A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 2 de 13 · parte 2/3

Páginas do PDF

A Montanha Mágica

Ademais, esse tipo de conversa costuma ser…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

“Puxa!”, pensou Hans Castorp, espantado e confuso. “Mas isto soa como uma ária de ópera! Como é que provoquei esse discurso? Ele me parece, aliás, um pouco árido. Por que fala o homem constantemente do trabalho? Sempre insiste no trabalho, embora aqui em cima isto venha um pouco fora de propósito.” Finalmente respondeu:

– Muito bem, Sr. Settembrini. É mesmo notável como o senhor sabe falar. Essas coisas não poderiam ser ditas de um modo... de um modo mais plástico...

– Um retrocesso – prosseguiu Settembrini, enquanto erguia o guarda-chuva por cima da cabeça de um transeunte –, um retrocesso espiritual em direção aos conceitos desses tempos tenebrosos, atormentados... Creia-me, meu caro engenheiro, que isso é uma doença; uma doença explorada a fundo, para a qual a ciência conhece diversas denominações; uma deriva da terminologia estética e psicológica, e a outra, da política. São termos escolares, que nada têm a ver com o nosso tema, e dos quais o senhor pode perfeitamente prescindir. Mas, como tudo se encadeia na vida espiritual, e uma coisa se depreende da outra, como não se pode estender ao Diabo nem sequer o dedo mínimo, sem que ele logo agarre a mão inteira e com ela todo o homem... Como, por outro lado, um princípio são somente pode gerar efeitos sadios, sendo indiferente qual o ponto de partida – queira, pois, o senhor gravar na memória que a doença, longe de ser nobre e por demais digna de reverência para ser compatível com a estupidez, representa, pelo contrário, uma humilhação... Sim, senhor, uma humilhação dolorosa do Homem, um insulto à idéia, um rebaixamento que no caso individual pode merecer tolerância e cuidado, mas que seria uma aberração homenagear espiritualmente – grave isto na memória! –, uma aberração e o início de todas as demais aberrações espirituais. Aquela mulher que o senhor mencionou... Nem quero me lembrar do nome dela... Ah, sim, a Srª. Stöhr, muito obrigado...

Bem, não é, ao que me parece, o caso dessa criatura ridícula o que coloca o sentimento humano diante de um dilema, para usar as suas palavras. Estúpido e doente -meu Deus, isto são as peculiaridades da própria miséria; o caso é simples, e nada nos resta a fazer senão sentir compaixão e encolher os ombros. O dilema, meu caro senhor, a tragédia começa onde a Natureza se mostrou bastante cruel para destruir, ou para tornar de antemão impossível, a harmonia da personalidade, associando um espírito nobre e cheio de vitalidade a um corpo pouco apto para a vida. O senhor conhece Leopardi, meu caro engenheiro? Ou o senhor, tenente? Um poeta infeliz da minha terra, um corcunda enfermiço, com uma alma primitivamente grande, mas rebaixada sem cessar pela miséria do seu corpo e arrastada aos abismos da ironia, uma alma cujas lamentações dilaceram o coração. Ouçam isto!

E Settembrini pôs-se a recitar em italiano, deixando as sílabas se derreterem na língua, agitando a cabeça e às vezes cerrando os olhos, sem se preocupar com o fato de que seus companheiros não entendiam uma só palavra. O que lhe importava era visivelmente saborear a beleza da sua prosódia e a força da sua memória, e exibi-las diante do auditório. Finalmente disse:

– Mas os senhores não compreendem. Estão ouvindo sem perceber o sentido doloroso dos versos. O aleijado Leopardi – é preciso sentir essa desgraça na sua plenitude, cavalheiros –

carecia sobretudo do amor das mulheres, e foi isso, antes de mais nada, que o tornou incapaz de impedir o definhamento da sua alma. O esplendor da glória e da virtude empalidecia ante seus olhos; a Natureza afigurava-se-lhe malvada – ela é realmente malvada, estúpida e malvada; neste ponto concordo com ele – e ele caiu no desespero. É horrível dizê-lo: ele desesperou da ciência e do progresso. Eis, meu caro engenheiro, um exemplo de autêntica tragédia. Aqui o senhor encontra o seu “dilema para o sentimento humano”, e não no caso daquela mulher, de cujo nome recuso terminantemente carregar a minha memória... Não me fale da “espiritualização” que pode resultar da enfermidade; por amor de Deus, não faça isto! Uma alma sem corpo é tão desumana e horripilante quanto um corpo sem alma. A primeira é, aliás, uma rara exceção, e o segundo, o mais comum. Via de regra é o corpo que exubera, açambarca toda a vida e toda a importância, e se emancipa da maneira mais asquerosa. Um homem que vive enfermo é corpo e nada mais, e nisto está o anti-humano, o aviltante... Na maioria das vezes não vale mais que um cadáver...

– Engraçado! – exclamou Joachim de súbito, inclinando-se para a frente, a fim de olhar o primo, que caminhava do outro lado de Settembrini. – Não faz muito, você disse uma coisa bem parecida.

-será? – tornou Hans Castorp. – Bem, pode ser que uma idéia semelhante me tenha passado pela cabeça.

