A Montanha Mágica
– Naturalmente. Já é conhecido o seu…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Perfeitamente. O senhor me veria disposto. Mas, sendo as coisas como são, permita que eu lhe faça uma outra proposta. Trata-se do seguinte: lembro-me de um momento sublime, logo no início das nossas relações... Lembro-me dele, embora naquela ocasião tivesse feito muita honra ao vinho. Foi o momento em que eu, agradavelmente impressionado pelo seu caráter, estive a ponto de lhe propor o “tu” fraternal. No entanto, não pude deixar de perceber que esse passo seria um tanto precipitado. Muito bem, hoje me refiro àquele instante, transporto-me novamente para ele e dou por terminado o prazo então estabelecido. Meu caro jovem, somos irmãos; declaro-nos irmãos. O senhor falou do significado pleno de um “tu”. Também o nosso terá significado pleno, o significado da fraternidade no sentimento. A satisfação que não lhe posso dar com a arma, devido à minha idade e à doença, ofereço-a sob a forma de uma aliança fraternal, assim como às vezes se concerta contra terceiros, contra o mundo ou contra quem quer que seja, o que nós faremos no sentimento comum por alguém. Toma a tua taça, jovem, enquanto eu volto a usar do meu copo de lavar dentes, que afinal de contas não ofende de forma alguma essa zurrapazinha...
E com a mão de capitão ligeiramente trêmula encheu os copos, ajudado pelo reverente e perplexo Hans Castorp.
– Serve-te! – repetiu Peeperkorn. – Cruza o braço comigo e bebe assim! Esvazia o copo!...
Ótimo, jovem! Feito! Aqui tens a minha mão. Estás contente?
– Essa palavra é, naturalmente, muito fraca para expressar o que sinto, Mynheer Peeperkorn – disse Hans Castorp, que tivera algumas dificuldades em emborcar a taça de um só gole e enxugava os joelhos com o lenço, porque derramara um pouco de vinho. – Prefiro dizer que estou infinitamente feliz. Nem posso ainda compreender como pude ser distinguido dessa maneira. Francamente, é como se eu estivesse sonhando. É uma imensa honra para mim, e não sei como a mereci, a menos que de um modo passivo, porque não pode ser de outra forma. Não será de admirar que no começo me pareça um tanto excêntrico empregar esse novo tratamento, e que eu tropece de vez em quando, sobretudo em presença de Clávdia, que, à maneira das mulheres, provavelmente não gostará deste arranjo...
– Deixa isto comigo – replicou Peeperkorn. – E o resto é uma questão de prática e de hábito. E agora vai-te, meu caro jovem! Deixa-me sozinho, meu filho! Está escuro; já é noite cerrada, e nossa amiga pode voltar a qualquer instante. Um encontro de vocês, neste momento, talvez não seja conveniente.
– Desejo-te uma boa noite, Mynheer Peeperkorn – disse Hans Castorp, enquanto se levantava. – Como o senhor está vendo, procuro vencer a minha legítima timidez e exercito-me nesse tratamento audacioso. Escureceu; é verdade. Seria bem possível que o Sr. Settembrini entrasse neste quarto e acendesse a luz, para que reinasse a razão e as convenções; é o fraco dele.
Até amanhã! Saio daqui tão alegre tão orgulhoso como nem de longe teria imaginado. Estimo tuas melhoras. Tens à frente pelo menos três dias sem febre, durante os quais o senhor não precisa temer nenhum esforço. Isto me dá tanto prazer como se eu fosse tu. Boa noite!
Mynheer Peeperkorn
(Fim)
Uma cascata não deixa de ser objetivo atraente para excursões, e dificilmente se explica por que Hans Castorp, apesar de sentir inclinação particular pelas quedas-d’água, ainda não visitara o pitoresco salto situado na floresta do vale de Fluela. Essa omissão talvez fosse perdoável durante o tempo em que convivera com Joachim; o rigoroso senso do dever, peculiar ao primo, que não viera para divertir-se, e nunca perdia de vista a finalidade da sua estadia, havia limitado o horizonte de ambos aos arredores próximos do Sanatório Berghof. E depois do decesso de Joachim – sim, também depois dele, as relações entre Hans Castorp e a paisagem alpina haviam guardado, abstraindo os passeios de esqui, o caráter de conservadora monotonia, que contrastava fortemente com o vasto alcance das suas experiências interiores e dos seus afazeres de “regente”. Esse contraste exercia sobre o jovem um encanto que ele, em certo sentido, saboreava com plena consciência. Mesmo assim aprovou vivamente um projeto de excursão de coche até aquele lugar famoso, projeto que um dia foi ventilado no pequeno círculo dos seus amigos, entre as referidas sete pessoas (inclusive ele próprio).
Nesse ínterim chegara o mês de maio, mês das delícias, segundo as ingênuas cantilenas da planície. Aqui em cima, o ar de maio costumava ser bastante frio e não muito convidativo; mas ao menos podia-se dizer que o degelo estava terminado. Verdade é que diversas vezes no decorrer dos últimos dias haviam caído grossos flocos, mas a neve derretia-se logo, deixando atrás apenas um pouco de umidade. As massas compactas do inverno acabavam de fundir-se, de esvair-se, de desaparecer, com exceção de alguns restos isolados, e o verdor do mundo novamente transitável constituía um convite a todo espírito empreendedor.
