A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 10 de 13 · parte 2/3

Páginas do PDF

A Montanha Mágica

Capitulo VII

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O encontro seguinte no refeitório dera-se da mesma forma, e quanto mais refeições se realizavam, sem que os seus olhares se cruzassem de outro modo a não ser num resvalo cego e indiferente da parte de Mme. Chauchat, tanto menos indicado parecia aquele cumprimento cortês. Durante a breve reunião noturna, os companheiros de viagem mantinham-se na saleta.

Juntos ocupavam o sofá, rodeados pelos comensais. Peeperkorn, cujo rosto majestoso, intensamente avermelhado, se destacava do alto dos cabelos e do cavanhaque, esvaziava a garrafa de vinho tinto que lhe fora servida no jantar. Pois em cada refeição principal emborcava uma garrafa, às vezes até uma e meia ou duas, sem falar do “pão” que já vinha acompanhando o café da manhã. Evidentemente, o homem majestoso tinha extraordinária necessidade de se regalar.

Para o mesmo fim usava várias vezes por dia um café extremamente forte, que tomava numa xícara grande, não somente de manhã, mas também por ocasião do almoço, e não depois da refeição, senão durante a mesma e ao mesmo tempo que o vinho. Ambas essas coisas –

conforme Hans Castorp ouviu o holandês explicar – eram boas contra a febre, além do seu efeito regalador; um remédio muito bom para a febre intermitente que contraíra nos trópicos, e que já no segundo dia da sua estadia o reteve na cama durante algumas horas. O conselheiro qualificava-a de quarta, visto acometer o holandês de quatro em quatro dias; no começo o fazia bater os dentes, depois lhe causava um violento ardor e por fim abundante transpiração. Ao que dizia o médico, a enfermidade originara também uma congestão do baço.

“Vingt et un”

Assim transcorreu algum tempo, umas três ou quatro semanas, segundo julgamos, uma vez que absolutamente não nos podemos fiar nas avaliações e no senso de tempo de Hans Castorp. Escoaram-se sem acarretar novas mudanças. Na alma do nosso herói produziram certo

rancor contra as circunstâncias imprevistas que o obrigavam a uma discrição pouco meritória; rancor que se ia tornando habitual e se dirigia particularmente contra aquela circunstância que se chamava a si própria Pieter Peeperkorn, cada vez que tomava uma cachacinha, contra a presença importuna desse homem majestoso, imponente e pouco claro, que realmente o constrangia de um modo muito mais brutal do que fizera o Sr. Settembrini quando “era demais ali”. Rugas de descontentamento e de irritação sulcavam verticalmente a testa de Hans Castorp, entre as sobrancelhas, e de sob essas rugas contemplava cinco vezes ao dia a mulher que regressara.

Mesmo assim se sentia feliz por poder contemplá-la e cheio de desdém pela poderosa presença de alguém que ignorava até que ponto a sua segurança era posta em jogo pelo passado.

Certa noite, porém, a reunião noturna no vestíbulo e nos salões foi mais animada do que em geral, o que acontecia de vez em quando sem nenhum motivo especial. Houvera música; algumas canções ciganas briosamente executadas ao violino por um estudante húngaro. A seguir, o Conselheiro Behrens, que estivera presente por um quarto de hora, em companhia do Dr.

Krokowski, obrigara um pensionista a tocar nos baixos do piano a melodia do “Coro dos peregrinos”, enquanto ele, de pé a seu lado, maltratava o instrumento com uma escova que fazia saltitar pelos agudos, para parodiar um acompanhamento de rabeca. Isso fez rir. Sob vivos aplausos, meneando a cabeça como se a sua própria brincadeira o surpreendesse agradavelmente, o conselheiro abandonou os salões. Mas a reunião se prolongou; continuaram a fazer música, sem que se exigisse dos ouvintes nenhuma atenção concentrada; formaram-se partidas de dominó e de bridge, com bebidas nas mesas; outros se divertiam com os brinquedos ópticos; aqui e ali se viam pensionistas conversando. Também a roda da mesa dos “russos distintos” se havia misturado com os grupos do vestíbulo e do salão de música. Mynheer Peeperkorn aparecia em diferentes lugares; era impossível não o perceber, já que sua cabeça majestosa dominava os que o cercavam, triunfando devido a sua importância e sua força principesca. Aqueles que o rodeavam, embora a princípio houvessem sido atraídos pela mera fama da sua riqueza, logo começavam a sentir o encanto da sua personalidade; deixavam-se ficar, sorriam, faziam-lhe com a cabeça acenos alentadores, esqueciam-se de si próprios, fascinados pelos olhos sem cor sob as poderosas rugas da testa; com a atenção presa aos gestos elegantes e insistentes das mãos de unhas compridas, não experimentavam a menor decepção em face das palavras abruptas, incoerentes, ininteligíveis, confusas e realmente gratuitas que seguiam essa gesticulação.

Quem procurasse Hans Castorp nesse ambiente, encontrá-lo-ia no salão de leitura, naquele mesmo recinto onde ele outrora – esse “outrora” é vago; o autor, o herói e o leitor já não percebem claramente a distância – recebera importantes informações sobre a organização do progresso humano. Nesse lugar estava-se mais tranqüilo. Somente umas poucas pessoas o partilhavam com Hans Castorp. A uma das escrivaninhas duplas, iluminadas por uma lâmpada suspensa, alguém redigia uma carta. Uma senhora, com dois pincenês sobre o nariz, achava-se sentada junto à biblioteca e folheava um volume ilustrado. Nas proximidades da passagem aberta que dava para a sala do piano, Hans Castorp ocupava uma cadeira que casualmente se encontrava ali; era uma cadeira em estilo Renascença, forrada de veludo, com espaldar alto e reto, e sem braços. O jovem voltava as costas ao reposteiro e tinha nas mãos um jornal, na posição de quem lê; mas, em vez de ler, escutava, com a cabeça inclinada obliquamente, os sons de música entrecortados e mesclados de vozes. No entanto, o seu cenho sombrio indicava que ele tampouco prestava muita atenção a esses sons, e que seus pensamentos trilhavam veredas pouco musicais; as veredas espinhosas da desilusão causada pelos acontecimentos que zombavam de um moço que se sujeitara a um longo período de espera, e quando chegara o fim desse período, se vira ignominiosamente logrado; as veredas ásperas do desafio, pelas quais avançara a um ponto em que pouco faltava para a decisão de depositar o jornal nessa cadeira incômoda, que o acaso lhe oferecera, sair pela porta do vestíbulo e substituir essa vida social sem graça pela solidão glacial do compartimento de sacada, onde Maria Mancini lhe faria companhia.

