A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 9 de 13 · parte 2/3

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A Montanha Mágica

Por enquanto, o jovem devia conformar-se com…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– Rebellio carnis – explicava Hans Castorp. – Que é que se vai fazer? O mais valente oficial nada pode contra ela, e o próprio Santo Antão tinha experiência de sobra a seu respeito. Meu Deus, há manobras todos os anos, e você já sabe como corre o tempo aqui. Ele realmente não existe. Você nem sequer se ausentou o bastante para que lhe fosse difícil pegar novamente o ritmo, e num abrir e fechar de olhos o seu pequeno tratamento suplementar estará terminado.

Não obstante, o senso de tempo de Joachim havia sido reavivado pela vida na planície, e isso num grau demasiado forte para que as quatro semanas que ele tinha à sua frente não lhe inspirassem medo. Mas muita gente o ajudava a percorrê-las. A simpatia que todos sentiam por esse homem de caráter limpo manifestava-se em vista de pessoas familiares ou distantes. Veio Settembrini; mostrou-se compadecido e encantador; e como sempre houvesse tratado Joachim de tenente, passou agora a chamá-lo de capitão. Também Naphta apresentou-se, e aos poucos foram comparecendo todos os velhos conhecidos dentre os próprios pensionistas da casa, aproveitando um quarto de hora da liberdade concedida pelo regulamento, para sentar-se na beira da sua cama.

Repetiam então a expressão “pequeno tratamento suplementar” e faziam-no contar o que lhe acontecera: as Sras. Stöhr, Levi, Iltis e Kleefeld, os Srs. Ferge, Wehsal e outros. Alguns até lhe levavam flores. Decorridas as quatro semanas, Joachim levantou-se, já que a febre baixara o suficiente para que pudesse caminhar. Deram-lhe o seu lugar na sala de refeições entre o primo e

a Srª. Magnus, esposa do cervejeiro, o qual ficava à sua frente. Era o mesmo lugar na extremidade lateral que durante certo tempo haviam ocupado o tio James e, mais tarde, a Srª. Ziemssen.

Dessa forma, os jovens viviam de novo lado a lado, como outrora. Para que a situação anterior ressuscitasse de modo mais completo ainda, Joachim voltou a receber o seu quarto antigo, o quarto pegado ao de Hans Castorp, logo depois de Mrs. Macdonald, com o retrato do filhinho na mão, ter exalado o último suspiro, e naturalmente após uma cuidadosa desinfecção com H CO. No fundo, e do ponto de vista sentimental, as coisas haviam mudado no sentido de 2

que desta vez era Joachim quem vivia ao lado de Hans Castorp, e não vice-versa. Hans Castorp era agora o veterano, de cujo estilo de vida o outro participava passageiramente, como visitante.

Pois Joachim aferrava-se com toda a sua energia ao termo final em outubro, ainda que no seu sistema nervoso central existissem certos pontos que se recusavam a conduzir-se em conformidade com as normas humanísticas e estorvavam a radiação compensatória da sua pele.

Os dois recomeçaram também as suas visitas a Settembrini e Naphta, bem como os passeios em companhia desses homens unidos pelo seu antagonismo. Quando A. K. Ferge e Wehsal igualmente tomavam parte, o que não raro acontecia, eram seis, e aqueles adversários no espírito tinham então um público numeroso, perante o qual travavam os seus intermináveis duelos, que não poderíamos descrever de uma forma completa sem nos perdermos num labirinto desolador, como todos os dias acontecia a eles próprios. Apesar do número crescente de ouvintes, Hans Castorp tendia a considerar a sua pobre alma o objetivo principal daquela contenda dialética. Soube por Naphta que Settembrini era maçom, o que lhe causou impressão não menos viva do que as revelações do italiano relativas ao fato de pertencer Naphta à ordem dos jesuítas e ser mantido por ela. De novo experimentou surpresa ao inteirar-se de que coisas tão fantásticas ainda existiam na realidade, e com insistência interrogava o terrorista quanto à origem e à natureza dessa curiosa instituição, que em breve celebraria o seu bicentenário. Ao passo que Settembrini, à revelia de Naphta, costumava falar da natureza intelectual do seu vizinho num tom de enfática advertência contra uma coisa diabólica, Naphta zombava francamente, na ausência do outro, da esfera que o humanista representava; dava a entender que aí predominava um espírito muito estreito e atrasado, o esclarecimento burguês e o liberalismo de antanho, que nada mais eram senão uma mísera fantasmagoria, se bem que fomentassem a ridícula ilusão de estar ainda animados de vida revolucionária. – Que quer o senhor? Seu avô já era carbonaro, quer dizer, carvoeiro – expunha Naphta. – É dele que herdou essa fé dos carvoeiros na razão, na liberdade, no progresso da humanidade e em todo esse baú cheio das virtuosas velharias da ideologia classista-burguesa... Veja, o que perturba o mundo é a desproporção entre a rapidez do espírito e a imensa lerdice, morosidade e inércia da matéria. É preciso admitir que essa desproporção basta para desculpar qualquer espírito que se desinteresse da realidade. Pois, via de regra, os fermentos que produzem as revoluções reais de há muito lhe repugnam. Com efeito, o espírito morto causa maior repulsa ao espírito vivo do que quaisquer basaltos, que, pelo menos, não pretendem ser espírito e vida. Tais basaltos, restos de realidades antigas, que o espírito deixou atrás de si tão longe que se recusa ligar a elas o conceito do real, conservam-se pela inércia, e devido a sua persistência bruta, inanimada, impedem infelizmente o insípido de se dar conta da sua insipidez. Expresso-me de um modo geral, mas o senhor pode tirar dessas generalidades conclusões a respeito daquele liberalismo humanitário que ainda crê encontrar-se numa posição heróica em face do mando e da autoridade. Ah, sim! E ainda aquelas catástrofes por meio das quais ele quer comprovar que ainda está vivo, e aqueles triunfos atrasados e espetaculares que prepara e espera realizar um dia! Só de pensar nisso, o espírito vivo seria capaz de morrer de tédio, se não soubesse que em realidade quem surgirá dessas catástrofes como vencedor e quem as aproveitará será ele mesmo, que funde no seu seio os elementos do vetusto com os do mais longínquo porvir, para fazer uma revolução de verdade... Como vai seu primo, Hans Castorp? O

senhor sabe que sinto grande simpatia por ele.

