A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 10 de 13 · parte 3/3

Páginas do PDF

A Montanha Mágica

Capitulo VII

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Durante alguns instantes, Wehsal verteu lágrimas amargas, que brotavam de certos abismos da miséria, cuja profundeza a sua língua já não estava em condições de desvendar à humanidade; mas, por meio de café e de conhaque, conseguiram endireitá-lo espiritualmente. Os gemidos que se arrancavam de seu peito e o queixo rugoso, trêmulo, inundado de lágrimas despertaram, por outro lado, o mais vivo interesse de Peeperkorn, que, erguendo o polegar e alçando os arabescos da fronte, chamou a atenção de todos sobre o estado de Wehsal.

– Isto é... – disse. – Realmente, isto é... Não, permita-me: sagrado! Seque-lhe o queixo, minha filha! Tome o meu guardanapo! Não! Melhor deixá-lo em paz! Ele mesmo não quer.

Senhoras e senhores! Sagrado! Sagrado sob todos os aspectos, no sentido cristão como no pagão!

Um fenômeno primevo! Um fenômeno de primeira... de suprema... Não, não, isto é mesmo...

Essas palavras “Isto é...” e “Isto é mesmo...” formavam o Leitmotiv das explicações e dos comentários que acompanhavam os seus gestos precisos, ainda que estes, com o tempo, tivessem assumido caráter levemente grotesco. Tinha ele um jeito de manter à altura da orelha o anel que o polegar formava com o indicador, e de afastar dele a cabeça inclinada, com uma expressão humorística que despertava sensações iguais àquelas que originaria um sacerdote idoso de um culto estranho, que dançasse diante do altar de sacrifícios, arregaçando a vestimenta com uma graça refinada. Em outra ocasião, refestelando-se em toda a sua grandeza, com os braços a cingir os espaldares das cadeiras vizinhas, obrigou os comensais, para grande perplexidade de todos, a evocar, junto com ele, a visão viva e intensa da manhã, uma gélida e sombria manhã de inverno, com a luz amarela da lâmpada de cabeceira espelhando-se na vidraça, sobre um fundo de ramaria calva, que lá fora se ouriçava na madrugada brumosa, glacial, áspera como o grito das gralhas...

Pela descrição sugestiva, soube dar tanta força a esse quadro singelo e cotidiano, que os convidados ficaram todos arrepiados, principalmente quando lhes recordou a água gelada espremida de uma grande esponja sobre a nuca, e que qualificou de sagrada. Tudo isso era apenas uma digressão, um exemplo destinado a ensinar-lhes a atenção em face das coisas da vida, um improviso fantástico, que ele logo abandonou, para novamente devotar a sua fervorosa ênfase e a presença dos seus sentimentos a essa hora noturna, festivamente desenfreada. Mostrou-se apaixonado por tudo quanto era mulher que se achava a seu alcance, sem preferências nem discriminação. Fez à anã declarações tais que o rosto envelhecido, excessivamente grande, da desgraçada criatura se enrugou todo num vasto sorriso. Disse à Srª. Stöhr galanteios de tal calibre que essa mulher, já naturalmente vulgar, avançando ainda mais o ombro, levou a sua costumeira afetação às raias da perfeita loucura. Pediu à Kleefeld lhe desse um beijo na boca ampla e gretada, e perseguiu até a insípida Srª. Magnus – tudo isso sem detrimento da terna dedicação que demonstrava à sua companheira de viagem, cuja mão freqüentemente levava aos lábios, com um ardor cavalheiresco. – O vinho... – disse. – As mulheres... Isto é... Isto é mesmo... Permitam-me...

Fim do mundo... Getsêmani...

Por volta das duas horas espalhou-se o boato de que o “Velho”, quer dizer, o Dr.

Behrens, se aproximava a passo acelerado das salas de reunião. No mesmo instante produziu-se grande pânico entre os pensionistas enervados. Cadeiras e baldes de gelo foram derrubados. Os convidados fugiram pela porta da biblioteca. Peeperkorn, tomado de raiva majestosa, ao ver o brusco encerramento da festa, deu com o punho na mesa e gritou: “Escravos medrosos!” por trás do pessoal que se sumia. Mas Hans Castorp e Mme. Chauchat conseguiram que ele se conformasse, até certo ponto, com a idéia de que esse festim, depois de quase seis horas de duração, tinha de terminar, afinal. Também aquiesceu quando lhe relembraram o sagrado regalo do sono, e permitiu que o levassem para a cama.

– Ampare-me, minha filha! Ampare-me do outro lado, jovem – disse a Mme. Chauchat e a Hans Castorp. E eles ajudaram-no a levantar da cadeira o corpo pesado. Ofereceram-lhe o braço, e escorado por ambos começou a trilhar o caminho que o levaria ao repouso. Caminhava com as pernas abertas, inclinando a enorme cabeça para um dos ombros levantados, e empurrava ora um ora outro dos seus guias devido a seu andar cambaleante. Na realidade era um luxo real que se permitia ao exigir que o pilotassem e apoiassem dessa forma. Se o achasse necessário, provavelmente teria sido capaz de caminhar sozinho. Mas Peeperkorn desdenhou tal esforço, que, em todo caso, só poderia ter o sentido mesquinho e inferior de dissimular pudicamente a sua ebriedade, ao passo que ele, evidentemente, não tinha a mínima vergonha dela, exibindo-a de modo magnífico e exuberante. Dava-lhe um prazer régio, quando aqueles cambaleios dirigiam os seus servidores ora para a direita ora para a esquerda. Ele mesmo disse, enquanto avançavam assim:

– Meus filhos... Bobagem... Não estamos nem um pouquinho... Se nesse momento...

