A Montanha Mágica
Behrens estava encantado; sentia-se lisonjeado até o…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
alemão, francês, inglês – e que lhe tinham sido remetidos um belo dia pelo livreiro do lugar, evidentemente porque Hans Castorp os encomendara por sua própria iniciativa e clandestinamente, durante um passeio que dera até Platz, sem a companhia de Joachim, que a essa hora andara ocupado com a pesagem ou tomara uma injeção. Foi com surpresa que Joachim viu esses livros nas mãos do primo. Eram muito caros, como obras científicas costumam ser. Os preços ainda se achavam anotados no interior das capas ou sobrecapas. Joachim perguntou por que Hans Castorp, se desejava ler esse tipo de literatura, não os pedira emprestados ao Dr.
Behrens, que certamente dispunha de um rico sortimento. Mas Hans Castorp replicou que preferia possuir os livros, e que a leitura era bem diferente quando o livro lhe pertencia; além
disso, gostava de sublinhar e assinalar certos trechos a lápis. Durante horas a fio, Joachim ouvia do compartimento de sacada do primo o ruído da espátula que ia abrindo as folhas.
Os volumes eram pesados e difíceis de manejar. Para os ler, quando deitado, Hans Castorp apoiava a borda inferior sobre o peito ou o estômago. Isso não deixava de ser incômodo, mas ele o suportava pacientemente. De boca entreaberta, fazia os olhos percorrerem as páginas eruditas, que se achavam quase desnecessariamente iluminadas pela claridade avermelhada do quebra-luz da lampadazinha, já que as poderia ler, se fosse preciso, à luz do luar. Acompanhava as linhas com a cabeça, até que seu queixo repousasse sobre o peito, posição em que o leitor permanecia algum tempo, refletindo, cochilando ou entregando-se a um misto de sono e de meditação, antes de elevar o rosto para ler a página seguinte. Hans Castorp realizava profundas investigações; lia, enquanto a lua seguia, a passo comedido, a sua órbita por cima do vale alpino, cintilante de cristais; lia livros que tratavam da matéria organizada, das qualidades do protoplasma, da substância sensível que, entre a composição e a decomposição, se mantém numa estranha existência intermediária, e da evolução das suas formas desenvolvidas a partir de tipos fundamentais, primitivos e todavia sempre presentes; lia com insistente interesse o que os livros diziam sobre a vida e o seu sagrado e impuro mistério.
Que era a vida? Não se sabia. Tinha ela consciência de si mesma, indubitavelmente, desde que era vida, mas ignorava o que era. Era incontestável que a consciência, sob o aspecto da propriedade de reagir a estímulos, despertava até certo ponto já nas fases mais baixas, menos adiantadas, da vida; não era possível fixar em determinado ponto da sua história coletiva ou individual a primeira aparição de fenômenos conscientes, e, por exemplo, fazer a reação consciente depender da existência de um sistema nervoso. As formas animais mais inferiores não dispunham de nenhum sistema nervoso, e muito menos de um cérebro; ninguém se atreveria, contudo, a negar-lhes a capacidade de sentir estímulos. Além disso, podia-se entorpecer a vida, a própria vida, e não somente certos órgãos especiais destinados à recepção de estímulos, que esta porventura criasse, a saber, os nervos. Podia-se suspender temporariamente a irritabilidade de toda substância dotada de vida, no reino vegetal tanto como no reino animal; era possível narcotizar os ovos e os espermatozóides por meio de clorofórmio, de cloral hidratado ou de morfina. A consciência de si mesma era, pois, uma simples função da matéria organizada em prol da vida, e numa fase mais elevada dirigia-se a função contra o seu próprio portador, convertia-se no desejo de pesquisar e explicar o fenômeno ao qual deu origem, na tendência esperançosa e desesperada da vida para se conhecer a si própria, na auto-investigação da natureza que sempre acaba sendo vã, visto a natureza não se poder resolver em conhecimento e a vida não ser capaz de contemplar os últimos segredos de si mesma.
Que era a vida? Ninguém sabia. Ninguém conhecia o ponto donde brotava a natureza, e no qual ela se acendia. A partir desse ponto, nada havia na vida que não estivesse motivado ou o estivesse apenas insuficientemente; mas a própria vida parecia não ter motivo. A única coisa que se podia, talvez, afirmar a seu respeito era que sua estrutura devia ser de tal modo evoluída que não tinha, nem de longe, igual no mundo inanimado. Entre o pseudópode da ameba e o animal vertebrado a distância era insignificante, desprezível, em comparação com aquela que existe entre o fenômeno mais simples da vida e a outra parte da natureza que nem sequer merecia ser qualificada de morta, uma vez que era inorgânica. Pois a morte não era senão a negação lógica da vida; entre esta, porém, e a natureza inanimada abria-se um abismo por cima do qual a ciência em vão se empenhava em lançar uma ponte. Alguns esforçavam-se por fechá-lo por meio de teorias, que ele sorvia sem nada perder da sua profundidade nem da sua extensão. Para encontrar um laço, haviam-se perdido na hipótese contraditória de uma matéria viva sem estrutura, de organismos não organizados, que se reuniriam espontaneamente na solução de albumina, como o cristal na água-mãe – embora, na realidade, a diferenciação orgânica constituísse, ao mesmo tempo, a condição básica e a manifestação de toda vida, e posto que não se conhecesse nenhuma criatura viva que não devesse a sua existência a um ato de procriação. O júbilo triunfante que saudara o protoplasma primevo, pescado nas mais extremas profundezas do mar, rapidamente
chegara a transformar-se em consternação. Demonstrou-se que depósitos de gesso haviam sido confundidos com o protoplasma.
Mas os cientistas, para não se deterem à frente de um milagre –
pois a vida a compor-se dos mesmos elementos e a decompor-se nos mesmos elementos que a natureza inorgânica, sem nada que a motivasse, seria um milagre –, viram-se forçados a admitir uma geração espontânea, isto é, a origem do orgânico no inorgânico, o que, aliás, era igualmente um milagre. Destarte continuaram a inventar graus intermediários e transições, a supor a existência de organismos inferiores a todos os que se conheciam, mas que, por sua vez, tivessem como predecessores tentativas de vida ainda mais primitivas, os chamados “probiontes” que ninguém jamais veria, porque eram de uma pequenez inframicroscópica, e antes de cujo nascimento hipotético devia ter-se produzido a síntese de combinações de albumina...