– E seu primo, monsieur? – perguntou de trás dele, por cima da sua cabeça, uma voz. Era uma voz feiticeira para os seus ouvidos fadados a achar extremamente agradável o agridoce daquele timbre velado, levando dessa forma ao extremo o conceito do agradável. Era a voz que dissera uma vez: “Com muito prazer. Mas cuidado para não quebrá-lo!” Uma voz dominadora, a voz do destino, e que, se ele não se enganava, perguntara por Joachim.

Lentamente, Hans Castorp desceu o jornal e levantou um pouquinho o rosto, de modo que apenas o topo da cabeça se encostava ao espaldar reto da cadeira. Até fechou os olhos durante um momento, mas logo os reabriu, para dirigi-los ao alto, na direção que a posição da cabeça impunha ao seu olhar, e pôs-se a fitar o vazio. Dir-se-ia que a expressão do bom rapaz tinha algo de um visionário ou de um sonâmbulo. Bem desejava ele que a pergunta fosse repetida, mas isso não se deu. Dessa forma nem sequer tinha certeza de que ela ainda se encontrava atrás dele, quando respondeu, depois de algum tempo, com bastante atraso, e a meia voz:

– Está morto. Foi servir na planície e morreu.

O próprio Hans Castorp notou que “morto” era a primeira palavra com expressão a ser pronunciada entre eles. Notou ao mesmo tempo que ela, por falta de familiaridade com a língua alemã, escolhia termos excessivamente fracos para expressar os seus sentimentos, quando disse de trás dele e por cima da sua cabeça:

– Coitado! Que pena! Completamente morto e enterrado? Desde quando?

– Faz algum tempo. Foi levado para baixo pela mãe. Tinha-lhe crescido uma barba de guerreiro. Deram três salvas fúnebres por cima do túmulo.

– Ele as mereceu. Foi um homem muito bom. Muito melhor do que outros, do que certos outros.

– Sim, era bom. Radamanto sempre falava de seu excesso de entusiasmo. Mas seu corpo não estava de acordo. Rebellio carnis, como dizem os jesuítas. Sempre ligara grande importância ao corpo, de um modo honroso. Mas seu corpo permitiu que substâncias desonrosas o penetrassem e pregou-lhe uma peça ao excessivo entusiasmo. É, aliás, mais moral perder-se e perecer do que preservar-se.

– Vejo que certa pessoa continua sendo um valdevinos filosófico. Quem é esse Radamanto?

– Behrens. Settembrini o chama assim.

– Ah, já sei, Settembrini. Aquele italiano... Eu não simpatizava com ele. Sua mentalidade não era humana. (A voz arrastava a palavra “humana” de modo lânguido e ao mesmo tempo enfático.) Era altivo. Não está mais aqui? Ora, sou ignorante. Não sei o que quer dizer Radamanto.

– Qualquer coisa humanística. Settembrini mudou-se. Temos filosofado bastante nestes últimos tempos, ele, Naphta e eu.

– Quem é Naphta?

– O adversário dele.

– Se é o adversário dele, gostaria de conhecê-lo... Mas eu não lhe disse que seu primo morreria se descesse à planície para ser soldado?

– Sim, tu o sabias.

– O que o senhor está pensando?

Silêncio prolongado. Ele não se retardou. Comprimindo o alto da cabeça contra o espaldar reto, com o olhar visionário cravado no ar, ficou esperando que a voz tornasse a soar.

Novamente não sabia com certeza se ela ainda se achava atrás dele. Receava que os sons entrecortados de música, que entravam da sala vizinha, pudessem ter abafado o ruído de passos que se afastassem. Até que enfim a voz voltou:

– E monsieur nem sequer foi assistir ao enterro de seu primo?

– Não – respondeu ele –, disse-lhe adeus aqui mesmo, antes de fecharem o caixão, quando ele começou a sorrir. Tu não imaginas como estava fria a sua testa.

– Outra vez? É assim que se fala com uma senhora que mal se conhece?

– Será que devo falar humanisticamente e não humanamente? – Sem querer, também ele arrastou a palavra de uma forma sonolenta, como quem se espreguiça e boceja.

– Quelle blague!... E o senhor esteve aqui todo esse tempo?

– Sim, tenho esperado.

– Por quem?

– Por ti.

Uma risada soou por cima dele, lançada simultaneamente com a palavra “Louco!”

– Por mim? Provavelmente não o deixaram sair.

– Ao contrário. Em certa ocasião, Behrens me teria deixado sair, num acesso de raiva.

Mas isso seria apenas uma partida em falso. Pois, além das cicatrizes que tenho de há muito, desde os meus tempos de colégio, sabes?, existe ainda o ponto recente que Behrens descobriu e que me está causando a febre.

– Febre ainda?

– Sim, tenho sempre um pouquinho. Quase sempre. Com intermitências, mas não é uma febre intermitente.

– Des allusions?

Ele permaneceu calado, franzindo o cenho, por cima do olhar visionário. Depois de algum tempo perguntou:

– E tu, onde tens andado?

Uma mão deu uma pancada no espaldar da cadeira.

– Mais c’est un sauvage!... Por onde tenho andado? Por toda parte. Em Moscou (a voz pronunciava “Muoscou”, arrastando o nome do mesmo modo lânguido como fizera com a palavra “humana”), em Baku, em estações balneárias da Alemanha, na Espanha.

– Ah, na Espanha? Que tal a Espanha?

– Assim, assim. Viaja-se mal ali. O povo de lá é meio mouro. Castela é muito seca e rígida. O Kremlin é mais belo do que aquele palácio ou convento ao pé da montanha...

– O Escorial?

– Sim, o castelo de Filipe. Um castelo inumano. O que me agradou muito mais foi uma dança popular na Catalunha, a sardana, acompanhada por gaita de foles. Eu mesma entrei nela.

Todos se dão as mãos e dançam à roda. A praça inteira fica cheia de gente. C’est charmant. É

humano. Comprei um pequeno barrete azul como ali usam todos os homens e meninos do povo; é quase um fez, a barretina. Ponho-a durante o repouso e em outras ocasiões. Monsieur poderá julgar se ela me assenta bem.

– Que monsieur?

– O que está sentado nesta cadeira.

