Adolpho Lutz: entomologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 51 de 70

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Adolpho Lutz: entomologia

Zoologia médica. Nematóceros hematófagos não pertencentes aos culicídeos

Zoologia médica. Nematóceros

hematófagos não pertencentes aos

culicídeos *

 

Entre os nematóceros hematófagos, os culicídeos ocupam o primeiro lugar, tanto pelo grande número e a vasta distribuição das suas espécies, como pela importância de seu papel de transmissores na patologia humana. Todavia, há mais três famílias que incluem espécies hematófagas e merecem ser estudadas.

Entre estas coloco, em primeiro lugar, as Psychodida, que mais se parecem com os culicídeos e são também nematóceros veros, dotados de antenas compridas. Das duas outras famílias, as Chironomidae com a subfamília Ceratopogoninae também são nematocera vera, mas os simuliídeos têm antenas com artículos curtos e pertencem ao Nematocera anomala.

Todas estas espécies de sugadores de sangue têm sido confundidas sob o nome de sandflies, que significa moscas de areia. Julgo que este nome só se deve reservar aos cerapotogonídeos do gênero culicóides, conhecidos entre nós pelo nome de maruim. Todavia, na falta de outro nome popular, sandfly é muito usado para o gênero Phlebotomus.

Os caracteres mais importantes dos nematóceros que não são culicídeos achamse reunidos em um quadro, o que permite facilmente determinar a família de qualquer espécie. Além disso, darei algumas notas sobre as três famílias.

Psychodidae: a família das Psychodidae inclui espécies bastante diferentes no aspecto e nos caracteres, mas reunidos pela nervatura da asas. São todos pequenos, com asas relativamente grandes. Os membros são geralmente curtos e alongados apenas em Phlebotomus e gêneros aliados. As imagos são peludas e podem apresentar escamas, mas nunca nas asas. Estas têm a nervatura completa com as transversais perto da base, de modo que as nervuras longitudinais pouco divergem. Entre nós apenas as fêmeas de Phlebotomus sugam sangue.

As larvas das Psychodidae são aquáticas ou terrestres. As de Phlebotomus são pouco conhecidas, porque, sem dúvida, são todas terrestres; fogem da luz e vivem muito escondidas na terra, em interstícios de pedras ou em outros lugares abrigados onde encontram substâncias orgânicas para se alimentar. Muitas larvas de Psychodidae preferem materiais um pouco pútridos; algumas se alimentam com algas, diatomáceas e outros organismos pequenos, encontrados em águas mais puras. Há espécies bambusícolas e bromelícolas.

As pupas mostram pouca mobilidade.

O gênero Phlebotomus: das Psychodidae observadas entre nós somente o gênero Phlebotomus é hematófago.

Como sempre nos nematóceros, a hematofagia só se observa nas fêmeas.

Estas se parecem bastante com os machos, mas distinguem-se facilmente pela conformação da parte posterior do corpo, onde há apenas dois lóbulos, quando no macho existe um complicado aparelho de preensão que mostra, de cada lado, uma pinça dorsal biarticulada, outra peça ventral curvada para cima e uma intermediária simples ou ramificada. Este aparelho varia em forma e dimensões, e carrega garras alongadas, cerdas e tufos de pêlos, em número e disposição bastante variada nas diferentes espécies que assim serão facilmente reconhecidas. As fêmeas podem, algumas vezes, ser classificadas pelas escamas e pela disposição dos pêlos no dorso do abdome; geralmente a proporção relativa dos artículos palpais deve servir para distinguir as várias espécies que ocorrem na mesma zona. A cor e o tamanho dos indivíduos que não sugaram sangue é sempre pouco intensa, geralmente amarelada, o que deu origem ao nome de mosquito palha.

A cor mais ou menos enegrecida que se observa em certos indivíduos é devida a uma pigmentação por sangue anteriormente absorvido.

A picada dos Phlebotomus é bastante sensível. A reação pode ser assaz forte e duradoura em pessoas não imunizadas por picadas repetidas.

