul, espumejante, rígido e desfigurado, e o transportou ao
vestíbulo, onde Popov permaneceu ainda muito tempo sem sentidos, enquanto os médicos, a Superiora e outros membros do pessoal da casa se ocupavam com ele, antes de o levar numa padiola. Pouco depois, porém, viu-se de novo o Professor Popov, com a noiva, à mesa dos
“russos distintos”, terminando, silenciosos e satisfeitos, o almoço, como se nada tivesse acontecido.
Hans Castorp presenciara o incidente com os sinais exteriores de um respeitoso espanto, se bem que, no fundo, também isso não lhe parecesse muito sério, Deus o perdoe! Verdade é que Popov poderia ter se engasgado, por estar com a boca cheia de peixe; mas, em realidade, não se engasgara; apesar da fúria e do paroxismo inconsciente, ainda tivera um pouco de cuidado e fazendo como se jamais se tivesse comportado qual um louco ou um ébrio raivoso. Talvez nem sequer se lembrasse do ocorrido. Essa figura tampouco era de molde a fortalecer o respeito que Hans Castorp sentia diante do sofrimento; também ela aumentava, à sua maneira, o número das impressões de licenciosidade frívola, às quais o jovem, malgrado seu, se via exposto ali em cima, e que desejava enfrentar por meio de uma ocupação com os doentes graves e moribundos, ainda que isso fosse contrário ao uso estabelecido.
No andar dos primos, não longe dos seus quartos, achava-se acamada uma mocinha muito nova ainda, de nome Leila Gerngross, a qual, segundo as informações da Irmã Berta, estava a ponto de morrer. No espaço de dez dias tivera quatro hemoptises violentíssimas, e seus pais acabavam de chegar, a fim de levá-la para casa, enquanto viva, se fosse possível. Tornara-se manifesto, porém, que isso era impraticável. O conselheiro declarara que a pobre da pequena Gerngross não poderia ser transportada. Tinha ela dezesseis ou dezessete anos. Hans Castorp achou que esta era a oportunidade desejada para realizar o seu projeto do vaso de flores e dos votos de restabelecimento. Na verdade, Leila não estava fazendo anos, o que, segundo as previsões humanas, nunca mais ocorreria, já que a data do seu aniversário, como Hans Castorp descobrira, só chegaria na primavera. Mas – opinou ele – isso não devia constituir nenhum obstáculo à tal homenagem caridosa. Num dos seus passeios do meio-dia pela zona da estância balneária, entrou junto com o primo na loja de um florista, respirando com o peito emocionado a atmosfera carregada de perfumes e de um cheiro de terra úmida. Comprou um lindo pé de hortênsias, que enviou ao quarto da jovem moribunda, anonimamente, com um cartão, no qual se lia apenas: “Da parte de dois companheiros, com os melhores votos para o seu pronto restabelecimento”. Sentiu-se alegre ao dar a respectiva ordem, agradavelmente entontecido pelo aroma das plantas e o tépido ar da loja, que, depois do frio exterior, lhe fazia lacrimejar os olhos; seu coração palpitava, e enchia-o uma sensação de aventura, de audácia e do caráter oportuno dessa empresa insignificante, à qual atribuía, em segredo, uma envergadura simbólica.
Leila Gerngross não tinha enfermeira particular; achava-se confiada aos cuidados imediatos da Srta. von Mylendonk e dos médicos. No entanto, a Irmã Berta entrava a toda hora no seu quarto, e foi ela quem informou os jovens quanto ao efeito que produzira a atenção deles.
A pequena, naquele mundo estreito em que a confinava o seu estado desesperador, sentira um prazer louco ante a saudação procedente de mãos desconhecidas. A planta achava-se ao lado da cama; a mocinha acariciava-a com os olhos e as mãos, fazia questão que a regassem, e mesmo durante os piores acessos de tosse que a sacudiam ainda mantinha cravados nela os olhos torturados. Também os pais, o major aposentado, Sr. Gerngross, e sua esposa, estavam comovidos e simpaticamente impressionados, e como não conhecessem os habitantes da casa e não soubessem adivinhar o nome dos ofertantes, a Srta. Schildknecht não pudera deixar – como ela própria confessou – de correr o véu do anonimato e de designar os primos como os autores do mimo. Transmitiu-lhes o convite dos três Gerngross, para que fossem apresentar-se e receber a expressão da sua gratidão. Aconteceu pois que, dois dias após, conduzidos pela enfermeira, pisassem sobre a ponta dos pés na câmara de martírio de Leila.
