A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 2 de 13 · parte 3/3

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A Montanha Mágica

Ademais, esse tipo de conversa costuma ser…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Settembrini, por assim dizer, como escritor, e nesse sentido não quero contradizê-lo. Mas tenho a impressão de que nós aqui deveríamos aceitar com gratidão um pouquinho de música.

Absolutamente não sou um entendido em música, e aquilo que tocam para nós não é grande coisa. As peças não são nem clássicas nem modernas. É uma charanga e nada mais. Mesmo assim, representa uma variação agradável que enche de uma forma decente algumas horas; quero dizer que as assinala e as ocupa, de modo que elas tenham algum valor próprio, ao passo que em geral se desperdiçam aqui horas e dias e semanas de um modo simplesmente pavoroso. Olhe, essas pecinhas insignificantes duram sete minutos, em média, não é? E esses sete minutos têm alguma coisa em particular, têm princípio e têm fim, destacam-se e são, de certo modo, preservados da ameaça de se perderem sem mais nem menos na monotonia geral. Além disso, são ainda muitas vezes subdivididos pelas partes da peça, e estas, por sua vez, se compõem de compassos, de maneira que sempre acontece alguma coisa e cada instante recebe um certo -

sentido, ao qual alguém se pode agarrar, ao passo que normalmente... Não sei se me expressei...

– Bravo! – gritou Settembrini. – Bravo, tenente!

O senhor definiu muito bem um fator incontestavelmente moral na natureza da música; a saber, que ela mede o curso do tempo de uma forma especial e cheia de vida, e assim lhe empresta vigilância, espírito e preciosidade. A música desperta o tempo; desperta a nós, para tirarmos do tempo um gozo mais refinado; desperta... e portanto é moral. A arte é moral na medida em que desperta. Mas que sucede quando ela faz o contrário? Quando entorpece, adormenta, estorva a atividade e o progresso? Também disso a música é capaz; sabe perfeitamente agir como ópio. Uma influência diabólica, meus senhores! O ópio é uma obra do Diabo, porque causa apatia, estagnação, passividade, inatividade servil... Há na música um elemento perigoso, senhores. Insisto no fato da sua natureza ambígua. Não exagero ao declarar que ela é politicamente suspeita.

Settembrini continuou externando idéias desse gênero, e Hans Castorp escutava, sem, no entanto, compreendê-lo perfeitamente, em primeiro lugar por causa do cansaço, e em segundo porque se sentia distraído pela animada atividade dos jovens alegres espalhados pela escadaria.

Não o enganavam seus olhos? Que era isso? A senhorita de cara de anta estava ocupada em pregar um botão na presilha de joelho, nos calções de golfe do jovem de monóculo. A asma embargava a respiração da mocinha, enquanto o rapaz tossia, cobrindo a boca com a unha comprida semelhante a uma colherinha de sal. Verdade era que ambos estavam doentes, e todavia essa conduta não deixava de pôr em evidência os costumes estranhos que ali em cima reinavam entre a mocidade. A banda de música tocava uma polca...

Hippe

Dessa forma se destacou o domingo. Sua tarde foi, além disso, assinalada por excursões de coche que realizaram vários grupos de hóspedes. Depois do chá, diversas parelhas subiram

laboriosamente a rampa do sanatório e pararam em frente ao portão principal, para recolher os pensionistas que haviam encomendado os carros. Eram na maioria russos, sobretudo senhoras russas.

– Os russos gostam de passear de carro – disse Joachim a Hans Castorp. Os primos estavam diante da entrada e divertiam-se a presenciar a partida das carruagens. – Vão a Clavadell ou ao lago ou ao vale de Flüela ou a Klosters. São esses os passeios que se costuma fazer.

Qualquer dia poderíamos também passear de carro, se quiser. Mas acho que por enquanto você terá bastante trabalho para se aclimatar, e não tem necessidade de aventuras.

Hans Castorp concordou. Tinha um cigarro na boca e as mãos nos bolsos da calça. Viu como a jovial velhota russa com a sobrinha magra e mais duas outras senhoras – Marusja e Mme..

Chauchat – tomavam assento num coche. Mme.. Chauchat trazia um guarda-pó leve, cinturado, mas não usava chapéu. Sentou-se ao lado da senhora idosa, no fundo do carro, ao passo que as senhoritas ocuparam os assentos da frente. As quatro estavam alegres, e suas bocas não paravam nem um segundo. Tagarelavam naquele seu idioma brando, como que desprovido de ossos.

Falavam e riam-se do cobertor de viagem, muito pequeno e que com dificuldade bastava para quatro pessoas, bem como dos bombons russos que a velha tia levava como merenda, numa caixinha de madeira, forrada de algodão e papel rendado, e que já antes da partida fazia circular...

Hans Castorp distinguiu com interesse a voz velada de Mme.. Chauchat. Como sempre, quando avistava essa mulher negligente, sentia reafirmar-se aquela semelhança que andara procurando por tanto tempo e finalmente descobrira num dos seus sonhos... O riso de Marusja, porém, o aspecto dos seus olhos redondos e castanhos que vagavam com uma expressão infantil por cima do lencinho que cobria a boca, e seus seios rijos, que interiormente estavam bastante doentes –

tudo isso lhe recordava outra coisa, uma visão comovente que tivera havia pouco tempo.