– Obrigado, Sr. Naphta. Acho que todo mundo tem por Joachim uma simpatia sincera, porque é de fato excelente rapaz. Também o Sr. Settembrini gosta dele especialmente, embora

desaprove certo terrorismo fanático que é peculiar ao ofício de Joachim. E agora o senhor me diz que ele é maçom. Imaginem! Não nego que isso me dê que pensar. Sua pessoa me aparece sob uma luz diferente, e muitas coisas tornam-se mais claras para mim. Será que ele coloca às vezes os pés em ângulo reto e aperta a mão da gente de um modo especial? Nunca notei nada de tudo isso...

– Creio – opinou Naphta – que o nosso simpático Irmão Tripingado já passou da idade de tais criancices. Suponho que o cerimonial das lojas tenha sido adaptado, embora de um modo bastante incompleto, ao prosaico espírito cívico dos nossos tempos. Provavelmente sentiriam vergonha do ritual de outrora como de charlatanices indignas de gente civilizada e com razão, pois seria deveras absurdo disfarçar de mistério o republicanismo ateu. Não sei por que série de atrocidades foi posta à prova a constância do Sr. Settembrini; pode ser que o hajam levado com os olhos vendados através de uma porção de galerias ou feito esperar em calabouços escuros, antes de lhe abrirem a sala do conclave, deslumbrante de luzes refletidas por espelhos. Talvez o tenham catequizado solenemente. Quem sabe se não lhe ameaçaram com espadas o peito desnudo, em frente de uma caveira e de três velas acesas! Isso o senhor deve perguntar a ele mesmo, mas receio que o encontre pouco loquaz; pois ainda que tudo tenha decorrido de modo muito mais civil, em todo caso o mandaram fazer juramento de silêncio.

– Juramento de silêncio? Então é verdade?...

– Claro. Silêncio e obediência.

– Obediência também? Escute, professor, nesse caso me parece que ele absolutamente não tem motivos de se escandalizar da exaltação e do terrorismo inerentes à profissão do meu primo. Silêncio e obediência! Eu nunca teria imaginado que um homem tão liberal como Settembrini pudesse sujeitar-se a condições e votos tão tipicamente espanhóis. Realmente, farejo na maçonaria um elemento militar ou jesuítico...

– E seu faro não engana – respondeu Naphta. – Sua varinha mágica estremece e inclina-se. A idéia da associação é inseparável e tem raiz comum com a do incondicional. Por conseguinte é terrorística, isto é, antiliberal. Exonera a consciência individual e santifica, em nome da finalidade absoluta, todos os meios, também os sangrentos, inclusive o crime. Existem indícios de que antigamente a união dos irmãos costumava ser selada com sangue também nas lojas maçônicas. Uma união nunca é contemplativa, mas sempre é essencialmente organizadora, sob a direção de um espírito absoluto. Ignora o senhor que o fundador da Sociedade dos Iluminados, que durante algum tempo esteve a ponto de fundir-se com a maçonaria, era antigo membro da Companhia de Jesus?

– De fato, eu não sabia nada disso.

– Adão Weishaupt organizou a sua ordem secreta e humanitária na mais completa conformidade com o sistema dos jesuítas. Ele mesmo era maçom, e os mais conceituados membros das lojas daquela época faziam parte dos iluminados. Refiro-me à segunda metade do século XVIII, que Settembrini não hesitaria em qualificar de fase de decadência da sua irmandade. Na realidade, porém, foi o período de maior florescimento, como foi para todas as sociedades secretas, o tempo em que a maçonaria de fato se alçava a uma vida superior, vida que foi extinta mais tarde por homens da laia do nosso filantropo, que, se tivesse vivido naquela época, indubitavelmente teria pertencido aos que a tachavam de jesuítica e obscurantista.

– E havia motivos para isso?

– Sim, se assim quiser. O liberalismo trivial tinha suas razões para pensar dessa forma.

Era o tempo em que os nossos padres procuravam encher a associação de vida hierárquico-católica; então florescia em Clermont, na França, uma loja de jesuítas maçons. Era, além disso, a época em que as lojas foram penetradas pelo espírito da Rosacruz, essa confraria bem singular, a cujo respeito o senhor pode gravar na memória que ela aliava objetivos de aperfeiçoar e afortunar o mundo, objetivos puramente racionalistas e político-sociais, a estranhas relações com as ciências secretas do Oriente, com a sabedoria índica e árabe, e com o conhecimento mágico da natureza. Foi naquele período que se realizaram a reforma e a emenda do sistema de muitas lojas

maçônicas, no sentido da estrita observância, sentido expressamente irracional e misterioso, mágico e alquimista, ao qual os graus elevados do rito escocês da maçonaria devem a sua origem.

Aí se trata de graus de ordens de cavaleiros, que foram acrescentados à velha hierarquia militar de aprendiz, oficial e mestre, graus de grão-mestres, que embocavam na esfera hierática e estavam compenetrados da sabedoria secreta da Rosacruz. Deparamos nesse ponto com uma volta para certas ordens de cavaleiros a serviço da religião, principalmente os templários, que, como o senhor sabe, prestavam diante do patriarca de Jerusalém o juramento de pobreza, de castidade e de obediência. Ainda hoje existe um grau elevado da maçonaria que se intitula “Príncipe de Jerusalém”.

– Tudo isso é novo para mim, Sr. Naphta, totalmente novo. Mas assim consigo entender os truques do nosso amigo Settembrini... “Príncipe de Jerusalém!” Nada mau. O senhor deveria chamá-lo assim, numa boa ocasião, por brincadeira. Ele o tratou, outro dia, de “Doctor Angelicus”, e isto exige vingança.

– Ora, há ainda uma porção de títulos igualmente altissonantes para os graus elevados, de origem templária, que a maçonaria criou. Encontramos um Mestre Perfeito, um Cavaleiro do Oriente, um Grão-Sacerdote, e o grau 31 até se intitula “Augusto Príncipe do Mistério Real”. O

senhor pode notar que todas essas denominações’ revelam relações com a mística oriental. A própria ressurreição dos templários significa nada mais nada menos que o reatamento de tais relações, e representa a irrupção de fermentos irracionais num mundo de idéias empenhado em melhorar a sociedade por meios razoáveis e utilitaristas. Desse modo, a maçonaria ganhou novos atrativos e um brilho inédito, que explicam o sucesso que teve naquela época. Aliciava todos os elementos que estavam fartos do racionalismo do século, com seu esclarecimento e comedimento humano, e sentiam sede de filtros mais potentes. O êxito da ordem foi tal que os filisteus se lamentavam de ela alhear os maridos da felicidade doméstica e da dignidade feminina.

