A Tríade do Tempo
APÊNDICE A – Livre-se das circunstâncias: Aprenda a dizer NÃO!
APÊNDICE A
Livre-se das circunstâncias:
Aprenda a dizer NÃO!
Você já se deu conta de quantos “sim” você diz quando sua vontade de fato é dizer “não”? Quando isso acontece, acabamos experimentando uma profunda sensação de desgosto, raiva e frustração. Mesmo assim, é difícil aprender: esse tipo de situação é tão comum que acaba se tornando um grande ladrão de tempo na nossa vida. E, pior do que isso, nos mantém reféns da esfera das circunstâncias.
As razões para dizer “sim” na hora errada são as mais variadas possíveis. Sentimos uma espécie de necessidade de ser sempre solícitos e agradáveis. Fazemos nossa parte para manter nossas amizades. Temos medo de decepcionar as pessoas. Outro motivo muito comum é o medo de assumir o controle da situação: quando respondemos “sim” às demandas alheias, nos calamos diante de nossas próprias decisões. Não importa os motivos. Cada um tem os seus – mas quando respondemos de forma positiva a algo cuja resposta deveria ser negativa, estamos terceirizando nossa administração pessoal. E isso é grave.
Sabe aquela sensação de alívio que aparece sempre que resolvemos um assunto problemático? Ela é a mesma que desfrutamos quando aprendemos a dizer “não” no momento certo! Essas três letras têm um poder incrível. São capazes de afastar as circunstâncias de nossas vidas e de trazer o controle para nossas mãos.
No início de 2004, eu passei por um grande dilema em minha vida profissional. Meu amigo e professor coordenador do curso de Ciências da Computação da minha faculdade, Tenório, me ligou com um convite. “Tenho uma pergunta para você, mas a única resposta possível é sim!” Na mesma hora, me veio uma sensação de culpa. Talvez meu amigo precisasse de algo que não estava a meu alcance. Ele continuou: “Estamos precisando de um professor para assumir três cadeiras, nos cursos de Ciências da Computação, de Engenharia e de Sistemas da Informação. Você tem a experiência profissional e o perfil de que preciso para o cargo!”
O convite soou como música para mim. Uma de minhas metas de longo prazo sempre foi ser professor universitário. Sempre tive prazer em dar aulas e esse ponto foi incluído muito cedo em meu planejamento pessoal. O convite chegou alguns anos antes do prazo que eu havia estipulado para realizá-la e, ao ouvi-lo, quase pulei da cadeira. Sem pensar muito, disse: “Claro! Sim!” Mal sabia que meus problemas estavam apenas começando.
No dia seguinte fui à faculdade ver a grade de aulas e a ementa das matérias. Pela programação, eu teria de dedicar quatro dias semanais a essa atividade. Além disso, mesmo tendo um bom conhecimento das disciplinas, eu teria de preparar as aulas. E apenas duas semanas me separavam do início do período letivo.
De acordo com o meu planejamento anual, minhas metas e projetos para aquele ano, seria impossível assumir o compromisso a menos que eu comprometesse algumas prioridades. Decidi que não aceitaria o convite. Peguei o telefone para ligar para o Tenório. No mesmo instante, o telefone tocou, era ele. Empolgado, meu amigo foi logo informando: “O diretor do curso e a reitora da universidade já aceitaram sua indicação e irão antecipar sua colação de grau para isso…” Pronto! Gaguejei, enrolei, disse que teria de pensar melhor, mas não consegui dizer a palavra mágica “não”. A partir desse dia, meu sono acabou! Fiquei preocupado, com medo de recusar o convite e perder a oportunidade. Ao mesmo tempo, estava me condenando pela possibilidade de cancelar algumas metas importantes que havia planejado.
No dia seguinte, procurei na internet se existia algum material público que eu pudesse utilizar e a bibliografia recomendada para as disciplinas. Preocupado, voltei à faculdade para consultar a biblioteca e checar a literatura recomendada. Descobri que, por se tratar de uma matéria incluída há pouco tempo na grade, não havia títulos disponíveis na biblioteca. Visitei algumas livrarias e também não obtive sucesso.
A sensação de mal-estar apenas crescia. Eu me sentia cada vez mais tenso e preocupado com a situação. O problema maior não eram as aulas em si, mas a dedicação de tempo. Aquilo comprometeria vários de meus projetos pessoais. Eu sempre fui muito disciplinado na questão de dizer “não”. Nunca tive muitos problemas com isso. Mas dessa vez estava caindo na terrível armadilha da qual tanto me precavia. Instantaneamente, alguns sintomas físicos surgiram. A insônia começou. Vieram as dores lombares e a dor de garganta. Nessa hora, pensei: “Não posso ir contra as coisas mais importantes da minha vida, mesmo sendo uma meta. Por pior que possa ser para nossa amizade, preciso dizer não!”
