A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 11 de 13 · parte 2/3

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A Montanha Mágica

– Naturalmente. Já é conhecido o seu…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– Não se trata de nós – disse ela, voltando a cruzar os braços. – Não seria ser mulher, se, pelo amor de um homem, não se quisesse aceitar também aviltamentos, pelo amor de um homem de grande envergadura, como dizes, e para o qual se é um objeto de sentimentos e do temor pelos sentimentos...

– Perfeitamente, Clávdia. Formulaste isto muito bem. Também o aviltamento tem grande envergadura nesse caso, e a mulher, das alturas do seu aviltamento, pode dirigir-se para os que não têm a envergadura de um rei, e falar-lhes com tanto desdém como tu acabas de fazer, quando te referiste aos timbres-poste, e naquele tom em que me disseste: “Vocês, pelo menos, deveriam ser pessoas eficientes a quem se pudesse sempre recorrer!”

-– És melindroso? Deixa disso! Mandemos às favas todos os melindres! Não estás de acordo? Também eu me melindrei às vezes; quero reconhecê-lo hoje, que nos achamos assim um perto do outro. Irritei-me por causa da tua fleuma e porque te entendias tão bem com ele, só para satisfazeres a tua experiência egoística. E contudo via com prazer e com gratidão que o tratavas com reverência... Havia na tua conduta muita lealdade, e ainda que nela se mesclasse um pouquinho de impertinência, não podia deixar de apreciar essa tua atitude.

– Foi muita bondade da tua parte.

Ela fitou-o.

– Tenho a impressão de que és incorrigível. Vou te dizer uma coisa: és um rapaz malicioso. Não sei se tens espírito, mas indiscutivelmente és cheio de malícia. Aliás, não faz mal nenhum; isso se pode suportar. Pode-se até manter amizade com uma pessoa assim. Queres que mantenhamos amizade? Que façamos uma aliança a favor dele, assim como normalmente se faz contra alguém? Queres dar-me a tua mão para selar isso? Muitas vezes me sinto angustiada...

Acontece que eu sinto medo de estar a sós com ele, medo da solidão interior, tu sais... É

angustiante mesmo... Às vezes receio que ele acabe mal... Às vezes fico horrorizada... Eu gostaria de ter a meu lado um homem bom... Enfin, se te interessa saber, talvez seja por causa disso que voltei para cá com ele...

Seus joelhos se tocavam, enquanto estavam sentados assim, ele na cadeira inclinada para a frente, e ela no banquinho. Ao proferir essas últimas palavras bem perto do rosto dele, ela lhe apertara a mão.

– Por mim? – exclamou ele. – Mas isso é maravilhoso! É realmente extraordinário! Ó

Clávdia, então voltaste para cá, com ele, porque eu estava aqui? E queres ainda pretender que a minha espera foi estúpida, ilícita e totalmente vã? Seria muito mesquinho da minha parte, se eu não soubesse apreciar o oferecimento da tua amizade, da amizade contigo e por ele...

Foi então que ela o beijou na boca. Era um daqueles beijos russos, do tipo dos que se trocam nesse vasto país cheio de alma, nas mais importantes festas cristãs, como uma

consagração do amor. No nosso caso, porém, esse beijo foi trocado entre um jovem notoriamente “malicioso” e uma mulher também jovem, de andar sedutoramente felino; e enquanto descrevemos essa cena, não podemos deixar de pensar, sem querer, e de um modo vago, na maneira engenhosa, embora um tanto suspeita, pela qual o Dr. Krokowski costumava falar do amor num sentido ligeiramente ambíguo, de modo que ninguém sabia com certeza se se referia a um assunto piedoso ou a algo físico, passional. E nós não fazemos o mesmo, ou talvez o fizessem Hans Castorp e Clávdia Chauchat, quando trocavam esse beijo russo? Ora, que diria o leitor, se nos recusássemos redondamente a resolver esse problema? A nosso ver, seria um procedimento analítico, mas – para repetir a expressão de Hans Castorp – “muito mesquinho” e francamente hostil à vida, fazer, em matéria de amor, uma distinção “limpa” entre elementos piedosos e elementos passionais. Que significaria “limpo” nesse caso? E o que “sentido ambíguo” e “caráter equívoco”? Ridicularizamos abertamente esses conceitos. Não será bom e grande o fato de a língua não possuir senão uma única palavra para tudo quanto aquilo pode abranger, desde o sentimento mais piedoso até o desejo mais carnal? O equívoco torna-se, pois, plenamente unívoco, uma vez que o amor não pode ser separado do corpo, nem sequer no auge da piedade, como não é ímpio nem nos momentos de carnalidade extrema. O amor continua sempre sendo ele mesmo, tanto sob a forma de conduta amistosa em face da vida, como sob a forma da mais sublime paixão; é a simpatia pela espera orgânica, o abraço comoventemente voluptuoso daquilo cujo destino é apodrecer. Decerto há caritas até na paixão mais furiosa e na paixão mais reverente. Sentido ambíguo? Pois que seja ambíguo o sentido do amor! Nessa indistinção se manifestam a vida e a humanidade. Revelaríamos uma desoladora falta de “malícia”

se nos inquietássemos diante dessa ambigüidade.

