Adolpho Lutz: entomologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 35 de 70

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Adolpho Lutz: entomologia

Contribuição para o conhecimento das ceratopogoninas do Brasil. Terceira memória. Aditamento terceiro e descrição de espécies que não sugam sangue

Contribuição para o conhecimento

das ceratopogoninas do Brasil

 

Terceira memória. Aditamento terceiro e descrição de espécies que

não sugam sangue*

Aditamento III

A espécie por mim denominada Centrorhynchus setifer foi ultimamente descrita por Bréthes da região de Buenos Aires e denominada Cotocripus caridei. Sendo a sua publicação nos Annales del Museu Nacional de Buenos Aires (Tomo XXII, 1912, p.451), anterior à minha, que sofreu muita demora, prevalece o nome de Bréthes e o gênero deve tomar o nome de Cotocripus, de derivação tão obscura que faz suspeitar um erro tipográfico; todavia, parece tratar-se apenas de um anagrama do nome de outro gênero, Cricetopus. O caráter principal do novo gênero, a saber, o número das cerdas bucais, não foi indicado, de modo que não se distingue claramente de Ceratopogon.

Depois que terminei a minha segunda e terceira memórias, recebi ainda duas espécies novas, colhidas no mês de março pelo Dr. Carlos Chagas nas margens do Rio Negro, no estado do Amazonas.

Uma delas parece dever entrar no gênero Johannseniella de Williston (Ceratolophus de Kieffer); a outra é um Culicoides. O primeiro gênero é caracterizado, principalmente, pela falta de empódio, as asas glabras e os fêmures inermes. Na minha espécie acho um rudimento de empódio, reduzido a um tubérculo microscópio e munido de duas cerdas, que, para mim, representam as plumas do empódio. Com poder fraco o empódio parece faltar. As asas também são apenas relativamente glabras, mostrando poucos pêlos e pontuação microscópica. Quanto ao resto concorda nos fêmures inermes e no hábito de picar, que é um caráter importante e indica a presença de todas as partes bucais, verificada diretamente na nova espécie.

Dou, em seguida, a descrição das espécies novas. Nos exemplares descritos, as partes moles têm sido comidas por um pequeno animal que não foi mais encontrado. Os restos montados, todavia, bastam para caracterizar a espécie.

 

Johannseniella fluviatilla n. sp.

(Est. 8, fig. 7)

♀ Cor geral parda. Comprimento ca. de 1,5mm.; asa longa de 1, larga de 0,4mm.

Antenas com 14 artículos, o toro subglobular pardo-escuro, os outros segmentos alongados, piriformes, apenas os cinco últimos subcilíndricos, todos pardacentos, com a base mais clara e com verticilos sub-basais de cerdas castanhas pouco numerosas, de cor parda; último artículo alongado, um tanto afilado com a ponta arredondada e ligeiro estrangulamento um pouco abaixo desta, limitando assim um prolongamento suboval com cerda subterminal. Palpos pardos, o primeiro e segundo artículos curtos e parcialmente soldados, o terceiro fusiforme, mais comprido e com órgão cupuliforme perto do ápice, quarto e quinto curtos, subcilíndricos. Tromba curta, cilíndrica e pungitiva. Occipício pontilhado de pêlos muito diminutos e com algumas cerdinhas pardas.

Tórax sem desenho aparente, apenas mais escuro em cima.

Abdome mal conservado, de cor pardo-enegrecida.

Pernas, com cerdas espaçadas, geralmente pardas, os joelhos um tanto mais escuros, a base da tíbia branco-amarelado, principalmente no par posterior, onde há um anel mais largo. Na tíbia da frente um esporão pardacento, bem visível, na última outro curto e enegrecido, os tarsos com espinhos apicais e pêlos curtos, o último metatarso em cima com um pente de pequenos espinhos pardacentos.

Asas finamente pontilhadas de pêlos muito diminutos, entre estes algumas fileiras de pêlos curtos. Nervatura do tipo habitual. A costal, subcostal, terceira e quarta nervuras largas e pigmentadas, a quarta só abaixo da transversal. A pigmentação interrompida em extensão variável, perto da base e na altura da transversal.

A espécie foi encontrada pelo Dr. Chagas nas margens do Rio Negro, em Massarabi, onde chegou com 7 dias de viagem em vapor, saindo de Manaus. As fêmeas mostravam-se ávidas de sangue humano.

 

Culidoides pachymerus n. sp.

(Est. 8, fig. 8. Est. 9, fig. 1)

♀ Comprimento ca. de 1,2mm., da asa 0,7 para 2,8mm. de largura. Cor geral bastante clara, ocrácea e cor de mogno.