Durante o ato de picar, estes mosquitos têm as asas semi-abertas. Pelo tamanho e brilho, estas asas são mais conspícuas que o próprio corpo do Phlebotomus.

Na sombra os flebótomos atacam também de dia; porém picam com mais freqüência no crepúsculo e não raras vezes de noite, havendo uma luz acesa. São atraídos pela luz, o que permite apanhá-los com aparelhos apropriados.

No Rio de Janeiro ocorrem duas espécies que são encontradas às vezes nas casas, mas parecem freqüentar de preferência os galinheiros.

A espécie mais conhecida e que pode ser considerada tipo do gênero é o Phlebotomus pappataci, que foi muito bem estudado por Grassi numa memória bem ilustrada. As espécies do Velho Mundo foram estudadas principalmente por Newstead. Existem muitas descrições isoladas de espécies encontradas em várias regiões. Ultimamente Larousse e França publicaram monografias do gênero.

Num trabalho, publicado em colaboração com o Dr. Neiva nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, estudei três espécies brasileiras e dei uma chave, incluindo também o Phlebotomus rostrans, descrito por S. Summers. Dou aqui uma cópia da mesma:

1. Tíbia posterior tão comprida como cabeça e corpo

combinados……………………………………………………………

…………….. rostrans

1. Tíbia posterior mais

curta………………………………………………….. 2

2. Abdome no dorso com muitas escamas

brancas………….squamiventris

Abdome no dorso apenas com pêlos

compridos………………………. 3

3. Último artículo palpal muito comprido……………………..

longipalpis

Último artículo tensal pouco comprido…………………….

intermedius

As asas destas espécies mostram pequenas diferenças nas nervuras e os machos se distinguem pelos apêndices genitais, que são muito diferenciados.

Apresentam um par de pinças ventrais com dois segmentos, o apical com 4-5 cerdas grossas e arcadas em forma de garras; há mais um par de apêndices ventrais constituídos por um artículo inerme, comprido e arcado. Entre estes há um par de apêndices intermediários mais curtos e de forma variável, um tanto complicada.

Esses apêndices em exemplares bem conservados mostram número de pêlos, isolados ou em feixes.

Pouco depois, observei numa mata da Serra de São Bento, em Santa Catarina, uma nova espécie, em que ambos os sexos eram mais robustos e tinham as veias longitudinais arcadas no ápice.

Pelos palpos, assemelhavam-se com o Phl. longipalpis, mas o macho tinha os apêndices caudais muito mais compridos, como se verificava facilmente a olho nu. O artículo terminal da pinça dorsal diferia das outras espécies por ter cinco cerdas curvadas em vez de quatro. Todos os exemplares (algumas dezenas) estavam abrigados num buraco de tatu, razão por que os designei com o nome de Phl. troglodytes. Deixei de dar uma descrição por esperar encontrar mais material, o que, todavia, não me foi possível.

No ano passado Larousse descreveu sob o nome Phlebotomus brumpti uma espécie, observada no norte de São Paulo, no meio do mato. Também tem o último artículo tarsal comprido e cinco cerdas grossas e curvadas na pinça dorsal do macho. Se for idêntica nossa espécie, será conhecida pelo nome dado por Larousse. Há, contudo, divergências na descrição e no desenho das asas que permitem a suposição de que se trate de outra espécie.

Newstead descreveu uma espécie da Bolívia e do Brasil sob o nome walkeri. Aproxima-se muito da espécie longipalpis, mas difere pelas antenas.

Outras espécies sul-americanas são:

Phlebotomus verrucarum Townsend, do Peru, migonei França, do Paraguai, e teierae Larousse, da Venezuela.

Existe também uma espécie na Ilha de Trinidad, descrita há tempos por Knab sob o nome atroclavatus.