Que era, então, a vida? Era calor, o calor produzido pela instabilidade preservadora da forma; era uma febre da matéria, que acompanhava o processo de incessante decomposição e reconstituição de moléculas de albumina, insubsistentes pela complicação e pela engenhosidade de sua estrutura. Era o ser daquilo que em realidade não podia ser, daquilo que, a muito custo, mediante um esforço delicioso e aflitivo, consegue, nesse processo complexo e febril de decadência e de renovação, chegar ao equilíbrio no ponto do ser. Não era nem matéria nem espírito. Era qualquer coisa entre os dois, um fenômeno sustentado pela matéria, tal e qual o arco-íris sobre a queda-d'água, e igual à chama. Mas, se bem não fosse material, era sensual até a volúpia e até o asco, o impudor da natureza tornada irritável e sensível com respeito a si própria, e a forma lasciva do ser. Era um movimento clandestino, mas perceptível no casto frio do universo, uma secreta e voluptuosa impureza composta de sucção e de evacuação, uma exalação excretória de gás carbônico e de substâncias nocivas de procedência e qualidade ignotas. Era a vegetação, a desenvolução, a configuração – possibilitadas pela hipercompensação da sua instabilidade e controladas pelas leis de formação que lhe eram inerentes – de uma coisa túmida de água, de albumina, de sal e de gordura, coisa que se chamava carne e se convertia em forma, em imagem sublime, em beleza, mas, ao mesmo tempo, era o princípio da sensualidade e do desejo. Pois essa forma e essa beleza não eram conduzidas pelo espírito, como nas obras da poesia e da música, nem tampouco por uma substância neutra, absorvida pelo espírito, e que o encarnasse de uma maneira inocente, como o fazem a forma e a beleza das obras plásticas. Era, pelo contrário, conduzida e elaborada por uma substância na qual despertou, de um modo desconhecido, a voluptuosidade, pela substância da própria matéria orgânica que vivia se decompondo, pela carne cheirosa...
Agasalhado de lã e de peles destinadas a evitarem perda de calor, o jovem Hans Castorp repousava acima do vale cintilante, enquanto, nessa noite glacial, iluminado pelo brilho do satélite morto, aparecia-lhe a imagem da vida. Essa imagem flutuava diante dele, em algum lugar do espaço, longínqua e todavia próxima dos sentidos; havia o corpo, de uma brancura embaciada, viscoso, a exalar odores e vapores; havia a pele com toda a impureza e toda a imperfeição que lhe eram peculiares, com manchas, papilas, rugas, descolorações, zonas granulosas ou escamosas, a pele revestida das finas correntes e dos delicados torvelinhos da lanugem rudimentar. Distante do frio da matéria inanimada, essa imagem pairava na sua própria esfera vaporosa, assumindo uma atitude relaxada, com a cabeça coroada de alguma coisa fresca, córnea, pigmentária, que era um produto da sua pele, e com as mãos unidas por detrás da nuca; de sob as pálpebras baixas, mirava o espectador, com aqueles olhos que uma variante da formação da pele na comissura interior fazia aparecer oblíquos, e com os lábios um tanto grossos, entreabertos; apoiava-se numa das pernas, de modo que o osso ilíaco, que suportava o peso, ressaltava nitidamente sob a carne, ao passo que, na perna relaxada, o joelho levemente dobrado roçava o interior da perna de apoio e o pé tocava o solo apenas com a ponta dos dedos. Assim se quedava a imagem; voltava-se sorrindo, certa da sua graça, com os cotovelos luzidios apontando para a frente, na simetria dos membros gêmeos e dos sinais do corpo. À sombra das axilas, de exalação acre, correspondia, num triângulo místico, a noite do regaço, assim como aos olhos a boca vermelha, epitelial, e às corolas rubras dos seios o umbigo alongado em sentido vertical. Sob o impulso de um órgão central e de nervos
motores que partiam da medula espinhal, moviam-se o ventre e o tórax, dilatava-se e encolhia-se a cavidade pleuroperitoneal; o hálito, esquentado e umedecido pelas mucosas do trato respiratório, saturado de secreções, escapava por entre os lábios, após ter combinado, nos alvéolos dos pulmões, o seu oxigênio com a hemoglobina do sangue, para possibilitar a respiração interna. Hans Castorp compreendia que esse corpo vivo, a repousar no misterioso equilíbrio da estrutura das suas partes alimentadas de sangue, percorridas por nervos, veias, artérias, capilares, e banhadas pela linfa, esse corpo com a armação interna formada por ossos ocos, cheios de tutano gorduroso, por ossos chatos, ossos curtos e vértebras, consolidados, com a ajuda de sais calcáreos e de cola, à base do tecido gelatinoso, a substância primitiva de apoio, com as cápsulas, as cavidades lubrificadas, os tendões, as cartilagens das suas articulações, com seus mais de duzentos músculos, com seus órgãos centrais a serviço da nutrição, da respiração, da recepção e da emissão de estímulos, com suas membranas protetoras, cavidades cerosas e glândulas ricas em secreções, com o sistema de canais e de fendas da sua complicada superfície interna, que pelos orifícios do corpo desembocava no mundo exterior – Hans Castorp compreendia, pois, que esse Eu era uma unidade viva de categoria superior, muito distante daqueles seres mais simples, reduzidos a respirar, alimentar-se e mesmo pensar com toda a superfície do seu corpo, e se compunha de miríades de tais organismos minúsculos, que, tendo a sua origem num único dentre eles, e multiplicando-se mediante uma divisão sempre e sempre repetida, haviam organizado, diferenciado, desenvolvido os mais diversos usos e funções e tinham chegado a produzir formas que eram a condição e o efeito do seu crescimento.
O corpo que então se lhe afigurava, esse ser singular e esse Eu vivente, era, portanto, uma enorme pluralidade de indivíduos que respiravam e se alimentavam, que, em virtude da sua subordinação orgânica e da sua adaptação a uma finalidade especial, tinham perdido a sua existência própria, a sua liberdade e a sua vida independente, haviam se transformado em elementos anatômicos, a tal ponto que a função de alguns se restringia à irritabilidade em face dos estímulos da luz, do som, do tato, do calor, ao passo que outros apenas sabiam modificar a sua forma, mediante contração, ou segregar líquidos digestivos, e ainda outros estavam desenvolvidos e aptos exclusivamente para proteger, sustentar, veicular humores ou servir à procriação. Havia casos em que se afrouxavam os laços dessa pluralidade orgânica, reunida para formar um Eu elevado, casos nos quais a multidão de indivíduos inferiores não se associava, senão de uma forma superficial e incerta, numa unidade de vida superior. O nosso estudioso meditava acerca do fenômeno das colônias de células; inteirava-se da existência de semi-organismos, de algas cujas células avulsas, apenas envoltas num manto gelatinoso, freqüentemente se achavam muito distantes umas das outras, tratando-se, sem embargo, de formações multicelulares, que, porém, se fossem interrogadas, seriam incapazes de dizer se preferiam ser consideradas uma aglomeração de indivíduos unicelulares ou um ser único, e, referindo-se a si próprias, oscilariam estranhamente entre o “eu” e o “nós”. Aqui a natureza dispunha de um estado intermediário entre a associação altamente social de inúmeros indivíduos elementares a formarem os tecidos e os órgãos de um Eu superior e a livre existência individual dessas unidades avulsas: o organismo multicelular era tão-somente uma dentre as formas do processo clínico segundo o qual decorria a vida, e que constituía um movimento circulatório de ato gerador em ato gerador. A fecundação, a fusão sexual de dois corpos de células, achava-se no início da construção de todo indivíduo multicelular, como também se encontrava no começo de cada série de gerações de criaturas elementares de vida isolada, e sempre reconduzia a si própria. Pois esse ato persistia através de numerosas gerações que não necessitavam dele para se multiplicar mediante contínua divisão, até chegar o momento em que os descendentes nascidos sem o concurso do sexo se vissem novamente obrigados à cópula e o ciclo voltasse a se fechar. Assim, o Estado multiforme da vida, originado da fusão nuclear de duas células geradoras, era a coletividade de muitas gerações de indivíduos celulares, produzidos de modo assexual. Seu crescimento coincidia com a multiplicação deles, e o ciclo gerador fechava-se quando as células sexuais, elementos
desenvolvidos com o fim especial da procriação, haviam se formado nele e encontravam o caminho de uma junção que desse um novo impulso à vida.