Settembrini permaneceu calado durante alguns momentos, antes de dizer:

– Tanto melhor, meus senhores. Tanto melhor se assim é. Longe de mim a intenção de lhes expor uma filosofia original. Não é isto o que me cabe fazer. Se o nosso engenheiro, espontaneamente, já chegou a observações análogas, confirma-se a minha opinião segundo a qual ele é um diletante do espírito e simplesmente se entrega, à maneira dos jovens talentosos, a experiências com toda espécie de conceitos possível. Um jovem de talento não é uma folha em branco, senão uma folha sobre a qual tudo já foi escrito, com tinta simpática, por assim dizer, tudo, tanto o bem como o mal, e cumpre ao educador desenvolver decididamente o bem e apagar, mediante uma influência adequada, o mal que deseja manifestar-se... Os senhores fizeram compras? – perguntou então num tom diferente.

– Não, senhor, nada de especial – respondeu Hans Castorp. – Quer dizer...

– Compramos alguns cobertores para meu primo – respondeu Joachim displicentemente.

– É para o repouso... Com esse frio de rachar... Dizem que devo observar o regime durante as semanas da minha estadia – explicou Hans Castorp, rindo e baixando os olhos.

– Ah? Cobertores! Repouso! – exclamou Settembrini. – Sim, sim, sim! Com efeito: placet experiri – repetiu, com pronúncia italiana. Depois se despediu, pois, cumprimentados pelo porteiro coxo, acabavam de entrar no sanatório. No vestíbulo, Settembrini tomou o caminho para os salões, a fim de ler os jornais antes do almoço, segundo disse. Parecia querer gazear o segundo repouso.

– Deus me livre! – desabafou Hans Castorp, quando estava com Joachim no elevador. –

É mesmo um pedagogo. Ele já nos disse outro dia que tinha uma veia pedagógica. E a gente deve cuidar-se na presença dele e não dizer uma palavra indevida, senão segue logo uma preleção que não acaba nunca. Mas vale a pena ouvi-lo falar. Cada palavra lhe sai da boca tão arredondada e apetitosa, que sempre me faz lembrar pãezinhos frescos.

Joachim deu uma risada.

– Não lhe diga isso. Creio que ele ficaria decepcionado se soubesse que você pensa em pãezinhos ao escutar as suas teorias.

– Acha mesmo? Ora, não tenho tanta certeza disso. Sempre me parece que ele não se preocupa exclusivamente com as suas teorias, e que estas desempenham um papel secundário. O

que lhe interessa mais é o falar em si, o seu modo peculiar de fazer as palavras saltar e rolar... tão elásticas como bolas de borracha... Tenho a impressão de que não lhe é desagradável verificar que os outros notam o efeito. O cervejeiro Magnus disse, indubitavelmente, uma asneira, quando

falou dos “belos caracteres”, mas Settembrini nos deveria ter dito o que é, em realidade, o objetivo da literatura. Eu não quis perguntar, para não mostrar a minha ignorância. Não sou nada competente nessas coisas, e até agora nunca vi um literato. Contudo, se o que importa não são os belos caracteres, devem ser as belas palavras. Tal a minha impressão, quando me acho em companhia de Settembrini. Que palavras usa esse homem! Sem o mínimo acanhamento fala de

“virtude”, ora essa! Nunca na vida empreguei esse vocábulo. Até mesmo na escola, dizíamos “coragem”, quando líamos “virtus” nos livros. Naquele momento senti um choque; não posso negá-lo. E depois, fico nervoso quando ele se mete a resmungar sobre o frio e sobre Behrens e sobre a Srª. Magnus, porque ela perde proteínas, sobre tudo o que existe, enfim. É um homem de oposição, como logo percebi. Investe contra qualquer coisa, e uma atitude dessas sempre me dá a impressão de negligência. Não posso evitá-lo.

– É o que você pensa – disse Joachim ponderadamente. – Mas, por outro lado, tal atitude revela um certo orgulho que nada tem de negligente. Pelo contrário, Settembrini é um homem que se respeita a si mesmo, ou respeita os homens em geral. E isso me agrada nele, porque, a meu ver, é um sinal de decência.

– Tem razão – concordou Hans Castorp. – Ele até me parece um tanto severo. A gente, às vezes, fica constrangido diante dele, porque se sente... como dizer?... controlado. Sim, senhor, é isso mesmo. Você quer acreditar que tenho a impressão de que ele não aprovava a compra dos cobertores para o repouso, que se opunha a ela e até estava escandalizado?

– Não – disse Joachim, circunspecto e admirado. – Por que razão? Não posso imaginar...

– E com isso se foi, metendo o termômetro na boca e levando todos os seus apetrechos para o repouso, enquanto Hans Castorp começou logo a mudar de roupa e a arrumar-se para o almoço, do qual os separava nem sequer uma hora.

Digressão sobre o sentido do tempo

Quando voltaram ao quarto de Hans Castorp, depois do almoço, já se encontrava ali, numa cadeira, o embrulho dos cobertores; e nesse dia o jovem serviu-se deles pela primeira vez.

Joachim, mais experiente na arte de se agasalhar, que todos exerciam ali em cima e os recém-chegados tinham de aprender, mostrou-lhe como fazê-lo. Os cobertores deviam ser estendidos, um após outro, sobre a espreguiçadeira, de maneira que um bom pedaço deles sobrasse no lugar dos pés. A seguir, a gente sentava-se na cadeira e começava a envolver-se no cobertor superior, primeiro de um lado em todo o comprimento, até as axilas, depois na parte de baixo, por cima dos pés, o que requeria que a pessoa se soerguesse, se inclinasse para a frente e apanhasse as camadas da extremidade dobrada, e por fim do outro lado, sendo importante ajustar cuidadosamente a ponta dupla às bordas da cadeira, a fim de se conseguir um máximo de lisura e regularidade. Em seguida, procedia-se da mesma forma com o cobertor de baixo, que era um pouco mais difícil de manejar, Hans Castorp, como noviço desajeitado, não cessava de gemer, enquanto, ora curvado, ora reclinado, treinava os movimentos que Joachim lhe ensinara.

