A Montanha Mágica
Por enquanto, o jovem devia conformar-se com…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Ao que Naphta redargüiu que o Sr. Settembrini desfigurava levemente as coisas e que Tot-Trismegisto saíra muito “favorecido” no seu retrato. Em realidade, tratava-se de uma divindade dos macacos, da lua e das almas, representada pela figura de um babuíno coroado de um crescente. Sob o nome de Hermes fora antes de tudo um deus da morte e dos mortos, dominador e guia das almas; já na fase derradeira da Antigüidade havia sido transformado em arquifeiticeiro, ao passo que a Idade Média cabalística o considerara o pai da alquimia hermética.
Que era isso? Na oficina dos pensamentos e das representações de Hans Castorp reinava plena desordem. Havia ali a morte no seu manto azul, e essa morte era um setor humanista; mas quando se olhava mais de perto esse deus da literatura, pedagogo e amigo dos homens, achava-se acocorada em seu lugar a imagem grotesca de um mono que levava sobre a fronte o símbolo da noite e da magia... Procurou afastar a visão com a mão. A seguir cobriu os olhos. Mas pelas trevas onde se refugiara na sua confusão ressoava a voz de Settembrini, que prosseguia encomiando a literatura. Não somente a grandeza contemplativa, senão também a grandeza ativa, assim bradou o italiano, andara em todos os tempos ligada a ela. E citou os nomes de Alexandre, César, Napoleão; mencionou Frederico da Prússia e outros heróis, inclusive Lassalle e Moltke. Não se intimidou quando Naphta lhe opôs a China, onde reinava a mais ridícula idolatria do abecedário que se conhecia, e onde uma pessoa chegava a ser generalíssimo quando sabia traçar com tinta nanquim todos os quarenta mil ideogramas, o que devia agradar muito ao coração de um humanista. Ora, Naphta sabia perfeitamente que aqui não se tratava do uso de tinta nanquim, mas da literatura como impulso humano, do seu espírito; sim, pobre zombeirão, do seu espírito que era o espírito em si, o milagre da fusão de análise e forma. Era ele que despertava a compreensão de tudo quanto é humano, que se empenhava em debilitar e em aniquilar os preconceitos tolos e as convicções estúpidas, e que purificava, enobrecia e melhorava o gênero humano. Ao criar o mais intenso refinamento moral e a mais sutil sensibilidade, conduzia os homens, longe de fanatizá-los, ao ceticismo, à justiça, à tolerância. O efeito purificante e santificador da literatura, a destruição das paixões pelo conhecimento e pela palavra, a literatura como caminho à compreensão, à indulgência e ao amor, o espírito literário como o fenômeno mais nobre do espírito humano em geral, o poder salvador da língua, o literato como homem perfeito, como santo – era nessa tonalidade exaltada que decorria o panegírico apologético do Sr.
Settembrini. Ai dele, o seu adversário tampouco se deixou amedrontar. Soube interromper o aleluia angélico com argumentos maliciosos e brilhantes, optando pelo partido da conservação e da vida, contra o espírito dissolvente que se escondia atrás dessa falácia seráfica. Aquela fusão milagrosa que o Sr. Settembrini decantara em voz trêmula não passava, segundo se ouviu agora,
de um embuste e de uma trapaça. Pois a forma que o espírito literário se vangloriava de saber conciliar com o princípio do exame e da divisão era apenas uma forma fictícia e mentirosa; não, porém, uma forma genuína, natural, cheia de vida. Sim, o pretenso aperfeiçoador do homem apregoava a pureza e a santificação, mas em realidade visava à castração e à sarjadura da vida. O
espírito, o zelo da teoria profanavam a vida, e quem se esforçava por destruir as paixões desejava o nada, o puro nada, sendo “puro” o único adjetivo adequado para qualificar o nada. E
precisamente nesse ponto o literato Settembrini patenteava o que era; revelava-se partidário do progresso, do liberalismo e da revolução burguesa. Pois o progresso era mero niilismo. O
burguês liberalista era propriamente o homem do nada e do Diabo, e chegava a negar Deus, o absoluto conservador e positivo, professando o absoluto contrário, demoníaco, e arvorando-se em modelo de piedade, por causa do seu pacifismo letal. No entanto, o que menos havia nele era piedade; pelo contrário, atentava de um modo sumamente criminoso contra a vida, a cuja inquisição merecia ser entregue; e assim por diante...
Com semelhantes alfinetadas argumentava Naphta, dando ao panegírico aspectos satânicos e apresentando-se a si próprio como a encarnação do amor austero e conservador, de maneira que mais uma vez se tornava completamente impossível distinguir onde se achava Deus e onde o Diabo, onde a morte e onde a vida. Ninguém duvidará quando afirmarmos que o seu antagonista se mostrou à altura e não ficou devendo resposta, que foi notável e provocou uma réplica não menos boa, depois da qual a discussão prosseguiu por algum tempo, antes de a conversa embocar naquela confusão já mencionada. Hans Castorp, entretanto, já deixara de prestar atenção, porque Joachim, nesse ínterim, lhe comunicara que tinha certeza de se ter resfriado e de estar com febre, e que não sabia o que fazer, uma vez que os resfriados não eram reçus ali em cima. Os duelistas haviam passado por cima dessa novidade, mas Hans Castorp, que, como já dissemos, velava diligentemente pelo primo, retirou-se em sua companhia, no meio de uma tréplica, sem se importar com a questão de saber se o público restante, composto de Ferge e Wehsal, seria ou não capaz de produzir o estímulo pedagógico necessário para a continuação da contenda.
Durante o caminho combinou com Joachim que em matéria de resfriado e dores de garganta trilhariam a via hierárquica; quer dizer, encarregariam o massagista de avisar a Superiora, depois do que provavelmente seriam tomadas algumas medidas em benefício do enfermo. Assim fizeram bem. À mesma noite, logo depois do jantar, quando Hans Castorp casualmente se encontrava no quarto de Joachim, Dona Adriática bateu à porta e informou-se, em voz esganiçada, sobre os desejos e as moléstias do jovem oficial. – Dores de garganta? Rouquidão? –
repetiu a enfermeira. – Que lhe deu na veneta, rapaz? – E fez uma tentativa de fitar o doente com olhar penetrante. Não era culpa de Joachim que os olhares não se encontrassem, pois era o da Superiora que se esquivava obstinadamente. Coisa estranha que ela insistisse nessa manobra, apesar de a experiência lhe demonstrar que era incapaz de realizá-la! Mediante uma espécie de calçadeira de metal, que tirou da bolsa presa à cintura, examinou a goela do paciente, enquanto Hans Castorp a alumiava com a lâmpada de cabeceira. Mantendo-se nas pontas dos pés, a Superiora espiava a úvula de Joachim. – Agora me diga, prezadíssimo rapaz – continuou –, já se engasgou alguma vez?