Enquanto os lábios de Hans Castorp e de Mme. Chauchat se encontram juntos no beijo russo, apagamos as luzes do nosso pequeno teatro, para mudança de cena. Pois agora trataremos do segundo dos dois diálogos que prometemos relatar. Restabelecida a iluminação, a iluminação crepuscular de uma tardezinha de primavera, na época do degelo, deparamos com o nosso herói numa situação que já nos é familiar, à beira da cama do grande Peeperkorn, palestrando com ele submissa e amigavelmente. Ao chá das quatro horas, servido no refeitório, Mme. Chauchat comparecera sozinha, como já se dera nas três refeições anteriores, e logo depois se encaminhara a Davos-Platz para efetuar algumas compras. Diante disso Hans Castorp fizera anunciar ao holandês uma das suas costumeiras visitas, em parte para mostrar-se atencioso e para distrai-lo um pouco, em parte para edificar-se com a irradiação dessa personalidade; numa palavra: por motivos tão ambíguos como a vida. Peeperkorn pôs o Telegraaf de lado, pegou pelo arco o pincenê de aros de chifre e atirou-o em cima do jornal. A seguir estendeu ao visitante a mão de capitão, enquanto os lábios largos e gretados se moviam vagamente, com uma expressão dolorosa. Como sempre, tinha a seu alcance vinho tinto e café. O serviço de café achava-se numa cadeira junto à cama, e o fundo pardo da xícara deixava perceber que fora usada havia pouco.

Mynheer acabava de tomar o trago de todas as tardes, forte e quente, com açúcar e creme que o fazia transpirar. O rosto de rei, emoldurado de labaredas brancas, estava corado, com pequenas bagas de suor assomando na testa e no lábio superior.

– Estou suado – disse. – Seja bem-vindo, jovem. Pelo contrário! Sente-se! É um sinal de fraqueza, quando a gente, logo depois de ter ingerido uma bebida quente, começa a... Tenha a bondade de... Sim, senhor. O lenço. Muito obrigado. – A cor vermelha do rosto ia desaparecendo rapidamente, dando lugar àquele palor amarelado que depois de um ataque de febre maligna costumava cobrir o rosto desse homem soberbo. A quarta fora muito violenta durante a manhã, com as suas três fases, a fria, a abrasadora e a úmida. Os olhinhos apagados de Peeperkorn pareciam cansados, sob o enrugamento da fronte, que lhe dava o aspecto de um ídolo.

– Meu caro jovem – continuou ele –, é sumamente... Eu queria expressar a minha...

Absolutamente. É muito gentil da sua parte dar a um velhote enfermo o prazer da sua...

– Da minha visita? – perguntou Hans Castorp. – De maneira alguma, Mynheer Peeperkorn. Quem deve agradecer sou eu, por ter uma oportunidade de me sentar aqui. Pois eu

tiro muito mais proveito dessa visita do que o senhor. Venho por razões puramente egoísticas.

Mas como pode o senhor qualificar-se de “velhote enfermo”? Ninguém seria capaz de adivinhar que isso se refere à sua pessoa. Está traçando de si uma imagem completamente falsa.

– Está bem – respondeu Peeperkorn, e fechou os olhos por alguns instantes, recostando no travesseiro a majestosa cabeça com o queixo erguido. Os dedos com as unhas compridas jaziam entrelaçados sobre o amplo peito de rei, que se delineava sob a camisola de malha. – Está bem, jovem. Ou melhor: suas intenções são boas; disso não duvido. Estava agradável ontem de tarde – pois sim, foi recém-ontem – naquele lugar hospitaleiro... me esqueci do nome ... lá onde comemos o delicioso salame com ovos mexidos e com esse vinho saudável da terra...

– Foi uma maravilha! – confirmou Hans Castorp. – Nós todos saboreamos esse prato de um modo vergonhoso. O mestre de cozinha do Berghof ficaria ofendido e com razão, se nos tivesse visto. Todos, sem exceção, entramos de rijo a comer! Era um salame de lei. O Sr.

Settembrini estava até comovido e comia-o por assim dizer, com os olhos cheios de lágrimas. É

um patriota, como o senhor deve saber, um patriota democrático. Consagrou a sua lança de cidadão sobre o altar da humanidade, para que de futuro os direitos alfandegários do salame sejam pagos na fronteira do Brenner.

– Isto não tem importância – declarou Peeperkorn. – É um homem distinto, que sabe conversar de forma alegre; um perfeito cavalheiro, ainda que não lhe seja dado mudar de roupa com muita freqüência. – Não lhe é dado de modo algum – disse Hans Castorp. – De modo algum! Já o conheço faz muito tempo e me dou bem com ele; quero dizer que ele se interessa por mim de uma maneira pela qual lhe devo a minha maior gratidão, só porque achava que eu era um “filho enfermiço da vida”; é uma dessas locuções que empregamos entre nós, e que terceiros não podem compreender sem explicação. Settembrini dá-se o trabalho de exercer sobre mim uma influência corretiva. Mas nunca, nem no verão nem no inverno, o vi em outros trajes que não aquelas calças de tecido xadrez e o jaquetão puído. Ele usa, aliás, essas roupas velhas com uma correção notável, de modo muitíssimo distinto. Nesse ponto concordo inteiramente com o senhor. A maneira como se veste é um triunfo sobre a pobreza, e quanto a mim, prefiro essa pobreza à própria elegância do pequeno Naphta, em face da qual nunca me sinto muito à vontade, porque ela é o Diabo, em certo sentido, e os recursos necessários para ela lhe vêm de uma fonte escusa; estou mais ou menos bem informado a respeito da sua situação.