Cautelosamente, sem mover a cabeça, olhou para Joachim, a seu lado. Não! Graças a Deus, o seu rosto não tinha a cor terrosa do outro dia, e os lábios também não se crispavam daquele modo doloroso. Mas o primo estava com os olhos fixos em Marusja, numa atitude e com uma fisionomia que seria impossível qualificar de militares, e que, bem ao contrário, pareciam tão tristonhas e descontroladas que era inelutável tachá-las de perfeitamente civis. No entanto, não tardou a dominar-se e lançou um olhar tão rápido a Hans Castorp, que este mal teve tempo para desviar os olhos e dirigi-los para qualquer ponto no ar. Sentiu, simultaneamente, como o seu coração se punha a bater, sem motivo nenhum e por iniciativa própria, como às vezes fazia ali em cima.

O resto do domingo não ofereceu mais nada de extraordinário, a não ser a comida, que, embora não pudesse ser mais farta do que de costume, distinguia-se ao menos por um maior requinte nos pratos. (No cardápio do almoço figurava um chaud-froid de galinha, guarnecido de caranguejos e meias cerejas; os sorvetes vieram acompanhados de filhoses, em cestinhos tecidos de fios de açúcar, e por fim surgiram até fatias de abacaxi fresco.) Pela noite, depois de tomar a sua cerveja, Hans Castorp sentiu-se esgotado, com frio e com uma lassidão nos membros ainda maior do que nos dias anteriores. Já às nove horas disse “Boa noite” ao primo, cobriu-se apressadamente com o acolchoado de penas e adormeceu como um fulminado.

Mas o dia seguinte, isto é, a primeira segunda-feira que o visitante passou no sanatório, trouxe outra dentre as modificações periódicas do programa normal: uma daquelas conferências que o Dr. Krokowski fazia de quinze em quinze dias na sala de refeições para todos os pensionistas adultos do Berghof que dominassem o idioma alemão. Tratava-se, segundo Hans Castorp soube de Joachim, de uma série de preleções contínuas, espécie de curso científico-popular, sob o título geral de “O amor como fator patogênico”. A palestra didática realizava-se depois do café da manhã, e, também segundo a informação de Joachim, não era lícito, ou pelo menos era muito malvisto, que alguém deixasse de assistir a ela. Por isso considerava-se uma ousadia pasmosa a atitude de Settembrini, que, embora dominando o alemão melhor do que ninguém, não somente nunca comparecia a essas conferências, mas até as criticava em termos sumamente depreciativos. Quanto a Hans Castorp, estava disposto a ir, em primeiro lugar por

cortesia, como também por uma curiosidade não dissimulada. Antes, porém, fez uma coisa completamente errada e prejudicial: deu-lhe na veneta empreender, por conta própria, um extenso passeio, de que se saiu sobremodo mal.

– Escute – foram as suas primeiras palavras, quando Joachim, pela manhã, entrou no seu quarto. – Eu vejo que não posso continuar desse jeito. Estou farto da vida horizontal. Com esse regime, o sangue adormece nas veias da gente. O seu caso é diferente, claro! Absolutamente não quero tentar você. Mas tenho a intenção de dar, logo depois do café, um bom passeio, se você não me leva a mal essa idéia. Caminharei assim, sem destino, durante algumas horas. Vamos ver se não me sentirei outro homem quando regressar.

– Está bem – disse Joachim, ao notar que o outro levava a sério o projeto. – Mas não exagere, ouviu? Aqui as coisas não são como lá embaixo. E procure estar de volta na hora da conferência.

Na realidade, as razões que haviam levado o jovem Hans Castorp ao projeto desse passeio não se relacionavam somente com o seu bem-estar físico. Parecia-lhe que sua cabeça quente, o gosto ruim que ele amiúde tinha na boca, e as pulsações caprichosas do seu coração se deviam menos às dificuldades da aclimatação do que a certos fatores, como, por exemplo, as atividades do casal russo no quarto vizinho, a lengalenga que a estúpida e doente Srª. Stöhr proferia durante as refeições, a tosse lamacenta do aristocrata austríaco, que todos os dias se ouvia no corredor, as palavras do Sr. Albin, as impressões que os costumes sociais da mocidade enferma lhe haviam causado, a fisionomia de Joachim quando olhava para Marusja, e outras observações desse tipo. Pensava então que deveria ser saudável subtrair-se ao círculo mágico do Berghof, respirar profundamente ao ar livre e fazer algum exercício, a fim de saber, de noite, por que se sentia tão cansado. E assim se separou de Joachim, quando este, após o café da manhã, começava o seu passeio delimitado pelo regulamento, em direção ao banco junto da calha.

Brandindo a bengala, desceu pela estrada de rodagem, para seguir caminhos independentes.

Era uma manhã fresquinha e nublada, pelas oito e meia. Tal e qual se propusera, Hans Castorp aspirava profundamente o puríssimo ar matutino, uma atmosfera fresca e leve que se deixava sorver sem esforço, atmosfera sem umidade nem conteúdo nem recordações... Transpôs o curso d'água e os trilhos de bitola estreita, alcançou a rua principal, aqui e ali ladeada de casas, mas logo a abandonou, para tomar um atalho através dos prados, que, depois de um curto trajeto plano, subia, num curso oblíquo e bastante íngreme, a encosta à direita. Essa subida alegrou Hans Castorp. Dilatou-se-lhe o peito. Com o castão da bengala empurrou o chapéu para trás, e quando, de certa altura, lançou um olhar sobre a paisagem e avistou ao longe o espelho do lago, pôs-se até a cantar.

Cantou as canções que lhe ocorriam, toda espécie de cantigas sentimentais e populares, como figuram nas antologias para ginasianos. Uma, por exemplo, continha os versos:

“Que os bardos cantem o amor e o vinho,

Mas antes cantem a virtude...”

Começou cantarolando baixinho, mas logo aumentou o volume e por fim cantava com toda a força que tinha. Sua voz de barítono era áspera, mas, nesse momento, pareceu-lhe bonita.