A agonizante era uma criatura sumamente graciosa, lourinha, com uns olhos cor de miosótis; apesar das terríveis perdas de sangue e de uma respiração realizada apenas com um resto insuficiente de tecido pulmonar aproveitável, oferecia um aspecto sem dúvida frágil, mas,
no fundo, nada lastimoso. Agradeceu e iniciou a conversa numa voz agradável, embora apagada.
Um brilho rosado surgiu-lhe nas faces e nelas permaneceu. Hans Castorp, após ter explicado os motivos da sua ação aos pais e à enferma e quase se ter desculpado por ela, falou numa voz abafada e comovida, cheio de carinhosa deferência. Faltou pouco – e em todo caso existiu o impulso íntimo nesse sentido – para que ajoelhasse ao pé da cama. Durante muito tempo conservou a mão de Leila entre as suas, posto que essa mãozinha quente não estivesse apenas úmida, mas até alagada de suor, pois a menina transpirava abundantemente; suava com tamanha intensidade que sua carne deveria ter-se encolhido e estiolado há muito tempo, não fosse para compensar a transudação, o consumo ávido de limonada, que se achava numa garrafa sobre o criado-mudo. Os pais, aflitos como estavam, mantinham a conversa, em conformidade com o bom-tom, por meio de perguntas a respeito do estado de saúde dos primos e de outros recursos convencionais. O major era um homem espadaúdo, de testa baixa e bigode eriçado, um gigante, cuja inocência orgânica quanto à disposição mórbida e ao físico débil da filha era manifesta.
Parecia óbvia a responsabilidade da mulher, uma baixinha de tipo decididamente tísico, cuja consciência se mostrava deveras pesada em virtude da herança que legara à filha. Quando Leila, ao cabo de dez minutos, deu sinais de fadiga – o rosado das faces intensificou-se, enquanto os olhos de miosótis brilharam de forma inquietante – e os primos, advertidos pelos olhares da Irmã Alfreda, despediram-se, a Srª. Gerngross acompanhou-os até fora do quarto, entregando-se a acusações a si própria, que emocionaram singularmente Hans Castorp. Ela, só ela, podia ter a culpa – afirmou a mulher totalmente compungida –, era exclusivamente por sua causa que a pobre menina tinha “aquilo”; o marido nada tinha que ver com a coisa, era absolutamente inocente. Mas também ela – assim assegurou – não sofrera do mal, senão de forma passageira, leve e superficial, quando mocinha. Depois se curara por completo, como lhe haviam garantido, quando quisera casar-se. Gostava tanto da vida e do casamento, que assim conseguira a cura; ao entrar no matrimônio já estava completamente sadia e restabelecida, e seu querido esposo, forte como um carvalho, nunca pensara em tais histórias. No entanto, por mais puro e vigoroso que fosse o marido, sua influência não pudera impedir a desgraça. Pois na filha, reaparecera o horror, o mal enterrado e esquecido, e a menina não fora capaz de vencê-lo, sucumbiria a ele, ao passo que ela própria, a mãe, triunfara e chegara a uma idade menos exposta. A coitadinha, a querida garota, ia morrer; os médicos já não davam nenhuma esperança, e somente a mãe tinha culpa disso, devido aos seus antecedentes.
Os jovens empenharam-se em consolá-la, sugerindo a possibilidade de um desfecho feliz.
Mas a mulher do major limitou-se a soluçar. Mais uma vez lhes agradeceu tudo quanto haviam feito pela filha, a hortênsia e a visita com a qual acabavam de distrair a menina e de lhe proporcionar um pouquinho de felicidade. A pobrezinha achava-se deitada ali, no seu tormento e na sua solidão, enquanto outras mocinhas gozavam a vida e dançavam com rapazes bonitos, desejo que a enfermidade absolutamente não aniquilava. Os primos haviam-lhe transmitido alguns raios de sol, talvez os últimos, infelizmente. O pé de hortênsia era como um triunfo num baile, e a conversa com os dois cavalheiros de boa aparência representara para a garota a mesma coisa que um interessante e rápido flerte, como ela – a mãe Gerngross – notara muito bem.