No curso das semanas passadas, as atividades sociais do grupo tinham sido influenciadas pela indisposição do seu chefe supremo, o majestoso Pieter Peeperkorn, cuja febre maligna, lembrança dos trópicos, não queria ceder nem aos efeitos de um clima excepcional, nem aos antídotos de um médico tão competente como era o Conselheiro Behrens. O holandês passara muito tempo na cama, e não somente nos dias em que a quarta reivindicava cruelmente os seus direitos. O baço e o fígado davam-lhe muito trabalho, conforme o médico explicava em particular aos amigos mais chegados do enfermo. Também o estômago não se achava em estado perfeito, e Behrens não se esqueceu de indicar o perigo de um enfraquecimento progressivo, a que estava exposta, sob essas circunstâncias, até mesmo uma constituição tão robusta como a de Peeperkorn.
Durante todas essas semanas, Mynheer não presidira senão um único festim noturno, e também os passeios em comum tinham sido cancelados, exceção feita de um só, de pouca extensão. Por outra parte – contamos isso aqui entre nós – Hans Castorp experimentava uma espécie de alívio graças a esse afrouxamento dos laços que ligavam o grupo; pois a nova fraternidade com o companheiro de viagem de Mme. Chauchat causava-lhe dificuldades. Nas conversas que ele mantinha com Peeperkorn em presença de terceiros voltavam a aparecer aquela
“atitude forçada”, aquela “evitação” e “esquivança”, que o holandês percebera na sua conduta para com Clávdia, e que pareciam ter a sua origem numa obrigação de partilhar a filipina. Hans Castorp servia-se de estranhos circunlóquios para não empregar o tratamento direto, nos casos em que este se impunha. Era o mesmo dilema, ou talvez o dilema inverso, que pesava sobre as
palavras que ele trocava com Clávdia na frente de outras pessoas ou apenas do próprio Peeperkorn. Devido à satisfação que este lhe havia dado, esse dilema colocava o jovem entre Cila e Caribdes.
Mas agora estava na ordem do dia o projeto da excursão à cascata. Peeperkorn em pessoa fixara o itinerário e sentia-se disposto a tentar a empresa. Era o terceiro dia depois de um ataque de quarta, e Mynheer comunicou que tinha a intenção de aproveitá-lo. Não almoçara no refeitório; como nesses últimos tempos acontecia freqüentemente, tomara as primeiras refeições no salão do seu apartamento, em companhia de Mme. Chauchat. Mas já na hora do café da manhã Hans Castorp recebera, por intermédio do porteiro coxo, a ordem de se aprontar para um passeio de coche, uma hora depois do almoço, de transmitir essa ordem aos senhores Ferge e Wehsal, e finalmente de comunicar a Settembrini e Naphta que o carro passaria pela sua casa para buscá-los. Além disso devia Hans Castorp arranjar dois landôs para as três da tarde.
A essa hora encontraram-se diante do portão do Sanatório Berghof. Enquanto Hans Castorp, Ferge e Wehsal esperavam ali os donos do apartamento principesco, distraíram-se acariciando os cavalos, que com os grossos e úmidos beiços pretos lhes tiravam das palmas da mão pedaços de açúcar. Com um pequeno atraso apenas os companheiros de viagem surgiram na escadaria. Peeperkorn, cuja cabeça de rei parecia mais magra, e que trajava um sobretudo comprido, um pouco gasto, deteve-se no patamar, ao lado de Clávdia, tirando o chapéu redondo e macio, e seus lábios articularam um ‘Bom-dia!” inaudível. A seguir apertou as mãos de cada um dos três senhores, que haviam ido ao encontro do casal, até o pé da escada.
– Meu caro jovem! – disse então dirigindo-se a Hans Castorp e pondo-lhe a mão esquerda sobre o ombro. – Como vais, meu filho?
– Vou indo aqui muito bem. Obrigado. E desse lado aí, como vão as coisas? – respondeu o jovem.
O sol brilhava. Era um dia lindo, sem nuvens. Mesmo assim tinham agido com acerto vestindo casacões de meia-estação, porque era provável que durante o passeio o frio se tornasse sensível. Também Mme. Chauchat trajava um sobretudo quente, cinturado, de uma fazenda felpuda, com grandes quadrados de xadrez, e com uma gola de pele que lhe cobria os ombros.