Entusiasmava-se cada vez mais, à medida que ia cantando. Quando chegava a notas excessivamente altas, recorria ao falsete, e também este lhe agradava. Às vezes falhava a sua memória, e nesses casos saía-se bem entoando a melodia com quaisquer palavras e sílabas absurdas que no momento lhe ocorriam, e que ele, à maneira dos cantores de ópera, proferia modulando-as com os lábios e carregando nos “r”. Finalmente passou a improvisar tanto o texto como a melodia, acompanhando sua apresentação com gestos teatrais dos braços. Já que é muito cansativo subir e cantar ao mesmo tempo, Hans Castorp em breve perdeu o fôlego. Mas, por idealismo, em prol da beleza do canto, venceu a emergência e, por entre numerosos suspiros, deu tudo o que tinha. Por fim, completamente sem alento, quase cego, com olhos que enxergavam

apenas faíscas coloridas, e com o pulso a martelar, deixou-se cair ao pé de um enorme pinheiro.

Depois de tamanha emoção, sentiu-se tomado de uma sensação de intenso mal-estar, de uma ressaca que tocava as raias do desespero.

Quando, com os nervos mais ou menos tranqüilizados, animou-se a prosseguir o passeio, tremia-lhe veementemente a nuca, de modo que, apesar da sua juventude, sacudia a cabeça da mesma forma como outrora fizera o velho Hans Lorenz Castorp. Ele mesmo sentiu que esse fenômeno lhe recordava simpaticamente o falecido avô, e sem experimentar repugnância, divertiu-se com a imitação daquele gesto de apoiar o queixo sobre o nó da gravata, gesto com o qual o velho procurava evitar o tremor da cabeça, e que tanto agradava ao menino.

Subiu ainda mais, em ziguezague. Atraía-o o tilintar dos cincerros das vacas. Passado pouco tempo, avistou um rebanho a pastar nas proximidades de um chalé, cujo telhado estava consolidado com pedras. Dois homens barbudos, com machados no ombro, vinham a seu encontro. Perto dele, despediram-se um do outro. – Pois então, passe bem, e muito agradecido! –

disse um dos homens, numa voz profunda, gutural e, mudando o machado de um ombro para o outro, dirigiu-se ao vale, abrindo caminho, a passo ruidoso, por entre os pinheiros. Aquele “Passe bem, e muito agradecido”, que soara estranhamente através da solidão, fez sonhar o espírito de Hans Castorp, ainda tonto pela subida e pelo canto. Repetiu as palavras em voz baixa, procurando arremedar o dialeto gutural, singelo e solene do montanhês. Subiu um bom pedaço além da choça, na intenção de alcançar o limite das árvores. Mas um olhar ao relógio fez com que desistisse do projeto. Dobrou para a esquerda, rumo à aldeia, seguindo uma vereda que começava plana e depois descia. Acolheu-o um bosque de altas coníferas. Ao atravessá-lo, Hans Castorp voltou a cantar um pouco, ainda que cautelosamente. Mesmo assim tremiam-lhe os joelhos durante a descida ainda mais do que antes. Quando saiu do bosque, deteve-se, surpreso, diante de um quadro magnífico que se lhe descortinava, uma paisagem íntima e fechada, de plasticidade tranqüila e grandiosa.

Por um leito pedregoso, pouco profundo, precipitava-se um curso d'água pela encosta direita abaixo; saltava, escumando, os rochedos dispostos como que em terraços, e em seguida corria, num fluxo mais calmo, em direção ao vale, passando por baixo de uma pitoresca pontezinha, com um tosco parapeito de madeira. O solo parecia azul pelas flores campanuláceas de um arbusto que crescia em toda parte. Pinheiros sombrios, de troncos gigantescos e bem-proporcionados, viam-se ora isolados, ora em grupos, no fundo do desfiladeiro e nas encostas.

Um deles, arraigado obliquamente no alcantil à beira do arroio torrentoso, atravessava o panorama numa diagonal torta e excêntrica. Uma solidão cheia de rumores pairava sobre esse sítio isolado e formoso. Do outro lado do regato, Hans Castorp viu um banco que convidava ao repouso.

Transpôs a pontezinha e sentou-se, a fim de se divertir com o aspecto da cachoeira de águas espumantes e de lhes escutar o ruído idilicamente palrador, uniforme e todavia cheio de variação íntima. O murmúrio das águas – Hans Castorp adorava-o tanto quanto a música, e talvez ainda mais. Mas, apenas se pusera à vontade, começou a sangrar-lhe o nariz, tão de repente que não pôde evitar que se manchasse a sua roupa. A hemorragia era violenta e obstinada; durante meia hora, pouco mais ou menos, não parou de incomodá-lo, obrigando-o a ir e vir, sem cessar, entre o regato e o banco, para lavar o lenço, aspergir água e voltar a estender-se nas tábuas do assento, com o nariz coberto pelo lenço úmido. Quando finalmente o sangue estancou, permaneceu assim deitado, imóvel, com as mãos presas atrás da cabeça, e com os joelhos fletidos.

Tinha os olhos cerrados e os ouvidos cheios de zoadas. Contudo, não se sentia mal, antes acalmado pela copiosa sangria. Achava-se num estado de vitalidade singularmente diminuída; pois, cada vez que expelia o ar, durante algum tempo não experimentava nenhuma necessidade de aspirar outra vez; com o corpo em suspenso, deixava, com toda a calma, que seu coração palpitasse diversas vezes, antes que, tardia e indolentemente, voltasse a tomar fôlego.