Vocês veriam... Ridículo...

– Ridículo! – confirmou Hans Castorp. – Não existe a menor dúvida! Tributa-se à dádiva clássica da vida o que se lhe deve, quando se cambaleia dessa forma sem dissimulação, em sua homenagem. Seriamente... Eu também bebi bastante, mas apesar da minha pretensa embriaguez sinto com absoluta clareza a honra especial que me coube por poder conduzir à cama uma autêntica personalidade. Tão fraco é o efeito que a embriaguez exerce sobre mim, cuja envergadura nem sequer pode ser comparada com...

– Ora, ora, pequeno tagarela – disse Peeperkorn, enquanto, a passo vacilante, o comprimia contra o corrimão da escada, arrastando consigo Mme. Chauchat.

O rumor de que o conselheiro se aproximava não passava, como se manifestou, de um rebate falso. Talvez tivesse sido posto em circulação pela anã fatigada, na intenção de dar cabo da reunião. Nessas circunstâncias, Peeperkorn estacou e fez menção de voltar para continuar com a bebedeira. Mas de ambos os lados recebeu sugestões em contrário, e assim consentiu em que o pusessem novamente em movimento.

O criado malaio, aquele homenzinho com gravata branca e sapatos de seda preta, esperava o patrão no corredor, diante da porta do apartamento. Acolheu-o com uma mesura, levando uma das mãos ao peito.

– Beijem-se! – ordenou Peeperkorn. – Meu caro jovem, dê um beijo de despedida na fronte dessa encantadora mulher! – acrescentou, dirigindo-se a Hans Castorp. – Ela não fará objeções e lhe retribuirá. Façam isso à minha saúde e com a minha licença! – terminou; mas Hans Castorp se negou a executar a ordem.

– Não, Majestade – disse. – Desculpe, mas não é possível.

Peeperkorn, encostado ao malaio, alçou os arabescos da fronte e quis saber por que isso não era possível.

– Porque não posso trocar com a sua companheira de viagem beijos na fronte – explicou Hans Castorp. – Desejo-lhe uma boa noite. Não, isso seria sob todos os aspectos uma grande tolice.

E como também Mme. Chauchat se encaminhasse à porta do seu quarto, Peeperkorn consentiu em que se afastasse o jovem obstinado. Verdade é que o acompanhou ainda algum tempo com os olhos, tendo a testa franzida. Tamanha surpresa lhe causava essa insubordinação que sua natureza de soberano não estava acostumada a encontrar.

Mynheer Peeperkorn

(Continuação)

Mynheer Peeperkorn residiu no Sanatório Berghof durante todo esse inverno – quer dizer, durante os meses que ainda restavam dele – e ainda uma parte da primavera, de modo que antes do fim se pôde realizar uma notável excursão coletiva – também Naphta e Settembrini tomaram parte nela – ao vale de Fluela e à cascata que ali existe... Antes do fim? Quer dizer que não ficou mais tempo? Não, não ficou mais tempo. Partiu, então? Sim e não. Sim e não? Nada de mistérios, por favor! É preciso resignar-se. Também o Tenente Ziemssen faleceu, sem falar de muitas outras pessoas menos honradas que entraram na dança da morte. De maneira que o confuso Peeperkorn morreu daquela febre maligna? Não, assim não se deu. Mas por que tanta impaciência? Deve-se respeitar a condição da vida e da narrativa, segundo a qual as coisas não podem acontecer todas ao mesmo tempo. Cumpre não rebelar-se contra as formas do conhecimento humano que Deus nos conferiu. Prestemos ao tempo pelo menos tanta honra quanta ainda permite a natureza da nossa história! De todo modo não sobra mais muita. A narração precipita-se, aos trambolhões, ou – se essa expressão, porventura, soa por demais barulhenta – vai deslizando com a rapidez do vento. Quem indica o nosso tempo é um ponteirozinho que saltita como se medisse segundos, mas cada vez que passa pelo vértice,

friamente e sem se demorar, significa sabe Deus o quê. Já faz anos – isto é indiscutível – que nos achamos aqui em cima. Sentimo-nos tomados de vertigem. Sonhamos um sonho vicioso, sem ópio nem haxixe, e o censor que vela pelos bons costumes não deixará de condenar-nos. E

todavia nos empenhamos, propositadamente, em opor à névoa perniciosa a mais intensa clareza de raciocínio e o máximo de agudeza lógica. Não é por acaso – convém reconhecer esse fato –

que nos rodeamos de inteligências como as dos senhores Naphta e Settembrini, ao invés de nos cercarmos exclusivamente de esfumados Peeperkorns. Verdade é que isso nos leva a uma comparação que, sob certos pontos de vista, principalmente no que se refere à envergadura, resultaria vantajosa para a personagem posteriormente apresentada. Também Hans Castorp chegava a essa conclusão, quando se achava estendido no seu compartimento de sacada e refletia sobre os dois educadores excessivamente articulados, que lhe disputavam a pobre alma.

Verificava então que eles pareciam anões em confronto com Pieter Peeperkorn, a ponto de sentir-se inclinado a qualificá-los de “pequenos tagarelas”, da mesma forma como o holandês, na sua regia ebriedade, fizera humoristicamente com ele mesmo. Julgava feliz e proveitoso o contato com uma autêntica personalidade, que a pedagogia hermética lhe proporcionava, além do mais.