Que responder? No momento, isto é, durante o exame, era impossível dar explicações, mas também depois de ela soltar o enfermo era difícil acertar a resposta. Claro que já lhe acontecera engasgar-se uma ou outra vez, enquanto comia ou bebia, mas isso ocorria a toda gente e certamente não era o que ela queria saber. Assim, Joachim perguntou: – Por quê? – e acrescentou que não se lembrava quando aquilo se dera pela última vez,
– Está bem – disse ela. – Foi apenas uma idéia que me veio. Então o senhor se resfriou –
concluiu para a maior surpresa dos primos, visto a palavra “resfriado” normalmente não ser tolerada no sanatório. Para um exame mais minucioso, se preciso fosse, seria indispensável o laringoscópio do conselheiro. Ao sair, a Superiora deixou comprimidos de formaminto, bem como uma atadura e um pedaço de gutapercha, para que Joachim pudesse fazer compressas
durante a noite. Joachim serviu-se de ambas as coisas e teve a nítida impressão de que lhe traziam alívio. Por isso continuou com o tratamento, já que a rouquidão não fazia menção de ceder; pelo contrário, até se intensificou nos dias seguintes, embora as dores de garganta desaparecessem às vezes quase por completo.
O tal resfriado febril não passava, aliás, de pura imaginação. O resultado objetivo do exame era o de sempre, justamente aquele que, em combinação com os diagnósticos anteriores do conselheiro, requeria do ambicioso Joachim um “pequeno tratamento suplementar”, antes que ele pudesse voltar às fileiras do exército. O prazo de outubro, que acabava de expirar, era tratado com a maior discrição possível. Ninguém o mencionou, nem o conselheiro, nem os primos entre si. Silenciosos, com os olhos baixos, passaram uma esponja nessa data. Depois do que Behrens ditara ao assistente-psicanalista, por ocasião da última consulta mental, e do que a chapa radiográfica mostrava, era mais do que evidente que uma partida “em falso” seria arriscadíssima.
E dessa vez tratava-se de perseverar ali em cima, com disciplina de aço, no trabalho da cura, até que se obtivesse a definitiva imunidade, necessária para suportar as exigências do outro trabalho, lá na planície, e para cumprir o juramento.
Tal era a divisa a respeito da qual haviam chegado a um tácito acordo. Na realidade, porém, um não tinha certeza se o outro, no âmago da sua alma, acreditava nessa divisa. Se baixavam os olhos, era devido a essa dúvida, e isso não se dava sem que antes os seus olhares se tivessem encontrado. Tais encontros ocorriam freqüentemente, desde o referido colóquio sobre literatura, quando Hans Castorp notara, pela primeira vez, aquela luz nova no fundo dos olhos de Joachim, bem como a sua expressão “ominosa”. Ocorriam antes de tudo à mesa, quando o primo, rouco de repente, se engasgava de modo sumamente violento, a ponto de mal recobrar o fôlego. Certa vez, enquanto Joachim ofegava atrás do guardanapo, e sua vizinha, a Srª. Magnus, lhe dava palmadas nas costas, segundo um velho costume, os olhos dos primos encontraram-se de um modo que espantou Hans Castorp, mais do que o próprio engasgamento, que afinal podia acontecer a qualquer um. A seguir, Joachim cerrou os olhos e, com o rosto oculto pelo guardanapo, abandonou a mesa e a sala, a fim de esperar lá fora o fim do acesso de tosse.
Sorrindo, embora ainda um pouco pálido, voltou uns dez minutos depois. Desculpou-se pelo susto que dera aos comensais e participou, como antes, da abundante refeição. Mais tarde, os primos até se esqueceram totalmente de comentar o incidente banal. Mas alguns dias após, não durante o jantar, senão por ocasião do fartíssimo segundo café da manhã, produziu-se o mesmo fenômeno. Dessa vez não se encontraram os olhares, ao menos não os dos primos. Hans Castorp, inclinado para o prato, continuou comendo com aparente indiferença. Terminada a refeição, parecia contudo conveniente dizer algumas palavras sobre o ocorrido. Joachim deblaterou contra a Mylendonk, cuja pergunta feita à queima-roupa o fizera ficar com a pulga atrás da orelha. Essa mulher lhe sugerira alguma coisa; embruxara-o. – Que o diabo a carregue! –
Hans Castorp respondeu que evidentemente se tratava do efeito de uma sugestão e achou o fato divertido, apesar do seu caráter desagradável. E Joachim, depois de ter achado uma denominação para a coisa, daí por diante defendeu-se com êxito contra ela. Precavia-se, enquanto comia, e não se engasgava com maior freqüência do que qualquer outra pessoa não embruxada. Somente uns nove ou dez dias mais tarde repetiu-se o incidente, o que, afinal de contas, não era anormal.
Não obstante foi chamado por Radamanto, embora ainda não fosse a sua vez. A Superiora avisara o médico e sem dúvida fizera bem. Uma vez que a casa dispunha de um laringoscópio, existiam motivos suficientes para tirar do armário o instrumento engenhosamente construído: aquela rouquidão obstinada, que às vezes degenerava em afonia total, e também a dor de garganta que voltava a manifestar-se, cada vez que Joachim omitia lubrificar a goela com remédios salivantes, sem contar que, se agora se engasgava menos amiúde, era só devido à imensa cautela que usava durante as refeições, o que sempre o atrasava em relação aos vizinhos.
E o conselheiro, servindo-se de espelhos e reflexos, perscrutou profunda e demoradamente a garganta de Joachim. A seguir, o paciente, em obediência aos rogos de Hans Castorp, encaminhou-se logo à sacada do primo, para relatar-lhe pormenores do exame. A coisa
lhe havia causado muitas cócegas e fora bastante desagradável, segundo contou cochichando, porque estavam na hora do repouso principal, com silêncio obrigatório. Behrens fizera um grande palavrório sobre um estado de irritação e dissera que convinha pincelar todos os dias.