Eis que, de súbito, se sentiu transportado para aquela fase remota da sua vida, em que se passara a cena original de um sonho remodelado em conformidade com impressões mais recentes, e que tivera poucas noites atrás... Vigorosa, irrestritamente, a ponto de olvidar o espaço e o tempo, sentiu-se ele arrebatado para aquela hora e aquele lugar, com tanta intensidade que se poderia dizer que no banco, junto da cachoeira, jazia um corpo inânime, ao passo que o verdadeiro Hans Castorp se encontrava longe dali, num ambiente e numa época muito distantes –

e ainda numa situação que, apesar da sua simplicidade, era para ele arriscada e lhe inebriava o coração.

Tinha então treze anos; era aluno do quarto ano do ginásio, um rapazote de calças curtas.

Achava-se no pátio da escola, a conversar com outro garoto, aproximadamente da mesma idade, mas que pertencia a outra série. Era por motivos bastante gratuitos que Hans Castorp entabulara essa conversa, que o alegrava sobremodo, posto que seu assunto objetivo e claramente delimitado a obrigasse a um máximo de brevidade. Isso se passava durante o recreio entre a penúltima e a última aula, aulas de história e de desenho, respectivamente, para a série de Hans Castorp. No pátio pavimentado de ladrilhos vermelhos e separado da rua por um muro coberto de telhas e provido de dois portões, os alunos passeavam em filas ou formavam grupos, encostando-se semi-sentados às saliências azulejadas do edifício. Entrecortavam-se numerosas vozes. Um professor, com um chapéu de abas largas, vigiava a rapaziada, enquanto comia um sanduíche de presunto.

O garoto com o qual Hans Castorp conversava chamava-se Hippe, e seu prenome era Pribislav. Acrescia a isso, como detalhe curioso, que o “r” desse prenome se pronunciava como

“ch”: dizia-se Pchibislav, e esse nome pouco comum condizia bem com o aspecto do rapaz, cujo tipo, longe de ser normal, era antes bastante exótico. Hippe, filho de um historiador e professor de ginásio, e por conseguinte um aluno modelar, já freqüentava a classe imediatamente acima da de Hans Castorp, se bem que fosse quase da mesma idade. Provinha de Mecklenburg, e sua pessoa constituía, evidentemente, o produto de uma antiga mistura de raças, com uma dose de sangue eslavo num recipiente germânico, ou vice-versa. Seus cabelos, aparados rente ao crânio redondo, eram louros, mas seus olhos, de uma cor entre o azul e o cinzento – era uma cor incerta, ambígua, qual a de uma cordilheira longínqua –, mostravam uma forma singular, estreita e, a rigor, até um pouco oblíqua; e sob esses olhos destacavam-se as maçãs, salientes e fortemente acentuadas. Essas feições, nada feias e mesmo bastante simpáticas, haviam valido a Hippe, entre os colegas, o apelido de “o Quirguiz”1. Hippe já usava calças compridas e uma jaqueta azul, cinturada nas costas e fechada até o pescoço, sobre cuja gola se percebiam habitualmente alguns vestígios de caspa.

Acontecia que Hans Castorp, desde muito tempo, fixara a sua atenção nesse Pribislav; escolhera-o em meio ao formigueiro de rostos conhecidos e desconhecidos que enchia o pátio; interessava-se por ele, acompanhava-o com os olhos e -será lícito dizer que o admirava? Em todo caso devotava-lhe um interesse especial e, ao dirigir-se à escola, já se regozijava com a idéia de observá-lo no trato com os companheiros de curso, de vê-lo falar e rir-se, e de distinguir-lhe de longe a voz no meio das outras, aquela voz agradável, velada e um tanto rouca. É forçoso admitir que não havia razão suficiente para essa simpatia, a não ser que se queira considerar como tal o prenome pagão, a qualidade de aluno modelar – cuja influência podemos excluir – ou finalmente os olhos quirguizes, olhos que às vezes (por ocasião de certos relances para o lado, que não se fixavam em nada) eram capazes de se envolver languidamente em trevas misteriosas. Fosse como fosse, Hans Castorp pouco se preocupava com a justificação intelectual dos seus sentimentos e ainda menos com o problema de encontrar uma denominação para eles. Indubitavelmente não se podia falar de amizade, já que ele nem sequer “conhecia” Hippe. Mas, em primeiro lugar, não havia a mínima necessidade de uma denominação, porquanto nem se pensava em falar de um assunto que não se prestava para isso nem requeria palavras. E em segundo lugar, uma denominação representa, se não uma crítica, ao menos uma definição, isto é, uma classificação na 1 Indivíduo dos quirguizes, povo de origem turca que habita a Rússia asiática. (N. do E.)

ordem das coisas conhecidas e habituais, ao passo que Hans Castorp estava compenetrado da convicção inconsciente de que um tesouro íntimo como esse devia ser preservado para sempre de tal definição e classificação.

Bem ou mal justificados, e em todo caso impróprios para qualquer denominação ou expressão verbal, eram esses sentimentos de tanta força vital, que Hans Castorp, já fazia um ano