– Eu pensava que se tratasse de Mynheer Peeperkorn.

– Ele já julgou. Diz que fico encantadora com ela.

– Ele disse isso? Até o fim? Terminando a frase de maneira a se poder compreendê-la?

– Ah, parece que alguém está mal-humorado. Procura ser malicioso e mordaz. Procura zombar de personalidades que são muito maiores, melhores e mais humanas do que certa pessoa, junto com seu... avec son ami bavard de la Méditerranée, son maitre grand parleur... Mas não tolerarei que meus amigos sejam...

– Tens ainda meu retrato interior? – interrompeu ele, melancolicamente.

Ela riu.

– Vou ver se o guardei.

– Eu trago o teu aqui comigo. Além disso tenho um cavaletezinho em cima da minha cômoda, e de noite...

Não chegou a acabar a frase. À sua frente achava-se Peeperkorn. Andara à procura da sua companheira de viagem. Entrara vindo de trás do reposteiro e surgira diante da cadeira do interlocutor a cujas costas ela se encontrava. Quedava-se ali qual uma torre, tão perto dos pés de Hans Castorp que este só com dificuldade conseguiu levantar-se entre os dois outros, quando verificou, apesar do seu estado sonâmbulo, que o momento exigia dele tal gesto de cortesia. Teve de resvalar lateralmente da cadeira, que ficou no meio das três pessoas dispostas num triângulo.

Mme. Chauchat obedeceu às regras do Ocidente civilizado apresentando-os um ao outro.

Com referência a Hans Castorp disse que se tratava de um conhecido de tempos passados, da sua última estadia no Berghof. A existência do Sr. Peeperkorn dispensava comentários. Pronunciou o nome do holandês, e este fixou no jovem os olhos apagados, sob os arabescos das rugas da testa e das fontes, que estavam mais profundas devido à atenção, e davam a seu rosto o aspecto de um ídolo. Estendeu a Hans Castorp a mão, cujas costas eram largas e sardentas; uma mão de capitão, pensou Hans Castorp, abstração feita das unhas pontudas. Pela primeira vez entrava em contato com a poderosa personalidade de Peeperkorn. “Personalidade” – constantemente lhe ocorria essa palavra à vista do holandês; quem o via sabia de repente o que era uma personalidade, e mais ainda: estava convencido de que uma personalidade não podia ser diferente dele. Os anos vacilantes do jovem Hans Castorp sentiam-se esmagados pelo peso dos sessenta desse homem espadaúdo com o rosto vermelho emoldurado de labaredas brancas, com a boca gretada e dolorida, e com o cavanhaque que pendia, comprido e ralo, sobre o colete clerical. Doutro lado, esse Peeperkorn era a amabilidade em pessoa.

– Meu caro senhor – disse. – Inteiramente... Não, permita-me... Inteiramente! Acabo de travar conhecimento com o senhor... conhecimento com um moço que inspira confiança... Faço-o conscientemente, meu caro senhor, estou compenetrado disso. O senhor me agrada. Não há de quê. Basta! O senhor me é simpático.

Não adiantava fazer objeções. Seus gestos eram peremptórios. Hans Castorp lhe era simpático. E desse fato Peeperkorn tirou conseqüências que expressou em forma um tanto vaga, mas que por intermédio da sua companheira de viagem se tornaram coerentes e compreensíveis.

– Minha filha – disse ele. – Muito bem. Que tal?... Por favor, não me interprete mal... A vida é breve, e a nossa capacidade de satisfazer as suas exigências é, infelizmente... Isso são realidades, minha filha, são leis. Inexoráveis! Numa palavra, minha filha, sem perda de tempo... –

E fez perdurar um gesto expressivo de sugestão declinando toda a responsabilidade para o caso de se cometer, apesar do seu conselho, um erro decisivo.

Ao que parecia, Mme. Chauchat tinha prática na interpretação de tais desejos apenas esboçados.

– Por que não? – disse ela. – Nós poderíamos permanecer juntos por algum tempo.

Quem sabe se jogamos um pouco e tomamos uma garrafa de vinho? Ora, que espera o senhor? –

continuou, voltando-se para Hans Castorp. – Mexa-se! Não vamos ficar aqui só nós três.

Precisamos ter companhia. Quem mais está no salão? Mande vir a quem encontrar! Vá buscar alguns dos nossos amigos que já estão nas sacadas! Convidaremos também o Dr. Ting-Fu, nosso companheiro de mesa.

Peeperkorn esfregava as mãos.

– Ótimo! – disse. – Perfeito! Excelente! Vá depressa, meu jovem amigo! Obedeça!

Formaremos uma roda. Vamos jogar, comer e beber. Vamos sentir que... Absolutamente, meu caro rapaz!

Hans Castorp serviu-se do elevador e subiu ao segundo piso. Bateu à porta de A. K.

Ferge, que por sua vez tirou Ferdinand Wehsal e o Sr. Albin das suas espreguiçadeiras no alpendre do andar térreo. O Promotor Paravant e o casal Magnus haviam sido encontrados no vestíbulo, a Srª. Stöhr e a Kleefeld, no salão. Foi ali, embaixo do lustre central, que abriram uma espaçosa mesa de jogo. Cercaram-na de cadeiras e de mesinhas auxiliares. Cada convidado que se reunia ao grupo era cumprimentado por Mynheer, com o olhar apagado, mas cortês, e com os arabescos da fronte içados em sinal de atenção. Sentaram-se doze à mesa. Hans Castorp recebeu o lugar entre o majestoso anfitrião e Clávdia Chauchat. Foram distribuídas cartas e fichas.

Segundo haviam combinado, seriam jogadas algumas partidas de vinte-e-um. Peeperkorn, com aquele seu jeito imponente, mandou chamar a anã e pediu vinho, um Chablis de 1906, três garrafas por enquanto, acompanhadas de doces, tudo o que ela pudesse encontrar de passas de frutas e de confeitos. O modo como esfregava as mãos para saudar os quitutes que lhe serviam patenteava a sua satisfação; foi também por meio de palavras, que de um modo impressionante

terminavam no meio das frases, que o holandês procurou comunicar o que sentia; conseguiu isso perfeitamente, pelo menos no sentido de impor a sua personalidade. Pondo as mãos nos antebraços dos vizinhos, reclamou, com pleno êxito, a mais intensa atenção de todos para a maravilhosa cor de ouro do vinho, para o açúcar exsudado pelas passas de Málaga, e para certo tipo de rosquinhas salgadas e polvilhadas com sementes de papoula. Qualificou-as de divinas, sufocando de vez, com um gesto imperioso, o menor germe de oposição que porventura se levantasse contra o emprego de uma palavra tão exaltada. Foi o primeiro a encarregar-se da banca, mas prontamente a cedeu ao Sr. Albin; conforme disse, se é que o entendemos bem, a função de banqueiro impedia-o de gozar livremente a festa.