Que essa personalidade fosse o companheiro de viagem de Clávdia e como tal constituísse imenso obstáculo, era problema à parte, que no entanto não perturbava a objetividade de Hans Castorp. A simpatia sinceramente respeitosa, embora às vezes um tanto atrevida, que lhe inspirava esse homem de grande envergadura não era perturbada – repetimo-lo

– pela simples circunstância de ele viver em comunhão de bens com uma mulher que emprestara um lápis a Hans Castorp numa noite de carnaval. Nosso jovem não era de índole a deixar-se influenciar por essas coisas. Não duvidamos de que certos leitores ou leitoras se escandalizarão com tamanha “falta de temperamento” e prefeririam que ele odiasse e evitasse Peeperkorn, que o tratasse, no seu íntimo, de velho burro e de beberrão tartamudo, em vez de visitá-lo por ocasião dos seus ataques de febre intermitente, de sentar-se à beira da sua cama, de conversar com ele (esse verbo naturalmente só se refere às contribuições que o colóquio recebia da parte de Hans Castorp, e não às do grandioso Peeperkorn) e de sujeitar-se ao influxo dessa personalidade, com o espírito curioso de quem viaja para se instruir. Mas era precisamente o que ele fazia, e relatamos o fato indiferentes ao perigo de que diante disso alguém se possa recordar de Ferdinand Wehsal, que costumava carregar o sobretudo de Hans Castorp. Essa reminiscência não demonstra coisa alguma. O nosso herói não era nenhum Wehsal. Nada tinha que ver com os abismos da miséria.

Apenas não era “herói”, quer dizer, a mulher não lhe determinava as relações para com tudo quanto é homem. Fiéis ao nosso princípio de não o apresentar nem melhor nem pior do que era, constatamos que ele se recusava simplesmente – não de forma intencional e expressa, mas de modo todo ingênuo – a consentir que influências romanescas o impedissem de ser justo no julgamento do seu próprio sexo e o privassem da capacidade de apreciar experiências realizadas nessa esfera, e que pudessem ser proveitosas para a sua formação. Pode ser que essa atitude não agrade às mulheres, e, se não nos enganamos, Mme. Chauchat, sem querer, a achava chocante; certas indiretas que lhe haviam escapado, e que assinalaremos no que se segue, indicam isso. Mas talvez fosse justamente devido a essa qualidade que Hans Castorp era objeto bastante próprio para disputas pedagógicas.

Peeperkorn achava-se freqüentemente acamado. Não causará espécie que estivesse doente também no dia seguinte àquela noite de jogo e de champanha. Quase todos os que haviam participado da sessão prolongada e exaustiva sentiam-se mal, inclusive Hans Castorp, que sofria de forte dor de cabeça. Mas nem por isso deixou de visitar o anfitrião da véspera no seu quarto de enfermo. Fez-se anunciar pelo malaio, que encontrou no corredor do primeiro andar, e foi introduzido.

Entrou no dormitório do holandês, onde havia duas camas. Antes atravessara um salão que o separava do quarto de Mme. Chauchat. Pôde verificar que esses aposentos diferiam das peças normais que o Berghof alugava aos pensionistas, tanto pelas dimensões como pela elegância da mobília. Existiam ali poltronas forradas de seda e mesas de pernas arqueadas. Um

tapete fofo cobria o chão, e também as camas não pertenciam ao tipo vulgar de higiênicos leitos de morte. Eram até suntuosas, feitas de cerejeira polida, com guarnições de latão, e tinham um pequeno dossel comum, sem cortinas pendentes; apenas um baldaquinozinho protetor que as unia.

Peeperkorn estava estendido sobre um dos dois leitos. Na colcha de seda vermelha viam-se livros, cartas e jornais. Com o pincenê de aros de chifre colocado muito alto na testa, lia o Telegraaf. Sobre uma cadeira ao lado da cama havia um serviço de café e uma garrafa de vinho tinto meio vazia; era o mesmo da noite anterior, com o bouquet ingênuo. Na mesinha-de-cabeceira achavam-se vidros de remédios. Para discreta surpresa de Hans Castorp, a camisola que o holandês usava não era branca, mas de lã, com mangas compridas, abotoadas nos punhos, e tinha, em vez de gola, um decote redondo; ajustava-se estreitamente aos largos ombros e ao peito imponente do velho. A grandiosidade humana da cabeça que jazia sobre o travesseiro ressaltava em virtude desse traje, que a distanciava da esfera burguesa e imprimia à figura de Peeperkorn um cunho que fazia pensar num homem do povo, num proletário, como nos traços imortalizados de um busto.

– Perfeitamente, meu caro jovem – disse, enquanto pegava no arco do pincenê para tirá-lo. – Faça-me o favor... Absolutamente. Pelo contrário. – E Hans Castorp sentou-se junto dele, escondendo o seu assombro compassivo – a não ser que fosse admiração real aquilo que lhe impunha o seu senso de justiça. Para dissimular esse sentimento, recorreu a lugares-comuns amistosos e animados, que Peeperkorn secundava com frases impressionantemente abruptas e com uma gesticulação enfática. O holandês não tinha bom aspecto. Seu rosto estava amarelo e mostrava traços de sofrimento e fadiga. Pela manhã, tivera violento acesso de febre, e o subseqüente cansaço aliava-se à ressaca provocada pela embriaguez da véspera.