– Só mesmo alguns veteranos – disse o primo – sabem jogar simultaneamente os dois cobertores por cima do corpo, com apenas três manobras precisas. É uma habilidade rara e invejada, que exige não somente anos de prática mas também um talento natural. – Essas últimas palavras fizeram com que Hans Castorp estourasse de riso, deixando-se cair para trás, sobre as costas doloridas. Joachim, que no primeiro instante não compreendera o que havia nisso de cômico, olhou-o com um ar incerto, e depois também desatou a rir.

– Feito! – disse quando Hans Castorp, exausto de toda essa ginástica, arrumado em forma de cilindro, e como que sem membros, estava estendido na espreguiçadeira, com o rolo elástico por baixo da nuca. -mesmo que fizesse uns vinte graus abaixo de zero, nada lhe poderia acontecer agora. – Com isso desapareceu atrás da divisão de vidro, para se agasalhar a si próprio.

Essa coisa dos vinte graus abaixo de zero parecia bastante duvidosa a Hans Castorp, que se ressentia muito do frio. Repetidas vezes, calafrios lhe passaram pelo corpo, enquanto contemplava, através das arcadas de madeira, a umidade que lá fora caía, pingando, garoando, e dando a impressão de estar a ponto de se transformar, de um momento para outro, em nova nevada. Era, porém, estranho que, não obstante o tempo úmido, ele continuasse com o rosto seco e ardente, como se se achasse num quarto superaquecido. Ademais, sentia-se ridiculamente cansado em virtude dos exercícios realizados para envolver-se nos cobertores. Com efeito, o Ocean steamships tremia-lhe nas mãos quando o aproximava dos olhos. Era evidente que a sua saúde não era lá muito boa – “totalmente anêmico”, dissera o Dr. Behrens –, e por isso incomodava-se tanto com o frio. Mas essas sensações desagradáveis eram compensadas pela grande comodidade da sua posição, pelas qualidades insondáveis e quase misteriosas dessa espreguiçadeira, que Hans Castorp já descobrira, entusiasmado, quando da estréia, e que voltavam a comprovar-se de modo sumamente ameno. Fosse devido ao tipo das almofadas, à inclinação conveniente do encosto, à altura e largura acertadas dos braços, ou talvez à consistência apropriada do rolo atrás da nuca – em todo caso era impossível imaginar um método mais humano para garantir o bem-estar de membros em repouso do que os serviços dessa cadeira perfeita. E grande satisfação invadia a alma de Hans Castorp, ao pensar nas duas horas vazias, cheias de paz assegurada, que tinha à sua frente, essas horas sagradas que o regulamento da casa destinava ao repouso principal, e que ele, apesar de ser um simples visitante, aprovava como uma instituição inteiramente adequada ao seu caráter. Pois Hans Castorp era paciente por natureza, e bem capaz de passar muito tempo sem nada fazer. Conforme nos recordamos, adorava esse lazer que nenhuma atividade atordoadora ousa obliterar, consumir, afugentar. Às quatro horas iria tomar o chá da tarde, com bolo e confeitos; depois haveria um novo repouso na espreguiçadeira; às sete, vinha o jantar, que, como todas as refeições, ofereceria algumas sensações e certos aspectos curiosos, dignos de serem aguardados com prazer; depois, alguns olhares no interior da caixa estereoscópica, no caleidoscópio em forma de luneta, e no tambor cinematográfico... Hans Castorp já sabia de cor o programa do dia, ainda que fosse exagero dizer que já se “aclimatara” perfeitamente.

No fundo constitui fenômeno esquisito esse processo de aclimatação num lugar estranho, a adaptação – por mais laboriosa que seja – e a mudança de hábitos à qual as pessoas se submetem só para variar e na intenção firme de abandoná-la imediatamente ou pouco depois de completada, a fim de voltarem ao estado anterior. Intercala-se tal processo como uma espécie de interrupção ou entreato, no curso principal da vida, e isso para fins de “restabelecimento”, quer dizer, para exercitar, renovar e revolucionar o organismo que corria perigo, e já estava a ponto de se amimalhar, de enlanguescer e de entibiar, na desarticulada monotonia da existência rotineira.

Mas, qual é a origem desse langor, dessa tibieza, nos casos de continuidade por demais extensa e ininterrupta de uma rotina? Trata-se menos do cansaço e do desgaste físico e espiritual, que causam as exigências da vida – para eles, o simples descanso bastaria como remédio reconstituinte –, do que de algo psíquico: é a consciência do tempo que ameaça perder-se na uniformidade constante, e que liga laços tão estreitos de parentesco e afinidade à própria sensação de vida, que não se pode debilitar uma sem que a outra sofra e definhe também. Com respeito à natureza do tédio encontram-se freqüentemente conceitos errôneos. Crê-se em geral que a novidade e o caráter interessante do conteúdo “fazem passar” o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e a vacuidade lhe estorvam e retardam o fluxo. Isto não é verdade, senão com certas restrições. Pode ser que a vacuidade e a monotonia alarguem e tornem

“tediosos” o momento e a hora; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, por outro lado, capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia; mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia: em casos de igualdade contínua, os grandes lapsos de tempo chegam a encolher-se a tal ponto, que causam ao coração um susto

mortal; quando um dia é como todos, todos são como um só; passada numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos.