No chapéu de feltro trazia um véu cor de azeitona, atado por baixo do queixo, e que dobrava as abas em torno do rosto. Ficava tão encantadora com esse chapéu que literalmente fazia sofrer a maioria dos cavalheiros presentes, exceção feita de Ferge, o único que não estava apaixonado por ela. Foram distribuídos os lugares, provisoriamente, já que mais tarde os externos se reuniriam ao grupo, e a indiferença de Ferge teve por conseqüência caber-lhe o assento de costas, no primeiro landô, na frente de Mynheer e de madame, ao passo que Hans Castorp embarcou junto com Wehsal no segundo carro, não sem ter apanhado um sorriso irônico de Clávdia. O vulto frágil do criado malaio também participava da excursão. Com um volumoso cesto, sob cuja tampa apontavam os gargalos de duas garrafas de vinho, e que foi depositado debaixo de um dos assentos de costas do primeiro landô, o homenzinho aparecera atrás dos seus amos, e quando se achava instalado na boléia, com os braços cruzados, deu-se aos cavalos o sinal de partida. Com os freios apertados, os carros começaram a descer pela curva da rampa.
Também Wehsal notara o sorriso de Mme. Chauchat. Mostrando os dentes cariados, fez comentários acerca dele para Hans Castorp.
– Viu – perguntou – como ela se riu do senhor, porque tem de ir sozinho comigo?
Primeiro o dano, depois o escárnio. Não acha o senhor irritante e repulsivo estar assim a meu lado?
– Controle-se, Wehsal, e deixe de falar desse jeito miserável – repreendeu-o Hans Castorp. – As mulheres sorriem a qualquer instante, pelo prazer de sorrir. Não vale a pena refletir sobre todos os seus sorrisos. Por que insiste o senhor em rebaixar-se deste modo? Como nós todos, o senhor tem suas qualidades e seus defeitos. Por exemplo, toca bastante bem o Sonho de uma noite de verão, coisa que nem todos sabem fazer. O senhor deveria tocá-lo novamente qualquer dia destes.
– Pois sim! – respondeu o pobre-diabo. – O senhor me fala com muita condescendência e nem sequer percebe o desaforo que está contido no seu consolo e que somente me humilha ainda mais. Para o senhor é fácil dizer essas coisas e reconfortar a gente do alto dos seus tamancos; pois, se hoje se encontra numa situação um tanto ridícula, pelo menos teve a sua vez, Santo Deus, e esteve no sétimo céu! Sentiu os braços dela em torno do pescoço, e tudo aquilo, Santo Deus! me queima a garganta e o fundo do coração quando me volta à memória. E o senhor, com plena consciência do que gozou, pode contemplar desdenhosamente os meus tormentos de mendigo...
– Não é bonita essa sua maneira de expressar-se, Wehsal. É até sumamente repugnante.
Não acho necessário ocultar-lhe esta minha opinião, uma vez que o senhor me tachou de desaforado. E tenho a impressão de que o senhor fala de propósito dessa forma repulsiva. Faz tudo para parecer asqueroso e avilta-se a cada momento. Sua paixão por ela é realmente violenta?
– É terrível – replicou Wehsal, meneando a cabeça. – São indescritíveis as torturas que sofro pela sede e pela cobiça de possuí-la. Quem me dera dizer que isso será a minha morte! Mas num estado desses não se pode nem viver nem morrer. Enquanto ela estava ausente, comecei a me sentir melhor. Aos poucos consegui me preocupar menos. Mas desde que voltou e a vejo todos os dias, a minha paixão me faz morder o braço e agarrar miragens. Já não sei o que fazer.
Uma coisa assim não deveria existir. Mas não é possível desejar que desapareça. Quem sofre de tal paixão não pode ter esse desejo, porque seria o mesmo que desejar que desaparecesse a própria vida, que se amalgamou com a paixão; é coisa que não se pode... Que adiantaria morrer?
Depois, sim; com prazer! Nos braços dela; com a maior satisfação! Mas antes, seria absurdo; pois a vida é o desejo, e o desejo é a vida e não pode voltar-se contra si próprio; nisso é que consiste o maldito dilema. E quando digo “maldito”, isto não passa de uma maneira de falar. É como se um terceiro falasse, porque eu mesmo absolutamente não posso ter essa opinião. Há muitos tipos de tormentos, Castorp, e quem está sendo torturado quer se ver livre, quer simplesmente, incondicionalmente, que o soltem. Eis o que é o seu único objetivo. Mas quando se trata da tortura da cobiça carnal, não se pode desejar a libertação, a não ser pelo caminho e sob a condição de a ver saciada. Não há outro meio, por preço algum! Assim são as coisas, e quem não sofre disso não perde tempo com reflexões desse gênero, mas quem sofre chega a ver estrelas e a compreender o Senhor dos Passos. Deus do Céu! Que instituição curiosa é essa de a carne cobiçar tão violentamente uma outra carne, só porque esta não é a própria, mas pertence à alma de outrem! Como é singular esse desejo, e para bem dizer, como é modesto, na sua bondade pudica! É o caso de dizer: se a carne deseja apenas isso, vá lá, que o tenha! Afinal de contas, que é que eu quero, Castorp? Quero, acaso, matá-la? Quero derramar o sangue dela? Quero apenas é acariciá-la! Castorp, meu caro Castorp, desculpe que me lamente dessa forma, mas, afinal, ela poderia muito bem entregar-se a mim! Haveria nisso algo de sublime, Castorp! Eu não sou nenhum animal; à minha maneira, também sou um ser humano! O desejo da carne espalha-se em todas as direções; não tem limites e não se fixa, e por isso o chamamos bestial. Mas quando se concentra numa única criatura, com um rosto humano, então os nossos lábios começam a falar de amor. Mas o que eu desejo não é apenas o torso dela, o manequim de carne que é o seu corpo; pois, se no seu rosto uma coisinha de nada tivesse uma forma diferente, talvez deixasse eu de cobiçar todo o resto do corpo. Assim se vê claramente: o que eu amo é a sua alma e a amo com a alma. Pois o amor ao rosto é o amor da alma ...