– É um homem distinto e alegre – repetiu Peeperkorn, passando por cima da observação que Hans Castorp fizera com referência a Naphta – ainda que – permita-me esta restrição – ainda que não esteja livre de preconceitos. Madame, a minha companheira de viagem, não o aprecia muito, como o senhor talvez tenha notado. Fala dele sem simpatia, indubitavelmente porque esses preconceitos se manifestam na atitude que ele toma para com ela. Nenhuma palavra, jovem!

Quanto ao Sr. Settembrini e aos sentimentos amistosos que o senhor tem por ele, estou longe de... Basta! Nem penso em afirmar que, em relação àquela cortesia que um cavalheiro deve a uma dama, ele possa jamais... Perfeito, meu caro amigo, irrepreensível! Mas existem ali um limite, uma reserva, uma certa es-qui-van-ça que tornam a animosidade de madame contra ele, humanamente falando, muito...

– Compreensível. Que a tornam natural. Que a justificam plenamente. Desculpe, Mynheer Peeperkorn, que eu tenha tomado a liberdade de terminar a sua frase. Pude arriscar-me a isso na certeza de estar inteiramente de acordo com o senhor. Sobretudo quem considera o quanto as mulheres – o senhor talvez se ria porque eu, com a minha pouca idade, falo das mulheres de modo generalizado –, quem considera o quanto as mulheres, na sua conduta, perante o homem, dependem do modo como o homem se conduz para com elas, não se pode admirar.

As mulheres – é assim que eu gostaria de formular a idéia – são criaturas reativas, sem iniciativa própria, criaturas indolentes, no sentido de passivas... Permita-me, por favor, que eu desenvolva, embora sem habilidade, esse meu ponto de vista. A mulher, pelo que pude observar, considera-se, nos assuntos amorosos, em primeira linha como simples objeto; espera que os acontecimentos

cheguem até ela; não escolhe livremente; só chega a escolher à base da escolha prévia do homem e mesmo então – deixe que eu acrescente ainda isto – a liberdade da sua escolha é restrita e influenciada pelo fato de ela ter sido escolhida, a não ser que se trate de um espécime excessivamente mísero de homem; e nem essa condição vigora em todos os casos... Deus meu, acho que as coisas que digo são banalidades, mas quando somos jovens tudo nos parece novo, novo e surpreendente. Pergunte a uma mulher: “Você o ama?” e ela lhe responderá, com os olhos erguidos ou mesmo baixos: “Ele me ama tanto!” Agora imagine uma resposta dessas na boca de um de nós. (Perdoe-me por me ter posto no mesmo plano com o senhor!) Talvez haja homens que devem responder dessa forma, mas se tornariam perfeitamente ridículos, seriam vassalos do amor feminino, para me expressar de uma forma epigramática. Eu desejaria saber que importância se atribui uma mulher que dá aquela resposta. Será que julga dever uma dedicação sem limites ao homem que concede a uma criatura tão humilde o favor da sua escolha amorosa, ou vê ela no amor que o homem tem à sua pessoa um sinal infalível da perfeição dele? Ventilei esse problema muitas vezes nas minhas horas solitárias.

– São os primórdios das coisas, são fatos clássicos, meu caro jovem! Suas palavras singelas e fluentes tocam em fundamentos sagrados – replicou Peeperkorn. – O homem é embriagado pelo seu próprio desejo; a mulher exige e espera ser embriagada pelo desejo dele. Disso nos provém a obrigação de sentir. Daí resulta a pavorosa ignomínia da insensibilidade, da impotência de tornar a mulher capaz de desejar. O senhor toma uma taça de vinho tinto em minha companhia? Eu tomarei. Estou com sede. Perdi muita água hoje.

– Muito obrigado, Mynheer Peeperkorn. Embora eu não tenha o hábito de beber a esta hora, estou sempre disposto a tomar um trago à sua saúde.

– Então sirva-se da taça. Temos uma só. Eu me arranjarei com o copo de lavar dentes.

Acho que este zurrapa não se ofenderá, quando for bebido de um recipiente simples... – Com a mão de capitão levemente trêmula, encheu os copos, ajudado pelo visitante, e avidamente esvaziou o seu. O vinho tinto descia-lhe pela garganta escultural como se fosse água pura.

– Isso refresca – disse ele. – O senhor não bebe mais nada? Então permita que eu tome mais um... – Derramou um pouco de vinho ao encher o copo. O lençol de cima estava salpicado de manchas vermelho-escuras. – Eu repito – prosseguiu com o dedo indicador em riste, enquanto na outra mão tremia o copo cheio –, repito: daí resulta a nossa obrigação, o nosso dever religioso de sentir. Nosso sentimento – compreende? – é a força viril que desperta a vida. A vida está dormindo. Quer ser acordada para celebrar bodas orgiásticas com o sentimento divino.