Era visível que o jogo de azar representava para ele um assunto secundário. Jogava-se por nada, segundo a sua opinião. Por proposta dele haviam fixado a aposta mínima em cinqüenta centavos, mas isso representava muito dinheiro para a maioria dos parceiros. O Promotor Paravant tanto como a Srª. Stöhr empalideciam e coravam alternadamente. Esta sobretudo remexia-se na cadeira, presa de terríveis lutas interiores, quando, tendo dezoito pontos, se lhe deparava o problema de comprar ou não comprar. Dava gritos lancinantes, quando o Sr. Albin, com um gesto frio e rotineiro, lhe atirava uma carta muito alta que lhe aniquilava por completo os projetos. Peeperkorn ria-se jovialmente.

– Grite, madame, grite! – dizia. – É um som agudo, cheio de vida, que vem do fundo de...

Beba e regale o seu coração, para que novamente... – E enchia-lhe a taça. Encomendou mais três garrafas. Bebeu à saúde de Wehsal e da obtusa Srª. Magnus, porque um e outra lhe pareciam ter suma necessidade de animação. O vinho, que era realmente ótimo, coloriu em pouco tempo os rostos, exceção feita ao Dr. Ting-Fu, que permanecia invariavelmente amarelo, com os olhos rasgados, pretos como azeviche, soltando discretos risinhos cacarejantes, enquanto fazia elevadas apostas com uma sorte escandalosa. Os outros não queriam ficar atrás. O Promotor Paravant, com o olhar turvo, desafiou o destino, arriscando dez francos numa entrada que despertava apenas moderadas esperanças; empalideceu ao ver que havia comprado demais, e todavia ganhou, uma vez que o Sr. Albin, confiando num ás traiçoeiro, fizera dobrar todas as apostas. Eram emoções que não se limitavam à pessoa de quem as causava a si próprio. Toda a roda tomava parte nelas; nem o Sr. Albin, embora rivalizasse, em matéria de fria circunspecção, com os croupiers do Cassino de Monte Carlo, que afirmava ter freqüentado muito, conseguia dominar a sua excitação senão insuficientemente.

Também Hans Castorp jogava alto, bem como a Kleefeld e Mme. Chauchat. Do vinte-e-um passaram, sucessivamente, ao tours, ao chemin de fer, ao campista e à perigosa différence.

Revezavam-se arrebatamentos de exultação e de desespero, explosões de cólera e gargalhadas histéricas, tudo isso provocado pelo estímulo que a sorte falaz exercia sobre os nervos; e essas manifestações eram sérias e sinceras – não teriam sido diferentes se se tratasse de vicissitudes da vida real.

Mas não eram somente – e nem sequer em primeiro lugar – o jogo e o vinho os fatores que produziam a tensão psíquica dessa roda, as faces quentes, a dilatação das pupilas nos olhos brilhantes, ou que davam origem àquilo que poderia ser definido como a dedicação esforçada do pequeno grupo, a respiração embargada, a concentração quase dolorida no que trazia o momento. Em realidade, isso se devia à influência de uma individualidade soberana que se encontrava entre os presentes, à “personalidade” que os dominava, a Mynheer Peeperkorn, que mantinha as rédeas na sua mão gesticulante e fazia sentir a todos o feitiço dessa hora, pelo espetáculo da sua grandiosa fisionomia, pelo olhar apagado sob o drapejamento monumental da fronte, pela sua fala e pela mímica impressionante. Que dizia ele? Coisas pouquíssimo claras, e que se tornavam tanto menos distintas quanto mais bebia. Mas o grupo estava suspenso de seus lábios, fitava, sorrindo, o círculo que seu indicador formava com o polegar, é a cujo lado se eriçavam, pontudos como lanças, os outros dedos, enquanto o rosto majestoso efetuava uma ação altamente expressiva. Sem resistência, todos se submetiam a uma servidão sentimental que deixava longe os limites de paixão abnegada que essa gente se impunha em tempos normais, e

ultrapassava as forças de alguns. A Srª. Magnus, ao menos, começou a sentir-se mal. Esteve a ponto de desmaiar, mas recusou obstinadamente subir ao quarto e contentou-se com a chaise longue, onde lhe puseram um guardanapo molhado sobre a testa. Mas, depois de ter descansado um pouco, voltou a fazer parte da roda.

Peeperkorn teve a idéia de atribuir o seu desfalecimento a uma alimentação insuficiente.

Com o indicador erguido proferia palavras significativamente abruptas nesse sentido. Era preciso comer, comer copiosamente – assim deu a entender – para ser capaz de satisfazer as exigências da vida. E logo encomendou mantimentos para a roda, uma refeição composta de carne, fiambre, língua, peito de ganso, assados, salames e presunto. Chegaram travessas cheias de suculentos quitutes, guarnecidos de bolinhas de manteiga, de rabanetes e de salsa, a ponto de se assemelhar a exuberantes canteiros de flores. Apesar de que se fizesse muita honra aos pratos, não obstante o jantar precedente cuja abundância é escusado mencionar, Mynheer Peeperkorn declarou, depois de ter provado alguns bocados, que essas coisas não passavam de “frioleiras”, e isso com uma cólera que documentava o caráter pavorosamente imprevisível da sua natureza de soberano.

Chegou até a enfurecer-se quando alguém se atreveu a defender a refeição. A cabeça imponente quase explodia de raiva, enquanto Peeperkorn, com o punho cerrado, dava um murro na mesa.

Gritou que tudo isso era uma “grande droga”, com o resultado de os comensais emudecerem constrangidos, uma vez que ele, como anfitrião, devia ter o direito de julgar aquilo que oferecia e pagava.

Mas essa ira, por inexplicável que possa parecer, condizia perfeitamente com a fisionomia do holandês, como Hans Castorp, mais do que ninguém, teve de reconhecer. Não o desfigurava nem diminuía de modo algum. Na sua incompreensibilidade, que pessoa alguma ousava nem intimamente relacionar com as quantidades de vinho que ele acabara de ingerir, não deixava de revelar grandeza e majestade, de maneira que todos se inclinaram diante dele e evitaram servir-se mais uma vez dos frios. Foi Mme. Chauchat quem tranqüilizou o companheiro de viagem.