– Mas que é que o senhor tem, Wehsal? Parece fora de si e nem sabe em que tom está falando...
– Mas, precisamente isso, precisamente isso é a desgraça – prosseguiu o coitado –, a desgraça é ter ela uma alma, ser ela uma criatura humana, dotada de corpo e alma! Ora, a sua alma nada quer saber da minha, e o seu corpo nada do meu. Que miséria, que grandíssima miséria! Daí acontece que o meu desejo está condenado à vergonha, e meu corpo tem de se retorcer eternamente! Por que ela não quer saber de mim, Castorp, nem com o corpo nem com a alma?
Por que lhe causa horror o meu desejo? Porventura não sou homem? Um homem repugnante
não é homem? Sou homem no mais alto grau; juro que ultrapassaria tudo que já se viu, se ela me abrisse o paraíso dos seus braços, que são tão formosos porque pertencem ao rosto da sua alma!
Eu seria capaz de lhe dar todas as volúpias do mundo, Castorp, se se tratasse apenas dos corpos e não das almas também; se não existisse a maldita alma dela, que nada quer saber de mim, mas sem a qual eu não lhe cobiçaria o corpo. E neste nojento dilema dos diabos debato-me eternamente!
– Psiu, Wehsal! Fale mais baixo! O cocheiro entende o que está dizendo. De propósito não volta a cabeça, mas vejo pelas costas dele que escuta.
– Ele me entende e escuta; aí está, Castorp! Aí temos novamente aquela coisa, aquela instituição com a sua particularidade e seus característicos. Se eu falasse de palingenesia ou... ou de hidrostática, ele não entenderia patavina; não saberia de que se trata, não escutaria e não mostraria o menor interesse. Pois esses assuntos não são populares. Mas a coisa mais sublime, a mais extrema e a mais secreta, num sentido sinistro, o assunto da carne e da alma, olhe, essa coisa é ao mesmo tempo a mais popular. Todos a entendem, todos podem zombar de quem sofre dela e a quem ela transforma os dias em torturas voluptuosas, e as noites num inferno ignominioso!
Castorp, meu caro Castorp, deixe que eu me lamente um pouco; pois que noites são estas que eu tenho! Noite após noite sonho com ela; ah, com quanta coisa dela não sonhei! A garganta e o estômago me queimam, quando recordo. E todos os sonhos terminam assim: ela me esbofeteia, me bate em pleno rosto e às vezes me cospe na cara, me cospe na cara, com o rosto da sua alma crispado de asco, e então acordo, coberto de suor e de vergonha e de volúpia...
– Muito bem, Wehsal, e agora vamos fazer uma pequena pausa e tomar a decisão de calar a boca até que cheguemos à casa do merceeiro e alguém venha nos fazer companhia. É da minha parte uma sugestão e uma ordem. Não quero ofendê-lo e admito que o senhor se encontra em graves apuros. Mas lá em casa contavam a história de um indivíduo que tinha recebido o seguinte castigo: quando falava, saíam-lhe da boca serpentes e sapos, a cada palavra uma serpente ou um sapo. O livro não rezava o que aquela personagem fazia diante disso, mas sempre fui de opinião que ela deve ter calado a boca.
– Mas falar é uma necessidade humana, meu caro Castorp – tornou Wehsal melancolicamente –, uma necessidade humana. É preciso desabafar, quando se está em tais apuros.
– É até um direito que o homem tem, Wehsal, se assim quiser. Mas, a meu ver, existem direitos que sob certas circunstâncias não convém usar.
Assim guardaram silêncio, conforme a ordem de Hans Castorp. Ademais, o coche não tardou a alcançar a casinha coberta de vinhas do merceeiro, onde não os deixaram esperar nem um instante. Naphta e Settembrini já se achavam na rua; o humanista trajava aquela jaqueta puída, forrada de peles, e o jesuíta, um sobretudo amarelo-esbranquiçado, de meia estação, pespontado em toda parte, e que lhe dava aparência de janota. Acenaram uns aos outros. Trocaram cumprimentos, enquanto os carros faziam meia-volta, e os dois senhores embarcaram também.
Naphta ocupou o quarto assento do primeiro landô, ao lado de Ferge, ao passo que Settembrini., de humor radiante, transbordando de piadas esplêndidas, se associou a Hans Castorp e Wehsal.
Este lhe cedeu o seu lugar no fundo do carro, onde o Sr. Settembrini se instalou com a mais elegante displicência, na atitude de quem costuma passear em corsos.