No dia da minha antecipação de colação, conversei com o Tenório e disse que não poderia assumir as aulas. Expliquei os motivos com sinceridade. Agradeci a oportunidade e pedi desculpas por qualquer inconveniente. Foram apenas três dias entre o “sim” e o “não”. De forma quase inacreditável, as dores passaram. Tive uma grande sensação de alívio e fiquei feliz por ter permanecido na esfera da importância, e não das circunstâncias! Ainda não desisti da ideia. Em uma oportunidade futura, com o devido planejamento e tempo, com certeza irei aceitar esse desafio.
Saber dizer não com maestria é uma arte dominada por poucos. É um desafio que só será legítimo se for praticado com muito amor, sinceridade e honestidade. Dita de forma agressiva, a palavra “não” pode causar problemas que poderão acompanhá-lo pela vida inteira. Dita da forma certa, tem efeitos positivos impressionantes. A primeira – e principal – regra a seguir é: nunca diga “sim” para quem quer que seja se, por dentro, você quer mesmo é dizer “não”. Você certamente conhece algumas formas de dizer não. Vou tentar acrescentar mais algumas à sua lista:
1. Nunca se acanhe em dizer não. Você não precisa ser bonzinho para os outros nem se
mostrar sempre disponível. Na verdade, todo mundo tem problemas em dizer não. A capacidade de dizer essa palavra costuma ser vista com admiração inclusive pela pessoa que a ouve. Ela, na verdade, gostaria de ter a mesma disciplina.
2. Essa eu aprendi na experiência que contei anteriormente. Não adie: vá direto ao ponto.
Pode doer, mas é melhor. Atrasar a comunicação do não quando a decisão já está tomada apenas prolonga o sofrimento. Um não bem dito logo no início do processo pode poupar muitos aborrecimentos (e dores!).
3. Evite inventar desculpas ou dizer mentiras na hora de dizer não. Se tiver uma justificativa
fundamentada em fatos, você deve utilizá-la, com certeza. Mas lembre-se de que você não deve aos outros explicações nem precisa se desculpar por suas escolhas. Você está no comando! Dê uma resposta amigável, com um sorriso. E evite entrar em um debate ou discussão sobre as razões de sua decisão.
4. Use o corpo para dizer não. Quando a pessoa estiver fazendo aquele convite que você não
pretende aceitar, comece a torcer o nariz, contorcer a boca e franzir a testa de forma discreta antes que ela termine de falar. Esses movimentos já dão a entender para o seu interlocutor que você não está de acordo com a proposta. Isso tornará o “não” uma palavra natural e até mesmo esperada.
5. Faça um acordo mental com você. A partir do momento que você decidiu que não quer
algo, prometa a si mesmo que manterá essa posição. Essa pequena atitude reafirma em seu íntimo a importância da sua resposta e evita os conflitos internos.
6. E se o não tiver de ser dito ao seu superior? A melhor forma, nesse caso, é mostrar a ele
sua lista de prioridades profissionais e deixar que ele resolva o que é mais importante. Se o que ele estiver propondo for algo pessoal (um convite para uma festa, para uma happy hour ou, em casos mais extremos, até mesmo uma insinuação ou uma cantada), você terá de avaliar a situação. E dizer seu “não” da forma mais direta possível.
Algumas frases educadas, calmas e práticas podem ajudá-lo a dizer “não”de forma mais fácil e prática:
• Não, obrigado!
• Desculpe, mas eu não estou fazendo mais nenhum projeto voluntário (ou de caridade,
importante, gratuito, etc.) neste momento da minha vida.
• Estou dedicando meus fins de semana ao relacionamento com a família. • Não me sinto preparado para esse projeto neste momento. • Desculpe, mas tenho outras prioridades neste momento. • Esse tipo de atividade foge ao foco de atuação que planejei.
• Posso mostrar a você como fazer em vez de assumir isto neste momento. • Eu tenho tantos compromissos neste momento que não posso me comprometer com mais
nada.
• Neste momento, não poderei ajudá-lo.
• Obrigado, esse é o tipo de coisa que eu adoraria fazer se tivesse mais tempo livre.
Não existem regras para se dizer “não”. Já li alguns livros interessantes sobre o assunto. Eles ajudam a complementar a disciplina de administração pessoal. Este apêndice traz apenas alguns highlights, pois o assunto é bem extenso. O que precisa ficar claro é que o ponto de partida para dizer “não” é responder com sinceridade primeiro para você mesmo: quero realmente dizer “não”? Essa atividade vai me trazer algum benefício? Tenho tempo disponível para isso, sem comprometer meus planos? Está relacionado com a minha missão ou minha identidade? Caso alguma dessas respostas seja não, então não hesite em dizer “não” ou estará indo contra seus próprios princípios! A melhor forma de dizer “não” para os outros é dizer sempre “sim” para você mesmo.