– Bem, professor, nesse caso é compreensível que o Sr. Settembrini não goste de se recordar dessa fase de florescimento da sua ordem.

– Pois é. Não gosta mesmo de recordar-se de épocas em que a sua associação atraía sobre si todas aquelas antipatias que o liberalismo, o ateísmo e a razão enciclopédica devotam normalmente ao complexo Igreja, catolicismo, monge, Idade Média. Já lhe disse que os maçons foram censurados por seu obscurantismo...

– Por quê? Eu desejaria que o senhor me explicasse isso.

– Já lhe digo. A estrita observância equivalia a um aprofundamento e a uma ampliação das tradições da ordem. Fazia remontar as suas origens históricas ao mundo dos mistérios, às chamadas trevas da Idade Média. O grau de grão-mestre pertencia nas lojas a pessoas iniciadas na physica mystica, a portadores do conhecimento mágico da natureza, e na maior parte a grandes alquimistas...

– Agora tenho que fazer um esforço brutal para lembrar-me mais ou menos bem das finalidades da alquimia. Acho que alquimia significa fazer ouro, a pedra filosofal, aurum potabile...

– Sim, senhor, em termos populares. Numa linguagem mais erudita, porém, trata-se de purificação, transformação e refinamento da matéria, de transubstanciação, e isso para uma forma mais elevada, mais sublime. O lapis philosophorum, o produto hermafrodita de enxofre e mercúrio, a res bina, a prima materia bissexual, nada mais era senão o princípio da sublimação, do impulso para o alto, dado por meio de agentes exteriores. É pedagogia mágica, se assim quiser.

Hans Castorp permaneceu calado.

– Sobretudo a sepultura –- prosseguiu Naphta – era símbolo da transmutação alquimística.

– O túmulo?

– Sim, o local da putrefação. A tumba é o protótipo de tudo quanto é hermético. Não é outra coisa a não ser o receptáculo, o alambique de cristal, cuidadosamente conservado, onde a matéria é comprimida até se conseguir a sua derradeira metamorfose e depuração.

– “Hermético”, muito bem, Sr. Naphta. Sempre gostei do adjetivo “hermético”. É uma verdadeira palavra mágica, com associações de idéias vagas e distantes. O senhor me desculpe, mas eu não posso deixar de pensar nos vidros Weck que a nossa governanta, Schalleen – assim se chama, sem senhora nem senhorita, simplesmente Schalleen –, esses vidros que ela guarda enfileirados nas prateleiras da despensa da nossa casa em Hamburgo. São uns vidros hermeticamente fechados, que contêm frutas, carne e outras coisas mais. Ficam ali durante muitos anos, e quando se abre um, segundo as necessidades, o conteúdo está fresco e perfeito. O

tempo não consegue prejudicá-lo. Qualquer deles é comestível. Verdade é que aí não se trata de alquimia e de purificação. É apenas conservação, como indica o nome “conservas”. Mas o que há de mágico nessa história é que o conteúdo dos vidros Weck se acha subtraído à influência do tempo. Fica separado dele de um modo hermético. O tempo passa a seu lado. Para esses vidros não existe tempo; encontram-se fora dele nas suas prateleiras. Bem, basta de vidros Weck! Não é lá grande coisa o que eu disse. Perdão, Sr. Naphta, creio que o senhor queria prosseguir nas suas deduções.

– Desde que o senhor o deseje. Para adaptar-me ao estilo do nosso assunto: o aprendiz deve ser ávido de saber e livre de temor. A tumba, o túmulo, sempre tem sido o símbolo principal da iniciação na ordem. O aprendiz, o calouro que pretende ser admitido à sabedoria, precisa passar pelos calafrios da sepultura, para comprovar a sua impavidez. A tradição da ordem requer que, a título de experiência, ele seja levado ao sepulcro e tenha de permanecer nele, até sair guiado pela mão fraternal de um desconhecido. Aí temos a origem dos labirintos e dos calabouços escuros que o noviço tem de atravessar, do pano negro de que estava revestido o próprio conclave da estrita observância, o culto do ataúde, que desempenhava um papel muito importante nas cerimônias de iniciação e nas reuniões. O caminho dos mistérios e da purificação achava-se flanqueado de perigos; passava através do terror da morte, através do reino da decomposição, e o aprendiz, o neófito, é a juventude desejosa de conhecer os milagres da vida, impaciente por ser dotada da capacidade de suportar experiências demoníacas, a juventude guiada por homens mascarados que são apenas sombras do mistério.

– Muito obrigado, Professor Naphta. Magnífico! Então é isso o que se chama pedagogia hermética. Não me pode fazer mal ter ouvido essas coisas.

– Tanto mais que se trata de uma senda que leva à esfera extrema, ao reconhecimento irrestrito do transcendente, e com isso ao nosso destino final. Ainda nos decênios posteriores, a observância alquimística das lojas conduziu rumo a esse objetivo muitos espíritos nobres e investigadores. Não preciso pronunciar o nome desse objetivo, uma vez que não pode ter escapado ao senhor que a seqüência de graus do rito escocês é apenas um sucedâneo da hierarquia; que a sabedoria alquimística do mestre-pedreiro culmina no mistério da metamorfose, e que a orientação secreta que a loja dá aos seus discípulos se encontra nos recursos da graça, tão nitidamente como os joguinhos simbólicos do cerimonial maçônico reaparecem na simbólica litúrgica e construtiva da nossa Santa Igreja Católica.

– Ah, sim!

– Com licença! Isto não é tudo. Já tomei a liberdade de observar que é apenas uma superficialidade histórica derivar a maçonaria da honrada corporação dos pedreiros. A estrita observância, pelo menos, proporcionou-lhe alicerces muito mais profundos, no sentido humano.

Os segredos das lojas têm em comum com os mistérios da nossa Igreja as relações evidentes com as solenidades ocultas e os excessos sagrados da humanidade mais remota... Quanto à Igreja, refiro-me à ceia, ao ágape, ao consumo sacramental da carne e do sangue, e no que diz respeito às lojas...

– Um instante, por favor! Deixe-me fazer uma observação à margem! Também naquela comunidade exclusiva a que pertence meu primo existem ágapes. Diversas vezes, ele me escreveu sobre eles. Abstração feita de alguns que se embriagam um pouco, o resto se passa de modo bem correto, muito mais do que nos festins de grêmios estudantis...