O hábito representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento, do senso de tempo, e o fato de os anos de infância serem vividos mais vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa – esse fato também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio para manter a nossa vida, para refrescar a nossa sensação de tempo, para obter um rejuvenescimento, um reforço, um retardamento da nossa experiência do tempo, e com isso, a renovação da nossa sensação de vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio, e nisso reside o que há de salutar na variação e no episódico. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo. Isto se aplica a uns seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se “aclimata”, começa a sentir uma progressiva abreviação: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de fazê-lo, talvez note com horror como os dias voltam a tornar-se leves e começam a deslizar voando; e a última semana – de quatro, por exemplo – é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo produz efeitos além do interlúdio, fazendo-se valer ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois da variação, se nos afiguram também novos, amplos e juvenis; mas esses são somente uns poucos, já que a gente se reacostuma mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão. E o senso de tempo de quem já está fatigado, em virtude da idade, ou nunca o possuiu desenvolvido em alto grau – o que é sinal de pouca força vital –, volta a adormecer muito depressa, e já ao cabo de vinte e quatro horas é como se tal pessoa jamais se tivesse afastado do seu ambiente habitual, e a viagem não passasse do sonho de uma noite.

Inserimos aqui essas observações porque o jovem Hans Castorp tinha em mente idéias análogas, quando, depois de alguns dias, disse ao primo, fixando nele os olhos estriados de sangue:

– É mesmo curioso como o tempo, no começo, parece longo a quem se encontra num lugar estranho. Quer dizer... Absolutamente não me aborreço; nada disso! Ao contrário, posso afirmar que me divirto esplendidamente. Mas quando olho para trás – em retrospectiva, sabe? –

tenho a impressão de estar aqui há não sei quanto tempo já. E de agora até aquele momento em que cheguei a Davos-Dorf e não compreendi que já estava no fim da minha viagem e você me disse: “Pode descer” – lembra-se ainda? –, isto me parece toda uma eternidade. Essas coisas nada têm a ver com medidas e raciocínios. São puramente questão de sentimentos. Claro que seria tolice dizer: “Tenho a impressão de estar aqui há dois meses”; isto seria um absurdo. Só posso dizer: “Há muito tempo já”.

– Pois é – disse Joachim, com o termômetro na boca. – Eu também me aproveito disso.

De certo modo, posso me segurar em você, desde que está aqui. – E Hans Castorp riu-se de que o primo dissesse isso assim tão simplesmente, sem acrescentar nenhuma explicação.

Hans Castorp faz uma tentativa de conversação em francês

Não, absolutamente não se aclimatara ainda, nem no que se referia ao conhecimento da vida no sanatório em todas as suas particularidades – conhecimento que seria impossível adquirir em tão poucos dias e (como ele dizia de si para si, e também explicou a Joachim) infelizmente não lhe seria dado adquirir tampouco em três semanas –, nem quanto à adaptação do seu organismo às condições atmosféricas tão peculiares que reinavam “aqui em cima”; pois essa adaptação lhe custava esforços, tremendos esforços, e, como lhe parecia, não estava disposta a realizar-se.

O dia normal achava-se claramente subdividido e cuidadosamente organizado. A gente logo chegava a acompanhar-lhe o ritmo e se afazia à rotina, quando se ajustava à engrenagem.

Mas, no conjunto da semana e das unidades mais vultosas do tempo, esse dia estava submetido a

certas variações regulares que se apresentavam apenas pouco a pouco; uma não aparecia antes da outra já se ter repetido; e também no que dizia respeito à sucessão diária de objetos e vultos individuais, Hans Castorp tinha que aprender a cada passo, observando mais de perto as coisas que antes só olhara superficialmente, e assimilando impressões novas com receptividade juvenil.

Aqueles recipientes bojudos, de gargalo curto, por exemplo, que se achavam nos corredores, diante de algumas portas, e nos quais Hans Castorp reparara logo na noite da sua chegada, continham oxigênio, conforme Joachim lhe explicou, em resposta à sua pergunta. Era oxigênio puro, a seis francos o balão, e esse gás vivificante era ministrado aos agonizantes, para lhes dar um derradeiro estímulo e prolongar a duração das suas forças. Sorviam-no por meio de um tubo. Atrás das portas perto das quais se encontravam tais balões havia agonizantes, ou moribundi, como se expressou o Dr. Behrens, certo dia, quando Hans Castorp topou com ele no primeiro andar. Remando com os braços, o conselheiro áulico, de avental branco e faces azuladas, vinha atravessando o corredor, e juntos subiram a escada.

– Que tal, meu caro espectador desinteressado? – disse Behrens. – Que é que anda fazendo? Será que a gente pode esperar alguma aprovação de seu olhar crítico? Obrigado, muita honra para nós! Pois é, a nossa temporada de verão está mesmo um bocado boa. É formidável mesmo! Verdade é que não poupei dinheiro para torná-la cada vez mais brilhante. Contudo, é uma lástima que o senhor não queira passar o inverno conosco. Ouvi dizer que tenciona ficar oito semanas apenas. Como? Só três? Ora bolas, três semanas são como uma visita de médico; nem vale a pena tirar o casaco por tão pouco tempo. Bem, isso não é comigo. Mas, realmente, é uma pena que o senhor não esteja aqui durante o inverno. Olhe, a gente da alta, sabe? – disse com uma careta cômica –, a alta-roda internacional só vem a Davos no inverno. O senhor deveria mesmo ver essa turma. Seria muito instrutivo. Quando esses camaradas dão saltos de esqui, que coisa mais gozada! E ainda as damas, Deus meu! Aquelas mulheres multicores como uma ave-do-paraíso, lhe digo! E como são galantes!... Bem, está na hora de ver meu moribundus – acrescentou.