Os nomes indígenas das nossas espécies são birigui, no Sul, e tatuquira no Norte. Estes nomes índios já indicam que são espécies indígenas. De fato são silvestres e encontrados em lugares completamente desertos e até em grandes elevações sobre o mar. Podem aparecer nas cidades, mas geralmente são raros e pouco conhecidos. Onde abundam, também atacam o homem, mas geralmente se alimentam de sangue de qualquer vertebrado. Algumas espécies do Velho Mundo perseguem muito as lagartixas.

Em alguns lugares usam os nomes portugueses mosquito de palha ou asa de palha, nome que se refere naturalmente à cor amarelada do mosquito.

Ceratopogoninae. Os ceratopogonídeos hematófagos são conhecidos entre nós pelos nomes maruim ou maruí, quando se trata de espécies marinhas, e mosquitos pólvora no caso de espécies que não se criam no mar. Marengoin, usado em francês, evidentemente tem a mesma origem índia. O maruim é chamado sandfly, ou melhor, mangrove fly em inglês, e jen-jen, em Cuba. No Paraguai o nome das espécies do interior é polverino. Estes são também chamados midges na Inglaterra, punkies nos Estados Unidos e Gnitzen na Alemanha, mas estes nomes só se usam lá onde estes mosquitinhos abundam.

Os ceratopogonídeos, que são muito miúdos e dobram as asas no repouso, distinguem-se facilmente dos mosquitos.

Não obstante eles não excederem o comprimento de 2mm, as picadas são muito irritantes.

As antenas têm um artículo basal discóide, chamado torus, seguido de outros subglobulares; apenas os apicais são alongados. O número total é quatorze, sem contar o pro-torus que pode proceder ao torus. Os machos se distinguem facilmente pelo penacho basal da antena, justificando o nome Ceratopogon, e pelas pinças, situadas nos últimos segmentos. Não sugam sangue.

O maruim e mais umas dez espécies indígenas entram no gênero Culicoides, que apresenta manchas claras sobre o fundo escuro das asas. A própria membrana destas é clara, mas coberta de pêlos microscópicos, cuja cor produz estas manchas que, em certa posição e com fraco segmento, parecem muito vistosas.

O gênero Cotocripus distingue-se por ter asas densamente cobertas de pêlos microscópicos. O gênero Tersesthes tem um ooscapto.

As larvas de Culicoides têm aspecto e movimento de vermes nematódeos. Vivem no lodo de mangue, em buracos de água e em outras coleções de água.

As larvas das espécies do interior são pouco conhecidas.

As pupas têm na cauda uns órgãos que são usados para propelir o corpo em terra. Na água mostram poucos movimentos. Antes da ecdise a pupa enche-se de ar, de modo a boiar durante a ecdise. Outras vezes, o que parece ser a regra para o maruim, a pupa encolhe antes da ecdise.

Não se conhece parasito transmitido por ceratopogonídeos, provavelmente porque têm a vida curta e não repetem muitas vezes as picadas.

Mais detalhes podem ser encontrados em três memórias que publiquei nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz.

Simuliidae. A família das simuliídeos compreende apenas o gênero Simulium, representado por numerosas espécies em regiões montanhosas de todos os grandes continentes. Faltam geralmente nas planícies, porque suas larvas aquáticas não podem viver em águas de pouca ou nenhuma correnteza. O gênero Simulium parece muito homogêneo e os primeiros ensaios de subdividi-lo não deram resultado satisfatório, porque eram feitos com conhecimento de limitado número de espécies ou eram baseados em caracteres sem importância. Quando muito, estas subdivisões, no estado atual dos nossos conhecimentos, podem ser consideradas subespécies ou tipos de grupos.

Sob o nome de borrachudo, muitos habitantes do Rio conhecem um pequeno díptero hematófago que abunda nas montanhas. A sua picada, mais conhecida que o próprio causador, produz forte comichão e abre um furo do qual se pode espremer uma serosidade abundante. O poder serotático da saliva inoculada é muito acusado, de modo que uma picada no dorso da mão produz, às vezes, uma tumefação de toda a região. Ainda dias depois, as picadas se conhecem por pontos hemorrágicos. A saliva desta e de outras espécies têm também um poder homolítico para o sangue de algumas pessoas e vários animais, de modo que o sangue absorvido pode produzir, tanto no corpo como nas extremidades do sugador, uma coloração, em primeiro lugar vermelha e depois parda até preta, devido à hemoglobina e à sua decomposição. O fato (que se observa também nos Phlebotomus) tem dado lugar ao estabelecimento de novas espécies.