Logo no dia seguinte começaria a causticar. Era apenas preciso preparar o remédio. Pois então, estado de irritação e causticações... Hans Castorp tinha a cabeça cheia de associações de idéias, que iam muito longe e se referiam a pessoas quase estranhas, como, por exemplo, o porteiro coxo e aquela senhora que passara uma semana inteira comprimindo a orelha e todavia não tivera motivos para preocupar-se. Estava a ponto de fazer mais algumas perguntas, porém não conseguiu pronunciá-las. Resolveu então pedir informações ao próprio conselheiro, quando estivessem a sós. Por enquanto limitou-se a expressar a Joachim a satisfação que experimentava ao ver que aquela moléstia se achava agora sob controle e que o Dr. Behrens se encarregara do assunto. Era “bamba” nessas coisas e saberia, sem dúvida, remediar. Joachim fez um sinal de aprovação, sem encarar o primo; deu meia-volta e passou para o seu compartimento.
Que é que havia com o honrado Joachim? Nesses últimos dias, seus olhos tinham-se tornado inseguros e esquivos. Fazia pouco tempo que a Superiora, Srta. von Mylendonk, malograra no seu esforço de lhe penetrar o olhar meigo e tristonho; mas, se agora repetisse a tentativa, ninguém poderia dizer com certeza o que sucederia. Em todo caso, Joachim evitava esse tipo de encontros, e quando se produziam apesar disso – pois Hans Castorp olhava-o com muita freqüência – não contribuíam para diminuir o desassossego. Angustiado, Hans Castorp permanecia estendido na sua sacada, e no íntimo crescia-lhe a tentação de ir ter com o conselheiro imediatamente. Isso, entretanto, não era possível, já que não se poderia levantar sem que Joachim o notasse. Dessa forma, era necessário esperar e ver se lograva falar com Behrens no decorrer da tarde.
Mas não teve êxito. Coisa estranha! Absolutamente não conseguiu encontrar o conselheiro, nem nessa tarde, nem durante os dois dias seguintes. Claro que Joachim o estorvava um pouco, uma vez que não devia perceber nada; mas isso não bastava para explicar por que Hans Castorp não chegava a obter essa entrevista e tinha tamanhas dificuldades em apanhar Radamanto. Procurava-o e perguntava por ele em toda a casa. Mandavam-no de cá para lá, a lugares onde era certo que encontraria o médico. No entanto, nunca o achava ali. Behrens assistiu a uma das refeições, mas estava sentado muito longe, à mesa dos “russos ordinários”, e sumiu antes da sobremesa. Algumas vezes, Hans Castorp tinha a impressão de que o poderia agarrar pela manga do casaco; via-o na escada ou num corredor, a conversar com Krokowski, com a Superiora ou com um enfermo, e punha-se à espreita. Mas logo que desviava o olhar, Behrens desaparecia.
Não foi senão no quarto dia que realizou o seu propósito. Da sua sacada descobriu o médico no jardim, ocupado em dar ordens ao jardineiro. Rapidamente, Hans Castorp desembaraçou-se dos cobertores e correu ao seu encontro. O conselheiro, com a nuca saliente e com as mãos remando, já se afastava em direção ao seu apartamento. Hans Castorp pôs-se a correr e até tomou a liberdade de chamá-lo, mas não foi ouvido. Finalmente, ofegando, conseguiu detê-lo.
– Que é que o senhor perdeu aqui? – interpelou-o o conselheiro desabridamente, com seus olhos lacrimosos. – Será preciso que lhe mande entregar um exemplar especial do regulamento da casa? Ao que saiba é hora de repouso. Sua curva de temperatura e sua radiografia absolutamente não o autorizam a bancar o cavalheiro independente. Deveríamos colocar aqui um espantalho engenhoso para ameaçar pessoas que folgam no jardim entre as duas e as quatro.
Afinal de contas, que é que o senhor quer?
– Senhor conselheiro, é indispensável que lhe fale um momento.
– Já sabia que o senhor meteu essa idéia na cabeça, há algum tempo. Corre atrás de mim, como se eu fosse uma donzela e lhe prometesse não sei que prazeres. Que deseja de mim?
– Perdão, doutor, trata-se do meu primo. Agora lhe pincelam a garganta... Estou convencido de que com esse tratamento se endireitará aquela coisa. Ela é inofensiva; não é? Era só isso que lhe desejava perguntar...
– O senhor sempre quer que tudo seja inofensivo, Castorp. É essa a sua índole. Às vezes não se mostra avesso ao contato com coisas nada inofensivas, mas então as trata como se fossem perfeitamente inocentes, e com isso pensa agraciar a Deus e aos homens. O senhor é uma espécie de covarde e de hipócrita, meu caro, e quando seu primo o chama de civil, usa termo bastante eufêmico.
– Pode ser que tudo isso seja assim, doutor. Ora, ninguém discute as fraquezas do meu caráter. Mas o caso é precisamente que no momento elas não estão em discussão, e o que lhe queria pedir, faz três dias, é apenas...
– ...que eu lhe ministre uma poção agradavelmente açucarada e diluída! O senhor quer me importunar e maçar, para que eu o confirme na sua maldita hipocrisia e para que o senhor possa dormir o sono dos justos, enquanto outras pessoas velam e se expõem à tempestade.
– Olhe, doutor, o senhor é muito severo comigo. Eu queria, pelo contrário...
– Sim, senhor, a severidade não é propriamente o seu forte. Seu primo é um tipo bem diferente, é feito de outro estofo. Ele está a par de tudo. Está a par e fecha-se, compreende? Não se agarra ao avental da gente, pedindo que o iluda com miragens e histórias inofensivas. Sabia o que estava fazendo e o que arriscava. É um homem que se mantém firme e sabe calar o bico, o que é uma arte viril, na qual infelizmente não são peritos os simpáticos bípedes da sua espécie.
Mas uma coisa lhe digo, Castorp; se o senhor começar a fazer uma cena aqui, a lamentar-se e a entregar-se ao seu sentimentalismo civil, mandarei que o ponham no olho da rua. O que precisamos aqui são homens, compreende?
Hans Castorp permaneceu silencioso. Também a sua tez assumia agora aquela cor terrosa, ao empalidecer. Sua pele estava por demais bronzeada para tornar-se totalmente lívida.
Finalmente disse, com os lábios trêmulos:
– Muito obrigado, senhor conselheiro. Eu também estou a par, agora. Acho que o senhor não falaria comigo com... (não sei como expressar-me)... com tanta solenidade, se o caso de Joachim não fosse grave. Também detesto cenas e gritarias; nesse ponto o senhor não me julga bem. E quanto à discrição, não faltarei a ela. Disso pode estar certo.