– pouco mais ou menos, por ser impossível fixar a data do começo –, alimentava-os em silêncio, o que revelava, pelo menos, a fidelidade e a constância do seu caráter, levando-se em conta o lapso enorme de tempo que nessa idade representa um ano. Infelizmente as designações de qualidades de caráter contêm, via de regra, um julgamento moral, quer no sentido de um elogio, quer de uma censura, se bem que todas elas tenham dois aspectos. Quando examinamos, sem emitir nenhuma opinião acerca do seu valor, a tal “fidelidade” de Hans Castorp – da qual ele mesmo não se gabava absolutamente –, consistia ela em certa morosidade, lentidão e persistência do seu espírito, numa mentalidade fundamentalmente conservadora, que lhe afigurava as situações e as circunstâncias da vida tanto mais dignas de estabilidade e de simpatia quanto maior era a sua duração. Também se inclinava a crer na eternidade do estado particular e da disposição de alma em que se achava em determinado momento, e justamente por isso os apreciava, sem almejar nenhuma modificação. Assim se acostumara, no seu íntimo, a essa longínqua e silenciosa relação que o ligava a Pribislav Hippe, tomando-a no fundo por uma instituição permanente da sua vida. Adorava as emoções que ela acarretava, a curiosidade de saber se neste ou naquele dia o outro iria ou não a seu encontro, se passaria perto dele, ou talvez se lhe dirigiria um olhar; adorava essas satisfações tácitas e delicadas com que o brindava o seu segredo; adorava até mesmo as decepções inerentes ao caso, e dentre as quais a maior era verificar que Pribislav faltava à aula; então, o pátio parecia ermo; o dia, privado de todo sabor; e entretanto permanecia viva a esperança no futuro.

Isso durou um ano, até alcançar aquele apogeu crítico. Depois, continuou por mais um ano, graças à fidelidade conservadora de Hans Castorp, e por fim terminou, sem que ele notasse mais do afrouxamento e da dissolução dos laços que o ligavam a Pribislav Hippe do que notara da sua formação. Ademais, Pribislav abandonou o ginásio e a cidade, devido a uma transferência de seu pai; mas esse fato, Hans Castorp mal o percebeu. Pode-se dizer que o vulto do

“Quirguiz”, desprendendo-se imperceptivelmente de uma névoa, entrou na sua vida, onde ia adquirindo uma nitidez e um relevo cada vez mais intensos, até aquele instante no pátio, que representava o máximo de clareza e de corporeidade; que durante algum tempo se conservou assim no primeiro plano, e por fim, aos poucos, recuou, desaparecendo nas brumas, sem despertar nenhuma tristeza de despedida.

Esse instante, porém, a situação arriscada, cheia de aventuras, pela qual Hans Castorp novamente passava neste momento, a conversa, uma verdadeira conversa com Pribislav Hippe, produziu-se da seguinte forma: era antes da aula de desenho, e Hans Castorp verificou que não tinha lápis. Dos seus companheiros de curso, nenhum podia dispensar o seu. Mas, entre os alunos de outras séries, Hans Castorp tinha este ou aquele conhecido que lhe poderia suprir a falta. Dentre todos – achava ele – era Pribislav Hippe quem ele conhecia melhor; era-lhe mais familiar do que os outros esse rapaz com o qual, em silêncio, já se preocupara tantas vezes. E

com um impulso alegre de todo o seu ser, resolveu aproveitar a oportunidade – chamava a isso de oportunidade – e pedir a Pribislav Hippe que lhe emprestasse um lápis. Não percebeu que esse ato seria um tanto estranho, visto ele não conhecer Hippe em realidade; pelo menos não se importou com isso, obcecado por uma desconsideração singular. E assim aconteceu que, no meio da azáfama do pátio ladrilhado, se plantou diante de Pribislav Hippe e lhe disse:

– Perdão, você poderia emprestar-me um lápis?

E Pribislav fitou-o com seus olhos quirguizes, por cima das maçãs salientes. Respondeu-lhe então na sua voz simpática e velada, falando sem a mínima surpresa, ou, ao menos, sem manifestá-la.

– Com muito prazer – disse. – Mas você deve devolvê-lo sem falta depois da aula. – Com essas palavras tirou do bolso uma lapiseira prateada, com um anel que se devia empurrar para cima, para que o lápis vermelho apontasse do tubo metálico. Hippe explicou o mecanismo simples, enquanto as duas cabeças se inclinavam sobre o objeto.

– Cuidado para não quebrá-lo! – acrescentou.

Que idéia! Como se Hans Castorp pretendesse não devolver a lapiseira ou até tratá-la com descuido.

Depois, olharam-se sorrindo e, como nada mais restasse a dizer, deram lentamente meia-volta e separaram-se.

Foi tudo. Mas nunca na vida Hans Castorp sentira-se mais satisfeito do que naquela aula de desenho, ao trabalhar com o lápis de Pribislav Hippe, e com a perspectiva de entregá-lo, mais tarde, ao seu dono, como conseqüência natural e espontânea daquilo que haviam combinado.

Tomou a liberdade de apontar o lápis, e das lasquinhas vermelhas que sobraram, guardou três ou quatro durante quase um ano numa gaveta da sua carteira. Ninguém que as visse suspeitaria da sua importância. A devolução realizou-se, de resto, da forma mais simples possível, em perfeita conformidade com as intenções de Hans Castorp, que até se orgulhava um pouco desse fato, displicente e pretensioso que se tornara pela intimidade com Hippe.

– Tome – disse. – E muito obrigado.

Pribislav não respondeu nada; limitou-se a verificar rapidamente o mecanismo e meteu a lapiseira no bolso.

Depois disso, nunca mais voltaram a se falar. De qualquer maneira, porém, haviam se falado uma vez, graças ao espírito empreendedor de Hans Castorp...

Abriu os olhos, ainda confuso pela intensidade do seu arrebatamento. “Parece que sonhei!”, pensou. “Pois é, era Pribislav. Faz tempo que não lembro dele. Onde é que foram parar aquelas lasquinhas? A carteira está no sótão, na casa do tio Tienappel. Devem ainda estar na gavetinha esquerda. Não as tirei. Nem sequer lhes prestei a atenção suficiente para jogá-las fora...

Era Pribislav, em carne e osso. Eu nunca teria pensado que tornaria a vê-lo tão nitidamente.