Essas palavras causaram a Hans Castorp impressão desagradável, sobretudo porque a mulher do major pronunciara a palavra “flerte”, não corretamente, à maneira inglesa, senão à alemã, com um nítido “i”, o que o irritou violentamente. Além disso não era ele um cavalheiro de boa aparência, mas visitara a pequena Leila em sinal de protesto contra o egoísmo reinante e num intuito entre médico e sacerdotal. Numa palavra, sentiu-se um tanto decepcionado pelo modo como terminara a empresa, pelo menos no que dizia respeito à opinião da mãe. De resto, porém, a realização do projeto deixou-o animado e satisfeito. Duas sensações, principalmente – o cheiro de terra na loja do florista e a umidade da mãozinha de Leila – haviam remanescido na sua alma e no seu espírito. E como dera o primeiro passo, combinou ainda no mesmo dia com a Irmã Berta uma visita ao paciente dela, Fritz Rotbein, que aborrecia terrivelmente, não só a enfermeira, mas
também a si próprio, conquanto, segundo todos os indícios, não lhe restasse mais do que pouco tempo de vida.
De nada adiantou a resistência do bom Joachim; não lhe foi possível esquivar-se. A atividade caritativa e o espírito empreendedor de Hans Castorp foram mais fortes do que a repugnância do primo, cuja manifestação se limitou ao silêncio e aos olhos baixos, uma vez que não poderia justificá-la sem faltar aos sentimentos cristãos.
Hans Castorp percebeu isso nitidamente e tirou partido desse fato. Compreendia também com a mais absoluta clareza o sentido militar daquela falta de entusiasmo. Ora, ele próprio sentia-se animado e feliz devido a essas iniciativas, que lhe pareciam proveitosas. Nesse caso era preciso não se importar com a silenciosa resistência de Joachim. Deliberaram juntos sobre se era conveniente mandar ou levar flores também ao jovem Fritz Rotbein, se bem que se tratasse de um moribundo de sexo masculino. Hans Castorp insistia em fazê-lo; na sua opinião, as flores eram indispensáveis; o precedente do pé de hortênsia, de cor violeta e de formas bonitas, agradara-lhe sobremaneira.
Assim, decidiu que o sexo de Rotbein era compensado por seu estado desesperador, e que não era preciso que o moço fizesse anos para receber flores, visto os agonizantes terem o direito irrestrito e permanente de ser tratados como aniversariantes. Assim disposto, foi mais uma vez, em companhia do primo, aspirar a atmosfera terrosa e tépida da loja de flores. Entraram, então, no quarto do Sr. Rotbein, com um ramalhete oloroso e recém-molhado de rosas, cravos e goivos, introduzidos por Alfreda Schildknecht, que anunciara a chegada dos jovens.
O moço gravemente enfermo, de apenas vinte anos, mas já um pouco calvo e grisalho, com uma tez de cera e o rosto emaciadado, tinha grandes mãos, grande nariz e grandes orelhas.