– O senhor quer bem a seu primo, Hans Castorp? – perguntou o médico, agarrando de repente a mão do jovem e fixando nele os olhos azuis, lacrimosos e injetados, por entre as pestanas brancas.
– Não sei que lhe responder, senhor conselheiro. É um parente próximo, um bom amigo e meu camarada aqui em cima. – Hans Castorp deixou escapar um breve soluço, fazendo um dos pés girar sobre a ponta.
O médico apressou-se a soltar-lhe a mão.
– Pois então trate-o com gentileza durante estas seis ou oito semanas – disse. – Proceda com a sua costumeira ingenuidade. Sem dúvida é isso o que ele preferirá. Eu também estarei presente e providenciarei para que as coisas decorram, na medida do possível, de modo elegante e confortável.
– É a laringe, não é? – perguntou Hans Castorp, sacudindo a cabeça.
– Laryngea – confirmou o conselheiro. – A destruição progride rapidamente. E a mucosa da traquéia também já se acha em mau estado. Pode ser que as vozes de comando, lá no serviço, hajam criado um locus minoris resistentiae. Sempre devemos estar preparados para tais deslocamentos da doença. Há pouca esperança, meu filho. No fundo, não há nenhuma. Claro que lançaremos mão de todos os recursos...
– A mãe... – disse Hans Castorp.
– Mais tarde, mais tarde. Por enquanto não há pressa. Empregue o seu tato e sua delicadeza para informá-la gradativamente. E agora volte ao seu posto. Ele está notando o que se passa, e com certeza lhe será desagradável saber que a gente fala dele pelas costas.
Todos os dias Joachim se deixava pincelar. O outono era lindo. Correto e marcial, nas calças de flanela branca e na jaqueta azul, o jovem chegava freqüentemente atrasado às refeições.
Cumprimentava os comensais com amabilidade, de um modo discreto e másculo, e pedia desculpas pela sua pouca pontualidade. Sentava-se então para tomar a comida especial que lhe preparavam agora, uma vez que não podia engolir os alimentos normais, devido ao perigo de se engasgar. Serviam-lhe sopas, mingaus e picadinhos. Os companheiros de mesa compreenderam rapidamente a situação. Retribuíam-lhe a saudação com enfática cortesia e extraordinário calor.
Tratavam Joachim de “tenente”. Na sua ausência interrogavam Hans Castorp, e também das outras mesas acorriam pessoas para se informar. A Srª. Stöhr acudiu, torcendo as mãos e choramingando no seu jeito vulgar. Mas Hans Castorp limitava as suas respostas a monossílabos.
Admitia a gravidade do caso, mas ao mesmo tempo negava-a até certo ponto. Agia assim por causa das aparências, sentindo no seu íntimo que não devia abandonar Joachim antes do tempo.
Passeavam juntos; cobriam três vezes por dia a distância regulamentar, a que o conselheiro acabava de restringir Joachim rigorosamente, para evitar qualquer desgaste desnecessário de forças. Hans Castorp ia à esquerda do primo. Antes haviam caminhado assim ou também de outra maneira, conforme a ocasião. Mas agora, Hans Castorp mantinha de preferência a esquerda. Falavam pouco; proferiam as palavras que o dia normal do Berghof lhes punha na boca, e nada mais. Sobre o assunto que se erguia entre eles nada era preciso dizer, sobretudo entre pessoas de mentalidade reservada, que só em casos extremos se tratam pelo nome de batismo. Mesmo assim havia instantes em que o sentimento borbulhava e efervescia no peito civil de Hans Castorp a ponto de extravasar. Mas isso era impossível. O que se agitara dolorosa e violentamente acalmava-se, e ele permanecia calado.
Joachim caminhava a seu lado, com a cabeça baixa. Tinha os olhos fixos no solo, como se contemplasse a terra. Era muito esquisito: ali andava ele, correto e asseado, saudando os transeuntes na sua maneira cavalheiresca, cuidava do seu exterior e da sua bienséancei como sempre
– e, contudo, pertencia à terra. Bem, nós todos pertenceremos a ela, mais cedo ou mais tarde.
Mas, quando se é tão jovem e tão cheio da boa e ardorosa vontade de servir sob a bandeira da pátria, é muito amargo pertencer a ela dentro de pouquíssimo tempo. E é ainda mais amargo e mais incompreensível para quem, como Hans Castorp, caminha a seu lado, sabendo de tudo aquilo, do que para o próprio homem destinado à terra, cuja sabedoria reticente e discreta tem, no fundo, natureza muito acadêmica, carece para ele de caráter realístico e interessa mais aos outros do que a ele mesmo. Com efeito, a nossa morte é assunto dos sobreviventes, mais do que de nós próprios. Quer a conheçamos, quer não, conserva pleno valor para a alma aquela sentença de um sábio espirituoso que reza: enquanto existimos, não existe a morte, e quando ela existe, nós já deixamos de existir; por conseguinte, não há, entre nós e a morte, nenhuma relação real, e ela é uma coisa que para nós absolutamente não tem interesse e que, quando muito, afeta ao mundo e à natureza; motivo por que todas as criaturas a contemplam com grande calma, com indiferença, com certa ingenuidade egoística, e sem assumir responsabilidades. Durante as semanas a que nos referimos, Hans Castorp encontrava na atitude de Joachim muito de ingênuo e de irresponsável, e compreendia que o primo, embora sabendo de tudo, não tivesse dificuldade em guardar um silêncio correto a respeito desse seu saber, porque as relações íntimas que o ligavam a ele eram apenas frouxas e teóricas, ou, na medida em que requeriam consideração prática, estavam sendo reguladas e determinadas por um sadio senso das conveniências, que não admitia a discussão dessa sabedoria, tanto como a de muitas outras independências funcionais, das quais a vida tem consciência, e que a condicionam, mas que não a impedem de guardar as aparências.
Assim, passeavam e guardavam silêncio sobre os assuntos indecorosos da natureza.