Como se parecia com ela, com aquela mulher, ali do sanatório. Quem sabe se não é por isso que eu me interesso tanto por ela? Bobagem! Pura bobagem! Em todo caso está na hora de voltar, e bem depressa.” Ainda assim, permaneceu deitado por mais alguns instantes, cismando, absorto em recordações. “Pois então, passe bem, e muito agradecido”, disse e sorriu, com os olhos cheios de lágrimas. A seguir fez uma tentativa de se pôr a caminho. Mas logo tornou a sentar-se, com o chapéu e a bengala na mão, pois verificou que os joelhos não o sustentavam com firmeza.

“Epa!”, pensou. “Parece que não dá. Contudo, é preciso que eu esteja às onze em ponto na sala de refeições, para assistir à conferência. Os passeios aqui têm seus atrativos, mas têm também as suas dificuldades. Seja como for, não posso ficar aqui. Estou apenas com as pernas duras por ter ficado deitado durante tanto tempo! Com o movimento, isso vai melhorar.” Tentou mais uma vez pôr-se de pé e, com um sério esforço, conseguiu fazê-lo.

Mas, comparado com a partida briosa, o regresso não deixava de ser lamentável.

Repetidas vezes, Hans Castorp teve que descansar à beira do caminho, por sentir que seu rosto de súbito empalidecera, que sua testa estava banhada em suor frio, e que as palpitações desregradas do coração lhe tolhiam o fôlego. Penosamente se esfalfou na descida em ziguezague, e quando chegou ao vale, nas proximidades da estância, compreendeu com toda a clareza que lhe seria impossível percorrer com suas próprias forças o extenso trajeto até o Berghof. Como não houvesse condução coletiva, nem se enxergasse nenhum carro de aluguel, fez parar um carroceiro que conduzia rumo à aldeia uma carreta, cheia de caixotes vazios, e pediu-lhe que o deixasse subir. Sentou-se de costas para o homem, com as pernas pendendo para fora do veículo. Os transeuntes contemplavam-no com surpresa e compaixão, enquanto assim se deixava transportar, oscilando sob o efeito das sacudidelas, com a cabeça a balançar de sonolência. Perto da passagem de nível, desembarcou, deu ao carroceiro algumas moedas, sem reparar se eram muitas ou poucas, e galgou apressadamente a rampa sinuosa.

– Dépêchez-vous, monsieur – disse o porteiro francês. – La conférence de M. Krokowski vient de commencer. – Hans Castorp atirou o chapéu e a bengala ao moço encarregado do vestiário e, com a língua entre os dentes, esgueirou-se depressa, e todavia cautelosamente, pela porta entreaberta da sala de refeições, onde os pensionistas se haviam agrupado em cadeiras dispostas em filas, enquanto à direita, atrás de uma mesa guarnecida de uma garrafa de água, o Dr. Krokowski, vestido de sobrecasaca, já começara a falar.

Análise

Perto da porta havia, felizmente, uma vaga no último lugar de uma fila. Sentou-se discretamente e procurou fingir ter ocupado essa cadeira desde o princípio. O público, bebendo as palavras do Dr. Krokowski com a intensa atenção dos primeiros instantes, mal reparou no jovem; ainda bem, porque Hans Castorp oferecia um aspecto terrível. Seu rosto estava lívido como linho, e suas roupas, manchadas de sangue, de modo que ele parecia um assassino que acabara de cometer um crime. A senhora sentada à sua frente voltou, entretanto, a cabeça e examinou-o com uns olhos rasgados. Era Mme.. Chauchat, como Hans Castorp reconheceu com uma espécie de enfado. Com a breca! Não o podiam deixar em paz? Tencionara sentar-se sossegadamente, uma vez o objetivo alcançado, e refazer-se um pouquinho; e agora lhe acontecia estar face a face justamente com essa mulher. Tal casualidade, em outra ocasião, talvez lhe causasse satisfação; mas, exausto e derreado como se sentia, que lhe importava o fato, que apenas fazia novas exigências ao seu coração e o irritaria durante toda a conferência? E os olhos com que ela o olhara eram exatamente os de Pribislav; contemplara-lhe o rosto e as manchas de sangue no casaco, e fizera-o com uma insistência bastante indiscreta e petulante, que se harmonizava bem com as maneiras de uma pessoa que batia a porta com estrondo. Como era desajeitada a postura dela! Completamente diversa daquela que guardavam as senhoras da esfera familiar a Hans Castorp; estas se mantinham eretas na cadeira e dirigiam a cabeça para o vizinho de mesa, enquanto falavam com as pontas dos lábios. Mme.. Chauchat, porém, estava sentada numa atitude lassa, relaxada, com as costas redondas e os ombros caídos, e ainda pendia a cabeça para a frente, a ponto de deixar saliente a vértebra da nuca, por cima do decote da blusa branca.

Também Pribislav mantinha a cabeça da mesma forma, mas ele era um aluno modelar que se conduzia com todas as honras – muito embora não fosse este o motivo por que Hans Castorp lhe pedira o lápis –, ao passo que era claro e evidente que a postura negligente de Mme..

Chauchat, o seu jeito de bater a porta e a indiscrição do seu olhar, tinham relação com a sua enfermidade; até mesmo se expressavam em tudo isso aquele desembaraço e aquelas vantagens, talvez pouco honrosas, mas deveras ilimitadas, de que se ufanara o jovem Sr. Albin...