Antenas e palpos faltam. Tromba curta, cilíndrica, com seis estiletes pungitivos.

Tórax mal conservado, mais escuro em cima do que em baixo.

Abdome muito mal conservado, pardacento.

Pernas bem conservadas, pardacentas; todos os tarsos claros, porém com cerdinhas escuras; os fêmures bastante claros, mas os joelhos pardo-enegrecidos; todas as tíbias com anel sub-basal, bastante largo, de cor branco-amarelado, o resto pardo mais carregado, principalmente na parte média. Fêmures anteriores e posteriores distintamente intumescidos, fusiformes, um pouco achatados lateralmente, os do meio de grossura regular, cilíndricos. Tíbias anteriores com esporão regular de cor clara, as posteriores com esporão preto, muito curto e com um pente de espinhos claros. Pêlos e espinhos das pernas raros e pouco compridos, de cor pardacenta. Unhas simples e delgadas.

Asas com a estrutura habitual, todas as nervuras pigmentadas; os desenhos como na figura; há pêlos curtos, conservados em pequeno número.

Halteres pardacentos.

Descrição baseada em cinco fêmeas colecionadas pelo Dr. Chagas em Camanaos, no Rio Negro, acima de S. Gabriel. As asas e fêmures em estado de conservação que permite distinguir e caracterizar uma nova espécie de Culicoides. Os fêmures espessados dão maior firmeza às pernas e distinguem esta pequena espécie, porém não têm outra significação sistemática.

 

II. Descrição de novas espécies que não são

hematófagas.

Em seguida dou a descrição de várias Ceratopogoninae, observadas durante meus estudos. Posto que não sejam hematófagas, todas têm interesse morfológico ou biológico, por serem marinhas ou bromelícolas.

I. Ceratopogon bromelicola n. sp.

(Est. 8, fig. 1)

♀ Cor geral pardo-amarelado ou acinzentado. Comprimento pouco mais de 1mm. Comprimento da asa 0,9, largura 0,3mm.

Antenas: o último artículo pouco maior do que o penúltimo, com um processo apical destacado. Palpos com o terceiro segmento bastante dilatado, ovóide e tendo perto do meio um órgão cupuliforme bastante grande. Probóscida bastante grossa, sem mandíbulas.

Todo o corpo escuro, apenas a face ventral um pouco mais clara, principalmente no abdome, que tem pêlos compridos e caducos, especialmente nas faces laterais.

Pernas de cor uniforme, um pouco mais clara, com pêlos bastante compridos.

Tíbias I e III com esporão curto, de cor clara; último metatarso quase do comprimento do resto do pé; empódios distintos; unhas inermes, finas, delgadas, fortemente curvadas e lateralmente achatadas no meio.

Asas: a costa forma 2/3 da margem anterior que é pardacenta até o ápice, devido a muitos pêlos escuros; o resto da asa mais claro, um tanto amarelado e coberto com muitos pêlos finos, bastante compridos.

Halteres pardacentos, a face terminal clara.

O macho se distingue pelos caracteres sexuais constantes; tem no abdome muitos pêlos eriçados e bem compridos, especialmente na porção apical.

Espécie bromelícola, criada de larvas provenientes da Ilha do Governador.

Trata-se de um Ceratopogon legítimo (s. str.), bastante bem caracterizado pela coloração dos pêlos do abdome e pela formação do último segmento das antenas. Habita também as bromeliáceas de Manguinhos e será provavelmente encontrado em muitos outros lugares.

 

II. Ceratopogon filibranchius n. sp.

(Fig. no texto)

♀ Comprimento total 1,2 da asa, 0,9 largura da mesma 0,32mm. Coloração da fêmea pardo e ocráceo, do macho pardo e acinzentado.

♀ Cabeça ocrácea, face com pruína branca, os apêndices de cor mais clara, acinzentada, apenas o toro das antenas mais escuro. Palpos com pêlos e algumas cerdinhas terminais, mais longos do que a probóscida, o terceiro artículo mais comprido, sem órgão cupuliforme. Antenas com último segmento mais longo do que os outros, porém sem prolongamento cilíndrico.

Tórax em baixo pardacento, dos lados mais ocráceo, em cima pardo, com três estrias longitudinais pouco nítidas sobre um fundo com pruínas mais compridas. Os ombros e o escutelo ocráceos.

Abdome bastante peludo, ocráceo um tanto acinzentado, em cima chocolate, com exceção da margem lateral e posterior dos segmentos; embaixo com duas faixas longitudinais e submedianas de manchas escuras subquadradas, pouco menores do que a largura dos segmentos e nem sempre muito distintas, começando apenas no segundo anel.