O borrachudo do Rio de Janeiro recebeu de Kollar o nome pertinax, que conservei porque a espécie pode ser identificada, não pela descrição, mas por ser a única espécie que no Rio de Janeiro se torna uma praga. Foi observada no litoral desde a Bahia até Santa Catarina.

Outra espécie bastante conhecida é o pium, do Norte, que ataca principalmente as pessoas embarcadas durante as viagens nos rios, porque nesta ocasião não são atraídos por cavalos. Foi chamado Simulium amazonense por Goeldi, mas ocorre também nos sistemas fluviais do Rio São Francisco e do Rio Paraná. Observa-se também no Peru e foi descrita por vários nomes.

Em Capela Nova do Betim, perto de Belo Horizonte, observei o Simulium pruinosum causando sério incômodo por picadas freqüentes. Entravam mesmo nas casas para procurar vítimas. Nas cachoeiras do Rio Madeira se observara o mesmo com o Simulium simplicicolor.

Conheço mais umas dezoito espécies brasileiras, das quais a maior parte ataca os animais domésticos com muita intensidade. Só excepcionalmente picam gente, quando não encontram vítimas maiores. São raras as espécies cujas fêmeas podem dispensar o sangue quente para amadurecer os ovos.

Sobre as Simuliidae brasileiras existem estudos detalhados que publiquei nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz em 1909, 1910 e 1917. A última refere-se exclusivamente ao pium. Aproveitando estes trabalhos anteriores, darei algumas notas sobre os simuliídeos em geral e sobre as espécies observadas entre nós.

As espécies de Simulium são geralmente de tamanho pequeno; o comprimento de seu corpo varia entre os extremos de 1 e 5mm. O pium é uma das menores espécies, tendo um comprimento de 1-2mm; no borrachudo comum ele regula entre 2 e 2,5; poucas espécies excedem 3mm. E apenas o scutistriatum alcança, às vezes, 5mm. As asas, relativamente largas, são sempre hialinas com a nervatura reduzida e pouco distinta. Em conjunto com o corpo curto, as antenas e as pernas relativamente grossas e pouco alongadas dão ao inseto a aparência de uma pequena mosca, bem diferente do tipo dos culicídeos. Quando procuram picar, o seu modo de voar lembra os modos de certas moscas ou himenópteros pequenos. Antes de sugar mostram-se bastante ariscos, parecendo procurar um momento e um lugar apropriados. Geralmente só picam gente quando não são observados, de modo que as vítimas muitas vezes não percebem os pequenos agressores, por que a reação só se torna intensa algum tempo depois da mordedura. Nos animais, os borrachudos sugam até que o seu abdome fique completamente distendido, alcançando o tamanho de uma pequena ervilha. Neste estado tornam-se quase incapazes de voar.

Para caracterizar o gênero Simulium e, ao mesmo tempo toda a família, serve a seguinte descrição, dada por Schiner na sua Fauna austríaca (Viena, 1864) e cuja tradução dei na minha primeira memória:

Cabeça livre, face interior breve; tromba um pouco saliente;

palpos com quatro artículos, sendo o basal muito curto e o

terminal bastante alongado; antenas curtas, bastante grossas,

com dez artículos; fronte do macho tão estreita que os olhos se

tocam em frente, a da fêmea bastante larga; olhos grandes

reniformes, aproximando-se da forma redonda, glabros. Ocelos

faltam.

Escudo abaulado, sem sutura transversal; escutelo curto,

semilunar.

Abdome com sete anéis, sendo o primeiro ciliado na margem;

segmento anal obtuso; órgãos genitais quase sempre

escondidos.