Com um volume de embriologia fincado no peito, o nosso herói acompanhava a evolução do organismo a partir do instante em que o espermatozóide – um dentre inúmeros e este em primeiro lugar –, avançado por meio de um movimento de flagelo da sua extremidade traseira, chocava a ponta cefálica com a membrana gelatinosa do óvulo e se fundava no cone de atração que o plasma ovular elevava a seu encontro. Não se podia imaginar nenhum truque, nenhuma caricatura em que a natureza não se comprazesse para variar esse processo constante.
Havia animais entre os quais o macho levava uma vida de parasita no intestino da fêmea. Outros havia em que o braço do indivíduo fecundante se estendia através da garganta da fêmea até ao interior do seu corpo, onde depositava o esperma, depois do que era decepado e vomitado, para então escapar correndo com os seus próprios dedos, deixando perplexa a ciência que, durante muito tempo, o tratara, em grego ou em latim, de ser independente. Hans Castorp assistia às furiosas discussões entre as escolas eruditas dos “ovistas” e dos “animalculistas”, uns pretendendo que o óvulo era um sapo, um cão ou um homem completo, em miniatura, e que o sêmen não operava senão o crescimento das suas partes, ao passo que outros consideravam o espermatozóide, provido de cabeça, braços e pernas, um ser vivo pré-formado, ao qual o óvulo servia apenas de meio de cultura – até que enfim se punham de acordo, atribuindo iguais méritos às células ovulares e germinais, ambas oriundas de células de reprodução primitivamente indistinguíveis. Via o organismo unicelular do óvulo fecundado, a ponto de se transformar num organismo multicelular, estriando-se e segmentando-se; via os corpos de células unirem-se uns aos outros, construindo uma parede mucosa; via a vesícula seminal introfletir-se e formar uma taça ou cavidade, que então se desempenhava das funções da nutrição e da digestão. Era essa a larva intestinal, a gástrula, o bicho original, a forma básica de toda vida animalesca tanto como de toda beleza carnal. Suas duas camadas epiteliais, a exterior e a interior, o ectoderma e o endoderma, aparecem como os órgãos primitivos, dos quais surgem, por meio de saliências ou depressões, as glândulas, os tecidos, os instrumentos dos sentidos, os apêndices do corpo. Uma tira do ectoderma engrossava, afundava-se numa espécie de sulco, fechava-se formando um tubo para abrigar os nervos, e convertia-se na coluna vertebral, no cérebro. E quando o muco fetal se consolidava a ponto de se tornar fibroso tecido conjuntivo ou cartilagem, visto as células gelatinosas começarem a produzir uma substância glutinosa, em lugar da mucina, via Hans Castorp como em certos pontos as células conjuntivas extraíam dos humores que as banhavam sais calcáreos e gorduras e terminavam por ossificar-se. O embrião do homem mantinha-se encolhido, de cócoras, caudífero, em nada diferente do de um porco, dotado de um enorme pedúnculo abdominal e de extremidades rudimentares, informes, com a larva do rosto dobrada sobre o ventre túrgido, e sua evolução afigurava-se aos olhos de uma ciência de idéias sombrias e pouco lisonjeiras como a repetição resumida de uma genealogia zoológica. Passageiramente, o embrião tinha bolsas branquiais como as arraias. Parece lícito ou forçoso deduzir dos estados evolutivos por ele atravessados o aspecto pouco humano que o homem concluído oferecera nos tempos primitivos. Sua pele, provida de músculos tremedores, destinados a afugentar os insetos, estava coberta de abundante pêlo; era enorme a extensão de sua mucosa pituitária; suas orelhas despegadas e móveis tomavam parte importante no jogo de mímica e eram mais próprias para captar o som do que as nossas orelhas atuais. Naqueles tempos, os olhos, protegidos por uma terceira pálpebra nictante, haviam-se achado aos lados do crânio, com exceção do terceiro olho, cujo rudimento é a glândula pineal, e que era capaz de vigiar o zênite. Esse homem possuíra, além disso, um longo tubo intestinal, numerosos dentes molares e sacos vocais ao lado da laringe, que lhe permitiam urrar; o macho trouxera as glândulas sexuais no interior do abdômen.
A anatomia esfolava e dissecava, para o nosso pesquisador, os membros do corpo humano; mostrava-lhe os músculos e os tendões, tanto os superficiais como os subjacentes, profundos, os da coxa e da perna, do pé e sobretudo do bruço; ensinava-lhe os nomes latinos, com que a medicina, esse matiz do espírito humanístico, os designara e distinguira generosa e
galantemente; permitia ao jovem avançar até o esqueleto, cuja estrutura lhe abria novas perspectivas sobre a unidade de tudo quanto é humano, e sobre o fato de se acharem relacionadas com isso todas as disciplinas. Pois nesse ponto recordava-se, de um modo sumamente estranho, da sua verdadeira ou, talvez seja melhor dizer, da sua antiga profissão, do título científico do qual se declarara portador, ao chegar ali, perante as pessoas que encontrara - o Dr. Krokowski e o Sr. Settembrini. Para aprender alguma coisa – fora-lhe bem indiferente o quê
– inteirara-se, nas universidades, deste ou daquele fato referente à estática, aos suportes capazes de flexão, à carga e à construção como sendo um emprego vantajoso do material mecânico. Teria sido pueril opinar que a ciência do engenheiro, as leis da mecânica, aplicavam-se à natureza orgânica; mas tampouco se podia pretender que tinham sido deduzidas desta. Apareciam simplesmente reproduzidas e confirmadas por ela. O princípio do cilindro vazado predominava na estrutura dos longos ossos medulares, de maneira que o mínimo exato de substância sólida supria as necessidades estáticas. Um corpo – assim o aprendera Hans Castorp – que, conforme as exigências feitas a ele quanto à tração e à pressão, estivesse composto tão-somente de varas e tirantes de um material mecanicamente adequado poderia suportar a mesma carga que um corpo maciço de igual composição. Da mesma forma era possível observar, na evolução dos ossos medulares, como, à medida que a superfície se ossificava, as partes internas, mecanicamente supérfluas, se transformavam em tecidos gordurosos, o tutano amarelo. O osso femural era uma grua em cuja construção a natureza orgânica, pela flexão que dera às pecinhas ósseas, executava exatamente as mesmas curvas de tração e de pressão que Hans Castorp teria de traçar para a apresentação correta de um aparelho destinado a se desempenhar das mesmas incumbências. O
jovem verificava com satisfação que, dessa forma, dispunha de uma tripla relação com o fêmur, ou com a natureza orgânica em geral: a relação lírica, a relação médica e a relação técnica – tão intensos eram os estímulos que acabava de receber. E essas três relações, assim lhe parecia, chegavam a ser uma só pelo seu caráter humano, eram variantes de uma e mesma aspiração premente, eram escolas do pensamento humanístico...