Pois o sentimento, jovem, é divino. O homem é divino, desde que sente. É o sentimento de Deus. Deus o criou para sentir por intermédio dele. O homem é apenas o órgão por meio do qual Deus realiza o seu enlace com a vida despertada e ébria. O homem que fracassasse quanto ao sentimento aviltaria a Deus, seria a causa da derrota da força viril de Deus, a causa de uma catástrofe cósmica, de um horror inimaginável... – Tornou a beber.

– Deixe que eu segure o copo, Mynheer Peeperkorn – disse Hans Castorp. – Acho muito instrutivo seguir o curso dos seus pensamentos. O senhor acaba de desenvolver uma teoria teológica na qual atribui ao homem uma função religiosa muito digna, se bem que, talvez, um pouco unilateral. Nas suas idéias, se me posso permitir esta observação, há um certo rigorismo que é – perdoe-me – que é angustiante. Todo rigor religioso é por natureza angustiante para pessoas de uma envergadura mais modesta. Nem penso em me atrever a corrigir o senhor, mas queria apenas desviá-lo desses problemas e voltar ao que o senhor disse acerca de certos

“preconceitos” que, segundo a sua opinião, o Sr. Settembrini tem com referência a madame, sua companheira de viagem. Não é de ontem que conheço o Sr. Settembrini; conheço-o faz muito tempo, há anos e anos. E posso lhe assegurar que os seus preconceitos – se é que existem – não são em absoluto os preconceitos mesquinhos de um pequeno burguês. No caso dele só se pode tratar de preconceitos de um estilo mais elevado e por conseguinte de caráter impessoal, de princípios pedagógicos gerais, que o Sr. Settembrini defende, visando, para falar com franqueza, a

mim, na minha qualidade de “filho enfermiço da vida”... Mas isso nos leva muito longe. É um assunto excessivamente vasto para que poucas palavras o possam...

– E o senhor ama madame? – perguntou Mynheer de repente, voltando para o visitante o rosto de soberano, com a boca dolorosa e gretada e com os olhinhos apagados sob os arabescos drapejados da fronte... Hans Castorp sobressaltou-se. Balbuciando, respondeu:

– Se eu... Quer dizer... Sinto naturalmente grande respeito por Mme. Chauchat, já pelo fato de ela ser...

– Por favor! – disse Peeperkorn, refreando-o com um esmerado gesto da mão estendida e obtendo, desta forma, o necessário “espaço” para as palavras que tencionava pronunciar. –

Permita-me – continuou –, deixe-me repetir que estou longe de culpar esse senhor italiano por uma infração real das leis do cavalheirismo... Não acuso ninguém de tal infração, ninguém! Mas notei... Neste momento, por exemplo, tenho o prazer de... Bem, meu caro jovem! Está tudo muito bem. Tenho nisso grande prazer; não se discute; de fato me é sumamente agradável.

Mesmo assim digo de mim para mim... Numa palavra, digo de mim para mim: o senhor conhece madame há mais tempo do que eu. Já esteve aqui com ela na outra temporada. Além disso, madame é uma mulher cheia de encantos, e eu sou apenas um velhote enfermo. Como se explica então...

Por eu estar indisposto, ela desceu hoje de tarde à vila para fazer compras, sozinha e sem ninguém que a acompanhasse... Não há mal nenhum nisso. Absolutamente! Mas não há dúvida de que seria... Será que devo atribuir à influência dos – como se expressou o senhor? – dos princípios pedagógicos do Signor Settembrini o fato de o senhor não ter seguido o impulso cavalheiresco... Peço que me entenda literalmente...

– Literalmente, Mynheer Peeperkorn. Não, senhor. Nem um pouquinho. Agi espontaneamente. Pelo contrário, em certa ocasião o Sr. Settembrini até me... Mynheer Peeperkorn, lastimo ver no seu lençol umas manchas de vinho. Não acha que se deveria... Lá em casa costumavam pôr sal, enquanto a mancha estava fresca...

– Isso não tem importância – volveu Peeperkorn, sem perder de vista o visitante.

Hans Castorp corou.

– As coisas – prosseguiu com um sorriso amarelo – apresentam-se aqui sob um aspecto diferente do normal. O espírito que reina neste lugar, se me posso expressar assim, não é o espírito convencional. O doente tem a primazia, quer seja homem quer seja mulher. O senhor está passageiramente indisposto, Mynheer Peeperkorn. Trata-se de uma indisposição aguda, de uma coisa atual. A sua companheira de viagem está melhor, em comparação. Creio agir de acordo com as intenções de madame, quando na ausência dela o substituo um pouquinho aqui – se é que num caso desses pode haver substituição, ah, ah – em vez de representar o senhor junto dela e de lhe oferecer a minha companhia no caminho para a vila. Com que direito imporia eu os meus serviços de cavalheiro à sua companheira de viagem? Para isso me faltam títulos e autorização.

Posso afirmar que tenho um senso sadio dos direitos positivos. Numa palavra, acho que a minha situação é correta; ela corresponde ao estado geral das coisas, e sobretudo corresponde aos sentimentos sinceros que tenho pela sua pessoa, Mynheer Peeperkorn. Com isso creio que a sua pergunta – o senhor acaba de fazer uma pergunta, não? – recebeu uma resposta satisfatória.