Pernas relativamente curtas e fortes; coxas grossas e

achatadas, metatarsos alongados, os outros artículos tarsais

muito curtos, principalmente o último; unhas glabras, pulvilos

rudimentares.

Escâmulas rudimentares, halteres expostos, geralmente

inclinados sobre o abdome.

Asas compridas e largas, com as nervuras da margem anterior

mais grossas, as outras muitas vezes apenas perceptíveis.

álulas grandes, com ângulo saliente.

Junto mais uns caracteres que podem servir também para a distinção das espécies:

As unhas da fêmea têm, muitas vezes, do lado de dentro, um pequeno dente secundário, nem sempre fácil de ver; as do macho têm mais um dente exterior.

Contando separadamente um artículo basal curto e pouco distinto, os palpos têm o número normal de cinco artículos.

As asas têm a membrana coberta de pelos microscópicos e as nervuras das costas mostram espinhos e cílios em disposição variável. Nas pernas pode haver espinhos e pêlos maiores, sendo alguns dos últimos colocados no dorso dos tarsos. As tíbias são munidas de esporões, geralmente desenvolvidos no par do meio, mas reduzidos no de trás; na tíbia da frente pode haver um esporão só, outras vezes parece faltar; há também esporões na extremidade de alguns artículos tarsais. Existem pêlos curtos, misturados com escamas piliformes, estreitos e alongados, de cor vistosa, branca ou dourada. São encontrados em cima da cabeça e do tórax e também nas pernas, onde podem tornar-se ovais.

A sua forma e disposição, assim como a sua cor, comparada com a do fundo, servem para caracterizar algumas espécies.

Os machos são apanhados raras vezes, mas podem ser obtidos em grande número dos casulos. São menores que as fêmeas e bem caracterizados pelos olhos holópticos e divididos. Além disso, geralmente manchas decorativas de brilho prateado ou nacarado mais conspícuas que as fêmeas.

As diferentes espécies são mais facilmente reconhecidas pelas fêmeas que pelos machos, que são mais parecidos entre si.

O maior número de espécies têm imagos com o fundo da cabeça e o dorso do tronco enegrecido; o lado ventral do abdome é geralmente da mesma cor, mas pode ser um tanto mais claro, pardo-chocolate. As pernas são, na regra, variegadas de preto e amarelo; em alguns lugares, como na face anterior da tíbia, o fundo pode ser branco nacarado, com pelinhos ou escamas brancas.

Em algumas espécies todo o corpo é enegrecido, em outras o escudo é avermelhado ou francamente vermelho.

Há um grupo em que a cor preponderante é amarelo, alaranjado ou arruivado.

Sobre o fundo preto pode haver manchas nacaradas ou aglomerações de pelinhos, às vezes achatados, ou de escamas petalóides com brilho de ouro ou prata. Quando no escudo são dispostos em feixes ou fileiras, tornam-se muito característico em exemplares perfeitamente conservados.

 

Evolução e biologia dos Simuliidae

Os ovos dos borrachudos têm a forma oval com a face inferior achatada e são depositados na margem da água corrente, em pedras ou sobre folhas e galhos, vivos ou mortos. Formam uma camada simples, a princípio branca, mas enegrecendo logo. As larvas madurecem rapidamente e abandonam os ovos na primeira enchente que chega para banhá-los.

As larvas são subcilíndricas, com a metade posterior um tanto intumescida e acabando em uma espécie de ventosa; outro órgão semelhante termina em um processo cilíndrico, situado na face ventral da parte anterior, onde forma um pé falso. Por meio destes dois processos a larva pode caminhar a modo das sanguessugas. Na cabeça há também um aparelho para produzir um fio de seda que serve para fixar a larva, abandonada à correnteza. Chegada ao lugar de escolha, ela se fixa apenas com a ventosa terminal e conserva uma posição vertical dentro da corrente mais forte, que produz uma vibração continua do corpo larval.