Acariciou-lhe a larga mão de capitão, que depois do murro repousava na mesa, e sugeriu em voz meiga que talvez se pedisse outra coisa, um prato quente, se assim lhe agradasse, e se fosse possível obtê-lo do chefe de cozinha a essa hora.– Minha filha – disse Peeperkorn – muito bem.

– E sem nenhum esforço, cheio de dignidade, passou da fúria desenfreada para um estado de moderação. Beijou a mão de Clávdia. Encomendou omeletes para si próprio e para os seus convidados, uma boa omelette aux fines herbes, para que se pudessem satisfazer as exigências da vida.

E junto com o pedido mandou à cozinha uma nota de cem francos, a fim de determinar o pessoal a fazer serão.

Seu bom humor ressuscitou inteiramente, quando apareceram diversas travessas com a fumegante iguaria, amarela qual um canário e salpicada de verde, impregnando o recinto com o cheiro suave e morno de ovos e manteiga. Os comensais serviram-se, ao mesmo tempo que Peeperkorn, e sob a sua vigilância jovial. Em frases confusas e com gestos irresistíveis obrigou todos a saborear com atenção e até com fervor essa dádiva de Deus. Fê-la acompanhar de genebra holandesa, uma rodada de cálices cheios, e insistiu em que ninguém deixasse de sorver com intensa devoção o líquido claro, do qual se desprendia um olor sadio de trigo com um leve toque de zimbro.

Hans Castorp fumava. Também Mme. Chauchat servia-se de cigarros de ponta de papelão, guardados numa caixa russa, de verniz, ornada de uma tróica em plena corrida, e que para a sua maior comodidade pusera na mesa diante de si. Peeperkorn, embora não censurasse os seus vizinhos por se entregarem a esse prazer, não fumava nunca. Pelo que se podia deduzir das suas explanações, o consumo do tabaco já fazia parte de gozos por demais refinados, cujo cultivo representava um agravo à majestade das dádivas simples da vida, dessas dádivas e funções que a nossa sensibilidade mal e mal conseguia apreciar devidamente.

– Meu caro jovem! – disse a Hans Castorp, fascinando-o com o olhar apagado e o gesto imperioso. – Meu caro jovem, o que é simples, o que é sagrado... Bem, o senhor me compreende.

Uma garrafa de vinho, um prato fumegante de ovos, um cálice de trigo puro... Dediquemo-nos a

isso em primeiro lugar e desfrutemo-lo, esgotemos o que nos oferece e façamos-lhe a honra a que tem direito, antes de... Absolutamente, meu prezado senhor! Basta! Encontrei pessoas, homens e mulheres, cocainômanos, fumadores de haxixe, morfinômanos... Bem, meu amigo. Pois não! Se assim quiserem... Não devemos julgar. Mas àquelas coisas que merecem a primazia, as coisas singelas, grandes, que têm sua origem em Deus, essa gente lhes ficava... Chega, meu amigo.

Condenados! Reprovados! Ficava devendo tudo! Meu caro jovem, não importa como se chama...

Sim, eu já sabia o seu nome, mas esqueci-me dele... A perversidade não consiste nem na Cocaína nem no ópio, nem no vício em si. O pecado imperdoável reside...

Estacou. Alto e espadaúdo, voltando-se para o vizinho, persistiu num silêncio poderoso e expressivo, que reclamava compreensão. Tinha o indicador levantado; a boca entreabria-se, irregular e gretada, sob o lábio superior desnudo, rubro e um tanto arranhado pela navalha; o drapejamento linear da vasta fronte emoldurada de labaredas brancas estava franzido com esforço; os olhinhos sem cor definível achavam-se dilatados, e Hans Castorp divisou neles um quê de horror que Peeperkorn experimentava em face do crime, do grave pecado, do irremissível fiasco a que acabava de aludir, e cuja extensão monstruosa todos deviam perceber, obedecendo à ordem silenciosa que lhes dava com toda a força fascinante da sua personalidade soberana, ainda que indistinta... “É um horror objetivo”, pensou Hans Castorp, “porém mesclado de um elemento particular, de um pavor que se apossou desse homem dominador.” Tratava-se mesmo de medo, não de um medo insignificante e pequeno, senão de um pavor pânico que ali parecia bruxulear por alguns instantes. Hans Castorp era, por índole, demasiado reverencioso – não obstante todos os motivos que poderiam originar uma atitude hostil da sua parte contra o majestoso companheiro de viagem de Mme. Chauchat – para que essa observação deixasse de comovê-lo.

Baixou os olhos e fez que sim, para dar ao seu augusto vizinho a satisfação de sentir-se compreendido.

– Acho que isso é certo – disse. – Pode ser um pecado, e um sinal de insuficiência, abandonar-se a prazeres refinados, sem fazer justiça às dádivas simples e naturais da vida, que são grandes e sagradas. Tal é a opinião do senhor, Mynheer Peeperkorn, se o compreendi bem.

Embora essa idéia nunca me tenha ocorrido, aprovo-a sinceramente, desde o momento em que o senhor chamou a minha atenção sobre ela. Pode ser que sejam muito raras as ocasiões em que essas dádivas saudáveis e singelas da vida recebam a plenitude das honras que lhes são devidas.

Certamente a maioria das pessoas é por demais negligente, distraída, irresponsável e gasta para lhes prestar essas honras, penso eu...

O potentado pareceu muito contente. – Meu caro jovem! – exclamou. – Ótimo. Queira permitir... Não falemos mais nisso. Peço-lhe que beba comigo, que esvazie a sua taça na minha companhia, com os braços enlaçados. Isso não quer dizer que já lhe ofereço o “tu” fraternal...

Estive a ponto de fazê-lo; verifiquei, porém, que esse ato seria um pouco precipitado. Vou provavelmente, dentro de um tempo não muito longo... Conte com isso. Mas se o senhor o desejar e insistir em que nós dois imediatamente...

Hans Castorp concordou com o adiamento sugerido por Peeperkorn.

– Muito bem, meu filho. Muito bem, camarada. Insuficiência? Ótimo! Ótimo e também horrível. Irresponsável? Excelente! Dádivas? Não estou de acordo. Exigências! Exigências sagradas, femininas, que a vida faz à honra e ao vigor masculino.