–... e no que diz respeito às lojas, refiro-me ao culto da tumba e do ataúde, sobre o qual há pouco chamei a sua atenção. Em ambos os casos trata-se do simbolismo das coisas derradeiras e extremas, de elementos de uma religiosidade primitiva, orgíaca, de desenfreados sacrifícios noturnos em honra dos processos de morrer e de nascer, da morte, da metamorfose e da ressurreição... O senhor se lembra talvez de que os mistérios de Isis bem como os de Elêusis costumavam ser celebrados à noite e em tenebrosas cavernas. Bem, na maçonaria existiram e ainda existem muitas reminiscências egípcias, e entre as sociedades secretas houve algumas que se denominaram alianças eleusinas. Efetuavam-se solenidades de lojas, sob o nome de festas dos mistérios eleusinos e dos segredos afrodisíacos, e nessas ocasiões até as mulheres desempenhavam importante papel. E as festas das rosas, às quais aludem as três rosas azuis do avental de maçom, e que, segundo parece, terminavam em bacanais...

– Ora veja, Professor Naphta, que está me dizendo? E tudo isso faz parte da maçonaria?

E a essas coisas devo associar, no meu espírito, o nosso amigo Settembrini, esse homem esclarecido...

– Nesse caso, seria muito injusto para com ele. Não, senhor! De todos esses costumes antigos Settembrini não sabe absolutamente nada. Eu já lhe disse que os homens da sua laia tornaram a expurgar as lojas de quaisquer elementos de vida superior. Meu Deus, a maçonaria humanizou-se e modernizou-se. Tem-se livrado de aberrações dessa espécie e reencontrou o caminho do proveito, da razão e do progresso, da luta contra príncipes e padres, numa palavra: o caminho do aperfeiçoamento social. As lojas voltaram a ocupar-se da natureza, da virtude, da moderação e da pátria, e como suponho, também dos negócios. Em suma: é a mísera mentalidade da burguesia, sob a forma de um clube...

– Que lástima! Quanto às festas das rosas, é mesmo uma pena. Vou perguntar a Settembrini se realmente ignora essas coisas.

– O honrado cavaleiro do esquadro! – exclamou Naphta sarcasticamente. – Não esqueça que ele teve de trabalhar muito para ser admitido a participar das obras do Templo da Humanidade. Settembrini é pobre como um rato de igreja, e naquela roda não somente se exige cultura, isto é, cultura humanística, mas também se faz questão de que os membros pertençam às classes abastadas, para que sejam capazes de pagar as jóias e mensalidades nada modestas. Cultura e bens – nisso se resume o burguês! Aí temos os alicerces da república universal e liberal...

– Com efeito! – confirmou rindo Hans Castorp. – Aí temos tudo isso em plena evidência.

– Mesmo assim – acrescentou Naphta, depois de um pequeno silêncio – dou-lhe o conselho de não fazer pouco-caso desse homem e da sua causa. Uma vez que estamos falando desse assunto, gostaria até de recomendar-lhe que se ponha em guarda. O absurdo nem por isso é inocente. A estreiteza não é necessariamente inofensiva. Aquela gente deitou muita água no seu vinho, que em outros tempos foi capitoso. Mas a própria idéia da ordem permanece bastante forte para suportar uma boa dose de diluição; conserva restos de um mistério fecundo; é indubitável que as lojas influem sobre o jogo do mundo, e tampouco se pode duvidar de que esse simpático Sr. Settembrini representa mais do que apenas a sua própria pessoa, e que atrás dele agem forcas formidáveis das quais ele é parente e emissário...

– Emissário?

– Sim, um fazedor de prosélitos, um pescador de almas.

“E que tipo de emissário é você?”, pensou Hans Castorp, mas em voz alta disse:

– Muito obrigado, Professor Naphta. Fico-lhe sinceramente grato pelos seus conselhos e pela sua advertência. Quer saber uma coisa? Vou subir ao andar superior, se é que aquilo pode ser qualificado de andar, e sondarei um pouquinho aquele maçom disfarçado. Um aprendiz deve ser ávido de saber e livre de temor... Claro que a prudência também é indicada. Quem trata com emissários necessita dela...

Hans Castorp não precisava ter receios de solicitar informações mais pormenorizadas ao Sr. Settembrini, visto que este não tinha nenhum motivo para censurar a Naphta alguma falta de discrição. Além disso, o humanista jamais se esforçara por manter em segredo o fato de pertencer

àquela sociedade harmoniosa. A Rivista della Massoneria Italiana achava-se aberta sobre a sua mesa; Hans Castorp, porém, até esse momento nunca dera por ela. E quando, avisado por Naphta, encaminhou a conversa na direção da “arte real”, como se as relações de Settembrini com a maçonaria fosse coisa indiscutível, encontrou muito pouca reserva. Verdade é que havia pontos a respeito dos quais o literato não se expressava, mas preferia cerrar os lábios ostensivamente, decerto forçado por aqueles votos terroristas que Naphta mencionara. Mostrava-se misterioso quanto aos costumes exteriores e à sua própria posição dentro dessa organização notável. Quanto ao mais, porém, armou sua roda e esboçou para o seu interlocutor curioso um vasto quadro da extensão da sua liga, que estava difundida pelo mundo inteiro, com mais de vinte mil lojas e cento e cinqüenta grã-lojas, e tinha representação até em países como o Haiti e a república negra da Libéria. Citou também uma porção de nomes de grandes homens que haviam sido, ou na atualidade eram, maçons: Voltaire, Lafayette e Napoleão, Franklin e Washington, Mazzini e Garibaldi, e, entre os vivos, o próprio rei da Inglaterra, bem como numerosas personalidades em cujas mãos se achavam os destinos dos Estados europeus, membros de governos e de parlamentos.

Hans Castorp manifestou respeito, mas nenhuma surpresa. Segundo a sua opinião, o mesmo se dava com os grêmios estudantis. Estes também se mantinham unidos durante toda a vida e sabiam colocar a sua gente, de maneira que dificilmente alguém conseguia abrir caminho na hierarquia administrativa sem pertencer a um desses corps. Por isso, talvez não fosse coerente da parte do Sr. Settembrini enumerar tantos nomes célebres de irmãos de loja, na intenção de apresentar um fato lisonjeiro para a Maçonaria. Pelo contrário, devia-se argumentar que a ocupação de tantos cargos importantes por membros de lojas demonstrava precisamente o poder da associação, que exercia decerto sobre o jogo do mundo maior influência do que o Sr.

Settembrini queria admitir.