A cabeça da larva é formada por uma cápsula quitinosa subglobular, onde se distinguem duas manchas ocelares, um par de antenas, dois pentes de cerdas penadas em forma de leque, um par de mandíbulas, um par de maxilas e um lábio, chamado também placa mental. A ação dos pentes leva os corpos sólidos, suspensos na água, para a boca, onde são aproveitados para a alimentação. Consistem em detritos de toda espécie e pequenos organismos, animais e vegetais. No conteúdo intestinal reconhecem-se facilmente diatomáceas e outras algas pequenas.

Na extremidade posterior existem brânquios sanguíneos ramificados, em posição ventral, quando não são recolhidos no reto. Parte da respiração deve ser cutânea. Com uma exceção, achei a pele sempre glabra e transparente, o que permite reconhecer os filamentos respiratórios da pupa, encontrados na última fase larval perto da cabeça.

Enrolados debaixo da pele formam uma mancha redonda preta. A cor da cabeça é pardo-ocráceo, a do corpo esverdeada ou avermelhada, tornando-se em algumas espécies olivácea escura ou enegrecida.

Onde há pequenas cachoeiras, as larvas podem ser encontradas facilmente nas plantas ou galhos secos, banhados pela corrente. O Hedychium coronarium, o Eryngium chamado vulgarmente língua de tucano, o bambu, os juncos e gramíneos que crescem perto ou dentro da água fornecem bons suportes para as larvas nos talos, galhos e folhas que resistem bastante tempo à ação da água. As podostemonáceas (que se prendem nas pedras das cachoeiras por meio de órgãos adesivos) servem de suporte às larvas e casulos de pium, e do Simulium orbitale. As larvas do borrachudo comum podem ser encontradas na própria pedra, como também as de S. rubrithorax, pruinosum e obesum, que formam grandes colônias onde as larvas conchegadas são reunidas por uma verdadeira teia de fios de seda.

Na água parada, as larvas não resistem mais de 24 horas, mas com ventilação ou agitação artificial da água podem ser conservadas mais tempo, o que permite observar a metamorfose.

Para a determinação das larvas, o tamanho, a cor e certos detalhes de estrutura podem ser usados; contudo, só as larvas da última muda permitem um diagnóstico fácil de todas as espécies, baseado na forma e ramificação dos tubos respiratórios da pupa que podem ser retirados e desenrolados.

A pupa tem uma forma cônica e consiste de um invólucro membranáceo, dentro da forma adulta que pouco a pouco se transforma em imago perfeita.

Acha-se geralmente colocada num cocão ou casulo, aberto na sua parte superior e tendo, mais ou menos, a forma de um cartucho de papel, achatado sobre o suporte. é formado de fios de seda, bem distintos ou aglutinados. Em poucas espécies o casulo é substituído por uma rede de fios irregulares, em que existe apenas um esboço rudimentar de cocão.

A forma e estrutura do casulo já são bastante características, mas a pupa apresenta caracteres que permitem a distinção das espécies, melhor do que a própria imago. Consistem em grânulos escuros, chatos ou salientes, em pêlos simples ou compostos e em tubos respiratórios que formam os apêndices já mencionados e permitem distinguir facilmente quase todas as espécies.

A imago, formada raras vezes, faz a ecdise debaixo da água. Geralmente tem de esperar que o casulo fique exposto, em conseqüência de tempo seco.

Escolhendo os casulos bem escuros e deixando estes apenas em câmera úmida, obtêm-se muitas imagos que saem nos primeiros dias da colheita quando expostas à luz. Isolando os casulos com caracteres conhecidos, determina-se depois a espécie que corresponde a cada forma de pupa, como também a pupa que corresponde a cada espécie de larva adulta. Munido destes conhecimentos, pode-se determinar a fauna local, apenas pelo exame das larvas maduras e de pupas que podem ser vazias ou pouco desenvolvidas.

Existem dois tipos de tubos respiratórios. O primeiro, observado em S. tulibranchium, auristriatum e em algumas espécies exóticas, mostra pequeno número de tubos muitos largos e pouco ramificados. à primeira vista parece diferir completamente do segundo tipo. Observado, contudo, em espécies muitos afins.