Quase chorou de tão grato pelo consolo e pela distração. Com efeito, tinha os olhos úmidos de fraqueza quando cumprimentou os dois primos e recebeu o ramo de flores. A seguir, porém, passou a falar, sem transição, embora num quase cochicho, sobre o comércio de flores na Europa e o seu crescente desenvolvimento, sobre a enorme exportação dos horticultores de Nice e de Cannes, sobre os vagões carregados e as remessas postais que saíam diariamente daqueles lugares em todas as direções; discorreu acerca dos mercados atacadistas de Paris e de Berlim, e do abastecimento da Rússia. Bem, ele era comerciante, e seus interesses continuariam orientados nesse sentido, enquanto houvesse vida nele. Seu pai, fabricante de bonecos em Coburgo, enviara-o à Inglaterra para educar-se – contou murmurando – e fora ali que adoecera. Mas haviam diagnosticado a sua moléstia febril como sendo de caráter tifóide e, tratando-a como tal, tinham-no submetido a um regime de sopas aguadas que o debilitara sobremaneira. Ali em cima lhe fora permitido comer, e ele o fizera; sentado na cama, esforçara-se por alimentar-se, com o suor no seu rosto. Entretanto, já era tarde. O mal, desgraçadamente, já lhe atacara os intestinos. Era inútil que lhe enviassem de casa línguas e enguias defumadas, visto ele não suportar mais nada. Agora, seu pai partira de Coburgo, chamado por um telegrama de Behrens. Ia-se fazer uma intervenção decisiva, a ressecção de costelas. Queriam tentá-la em todo caso, se bem que as probabilidades de êxito fossem mínimas. Rotbein cochichou a respeito de tudo isso com a maior objetividade, considerando também o problema da operação exclusivamente sob o ângulo comercial; enquanto vivesse, encararia qualquer assunto sob esse ponto de vista. O preço da intervenção – murmurou
–, inclusive a anestesia raquidiana, elevava-se a mil francos, pois tencionavam tirar quase todo o tórax, entre seis e oito costelas, e tratava-se de saber se o capital assim empatado daria algum lucro. O Behrens animava-o, mas tinha interesse evidente em fazer a intervenção, ao passo que o do paciente parecia duvidoso. Ninguém podia dizer-lhe se não era preferível morrer tranqüilamente, na posse de todas as suas costelas.
Era difícil aconselhá-lo. Os primos ponderaram que se deveria levar em conta a excelente técnica cirúrgica do conselheiro áulico. Concordaram em deixar a decisão ao velho Rotbein, que já se achava a caminho. Quando se despediram, o jovem Fritz voltou a chorar um pouquinho; as lágrimas que vertia, embora só fossem produto da sua debilidade, formavam um contraste singular com a seca objetividade da sua maneira de pensar e de falar. Rogou aos primos que repetissem a visita, o que eles prometeram de bom grado. Mas não tiveram ocasião de fazê-lo. O fabricante de bonecos chegou na mesma noite, e logo na manhã seguinte realizou-se a operação, depois da qual o jovem Fritz não se achava num estado que lhe permitisse receber visitas. E dois dias após, Hans Castorp, ao passar em companhia de Joachim pelo quarto de Rotbein, viu que ali se fazia uma faxina. A Irmã Berta, com a sua maleta, já saíra do Berghof, porque fora chamada com urgência para cuidar de um novo moribundo em outro estabelecimento. Suspirando, com o cordão do pince-nez atrás da orelha, encaminhara-se para ali, visto ser precisamente essa a única perspectiva que se lhe abria. Um quarto “abandonado”, um quatro livre, submetido a uma limpeza geral, com ambas as portas abertas e com os móveis empilhados uns sobre os outros, como podiam ver os que passassem por ele a caminho da sala de refeições ou tia saída – um quarto nessas condições oferecia um aspecto significativo e todavia tão costumeiro que mal impressionava as pessoas, e ainda menos a quem um dia se apossara de um quarto que acabava de ser “desocupado” e desinfetado dessa forma, e criara raízes nele. Às vezes se sabia quem acabava de ocupar o respectivo número, coisa que então dava o que pensar. Isso aconteceu no referido caso, como também oito dias depois, quando Hans Castorp, passando pelo aposento da pequena Gerngross, deparou com ele no mesmo estado. Dessa vez, seu espírito se opôs, de início, a aceitar o sentido da atividade que ali reinava. Deteve-se a olhar, pensativo e consternado, no momento em que o Dr. Behrens o encontrou por casualidade.
– Eu estava olhando a faxina – disse Hans Castorp. – Bom dia, senhor conselheiro. A pequena Leila...
– Pois é! – disse Behrens, dando de ombros. Depois de um instante de silêncio, que permitiu a esse gesto produzir o seu efeito, acrescentou: – Pouco antes do final, o senhor ainda se apressou a cortejá-la segundo a regra, não é? Acho muito gentil da sua parte que demonstre algum interesse aos pobres dos pulmões assobiantes nas suas gaiolas, tanto mais que o senhor pessoalmente anda mais ou menos forte. É um traço simpático do seu caráter. Sim, senhor! Não o negue, é um traço muito simpático. Gostaria, talvez, que de vez em quando eu o apresentasse a outros? Tenho lá uma porção de passarinhos, caso o senhor queira vê-los. Agora, por exemplo, vou visitar a minha “abarrotada”. Quer me acompanhar? Vou apresentá-lo simplesmente como um companheiro de infortúnio.