Também aquelas lamentações furiosas e exaltadas que Joachim no começo proferira, por ter de faltar às manobras e ao serviço militar em geral, haviam cedido ao mutismo. Mas, por que as substituía com tanta freqüência, e apesar de toda a referida ingenuidade, aquela expressão turva de pavor nos olhos meigos de Joachim, aquela insegurança que provavelmente decidiria a vitória
da Superiora, se esta fizesse nova investida? Era porque sabia que tinha as órbitas cavas e as faces encovadas? Pois era esse o aspecto que seu rosto assumia quase a olhos vistos, no curso dessas semanas, e que piorara muito em comparação com aquele que tivera quando da sua volta da planície. Dia a dia, sua tez trigueira ia adquirindo uma aparência mais parecida com couro amarelo. Era como se tivesse razões de envergonhar-se e de desprezar-se a si próprio num ambiente que, em conformidade com a atitude do Sr. Albin, não tinha outras preocupações a não ser as de desfrutar as imensas vantagens oferecidas pela ignomínia. Diante de que e de quem se abaixava e fugia, então, o seu olhar outrora tão franco? Que coisa singular, esse pudor que a criatura sente em face da vida, e que a faz refugiar-se num esconderijo para morrer, convencida de que não pode esperar da natureza exterior nenhum respeito e nenhuma piedade para com o seu sofrimento e a sua agonia; e com razão, uma vez que até um bando de pássaros orgulhosos das suas asas não somente não costuma honrar o companheiro enfermo, mas até o maltrata com bicadas violentas e desdenhosas. Mas esse exemplo é tirado da natureza ordinária. O peito de Hans Castorp, porém, enchia-se de uma compaixão carinhosa e sumamente humana, quando notava nos olhos do pobre Joachim esse obscuro e instintivo pudor. Caminhava à esquerda do primo, fazia-o cada vez mais propositadamente, e como Joachim começasse a andar um tanto trôpego, apoiava-o desde que se tratasse de galgar uma pequena encosta coberta de capim. Então o cingia com o braço, e certa vez até lhe aconteceu esquecer de retirar a mão do ombro do primo, que sacudiu com alguma irritação, dizendo:
– Escute, deixe disso! Parecemos uns bêbados quando andamos assim.
Mas veio um momento em que a perturbação do olhar de Joachim se apresentou ao jovem Hans Castorp sob um outro aspecto ainda. Em princípios de novembro, quando a neve estava muito alta, Joachim recebeu ordem de meter-se na cama. Naquela época já se lhe tornara excessivamente difícil ingerir os picadinhos e os mingaus, porque se engasgava a cada instante.
Parecia indicada uma alimentação exclusivamente líquida, e ao mesmo tempo Behrens prescreveu repouso ininterrupto na cama, para poupar as forças do doente. Foi, portanto, na véspera de Joachim acamar-se definitivamente, a última noite que passou de pé, que Hans Castorp o surpreendeu... o surpreendeu conversando com Marusja, aquela moça injustificadamente risonha, com o lencinho perfumado de flor de laranjeira e com os seios exteriormente formosos. Deu-se isso depois do jantar, durante a reunião noturna, no vestíbulo. Hans Castorp, que se demorara no salão de música, saiu para procurar Joachim e encontrou-o em frente à lareira revestida de azulejos, ao lado da cadeira de Marusja. Era uma cadeira de balanço, e com a mão esquerda sobre o espaldar, Joachim inclinava-a para trás, de maneira que Marusja se achava numa posição semideitada, erguendo os olhos redondos e castanhos para o rosto do jovem, que este aproximava do seu. Enquanto isso, falava ele em voz baixa e entrecortada, ao passo que ela às vezes dava de ombros, com um sorriso entre desdenhoso e emocionado.
Hans Castorp afastou-se apressadamente, não sem ter notado que outros pensionistas observavam a cena divertidos, como era de esperar; Joachim, entretanto, não os percebia ou, pelo menos, não lhes prestava atenção. Esse espetáculo do primo abandonando-se sem a menor reserva a uma conversa com a Marusja dos seios opulentos, a cuja mesa estivera sentado tanto tempo sem nunca trocar com ela uma única palavra; diante de cuja pessoa e existência sempre baixara razoável e honestamente os olhos com expressão austera, embora empalidecesse e sua tez se tornasse terrosa, quando se falava dela – esse espetáculo comoveu Hans Castorp muito mais do que qualquer outro sinal de debilidade que nessas últimas semanas notara em seu primo. “Sim, ele está perdido!”, pensou, e sentou-se em silêncio numa das cadeiras do salão de música, a fim de deixar a Joachim o tempo necessário para o que ele se concedia, lá no vestíbulo, na derradeira noite de que dispunha.
A partir de então Joachim tomou a posição horizontal, e Hans Castorp avisou Luise Ziemssen desse fato. Escreveu-lhe, na sua excelente espreguiçadeira, que havia uma coisa a acrescentar às notícias dadas anteriormente, a saber, que Joachim se achava acamado, e que o desejo de ver a mãe perto de si podia ler-se nos olhos dele, embora nada dissesse a esse respeito.
O Dr. Behrens apoiava expressamente esse tácito desejo, segundo Hans Castorp comunicava de uma forma delicada, mas clara. Não era, portanto, de admirar que a Srª. Ziemssen recorresse aos meios mais rápidos de transporte para se unir ao filho. Três dias após a remessa da carta alarmante apesar dos termos carinhosos, já estava em Davos. Em meio a uma tempestade de neve, Hans Castorp foi de trenó à estação da “aldeia”, a fim de esperá-la. Na plataforma, enquanto o trenzinho entrava na estação, compôs o semblante, para que a mãe não se assustasse em excesso, mas também para que o seu primeiro olhar não descobrisse nele qualquer alegria falaz.
Quantas vezes encontros desse caráter se haviam realizado nesse lugar, quantas vezes os que desciam do trem tinham examinado insistente e angustiadamente as feições de quem os recebia, enquanto um se lançava nos braços do outro! A Srª. Ziemssen dava a impressão de ter corrido a pé de Hamburgo a Davos. Com o rosto ardente, apertou contra o peito a mão de Hans Castorp. Olhou em torno como que amedrontada e cochichou apressadas perguntas, como se se tratasse de um segredo. Hans Castorp esquivou-se às respostas, agradecendo-lhe por ter vindo tão depressa. Ótimo! Como não estaria contente o Joachim! Bem, o primo, infelizmente, achava-se acamado. Era porque só tomava alimentos líquidos, o que, naturalmente, não deixava de exercer influência sobre o estado de suas forças. Mas, para tais casos existiam certos recursos, como, por exemplo, a alimentação artificial. Ora, ela perceberia por si mesma...