– Uma resposta muito agradável – replicou Peeperkorn. – Ouço com sincero prazer as suas frases leves e ágeis, meu caro jovem. Elas saltam por cima de todos os obstáculos, e removem de um modo simpático as arestas das coisas. Mas satisfatória? Não, a sua resposta não me satisfaz. Desculpe-me se com isso lhe causo uma decepção. “Rigoroso”, meu caro amigo! Há poucos instantes o senhor empregou esse termo com referência a certas concepções que eu acabava de expor. Mas também nas suas palavras há um certo rigorismo, uma austeridade, uma atitude forçada, que não me parecem em harmonia com a sua natureza, se bem que, em certo sentido, já os tenha encontrado na sua conduta. Durante os nossos passeios e outros empreendimentos que realizamos em comum, o senhor costuma tomar essa mesma atitude em face de madame, e de mais ninguém. Isto o senhor me deve explicar. É um dever, jovem, uma obrigação! Não me engano. Vi a minha observação confirmada em muitas ocasiões. É

improvável que outras pessoas não a tenham feito também, com a única diferença de que elas talvez, ou mesmo provavelmente, saibam a razão desse fenômeno.

Essa tarde, Mynheer proferia períodos extraordinariamente precisos e acabados, apesar do cansaço causado pela febre maligna. Quase não havia incoerências. Meio sentado na cama, voltava para o visitante os imponentes ombros e a grandiosa cabeça; estendia um dos braços por cima da colcha, e a mão sardenta de capitão, saindo verticalmente do punho da manga de lã, exibia aquele característico anel da exatidão, flanqueado pelos dedos lanciformes, enquanto a boca formava frases tão claras, tão incisivas e mesmo tão plásticas, que o próprio Sr. Settembrini deveria ter ficado contente. Os “erres” de palavras como “provavelmente” ou “razão” eram guturais e carregados.

– O senhor está sorrindo – continuou. – Pisca os olhos e vira a cabeça de cá para lá.

Parece entregar-se a reflexões sem resultado positivo. E todavia não há nenhuma dúvida de que sabe a que me refiro e de que se trata. Não quero dizer que nunca dirija a palavra a madame ou lhe fique devendo a resposta, quando a ocasião requer o contrário. Mas repito que o faz de modo forçado, ou para ser mais exato: esquiva-se, evita alguma coisa, e quando se observa mais de perto, vê-se que esta coisa é um determinado tratamento. Quanto ao seu procedimento, tem-se a impressão de que o senhor fez uma aposta, de que partilhou uma filipina com madame, e não pode, segundo as condições estipuladas, dirigir-lhe diretamente a palavra. Como conseqüência lógica disso, evita qualquer forma de tratamento. Nunca lhe diz “a senhora”.

– Mas, Mynheer Peeperkorn... Que filipina seria essa?

– Posso chamar a sua atenção para o fato que o senhor certamente notou também: acaba de empalidecer até os lábios.

Hans Castorp não ergueu o olhar. Inclinado para a frente, ocupava-se intensamente com as manchas vermelhas no lençol. “Isso tinha que acontecer!”, pensou. “Tudo tendia nessa direção. Acho que eu mesmo fiz o que estava a meu alcance para que chegássemos a este ponto.

Em certo sentido, tinha isso em mira, como percebo agora. Será que realmente empalideci? É

possível, porque está iminente o momento decisivo. Não se sabe o que acontecerá. Posso ainda mentir? Poderia, mas não quero. Por enquanto continuarei olhando essas manchas de sangue, essas manchas de vinho tinto no lençol...”

De cima dele também não vinha palavra alguma. O silêncio prolongou-se por dois ou três minutos, tornando perceptível a enorme extensão que essas unidades minúsculas podem adquirir em tais circunstâncias.

Quem reencetou a conversa foi Pieter Peeperkorn.

– Naquela noite em que tive o prazer de travar conhecimento com o senhor – começou em tom cantante, baixando a voz como se terminasse a primeira frase de uma longa história. –

Acabávamos de celebrar uma pequena festa. Havíamos saboreado comidas e bebidas. A altas horas da noite, numa disposição animada, com o espírito livre e empreendedor, dirigíamo-nos, de braços dados, para os nossos quartos. Sucedeu então o seguinte: diante desta minha porta, no momento da despedida, ocorreu-me a idéia de convidar o senhor a tocar com os lábios a fronte da mulher que o tinha apresentado a mim como um bom amigo de uma temporada anterior, e de deixar ao critério dela se queria retribuir, na minha presença, esse ato solene e alegre, como consagração da hora sublime. O senhor rejeitou redondamente a minha sugestão; rejeitou-a alegando que lhe parecia absurdo trocar beijos na fronte com a minha companheira de viagem. O

senhor não vai negar que aquilo era uma explicação que por sua vez necessitava de um comentário, e esse comentário o senhor me ficou devendo até agora. Está o senhor disposto a pagar essa dívida?