Hans Castorp disse que o conselheiro se adiantara às suas palavras e lhe oferecera justamente o que lhe desejava pedir. Aproveitaria a licença com a maior gratidão e seguiria o doutor. Mas quem era essa tal “abarrotada”? Como se devia interpretar essa palavra?
– Literalmente – respondeu o médico. – De um modo textual, sem a menor metáfora.
Deixe que ela mesma lhe conte a história. – Ao cabo de poucos passos chegaram ao quarto da
“abarrotada”. O conselheiro áulico atravessou a dupla porta e mandou Hans Castorp esperar um instante. O som de risadas e palavras opressas pela falta de fôlego, mas claras e alegres, ressoou do quarto, quando da entrada de Behrens, para ser logo interceptado pelas portas. E o visitante compassivo tornou a ouvir esse som, quando, poucos minutos após, foi admitido e o Dr.
Behrens o apresentou a uma senhora loura, estendida na cama, e que fixava curiosamente no jovem os olhos azuis. Com algumas almofadas nas costas, achava-se entre sentada e deitada.
Muito irrequieta, ria-se sem cessar, embora lhe faltasse o fôlego; era um riso cascateante, muito agudo e argentino, nervoso e como que originado por meio de cócegas. Riu-se também das frases com que o conselheiro lhe apresentou o visitante, e quando o médico foi embora, gritou várias vezes atrás dele: – Adeusinho! Muito obrigado! Até logo! – acenando-lhe com a mão. A seguir lançou um suspiro vibrante, voltou a rir num trinado argentino, fincou as mãos no peito que ondeava por baixo da camisola de cambraia, e era incapaz de manter quietas as pernas. Chamava-se Srª. Zimmermann.
Hans Castorp conhecia-a vagamente de vista. Durante algumas semanas, ela ocupara um lugar à mesa da Salomon e do colegial voraz, e sempre se mostrara muito risonha. Depois desaparecera, sem que o jovem se preocupasse muito com a sua ausência. Talvez tivesse partido –
opinara ele. Agora reencontrava-a ali, sob a denominação de “abarrotada”, e esperava a explicação dessa palavra.
– Ah! ah! ah! – riu-se ela, como se lhe fizessem cócegas. – É engraçadíssimo, esse Behrens, fantasticamente cômico e divertido. A gente quase morre de tanto rir. Por que não se senta, Sr. Kasten, ou Sr. Karsten, ou como se chama? O senhor tem um nome tão gozado, ah! ah!
ih! ih! Desculpe. Sente-se nessa cadeira aí, ao pé da cama, mas permita que eu mexa as pernas, ah!
ah! – suspirou com a boca vastamente aberta e logo tornou a trinar. – Simplesmente não posso deixar de fazê-lo...
Era quase bonita, com feições claras, talvez excessivamente acentuadas, porém agradáveis, e com um início de papada. Mas seus lábios eram azulados, e a ponta do nariz tinha a mesma cor, sem dúvida devido à falta de ar. As mãos, de uma magreza simpática, ressaltadas pelos punhos de renda da camisola, eram tão incapazes de sossegar quanto os pés. Tinha um pescoço de mocinha, com duas “saboneteiras” acima das clavículas delicadas, e também os seios, que a dispnéia e o riso mantinham, sob o linho, numa agitação inquieta e forçada, pareciam pequenos e jovens.
Hans Castorp resolveu enviar-lhe ou levar-lhe também um ramalhete bonito de flores molhadas e perfumosas, procedentes dos estabelecimentos de horticultura de Nice ou de Cannes. Com certa preocupação compartilhou da hilaridade volúvel e nervosa da Srª. Zimmermann.
– Então o senhor visita os doentes graves? – perguntou ela. – Como isso é divertido e amável da sua parte, ah! ah! ah! Eu mesma não estou muito enferma, imagine! Quer dizer, não o estava nem um pouquinho, até há pouco... Até que recentemente, essa história... Escute e diga não é a coisa mais engraçada que já ouviu... – E lutando por respirar, entre trinos e gorjeios, contou o que lhe ocorrera.