O fato de não mostrar anéis, mas apenas escamas ou espinhos muito finos e espaçados, indica claramente que aqui está apenas representada a parte basal dos apêndices respiratórios que tomou um desenvolvimento extraordinário e assumiu a função dos tubos anelados.

Estes são bem desenvolvidos no segundo tipo e, posto que fechado no ápice, representam traquéias. Na base são bi ou trifurcados, e cada ramo se subdivide em galhos cujo número varia muito, sendo, todavia, constante em cada espécie. O número total de galhos pode corresponder aos números pares de 4-14, sendo 6 e 8 os números mais freqüentes.

Acima de 14, pode haver maior número de galhos que não se costuma contar, bastando a definição muitos. O comprimento a grossura e a forma do ápice dos galhos também fornecem caracteres distintos. Os pêlos sensitivos espaçados da parte anterior da pupa podem ser simples, bifurcados ou ramificados. O conjunto destes caracteres permite uma distinção fácil da maioria de espécies.

Apenas quando há seis ou oito galhos de cada lado, precisa-se de um estudo mais detalhado para determinar a espécie.

 

Papel patogênico dos simuliídeos

Não é provado que os simuliídeos transmitam alguma moléstia humana.

No caso da pelagra, o próprio autor, Sambon, parece ter abandonado a idéia de ser esta moléstia inoculada por simuliídeos e, no caso da lepra, podiam, quando muito, fazer apenas um papel muito secundário. Seria mais fácil que inoculassem alguma moléstia de animais domésticos, mas falta qualquer prova e nem sabemos se repetem as suas mordeduras em intervalos bastante longos para amadurecer parasitos com evolução complicada.

De outro lado, é perfeitamente estabelecido que, aparecendo em grandes enxames, podem causar uma mortandade no gado. Picadas em grande número podem matar os animais, seja por intoxicação, seja por asfixia, porque nem as mucosas são poupadas. Citam-se mesmo casos de vítimas pertencendo ao gênero humano. Nos Estados Unidos também os perus são vitimados por uma espécie de simulium.

Mortandade de gado eqüino e bovino tem sido observada freqüentemente na Hungria e nos Estados Unidos, ultimamente também na Alemanha. Entre nós não se conhecem casos fatais, mas os eqüinos sofrem muito em certas regiões montanhosas, onde são perseguidos por simuliídeos que atacam diferentes regiões do corpo. Uns atacam principalmente a face interna das orelhas, onde produzem uma tumefação e descamação crônica, constante em eqüinos de certas regiões, pelos menos no verão. Outra espécie procura a margem orbital e algumas escolhem a crina ou a barriga dos cavalos, onde freqüentemente deixam de ser observadas, mesmo quando abundam.

As partes bucais dos simuliídeos são bem desenvolvidas e mesmo nos machos (que não sugam sangue) todas as peças são presentes. Nos palpos, os últimos dois artículos são anelados e no antepenúltimo existe um órgão cupuliforme.

Para terminar, dou uma descrição sucinta das duas espécies mais importantes.

Simulium amazonicum Goeldi, 1905

Sin.: minusculum Lutz, 1910, nitidum Malloch.

Nome vulgar: Pium

♀ Cabeça: O fundo preto, coberto de induto cinzento azulado com reflexos prateados. Antenas pretas com base ocrácea, palpos pardo-escuros. Pelinhos e escamas piliformes da cabeça dourados ou prateados.

Tórax: Escudo semeado de escamas piliformes, douradas sobre fundo escuro e prateados sobre fundo branco.

Fundo do tórax: preto com induto cinzento-azulado com reflexos prateados. Em estado fresco percebem-se no escudo três faixas longitudinais de preto aveludado.

Entre as partes anteriores destas há duas manchas subtriangulares ora pretas, ora níveas conforme a incidência da luz.

Abdome: Dorso com três manchas transversais sobre fundo preto. Ventre corrugado em sentido longitudinal.