– É aqui, no 27. Etapa final, compreende? Saída pelo centro. Ontem e ainda hoje se embriagou com cinco dúzias de frascos de oxigênio, esse guloso! Mas acho que até o meio-dia se recolherá ad penates... Pois então, meu caro Reuter – disse ao entrar no quarto. – Que tal se a gente emborcasse mais um?... – Fechou a porta, e as demais palavras perderam-se atrás dela. Por um instante, porém, Hans Castorp enxergara no fundo do quarto, sobre o travesseiro, o perfil de cera de um jovem de barba rala, que lentamente volvia para a porta os grandes olhos esgazeados.

Era o primeiro moribundo com que Hans Castorp deparava em sua vida, visto os pais e o avô terem morrido, por assim dizer, pelas suas costas. Quanta dignidade não se expressava na cabeça do jovem que ali jazia sobre o travesseiro, com a barba apontando para cima! Como era significativo o olhar que se via naqueles olhos dilatados, quando, vagarosamente, os dirigiu para a porta! Hans Castorp, ainda absorto na reminiscência daquela visão fugaz, tentou involuntariamente imitar os olhos arregalados, significativos e lentos, do moribundo, enquanto se encaminhava para a escada. Foi com esses olhos que encarou uma senhora que atrás dele abrira uma porta e o alcançou no patamar. Não reconheceu imediatamente Mme.. Chauchat. Ela esboçou um leve sorriso ao ver aqueles olhos e, segurando com a mão a trança que lhe cercava a cabeça levemente caída para a frente, desceu à sua frente pela escada, a passo elástico e silencioso.

Durante esses primeiros dias, e mesmo muito tempo após, Hans Castorp não chegou a travar conhecimento com outras pessoas. O programa do dia, no seu conjunto, não favorecia isso. Ademais, Hans Castorp era reservado por natureza e sentia-se ali em cima no papel de um visitante e “espectador desinteressado”, como o chamara o Dr. Behrens. Bastavam-lhe amplamente a conversa e a companhia de Joachim. É verdade que aquela enfermeira do corredor espichava de tal maneira o pescoço atrás deles, cada vez que passavam por ela, que Joachim, que já em outras ocasiões lhe concedera alguns momentos de conversa, não pôde deixar de lhe apresentar o primo. Com o cordão do pincenê atrás da orelha, falava ela não somente de forma rebuscada, mas até com uma afetação penosa. Quem a examinasse mais de perto devia ter a impressão de que a tortura do tédio lhe afetara a inteligência. Era muito difícil desembaraçar-se

dela, porque manifestava um medo doentio do fim da palestra, e logo que os jovens se dispunham a prosseguir no caminho, agarrava-se a eles com palavras e miradas pressurosas, e mesmo com um sorriso tão desesperado que, por misericórdia, eles se detinham outra vez. Falava prolixamente do pai, que era jurisconsulto, e do primo, que era médico, na intenção evidente de brilhar e de sublinhar o fato de se ter criado num ambiente culto. Quanto ao seu paciente, lá atrás daquela porta, era o filho de um fabricante de bonecos, de Coburgo, e chamava-se Rotbein.

Recentemente, o mal atacara os intestinos do jovem Fritz, e isso era duro para todos os que se interessavam pelo caso, como “os senhores” sem dúvida compreendiam. Era especialmente duro para uma pessoa que descendia de uma família de acadêmicos e possuía a sensibilidade peculiar às classes superiores. E não se podia deixá-lo só, nem um minuto... Fazia alguns dias – era quase incrível! – voltara ela de uma saidinha (apenas fora comprar um pouco de pó dentifrício) e viera encontrar o doente sentado na cama, tendo diante de si um copo de espessa cerveja preta, um salame, um enorme pedaço de pão de centeio e um pepino. Sua família mandara-lhe todas essas especialidades da sua terra, na idéia de fortificá-lo. Claro que no dia seguinte o homem estava mais morto do que vivo. Ele mesmo precipitava o fim. Mas este significaria uma redenção somente para o jovem Fritz, e não para ela. Aproveitou a ocasião para dizer que a chamavam Irmã Berta, se bem que seu verdadeiro nome fosse Alfreda Schildknecht, e acrescentou que ela teria então de cuidar de outro doente, num estado mais ou menos avançado, naquele ou em outro sanatório. Era essa a única perspectiva que se lhe abria, e outra, infelizmente, não existia para ela.

– Pois é – disse Castorp, e observou que a profissão de uma enfermeira lhe parecia difícil, sim, mas também bastante honrosa.

– Honrosa é, indubitavelmente, mas muito difícil.

– Bem, façamos votos pelo restabelecimento do Sr. Rotbein. – E com isso os primos trataram de se afastar.

Mas, nesse instante, ela voltou a agarrar-se a eles com palavras e olhares, e seus esforços de cativar a atenção dos dois jovens por mais alguns instantes ofereciam um espetáculo tão lamentável, que teria sido cruel não lhe conceder mais um pequeno prazo.

– Ele está dormindo – disse. – Não precisa de mim. Por isso saí ao corredor, só por alguns minutos... – E começou a se queixar do Dr. Behrens e do tom que ele usava ao falar com ela, um tom por demais familiar, se se levava em conta a sua origem. Agradava-lhe muito mais o Dr. Krokowski, a quem qualificava de cheio de alma. Depois tornou a tratar do pai e do primo.