Asas quase hialinas, apenas as nervuras pardacentas; nestas e entre elas há fileiras de pêlos escuros, finos, porém bastante compridas, que na margem se tornam mais longos e grossos. A terceira nervura reunida à primeira, em extensão relativamente grande.

Halteres pardos, a face terminal de amarelo de canário bastante claro.

Pernas de pardo-acinzentado claro, nas extremidades articulares com pequenas manchas mais escuras. Metatarsos bastante compridos, tendo no último par três quartos do comprimento do resto do pé. Pernas com pêlos numerosos, de comprimento variável; no meio do fêmur e na base da tíbia do último par, muito longos. Unhas iguais e inermes. Empódio um pouco afastado, plumado, bastante curto e fino.

♂ Com as diferenças usuais, sendo as partes ocráceas na fêmea pardoacinzentadas.

As fêmeas não picam. Apanhei ambos os sexos atraídos pela luz; também os colhi em grande número, voando em redor das raízes respiratórias das Avicennia do mangue, nas quais vivem larvas debaixo de crostas, formadas por algas. As pupas foram encontradas perto da superfície destas crostas e distinguem-se por tubos respiratórios do comprimento de 2mm. e bastante diferentes do tipo comum das espécies conhecidas do mesmo gênero (v. a figura do texto). Colocados sobre a areia ou lama úmida deram saída aos mosquitos adultos.

 

III. Forcipomyia squamosa n. sp.

(Est. 8, fig. 6; Est. 9, fig. 2, 3)

♂ Cor geral pardacenta. Comprimento do corpo 2,6-2,8mm. Comprimento da asa 1,5, largura 0,45mm.

Cabeça e apêndices pardacentos. último artículo das antenas como o anterior, porém munido de uma ponta delgada, fina e bem destacada. Palpos muito mais compridos do que a tromba, a metade basal do terceiro segmento dilatada e contendo um órgão cupuliforme bastante grande.

Tórax, em cima, de pardo de veado, em baixo mais claro.

Abdome comprido, delgado e bastante piloso, com anéis alternantes de pardo e branco-amarelado; no dorso dos segmentos numerosas escamas pecioladas, de cor parda ou branca e de forma laceolada estreita e comprida. Os apêndices genitais, muito pilosos, não apresentam escamas.

As pernas, cobertas de pêlos compridos e numerosos, são de cor ocrácea, menos os pés, que são brancos. As tíbias I e III com esporão bastante comprido, pardoamarelado. Empódios e unhas como na espécie precedente. As pernas e os pés são também revestidos de escamas, mas estas são escuras ou claras, curtas, largas e extremamente finas. Todos os metatarsos são curtos; quando muito, têm a metade do comprimento do tarso seguinte.

Asas: a costal regula a metade do comprimento da margem anterior; as veias mais grossas com escamas escuras, semelhantes aos do dorso e também muito caducas; o resto das asas densamente coberto de pêlos finos e compridos.

Halteres pardacentos, a face terminal amarelada.

Apanhei dois machos em Manguinhos, no aparelho de luz. A espécie é bem caracterizada por ter numerosas escamas, fato raro e talvez ainda não observado em ceratopogoninas. As fêmeas, que achei mais tarde, se conhecem facilmente pelo mesmo revestimento de escamas. Incluem ovos bastante curtos, de forma especial, lembrando os de certos trematódeos.

O Sr. C. T. Townsend me mandou uma fêmea de espécie peruviana de Forcipomyia, que também tem escamas e foi apanhada, com duas outras, sugando uma lagarta. Parece-se muito com a nossa, e não é impossível que se trate da mesma, não obstante algumas pequenas diferenças aparentes.

 

IV. Forcipomyia squamitibia n. sp.

(Est. 8, fig. 4. Est. 9, fig. 4 e 4a)

♀ Cor (no preparado microscópico) ocrácea, mais ou menos enfuscada. Comprimento do corpo de 2mm. ou pouco mais; comprimento das asas 1,3, largura 0,32mm.

Antenas pardo-amareladas ou ferruginosas, o último artículo duas vezes mais comprido do que o penúltimo, sem contar o processo subcilíndrico terminal.

Palpos da cor das antenas, bastante pilosos, o terceiro segmento assaz comprido e dilatado na metade basal, que contém o órgão cupuliforme pequeno.

Tromba curta e bastante grossa, os estiletes pontudos reduzidos a quatro. Vértice e occipício com pêlos, inclinados para a frente.

Tórax pardo amarelado ou ferruginoso; o escutelo e a face ventral um tanto mais claros.