Percebeu, e a seu lado Hans Castorp percebeu também. Até esse instante não se dera conta, com tamanha clareza, das mudanças que se haviam produzido em Joachim. Gente moça não costuma observar essas coisas. Agora, porém, perto da mãe vinda de longe, contemplou-o, por assim dizer, com os olhos dela, como se não o visse desde muito tempo, e reconheceu com absoluta segurança o que ela, sem dúvida, reconhecia também, e que Joachim, decerto, sabia melhor do que ninguém, isto é, que o primo era um moribundo. O jovem oficial comprimia a mão da Srª. Ziemssen na sua, essa mão tão definhada e amarela como o seu rosto, no qual, justamente devido ao emagrecimento, as orelhas, aquela ligeira contrariedade dos seus anos felizes, haviam-se despegado mais intensamente do que outrora, desfigurando-o de modo lamentável. Mas, à parte esse defeito, e apesar dele, o semblante de Joachim parecia antes embelezado e mais viril pelo cunho do sofrimento e pela expressão grave, austera e mesmo orgulhosa, se bem que os lábios, encimados pelo bigodinho negro, fossem um tanto grossos em confronto com as sombras das faces encovadas. Dois sulcos se haviam aberto na pele amarelada da testa, entre os olhos. Estes, embora profundamente sumidos nas órbitas ossudas, eram maiores e mais belos do que nunca, e deliciavam Hans Castorp. Desde que Joachim se acamara, desaparecera deles o menor traço de perturbação, tristeza e insegurança. Unicamente aquela luz continuava perceptível no seu fundo calmo e escuro, e também aquele quê “ominoso”. Joachim não sorriu, ao estreitar a mão da mãe e ao dar-lhe, em voz baixa, as boas-vindas. Não sorria tampouco por ocasião da sua entrada, e essa impassibilidade, esse ar imutável da sua fisionomia revelavam tudo...
Luise Ziemssen era uma mulher corajosa. Não se desfez em pranto à vista de seu valente filho. A rede quase invisível que lhe prendia os cabelos era um símbolo da sua atitude controlada e comedida. Com aquela fleuma e energia peculiares às pessoas da sua terra, tomou a si cuidar de Joachim, cujo aspecto precisamente lhe estimulava a combatividade materna e a enchia com uma fé em que, se ainda havia alguma possibilidade de salvação, esta só poderia proceder da sua força e vigilância. Decerto não foi para a sua própria comodidade, senão apenas por causa das aparências, que consentiu alguns dias após em contratar uma enfermeira para o filho gravemente enfermo. Foi a Irmã Berta, em realidade Alfreda Schildknecht, que surgiu, com sua maleta negra, à cabeceira do leito de Joachim. Mas, nem de dia nem de noite, a zelosa atividade da Srª.
Ziemssen lhe deixava muito que fazer, de modo que Irmã Berta tinha tempo de sobra para deter-se no corredor e para lançar olhares curiosos em todas as direções, com o cordão do pince-nez atrás da orelha.
A diaconisa protestante era uma alma prosaica. A sós no quarto com Hans Castorp e com o doente, que absolutamente não dormia, mas jazia de costas, com os olhos abertos, foi capaz de dizer:
– Eu nunca teria imaginado que um dia me chamariam para velar junto ao leito de morte de um dos senhores.
Hans Castorp, horrorizado, ameaçou-a furiosamente com o punho cerrado. Mas ela mal compreendia por quê. Estava longe, e com razão, de pensar que talvez fosse conveniente poupar Joachim, e tinha um espírito por demais realista para supor que alguém, e muito menos o mais interessado, pudesse nutrir ilusões sobre o caráter e as perspectivas desse caso. – Tome – dizia ela, deitando água-de-colônia num lenço e aproximando-o do nariz de Joachim. – Goze mais um pouco da vida, tenente! – E de fato, a essa altura dos acontecimentos teria sido pouco razoável procurar enganar o bom Joachim, a não ser que fosse na intenção de exercer sobre ele uma influência tonificante; o que visava a Srª. Ziemssen, quando lhe falava da cura, em voz enfática e comovida. Pois duas coisas eram evidentes, e ninguém se podia equivocar a seu respeito: a primeira, que Joachim ia ao encontro da morte com plena consciência, e a segunda, que o fazia em paz e satisfeito consigo próprio. Somente na última semana, em fins de novembro, quando se manifestou o enfraquecimento do coração, abandonava-se, durante horas, ao esquecimento, deixando-se embalar por doces e vagas esperanças quanto ao seu estado. Falava então da iminência da sua volta ao regimento e da sua participação nas grandes manobras, que pensava ainda não terem terminado. Foi na mesma época que o Dr. Behrens desistiu de alentar as esperanças dos parentes e declarou que o passamento era questão de horas.
É um fenômeno tão patético quanto formal essa auto-ilusão esquecidiça e crédula a que se entregam mesmo os espíritos viris numa fase em que, na realidade, o processo destruidor se aproxima do seu fim; é normal, impessoal e superior a toda e qualquer consciência, na mesma medida que a tentação de adormecer, que seduz os que estão a ponto de morrer congelados, ou a marcha circular de quem perdeu o caminho. Hans Castorp, a quem a mágoa e a dor do coração não impediam de encarar esse fenômeno de modo objetivo, associou a ele algumas observações mal formuladas, mas sutis, numa palestra com Naphta e Settembrini, na qual os informara sobre o estado de seu parente. E o humanista censurou-o por ter julgado errôneo o conceito comum, segundo o qual a fé filosófica e a confiança num exitus favorável eram expressão de boa saúde, ao passo que o pessimismo e a condenação do mundo constituíam sinais de morbidez; se fosse assim, não seria possível que a fase final, desesperadora, produzisse um otimismo de um cor-derosa tão sinistro, comparado com o qual a depressão precedente parecia revelar uma vitalidade sadia. Graças a Deus que ele podia comunicar aos amigos compassivos que Radamanto, no meio de toda essa desolação, não excluía a esperança, profetizando um exitus suave e, apesar da juventude de Joachim, livre de sofrimentos.