Seu cérebro não produzia mais nada. Em vão se empenhava ela em reter os dois jovens por mais alguns instantes, elevando a voz subitamente até quase gritar, cada vez que faziam menção de ir adiante. Mesmo assim, finalmente lhe escaparam. Mas, algum tempo ainda, a enfermeira seguiu-os com olhares ávidos, inclinando o tronco para a frente, como se quisesse segurá-los com a força dos olhos. Depois, com um suspiro que lhe irrompeu do peito, voltou ao quarto do seu paciente.

A única outra pessoa que Hans Castorp chegou a conhecer nesses primeiros dias foi aquela pálida senhora enlutada, a mexicana alcunhada de “Tous-les-deux”, que ele vira no jardim.

E realmente lhe aconteceu ouvir da boca dessa senhora aquela expressão lúgubre que se transformara em apelido. Mas, como já estava prevenido, conseguiu manter uma atitude correta e teve motivos para ficar satisfeito consigo próprio. Os dois primos encontraram a mexicana em frente ao portão principal, quando, após o café da manhã, encetavam o passeio matinal previsto no regulamento. Envolta num xale de lã preta, caminhava ela de joelhos dobrados, a passo longo e irrequieto. Sob o véu negro, enrolado em torno dos cabelos entremeados de fios de prata e amarrado por baixo do queixo, luzia num branco baço o rosto envelhecido, com a boca grande, marcada pelo sofrimento. Joachim, sem chapéu, como de costume, cumprimentou-a com uma mesura, à qual ela respondeu lentamente, enquanto as rugas transversais da sua testa estreita se acentuavam em virtude do esforço de olhar. Ao deparar com um rosto desconhecido, estacou e, meneando levemente a cabeça, aguardou que os dois jovens se aproximassem. Evidentemente lhe parecia necessário saber se o moço estranho lhe conhecia o caso e queria expressar-lhe o seu

pesar. Joachim apresentou o primo. Por baixo da mantilha, ela estendeu a mão ao visitante, mão magra, amarelada, de veias salientes, e adornada de anéis. Continuou olhando-o, sacudindo a cabeça. Então veio o inevitável.

– Tous les dê, monsieur – disse ela. – Tous les dê, vous savez...

– Je le sais, madame – respondeu Hans Castorp, numa voz abafada. – Et je le regrette beaucoup.

As bolsas flácidas sob os olhos negros como azeviche eram tão grandes e tão pesadas como Hans Castorp nunca vira iguais. Um perfume suave, murcho, emanava dela. O jovem sentiu uma emoção meiga e grave invadir-lhe o coração.

-merci – disse ela com um sotaque rangente, que se harmonizava de modo estranho com o alquebrado da sua aparência, e uma das comissuras da boca pendeu tragicamente. A seguir, tornou a esconder a mão sob a mantilha, inclinou a cabeça e pôs-se a caminhar de novo. Hans Castorp, porém, disse, enquanto prosseguiam no passeio:

– Está vendo? Tudo saiu bem. Eu soube lidar com ela. Em geral me parece que me dou bem com esse tipo de pessoas. Sei, por instinto, como tratá-las. Você não acha também? Tenho até a impressão de que, na maioria dos casos, me entendo melhor com gente triste do que com gente alegre; sabe Deus por quê! Talvez seja porque sou órfão e perdi meus pais muito cedo.

Mas, quando as pessoas estão sérias e tristes e a morte entra em jogo, não me sinto propriamente deprimido nem acanhado; pelo contrário, tenho a sensação de estar no meu elemento, e em todo caso passo melhor do que num ambiente de festa barulhenta. Isso não suporto. Pensei nesses dias que é uma bobagem da parte daquelas senhoras essa coisa de terem tanto pavor da morte e de tudo o que se relaciona com ela, a ponto de se tornar preciso escondê-la e administrar o Santo Sacramento enquanto a gente está comendo. Isso é ridículo, ora bolas! Você não gosta de ver um caixão? Eu gosto, de vez em quando. Acho que um caixão é um móvel bonito, quando vazio.

Mas, quando há alguém dentro, torna-se mesmo solene, a meu ver. Os enterros têm qualquer coisa de edificante. Às vezes tenho matutado que, em vez de irmos à igreja, deveríamos ir a um enterro, para nos edificar. As pessoas vestem-se com boas roupas pretas, tiram os chapéus, olham o féretro e mantêm uma atitude grave e piedosa. Ninguém se atreve a dizer piadas, como em outras circunstâncias. A mim me agrada muito ver pessoas devotas. Freqüentemente já me perguntei a mim mesmo se não deveria ter-me tornado pastor. Creio que, em certo sentido, isso me ficaria bem... Tomara que eu não tenha cometido nenhum erro de francês, naquelas frases que falei com ela.

– Não – disse Joachim. – “Je le regrette beaucoup” é para lá de correto.

Politicamente suspeita!

Surgiam modificações periódicas no programa normal: em primeiro lugar um domingo, e até um domingo com concerto no terraço do sanatório, como só havia de quinze em quinze dias.

Tratava-se, pois, do fim da quinzena em cuja segunda metade Hans Castorp chegara. Chegara ele numa terça-feira, de modo que fazia cinco dias que estava hospedado ali. Era um dia de aspecto primaveril, depois daquela fantástica queda de temperatura e recaída no inverno; um dia ameno e fresquinho, com nuvens limpas num céu azul e claro, e com um sol moderado sobre as encostas e o vale, que novamente haviam assumido o verde regulamentar do verão, já que a neve recente estava condenada a derreter-se depressa.