Contudo permanecia inexplicável a obra do protoplasma. Parecia vedado à vida compreender-se a si própria. A maioria dos processos bioquímicos não somente eram desconhecidos, como também era inerente à sua natureza esquivar-se à compreensão. Quase nada se sabia da estrutura, da composição dessa unidade de vida que se chamava a “célula”. Que adiantava demonstrar as partes do músculo morto? Não se podia analisar quimicamente o músculo vivo; já as modificações produzidas pela rigidez cadavérica bastavam para desvalorizar quaisquer experiências. Ninguém compreendia o metabolismo, ninguém sabia nada da natureza da função nervosa. A que qualidades deviam as papilas gustativas a faculdade do gosto? Em que consistiam os diferentes tipos de excitação que os odores produziam em certos nervos sensitivos?
Em quê, o cheiro em geral? O odor específico dos animais e dos homens baseava-se na evaporação de substâncias que ninguém era capaz de definir. A composição do líquido que se chamava suor era pouco clara. As glândulas que o segregavam produziam aromas que, entre os mamíferos, desempenhavam indubitavelmente um papel destacado, e cuja importância para a vida humana os cientistas se declaravam incapazes de explicar. A função fisiológica de partes do corpo evidentemente importantes permanecia obscura. Que se deixasse sem solução o problema do apêndice vermiforme, que era um mistério, e o qual, entre os coelhos, sempre se encontrava cheio de um conteúdo pastoso que não se sabia como ali entrava nem como se renovava. Mas, qual era a explicação da substância branca e cinzenta da medulla oblongata, qual a do tálamo que se comunicava com o nervo óptico, e qual a das substâncias cinzentas que se encontram na ponte de Varólio? A medula cerebral e espinhal era a tal ponto sujeita à desintegração, que não havia esperança de penetrar-lhe jamais o segredo da estrutura. A que circunstância se devia a suspensão das unidades do córtex cerebral? O que impedia o estômago de se digerir a si próprio, fato que ocorria às vezes nos cadáveres? Respondia-se: a vida, um singular poder de resistência do protoplasma vivo – e fingia-se não perceber que essa era uma explicação mística. A teoria de um fenômeno tão comum como era a febre estava cheia de contradições. O aumento das
combustões tinha como resultado uma produção mais intensa de calor. Mas, por que não aumentava também, como em outras ocasiões, o gasto de calor, para compensar esse fato?
Originava-se a paralisia das glândulas sudoríparas de uma contração da pele? Entretanto, tal não se observara senão em casos de calafrios, ao passo que, fora isso, a pele se mostrava quente. A experiência da “picada bulbar” indicava o sistema nervoso central como a sede dos fatores que causavam o aumento da intensidade das combustões, bem como a referida particularidade da pele, que era qualificada de anormal porque ninguém sabia explicá-la.
No entanto, que significava toda essa ignorância em confronto com a desorientação da ciência em face de fenômenos como o da memória, ou daquela memória ampliada, digna da mais alta admiração, que se denominava transmissão hereditária de qualidades adquiridas? Era totalmente impossível chegar apenas a uma idéia vaga de uma explicação mecânica desse trabalho realizado pela substância celular. O espermatozóide que transmitia ao óvulo as inúmeras e complexas peculiaridades da espécie e da individualidade do pai era visível somente com o auxílio do microscópio, e o máximo aumento não bastava para apresentá-lo sob outro aspecto que o de um corpo homogêneo, e para permitir a determinação da sua origem, pois que o sêmen de todos os tipos de animais aparecia idêntico. Eram esses os fatores da organização que impunham a hipótese segundo a qual o mesmo que se passava no corpo superior ocorria nas células que o compunham, quer dizer, que estas também eram organismos superiores, compostos, por sua vez, de minúsculos corpos vivos, de unidades de vida individuais. Dava-se, portanto, um passo do elemento que se supusera como o menor, para outro de dimensões ainda mais reduzidas; sob a pressão da necessidade, as partes elementares eram decompostas em partículas subelementares.
Não havia dúvida: assim como o reino animal era formado de diversas espécies de animais, e o organismo dos animais e dos homens de todo um reino de espécies de células, o organismo da célula compunha-se de um novo e múltiplo reino animal em unidades elementares da vida, cujo tamanho ficava muito longe do limite do que era possível ver ao microscópio; unidades que cresciam independentemente, que se multiplicavam segundo a lei de que cada qual só podia reproduzir suas semelhantes, e que, em conformidade com o princípio da divisão do trabalho, serviam, num esforço coletivo, à categoria de vida imediatamente superior à sua.
Eram esses os genes, os bioblastos, os bióforos que Hans Castorp estava encantado de conhecer, naquela noite glacial. Mas, como se achasse inspirado, perguntou-se a si próprio como se apresentaria a natureza elementar dessas unidades a quem as examinasse ainda mais de perto.
Sendo portadoras de vida, deviam estar organizadas, pois a vida fundava-se na organização; mas, estando organizadas, não podiam ser elementares, já que um organismo não é elementar, senão múltiplo. Tratava-se, portanto, de unidades de vida inferiores à célula que compunham organicamente. Assim sendo, era, porém, forçoso que elas, apesar do seu tamanho incrivelmente pequeno, fossem por sua vez “construídas”, organicamente construídas, como formas de vida.
Pois a idéia da unidade viva identificava-se com a da construção à base de unidades menores, subordinadas, isto é: destinadas às finalidades de uma vida superior. Enquanto a divisão tinha por resultado unidades orgânicas, dotadas das particularidades da vida – a saber, as faculdades de assimilação, de crescimento e de multiplicação –, não havia limites para ela. Com referência a unidades de vida, seria, pois, errado falar de unidades elementares, visto o conceito da unidade encerrar, ad infinitum, o conceito acessório da unidade subordinada e componente; não existia vida elementar, quer dizer, alguma coisa que já fosse vida e ainda continuasse sendo elementar.