– Ontem fomos um tanto longe – disse. – Não, permita-me... Foi exagerado e prejudicial... O senhor ainda está... Bem, no seu caso não faz mal. Mas na minha idade e para a minha abalada... Minha filha – prosseguiu, dirigindo-se com terna mas decidida severidade a Mme. Chauchat, que acabava de entrar pela porta do salão –, está tudo muito bem, mas eu lhe repito que teria sido melhor vigiar-me e impedir-me de... – Enquanto proferia essas palavras, vibravam-lhe nas feições e na voz os prenúncios de um ataque de raiva soberana. Mas bastava imaginar a tempestade que teria irrompido se alguém houvesse feito uma tentativa de estorvar-lhe seriamente a bebedeira, para avaliar a totalidade da injustiça e da insensatez dessa censura. Essas coisas talvez sejam inerentes à grandeza. Com efeito, a sua companheira de viagem passou por cima do assunto e cumprimentou Hans Castorp, que se levantara. Não lhe deu a mão, mas limitou-se a sorrir e a pedir “que não se incomodasse, por favor” e que “de maneira alguma”

interrompesse o seu tête-à-tête com Mynheer Peeperkorn. Logo se entregou a uma série de atividades. Mandou o criado retirar o serviço de café. Desapareceu por alguns instantes e voltou com aquele seu andar felino. Sem sentar-se, procurou tomar parte na conversa, ou – se queremos aderir à opinião vaga de Hans Castorp – empenhou-se em controlá-la um pouquinho. Claro!

Tinha plena liberdade de regressar ao Sanatório Berghof em companhia de uma personalidade de grande envergadura; mas, quando o homem que tanto esperara por ela prestava a essa personalidade as devidas honras, de homem para homem, ela se mostrava inquieta e mesmo sarcástica, com todos esses “por favor” e “de maneira alguma”. Hans Castorp sorriu disso, baixando bem a cabeça, a fim de ocultar o sorriso. Ao mesmo tempo sentiu-se abrasado de alegria interior.

Peeperkorn serviu-lhe uma taça de vinho, da garrafa que se encontrava na mesinha-de-cabeceira. Nas atuais circunstâncias – opinava o holandês –, o melhor que se podia fazer era continuar no ponto onde haviam parado à noite anterior, e esse vinho leve tinha o mesmo efeito que água de soda. Bebeu à saúde de Hans Castorp, e este, enquanto bebia, observou como a sardenta mão de capitão, com as unhas pontudas e com o punho abotoado da camisola de lã a estreitar-lhe o pulso, erguia o copo, como os lábios amplos e gretados pousavam-lhe na borda, e como o vinho deslizava pela garganta proletária ou escultural, que alternadamente se levantava e

descia. Depois vieram a falar do remédio que se via no criado-mudo, um líquido pardo do qual Peeperkorn engoliu uma colherada, a conselho e com o auxílio de Mme. Chauchat. Tratava-se de um antipirético à base de quinina. Peeperkorn fez com que o visitante o provasse para conhecer o gosto característico, amargo e contudo aromático do preparado. A seguir manifestou seu elogio ao quinina, que não somente era uma bênção por destruir os germes e por exercer um efeito salutar sobre o centro regulador da temperatura, mas também merecia ser apreciado como tônico: reduzia o metabolismo da albumina, favorecia a assimilação dos alimentos; numa palavra, constituía uma poção feita para regalar a gente, um remédio magnífico, que fortalecia, estimulava e reavivava. Também era inebriante, e seria fácil uma pessoa embriagar-se de quinina –

acrescentou, pilheriando e esboçando gestos sugestivos com a cabeça e a mão, que novamente o assemelhavam a um sacerdote pagão a dançar.

Que substância maravilhosa, essa casca febrífuga! Não fazia, aliás, nem três séculos que a farmacologia européia sabia da sua existência, e não haviam decorrido cem anos desde que a química descobrira o alcalóide ao qual essa casca devia as suas virtudes, isto é, o próprio quinina.

Descobrira-o e analisara-o até certo ponto, mas não podia pretender ter elucidado completamente a sua composição e não conseguira produzi-lo artificialmente. Falando de modo geral, a nossa farmacologia faria bem em não se gabar blasfemamente da sua sabedoria, pois em face de muitas outras matérias acontecia-lhe o mesmo. Tinha ela certos conhecimentos a respeito do dinamismo, dos efeitos das substâncias, mas o problema de encontrar a causa exata desses efeitos freqüentemente lhe criava sérios embaraços. Se o jovem se ocupasse um pouquinho com a toxicologia, verificaria que ninguém era capaz de informá-lo acerca das qualidades elementares que determinavam os efeitos dos chamados venenos. Havia, por exemplo, os venenos das serpentes, dos quais se sabia apenas que essas secreções animais pertenciam ao grupo dos compostos de albumina, constavam de diversos tipos de albuminóides e produziam os seus efeitos fulminantes somente numa combinação determinada, que no entanto permanecia totalmente indeterminada. Quando introduzidas na circulação do sangue, originavam conseqüências pasmosas, uma vez que ninguém estava acostumado a ver a albumina agir como peçonha. Mas, quanto ao mundo das substâncias químicas – dizia Peeperkorn, que se soerguera no travesseiro e elevava o anel da precisão e os dedos lanciformes ao lado da cabeça com os olhos apagados e com os arabescos da fronte –, quanto às substâncias químicas, a verdade era esta: todas elas eram ao mesmo tempo medicamentos e venenos; a farmacologia e a toxicologia eram a mesma coisa; os doentes se curavam por meio de tóxicos, e o que era considerado como portador da vida podia, sob certas circunstâncias, produzir um espasmo que matava no lapso de um segundo.