– É o coração, uma história idílica, minha excelentíssima senhora – disse enquanto segurava a mão de Luise Ziemssen entre as suas manzorras do tamanho de uma pá, e fitou-a com os olhos azuis, saltados, lacrimosos e estriados de sangue. – Estou satisfeito, estou satisfeitíssimo de que o caso vá tomando um curso cordial, fazendo o rapaz escapar ao edema da glote e a outras infâmias. Dessa forma, poupam-se-lhe muitos tormentos. O coração decai rapidamente. É
melhor assim para ele e para nós. Podemos cumprir o nosso dever e aplicar-lhe injeções de cânfora, sem o perigo de expô-lo a prolongadas complicações. Quando o fim se aproximar, ele dormirá muito e terá sonhos amenos. Acho que lhe posso prometer isso, e mesmo se não dormir nos últimos instantes, o trespasse será breve e imperceptível. Então tudo se tornará indiferente para ele. Disso a senhora pode ter certeza. Aliás, é sempre assim. Eu conheço a morte, sou um dos seus velhos empregados. Creia-me, em geral a gente a receia demais. Posso afirmar-lhe que é quase insignificante. Pois aquela trabalheira que às vezes a precede não pode ser considerada como parte dela; é o que há de mais vivo, e pode conduzir à vida e à saúde. Mas ninguém que voltasse da morte seria capaz de lhe contar coisas interessantes a seu respeito, uma vez que ela não se percebe. Saímos das trevas e entramos nas trevas. Entre elas há experiências, mas o
começo e o fim, o nascimento e a morte não são coisas que notamos, não têm caráter subjetivo; como processos pertencem inteiramente à esfera do objetivo. Assim é a coisa...
Era dessa maneira que o conselheiro consolava. Esperemos que tenha feito algum bem à sisuda Srª. Ziemssen. As profecias do médico realizaram-se quase por completo. Joachim, debilitado, dormia horas a fio durante esses últimos dias; era provável que também sonhasse com o que gostava de sonhar, isto é, assuntos da planície e da vida militar; quando acordava e lhe perguntavam como se achava, respondia sempre, embora indistintamente, que se sentia muito bem e feliz, apesar de ter o pulso quase imperceptível e não mais notar as picadas das agulhas de injeções. Seu corpo tornara-se insensível; poderiam beliscá-lo ou queimá-lo, sem que isso interessasse o honrado Joachim.
Entretanto, passara por grandes mudanças, desde a chegada da mãe. Como lhe era muito incômodo barbear-se, não o fazia desde oito ou dez dias. Tinha a barba cerrada, e seu rosto amarelo como cera, com os olhos meigos, estava agora emoldurado por uma barba negra, espessa, de guerreiro, como aquelas que os soldados deixam crescer nas campanhas, e que, segundo a opinião de todos, tornava-o mais belo e mais viril. Sim, subitamente Joachim se transformara de um jovem num homem maduro, devido a essa barba, e não só devido a ela.
Como um relógio cujo balancim está estragado, sua vida precipitava-se para a frente; a galope percorria as idades que não lhe fora dado alcançar no tempo real, e no curso das últimas vinte e quatro horas Joachim converteu-se em ancião. A debilidade do coração produziu-lhe no rosto certa turgidez, que lhe deu uma fisionomia cansada e causou a Hans Castorp a impressão de que a morte devia ser, pelo menos, um grande trabalho, posto que Joachim, graças aos desfalecimentos e às diminuições da sensibilidade, não parecesse notá-lo. Essa inchação afetava mais intensamente a parte dos lábios, e certa secura ou enervação do interior da boca tinha relação evidente com ela. O resultado era que Joachim balbuciava como um velho, e essa fraqueza irritava-o seriamente. Se ao menos se pudesse libertar dela – dizia tartamudeando –, tudo estaria bem; mas assim, era uma contrariedade terrível.
O que queria dizer com esse “tudo estaria bem” não era muito claro. Cada vez mais nitidamente evidenciava-se a típica tendência para a ambigüidade que fazia com que várias vezes dissesse coisas equívocas. Parecia saber e não saber. Em certa ocasião manifestamente foi abalado pela sensação do iminente ocaso, de maneira que declarou, meneando a cabeça, com alguma contrição: – Nunca na vida me senti tão mal como hoje.
Em seguida, tornou-se reservado, austero, retraído e mesmo descortês. Já não admitia ficções e paliativos. Deixava de corresponder a tentativas nesse sentido; olhava para a frente com ar abstrato. Rezou, assistido por um jovem pastor que Luise Ziemssen mandara chamar, e que, para grande pesar de Hans Castorp, não usava golilha engomada, senão apenas um simples colarinho. Foi sobretudo depois dessa visita que Joachim começou a assumir uma atitude oficial, de militar, expressando os seus desejos em forma de comandos lacônicos.
Pelas seis da tarde entregou-se a uma atividade esquisita: com a mão direita, cujo pulso estava guarnecido de uma corrente de ouro, esfregou várias vezes a colcha, à altura dos quadris; a seguir, ao retirá-la, ergueu-a e fez um gesto de quem ajunta ou recolhe alguma coisa com um ancinho.
Às sete horas morreu... Alfreda Schildknecht encontrava-se no corredor; somente a mãe e o primo estavam presentes. Joachim resvalara do travesseiro e ordenara brevemente que o apoiassem. Enquanto a Srª. Ziemssen lhe enlaçava os ombros com um dos braços, para executar essa ordem, o enfermo mencionou com certa pressa que devia imediatamente redigir e despachar um requerimento, solicitando a prorrogação da sua licença. No meio dessas palavras realizou-se o
“trespasse imperceptível”, observado com reverência por Hans Castorp, à luz que se coava pelo quebra-luz vermelho da lâmpada de cabeceira. Vidraram-se os olhos de Joachim; desapareceu a inconsciente tensão do rosto; sumiu a olhos vistos a turgidez esforçada dos lábios, e a beleza viril da primeira mocidade tornou a estender-se por sobre o semblante mudo. Estava tudo acabado...
Como Luise Ziemssen virasse a cabeça, soluçando, foi Hans Castorp quem, com a ponta do dedo anular, cerrou as pálpebras do corpo imóvel e inanimado. Também lhe juntou suavemente as mãos sobre a colcha. Em seguida se ergueu e chorou, deixando correr sobre as faces lágrimas como aquelas que tanto haviam ardido no rosto do oficial da marinha inglesa; esse líquido claro, que jorra neste mundo a toda hora e em toda parte, com tanta abundância e com tanta amargura que os poetas deram o seu nome ao “vale” terreno; esse produto alcalino e salgado das glândulas que o abalo dos nervos, causado por uma dor penetrante, arranca ao nosso corpo, e que, como Hans Castorp sabia, continha além disso traços de mucina e de albumina.
