Adolpho Lutz: entomologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 23 de 70

Páginas do PDF

Adolpho Lutz: entomologia

Notas dipterológicas. A propósito da Mydaea piei MacQuart

Notas dipterológicas: a propósito da

Mydaea pici * MacQuart

 

Sob o título “Mydaea anomala Jaennike, a parasite of South-American birds”, o dr. J. C. Nielsen publicou, em Vidensk. Meddel. fra den naturh. Foren. (Kjoebenhaven, 1911) um artigo, ilustrado com várias fotografias. Duas destas representam pássaros parasitados, determinados como Spermophila gutturalis e Mimus modulator.

Já há muito tempo que observamos casos deste parasitismo que, em certas regiões, ocorre com bastante freqüência nos filhotes de pássaros insessores. Apenas aguardávamos a ocasião de fazer desenhar nosso material e um de nós (dr. Neiva) já reuniu toda a bibliografia sobre este assunto. Aproveitamos da ocasião, oferecida pela publicação do dr. Nielsen, para darmos uma nota sobre a nomenclatura do díptero.

Nielsen diz, à p.206, citando a autoridade de Brauer: “but the late Austrian dipterist Fr. Brauer identifies it with Mesembrina anomala Jaennike whose type is found in the collection von Heyden, now in the possession of the museum of Vienna”. Salientamos uma citação anterior que também se refere a Brauer e que resolve de outro modo a nomenclatura desta mosca.

Nos Archivos do Museu Nacional etc., p.153, Miranda Ribeiro publicou, em 1901, sob a epígrafe “Sobre a Mydaea pici MacQ.”, interessante trabalho, contendo as suas pesquisas sobre moscas, obtidas de larvas que parasitavam a pele de filhotes de Peristera rufaxilla. Na impossibilidade de determinar a espécie, mandou os dípteros ao prof. Hoseph Mik, que, por sua vez, teve de pedir o auxílio de Brauer.

Na carta abaixo, transcrita da versão portuguesa, dada por M. Ribeiro, o prof. Mik esclareceu a questão:

“A mosca foi descrita e desenhada por MacQuart nos Annal. Soc. Entom. de France, 1853, p.657, 660 e pl.XX, n.II. Ele denominou-a Aricia pici MacQ., por ter ela1 sido encontrada no Picus striatus. Mais tarde Jaennike descreveu-a como Mesembrina anomala nos Abhandl. d. Senkenb. naturforsch. Gesellschaft. Band VI, 1866-1867, p.377, como proveniente de Cuba. Encontra-se também aí uma boa ilustração (Taf. 44, Fig. 4). Ainda mais tarde Blanchard escreveu um artigo sobre a mesma mosca (“Contributions à l'étude des diptères parasites”, nos Annal. Soc. Entom. de France, 1896, p.652). Encontra-se aí uma magnífica ilustração colorida, pl. 17, Fig. 5-9. O inseto era dado como proveniente do Oriolus cayennensis e O. mexicanus.

Devo-lhe comunicar que não me foi lá muito fácil determinar a sua mosca na vasta literatura dipterológica. Esperava encontrá-la na grande coleção do Real e Imperial Museu de História Natural.

O diretor deste Museu, o dr. Brauer, lembra-se de ter recebido para determinar do sr. Blanchard, de Paris, há um ano, uma mosca de aspecto semelhante, que era a Aricia pici MacQ.

As observações de Brauer estão mencionadas no belo trabalho de Blanchard (“Contributions...”, etc.).

Encontra-se, entretanto, no Museu de Viena o exemplar tipo da Mesembrina anomala de Jaennicke, e não há dúvida alguma que o seu identifica-se completamente com ele. Jaennicke deixou-se enganar pelos costumes do inseto e determinou- o erradamente como Mesembrina.

Quanto à sua colocação, pertence ela aos antomiídeos, possuindo uma vasta área de dispersão (São Domingos, Cuba, Brasil). Não está mais no gênero Aricia, pois que as espécies deste gênero têm os olhos de pequeno tamanho e mais espessamente vilosos, o que não acontece com a Aricia pici MacQ.