Era visível que todo mundo se esforçava por dignificar e distinguir o domingo. A administração e os hóspedes ajudavam-se mutuamente nesse sentido. Logo com o café da manhã já se serviu cuca de amêndoas; junto de cada lugar à mesa havia um pequeno vaso com algumas flores, cravos da montanha e rosas alpinas, que os cavalheiros prendiam à lapela. O Sr. Paravant, promotor público de Dortmund, até vestira para essa ocasião um fraque preto com colete a fantasia. Os vestidos das senhoras tinham caráter festivo e vaporoso. Mme... Chauchat apareceu à hora do café, trajando um amplo robe de rendas com mangas japonesas. Após ter fechado estrondosamente a porta envidraçada, fez uma espécie de continência, para apresentar-se com graça a toda a sala, e só então encaminhou-se, a passo silencioso, para a sua mesa. Esse robe assentava-lhe tão magnificamente, que a vizinha de Hans Castorp, a professora de Königsberg, se mostrava toda entusiasmada. Até mesmo o casal bárbaro da mesa dos “russos ordinários” levava em conta o dia do Senhor; o marido substituíra a jaqueta de couro por uma sobrecasaca curta e as botinas de feltro por sapatos de couro; a esposa, embora usasse também dessa vez o boá de penas pouco limpo, exibia uma blusa de seda verde, com gola pregueada. Ao vê-los, Hans Castorp, de cenho carregado, mudou de cor, o que, nos últimos tempos, lhe acontecia com certa freqüência.

Logo depois do café da manhã começou o concerto no terraço. Reuniam-se ali instrumentos de sopro de toda espécie, para tocar alternadamente músicas alegres e solenes, até quase a hora do almoço. Durante o concerto, o repouso não era estritamente obrigatório. Se bem que alguns pensionistas desfrutassem o deleite musical do alto das sacadas e também no alpendre houvesse algumas espreguiçadeiras ocupadas, achava-se a maioria dos hóspedes em torno das mesinhas brancas, na plataforma coberta. Uma turma de alegres vivedores, julgando por demais correto sentar-se numa cadeira, instalara-se nos degraus de pedra da escadaria que conduzia ao jardim, e ali manifestava muita animação. Eram jovens enfermos de ambos os sexos, que Hans Castorp já conhecia em grande parte, ou de nome ou de vista. Hermine Kleefeld pertencia a essa roda, bem como o Sr. Albin, que fazia circular uma grande caixa florida com chocolates, e convidava a todos, enquanto ele próprio nada comia, limitando-se a fumar com ar paternal numerosos cigarros de ponta dourada. Além do rapaz beiçudo da “Sociedade Meio-Pulmão”, viam-se ainda a Srta. Levi, magra e de cor de marfim como sempre, um moço louro, de nome Rasmussen, que deixava pender frouxamente as mãos, quais barbatanas, à altura do peito, e a Srª.

Salomon, de Amsterdam, matrona opulenta, de vestido vermelho, e que igualmente se unira à mocidade. Aquele moço alto, de cabelos ralos, que sabia tocar a marcha nupcial do Sonho de uma noite de verão, estava sentado atrás dela, cingindo-a com os braços pontudos e cravando-lhe na nuca trigueira o olhar melancólico. Havia ainda uma mocinha ruiva, de nacionalidade grega; outra, de origem desconhecida, com um perfil de anta; o garoto guloso com os óculos de lentes grossas; outro rapazote de quinze ou dezesseis anos, com um monóculo fincado no olho e que, ao tossir, levava à boca a unha comprida do dedo mindinho, da forma duma colherinha para sal, dando a impressão de ser um perfeito imbecil, e outras pessoas mais.

O rapaz de unha comprida – contou Joachim em voz baixa – estava pouco doente ao chegar. Não tivera febre, e seu pai, um médico, mandara-o por mera precaução ao sanatório, onde, segundo a opinião do Dr. Behrens, deveria ficar uns três meses. Agora, porém, decorrido esse prazo, tinha 37,8 a 38 e ia bastante mal. Verdade é que se comportava de modo tão insensato, que merecia umas bofetadas.

Os dois primos tinham só para si uma mesinha um pouco distante das demais, visto Hans Castorp fumar um charuto, para acompanhar a cerveja preta que levara consigo depois do café da manhã. De tempo em tempo conseguia achar gosto no tabaco. Um pouco tonto pela cerveja e a música, que, como sempre, fazia com que entreabrisse a boca e inclinasse a cabeça para o lado, contemplava, com os olhos avermelhados, a vida despreocupada de estação de cura que o rodeava. Absolutamente não o incomodava a consciência do fato de que toda essa gente escondia no seu interior um processo de decomposição, com pouca probabilidade de se deter, e que a maioria se achava num estado levemente febril; pelo contrário, esta consciência contribuía para aumentar a singularidade do ambiente e emprestar-lhe um certo encanto intelectual... Bebia-se limonada gasosa em torno das mesinhas. Na escadaria tiravam-se fotografias.

Alguns permutavam selos, e a grega ruiva desenhava a lápis, num bloco, o retrato do Sr.

Rasmussen; depois, não quis mostrar-lhe o desenho; rindo-se e exibindo os grandes dentes separados, esquivava-se de um para outro lado, de maneira que ele levou muito tempo antes de lhe arrancar o bloco. Hermine Kleefeld, com os olhos semicerrados, quedava-se no seu degrau, batendo, com um jornal enrolado, o compasso da música, enquanto o Sr. Albin lhe prendia na blusa um ramalhete de flores silvestres. O rapaz beiçudo, sentado ao pé da Srª. Salomon,

conversava com ela, voltando a cabeça para trás, ao passo que o pianista de cabelos ralos não cessava de fitar a nuca da matrona.