Chegara a Davos um pouco enferma. A doença existira inegavelmente, pois, do contrário, não teria vindo. Talvez nem sequer se tratasse de um caso leve. Mas fora antes leve do que grave.
O pneumotórax, essa conquista ainda recente, mas já muito apreciada, da técnica cirúrgica, fora experimentado também no seu caso com o melhor êxito. A intervenção dera o melhor resultado possível. O estado de saúde e a disposição da Srª. Zimmermann haviam melhorado de modo sumamente reconfortante. Seu marido –- pois era casada, embora sem filhos – pudera contar com o seu regresso dentro de três ou quatro meses. Então, para distrair-se, ela fizera uma excursão a Zurique; não houvera outra razão para essa viagem a não ser o desejo de se divertir. E
de fato se divertira a valer, mas ao fazê-lo sentira a necessidade de se reabastecer de gás. Confiara esse trabalho a um médico lã de baixo. Um rapaz encantador e tão cômico! Ah! ah! ah! Mas que acontecera? Abarrotara-a! Não havia outro termo, esse já dizia tudo. Embora tomado de toda a boa vontade, o médico não entendia muito do ofício. Numa palavra, ela regressara ao Berghof totalmente abarrotada, isto é, com o coração opresso e sem fôlego nenhum, ah! ah! ih! ih! O
Behrens praguejara como o diabo e metera-a imediatamente na cama. Pois agora estava gravemente enferma, posto que não tivesse febre alta. Haviam-na estragado, arruinado mesmo.
Ah! ah! ah! Essa cara, essa cara ridícula com que Hans Castorp estava! E ela se riu, enquanto apontava com o dedo para ele; riu-se tanto da cara dele, que também a testa se lhe tingiu de azul.
Mas a coisa mais gozada – disse ela – era o Behrens, com seus ralhos e sua rudeza. Já de antemão ela rira, ao notar que estava abarrotada. “A senhora encontra-se em perigo de morte imediata”, gritara o conselheiro, sem mais aquela; esse grosseirão, ah! ah! ah! E novamente pediu desculpas.
Não se esclareceu o motivo por que ela dava essas risadas cascateantes com respeito às declarações de Behrens; se era só devido à sua “rudeza” e porque não acreditava nelas, ou, embora acreditando – o que afinal não podia deixar de fazer –, por achar terrivelmente cômico o caso em si, isto é, o perigo de vida que a ameaçava. Hans Castorp tinha a impressão de que essa última hipótese era a verdadeira, e que realmente ela gorjeava, piava e trinava só em virtude da leviandade infantil e da falta de siso do seu cérebro de passarinho. Isso lhe parecia censurável.
Mesmo assim, mandou-lhe flores, mas não tornou a ver a risonha Srª. Zimmermann. Após ter sido sustentada durante alguns dias por meio de oxigênio, ela de fato veio a falecer nos braços do marido chamado por telegrama. “Uma besta quadrada!”, qualificou-a o conselheiro, ao informar Hans Castorp do óbito.
Mas já antes o espírito empreendedor e compassivo de Hans Castorp, ajudado pelo conselheiro áulico e pelo pessoal da enfermaria, estabelecera novas relações com outros doentes graves da casa, e Joachim teve que acompanhá-lo. Teve que acompanhá-lo ao quarto do segundo filho de “Tous-les-deux”, aquele que sobrara; pois fazia muito tempo já que o quarto do primeiro fora faxinado e fumigado. Visitaram também o menino Teddy, que recentemente chegara do Instituto Pedagógico Fredericianum, onde não pudera ficar, dada a gravidade do seu caso.
Também foram ver um teuto-russo, o Sr. Anton Karlovitch Ferge, funcionário de uma companhia de seguros, e que era um sofredor de caráter bonachão. E também a infortunada mas muito coquete Srª. von Mallinckrodt, que, tal e qual as demais pessoas que acabamos de citar, foi obsequiada com flores, e à qual Hans Castorp, em presença de Joachim, até levou diversas vezes o mingau à boca... Aos poucos chegaram, a adquirir a reputação de samaritanos ou irmãos de caridade. Um belo dia, o próprio Settembrini interpelou Hans Castorp nesse sentido.