Perturbaram-se os pensamentos de Hans Castorp, enquanto fitava as costas indolentes de Mme.. Chauchat. Cessando de ser pensamentos, transformaram-se em devaneios, nos quais penetrava como de longe o barítono arrastado do Dr. Krokowski, com os “r” brandos, pronunciados em surdina. Mas o silêncio que reinava na sala, a profunda atenção que parecia enfeitiçar a todos em redor, exerceram seus efeitos sobre ele e como que o despertaram da sua modorra. Olhou em torno de si... A seu lado achava-se o pianista de cabelos ralos, com a cabeça inclinada para trás, escutando de boca entreaberta e de braços cruzados. A Srta. Engelhart, a professora, sentada a alguma distância, tinha nos olhos uma expressão de avidez, e em ambas as faces manchas avermelhadas – fenômeno que se repetia nos rostos das demais senhoras que Hans Castorp observou. Notou-o nos semblantes da Srª. Salomon, ali, ao lado do Sr. Albin, e da mulher do cervejeiro, Srª. Magnus, aquela que perdia proteínas. Sobre a fisionomia da Srª. Stöhr, um pouco mais para trás, refletia-se um êxtase tão cheio de ignorância que até causava dó, enquanto a Srta. Levi, a da pele de marfim, recostando-se no espaldar, com os olhos semicerrados e as mãos espalmadas no regaço, pareceria uma defunta, não fosse o movimento de vaivém, forte e rítmico, do seu peito, o que lembrava a Hans Castorp uma figura de cera que ele vira tempos atrás num museu, e que tinha um mecanismo interior. Alguns pensionistas punham a mão em

concha contra o ouvido, ou, pelo menos, fingiam esse gesto, ficando com a destra erguida em sua direção, como se a atenção os tivesse paralisado no meio do movimento. O Sr. Paravant, promotor público, um homem trigueiro de aparência sumamente robusta, até coçou a orelha com o dedo indicador, para fazer com que ouvisse melhor, e logo voltou a submetê-la à verborréia do Dr. Krokowski.

De que falava, afinal, o Dr. Krokowski? Que tema estava desenvolvendo? Hans Castorp procurou concentrar seu espírito, a fim de apanhar o fio da palestra, porém não o conseguiu imediatamente, visto não ter ouvido o princípio e ter perdido ainda outras passagens, depois, ao refletir acerca das costas lassas de Mme.. Chauchat. Tratava-se de uma potência... daquela potência... Numa palavra, tratava-se da potência do amor, “Liebe”. Claro! O assunto estava indicado pelo título geral do ciclo de conferências, e de que mais poderia falar o Dr. Krokowski, desde que esta era a sua especialidade? Verdade é que parecia um tanto estranho a Hans Castorp assistir, assim subitamente, a uma preleção sobre o amor, já que os cursos que ele seguira antes haviam-se ocupado apenas de assuntos como a transmissão de rodas denteadas nas construções náuticas. Como se arranjava o conferencista para expor em pleno dia, a um público de cavalheiros e senhoras, um assunto de natureza tão confidencial e espinhosa? O Dr. Krokowski expunha-o num linguajar misto, entre poético e erudito, rigorosamente científico e, ao mesmo tempo, vibrante como um hino. Esse tom despertava no jovem Hans Castorp a impressão de uma certa falta de ordem, mas talvez fosse justamente ele o que esquentava as faces das damas e fazia os senhores cocarem as orelhas. Em particular, o orador empregava o termo “Liebe” num sentido levemente ambíguo, de modo que nunca ficava claro o que se devia pensar das suas palavras, nem se elas se referiam a um sentimento piedoso ou a uma paixão carnal; vacilação que produzia uma espécie de enjôo. Nunca na vida ouvira Hans Castorp pronunciar esse vocábulo tantas vezes seguidas como nessa hora e nesse lugar, e ao refletir sobre esse fato, até achava que ele próprio jamais se servira dessa palavra e nem a ouvira de boca estranha. Talvez estivesse errado, mas, em todo caso, não lhe parecia que o vocábulo “Liebe” ganhasse com tanta repetição.

Pelo contrário, essa sílaba e meia, já em si um tanto escabrosa, com as consoantes lingual e labial, e com a vogal balante no meio, acabou por se lhe tornar bastante repelente. Ligava-se a ela uma representação parecida com leite aguado, qualquer coisa entre branco e azulado, tanto mais insípida em comparação com todas as idéias vigorosas que o Dr. Krokowski estava apresentando a seu respeito. Pois era evidente que, na forma que ele usava, podiam-se dizer coisas bem fortes sem que o público saísse da sala. Absolutamente não se limitava a discutir, com uma espécie de tato inebriante, assuntos comumente conhecidos, mas nos quais a maioria das pessoas prefere não tocar. Destruía ilusões; implacavelmente fazia prevalecer o conhecimento; não deixava espaço para a fé sentimental na dignidade dos cabelos prateados ou na pureza angélica da criança tenra. Trazia, aliás, com a sobrecasaca, o mesmo tipo de colarinho amplo e as sandálias por cima das meias cinzentas, o que dava uma impressão de idealismo e princípios firmes, se bem que Hans Castorp se assustasse um pouco com esse aspecto. Valendo-se de livros e folhas soltas, espalhadas sobre a mesa, documentava o Dr. Krokowski as suas exposições por meio de toda espécie de paradigmas e anedotas, chegando até, às vezes, a recitar versos. Discursava acerca das formas tenebrosas do amor e das variedades excêntricas, dolorosas e sinistras, da sua índole e da sua onipotência. Entre todos os instintos existentes na natureza – disse ele – era o amor o mais vacilante e o mais ameaçado, fundamentalmente propenso à aberração e à perversão fatal. Nesse fato não havia nada de surpreendente, uma vez que esse impulso poderoso não era uma coisa simples, senão que infinitamente composta por natureza. Por mais legítimo que ele parecesse no seu conjunto, o que o compunha era justamente uma série de perversões. Mas, desde que acertadamente – assim continuou o conferencista –, desde que com muita razão se negava que do absurdo das partes fosse deduzido o absurdo do todo, era inevitável a conclusão que atribuía parte daquela legitimidade do todo, senão toda ela, também à perversão que compunha esse todo.