Settembrini sorriu. Chegou a se abanar com o exemplar da Massoneria que tinha na mão. –

Será que o senhor me quer armar uma cilada? – perguntou. – Ou tem, porventura, a intenção de me induzir a dizer coisas imprudentes acerca da natureza política e do espírito essencialmente político das lojas? Quanta astúcia desnecessária, engenheiro! Professamos a política, sem rodeios, abertamente. Desprezamos o cunho odioso que certos idiotas, sobretudo na sua terra, engenheiro, e quase em nenhum outro país, gostam de imprimir a essa palavra e a essa atividade.

Um filantropo absolutamente não pode reconhecer a diferença entre política e não-política. Não existe a não-política. Tudo é política.

– Sumariamente?

– Eu sei muito bem que há pessoas que julgam necessário chamar a atenção sobre a natureza primitivamente apolítica da idéia da maçonaria. Mas essa gente joga com as palavras e traça fronteiras que de há muito devem ser consideradas fictícias e absurdas. Em primeiro lugar, as lojas espanholas, ao menos, tiveram desde o início caráter político...

– É o que eu pensava.

– O senhor pensa pouco, engenheiro. Não imagine ser capaz de pensar muita coisa sozinho, mas procure ser receptivo e assimilar. Rogo-lhe isso no seu próprio interesse tanto como no interesse do seu país e da Europa. Assimile o que estou a ponto de lhe ensinar, em segundo lugar: a idéia maçônica jamais tem sido apolítica, em época alguma; não podia sê-lo, e se acaso acreditasse sê-lo, andaria equivocada com respeito à sua natureza. Que é que somos?

Pedreiros e ajudantes que trabalham numa obra de construção. Todos perseguem um mesmo objetivo; o bem da totalidade é a lei básica da fraternização. Qual é esse bem, essa construção? O

edifício social artisticamente construído, a perfeição da humanidade, a nova Jerusalém. Que tem que ver com isso, afinal de contas, a distinção entre política e não-política? A questão social, a própria questão da co-existência são política, cem por cento política, nada mais que política!

Quem se consagra a elas – e quem deixasse de fazê-lo não mereceria o nome de homem –

pertence à política, à exterior tanto quanto à interna, e compreende que a arte do maçom é a arte de reger...

– De reger?

– ... que a maçonaria dos iluminados conhecia o grau de Regente...

– Muito bem, Sr. Settembrini. A arte de reger, o grau de Regente. Isto me agrada. Mas agora me diga uma coisa: os senhores são cristãos, lá na sua loja?

– Perchè?

– Perdão, quero formular a pergunta de outra forma, mais geral e mais simples: os senhores acreditam em Deus?

– Vou lhe responder. Mas por que pergunta assim?

– Não é minha intenção provocá-lo, mas há uma história na Bíblia, na qual alguém tenta o Salvador com uma moeda romana e recebe a resposta de que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. A mim me parece que essa maneira de distinguir nos leva à diferença entre política e não-política. Se Deus existe, existe também essa diferença. Acreditam os maçons em Deus?

– Eu me comprometi a responder-lhe. O senhor fala de uma unidade que se procura criar, mas que por enquanto ainda não se tornou realidade, para o maior pesar dos bem-intencionados. Não há liga universal dos maçons. Se ela se realizar um dia – e repito que se trabalha silenciosa e assiduamente nessa grande obra – terá indubitavelmente uma confissão religiosa uniforme, nos seguintes termos: Écrasez l’infame!

– De modo obrigatório? Isto não seria tolerante.

– Acho, meu caro engenheiro, que o senhor não é capaz de discutir o problema da tolerância. Mas, pelo menos, grave na sua memória que a tolerância se torna crime quando se devota ao mal.

– E Deus seria o mal?

– A metafísica é o mal. Não serve para nada a não ser para adormecer a energia que deveríamos consagrar à construção do Templo da Sociedade. Por isso é que o Grande Oriente da França, já faz vinte e cinco anos, abriu caminho, riscando o nome de Deus de todos os seus documentos. Nós, os italianos, seguimos esse exemplo...

– Como isso é católico!

– Que disse o senhor?

– Que eu acho sumamente católica a idéia de riscar Deus.

– Aonde é que o senhor quer chegar?

– A nada especialmente interessante, Sr. Settembrini. Não preste demasiada atenção às minhas palavras! Só que durante um momento eu tive a impressão de que o ateísmo era coisa enormemente católica, e que riscavam Deus apenas para que pudessem ser melhores católicos.

A isso, o Sr. Settembrini intercalou uma pausa; mas era evidente que só o fazia devido a ponderações pedagógicas. Após um silêncio comedido, respondeu:

– Meu caro engenheiro, longe de mim a intenção de fazê-lo vacilar no seu protestantismo ou de melindrar-lhe os sentimentos de protestante. Estávamos falando de tolerância... É

supérfluo salientar que eu sinto pelo protestantismo mais do que mera indulgência; encaro-o com profunda admiração, como o oponente histórico do estrangulamento da consciência. A invenção da imprensa e a Reforma são e permanecerão os dois méritos supremos que a Europa central teve na causa da humanidade. Isso não se discute. Mas, depois das palavras que o senhor acaba de proferir, não duvido de que me compreenderá, quando lhe indicar que este é apenas um dos aspectos do assunto, e que existe ainda um outro aspecto. O protestantismo encerra em si elementos que...

A própria pessoa do seu reformador encerrava em si certos elementos... Eu me refiro aos elementos do quietismo e do ensimesmamento hipnótico, que não são europeus, que são estranhos e hostis à lei vital deste continente altivo. Olhe-o bem, esse Lutero! Contemple os retratos dele, os da sua juventude e os posteriores! Que tipo de crânio é esse? Que significam essas maçãs? Que significa a singularidade dos olhos? É a Ásia, meu amigo! Eu ficaria admirado, sumamente admirado, se não houvesse nele uma mistura de sangue vênedo, eslavo ou sármata, e se o fenômeno inegavelmente grandioso que representa esse homem significasse que um dos

pratos da balança, que no seu país se acham equilibrados de forma muito precária, recebe uma sobrecarga fatal. Nesse caso, um peso formidável teria caído no prato oriental, fazendo com que o outro, o ocidental, ainda hoje esteja subindo até o céu...

Settembrini abandonara a papeleira de humanista, junto à janelinha, e aproximara-se da mesa redonda com a garrafa de água. Acercou-se então de seu discípulo, que estava sentado no divã, sem se recostar, apoiando o cotovelo no joelho e o queixo na mão.