“Ora, ora, ele percebeu até isso”, pensou Hans Castorp e pôs-se a estudar ainda mais intensamente as manchas de vinho, chegando até a arranhar uma com a ponta curva do dedo médio. “Pode ser que naquele instante eu desejasse, no fundo do coração, que ele percebesse e tomasse nota do fato. Caso contrário, eu não teria dito essas coisas. Mas que haverá agora? Meu coração bate violentamente. Terei de enfrentar uma enorme explosão de fúria real? Quem sabe se

eu não faria bem em vigiar o seu punho, que talvez já esteja erguido por cima da minha cabeça?

Uma situação esquisitíssima e sumamente crítica, essa em que me encontro.”

De chofre sentiu a mão de Peeperkorn agarrar-lhe o pulso direito.

“Agora me pega pelo pulso!”, pensou. “Que bobagem, ora essa! Por que me comporto aqui como um cão surrado? Cometi alguma falta contra ele? Nenhuma. O primeiro que teria direito de se queixar seria aquele homem em Daghestan. E depois mais este ou aquele. E

finalmente eu mesmo. Ao que saiba, ele não tem motivo nenhum para queixar-se. Pois então, por que meu coração bate tanto? Já é tempo que me aprume e olhe franca, mas também reverentemente, para o seu rosto majestoso.”

Foi o que fez. O rosto majestoso estava amarelo. Os olhos pareciam apagados sob o enrugamento içado da testa. Os lábios gretados mostravam uma expressão amarga. Um lia nos olhos do outro, o grande ancião e o jovem insignificante, enquanto um prosseguia segurando o pulso do outro. Finalmente Peeperkorn disse em voz baixa:

– O senhor foi amante de Clávdia durante a outra temporada.

Hans Castorp mais uma vez inclinou a cabeça, mas logo voltou a levantá-la, respondendo, depois de respirar profundamente:

– Mynheer Peeperkorn! Repugna-me no mais alto grau mentir-lhe. Esforço-me por encontrar uma possibilidade de evitar esse recurso. Não é fácil. Eu exageraria se confirmasse o que o senhor acaba de dizer, e mentiria se o negasse. Isso se explica assim: durante muito tempo, durante muitíssimo tempo mesmo vivi nesta casa com Clávdia – perdão! – com a sua atual companheira de viagem, sem conhecê-la no sentido convencional. A convenção não tinha lugar nas nossas relações, ou melhor: nas minhas relações com ela, sobre as quais quero acrescentar que sua origem está envolta em obscuridade. Nos meus pensamentos, nunca tratei Clávdia de outra forma a não ser de “tu”, e tampouco o fiz em realidade. Pois aquela noite em que me desembaracei de certas peias pedagógicas que mencionei de passagem, e me aproximei dela, sob um pretexto que um fato longínquo me sugeria, era uma noite de mascarada, noite de carnaval, noite sem responsabilidade, noite do “tu”, em cujo decorrer esse “tu” adquiriu, inconscientemente e como num sonho, a plenitude do seu significado. Ao mesmo tempo, porém, era a véspera da partida de Clávdia.

– A plenitude do seu significado – repetiu Peeperkorn. – O senhor disse isso de forma muito gentil... – Soltou o pulso de Hans Castorp, e com as palmas das mãos de capitão, de unhas compridas, começou a esfregar ambos os lados do rosto, as órbitas, as bochechas e o queixo. A seguir juntou as mãos sobre o lençol enlaivado de vinho e voltou a cabeça para a esquerda, a direção onde se achava o visitante, parecendo, contudo, desviar o rosto.

– Respondi-lhe com a maior clareza possível, Mynheer Peeperkorn – disse Hans Castorp –, e procurei escrupulosamente não dizer nem de menos nem de mais. O que mais me importava era fazer-lhe notar que, sob certo aspecto, se tem plena liberdade de levar ou não levar em conta aquela noite, a noite do “tu” consumado e da despedida; fazer notar que essa noite se achava completamente fora do normal e quase que fora do calendário, um hors d’oeuvre, por assim dizer, uma noite extra, noite bissexta, 29 de fevereiro, e que, por conseguinte, seria apenas meia mentira se eu negasse o que o senhor acaba de afirmar.

Peeperkorn não deu resposta.

– Preferi – recomeçou Hans Castorp depois de uma pequena pausa – falar a verdade, não obstante o perigo de perder assim as suas simpatias, o que, digo francamente, seria para mim uma perda sensível; posso assegurar que seria um golpe, um verdadeiro golpe, que bem se poderia comparar com aquele que significou para mim o fato de Mme. Chauchat não voltar sozinha, mas como sua companheira de viagem. Arrisquei correr esse perigo, porque desde muito desejava que houvesse clareza entre nós, entre o senhor, por quem sinto tão extraordinário respeito, e a minha pessoa; isso me parecia mais bonito e mais humano... O senhor conhece o modo como Clávdia pronuncia essa palavra, com aquela sua voz encantadoramente velada, arrastando-a com tanta

graça... Bem, isso me parecia mais humano do que a discrição ou o fingimento. Sob esse aspecto experimentei grande alívio quando o senhor há pouco fez aquela afirmação.

Nenhuma resposta.