No entanto, embora a lógica não lhe aceitasse a existência, devia em última análise existir qualquer coisa dessas, visto que a idéia da geração espontânea, e com isso, da vida originada do não-vivente, não podia ser rejeitada; aquele abismo que em vão se procurava fechar na natureza exterior, o abismo entre a vida e o inanimado, devia de certa forma ser enchido ou transposto no seio orgânico da natureza. Em algum momento tinha essa divisão de conduzir a “unidades”, que, muito embora compostas, ainda não estivessem organizadas e servissem de intermediárias entre a vida e a não-vida, grupos de moléculas que formassem a transição entre as categorias da vida e a mera química. Mas quem chegasse à molécula química já se encontraria nas proximidades de um
abismo, cujas fauces escondiam um mistério muito maior ainda do que o que se abre entre as naturezas orgânica e inorgânica. E o abismo que separa o material do imaterial. Pois a molécula se compunha de átomos, e o átomo não tinha nem sequer tamanho suficiente para que fosse adequada a qualificação de “extraordinariamente pequeno”. Era de um tamanho tão reduzido, uma condensação tão ínfima, tão precoce e tão transitória do imaterial, do ainda-não-material, mas já semelhante à matéria, à energia, que mal era possível considerá-lo como matéria, senão como um quê intermediário, limítrofe, entre o material e o imaterial Surgia o problema de uma outra geração espontânea, linda mais enigmática e fantástica do que a gênese original orgânica: o da origem da matéria no imaterial. Com efeito, o abismo entre matéria e não-matéria exigia ser transposto, tão insistentemente, ou ainda com maior insistência do que aquele que existe entre a natureza orgânica e a inorgânica. Necessariamente devia haver uma química do imaterial, das combinações de que resultava o material, assim como os organismos nasciam de combinações inorgânicas. Podia ser que os átomos fossem os protozoários e as moneras da matéria – materiais, quanto à sua natureza, e todavia ainda imateriais. Mas, a quem alcançasse o ponto onde se trata daquilo que “nem sequer é pequeno”, escaparia toda a medida; “nem sequer pequeno” equivalia a
“infinitamente grande”, e o passo dado em direção ao átomo manifestava-se, sem exagero, como falta no mais alto grau. Pois, no instante da mais extrema dissecação e diminuição do material, descortinava-se de repente o cosmo astronômico.
O átomo era um sistema cósmico carregado de energia, e em cujo seio gravitavam planetas, numa rotação de espantosa rapidez, em torno de um centro semelhante ao sol, e cujo éter era percorrido, a uma velocidade só mensurável em anos-luz, por cometas mantidos nas suas órbitas excêntricas pela força do corpo central. E isso não é uma simples comparação, como tampouco o seria a que define o organismo multicelular como um “Estado de células”. A cidade, o Estado, a comunidade social organizada segundo o princípio da divisão do trabalho não somente era comparável à vida orgânica, mas até a repetia exatamente. Da mesma forma repetia-se no seio da natureza, na mais extrema redução, o macrocosmo estelar, cujos grupos, nebulosas, constelações, configurações, pairavam, empalidecidos pela lua, ante os olhos do nosso adepto, por cima do vale cintilante de neve. Não seria lícito pensar que certos planetas do sistema solar atômico – esses enxames e essas vias-lácteas de sistemas solares que compunham a matéria –, que um e outro desses corpos celestes do mundo interior se encontravam numa condição semelhante àquela que fazia da Terra uma sede da vida? Para um jovem adepto um tanto embriagado no seu íntimo, e cuja pele se achava num estado “anormal”, para um homem que já não estava completamente sem experiência no terreno das coisas proibidas, tal suposição não somente não era extravagante, mas até se impunha com uma insistência inelutável, parecendo evidente e tendo todo o cunho de lógica e de verdade. A “pequenez” dos corpos celestes do mundo interior seria uma objeção pouco incisiva, já que a medida do que era grande ou pequeno se perdia o mais tardar no momento em que se evidenciava o caráter cósmico das partes “minúsculas” da matéria, e os conceitos de “exterior” e “interior” igualmente viam abalada a sua solidez. O mundo do átomo era um “exterior”, ao passo que, provavelmente, o astro terrestre que habitamos era, organicamente considerado, um profundo “interior”. Não chegara certo sábio, nos seus sonhos audaciosos, a falar dos animais da via-láctea, monstros cósmicos, cuja carne, cujo esqueleto e cérebro se compunham de sistemas solares? Mas, se isso sucedia assim como se afigurava a Hans Castorp, tudo começava apenas no instante em que se imaginava ter alcançado o término. No fundo íntimo e mais remoto do seu ser, talvez se encontrasse, ele mesmo, o jovem Hans Castorp, mais uma vez, mais cem vezes, bem agasalhado, num compartimento de sacada com vista sobre a noite glacial e enluarada dos Alpes, a estudar a vida do corpo, com os dedos enregelados e as faces ardentes, sob o impulso de um interesse médico e humanista.
A anatomia patológica, cujo manual ele segurava, inclinado para a luz vermelha da lampadazinha, informava-o, por meio de um texto entremeado de ilustrações, acerca da natureza da aglomeração parasítica de células e dos tumores infecciosos. Eram formas de tecidos – formas de caráter especialmente exuberante – provocadas pela irrupção de células estranhas num
organismo que se mostrara acolhedor e de algum modo – talvez seja preciso dizer: de um modo um tanto perverso – oferecia condições favoráveis ao seu crescimento. O mal não era que o parasita privasse de alimentos o tecido circundante; mas, no decorrer do metabolismo peculiar a toda célula, produzia ele combinações orgânicas surpreendentemente tóxicas e inevitavelmente perniciosas. Conseguira-se isolar e apresentar, sob uma forma concentrada, as toxinas de alguns microrganismos e causara surpresa ver quão minúsculas doses dessas substâncias, que eram simples combinações de albumina, bastavam para originar os mais perigosos fenômenos de envenenamento e a mais rapace perdição, quando introduzidas na circulação de um animal. A aparência exterior dessa corrupção era a de uma excrescência dos tecidos, o tumor patológico, que constituía a reação das células contra o estímulo exercido pelos bacilos estabelecidos entre elas. Formavam-se nódulos do tamanho de grãos de painço, compostos de células cuja estrutura se parecia com a dos tecidos das mucosas, e entre as quais, ou nas quais, se instalavam os bacilos; algumas dessas células, extraordinariamente ricas em protoplasma, tornavam-se gigantescas e multinucleares. Mas essa exuberância conduzia a uma rápida ruína, pois que os núcleos dessas células monstruosas começavam logo a se atrofiar e a se decompor, estragando-se o seu protoplasma em virtude da coagulação; novas zonas do tecido vizinho eram invadidas por aquela irritação estranha; fenômenos de inflamação iam se alastrando e atacavam os vasos adjacentes; os glóbulos brancos, irresistivelmente atraídos, encaminhavam-se ao local do desastre; progredia a morte por coagulação, e nesse ínterim os venenos solúveis das bactérias já haviam embriagado os centros nervosos; o organismo alcançara uma temperatura elevadíssima, e cambaleava, por assim dizer, com ânimo alegre, rumo à própria dissolução.
Até esse ponto adiantava-se a patologia, a teoria da enfermidade, a acentuação da dor física, que, no entanto, como acentuação do elemento corporal, acentuava também a volúpia. A enfermidade era a forma licenciosa da vida. E a vida, por sua vez? Não passava ela, quiçá, de uma doença infecciosa da matéria, assim como aquilo que se podia denominar de geração espontânea da matéria talvez fosse apenas uma enfermidade, uma excrescência causada por uma irritação do imaterial? O início da marcha para o mal, para a voluptuosidade e para a morte dava-se, sem dúvida, no lugar onde, provocada pelo prurido de uma infiltração desconhecida, realizava-se aquela primeira condensação do espírito, aquela vegetação patologicamente exuberante do seu tecido, mescla de prazer e de repulsa, que constituía a fase mais primitiva do substancial, a transição do imaterial ao material. Eis o que era o pecado original. A segunda geração espontânea, a criação do orgânico pelo inorgânico já não era mais do que uma intensificação maligna do progresso do corpo em direção à consciência, da mesma forma que a enfermidade do organismo era um exagero ébrio e um relevo indecente da sua natureza física. A vida chegava a ser apenas o próximo passo no caminho aventuroso do espírito que se tornara impudico, o cálido reflexo do pudor da matéria que fora despertada à sensibilidade e se mostrara disposta a corresponder ao apelo...