Coloco o seu díptero no gênero Mydaea Rob. Desv. Conquanto alguns dipterólogos o tenham incluído no gênero Spilogaster, pode-se perfeitamente separálo deste. Spilogaster, sensu strictiori, tem visíveis manchas escuras no abdome, enquanto esta parte do corpo no gênero Mydaea é completamente imaculada.

O dipterólogo inglês Meade, estabeleceu2 o gênero Mydaea (vide o Entom. Monthly Mag., 1881, p.27). Se Meade, loc. cit., diz sobre Mydaea “Eyes bare” não deve o senhor tomar esta frase ao pé da letra; ele refere também espécies de Mydaea da Europa que têm os olhos tão pouco vilosos que parecem nus, como na Aricia pici.

Das minhas pesquisas resultam as seguintes sinonímias:

Mydaea pici MacQ. (Teste Mik.)

Sinônimo Aricia pici MacQ.

Mesembrina anomala Jaenn.

Spilogaster pici MacQ. in Blanchard. (Teste Brauer)

Se a respeito publicar alguma coisa, peço-lhe não se esquecer de dizer que Brauer auxiliou a determinação da espécie da sua mosca, que eu identifico com o tipo de Jaennicke e coloco no gênero Mydaea.”

Pelo exposto, vê-se que o díptero em questão deverá ser assim chamado:

Mydaea pici MacQuart – 1853.

Sinonímia:Mesembrina anomala (Teste Brauer) Jaennicke 1866.

Aricia pici MacQ.

Spilogaster anomalus Blanchard 1896.

Mydaea anomala Jaenn.-Nielsen 1911.

Spilogaster anomala Br u. Bergst.-Aldrich 1905.

Mydaea spermophilae Townsend 1902.

Mydaea spermophilae Townsend-Aldrich 1905.

Hylemyia pici MacQ.-Aldrich 1905.

Hylemyia angustifrons Loew 1861.

Hylemyia pici Ost.-Sack 1878.

Pelas informações de Mogensen, que remeteu da Argentina material para Nielsen, os parasitos parecem causar pouco mal aos hospedeiros; este fato está de completo acordo com as nossas observações. O dr. Ruy Ladisláo, que a nosso pedido colecionou grande material de larvas, pupas e adultos por ele criados, registrou um caso de um filhote de guaxe (Cassicus haemorrhous ) crescido, portador de 154 larvas. Certo, isto constitui caso extraordinário; comumente, porém, os pássaros hospedam de seis a dez larvas quase do mesmo tamanho, o que indica que o inseto faz posturas parceladas, como se observa para Dermatobia. Nos pássaros muito parasitados pode-se encontrar, porém, larvas de todas as idades e, no caso acima citado, as partes do corpo, onde eram encontrados em maior número, foram: regiões axilares, fêmures, tíbia e uropígio. O mesmo colega pôde observar a seguinte particularidade: as larvas adultas conservam sempre os estigmas no nível do orifício cutâneo, circunstância que as torna muito aparentes, ao passo que as larvas, até certo tamanho, encontram-se sob a pele, distantes do orifício da loja. As larvas, quando muito pequenas, são encontradas juntas; quando maiores, isto nunca se observa, pois são uniloculares. Em regra geral a cabeça e as asas são os pontos que com mais freqüência são atacados. As larvas formam casulo e transformam-se em pupas no ninho e até sob a terra, ao cabo de onze dias, na média, o que está de acordo com as observações de Miranda Ribeiro e Busck; Mogensen observou a transformação última apenas em cinco a seis dias, o que nos parece muito curto prazo. Temos várias outras observações em parte já bem antigas. Existem outras na literatura cuja citação deixamos para um trabalho mais minucioso.

Queremos, todavia, observar que a infecção parece obter-se somente no ninho, faltando por isso nos pássaros adultos.

 

* Trabalho de Adolpho Lutz e Arthur Neiva publicado em 1912 nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (t.4, fasc.1, p.130-5), em português e alemão (duas colunas), neste último idioma com o título “Dipterologische Mitteilungen”. No final do trabalho – o quarto feito em colaboração entre os dois autores – consta o local e a data em que foi finalizado: Manguinhos, maio 1912. [N.E.] Quer dizer, a larva. [N.A.]

2 Quer dizer, definiu. [N.A.]