Hans Castorp não pôde esquivar-se à súbita percepção de que Peeperkorn estava totalmente embriagado. Mas também o seu inebriamento não era nem vil nem vergonhoso, não se manifestava como um estado de humilhação, senão que se associava à majestade da sua natureza, formando um fenômeno grandioso que impunha respeito. “O próprio Baco”, pensou Hans Castorp, “apoiava-se nos seus companheiros, quando estava bêbado, sem detrimento da sua divindade. É sumamente importante saber quem está embriagado, se é uma personalidade ou um pobre-diabo.” E o jovem evitou, no seu íntimo, diminuir o respeito que lhe inspirava a

esmagadora figura do companheiro de viagem, cujos gestos esmerados se haviam tornado vagos e cuja língua balbuciava.

– Irmão! – disse Peeperkorn, presa de uma embriaguez livre e altiva. Atirou para trás o corpo potente, e estendendo o braço por sobre a mesa, golpeou-a com o punho frouxamente cerrado. – Está projetado... Projetado para breve, embora a ponderação, por enquanto... Bem, basta! A vida, meu caro jovem, é uma mulher, uma mulher estatelada, com os seios exuberantes e apertados, com o ventre amplo e macio entre os quadris salientes, com braços delgados, coxas opulentas e olhos semicerrados, uma mulher que nos desafia magnífica e zombeteiramente e reivindica todas as energias da nossa virilidade, que se deve confirmar ou perecer perante ela...

Perecer, jovem! O senhor percebe o que isso significaria? A derrota do sentimento em face da vida, eis o que é a insuficiência para a qual não há nem perdão, nem compaixão, nem dignidade, mas que é inexorável e sardonicamente reprovada, liquidada – compreende, jovem? – e vomitada... Ignomínia e desonra são palavras brandas em comparação com essa ruína e bancarrota, com essa pavorosa vergonha. Ela é o ponto final, o desespero do inferno, o fim do mundo...

Enquanto falava, o holandês lançara mais e mais para trás o poderoso corpo. Ao mesmo tempo, a majestosa cabeça inclinava-se para o peito, como se ele estivesse a ponto de adormecer.

Ao pronunciar a última palavra, porém, deixou o punho frouxo recair sobre a mesa num murro vigoroso, de maneira que o frágil Hans Castorp, nervoso devido ao jogo, ao vinho e à peculiaridade das demais circunstâncias, sobressaltou-se e fixou no potentado um olhar respeitoso e espantado, “Fim do mundo”, como essas palavras se harmonizavam com o rosto de Peeperkorn! Hans Castorp não se recordava de as ter ouvido, fora, talvez, das aulas da religião, e isso não era por acaso, segundo pensava, pois, a quem dentre todas as pessoas que conhecia cabia pronunciar tal palavra fulminante? Quem, para formular a pergunta com mais acerto, tinha a necessária envergadura? Seria possível que o pequeno Naphta se servisse dela de vez em quando; mas isso não passaria de uma usurpação e de uma bravata agressiva, ao passo que na boca de Peeperkorn a locução atroadora adquiria a plenitude do seu poder esmagador, vibrava com o clangor de trombetas e alcançava a grandiosidade bíblica. “Cruzes, uma personalidade!”, sentiu o jovem pela centésima vez. “Travei conhecimento com uma personalidade e ela é o companheiro de viagem de Clávdia.” Meio tonto, também ele próprio, fazia girar a taça em cima da mesa.

Tinha a outra mão no bolso da calça e fechava um olho para que não entrasse a fumaça do cigarro que lhe pendia no canto da boca. Não seria melhor permanecer calado, depois dessas palavras terem sido proferidas por uma pessoa que tinha vocação para atroá-las? Para que fazer ouvir a sua voz débil? Mas ele estava acostumado a discussões por seus dois educadores democratas – ambos democratas por natureza, se bem que um não gostasse de sê-lo. Assim, se deixou arrastar e acrescentar um daqueles seus comentários ingênuos, e disse:

– Suas observações, Mynheer Peeperkorn – (Que expressão era essa? Porventura se faziam “observações” sobre o fim do mundo?) –, suas observações reconduziram os meus pensamentos até isso que o senhor acaba de dizer a respeito do vício, isto é, que constitui um insulto às dádivas simples e, segundo disse o senhor, sagradas, ou como eu prefiro dizer, às dádivas clássicas da vida, as dádivas de vulto, em certo sentido, antepor-lhes as dádivas posteriores, requintadas, os refinamentos aos quais as pessoas “se abandonam”, para repetir uma expressão usada por um de nós dois, ao passo que “se consagram” ou “fazem honra” àquelas grandes dádivas. Mas nesse ponto, precisamente, me parece residir a desculpa – o senhor me perdoe, mas a minha natureza é propensa a desculpas, se bem que elas careçam de envergadura, como sinto nitidamente –, a desculpa do vício, porque este, conforme verificamos, se baseia na insuficiência. O senhor pronunciou sobre os horrores da insuficiência palavras de tamanho peso que me deixou sinceramente emocionado. No entanto, acho eu que a pessoa viciada absolutamente não se mostra insensível a esses horrores, mas sim os reconhece plenamente, uma vez que o fracasso do seu sentimento em face das dádivas clássicas da vida a impele em direção ao vício. De modo que nisso não há, ou não precisa haver, nenhuma ofensa à vida, desde que

essa atitude pode, com a mesma razão, ser considerada como uma homenagem à vida, tendo-se em conta que os refinamentos são meios de embriagar-se e de exaltar-se, stimulantia, como se costuma dizer, usados para o apoio e a elevação da sensibilidade, de maneira que, apesar de tudo, a vida é a sua finalidade e o seu objetivo, o amor ao sentimento, o desejo de sentimento que experimenta a insuficiência... Parece-me...

Que é que estava dizendo? Não bastava aquela insolência democrática de empregar as palavras “um de nós dois” ao referir-se de um lado a uma personalidade e do outro a si próprio?

Vinha-lhe a coragem necessária para tal ousadia de um passado que punha em dúvida certos direitos de posse? Que lhe dera na veneta quando se metia nessa análise igualmente petulante do

“vício”? A única coisa que agora lhe restava fazer era sair do apuro, pois tornou-se evidente que acabava de desencadear uma tempestade terrível.