O holandês falava, com muita insistência e de modo mais coerente do que em geral, sobre remédios e peçonhas. Hans Castorp escutava-o, sacudindo a cabeça obliquamente inclinada. O

que lhe interessava era menos o conteúdo das palavras de Peeperkorn, que parecia intimamente preocupado com o seu assunto, do que o estudo silencioso dos fatores que originavam aquela influência da sua personalidade, que no fundo era tão inexplicável quanto os venenos das cobras.

O dinamismo – expunha Peeperkorn – era o que importava no mundo das substâncias; todo o resto era condicionado a ele. Também o quinina era um veneno medicativo, de natureza sumamente poderosa. Quatro gramas dele bastavam para causar surdez e vertigens, para cortar a respiração, para turvar a vista à maneira da tropina, e para embriagar o paciente tal e qual o álcool. Os operários que trabalhavam nas fábricas de quinina tinham os olhos inflamados e os lábios inchados, além de sofrer erupções da pele. Pôs-se a tratar da cinchona, da árvore da quina, das florestas virgens das cordilheiras, onde, a três mil metros de altura, estava o seu habitat, e donde a sua casca, sob a denominação de “pó dos jesuítas”, chegara à Espanha numa época muito tardia, ao passo que os indígenas da América do Sul conheciam-lhe havia muito a força.

Descreveu as enormes plantações de cinchona que o governo holandês explorava em Java, de onde anualmente eram embarcados para Amsterdam e Londres muitos milhões de quilos dessas cascas tubulares, avermelhadas e parecidas com a canela... De forma generalizada podia-se dizer

que as cascas, o tecido que envolvia as árvores, desde a epiderme até o cerne, eram muito interessantes; quase sempre possuíam extraordinárias qualidades dinâmicas, tanto para o bem como para o mal. Os conhecimentos que os povos de cor haviam desenvolvido com respeito às drogas eram muito superiores aos nossos. Em algumas ilhas a leste da Nova Guiné, os jovens preparavam um filtro de amor, pulverizando a casca de determinada árvore provavelmente venenosa, como a antiaris toxicaria de Java, que tal e qual a mancenilheira empestava o ar a seu redor pelas suas exalações e aturdia mortalmente homens e animais. Aqueles jovens pulverizavam, pois, a casca dessa árvore, misturavam o pó com pedacinhos de coco, enrolavam a mistura numa folha e fritavam-na. Enquanto a adorada esquiva dormia, esguichavam-lhe no rosto o caldo assim obtido, e ela acordava apaixonada pelo homem que a borrifara. Às vezes era a casca da raiz que tinha poderes singulares, como, por exemplo, a de um cipó do arquipélago malaio, o strychnos tieuté, ao qual os indígenas adicionavam veneno de cobras, para preparar o upas-radcha, uma droga que, introduzida na circulação do sangue, por meio de uma flechada, tinha por resultado a morte instantânea, sem que ninguém soubesse explicar de que modo isso se dava.

Apenas se esclarecera que o upas, no que se refere ao seu dinamismo, era parente da estricnina...

E Peeperkorn, que acabava de sentar-se na cama e de vez em quando apanhava a taça de vinho com a mão de capitão ligeiramente trêmula, a fim de levá-la aos lábios gretados e de sorver grandes e ávidos tragos, falou da árvore “dos olhos de gralha”, strychnus nux-vomica, da costa do Coromandel, de cujas bagas alaranjadas, as nozes-vômicas, se extraía o mais poderoso dentre os alcalóides, a estricnina. Abafando a voz a ponto de torná-la um simples murmúrio, e içando as rugas da fronte, descreveu a ramaria cinzenta, a folhagem estranhamente lustrosa e as flores amarelo-esverdeadas dessa árvore, fazendo com que o jovem Hans Castorp tivesse dela uma imagem mesclada de melancolia e de cores histericamente exageradas, que lhe causou leves arrepios.

A essa altura, Mme. Chauchat interveio na conversação, fazendo notar que falar muito não fazia bem a Peeperkorn, que a palestra o cansava e talvez lhe acarretasse um novo acesso de febre. Por maior que fosse o desgosto que sentia ao interromper a entrevista, via-se obrigada a pedir que Hans Castorp a desse por terminada esse dia. Este obedeceu, naturalmente, mas no curso dos meses seguintes eram freqüentes as ocasiões em que se achava sentado à beira da cama do homem majestoso, nos dias seguintes aos acessos de quarta, enquanto Mme. Chauchat, controlando discretamente o colóquio ou também intercalando umas poucas palavras, andava de cá para lá pelo apartamento. Também nos dias em que o holandês estava sem febre, o jovem passava muitas horas com ele e com sua companheira de viagem, adornada de pérolas. Quando o holandês não se encontrava acamado, raras vezes deixava depois do jantar de reunir em torno de si uma pequena seleção dos pensionistas do Berghof, cuja composição mudava de uma vez para outra. Iam então jogar, beber e regalar-se com boas coisas, ora no salão, como da primeira vez, ora no restaurante, e Hans Castorp ocupava o seu lugar habitual entre a mulher displicente e o homem magnífico. Até se uniam para o exercício tradicional ao ar livre; davam passeios dos quais participavam os senhores Ferge e Wehsal, e mais tarde também Settembrini e Naphta, os antagonistas no espírito, que forçosamente encontraram um dia, e que Hans Castorp se sentiu feliz de poder apresentar a Peeperkorn e – até que enfim! – a Clávdia Chauchat. Era-lhe totalmente indiferente que essa apresentação e essas novas relações fossem ou não agradáveis aos dois adversários, pois tinha a secreta convicção de que ambos necessitavam de um objeto pedagógico e prefeririam conformar-se com um séquito indesejável a renunciar às disputas travadas em sua presença.