E celebrou o prazer de andar de carro, quando o corpo se encontra em confortável estado de repouso e todavia é transportado através de um cenário que sempre se modifica.
Demonstrou a Hans Castorp sentimentos de complacência paternal, e até acariciou com palmadinhas a face do pobre Wehsal, enquanto o convidava a esquecer-se do seu próprio eu antipático e de abandonar-se à admiração desse mundo luminoso, que lhe designava num amplo gesto da mão direita, revestida com uma surrada luva de couro.
Tiveram uma viagem excelente. Os quatro cavalos, todos eles malacaras, animais vivos, fortes, bem alimentados e de pêlo lustroso, pisavam com ritmo firme a magnífica estrada, que a essa época estava livre de poeira. Às vezes se aproximavam das margens rochedos anfractuosos,
com flores e capim crescendo entre as juntas das pedras. Postes telegráficos corriam em sentido oposto. Surgiam bosques nas encostas. Curvas amenas, almejadas primeiro e em seguida percorridas, mantinham alerta a curiosidade. Em regiões distantes, iluminadas pelo sol, via-se sempre a cordilheira parcialmente coberta de neve. Já haviam perdido de vista a paisagem familiar do vale, e a mudança do cenário cotidiano produzia sobre os espíritos um efeito animador. Pouco depois, os coches pararam à beira da floresta. Tinha sido combinado que a partir desse ponto os excursionistas prosseguiriam a pé até a meta do passeio; essa meta com a qual os seus sentidos, sem se dar conta disso, tinham desde havia muito estabelecido um contato frouxo no início, mas que se tornava cada vez mais intenso. Terminada a viagem de carro, todos notaram um ruído longínquo, um suave rumor sibilante, vibrante, murmurante, que de vez em quando tornava a esquivar-se à percepção. Os membros do grupo estacaram para ouvir melhor, e uns chamavam a atenção dos outros.
– Por enquanto – disse Settembrini, que já conhecia o lugar – o ruído parece fraquinho.
Mas lá na cascata é fortíssimo nesta época do ano. Os senhores vão ver que não poderemos ouvir as nossas próprias vozes.
Penetraram no bosque, por uma vereda coberta de úmidas agulhas de pinheiro.
Peeperkorn ia na frente, apoiado no braço da sua companheira, com o macio chapéu preto repuxado sobre a testa, e com o seu típico andar oscilante. Atrás deles seguia Hans Castorp, sem chapéu como todos os demais, com as mãos nos bolsos; inclinando a cabeça obliquamente, olhava em torno e assobiava baixinho. Logo após vinham Naphta e Settembrini, depois Ferge com Wehsal, e por fim o malaio, caminhando sozinho, com o cesto de víveres no braço. Falava-se do bosque.
Aquele bosque não era como todos os outros. Oferecia um aspecto singularmente pitoresco, um aspecto exótico e ao mesmo tempo lúgubre. Existia ali em abundância uma espécie de líquen musgoso, que pendia das árvores, carregava-as, envolvia-as por completo. Em longas barbas incolores, as emaranhadas teias da planta parasita desciam bambaleando da ramagem como que embrulhada e estofada. Quase não se viam agulhas; tudo desaparecia sob as grinaldas de musgo. Era uma degeneração grave e esquisita, uma visão mágica e mórbida. O bosque não ia bem de saúde, sofria da moléstia desse líquen exuberante, que ameaçava sufocá-lo, segundo a opinião que todos manifestavam, enquanto o pequeno cortejo avançava pela vereda coberta de agulhas, ouvindo o ruído que significava a meta da qual se aproximavam, aquele rebôo e sussurro que aos poucos se transformava em estrondo e prometia confirmar a predição de Settembrini.
Numa curva descortinava-se o panorama do desfiladeiro penhascoso que se abria no meio do bosque e era atravessado por uma ponte. No seu fundo caía a catarata. No momento em que os excursionistas depararam com ela, chegavam ao auge os efeitos acústicos. Era um barulho infernal. A massa de água precipitava-se verticalmente, num único salto, de sete ou oito metros de extensão e de considerável largura, e em seguida se lançava, branca, por sobre os rochedos.
Sua queda produzia um estrépito medonho, no qual pareciam mesclar-se todos os tipos de ruídos e de tonalidades possíveis, trovões e silvos, bramidos, berros, fanfarras, estouros, estalidos, ribombos e badaladas de sinos. Realmente, aquilo era capaz de aturdir os sentidos. Os visitantes tinham-se adiantado muito sobre as rochas escorregadias, para chegar bem perto. Açoitados e salpicados por um sopro úmido, envoltos no vapor de água, com os ouvidos abarrotados e obstruídos pelo fragor, trocavam olhares e sacudiam a cabeça, sorrindo timidamente, ao contemplarem esse espetáculo, essa catástrofe contínua, formada de espuma e de alarido, cujo marulhar insensato e excessivo os estonteava, lhes causava medo e provocava ilusões acústicas.
Tinham a impressão de ouvir de trás, de cima, de todos os lados gritos de ameaça ou de advertência, clarinadas ou vozes rudes de homens.