Abdome em cima pardo, apenas os dois últimos anéis e as membranas entre os segmentos mais claros. Membranas laterais densamente cobertas de pêlos escuros, quase vilosas. Há outros pêlos nas faces ventral e dorsal, porém menos densos, principalmente no dorso.

Pernas inteiramente pardo-ocráceas ou ferruginosas, variando a intensidade da cor nos diferentes segmentos, bastante pilosas; todos os metatarsos mais curtos do que o tarso seguinte. Em todas as tíbias há pêlos bastante compridos e uma fileira longitudinal única de escamas claviformes, de cor cinzento-amarelada. Tíbia I e III com esporões claros, bastante compridos.

Unhas simples e iguais, delgadas, compridas e bastante curvadas; o empódio distinto, com a convexidade em sentido oposto.

Asas: A costa de comprimento igual à metade da margem anterior, bastante pilosa; as nervuras mais grossas coradas de pardo-ocráceo ou ferruginoso; as menores apagadas e indistintas.

Halteres pardacentos.

A espécie foi apanhada na luz, com outras espécies marinhas. é bem caracterizada pelas formações claviformes, encontradas nas tíbias. Difere bastante das outras espécies de Forcipomyia, encontradas em Manguinhos.

Com o nome de Ceratopogon squamipes Coquillett (1902) descreveu uma Forcipomyia do Novo México, que tinha nas tíbias formações, que ele descreve como cerdas achatadas e lanceoladas (“lanceolate flattened bristles”), descrição que não combina com as formações acima descritas. Também a espécie de Coquillett é menor e mais escura. (Veja: Proceedings of the U.S. Nat. Museum, v.XXV, p.88).

 

V. Forcipomyia bicolor n. sp.

♂ Comprimento do corpo 2,5mm. Cor em parte amarelo de mel, em parte pardacenta. Comprimento da asa 1,6, largura 0,4mm.

Cabeça e apêndices pardacentos; toro das antenas muito grande, cor de mogno escuro, flabelo pardo-acinzentado, o último artículo como anterior, porém com processo terminal curto e fino; penacho escuro na metade basal e cor de mel na apical, que não alcança completamente o último segmento. Palpos com terceiro artículo dilatado, o órgão cupuliforme quase no centro e bastante grande.

Tórax com a face dorsal e algumas manchas laterais de cor castanha, o reto cinzento-amarelado.

Abdome castanho, comprido e fino, com muitos pêlos pardo-acinzentados; os primeiros segmentos e as margens dos outros de cinzento-amarelado claro, tornandose mais amarelos no ápice.

Pernas compridas, variegadas de cinzento e pardo; tíbia anterior com esporão amarelo e três anéis castanhos bastante largos; nos outros falta o anel apical; o esporão da última tíbia grande, um tanto curvado, com base amarela e parte apical escura; os tarsos, com exceção do último, em todos os pares enfuscados em grande extensão; metatarso do par anterior maior, o do último par menor do que o tarso vizinho, o do meio do mesmo tamanho. Empódio típico, bem evidente; unhas finas, iguais e bem curvadas.

Halteres muito claros, amarelados.

Asas: a zona da margem anterior amarelada, o resto acinzentado; toda a extensão com pêlos densos, finos e compridos. A costal e subcostal com pêlos ou escamas piliformes, de pardo mais intenso.

A descrição é feita de um macho montado em preparado microscópico com gelatina glicerinada.

Foi apanhado em Manguinhos, num aparelho de luz.

 

VI. Atrichopogon flavipes n. sp.

(Est. 8, fig. 5)

♀ (Preparado microscópico) Espécie com poucos pêlos; a cor ocráceo-amarela ou pardacenta. Comprimento do corpo 1,6-1,7; da asa 1,1mm. Largura da asa 0,45mm.

Antenas pardas, o artículo terminal um pouco maior do que o penúltimo, com prolongamento assaz longo. Palpos mais compridos do que a tromba, pardos; o terceiro artículo um pouco dilatado, fusiforme, no meio com órgão cupuliforme de tamanho médio. Tromba mais escura do que a cabeça: menos de seis estiletes quitinosos. Vértice e occipício com pêlos escuros, inclinados para diante.

Tórax ocráceo, em cima enfuscado, com pêlos bastante curtos e algumas macroquetas. Em cima, de cada lado da linha média, uma estria clara, nascendo na margem anterior do escudo e divergindo ligeiramente em direção caudal; a parte apical é mais larga e menos distinta. No meio estas estrias são ligadas por uma mancha transversal clara, mediana, alargada, para diante, em forma de triângulo. Escutelo muito claro, o metatórax, porém, escuro. Pleuras adiante e no meio com faixa maculosa vertical, de cor mais escura.