Montões de livros achavam-se empilhados na mesinha com a lâmpada. Um jazia no chão, ao lado da espreguiçadeira, sobre a esteira da sacada, e aquele que Hans Castorp estudara por último pesava-lhe sobre o estômago, oprimindo-o e embargando-lhe a respiração, sem que, entretanto, do córtex cerebral partissem aos músculos competentes ordens no sentido de o afastarem. O jovem lera a página até o fim, e seu queixo alcançara o peito. As pálpebras haviam-se fechado espontaneamente por cima dos singelos olhos azuis. Via ele a imagem da vida, a estrutura dos seus membros florescentes, a beleza cuja portadora era a carne. Ela retirara as mãos da nuca; abria os braços, a cujo lado interior, antes de tudo sob a pele delicada da articulação do cotovelo, se desenhavam, azulados, os vasos de sangue, as duas ramificações das grandes veias, e esses braços eram de uma indizível doçura. A imagem aproximou-se dele, inclinou-se para ele, sobre ele. Hans Castorp sentiu-lhe o odor orgânico, sentiu-lhe o pulsar do coração. Alguma coisa quente e delicada enlaçou o pescoço de Hans Castorp, e enquanto ele, desfalecendo de volúpia e de angústia, pousava as mãos sobre o lado externo desses braços, ali onde a pele granulosa, tensa sobre o tricípite era de delicada frescura, sentiu nos lábios a úmida sucção de um beijo.
Dança macabra
Pouco depois do Natal morreu o aristocrata austríaco... Mas antes celebrou-se ainda o Natal, esses dois dias de festa, ou mais exatamente esses três dias, se se incluir o Ano-Novo, que Hans Castorp aguardara com certo pavor, perguntando-se com cética curiosidade como passariam, e que então tinham chegado e decorrido como dias normais, com uma manhã, uma tarde e uma noite, e com um tempo nada extraordinário, de leve degelo, não se diferenciando de outros exemplares da sua espécie. Exteriormente haviam recebido certas distinções e certos adornos, e durante o prazo que lhes era outorgado tinham exercido o seu domínio sobre os cérebros e os corações dos homens, antes de se tornarem passado, próximo e cada vez mais distante, deixando atrás um sedimento de impressões destacadas da vida cotidiana...
O filho do Dr. Behrens, de nome Knut, veio passar as férias em Davos e se alojou com o pai na ala do sanatório. Era um rapaz bonito, mas cuja nuca também já começava a salientar-se em demasia. A presença do jovem Behrens fazia-se sentir no ambiente. As senhoras mostravam-se risonhas, faceiras e irritadiças, e as suas conversas tratavam de encontros com Knut no jardim, no bosque ou na estância balneária. Ele também recebeu visitas: certo número de colegas da universidade subiram ao vale, seis ou sete estudantes, alojados na aldeia, mas que tomavam as refeições em companhia do conselheiro e, reunidos com outros membros do seu grêmio, percorriam em grupos toda a região. Hans Castorp procurava não encontrá-los. Evitava esses jovens, e tanto ele como Joachim esquivavam-se ao contato com eles, pois não tinham nenhuma vontade de conhecê-los. Todo um mundo separava os que viviam ali em cima desses rapazes que cantavam, caminhavam e brandiam bengalas. Hans Castorp nada queria saber nem ouvir a respeito deles. Além disso, a maioria dos visitantes parecia natural do norte da Alemanha; talvez até houvesse entre eles alguns concidadãos, e Hans Castorp experimentava alguma aversão pelos seus conterrâneos. Freqüentemente ventilava, com antipatia, a possibilidade da chegada de hamburgueses ao Berghof, tanto mais que Behrens dissera que essa cidade fornecia ao estabelecimento um considerável contingente de clientes. Era possível que algum patrício seu se encontrasse entre os doentes graves ou moribundos que ninguém via. Visível era apenas um comerciante de faces cavas, que se instalara, fazia algumas semanas, à mesa da Srª. Iltis, e do qual diziam que era natural de Cuxhaven. Ao pensar nessa vizinhança, Hans Castorp regozijava-se com a dificuldade de estabelecer, ali em cima, contato com as pessoas de outras mesas, e com o fato de ser a sua terra natal muito extensa e dividida em diversas esferas. A presença indiferente desse comerciante tranqüilizava em grande parte as preocupações que despertara nele a idéia de topar com outros hamburgueses no recinto do sanatório.
Aproximava-se, pois, o Ano-Novo. Certo dia já estava iminente, e no seguinte tornou-se realidade... Naquela ocasião, quando Hans Castorp se admirara de já ouvir falar do Natal, pelo menos seis semanas o haviam separado da festa, tanto tempo, por conseguinte, quanto deviam durar toda a sua permanência segundo o plano primitivo e mais as três semanas que passara na cama. Mas, as seis semanas de então tinham representado um tempo enorme, sobretudo a sua primeira metade, tal qual se afigurava à retrospectiva de Hans Castorp, ao passo que agora um período teoricamente igual significava quase nada: parecia-lhe que os comensais tinham razão quando faziam tão pouco caso desse lapso de tempo. Seis semanas, nem sequer tantas quantos dias tem a semana – que importância tinham elas, quando se ventilava a outra questão de saber o que era uma dessas semanas, um desses pequenos circuitos de segunda-feira até domingo e até a nova segunda-feira? Bastava considerar o valor e a significação da unidade menor, mais próxima, para compreender que o resultado da adição não podia ser grande coisa, resultado esse que, além do mais e ao mesmo tempo, intensificava sensivelmente o processo de contração, obliteração, encolhimento e destruição. Que era um dia, contado, por exemplo, a partir do momento em que a gente se sentava para almoçar, até a volta desse instante, vinte e quatro horas depois? Nada –
apesar de serem vinte e quatro horas. Mas, que era, afinal, uma hora, gasta, por exemplo, no
repouso obrigatório, num passeio ou numa refeição – enumeração que esgotava, aproximadamente, as possibilidades de se passar essa unidade de tempo? Outra vez nada. O total desses nadas pesava pouco. O caso tornava-se, todavia, mais sério, quando a escala descia até as unidades menores: esses sete vezes sessenta segundos, durante os quais se mantinha o termômetro entre os lábios, a fim de poder-se prolongar a curva da temperatura, tinham uma vida tenaz e o seu peso era considerável; dilatavam-se até formar uma pequena eternidade, insertavam períodos de extrema solidez na fuga fantasmagórica do tempo graúdo...
O dia de festa mal fora capaz de perturbar o regime habitual dos habitantes do Berghof.