– Caro – disse.o Sr. Settembrini. – Caro amico! Será necessário tomar decisões, decisões de importância inestimável para a felicidade e o futuro da Europa, e elas caberão ao seu país. Situado entre o Oeste e o Leste, terá de escolher, terá de declarar-se definitiva e conscientemente por uma ou outra das duas esferas que lhe disputam a natureza. O senhor é jovem. O senhor participará dessa decisão. Sua vocação é contribuir para ela. Bendigamos, pois, o destino, embora o tenha arrastado até estas paragens medonhas. Mas ao mesmo tempo me proporcionou uma oportunidade para exercer influência sobre a sua juventude maleável, por meio das minhas palavras, que não são inteiramente desprovidas de experiência e de vigor, uma oportunidade para fazê-lo sentir a responsabilidade que pesa sobre essa juventude, sobre a sua pátria, perante a civilização...

Hans Castorp continuava sentado, com o queixo apoiado na mão cerrada. Olhava para fora, através da janelinha do sótão, e nos singelos olhos azuis podia-se perceber uma certa recalcitrância. Permaneceu calado.

– O senhor não responde? – perguntou o Sr. Settembrini, comovido. – O senhor e o seu país guardam um silêncio cheio de reserva, um silêncio cuja falta de transparência não permite avaliar-lhe a profundidade. Não gostam da palavra, ou não sabem servir-se dela, ou ainda a tratam, de modo pouco amistoso, como coisa sagrada; em todo caso, o mundo articulado ignora e não está sendo informado a quantas anda. Isso é perigoso, meu amigo. A língua é a própria civilização... Toda palavra, até a mais antagônica, estabelece contato... Mas o mutismo isola. Os outros chegam a suspeitar que vocês procurarão romper esse isolamento por meio de atos. Vocês farão avançar o primo Giacomo (Settembrini, para maior comodidade, tinha o costume de chamar Joachim de “Giacomo”)... farão o primo Giacomo marchar à frente do seu silêncio, “e com golpes poderosos, mata dois; os outros fogem”...

Como Hans Castorp se pusesse a rir, também o Sr. Settembrini esboçou um sorriso, satisfeito, pelo menos momentaneamente, com o efeito das suas palavras plásticas.

– Muito bem, riamo-nos! – disse. – O senhor sempre me encontrará disposto para a alegria. “O riso é o reflexo resplandecente da alma”, diz um escritor antigo. Além disso, perdemos o fio da conversa e nos desviamos para assuntos que, não o nego, estão em conexão com as dificuldades que se opõem aos nossos trabalhos preparatórios em prol da fundação da liga universal maçônica, dificuldades que têm sua origem sobretudo na Europa protestante... – E

o Sr. Settembrini prosseguiu falando com ardor acerca da idéia dessa liga, que nascera na Hungria, e cuja esperada realização estava destinada a outorgar à maçonaria um poder decisivo nas questões mundiais. A essa altura apontou para cartas relativas ao assunto, que recebera de próceres estrangeiros da associação; mostrou um bilhete do próprio punho do Grão-Mestre da Suíça, o irmão Quartier la Tente, do grau 33, e comentou o projeto de fazer do esperanto o idioma oficial da organização. Elevado por seu zelo até a esfera da alta política, dirigiu os olhos para todas as direções imagináveis e avaliou as probabilidades de triunfo que a idéia republicano-revolucionária tinha no seu próprio país, bem como na Espanha e em Portugal. Afirmou corresponder-se também com os dirigentes da grã-loja desse último reino, onde indubitavelmente as coisas se encaminhavam para uma decisão. Que Hans Castorp se lembrasse das suas palavras, quando, dentro em breve, os acontecimentos ali começassem a precipitar-se. O jovem prometeu fazê-lo.

Convém observar que essas palestras maçônicas, mantidas entre o discípulo e cada um dos mentores em separado, se haviam efetuado numa época anterior à da volta de Joachim. A discussão que relataremos agora teve lugar depois dessa data na sua presença, umas nove semanas

após o regresso, em princípios de outubro. Se Hans Castorp conservou na memória a referida reunião sob o sol outonal, em frente da estância de “Platz”, com bebidas refrescantes na mesa, é porque naquele dia se preocupava secretamente com Joachim. Essa preocupação era causada por indícios e fenômenos que normalmente não costumam inspirar cuidados, a saber, dores de garganta e rouquidão. Tratava-se, pois, de moléstias inofensivas, mas que se apresentavam ao jovem Hans Castorp sob uma luz especial, que era precisamente aquela que ele pensava descobrir no fundo dos olhos do primo, esses olhos que sempre haviam sido grandes e meigos, mas precisamente nesse dia, e não antes, lhe apareciam maiores e mais profundos. Era como se tivessem assumido expressão meditativa e – deve-se acrescentar a estranha palavra – ominosa, além daquela já mencionada iluminação que lhes vinha de dentro. Seria absolutamente errado afirmar que Hans Castorp não gostava dessa expressão; pelo contrário, ela até lhe agradava muito, deixando-o, entretanto, preocupado. Numa palavra, não se pode falar dessas impressões de outra forma a não ser daquela maneira confusa que correspondia ao seu próprio caráter.

A palestra, ou melhor, a controvérsia – travada, naturalmente, entre Naphta e Settembrini

– girava em torno de um assunto diferente e tinha um nexo apenas frouxo com a maçonaria.

Além dos primos, Ferge e Wehsal também se achavam presentes, e o interesse de todos era grande, embora alguns não estivessem à altura da discussão. O Sr. Ferge, por exemplo, observou isso expressamente. Contudo, uma luta disputada, como se a própria vida estivesse em jogo, mas cujo espírito e esmero faziam supor que não se tratava da vida, senão de um torneio elegante –

como acontecia em todas as contendas de Naphta e Settembrini –, tal luta é obviamente e de per si interessante, mesmo para quem pouco entende do assunto e apenas vagamente lhe enxerga o alcance. Até pessoas estranhas, nas mesas vizinhas, escutavam a troca de palavras, admiradas e atraídas pela paixão e pela graça do diálogo.