Agrupados atrás de Mynheer Peeperkorn – Mme. Chauchat encontrava-se entre os cinco convidados – contemplavam com ele o turbilhão. Não divisavam o rosto do holandês, mas viam como descobria a cabeça rodeada de labaredas brancas e inflava o peito, enchendo-o daquele ar fresco. Comunicavam-se entre si por meio de olhares e de sinais, uma vez que quaisquer palavras,
inclusive as que se gritassem diretamente ao ouvido do vizinho, seriam, sem dúvida, abafadas pelo fragor da queda. Os lábios articulavam expressões de surpresa e de admiração, que no entanto permaneciam inaudíveis. Mediante acenos de cabeça, Hans Castorp, Settembrini e Ferge combinaram escalar a encosta do desfiladeiro a cujo sopé se encontravam, a fim de chegar à ponte superior e de ver as águas de cima. Não era difícil. Uma escada íngreme, com degraus estreitos, talhados na rocha, conduzia a uma espécie de pavimento superior da floresta.
Galgaram-na um após outro; avançaram pela ponte; chegados ao meio, por cima do jorro curvo da cascata, acenaram para os amigos que se achavam embaixo. A seguir atravessaram o resto da pontezinha e realizaram a laboriosa descida pelo outro lado, até a outra margem da torrente, de onde partia mais uma ponte, pela qual voltaram a reunir-se ao grupo.
A essa altura, a mímica referia-se à merenda. Alguns opinavam que seria conveniente distanciarem-se, para esse fim, da zona do barulho, a fim de saborearem a refeição vesperal com os ouvidos descansados e não à maneira de surdos-mudos. Mas não podiam deixar de perceber que Peeperkorn não concordava com isso. Sacudiu a cabeça, repetidas vezes apontou com o indicador para o chão, e os lábios gretados, repuxados com esforço, articularam um “Aqui!” Que se podia fazer? Nessas questões de encenação, Peeperkorn era o diretor e o mestre. O peso da sua personalidade teria sido decisivo, mesmo que não fosse ele, como sempre, o organizador e o dono da empresa. Homens de tamanha envergadura foram e serão em todos os tempos tiranos e autocratas. Mynheer tencionava merendar à vista da cascata, em plena trovoada. Assim mandava o seu capricho soberano, e quem não quisesse renunciar à comida teria de ficar. A maioria estava pouco satisfeita. O Sr. Settembrini, que via eliminada a possibilidade de um intercâmbio humano, de uma palestra democrático-distinta ou ao menos de uma discussão, ergueu a mão por cima da cabeça, com aquele seu peculiar gesto de resignação e desespero. O malaio apressou-se a executar a ordem do amo. Levara consigo duas cadeiras dobradiças que armou junto à parede rochosa, para Mynheer e madame. Depois estendeu uma toalha aos seus pés e espalhou sobre ela o conteúdo do cesto – um aparelho de café, copos, garrafas térmicas, doces e vinho – que foi avidamente disputado. Os convidados instalaram-se nas pedras ou na balaustrada da ponte, com a xícara de café quente na mão e o prato cheio de bolo sobre os joelhos. Silenciosos, no meio do fragor, começaram a comer a merenda.
Peeperkorn, com a gola do sobretudo levantada, e com o chapéu depositado no chão, perto de si, bebia vinho do Porto num copo de prata, guarnecido de um monograma, e que esvaziou várias vezes. E de repente se pôs a falar. Que homem estranho! Não era possível que ouvisse a própria voz, e muito menos que os outros entendessem uma sílaba sequer daquilo que lhes comunicava sem comunicá-lo. Levantou, entretanto, o dedo indicador. A seguir, mantendo o copo na mão direita, estendeu o braço esquerdo, com a palma da mão voltada obliquamente para cima. Viu-se então o rosto majestoso movimentar-se ao falar; viu-se a boca articulando palavras que permaneciam desprovidas de som, como se fossem proferidas num vácuo. Todos pensavam que logo desistiria desse esforço inútil, ao qual assistiam com um sorriso perplexo. Mas ele, com uma gesticulação esmerada, fascinante, imperiosa, continuava, a arengar o fragor, fixando os olhinhos lassos, apagados e muito abertos, ora num, ora noutro espectador, de modo que a pessoa a quem parecia dirigir-se se via obrigada a dar-lhe um sinal de aprovação, com as sobrancelhas alçadas, abrindo a boca e pondo a mão em concha na orelha, como se isso bastasse para resolver a situação irremediável. A seguir, Mynheer até se levantou. Tinha ainda o copo na mão. No surrado sobretudo de viagem que quase lhe ia até os pés, e cuja gola se achava erguida, com a cabeça descoberta, e com a alta e rugosa testa de ídolo rodeada pelas labaredas brancas do cabelo – assim se quedava junto ao penhasco e movia o semblante, à cuja frente elevava, doutrinando, o anel do polegar e do indicador, dominado pelos outros dedos em riste, como para remediar a indistinção do brinde mudo pelo sugestivo signo da exatidão. Compreendiam-se através dos gestos e liam-se-lhes dos lábios algumas palavras isoladas que habitualmente saíam da sua boca: “Absolutamente!”, “Basta!” e nada mais. A cabeça pendia para um lado, com uma expressão de amargor nos lábios gretados: a perfeita imagem de um mártir. Em seguida, porém,
desabrochou a lasciva covinha, sinal do espírito sibarita, galhofeiro, e do impudor sagrado de um sacerdote pagão que ao dançar arregaça as vestes. E Peeperkorn ergueu o copo, descreveu com ele um semicírculo em direção aos seus convidados, e esvaziou-o completamente em dois ou três tragos, de maneira que o fundo se voltava para o céu. Por fim, com o braço estendido, passou-o ao malaio, que o recebeu com uma mesura, e deu o sinal de partida.