Um belo pinheiro já fora erguido, alguns dias antes, ao lado direito da sala de refeições, junto à mesa dos “russos ordinários”, e seu aroma que, através do cheiro dos pratos abundantes, chegava às vezes até os comensais, acendia um quê pensativo nos olhos de algumas pessoas agrupadas em torno das sete mesas. Na hora do jantar do dia 24 de dezembro, a árvore ostentava enfeites variegados de fios de prata, bolas de vidro, pinhões dourados, pequenas maçãs, suspensas em redes, e toda espécie de bombons. As velas de cera multicor brilharam durante e após a refeição.
Segundo se dizia, achavam-se arvorezinhas de velas acesas também nos quartos dos doentes acamados; cada qual tinha a sua. E nos últimos dias, o correio trouxera encomendas em abundância. Também Joachim Ziemssen e Hans Castorp haviam recebido remessas da sua terra na longínqua planície, mimos empacotados com carinho, que agora se achavam espalhados pelos seus quartos: roupas engenhosamente escolhidas, gravatas, objetos de luxo, executados em couro e níquel, bem como muitos doces próprios para a festa, nozes, maçãs e maçapão – provisões que os primos contemplavam com um ar incerto, perguntando-se quando chegaria o momento de comer tudo isso. Como Hans Castorp sabia, o seu pacote fora feito por Schalleen, que também comprara os presentes, após uma ponderada deliberação com os tios. A remessa vinha acompanhada de uma carta de James Tienappel, redigida a máquina, mas em seu grosso papel particular. O tio transmitia as felicitações de Natal e os votos por um rápido restabelecimento, os do tio-avô tanto como os seus próprios, e com muito senso prático acrescentava logo as felicitações pelo Ano-Novo, já quase que vencidas, assim como também fizera Hans Castorp, quando, em tempo, escrevera deitado na espreguiçadeira a carta de Natal ao Cônsul Tienappel, comunicando ainda alguns pormenores acerca do seu estado de saúde.
Na sala de refeições, a árvore resplandecia, crepitava, exalava o seu perfume e mantinha viva nos corações e nos espíritos a consciência da hora. Todos se haviam engalanado; os senhores trajavam smoking, e as senhoras exibiam jóias que lhes tinham enviado as mãos carinhosas dos maridos, de todas as zonas da planície. Também Clávdia Chauchat substituíra o costumeiro suéter de lã por um vestido de gala, que tinha, todavia, algo de extravagante, ou melhor, de nacional: era um costume claro, cinturado e bordado, de caráter rústico, russo ou pelo menos balcânico, talvez búlgaro, guarnecido de lantejoulas de ouro, e cujas amplas pregas faziam-lhe a silhueta parecer mais cheia do que normalmente, o que correspondia muito bem àquilo que Settembrini chamava a sua “fisionomia tártara” e sobretudo a seus “olhos de lobo da estepe”.
Reinava grande alegria na mesa dos “russos distintos”; foi ali que espocou a primeira rolha de champanha, que então surgiu em quase todas as mesas. Na dos primos, a velha tia pediu-o para a sua sobrinha e para Marusja, e logo se pôs a regalar todo mundo. O cardápio era seleto e terminava com pastéis de queijo e bombons finos, sendo completado por café e licores. De vez em quando, um ramo de pinheiro que se incendiara e tinha de ser apagado depressa provocava um pânico barulhento e exagerado. Settembrini, vestido como sempre, e com um palito na mão, sentou-se um instante, ao fim do banquete, à mesa dos primos. Caçoou com a Srª. Stöhr e passou então a comemorar, em algumas frases, o Filho do Carpinteiro e o Rabino da Humanidade, cujo aniversário se simulava nesse dia. Não se sabia com certeza se ele vivera verdadeiramente. Mas o que nascera naquela época e começava a sua marcha vitoriosa, ininterrompida até hoje, era a idéia do valor da alma individual, junto com a idéia da igualdade – numa palavra, a democracia individualista. A ela brindava, ao esvaziar a taça que lhe haviam oferecido. A Srª. Stöhr achou essa maneira de falar “equívoca e desalmada”. Levantou-se sob protesto, e como, de qualquer modo,
os demais já estavam abandonando a sala de refeições, os companheiros de mesa imitaram-lhe o exemplo.
A reunião noturna tornou-se solene e animada pela entrega dos presentes ao Dr. Behrens, que chegou, acompanhado de Knut e da Mylendonk, para passar meia hora com seus pacientes.
O ato teve lugar na saleta dos aparelhos ópticos. O presente que os russos ofertavam em separado consistia num objeto de prata, uma bandeja redonda, muito grande, em cujo centro se achava gravado o monograma do conselheiro, e que, evidentemente, não podia ter a menor serventia. Em compensação, o divã, com o qual os demais pensionistas haviam presenteado o médico, servia ao menos para a gente se deitar, conquanto ainda não tivesse nem colcha nem almofadas e fosse simplesmente forrado de pano. Mas, a cabeceira era graduável, e Behrens logo experimentou a comodidade do móvel, estendendo-se ao comprido, com a bandeja inútil sob o braço, cerrando os olhos e pondo-se a roncar qual uma serraria; pretendia ser o dragão Fafnir ao lado do seu tesouro. A hilaridade foi grande. Também Mme. Chauchat riu-se dessa cena; seus olhos estreitaram-se, a boca estava muito aberta, exatamente – assim pareceu a Hans Castorp –
como a de Pribislav Hippe quando se ria.
Imediatamente após a saída do diretor, foram ocupadas as mesas de jogo. O grupo russo instalou-se, como sempre, no pequeno salão. Na sala de refeições, alguns pensionistas permaneceram de pé, em torno da árvore de Natal, observando como os tocos de vela se apagavam nos suportes, e saboreando os bombons suspensos dos ramos. Às mesas, já postas para o café da manhã, achavam-se sentadas diversas pessoas, distantes umas das outras, num isolamento silencioso; havia quem apoiasse a cabeça nas mãos.
O primeiro dia de Natal foi úmido e brumoso. Tratava-se apenas de nuvens, segundo afirmava Behrens, nuvens que envolviam o vale. Nunca havia cerração ali em cima. Mas, nuvens ou cerração – em todo caso a umidade era penetrante. A neve caída ia se derretendo na superfície, tornando-se porosa e pegajenta. Durante o repouso obrigatório, o rosto e as mãos enregelavam-se de maneira muito mais penosa do que em dias de frio seco.
O dia distinguiu-se por um sarau musical, um verdadeiro concerto com cadeiras enfileiradas e programas impressos, oferecido aos “dali de cima” pela direção do Berghof. Era um recital de canções, executado por uma cantora profissional que vivia em Davos e dava aulas.
Levava ela duas medalhas junto ao decote do vestido de gala. Tinha uns braços que se pareciam com bengalas, e uma voz cujo timbre estranhamente surdo revelava de modo lastimável os motivos da sua permanência nessas alturas. Cantava:
“Eu levo comigo
O meu amor...”
O pianista que a acompanhava residia igualmente na aldeia. Mme. Chauchat estava sentada na primeira fila, mas aproveitou o intervalo para se retirar, de forma que Hans Castorp, a partir desse momento, teve ensejo para escutar a música – de qualquer modo tratava-se de música
– com o coração tranqüilo, seguindo a letra das canções que se achava impressa nos programas.