Chegaram os médicos e meteram-se entre os hóspedes, o Dr. Behrens no jaleco branco, e o Dr. Krokowski com a sua peculiar blusa preta. Passaram ao longo da fileira de mesinhas, e a cada grupo de hóspedes o conselheiro áulico dizia jovialmente uma pilhéria qualquer, de forma que uma esteira de hilaridade lhe marcava o caminho. A seguir, desceram pela escada, rumo à mocidade, cuja parte feminina, requebrando-se e lançando olhares de soslaio, logo se agrupou em torno do Dr. Krokowski, ao passo que o médico-chefe, em homenagem ao domingo, exibia ao sexo forte o seu truque dos cordões de botina: colocou o pé enorme num degrau superior, desatou a laçada, apanhou os cordões com uma mão só, empregando nisso uma técnica especial, e conseguiu, sem se servir da outra, prendê-lo novamente aos ganchinhos, de forma cruzada; habilidade que despertou a admiração de todos, e que alguns, em vão, tentaram imitar.

Mais tarde apareceu também Settembrini no terraço. Apoiando-se na bengala, saiu da sala de refeições. Como sempre, trajava o paletó comprido e as calças amareladas. Com um ar distinto, vivo e crítico, olhou em torno e aproximou-se então da mesa dos primos.

– Ah, bravo! – exclamou e pediu licença para sentar-se.

– Cerveja, tabaco e música – disse. – Eis a sua pátria! Vejo que o senhor acompanha o espírito nacional, meu caro engenheiro. Folgo em ver que está no seu elemento. Deixe que eu participe do seu harmonioso bem-estar.

Hans Castorp corrigiu as feições, o que, aliás, já procurara fazer logo que avistara o italiano. Em seguida respondeu:

– O senhor chega tarde ao concerto, Sr. Settembrini. Já está quase no fim. Não gosta de música?

– Por ordem superior, não – replicou Settembrini. – Nem quando é ditada pelo calendário. Não simpatizo com ela, quando tem um cheiro de farmácia e me é ministrada pelas autoridades para fins sanitários. Estimo ainda um pouco a minha liberdade, ou pelo menos aquele restinho de liberdade e dignidade humana que sobra a gente como nós. Em ocasiões como esta, costumo comparecer como visitante, assim como o senhor faz aqui em cima. Fico durante um quarto de hora e depois vou-me embora. Isso me dá a ilusão de independência... Não digo que seja mais do que uma simples ilusão; seja como for, a mim causa certa satisfação. Com seu primo, o caso é diferente. Para ele, isto aqui é serviço. Não é, tenente? O senhor considera o concerto como parte dos seus deveres. Ah! Sim, eu sei que o senhor conhece o truque de conservar o seu orgulho em plena escravidão. É um truque desconcertante. Não há muitos na Europa que entendam disso. E a música? O senhor não me perguntou se eu era amante da música? Bem, se o senhor usou a palavra “amante” – Hans Castorp absolutamente não se lembrava de tê-la empregado –, não escolheu mal a expressão, porque ela tem um quê de frivolidade afetuosa. Pois é, estou de acordo. Sim, senhor, sou amante da música, o que não significa que a estime particularmente, assim como estimo e amo, por exemplo, a palavra, o veículo do espírito, o utensílio e o resplandecente arado do progresso... A música? Representa ela tudo o que existe de semi-articulado, de duvidoso, de irresponsável, de indiferente. O senhor talvez me objete que ela pode ser clara. Mas também a Natureza pode ser clara; também um arroio o pode ser, e de que nos adianta isso? Não é essa a clareza verdadeira; é uma clareza sonhadora, despida de significação, uma clareza que a nada obriga nem chega a ter conseqüências; é perigosa porque induz a gente à complacência satisfeita... Suponhamos que a música tome uma atitude de magnanimidade. Bem, nesse caso, ela inflamará os nossos sentimentos. No entanto, o que importa é inflamar a nossa razão. Aparentemente a música é toda movimento, e contudo suspeito nela o quietismo. Permita que eu leve a minha tese ao exemplo: tenho contra a música uma antipatia de caráter político.

A essa altura da conversa, Hans Castorp não pôde deixar de bater com a mão sobre o joelho e de exclamar que nunca na vida ouvira coisa semelhante.

-mesmo assim, convém ponderar a idéia – disse Settembrini sorrindo. – A música é inestimável como meio supremo de produzir entusiasmo, como força que faz avançar e subir, mas só para pessoas cujos espíritos já estejam preparados para os seus efeitos. Porém, é indispensável que a literatura a preceda. Sozinha, a música não é capaz de levar o mundo avante.

Para a sua pessoa, meu caro engenheiro, ela representa indubitavelmente um perigo. Isto verifiquei logo ao chegar, na sua fisionomia.

Hans Castorp começou a rir.

– Ora, não olhe o meu rosto, Sr. Settembrini! O senhor não imagina até que ponto me incomoda o ar aqui em cima. Aclimatar-me custa-me muito mais do que eu pensava.

– Creio que o senhor se engana.

– Mas por quê? Ainda, me sinto cansado e quente como o diabo.

– No entanto, me parece que devemos ficar gratos à direção por estes concertos – disse Joachim circunspectamente. – O senhor considera o assunto de um ponto de vista superior, Sr.

Continuar: parte 3 de 3