Depois de se terem inclinado diante dele, para expressar a sua gratidão, todos se dispuseram a obedecer-lhe a ordem. Os que se achavam acocorados no chão levantaram-se de um pulo; quem estava sentado na balaustrada da pontezinha desceu depressa. O delgado javanês, com o chapéu-coco e a gola de peles, apanhou a baixela e os restos de comida. Na mesma ordem de marcha que haviam observado na ida, voltaram pela vereda úmida, coberta de agulhas de pinheiro, através da floresta desfigurada pelas grinaldas de líquen, até a estrada onde os esperavam os coches.
Desta vez, Hans Castorp embarcou no carro do mestre e da sua companheira. Ocupou um lugar em frente ao casal, ao lado do bom Ferge, que continuava alheio a quaisquer assuntos elevados. Quase não se falou durante a viagem de regresso. Mynheer mantinha as mãos espalmadas sobre o cobertor que envolvia as suas pernas e as de Clávdia, e deixava pender a mandíbula inferior. Settembrini e Naphta desceram e despediram-se antes que os carros atravessassem os trilhos e o curso de água. Wehsal permaneceu sozinho no segundo coche, enquanto este subia pela curva da rampa e alcançava o portal do Berghof, onde todos se separaram...
Na noite que se seguiu a esse dia, que é que houve com o sono de Hans Castorp? Foi ele mais leve e mais superficial devido a uma certa prontidão interior, da qual a sua alma não se dava conta, mas que tinha por conseqüência que a menor modificação do costumeiro silêncio noturno do Sanatório Berghof – um alarma por mais abafado que fosse e a mal perceptível repercussão de passos rápidos à distância – bastasse para tornar desperto e lúcido e para fazê-lo sobressaltar-se na cama? O fato é que acordou muito antes que alguém batesse à sua porta, o que se deu pouco depois das duas horas. Respondeu sem demora, clara e energicamente, com plena presença de espírito. Ouviu então a voz aguda e hesitante de uma das enfermeiras auxiliares, ocupadas na casa, e que lhe solicitava, em nome de Mme. Chauchat, que comparecesse imediatamente ao primeiro andar. Com redobrada energia mandou dizer que logo iria. Levantou-se de um salto; enfiou rapidamente as roupas; passou os dedos pelos cabelos, a fim de afastá-los da testa, e desceu sem pressa, mas também não devagar, mais incerto quanto às circunstâncias do que ao próprio fato que havia causado tal convite.
Encontrou aberta a porta do salão de Peeperkorn, bem como aquela que dava para o quarto do holandês, onde todas as luzes estavam acesas. Ambos os médicos, a Superiora von Mylendonk, Mme. Chauchat e o criado malaio achavam-se presentes. Este não estava vestido como de costume, mas trazia uma espécie de traje nacional: uma jaqueta parecida com uma camisa, de listras largas e com mangas muito amplas e compridas; uma saia de muitas cores em lugar das calças; e um chapéu cônico de pano amarelo. Além disso se adornara com um colar de amuletos que lhe pendiam sobre o peito. Mantinha-se imóvel, com os braços cruzados, à esquerda da cabeceira da cama, na qual jazia Pieter Peeperkorn, de costas, com os braços estendidos ao longo do corpo. Empalidecendo, o jovem abrangeu a cena com a vista, enquanto entrava. Mme. Chauchat voltava-lhe as costas. Estava sentada numa poltrona baixa, ao pé da cama, apoiando o cotovelo na colcha, com o queixo fincado na mão e os dedos cravados no lábio inferior, e contemplava o rosto do seu companheiro de viagem.
– Boa noite, meu rapaz – disse Behrens, que acabava de conversar baixinho com o Dr.
Krokowski e com a Superiora. Sacudiu melancolicamente a cabeça e torceu o lábio com o bigodinho branco. Trajava o avental de médico, com o estetoscópio sobressaindo do bolso de cima. Calçava chinelos bordados e estava sem colarinho. – Não há remédio – acrescentou num murmúrio. – Trabalho perfeito. Pode ir mais perto e examiná-lo com olhar de perito. O senhor deve admitir que aí se fez tudo para sabotar a arte médica.