Com efeito, não se enganou na esperança de que os membros do seu variegado círculo de amigos terminariam por habituar-se ao fato de não se poderem habituar uns aos outros. Era inevitável que entre eles houvesse atritos e divergências sem conta, e até uma tácita hostilidade; e nós mesmos ficamos admirados ao ver como o nosso insignificante herói conseguia agrupá-los à sua volta. Explica-se esse êxito por certa lhaneza hábil, peculiar ao seu caráter, que lhe afigurava

tudo quanto se dizia como “digno de nota” e não somente ligava a si pessoas e personalidades das mais diversas, mas também produzia uma certa ligação entre elas.

Como era curioso o enredo dos fios produzidos por essas relações! Sentimo-nos tentados a mostrar por um instante essa trama complexa, assim como o próprio Hans Castorp a contemplava com olhares astutos e benevolentes, durante os referidos passeios. Havia ali o mísero Wehsal, que desejava Mme. Chauchat com ardorosa cobiça e devotava uma veneração humilde a Peeperkorn e a Hans Castorp; ao primeiro por causa do presente dominador, e ao segundo por causa do passado. Havia Clávdia Chauchat, a enferma viajante, com seu andar graciosamente felino, escrava de Peeperkorn, por sua espontânea vontade, e que, apesar de tudo, parecia um tanto desassossegada e agressiva, cada vez que observava as boas relações que existiam entre o seu senhor e o cavalheiro de uma remota noite de carnaval. Não fazia essa irritação pensar naquela outra que se manifestava na sua atitude para com o Sr. Settembrini? Esse eloqüente falador e humanista, com o qual antipatizava, e que tachava de presumido e desumano?

O amigo pedagógico do jovem Hans Castorp, que Mme. Chauchat gostaria imensamente de interrogar sobre o significado de certas palavras da sua língua mediterrânea, que ela ignorava tão completamente quanto ele a dela, embora com menos desdém: as palavras que o italiano gritara atrás do atraente moço alemão, quando esse burguesinho bonito, de boa família e com a sua mancha úmida, fazia menção de se aproximar dela? Hans Castorp, que andava, como se costuma dizer, “perdido de amor”, não no sentido pejorativo que às vezes se dá a essa expressão, mas assim como amam os que são acometidos de uma paixão proibida e insensata, que não poderia ser decantada nas inocentes cantigazinhas da planície – Hans Castorp, embora malferido por esse amor, que o tornara dependente, servo, sofredor e submisso, era todavia capaz, em plena escravidão, de guardar uma boa dose de malícia, o suficiente para saber quanto valor a sua dedicação tinha e continuaria tendo para com a lânguida enferma de encantadores olhos tártaros e rasgados. E não obstante toda a sua submissão sofredora, o jovem sabia que era possível demonstrar esse valor a Mme. Chauchat. Bastaria para isso que ela observasse a atitude do Sr.

Settembrini com relação à sua pessoa, atitude que logo lhe confirmaria claramente quaisquer suspeitas, por ser tão hostil como o permitia a polidez humanística. Mas o pior – ou, sob o ponto de vista de Hans Castorp, o mais vantajoso – era que ela tampouco se viu compensada pelas suas relações com Naphta, das quais esperara muito mais. Verdade é que ali não encontrava a animosidade que por princípio o Sr. Lodovico opunha à sua maneira de ser, e as condições para uma conversa eram mais favoráveis. Com efeito, de vez em quando, Clávdia e o baixinho sutil mantinham palestras em separado, sobre livros ou sobre problemas da filosofia política, que ambos encaravam da mesma forma radical. Hans Castorp, à sua maneira singela, costumava tomar parte nesses colóquios. No entanto não podia Mme. Chauchat deixar de perceber certa reserva aristocrática nas atenções que lhe prestava aquele adventício, prudente como todos do seu tipo. O terrorismo espanhol de Naphta tinha, na verdade, pouco em comum com sua mentalidade “humana”, propensa a vagar pelo mundo e a bater as portas. A isso acrescia um derradeiro fator de natureza sumamente delicada: uma ligeira malquerença, dificilmente definível, cuja aura Mme. Chauchat, com sua sensibilidade feminina, forçosamente sentia, cada vez que lidava com um dos dois adversários, seja Naphta, seja Settembrini (assim como também a notava o seu galã de carnaval), e cuja origem se encontrava nas relações que ambos mantinham com Hans Castorp. Tratava-se da antipatia do educador contra a mulher como elemento que perturba e distrai, e esse antagonismo tácito e primitivo unia-os, já que a sua discórdia pedagógica era neutralizada por ele.