Era isso uma exigência da lógica, da qual, segundo o orador, os ouvintes deviam compenetrar-se.

Havia resistências íntimas e corretivos psíquicos, instintos decentes e coordenadores, de um

caráter que o Dr. Krokowski quase se sentia tentado a qualificar de burguês, e sob o efeito compensador e restritivo desses instintos as partes perversas eram fundidas num todo útil e irrepreensível; processo freqüente e simpático, cujo resultado, porém (como o orador acrescentou com certo desdém), não tinha nenhuma importância para o médico e o filósofo. Em outros casos, entretanto, malograva o referido processo; não havia jeito de levá-lo a bom termo. E quem

– assim perguntou o Dr. Krokowski -seria capaz de dizer se esses últimos casos não eram os mais nobres, os psicologicamente mais valiosos? Existia então uma tensão extraordinária, uma paixão que ultrapassava as medidas habituais, burguesas, e essa tensão se fazia sentir entre os dois grupos de forças que eram a necessidade de amor e os impulsos contrários, dentre os quais cumpria mencionar a vergonha e o asco. Travada nos abismos da alma, essa luta impedia, nos ditos casos, que os instintos extraviados chegassem a ser abrigados, protegidos e moralizados, daquele modo que conduzia à harmonia usual e à vida erótica regular. E como terminava esse combate – pois tratava-se de um combate – entre as potências da castidade e do amor? Terminava, aparentemente, com a vitória da castidade. O medo, as conveniências, a repugnância pudica, o trêmulo desejo de pureza – todos eles oprimiam o amor, mantinham-no agriIhoado, nas trevas, davam acesso à consciência e à atividade, quando muito a uma parte, jamais, porém, ao todo múltiplo e vigoroso das suas reivindicações confusas. No entanto, essa vitória da castidade não era mais que aparente, não passava de uma vitória de Pirro, pois a potência do amor não se deixava reprimir nem violentar, o amor oprimido não estava morto, não; vivia, continuava, nas trevas, no mais profundo segredo, a almejar a sua realização, rompia o círculo mágico da castidade e ressurgia, ainda que sob forma metamorfoseada, dificílima de reconhecer... E qual era, afinal, a forma e a máscara que usava o amor vedado e oprimido na sua reaparição? Assim perguntou o Dr. Krokowski, e deixou o seu olhar passar ao longo das filas, como se esperasse seriamente uma resposta dos seus ouvintes. Ora, essa resposta teria de ser dada por ele mesmo, que já dissera tantas outras coisas. Ninguém, exceto ele, sabia-a; mas ele não falharia, isso se notava na sua expressão. Com os seus olhos ardentes, sua palidez de cera, sua barba negra, e as sandálias de monge por cima das meias de lã cinzenta, parecia simbolizar, na sua própria pessoa, aquela luta entre a castidade e a paixão de que acabava de falar. Ao menos era essa a impressão de Hans Castorp, enquanto, como todos os demais, esperava com suma curiosidade ficar sabendo sob que forma voltava o amor rechaçado. As mulheres mal se atreviam a respirar. O Promotor Paravant mais uma vez cocou a orelha, para que, no instante decisivo, ela se tornasse aberta e acolhedora. Eis o que disse o Dr. Krokowski:

– Sob a forma de doença. O sintoma da doença nada é senão a manifestação disfarçada da potência do amor; e toda doença é apenas amor transformado.

Agora sabiam o segredo, se bem que nem todos fossem capazes de apreciá-lo devidamente. Um suspiro percorreu a sala, e o Promotor Paravant meneou a cabeça num gesto significativo de aprovação, enquanto o Dr. Krokowski prosseguia desenvolvendo a sua tese.

Hans Castorp, por sua vez, baixou a cabeça, a fim de refletir sobre o que ouvira e de perguntar-se a si próprio se compreendera. Mas ele tinha pouca prática nesse tipo de exercícios mentais e, além disso, pouca presença de espírito, devido àquele passeio infeliz. Assim, sua atenção distraía-se facilmente, e de fato se concentrou logo nas costas de Mme.. Chauchat, que ele via à sua frente, bem como no braço que se elevava e inclinava para trás, para que a mão, diante dos olhos de Hans Castorp, sustentasse, de baixo, os cabelos em trança.

Era angustiante ter essa mão tão perto dos olhos. Quisesse ele ou não, tinha de olhá-la, estudá-la com todos os defeitos e particularidades humanas que lhe eram inerentes, como se ela estivesse sob uma lente. Não, não havia nada de aristocrático nessa curta mão de colegial, com as unhas aparadas de qualquer jeito. Nem sequer se tinha certeza de que estivesse perfeitamente limpa nos nós dos dedos, e a pele ao lado das unhas estava roída – a esse respeito não existia a menor dúvida. Hans Castorp fez uma careta, e todavia os seus olhos continuaram fixos na mão de Mme.. Chauchat. Passou-lhe pelo cérebro uma vaga e incompleta lembrança daquilo que dissera o Dr. Krokowski sobre as resistências burguesas que se opunham ao amor... O braço era

mais belo, esse braço suavemente dobrado atrás da cabeça, e quase desnudo, já que a fazenda das mangas, uma levíssima cambraia, era mais fina do que a da blusa, de maneira que apenas propiciava uma espécie de vaporosa auréola ao braço, que sem ela talvez fosse menos gracioso.

Era ele ao mesmo tempo delicado, gordo e -segundo todas as probabilidades – frio ao tato. No que lhe dizia respeito, absolutamente não entravam em ação as referidas resistências burguesas.