Sobre as pontas dos pés, Hans Castorp aproximou-se da cama. Os olhos do malaio vigiavam cada um dos seus movimentos; acompanhavam-nos, sem que o homem virasse a cabeça, de modo que se via o branco do globo ocular. Com um olhar de esguelha, o jovem verificou que Mme. Chauchat não dava atenção à sua presença. Postou-se ao lado do leito, na sua posição típica, com o peso do corpo a repousar sobre uma das pernas, as mãos juntas à frente da barriga, inclinando a cabeça para o lado, numa contemplação reverente e pensativa. Peeperkorn achava-se estatelado sob a colcha de seda vermelha, naquela camisola de malha que Hans Castorp tantas vezes o vira usar. As mãos, bem como partes do rosto, mostravam manchas de um roxo enegrecido, o que contribuía consideravelmente para desfigurar o holandês, se bem que, fora isso, as feições majestosas permanecessem inalteradas. Também em estado de descanso, e apesar das pálpebras cerradas, ressaltavam fortemente as rugas da alta fronte circundada de labaredas brancas, essas rugas pregueadas como num ídolo, que se estendiam horizontalmente em quatro ou cinco fileiras, antes de descerem em ângulo reto por ambas as têmporas, e pareciam acentuadas pelos esforços habituais de uma vida inteira. Os lábios gretados e amargurados estavam entreabertos. A cianose indicava uma interrupção brusca, um impedimento veemente, apoplético, das funções vitais.
Hans Castorp quedou-se alguns instantes imóvel, observando tudo isso com reverência.
Vacilava em modificar a sua posição e esperava que a “viúva” lhe dirigisse a palavra. Mas, como tal não se desse, preferiu não incomodá-la por enquanto e voltou-se para o grupo das outras pessoas que se achavam atrás dele. O conselheiro fez um sinal de cabeça em direção ao salão.
Hans Castorp seguiu-o até ali.
– Suicidium? – perguntou baixinho, com objetividade profissional.
– Se é! – respondeu Behrens, dando de ombros; e acrescentou: – Cem por cento. No superlativo. O senhor já viu uma coisa destas numa casa de miudezas? – E puxou do bolso do avental um estojo de forma irregular, do qual tirou um pequeno objeto que apresentou ao jovem.
– Eu, nunca. Mas vale a pena olhá-lo. Vivendo e aprendendo. Um troço fantástico e muito engenhoso. Tirei-o das mãos dele. Cuidado! Basta que uma gota lhe caia sobre a pele para que o senhor fique com bolhas.
Hans Castorp revolveu entre as mãos o objeto misterioso. Era feito de aço, marfim, ouro e borracha e oferecia aspecto bem estranho. Viam-se dois dentes de garfo, recurvos, de aço polido, e com pontas muito afiadas; havia uma parte central, de marfim, levemente retorcida e incrustada de ouro, cujo mecanismo elástico permitia mover os dentes até certo ponto e aproximá-los um do outro; e tudo terminava numa espécie de saquinho de borracha preta e meio dura. O tamanho do objeto não ia além de umas poucas polegadas.
– Que é isto? – perguntou Hans Castorp.
– Isto – respondeu Behrens – é a encarnação de uma seringa hipodérmica. Ou, sob um outro ponto de vista, é a cópia mecânica das presas da naja. O senhor me compreende? Parece que não – continuou ao ver que Hans Castorp não deixava de fitar, como que hipnotizado, aquele objeto curioso. – Aqui estão os dentes. Não são completamente maciços, mas passa por eles um tubo capilar, um canal finíssimo, cuja extremidade exterior se vê nitidamente, na parte dianteira, um pouco acima das pontas. Claro que os tubinhos têm outro orifício na raiz dos dentes e ali comunicam-se com o conduto excretor da glândula de borracha, que se estende através da peça central de marfim. No momento da mordida, os dentes executam um movimento elástico de contração, como é fácil perceber, e exercem uma pressão sobre o depósito de veneno, que então impele o seu conteúdo para dentro dos canais, de maneira que no mesmo instante em que as pontas entram na carne a dose de veneno penetra na circulação do sangue. É muito simples quando já se vê pronto. Difícil era inventá-lo. Provavelmente foi feito segundo as próprias indicações dele.
– Acho que sim – disse Hans Castorp.
– A carga não pode ter sido muito grande – prosseguiu o conselheiro. – O que lhe faltava em quantidade, sobrava-lhe em...
– ...dinamismo – completou Hans Castorp.
– Certo. Já verificaremos do que se trata. Pode-se esperar com certa curiosidade o resultado da análise, porque não duvido de que nos dará uma oportunidade para aprender alguma coisa. Aposto que aquela personagem exótica que ali está de sentinela e se endomingou para a ocasião saberia perfeitamente informar-nos. Na minha opinião foi usada uma combinação de substâncias animais e vegetais, o melhor que existe no ramo, pois o efeito deve ter sido fulminante. Tudo leva a crer que lhe cortou imediatamente a respiração; paralisia do centro respiratório, entende? Asfixia rápida, sem esforços nem dores, segundo todas as probabilidades.
– Quisera Deus! – disse Hans Castorp piamente. Com um suspiro devolveu ao conselheiro o sinistro instrumentozinho e voltou ao quarto do holandês.