Enquanto o seu convidado falava, Mynheer Peeperkorn tinha permanecido na sua posição anterior, com o corpo atirado para trás e a cabeça curvada sobre o peito, de modo que não se podia saber se as palavras de Hans Castorp lhe penetravam na consciência. A essa altura, porém, pouco a pouco, quanto mais se confundia o jovem, mais se empertigava o holandês, afastando-se do espaldar e aparecendo em toda a sua grandeza; ao mesmo tempo, a majestosa cabeça tornava-se rubra e congestionada; subiam, entesando-se, os arabescos da fronte; os olhinhos dilatavam-se numa ameaça indistinta. Que estava se preparando? Um acesso de raiva parecia a ponto de se desencadear, comparado com o qual o anterior não passava de um ligeiro agastamento. O lábio inferior de Mynheer comprimia-se contra o superior numa expressão de ira violenta, fazendo descer os cantos da boca e avançar o queixo. Lentamente, o braço direito ia se distanciando da mesa; levantou-se até a altura da cabeça, com o punho cerrado, tomando um magnífico impulso para o golpe que aniquilaria o palrador democrático. Tomado de susto, mas também cheio de um fantástico prazer devido a essa imagem expressiva da indignação de um rei, este apenas era capaz de ocultar o medo e a vontade de fugir que sentia.

– Sem dúvida me expressei mal – apressou-se a dizer conciliadoramente. – Tudo isso depende da envergadura e de nada mais. Não se pode qualificar de vício o que tem grandeza. O

vício não a tem nunca, nem tampouco os prazeres refinados. Mas em todos os tempos, o homem ávido de sentimentos tem disposto de um recurso, de um meio de se exaltar e embriagar, que faz parte das dádivas clássicas da vida, e cujo caráter é simples, sagrado, e por conseguinte oposto ao vício. É um recurso de grande envergadura, por assim dizer. Falo do vinho, um presente divino feito aos homens, segundo já afirmavam os povos humanísticos da Antigüidade, a invenção filantrópica de um deus, relacionada com a própria civilização. Não se diz que graças à arte de plantar a vinha e de se espremer a uva os homens abandonaram o estado de selvageria e se civilizaram? Ainda hoje, os povos em cujos países há parreiras são considerados mais civilizados, ou pelo menos julga-se assim, do que aqueles que não têm vinho, os cimérios; e isso me parece realmente notável, porque significa que a civilização, em vez de ser um assunto do intelecto e da sobriedade ponderada, depende do entusiasmo, da ebriedade e da sensação de deleite. Não é essa também a sua opinião, se posso tomar a liberdade de lhe fazer a pergunta?

Um sabido, esse Hans Castorp! Ou, como o Sr. Settembrini o formulara com certo requinte literário, um “maganão”. Imprudente e até atrevido no contato com “personalidades”, e ao mesmo tempo hábil, quando se tratava de se livrar da “encrenca”. Agora, numa situação complicadíssima, acabava de improvisar, com muita graça, um discurso em homenagem ao alcoolismo; além disso mencionara, de passagem, a “civilização”, da qual, na verdade, pouco se notava na primitividade formidável da atitude de Mynheer Peeperkorn; e finalmente conseguira abrandar e tornar inoportuna essa atitude aterradora, ao fazer uma pergunta à qual era impossível responder com o punho erguido. E de fato, o holandês suavizou o seu gesto de rancor antediluviano. Descendo lentamente, o braço se aproximava da mesa; a cabeça se descongestionava. “Tiveste sorte”, lia-se na sua fisionomia, que mostrava apenas restos da ameaça anterior. Dissipara-se a tempestade, e para liquidar o caso, interveio Mme. Chauchat,

chamando a atenção do seu companheiro de viagem sobre o declínio da animação que se verificava entre os comensais.

– Meu amigo, você se esquece dos seus convidados – disse em francês. – Está se dedicando com demasiada exclusividade a esse senhor, por mais importantes que sejam os assuntos a tratar. Mas nesse meio tempo o jogo parou quase completamente, e receio que os outros se aborreçam. Quer que encerremos a sessão?

Imediatamente Peeperkorn voltou-se para a roda dos convidados. Com efeito, a desmoralização, a letargia, o marasmo, haviam-se alastrado entre eles, que se encontravam entregues às mais diferentes ocupações, como uma classe de colegiais quando falta a autoridade do professor. Alguns estavam a ponto de adormecer. Peeperkorn não tardou a retomar as rédeas que lhe tinham escapado da mão. – Senhoras e senhores! – gritou com o indicador levantado, e esse dedo pontudo qual uma lança parecia uma espada que desse um sinal, ou uma bandeira. Seu apelo, por sua vez, recordava o “Siga-me quem não for covarde!” de um caudilho que fizesse parar um princípio de debandada. A intervenção da sua personalidade teve o efeito imediato de unir e de reanimar o grupo. Os comensais reagiram. Compuseram as fisionomias que antes estavam frouxas. Entre sorrisos e acenos, fitaram os olhos do anfitrião, esses olhos apagados sob as rugas lineares da fronte, que davam a seu rosto a aparência de um ídolo. E o holandês fascinou-os a todos, obrigando-os a se dedicar novamente ao serviço, apenas abaixando a ponta do indicador em direção ao polegar e elevando os demais dedos com as unhas compridas. Com um gesto que ao mesmo tempo protegia e moderava, espalmou as mãos de capitão, enquanto dos lábios doloridos e gretados se desprendiam palavras cuja indistinção e falta de nexo exerciam, graças ao apoio da sua personalidade, uma poderosa influência sobre os espíritos.

– Senhoras e senhores! Muito bem. A carne, senhoras e senhores, é infelizmente... Basta!

Não, permitam-me que... “Fraca”, reza a Escritura. “Fraca”, isto é, propensa a esquivar-se às exigências que... Mas eu apelo à sua... Numa palavra, senhoras e senhores, eu a-pe-lo. Talvez me digam que o sono... Muito bem, senhoras e senhores, ótimo, excelente. Eu amo o sono e honro-o. O sono faz parte das... Como o formulou o senhor, meu caro jovem?... das dádivas clássicas da vida, e entre elas ocupa o primeiro, o primeiríssimo... Perdão, senhoras e senhores... O supremo.

Queiram, porém, observar e lembrar-se... Getsêmani! “E, tendo tomado consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu... Disse-lhes então: Ficai aqui e velai comigo”. Os senhores se lembram?