Como já dissemos, isso se deu defronte à estância, depois do chá da tarde. Ali os quatro pensionistas do Berghof haviam-se encontrado com Settembrini e, por casualidade, Naphta se reunira a eles. Estavam todos agrupados em volta de uma mesinha de metal, na qual se achavam diversas bebidas diluídas com água de soda, bem como cálices com anis e vermute. Naphta, que nesse local costumava tomar a merenda, pedira vinho e doces, que evidentemente constituíam uma reminiscência do seu noviciado. Joachim umedecia, com muita freqüência, a garganta enferma com limonada, que tomava muito concentrada e bem azeda, porque assim ela lhe contraía os tecidos e lhe dava algum alívio. Settembrini bebia simples água açucarada, mas servia-se de um canudo com tanto prazer como se saboreasse o mais fino de todos os refrescos.

– Que é que ouvi, engenheiro? – disse ele, caçoando. – Que rumor acaba de chegar aos meus ouvidos? Voltará a sua Beatriz? A sua guia através das nove esferas giratórias do Paraíso?

Bem, espero que, apesar disso, o senhor não rejeite por completo a mão amiga e orientadora de seu Virgílio. Aqui o nosso eclesiástico lhe pode confirmar que o mundo do medio evo não é completo enquanto falta à mística franciscana o pólo oposto do conhecimento tomista.

Todos riram de tanta erudição bem-humorada. Olharam Hans Castorp, que também se riu e levantou o cálice de vermute à saúde do “seu Virgílio”. Parece incrível que um interminável conflito de idéias enchesse a hora seguinte em resultado dessas palavras inofensivas, se bem que rebuscadas, de Settembrini. Naphta, que em certo sentido se julgava provocado, passou imediatamente ao ataque e investiu contra o poeta latino, notoriamente idolatrado pelo humanista, que o colocava acima de Homero. Naphta, por sua vez, já demonstrara em diversas ocasiões o maior desdém por ele como por todos os demais poetas latinos, e com presteza e malícia aproveitou-se também dessa oportunidade para fazê-lo. Observou que da parte do grande Dante era uma atitude parcial, muito bondosa e arraigada na época, essa de cercar de tanta solenidade um versejador medíocre e de outorgar-lhe no seu poema um papel tão importante, ainda que o Sr. Lodovico atribuísse a esse papel caráter demasiado maçônico. Que valor tinha, afinal, esse cortesão laureado, bajulador da Casa Júlia, com sua retórica pomposa, mas desprovida da menor centelha de espírito criador, esse literato de cidade grande, cuja alma, se é que possuía

uma, era indiscutivelmente de segunda mão e que de maneira alguma era poeta, mas apenas um francês de peruca empoada em plena era de Augusto?

O Sr. Settembrini não duvidou de que o seu interlocutor soubesse encontrar meios e caminhos para conciliar o menosprezo que sentia pela fase da mais alta civilização romana com as suas funções de professor de latim. No entanto, pareceu-lhe necessário indicar a Naphta outra contradição mais grave, em que o enredavam as suas opiniões; punham-no em desacordo com os seus séculos prediletos, que não somente de forma alguma haviam desprezado Virgílio, senão feito justiça, ingenuamente, à sua grandeza, convertendo-o num mago poderoso e sábio.

Era em vão, retrucou Naphta, que o Sr. Settembrini chamava em seu auxílio a ingenuidade daquela época matutina, triunfante, que conservara a sua força inventiva até no endemoniamento daquilo que vencera. Por outra parte, os doutores da jovem Igreja não se haviam cansado de advertir os seus alunos contra as mentiras dos filósofos e poetas antigos, e especialmente contra o perigo de serem maculados pela exuberante eloqüência de Virgílio. E nos nossos dias, quando novamente uma era se aproximava do túmulo, e mais uma vez raiava a aurora proletária, cumpria ter compreensão dessa sua atitude! E para liquidar a questão, acrescentou que o Sr. Lodovico podia ficar persuadido de que ele, Naphta, exercia com toda a necessária reservatio mentalis aquela profissãozinha burguesa a que o outro tivera a bondade de aludir. Não era sem ironia que se enquadrava num sistema de ensino clássico-retórico, ao qual nem os maiores otimistas podiam prometer mais que alguns decênios de duração.

– Vocês, o senhor e seus amigos – exclamou Settembrini –, os têm estudado, com o suor do seu rosto, a esses poetas e filósofos antigos. Vocês procuraram apoderar-se da sua preciosa herança, assim como exploraram o material dos edifícios antigos para a construção das suas igrejas. Ora, vocês sentiram claramente que não seriam capazes de produzir uma nova forma de arte apenas com as próprias forças da sua alma proletária. Vocês esperaram derrotar a Antigüidade com as armas dela. Isso se repetirá, sempre e sempre! O espírito matutino de vocês, em toda a sua bronquice, terá de freqüentar a escola daqueles que vocês querem desprezar e fazer os outros desprezarem. Pois, sem cultura, vocês não poderiam existir ante os olhos da humanidade, e não há senão uma única cultura, aquela que vocês qualificam de burguesa, e que em realidade é humana! – O fim da educação humanística, uma questão de decênios? Somente a polidez impedia o Sr. Settembrini de dar uma gargalhada tão despreocupada quanto zombeteira.

Uma Europa que sabia guardar os seus bens eternos passaria, com toda a calma, à ordem do dia da razão clássica, sem se importar com os apocalipses proletários com que sonhavam certas pessoas.

Mas era precisamente a ordem do dia, replicou Naphta sarcasticamente, o que o Sr.

Settembrini parecia ignorar. Nela se achava como problema o que o seu interlocutor preferia tratar como fato consumado, a questão de saber se a tradição mediterrâneo-clássico-humanista era uma causa da humanidade e por conseguinte humana e eterna, ou se não passava de uma forma espiritual e de um acessório de uma determinada época, a época burguesa e liberalista, morrendo com esta. À história caberia decidir essa questão, e o Sr. Settembrini faria muito bem não se fiando muito seguramente numa sentença favorável ao seu conservantismo latino.

Chamar Settembrini, o servidor declarado do progresso, de conservador era uma insolência particular do pequeno Naphta. Todos perceberam isso, e o humanista assim melindrado o fez com particular amargura. Cofiando nervosamente o sinuoso bigode, preparava o golpe de vingança. Dessa forma deixou ao adversário o tempo suficiente para novas investidas contra o ideal de formação clássica, contra o espírito retórico-literário do ensino e da pedagogia europeus, e contra o seu spleen gramático-formal que nada mais era senão um acessório conservado no interesse da supremacia da classe burguesa, mas que desde havia muito parecia ridículo ao povo. Sim, poucos se davam conta de quanto o povo se divertia com aqueles títulos de doutor, com todo o mandarinato de formação e com a escola primária pública, esse instrumento da ditadura da classe burguesa, que o manejava na ilusão de que cultura popular era forma diluída da cultura erudita. O povo sabia muito bem onde encontrar aquela cultura e aquela educação de que precisava na luta contra a burguesia caduca, e não a procurava nessas casas de correção do ensino oficial. Já não era segredo para ninguém que o próprio tipo das nossas escolas, tal como se desenvolveu das escolas dos conventos medievais, representava um anacronismo, uma grotesca velharia; que ninguém, em todo o vasto mundo, devia à escola a sua verdadeira formação, e que um ensino livre, acessível a todos, por meio de conferências públicas, de exposições, do cinema, etc, era muitíssimo superior a qualquer ensino escolar.