– Não é só isso, Mynheer Peeperkorn – prosseguiu Hans Castorp. – Há mais uma coisa que me inspirou o desejo de lhe falar com toda a franqueza. Trata-se da experiência pessoal que me ensinou quão irritantes são, numa situação dessas, a incerteza e a necessidade de se guiar por conjecturas. Agora o senhor é que sabe com quem Clávdia – antes de se estabelecer a atual situação de direito, que seria a mais rematada loucura desrespeitar – teve, ou passou, ou cometeu... sim, cometeu um... um dia 29 de fevereiro. Eu por mim nunca cheguei a adquirir essa clareza, apesar de me dar conta de que todos os que tenham ensejo de refletir sobre essas coisas devem incluir nos seus cálculos esse tipo de precedentes, o que no fundo quer dizer predecessores, e apesar de saber, além disso, que o Conselheiro Behrens, o qual, como o senhor talvez não ignora, é pintor diletante, fez dela, no curso de muitas sessões, um excelente retrato a óleo, com uma representação tão realística da pele que existem, cá entre nós, motivos de sobra para suspeitas. Aquilo me causou muitos tormentos e muita dor de cabeça, e ainda hoje causa.

– O senhor ainda a ama? – perguntou Peeperkorn, sem mudar de posição, isto é, com o rosto desviado... O quarto espaçoso ia desaparecendo mais e mais na penumbra.

– Perdão, Mynheer Peeperkorn – replicou Hans Castorp –, mas os sentimentos que nutro pelo senhor, sentimentos da mais alta estima e admiração, não me permitiriam falar-lhe dos sentimentos que nutro pela sua companheira de viagem.

– E ainda hoje – perguntou Peeperkorn em voz abafada – ela continua a corresponder a esses sentimentos?

– Não digo – tornou Hans Castorp –, não digo que em algum momento tenha correspondido a eles. Isso me parece pouco provável. Acabamos de frisar esse assunto teoricamente quando tratamos da natureza reativa das mulheres. Claro que na minha pessoa não há muita coisa que se possa amar. Que envergadura tenho eu? Julgue o senhor mesmo! A possibilidade de um... de um dia 29 de fevereiro só pode ser atribuída ao fato de a mulher se deixar influenciar pela escolha prévia do homem. Quero acrescentar que tenho a impressão de cometer um ato de vaidade e de mau gosto, quando falo de mim como de um “homem”, mas Clávdia é indiscutivelmente mulher.

– Ela obedeceu aos seus sentimentos – murmuraram os lábios gretados de Peeperkorn.

– Como o fez no caso do senhor, com muito mais obediência ainda – retrucou Hans Castorp – e como, segundo todas as probabilidades, já o deve ter feito umas quantas vezes...

Disso se devem dar conta os que têm ensejo de...

– Um momento! – disse Peeperkorn, continuando com os olhos desviados, mas detendo o seu interlocutor com um gesto da palma da mão. – O senhor não acha infame falarmos assim sobre ela?

– Não acho, Mynheer Peeperkorn. Não, senhor, nesse ponto me parece que o posso tranqüilizar completamente. Estamos falando de coisas humanas – humanas no sentido da genialidade e da liberdade. Desculpe essa expressão que talvez seja um pouco pomposa; mas uma emergência, há poucos dias, me fez lançar mão dela.

– Está bem. Continue! – ordenou Peeperkorn, baixinho.

Também Hans Castorp abafava a voz. Sentado na borda da cadeira, junto à cama, com as mãos apertadas entre os joelhos, inclinava-se para o ancião majestoso.

– Pois ela é uma criatura genial – disse – e aquele homem que vive lá além do Cáucaso –

o senhor deve saber que ela tem um marido por lá – permite-lhe a liberdade, a genialidade, seja por embotamento, seja por inteligência. Não sei dizê-lo, porque não conheço aquele sujeito. Em todo caso anda acertado fazendo-lhe essa concessão, já que é a doença que a torna livre, o princípio genial da doença, ao qual ela está sujeita. E quem tiver ensejo de fazê-lo estará certo em imitar o exemplo dele, sem se queixar nem do passado nem do futuro...

– O senhor não se queixa? – perguntou Peeperkorn, voltando o rosto para o jovem...

Parecia pálido na penumbra, com o olhar fixo, apagado e lasso, sob as rugas da fronte que lhe davam a aparência de um ídolo. A boca ampla, gretada, estava semi-aberta, como numa máscara trágica.

– Eu não pensava – respondeu Hans Castorp com modéstia – que se tratasse de mim.

Minhas palavras tinham por objetivo evitar que o senhor se queixasse, Mynheer Peeperkorn, e que me privasse da sua benevolência, por causa de ocorrências passadas. É isso o que me preocupa nesta hora.

– Mesmo assim – disse Peeperkorn – deve ter sido uma dor profunda aquela que lhe causei sem saber.

– Se isto é uma pergunta – volveu Hans Castorp – e se dou uma resposta afirmativa, isso não significa de forma alguma que eu não saiba apreciar o enorme privilégio de conhecê-lo, uma vez que esse privilégio não pode ser separado da decepção a que se refere.

– Obrigado, jovem, obrigado. Gosto da gentileza das suas palavras ágeis. Mas, abstração feita das nossas relações...