– Sapristi, engenheiro! Ouço dizer coisas sensacionais sobre a sua conduta. O senhor se consagrou à beneficência? Procura justificar-se por meio de boas obras?
– Nem vale a pena falar disso, Sr. Settembrini. Não há nada que mereça ser mencionado.
Meu primo e eu...
– Não meta seu primo no assunto! Embora ambos dêem que falar à gente, é do senhor que se trata em realidade. Disso tenho certeza. O tenente é uma personalidade respeitável, mas singela, e seu espírito não corre nenhum perigo que possa inquietar um pedagogo. O senhor não me fará acreditar ser ele quem manda nessa história. O mais talentoso dos dois, mas também o mais ameaçado, é o senhor. E, se me permite empregar este termo, um “filho enfermiço da Vida”, com o qual é preciso preocupar-se. De resto, o senhor me deu licença de fazê-lo.
– Pois não, Sr. Settembrini. Essa licença lhe dei de uma vez por todas. É muito amável da sua parte. E o termo “filho enfermiço da Vida” é bonito. Quanta coisa não inventam os escritores! Não sei se devo orgulhar-me desse título; mas ele soa bem, indiscutivelmente! Pois é, eu me dedico um pouquinho a esses “filhos da Morte”. Acho que é a isso que o senhor se refere.
Às vezes, quando tenho tempo, e sem que o regime sofra por isso, ocupo-me com os casos graves e sérios, compreende? Com aqueles que não estão aqui para divertir-se e para entregar-se à licenciosidade, mas que estão morrendo.
– Está escrito: “Deixai que os mortos enterrem os seus mortos!” – replicou o italiano.
Hans Castorp ergueu os braços e expressou com a sua fisionomia que existia muita coisa escrita, isso e também aquilo, de maneira que era difícil discernir o melhor e inspirar-se nele.
Inegavelmente, o tocador de realejo apalpara um ponto nevrálgico, como fora de esperar. Na verdade, Hans Castorp estava sempre disposto a escutá-lo, a considerar, sem compromisso, suas teorias como dignas de serem ouvidas, e a admitir, a título de experiência, aquele influxo pedagógico; contudo, não tinha a mínima intenção de renunciar, a favor de certos conceitos educativos, a empresas que, apesar da mãe Gerngross e da sua idéia de um “pequeno flerte”, apesar, também, da natureza prosaica do pobre Rotbein e dos tolos gorjeios da “abarrotada”, pareciam-lhe vagamente proveitosas e de alcance considerável.
O filho de “Tous-les-deux” chamava-se Lauro. Recebera flores, violetas de Nice, de aroma terroso, “da parte de dois companheiros compassivos, com os melhores votos de restabelecimento”. Como o anonimato já se transformara em mera formalidade e todo mundo sabia de quem partiam esses mimos, a própria “Tous-les-deux”, a pálida e enlutada mãe mexicana, dirigiu aos primos, durante um encontro no corredor, algumas palavras de gratidão e convidou-os, com voz rangente e sobretudo com uma gesticulação cheia de mágoa, a receber pessoalmente os agradecimentos de seu filho, de son seul et dernier fils qui allait mourir aussi. A visita realizou-se imediatamente. Manifestou-se que Lauro era um moço de surpreendente beleza, de olhos ardentes, com um nariz aquilino cujas narinas palpitavam, e com esplêndidos lábios, por cima dos quais brotava um bigodinho negro. No entanto, o rapaz exibiu uma atitude tão fanfarrona e tão teatral, que os visitantes – tanto Hans Castorp quanto Joachim Ziemssen -se sentiram aliviados quando a porta do quarto do enfermo voltou a fechar-se atrás deles. “Tous-les-
deux” estava envolta em seu xale de lã preta, com o véu negro atado sob o queixo, com as rugas transversais da sua testa baixa e com as bolsas enormes sob os olhos de ágata negra. De joelhos dobrados ia e vinha pelo quarto, baixando aflitamente uma das comissuras da larga boca. De vez em vez aproximava-se dos primos sentados à beira da cama, a fim de repetir, qual um papagaio, a sua trágica frase: “Tous les dé, vous comprenez, messiés... Premièrement l’un et maintenant l’autre...”