Chegou o conselheiro, avisado pela Irmã Berta. Meia hora antes ainda estivera no quarto, para dar no moribundo uma injeção de cânfora. Apenas lhe escapara o instante do “trespasse imperceptível”. – Pois é, para este já terminou tudo – disse simplesmente, enquanto se levantava, afastando o estetoscópio do peito silenciado de Joachim. E com um aceno de cabeça, apertou as mãos dos dois parentes. Depois deteve-se ainda alguns momentos com eles à frente da cama, contemplando o rosto petrificado de Joachim, com a barba de guerreiro. – Que sujeito incrível, este rapaz! – prosseguiu falando por cima do ombro, apontando com a cabeça para aquele que ali descansava. – Quis forçar a natureza; sabem? Claro, aquele serviço lá embaixo só constava de coação e de violência. Apesar da febre, ele cumpriu o seu dever, a todo transe. É o campo de honra, compreendem? Fugiu para o campo de honra, esse desertor! Mas, no seu caso, a honra significava a morte, e a morte... Bem, pode-se inverter a frase, à vontade. Seja como for, ele nos disse: “Tenho a honra de me despedir”. Incrível, esse rapaz! – E foi-se, alto, encurvado, com a nuca saliente.
Era coisa decidida que o corpo de Joachim seria transportado para o seu torrão natal, e o Sanatório Berghof encarregava-se de tudo o que era necessário, e que a dignidade da situação exigia. A mãe e o primo não precisavam mover uma palha. No dia seguinte, Joachim, deitado com uma camisa de seda, sob a colcha adornada de flores, rodeado de uma luminosidade baça e nívea, parecia ainda mais belo do que logo após o trespasse. O menor vestígio de cansaço sumira do seu rosto. Ao esfriar, este adquirira uma forma silenciosa e pura. Mechas crespas de cabelo escuro caíam-lhe sobre a testa imóvel, macilenta, e que parecia plasmada de matéria nobre, mas delicada, misto de mármore e cera. Na barba igualmente encrespada ressaltavam os lábios cheios e altivos. Um capacete antigo assentaria bem a essa cabeça, segundo achavam alguns dentre os visitantes presentes na hora da despedida.
A Srª. Stöhr chorava entusiasticamente ao ver a forma que assumira aquele que fora Joachim. – Um herói! Um herói! – exclamava repetidas vezes, e fazia questão que no enterro se tocasse a “Erótica” de Beethoven.
– Cale-se, finalmente! – sibilou Settembrini a seu lado. Entrara no quarto ao mesmo tempo que ela, acompanhado de Naphta. Estava sinceramente comovido. Com ambas as mãos designava Joachim aos presentes, exortando-os a partilharem a sua tristeza. – Un giovanotto tanto simpatico, tanto stimabile! – clamava uma e outra vez.
Embora conservando a sua atitude recolhida, e sem olhar o italiano, Naphta não se pôde abster de observar mordazmente, em voz baixa:
– Folgo em ver que o senhor não só se preocupa com a liberdade e o progresso, mas também tem o senso das coisas sérias...
Settembrini engoliu a pílula. Talvez se apercebesse de que as circunstâncias davam temporariamente a Naphta uma posição superior à sua; talvez fosse essa supremacia provisória do adversário o que ele procurava contrabalançar pela intensidade do seu luto, e o que agora o fazia guardar silêncio mesmo quando Naphta, abusando das vantagens transitórias que lhe oferecia a situação, acrescentou em tom cortante e sentencioso:
– O erro dos literatos consiste na crença de que somente o espírito torna as pessoas decentes. O que se dá em realidade é antes o contrário. Somente onde falta o espírito existe decência.
“Hum!”, pensou Hans Castorp. “Aí temos mais um desses oráculos píticos. Basta pronunciá-lo e cerrar os lábios em seguida, para intimidar os outros por algum tempo...” Pela tarde chegou o ataúde de metal. Ao mesmo tempo veio um homem que deu a entender que cabia exclusivamente a ele transferir Joachim para esse suntuoso receptáculo enfeitado de alças e de cabeças de leões. Era funcionário da empresa funerária e trajava uma espécie de sobrecasaca preta e curta. Na sua mão plebéia exibia uma aliança encravada na carne exuberante do dedo, que cobria quase por completo. Tinha-se a impressão de que dos seus trajes se desprendia um cheiro cadavérico, o que não passava de uma opinião preconcebida. Mas esse homem manifestava aquela pretensão peculiar aos especialistas, os quais pensam que todo o seu trabalho se deve realizar atrás de cortinas e que não convém expor aos olhares dos sobreviventes senão os resultados piedosos e edificantes do seu esforço. Justamente essa sugestão despertou, entretanto, a desconfiança de Hans Castorp, que não concordava com ela. Consentiu em que a Srª. Ziemssen se retirasse, mas não admitiu que ele mesmo fosse mandado embora. Permaneceu no quarto e colaborou ativamente. Pegou o corpo pelas espáduas e ajudou a carregá-lo da cama até o caixão.
Depositaram então os restos mortais de Joachim sobre a mortalha e uma almofada guarnecida de borlas, onde repousaram altos e solenes, entre os castiçais emprestados pelo Sanatório Berghof.
No dia seguinte, porém, patenteou-se um fenômeno que determinou Hans Castorp a se distanciar e libertar intimamente dessa forma morta e a abandonar em definitivo o campo ao profissional, esse guardião antipático da piedade. Joachim, cuja expressão antes fora grave e pudica, acabava de esboçar um sorriso no meio da barba de guerreiro, e Hans Castorp não se iludia quanto ao fato de que esse sorriso encerrava o germe da degeneração. Essa percepção fez com que o seu coração sentisse a urgência do caso. Ainda bem que estava iminente a hora em que iriam buscar o féretro, que logo seria fechado e parafusado. Vencendo os seus inatos hábitos reservados, Hans Castorp roçou delicadamente com os lábios a testa gelada daquele que outrora tinha sido Joachim, e não obstante a sua desconfiança contra o homem sinistro, saiu obedientemente do quarto, em companhia de Luise Ziemssen.
Deixemos cair o pano, pela penúltima vez. Mas enquanto ele desce ruidosamente, mantenhamo-nos em espírito ao lado de Hans Castorp, que continua na sua montanha; olhemos com ele ao longe e agucemos os ouvidos; depararemos então com um campo-santo úmido, lá na planície, onde resplandece e se abaixa uma espada, ressoam vozes de comando e estrondeiam três salvas de fuzil, saudações fanáticas, ecoando sobre o túmulo do soldado Joachim Ziemssen, túmulo que as raízes das plantas acabam de invadir...