Pernas: Em indivíduos que não sugaram, a tíbia anterior, toda a perna média e a base da tíbia posterior ocráceos, metatarsos e artículos tarsais com base clara. O resto do fundo enegrecido. Há nele escamas oblanceoladas, brancas e pretas. São translúcidas e muito caducas, mas percebem-se bem quando o fundo é de cor diferente.

Unhas pretas inermes, com base clara.

Asas com as grandes nervuras ocráceas. Halteres com capítulo amarelo.

O tamanho da fêmea regula 1 a 2mm.

Os machos distinguem-se pelos caracteres sexuais e são, geralmente, um tanto menores.

As pupas nunca foram encontradas nas pedras, mas achei muitos casulos sobre podostemonáceas em cachoeiras do Rio São Francisco, pouco acima de Juazeiro. Tem 2,5mm de comprimento. A boca é oblíqua com margem semilunar, um pouco reforçada. As paredes consistem de fios de seda pardacenta com interstícios bastante grandes. Da parte em contato com o suporte só existe a metade inferior. A pupa tem a pele bastante fina; a parte anterior é reforçada por grânulos finos e semeada de tricomas curtos, geralmente bifurcados.

O aparelho branquial tem o comprimento da pupa e começa, de cada lado, por um tubo grosso formando imediatamente dois ramos. O ramo posterior bifurca-se logo em dois galhos, que depois formam outras bifurcações, sendo a dorsal um pouco acima da do meio. O ramo ventral divide-se bastante mais acima. Os ramos e galhos afilam-se gradualmente; os seis galhos terminais acabam em ponta subcônica.

As larvas apenas se distinguem por sua cor bastante clara e seu tamanho pequeno.

Simulium pertinax Kollar.

Sin.: S. inexorabile Schrottky

Nome vulgar: Borrachudo.

(Na minha primeira publicação usei o nome S. venustum, devido à determinação, certamente errada, feita em Washington. Tanto a procedência como os primeiros estados mostram que se trata de outra espécie.)

♀ Cabeça e corpo enegrecido. Antenas com a base um pouco mais clara.

Olhos verdes. As escamas piliformes do escudo não são achatadas, nem formam feixes. A sua cor é dourado, ligeiramente arruivado. O ventre, em estado vazio, mostra dobras longitudinais. Coxas e trocanteres enegrecidos. Fêmures ocráceos (mais ou menos enfuscados depois da absorção do sangue). Tíbia anterior com ápice escuro, no resto com fundo ocráceo, coberto com induto e pelinhos brancos, brancos. Tíbia posterior como a do meio, mas com o ápice largamente preto.

Pé anterior preto. Nos posteriores o metatarso é branco, apenas o ápice preto;

Os tarsos têm a parte basal mais clara.

Unhas da fêmea com dente na base.

Comprimento do corpo 2-2,5, depois de sugar até 3mm.

O macho é um tanto menor, tem os olhos unidos e as unhas trífidas. Em ambos os sexos não há escamas petalóides.

As larvas são esverdeadas e formam colônias nas pedras de rios encachoeirados. Abundam, por exemplo, acima da Cascatinha da Tijuca e num córrego que desce da Gávea.

O casulo de seda parda tem a forma de costume. A ninfa tem de cada lado, 8 tubos respiratórios que nascem de três ramos. O anterior é bifurcado, os posteriores têm duas bifurcações, uma acima da outra.

Nematóceros hematófagos

CARACTERES GERAIS DAS FAMÍLIAS

 

* Trabalho de Adolpho Lutz publicado em 1922 em A Folha Medica, v.3, n.12, p.89-92. Foi reimpresso como folheto com o título Zoologia médica pelo dr. Adolpho Lutz do Instituto Oswaldo Cruz. Nematoceros hematófagos não pertencendo aos culicídeos (Rio de Janeiro, Canton & Beyer, 1922, 17p.). Foi objeto de resenha publicada em periódico britânico ligado ao Imperial Bureau of Entomology: Review of applied entomology. Series B: Medical and veterinary, v.10, p.199, 1922; v.11, p.19, 1923. [N.E.]