– É difícil fazer abstração delas – disse Hans Castorp – e também não preciso fazê-la, para responder à sua pergunta com um simples “sim”. Pois o fato de ter Clávdia voltado em companhia de uma personalidade da envergadura do senhor só podia aumentar e complicar o desgosto que constituía para mim a própria circunstância de ela ter voltado em companhia de um homem. Esse fato me deu muito que fazer e continua dando até hoje; não o nego. De propósito me empenhei o mais que pude em ver o lado positivo da coisa, quer dizer: os sentimentos de sincera reverência que tenho pelo senhor, Mynheer Peeperkorn. Isso incluía, aliás, uma pequena malícia contra a sua companheira de viagem; pois as mulheres absolutamente não gostam de que os seus amantes se entendam.

– De fato... – disse Peeperkorn, e escondeu um sorriso, passando a mão em concha por sobre a boca e o queixo, como se houvesse o perigo de Mme. Chauchat vê-lo sorrir. Também Hans Castorp esboçou um sorriso discreto, e a seguir ambos sacudiram a cabeça num entendimento tácito.

– Afinal de contas – prosseguiu Hans Castorp –, eu tinha direito a essa pequena vingança; pois, quanto a mim, não me faltam motivos para me queixar, não de Clávdia, nem tampouco do senhor, Mynheer Peeperkorn, mas num sentido geral, por causa da minha vida e do meu destino.

Uma vez que tenho a honra de gozar da, sua confiança, e que essa hora crepuscular é tão agradável, quero pelo menos esboçar esses motivos.

– Pois não – disse Peeperkorn cortesmente, e Hans Castorp continuou:

– Estou aqui em cima faz muito tempo, Mynheer Peeperkorn, há vários anos já, nem sei dizer quantos. Mas são anos da minha vida, e por isso mencionei a “vida”, assim como também voltarei oportunamente a falar do “destino”. Meu primo, ao qual eu desejava fazer uma pequena visita, um militar com intenções decentes e honradas, que no entanto pouco lhe adiantaram, meu primo foi-me arrebatado, e eu continuo aqui. Eu não era soldado; tinha uma profissão civil, como o senhor talvez tenha ouvido falar, uma profissão sólida e sensata, que, segundo dizem, tem até funções de ligar os povos entre si. Não nego que nunca tenha sentido uma afeição especial por ela, e isso por razões sobre as quais só quero dizer que se acham envoltas em obscuridade.

Acham-se ali lado a lado com as origens dos sentimentos que tenho pela sua companheira de viagem – sirvo-me desse termo para demonstrar expressamente que nem penso em discutir direitos adquiridos –, meus sentimentos por Clávdia Chauchat e o tratamento de “tu” que lhe dou no meu íntimo, como nunca deixei de fazer, desde que os olhos dela encontraram os meus pela primeira vez, enfeitiçando-me imediatamente. Enfeitiçando-me num sentido insensato, compreende? Por amor a ela, a despeito do Sr. Settembrini, sujeitei-me ao princípio oposto à razão, ao princípio genial da doença, ao qual talvez já tenha estado sujeito desde muito ou desde sempre. Fiquei aqui em cima, já não sei com certeza há quanto tempo. Esqueci tudo e me desliguei de tudo, dos meus parentes, e da minha profissão, e do meu futuro na planície. E

quando Clávdia partiu, esperei por ela, esperei sempre aqui em cima, de modo que estou perdido para a planície, que me considera morto. Era isso que eu tinha em mente, quando me referi ao

“destino” e tomei a liberdade de alegar que eu enfim tinha certo direito de me queixar da atual situação jurídica. Certa vez li uma história... Não, vi-a no teatro. Havia lá um rapaz que não fazia mal a ninguém. Era, aliás, um soldado, tal qual meu primo. Trava conhecimento com uma encantadora cigana, um verdadeiro encanto de mulher fatal e selvagem, com uma flor atrás da orelha, e ela domina-o de tal maneira que o rapaz se desnorteia completamente e chega a sacrificar-lhe tudo, a desertar das fileiras, a associar-se em sua companhia a um bando de contrabandistas, e a desonrar-se sob todos os aspectos. Ao cabo de tudo isso, ela se cansa dele e arranja um toureiro de personalidade poderosa com uma magnífica voz de barítono. A história termina assim: o soldadinho, com o rosto branco que nem giz, e com a camisa aberta, esfaqueia-a em frente a um circo. Por outro lado, a mulher o havia provocado a esse ato. É uma história que não vem ao caso, essa que acabo de contar. Mas, afinal, por que me ocorreu?

Quando Hans Castorp falara em “esfaquear”, Peeperkorn modificara a sua posição semi-sentada. Retrocedera um pouco na cama, voltando rapidamente o rosto ao visitante e lançando nele um olhar perscrutador. A seguir, empertigou-se, apoiado no cotovelo, e disse:

– Jovem, ouvi as suas palavras e agora estou a par de tudo. Permita que, à base do que me comunicou, lhe ofereça uma explicação leal! Se os meus cabelos não fossem brancos e eu não me achasse acometido por uma febre maligna, o senhor me veria disposto a dar-lhe, de homem para homem, com a arma na mão, satisfação pelo mal que lhe causei sem saber, e ao mesmo tempo pelo outro que lhe infligiu a minha companheira de viagem, e do qual também lhe devo contas.

Continuar: parte 3 de 3