Enquanto isso, o belo Lauro, falando igualmente francês, entregava-se a altissonantes fanfarrices de um espalhafato insuportável; carregando nos erres, numa voz crepitante, afirmou que esperava morrer heroicamente, comme héros, à l’espagnole, tal qual o irmão, de même que son fier jeune frère Fernando, que também falecera como um herói espanhol; gesticulando, abriu a camisola para oferecer aos golpes da morte o peito amarelado e continuou a comportar-se desse jeito até que um ataque de tosse, fazendo subir-lhe aos lábios uma fina espuma rosada, lhe abafasse as bravatas e induzisse os primos a se afastarem nas pontas dos pés.
Não comentaram entre si a visita que haviam feito a Lauro, e também intimamente abstiveram-se de julgar a atitude do mexicano. Receberam uma impressão mais simpática no quarto de Anton Karlovitch Ferge, de Petersburgo, que, com seu grande e jovial bigode, e com seu proeminente pomo-de-adão, de aspecto igualmente jovial, jazia na cama, refazendo-se, num esforço lento e penoso, da tentativa de pneumotórax a que se sujeitara, e que quase lhe custara a vida na mesa de operações. Fora ali que sofrera um choque violento, o chamado choque pleural, complicação bastante freqüente dessa intervenção moderna. No seu caso, o choque produzira-se de uma forma particularmente perigosa, como colapso completo acompanhado de uma síncope inquietante; numa palavra, o acidente apresentara-se com tamanha veemência, que fora preciso interromper a operação e adiá-la por enquanto.
Os olhos cinzentos, bonachões, do Sr. Ferge dilatavam-se, e seu rosto tornava-se lívido, cada vez que falava daquele acidente que devia ter sido horroroso para ele. -sem narcose, cavalheiros! Muito bem, nós não podemos suportá-la; está contra-indicada em nosso caso; um homem razoável compreende isso e se conforma. Mas a anestesia local não penetra fundo, meus senhores; apenas a carne envolvente. Quando cortam através dela, sente-se, na verdade, apenas uma espécie de pressão ou de pisadura.. Eu estava deitado, com o rosto coberto para não ver nada. O assistente segurava-me da direita, e a Superiora, da esquerda. Era como se me apertassem e comprimissem, mas tratava-se somente da carne que abriam e retiravam por meio de pinças.
Então ouvi o Dr. Behrens dizer: “Agora!”, e nesse instante, cavalheiros, começou a apalpar a pleura com um instrumento rombudo... Deve ser assim para que não a fure antes do tempo...
Apalpam-na em busca do lugar apropriado para fazer o furo e introduzir o gás... Enquanto ele fazia isso, enquanto passeavam o instrumento por toda a extensão da minha pleura – oh, meus senhores! –, eu não pude mais; tive uma sensação totalmente indescritível. A pleura, cavalheiros, é coisa que não deve ser tocada; não é direito que a toquem, ela não o admite, é tabu, está revestida de carne, isolada e inatingível de uma vez por todas! E agora a haviam posto a descoberto, e o conselheiro apalpava-a. Senhores, comecei a enjoar. Horrível, pavoroso, meus senhores! Eu nunca teria pensado que pudesse existir sensação tão medonha, tão miserável, tão abjeta, nesta terra e em parte alguma do mundo, fora do inferno. Desmaiei. Tive três síncopes ao mesmo tempo, uma verde, uma parda e uma violeta. Além disso penetrava um fedor através do desmaio.
O choque pleural atacou-me o olfato, meus senhores. Aquilo fedia loucamente a hidrogênio sulfurado, assim como deve ser o cheiro do inferno. Com tudo isso notei que me ria, enquanto perdia os sentidos; mas não era como se ri uma criatura humana, não! Era o riso mais nojento e mais indecente que já ouvi em toda a minha vida. Pois o apalpamento da pleura, senhores, produz as cócegas mais infames, mais exageradas, mais desumanas. Nisso mesmo consiste aquela maldita e vergonhosa tortura. É o que se chama o choque pleural, que Deus queira que os senhores nunca cheguem a experimentar.