Durante algum tempo, Settembrini quedou-se a seu lado, antes que desaparecesse também, após ter feito algumas observações incisivas e plásticas acerca do bel canto surdo da cantora do lugar e de ter observado, com alguma satisfação satírica, que mesmo nessa noite estavam “em família”.
Para falar a verdade, Hans Castorp sentiu-se aliviado quando ambos saíram, a mulher dos olhos estreitos e o pedagogo, permitindo-lhe devotar livremente a sua atenção às canções. Julgou acertado que no mundo inteiro se fizesse música, até sob as circunstâncias mais especiais, inclusive nas expedições polares.
O segundo dia de Natal já não se distinguiu em nada, a não ser pela ligeira consciência da sua presença, de um domingo ou mesmo de um simples dia útil. Quando chegou a seu fim, pertencia a festa de Natal ao passado ou, como poderíamos dizer com igual exatidão, ficava relegada ao longínquo porvir, à distância de um ano; haveria novamente doze meses até a época
em que o Natal se renovaria no ciclo do ano – afinal de contas apenas sete meses a mais do que Hans Castorp já acabava de passar ali em cima.
Mas, logo após o Natal desse ano, ainda antes do Ano-Novo, morreu o aristocrata austríaco. Os primos souberam por intermédio de Alfreda Schildknecht, a chamada Irmã Berta, enfermeira do pobre Fritz Rotbein, a qual lhes comunicou no corredor o acontecimento, que exigia discrição. Hans Castorp interessou-se vivamente pelo assunto, já que as manifestações de vida do aristocrata haviam formado parte das primeiras impressões que recebera ali – daquelas impressões que, segundo lhe parecia, tinham provocado a sensação de calor no seu rosto, a qual persistia desde então – e também por motivos morais, de natureza quase religiosa. Hans Castorp obrigou Joachim a uma prolongada conversa com a diaconisa, que apreciava com gratidão e tenacidade o diálogo e a troca de opiniões. Era um milagre – dizia ela – que o austríaco houvesse chegado a ver os dias de festa. Desde muito, o cavalheiro mostrara grande resistência, mas ninguém podia explicar com o que conseguira respirar nos últimos tempos. Verdade era que desde alguns dias só se sustentara graças a imensas quantidades de oxigênio; ainda ontem consumira quarenta balões, a seis francos cada um. Isso devia ter custado um dinheirão, como os senhores podiam calcular. Era preciso considerar, além do resto, que a esposa, em cujos braços expirara, ficava completamente sem recursos. Joachim desaprovou esse desperdício. Para que aquela tortura e aquela demora artificial e custosa num caso totalmente desesperado? Não se podia censurar o homem por ter engolido cegamente o precioso gás vivificante, já que o tinham forçado a isso. Porém os que o tratavam deveriam ter procedido com mais siso, deixando-o trilhar com Deus o seu caminho inevitável, independentemente da situação financeira, e ainda mais em consideração a esta. Os vivos também tinham algum direito. E ainda outras coisas nesse tom. Mas Hans Castorp replicou-lhe com ênfase. Censurou o primo por falar quase como Settembrini, sem respeito nem pejo diante do sofrimento. O aristocrata austríaco morrera, afinal, e em face desse fato deviam cessar quaisquer brincadeiras. Era só isso que lhes restava fazer para demonstrarem a sua seriedade, e um agonizante tinha direito a toda a reverência e a todas as honras. Hans Castorp insistia em defender essa opinião. Esperava ao menos que Behrens não tivesse ralhado com o aristocrata, ainda in extremis, fazendo-lhe reprimendas naquela sua maneira ímpia. Não havia sido necessário, declarou a Schildknecht. O moribundo fizera, na verdade, no último momento, uma pequena e inconsiderada tentativa de fuga, procurando saltar da cama.
Mas uma simples observação a respeito da inutilidade de tal intento bastara para fazê-lo desistir de uma vez por todas.
Hans Castorp foi ver o defunto. Fê-lo por antipatizar com o sistema estabelecido, que consistia em ocultar tais acontecimentos. Desprezava essa atitude egoísta dos outros, que não queriam saber nem ver nem ouvir essas coisas, e desejava contrariá-la ativamente. À mesa fizera uma tentativa no sentido de mencionar o óbito, mas houvera em face do assunto uma repulsa tão unânime e tão obstinada que Hans Castorp sentira vergonha e indignação. A Srª. Stöhr até se mostrara agressiva. Que idéia era essa de falar daquelas coisas?, perguntara. Que espécie de educação recebera ele? O regulamento da casa protegia os pensionistas cuidadosamente contra o contato com tais histórias, e agora vinha um novato e se metia a falar disso em voz alta, justamente na hora do assado, e ainda em presença do Dr. Blumenkohl, que a qualquer instante podia ter a mesma sorte. (Essas últimas palavras foram tapadas com a mão.) Se isso se repetisse, ela ia queixar-se ao diretor. Em conseqüência dessa atitude, decidira Hans Castorp – e também expressara a sua decisão – prestar a derradeira homenagem ao companheiro falecido, indo visitá-lo no seu leito de morte e rezando uma tácita oração. Convencera Joachim a que o acompanhasse.
Por intermédio da Irmã Berta conseguiram penetrar na câmara mortuária, que se achava no primeiro andar, debaixo dos seus próprios quartos. Recebeu-os a viúva, uma lourinha desgrenhada, exausta pelas vigílias, de nariz vermelho, com um lenço diante da boca; trajava um grosso sobretudo, com a gola levantada, pois fazia muito frio no recinto. Haviam desligado a calefação, e a porta da sacada estava aberta. Em voz abafada, os jovens murmuraram algumas
palavras adequadas. A seguir, melancolicamente convidados por um gesto de mão, atravessaram o quarto em direção à cama, avançando nas pontas dos pés, com passo reverencioso e cadenciado, e permaneceram em contemplação diante do leito do morto, cada qual à sua maneira: Joachim, numa posição militar, com os tacões unidos, saudando com uma leve mesura; Hans Castorp, relaxado e pensativo, com as mãos cruzadas sobre o peito, e com a cabeça inclinada para o ombro, exibindo uma fisionomia semelhante àquela com que costumava ouvir música. A cabeça do aristocrata achava-se colocada muito alto, de maneira que o corpo, esse conjunto comprido, berço dos múltiplos processos da vida, com os pés erguidos sob a extremidade da colcha, aparecia tanto mais plano, lembrando uma tábua. Uma grinalda de flores jazia na região dos joelhos, e o ramo de palmas que saía dela tocava as grandes mãos amarelas e ósseas, que repousavam entrelaçadas sobre o peito afundado. Amarelo e ósseo era também o rosto, com o crânio calvo, o nariz adunco, as maçãs acentuadas e o basto bigode ruivo, cuja espessura ainda contribuía para intensificar a concavidade cinzenta das faces hirtas. Os olhos estavam fechados com uma firmeza pouco natural. “Não se fecharam, foram fechados”, pensou Hans Castorp.