Não havia traços dessa mesma aversão na conduta que os dois dialéticos adotavam ante Pieter Peeperkorn? Hans Castorp cria observá-la, talvez porque previra maliciosamente que tal aconteceria. Desejara bastante reunir o majestoso tartamudo com os seus dois “ministros”, como às vezes os chamava chistosamente no íntimo. Achara interessante ver o que resultaria desse encontro. Ao ar livre, Mynheer era menos grandioso do que num recinto fechado. O chapéu de feltro macio que ele costumava repuxar sobre os olhos, e que encobria as labaredas brancas dos cabelos e os imponentes arabescos da fronte, reduzia-lhe as feições, fazendo com que se encolhessem em certo sentido, e rebaixava a própria majestade do nariz vermelho. Além disso, Peeperkorn impressionava menos quando caminhava do que quando permanecia imóvel. Dava passos muito curtos, e a cada um deles inclinava obliquamente todo o seu corpo pesado e mesmo a cabeça, lançando a carga inteira sobre o pé que avançava no respectivo momento, o que fazia pensar antes num velho bonachão do que num rei. Em vez de empertigar-se ao andar, como costumava fazer quando se detinha, assumia postura um tanto encurvada. Mesmo assim, ultrapassava por mais de um palmo o Sr. Lodovico, sem falar do pequeno Naphta, e esse não era o único motivo por que a sua presença pesava muito, e da mesma forma como o pressentira Hans Castorp, sobre a existência dos dois políticos.

Do confronto resultava uma pressão, uma diminuição, um prejuízo, e tudo isso era perceptível não somente para um observador sagaz, mas também para as próprias personagens comparadas, os baixotes eloqüentes tanto como o magnífico tartamudo. Peeperkorn tratava Naphta e Settembrini com extraordinária cortesia e com extrema atenção; devotava-lhes um respeito que Hans Castorp qualificaria de irônico, não o impedisse a plena compreensão da incompatibilidade desse adjetivo com o conceito da grande envergadura. Os reis não conhecem a ironia, nem sequer como meio correto, clássico, de retórica, e ainda menos num sentido mais complexo. Aquilo que, escondido sob uma camada de seriedade um tanto exagerada, ou também de forma patente, caracterizava a atitude do holandês em face dos amigos de Hans Castorp era antes uma zombaria delicada e grandiosa ao mesmo tempo. – Pois é! Pois é! – dizia então, enquanto os ameaçava com o dedo e inclinava a cabeça com os lábios gretados abertos num sorriso jovial. – Isto é... Isto são... Senhoras e senhores, eu chamo a sua atenção... Cerebrum, cerebral! Compreendem? Não, não, ótimo! Esquisito! Isto é... Já se vê... – E eles vingavam-se trocando olhares que, depois de se terem encontrado, se elevavam ao céu, numa expressão de desespero. A seguir procuravam os olhos de Hans Castorp, mas este se esquivava.

Acontecia, então, o Sr. Settembrini pedir diretamente explicações do seu discípulo, manifestando assim a sua inquietação pedagógica.

– Mas, por amor de Deus, engenheiro! Esse homem é um velho estúpido! Que é que o senhor acha nele? De que forma lhe pode ser útil? Simplesmente não posso entender. Tudo seria claro, embora não digno de elogios, se o senhor se resignasse com a existência dele e procurasse na sua companhia apenas a da sua atual amante. Mas é impossível não perceber que o senhor quase dedica mais atenção a ele do que a ela. Ajude-me a compreender, peço-lhe!

– Perfeitamente – respondeu Hans Castorp, rindo. – Ótimo! Isto é... Permita-me... Muito bem. – E fez uma tentativa de arremedar os gestos esmerados de Peeperkorn. – Sim, senhor –

continuou, ainda rindo. – Isso lhe parece estúpido, Sr. Settembrini, e indiscutivelmente não é claro, coisa que, a seus olhos, deve ser pior do que estúpido. Ora, a estupidez... Há tantos tipos de estupidez, e a argúcia não é o melhor dentre eles... Upa! Tenho a impressão de que acabo de formular um bon mot. Que acha disso?

– Excelente. Aguardo ansiosamente a publicação do seu primeiro livro de aforismos.

Talvez ainda não seja tarde para rogar-lhe que, ao escrevê-lo, leve em consideração certas idéias que ventilamos certa vez, com referência ao perigo que o paradoxo encerra para o homem.

– Não deixarei de seguir o seu conselho, Sr. Settembrini. É o que farei, sem falta. Quando me ocorreu aquele mot, eu absolutamente não andava caçando paradoxos. Desejava apenas assinalar as enormes dificuldades que cria – sim, trata-se mesmo de criar – a definição de estupidez e de argúcia. É tão difícil distingui-las, porque uma se confunde com a outra... Sei perfeitamente que o senhor detesta o guazzabuglio místico e opina pelo valor, pelo juízo, pela apreciação dos valores. Quanto a isso, concordo inteiramente. Mas, quanto à “estupidez” e à

“argúcia”, isto constitui às vezes um completo mistério, e deve ser lícito a gente se ocupar de mistérios, contanto que haja o sincero esforço de desvendá-los, se possível. Quero perguntar-lhe uma coisa. Pergunto: pode o senhor negar que ele nos mete a todos no chinelo? Sirvo-me de uma locução meio vulgar; mas, como vejo, o senhor não pode negá-lo. Ele nos mete no chinelo, e por

esta ou aquela razão tem o direito de nos ridicularizar. De onde? Por quê? Em que sentido? Claro que esse direito não lhe veio em virtude da sua argúcia. Admito que no caso dele mal se pode falar de argúcia. Pelo contrário, o seu forte é o inarticulado e o sentimento. O sentimento é mesmo o seu cavalo de batalha; perdoe-me essa expressão da linguagem popular. Eu repito: não é devido à argúcia que nos mete no chinelo, quer dizer, não o faz pelas suas qualidades intelectuais.