“Depois foi ter com seus discípulos, e encontrou-os dormindo, e disse a Pedro: Visto isso, não pudestes velar uma hora comigo?” E intenso, senhoras e senhores! Pungente, emocionante! “E

foi novamente, e encontrou-os dormindo; porque seus olhos estavam pesados por causa do sono... E disse-lhes: Dormi agora e descansai; eis que está próxima a hora...” Senhoras e senhores, é lancinante, dilacera o coração...

De fato, todos estavam comovidos e envergonhados até o fundo da alma. O holandês tinha as mãos juntas sobre o peito, por cima do cavanhaque ralo, e inclinava obliquamente a cabeça. Seu olhar apagado turvara-se em face da tristeza solitária e mortal que lhe brotara dos lábios gretados. A Srª. Stöhr soluçava. A Srª. Magnus soltou um profundo suspiro. O Promotor Paravant, na qualidade de representante dos convidados, como uma espécie de delegado, viu-se induzido a dirigir, em voz abafada, algumas palavras ao venerado anfitrião, para garantir-lhe a lealdade de todos os seus vassalos. Devia haver um equívoco. Ninguém estava cansado; todos se sentiam alegres, dispostos, animados, cheios de bom humor e plenamente atentos. Era uma noite tão linda, tão festiva, uma noite simplesmente extraordinária; todos compreendiam isso e tinham a mesma sensação. Ninguém pensava por enquanto em lançar mão daquela dádiva da vida que era o sono. Mynheer Peeperkorn podia contar com os seus convidados em conjunto e com cada um em particular.

– Perfeitamente! Magnífico! – exclamou Peeperkorn, empertigando-se. Suas mãos se desligaram, separaram-se e subiram. Ficou com os braços abertos, dirigidos para cima, e com as palmas viradas para fora como numa oração pagã. Sua fisionomia grandiosa, que havia poucos instantes ainda vibrara de mágoa gótica, abriu-se, exuberante e jovial. Até mesmo uma covinha de

sibarita assomou-lhe subitamente na face. “Eis que está próxima a hora...” E pediu o cardápio.

Colocou no nariz um pincenê com aros de chifre, e cuja ponte se erguia na altura da testa.

Encomendou champanha, três garrafas de Mumm & Cia., Cordon rouge, très sec, acompanhadas de petits fours, pequenas guloseimas, deliciosas e coniformes, com uma saborosa massa cor de barro, revestida de um glacê de açúcar, recheadas de cremes de chocolate e de pistache, e oferecidas sobre papeizinhos com beiras rendadas. A Srª. Stöhr lambia os dedos ao prová-las. O Sr. Albin, com uma calma displicente, libertou a primeira rolha da sua gaiola de arame e deixou o cogumelo de cortiça desprender-se do gargalo adornado, com o estalo de uma pistola de criança, e saltar até o teto. Em seguida, conforme a tradição elegante, embrulhou a garrafa num guardanapo, antes de despejar o vinho. A nobre espuma molhou o linho das toalhas que cobriam as mesinhas auxiliares. Fizeram tinir as taças, e esvaziaram-nas de um só trago. O estômago sentia-se eletrizado pelas cócegas do líquido gelado e aromático. Os olhos começaram a brilhar. O jogo ficara interrompido, sem que se dessem o trabalho de recolher as cartas e o dinheiro espalhado na mesa. A roda abandonou-se a um deleitoso far niente, mesclado com uma conversação sem nexo, cujos elementos cada um extraía da sua sensibilidade aguçada; elementos sumamente promissores na sua fase primitiva, mas que no caminho à expressão se haviam transformado numa algaravia fragmentária, entaramelada, entre indiscreta e incompreensível, capaz de envergonhar ou enfurecer qualquer pessoa sóbria que a ouvisse. A essa altura, porém, os comensais suportavam-na sem nenhuma objeção, visto se acharem todos no mesmo estado. Até a Srª. Magnus tinha as orelhas rubras e alegava sentir como a vida pulsava nas suas veias; afirmação de que o marido parecia gostar pouco. Hermine Kleefeld, recostando-se ao ombro do Sr. Albin, estendia-lhe a taça para que a enchesse de vinho. Peeperkorn dirigia a bacanal com esmerados gestos dos dedos de unhas pontudas. Também providenciou o abastecimento e os reforços. Depois do champanha, mandou trazer café, moca fortíssimo, que vinha novamente acompanhado de “pão” e, para as senhoras, de licores doces, mas picantes, como são apricots brandy, chartreuse, creme de vanille e maraschino. Mais tarde apareceram ainda filés de peixe avinagrado e cerveja, e finalmente chá, de duas espécies, chá chinês e chá de macela, para quem não preferisse conservar-se fiel ao champanha ou aos licores, ou ainda voltar a beber um vinho genuíno. Assim fazia Mynheer, cujo processo de purificação íntima progredira, depois da meia-noite, em direção a um tinto suíço de um bouquet ingênuo, que tomava em companhia de Mme. Chauchat e de Hans Castorp, e do qual emborcava taça após taça, como para saciar uma sede real. À uma hora, a sessão festiva ainda se arrastava, prolongada ora pela paralisia plúmbea da embriaguez, ora pelo prazer singular de desperdiçar a noite, ora enfim pela influência da personalidade de Peeperkorn e pelo exemplo infausto de São Pedro e dos seus, cuja fraqueza ninguém queria imitar. De modo geral, o belo sexo parecia menos exposto a tal perigo; pois, ao passo que os homens, corados ou pálidos, bufando, com as pernas esticadas, bebiam apenas mecânica e esporadicamente, sem revelar o verdadeiro entusiasmo no cumprimento do dever, as mulheres mostravam-se mais ativas. Hermine Kleefeld, com os cotovelos desnudos apoiados na mesa e com o rosto fincado entre as mãos, exibiu rindo a brancura dos seus dentes ao cacarejante Ting-Fu, enquanto a Srª. Stöhr, achegando o queixo ao ombro avançado, lançava ao Promotor Paravant olhares faceiros que lhe deviam fomentar a vontade de viver. A Srª. Magnus chegara ao ponto de instalar-se sobre os joelhos do Sr. Albin e de puxá-lo pelas orelhas, o que o Sr. Magnus observava com manifesto alívio. Anton Karlovitch Ferge foi solicitado a contar a história do choque pleural, mas a língua embargada impediu-o de realizar o intento; assim ele confessou francamente o seu fracasso, que os outros unanimemente consideraram motivo para beber mais.

Continuar: parte 3 de 3