O Sr. Settembrini respondeu que nessa mistura de revolução e de obscurantismo, que Naphta acabava de oferecer aos seus ouvintes, a parte obscurantista predominava de forma pouco apetitosa. A satisfação que se sentia ao vê-lo tão preocupado com a iluminação do povo era diminuída pelo receio de que, na realidade, agisse nele a instintiva tendência de envolver o povo e o mundo nas trevas do analfabetismo.

Naphta sorriu. O analfabetismo! Com isso pensava o seu interlocutor, sem dúvida, ter pronunciado uma palavra verdadeiramente horripilante, persuadido de que todo mundo empalideceria devidamente em face dessa cabeça de Górgona. Ele, Naphta, lamentava ter de desapontar o seu oponente ao dizer-lhe que o pavor que os humanistas experimentavam diante do conceito do analfabetismo simplesmente o fazia rir. Era preciso ser um literato renascentista, um precioso, um homem do Secento, um marinista, um palhaço do estilo culto, para atribuir às artes de ler e de escrever toda essa primazia pedagógica, a ponto de se imaginar que as trevas do espírito reinavam onde faltasse conhecimento dessas disciplinas. Recordava-se o Sr. Settembrini de que o maior poeta da Idade Média, Wolfram von Eschenbach, tinha sido analfabeto? Naquela época haviam julgado vergonhoso na Alemanha enviar à escola um menino que não quisesse ser sacerdote, e esse menosprezo aristocrático e popular pelas artes literárias fora em todos os tempos um sinal de nobreza fundamental da alma, ao passo que o literato, esse filho genuíno do humanismo e da burguesia, sabia, na verdade, ler e escrever, o que o fidalgo, o guerreiro e o povo ignoravam ou sabiam apenas mal. Mas era só isso que ele sabia e entendia de todas as coisas do mundo. Continuava sendo um doidivanas latinista que dominava a língua e abandonava a vida às pessoas honradas. Por isso transformava a política num saco cheio de vento, isto é, cheio de retórica e de belas-letras, o que no linguajar dos partidos se chamava radicalismo ou democracia, etcétera, etcétera...

Ao ouvir isso, o Sr. Settembrini não se conteve mais. Exclamou que era excessiva a temeridade com que o outro exibia o seu gosto pela piedosa barbárie de certas épocas, escarnecendo do amor à forma literária, sem a qual de fato se tornaria impossível e inimaginável a humanidade. Sim, senhores, impossível e inimaginável! Tinha sido pronunciada a palavra

“nobreza”. Unicamente quem odiasse o gênero humano era capaz de dar esse nome à ausência do Verbo, ao materialismo brutal e mudo. Deveras nobre era apenas um certo luxo distinto, a generosità, que se manifestava na atitude de conceder à forma um valor humano próprio, independente do conteúdo, o culto da oratória como arte pela arte, essa herança da civilização greco-romana, que os humanistas, os uomini letterati, haviam devolvido pelo menos aos países neolatinos, e que era a fonte de todo o idealismo ulterior, relacionado com o conteúdo também do idealismo político. – Sim, senhor! – continuou Settembrini. – O que o senhor deseja envilecer, qualificando-o como divórcio entre a língua e a vida, não é outra coisa que uma unidade superior no diadema da beleza, e eu prevejo sem temor qual dentre os dois partidos a juventude valorosa tomará numa luta cujas alternativas se chamam literatura ou barbárie.

Hans Castorp acompanhara a conversa com atenção não muito grande, visto se preocupar com a pessoa do guerreiro e representante de uma essencialidade distintíssima, que se achava perto dele. No fundo, o que mais lhe dava que pensar era a expressão nova que se via nos olhos do primo. Por isso sobressaltou-se um pouquinho ao sentir-se chamado e interpelado pelas últimas palavras do Sr. Settembrini. A seguir fez uma cara igual àquela que fizera na ocasião em que o italiano o quisera obrigar solenemente a escolher entre o “Oriente” e o “Ocidente”, quer dizer, uma cara cheia de reserva e de recalcitrância. Permaneceu calado. Esses dois levavam tudo ao extremo, como talvez fosse necessário, quando se queria discutir. Disputavam

encarniçadamente em torno de alternativas irreconciliáveis, ao passo que a ele próprio parecia patente que em alguma parte entre essas posições incompatíveis, entre o humanismo retórico e a barbárie analfabeta, devia encontrar-se aquilo que ele, pela sua pessoa, podia reputar de humano.

Não se manifestou, porém, para não exasperar os dois antagonistas. Envolto em reticências, observou como continuavam borboleteando de assunto em assunto, como um estendia a mão ao outro, na intenção hostil de guiá-lo por sempre novos desvios, desde o momento em que Settembrini desencadeara a controvérsia com sua gracinha sobre o latino Virgílio.

O humanista ainda não largara a palavra, brandia-a, fazia com que ela triunfasse. Arvorou-se em guardião do gênio literário; glorificou a história das letras a partir do instante em que, pela primeira vez, um ser humano gravara na pedra sinais simbólicos, a fim de conferir a durabilidade de um monumento ao seu saber e sentir. Falou de Tot, deus egípcio, com o qual o grande Hermes do helenismo se identificava, e que tinha sido venerado como o inventor da escrita, como padroeiro das bibliotecas e como animador de todos os esforços intelectuais. Ajoelhou-se, metaforicamente, diante desse Trismegisto, o Hermes humanista, ao qual a humanidade devia os presentes sublimes da palavra literária e da retórica agonística. Com isso levou Hans Castorp a ponderar que esse egípcio nato, evidentemente, fora um estadista e desempenhara, em maior escala, o papel do Sr. Brunetto Latini, o primeiro que esmerilou a cultura dos florentinos e ensinou-lhes a oratória, bem como a arte de dirigir a sua república conforme as regras da política.

Continuar: parte 3 de 3