O senhor protestaria, se eu afirmasse o contrário, e de fato isso não entra em questão. Não é tampouco por causa das suas qualidades físicas. Por causa das suas espáduas de capitão, por respeito à força brutal dos seus braços, e porque ele seria capaz de derrubar qualquer um de nós com um só murro. Mas nem pensa em fazer isso, e se alguma vez pensasse, bastariam algumas palavras civilizadas para acalmá-lo... Não é, portanto, por causa das suas qualidades físicas. E, todavia, não há dúvida de que fatores físicos desempenham um certo papel no seu caso; não no sentido da força dos braços, senão num outro, místico. Cada vez que o corpo desempenha um papel, entra-se no terreno do místico. O elemento corporal confunde-se então com o espiritual, e vice-versa, de maneira que é impossível distingui-los. Mas nota-se o efeito, o dinamismo, e já nos achamos metidos no chinelo. Para explicar esse fato, dispomos de uma única palavra: personalidade. Empregamo-la também num sentido mais racional, para dizer que se tem personalidade jurídica ou moral ou não sei que personalidades mais. No entanto, não é a isso que me refiro, mas a um mistério que ultrapassa os limites da estupidez e da argúcia. Acho que as pessoas devem ter o direito de se ocupar com esse mistério, ora para desvendá-lo, se possível, ora, se isso for impossível, para edificar-se com ele. E – uma vez que o senhor é a favor dos valores – a personalidade não deixa de ser, afinal de contas, um valor positivo, segundo me parece. Mais positivo do que a estupidez e a argúcia. Positivo no mais alto grau, absolutamente positivo, tal qual a vida. Numa palavra, um valor vital, feito para ocupar-nos intensamente com ele. Foi isso o que achei indicado ponderar, como resposta àquilo que o senhor disse acerca da estupidez.

Nos últimos tempos, Hans Castorp já não se atrapalhava nem perdia, o fio ao fazer explanações desse gênero. Deixara de estacar no meio do discurso. Chegava até o fim da sua réplica, baixava a voz, punha um ponto final e seguia o seu caminho como um homem, se bem que ainda se ruborizasse ao falar e tivesse, no fundo do coração, um pouco de medo do silêncio crítico que se seguiria quando emudecesse, a fim de lhe dar o tempo necessário para se envergonhar. Com efeito, Settembrini interpôs esse silêncio, antes de dizer:

– O senhor nega que anda à caça de paradoxos. Sabe muito bem, no entanto, que eu também não gosto de vê-lo caçando mistérios. Ao fazer da personalidade um enigma, corre perigo de entregar-se à idolatria. O senhor venera uma máscara. Está vendo mística onde se trata de mistificação, de um daqueles enganosos receptáculos vazios, por meio dos quais o demônio do elemento corporal-fisionômico gosta de iludir-nos. O senhor nunca freqüentou o ambiente de atores? Não conhece esses rostos de histriões, onde se combinam os traços de Júlio César, de Goethe e de Beethoven, e cujos portadores felizes se revelam como os mais lamentáveis cretinos, desde que abrem a boca?

– Ora, um jogo da natureza – disse Hans Castorp. – Mas não é apenas isso, não se limita a uma ilusão. Visto esses homens serem atores, devem ter talento, e o próprio talento vai além da estupidez e da argúcia; constitui, ele mesmo, um valor vital. Também Mynheer Peeperkorn tem talento, por mais que o senhor proteste, e com ele nos mete no chinelo. Coloque o Sr. Naphta num canto da sala e deixe-o fazer uma conferência sobre Gregório Magno e a Cidade de Deus, que seja muito digna de nota; mas no outro canto encontra-se Peeperkorn com sua boca estranha, alçando as rugas da testa e dizendo apenas: “Perfeitamente! Permita-me... Basta!” O

senhor vai ver que as pessoas se reunirão em torno de Peeperkorn, todas elas, e que Naphta ficará sozinho com sua argúcia e sua Cidade de Deus, ainda que se expresse com tanta clareza que nos penetre até a medula, para empregar uma locução de Behrens.

– Não tem vergonha de adorar o êxito? – indagou o Sr. Settembrini. – Mundus vult decipi.

Não faço questão que as pessoas se aglomerem ao redor do Sr. Naphta. Ele é um desgraçado

espírito de contradição. Mas sinto-me tentado a tomar o partido dele, à vista da cena imaginária que o senhor acaba de descrever com uma aprovação absolutamente censurável. Desdenhe, se quiser, a forma distinta, precisa, lógica, a palavra humana e coerente! Desdenhe-as e prefira qualquer embrulhada de alusões e de charlatanice sentimental, e logo se achará nas mãos do Diabo.

– Mas lhe asseguro que ele pode falar de modo bem coerente, quando se anima – disse Hans Castorp. – Certa vez me falou do dinamismo das drogas e de árvores venenosas da Ásia; contou fatos tão interessantes que quase me causou uma impressão sinistra. O interessante sempre é um pouco sinistro. E tudo aquilo era menos interessante em si, do que em relação com o efeito produzido pela sua personalidade, que tornava as palavras ao mesmo tempo sinistras e interessantes...