Abdome com a face dorsal escura, interrompida na comissura dos anéis por faixas claras, distintamente anelado, principalmente quando aparece dilatado por muitos ovos. O lado ventral coberto de numerosas linhas, longitudinais, finas e densas, formadas de fileiras de saliências cônicas muito finas. Pêlos curtos e escassos. Os ovos, antes da postura, são brancos e têm a forma de bananas.

Pernas unicolores, de cor de mel pálida, com poucos pêlos curtos.

Metatarso do último par de dois terços do comprimento dos outros tarsos. Unhas iguais, pequenas, bastante curvadas e um pouco dilatadas no meio. Empódio grande, plumoso, a parte inferior saliente, a parte apical se termina entre as unhas e antes da ponta destas. Tíbias I e III com esporões de cor clara, o do último par maior. Asas: costal terminada no fim do segundo terço da margem anterior. Superfície da asa pontilhada por pêlos muito curtos e finos, no terço apical com pêlos mais longos, formando fileiras longitudinais pouco nítidas; na margem são mais numerosos, confluindo com a franja marginal simples. As nervuras normais, todas, e também algumas espúrias de cor parda. Destas últimas uma, em forma de forquilha, situada entre o terço apical da margem anterior e a quarta nervura; outra acompanha o ramo anterior desta; a quinta é acompanhada, de ambos os lados, por elas; finalmente parece haver uma sexta nervura na altura da bifurcação da quinta.

Halteres de cor cinzento-amarelada muito diluída.

O ♂ é mais peludo e também bastante mais escuro, sendo todavia fácil de conhecer, devido à estrutura das asas e à cor das pernas. O último segmento das antenas, duas vezes mais comprido do que o anterior, não é completamente alcançado pelo tufo da raiz. O abdome é bastante comprido e fino, geralmente mais peludo, principalmente na porção apical. Apêndices genitais da forma usual. As asas apresentam apenas meia dúzia de pêlos mais compridos. Parece conveniente colocar a espécie no gênero Antrichopogon, ainda que a forma dos empódios se pareça mais com a de Ceratopogon s. str.

Ambos os sexos foram apanhados perto do mangue e também na margem de um buraco cheio de água do mar; pode se concluir com bastante certeza que as larvas sejam marinhas. A fêmea não chupa sangue e não é organizada para picar.

As espécies seguintes me parecem dever entrar no gênero Palpomyia, porque todas têm asas glabras. Os estiletes são fortes, porém reduzidos em número; por isso não procuram sangue vermelho, distinguindo-se assim do gênero Johannseniella Williston ou Ceratolophus Kieffer. O caráter dos fêmures me parece de menos importância; estes, numa das espécies, apresentam espinhos rijos que não se limitam a esta região; nas outras apenas umas cerdas pouco características. Também no resto as espécies diferem bastante, por exemplo, na nervatura das asas: estas são, ora hialinas, ora apresentam manchas isoladas. A formação das antenas, dos palpos e também das unhas varia. Uma espécie mostra na barriga uma formação muito esquisita, da qual nos outros não há vestígio. Parece servir a um fim biológico especial. Em vista de tantas diferenças com poucos caracteres comuns, a reunião destas espécies deve ser considerada apenas provisória.

 

VII. Palpomyia spinosa n. sp.

(Est. 9, fig. 5)

♀ Cor geral, castanha na cabeça e no tórax, ocráceo-claro no abdome e nas pernas, menos na base e na região dos joelhos que são castanhos. Comprimento do corpo ca. 2,1; da asa ca. de 1,4mm.

Tromba parda, incluindo quatro estiletes, palpos pardacentos com cerdas espaçadas ferrugíneas, o terceiro artículo comprido, subcilíndrico, sem escavação. Antenas cor de sépia, porém a base dos segmentos branca com verticilos de cerdas bastante curtas e finas; os últimos cinco artículos alongados, sendo o comprimento do penúltimo 52, o do último 84 mícrons.

Tórax em cima um tanto mais escuro e com pêlos curtos e cílios microscópicos.

Abdome ocráceo claro, com cílios espaçados, lembrando espinhos.

Pernas de ocráceo claro, quadris e trocanteres inteiramente enfuscados, fêmures e tíbias apenas nas duas extremidades, porém em extensão considerável, os outros segmentos apenas no ápice extremo. Fêmures e tíbias com fortes espinhos pretos, bastante compridos e em parte curvados. Unhas, muito curtas e bastante curvadas, parecendo um pouco desiguais, no meio com dente curto. Esporões curtos e pretos.

Asas em mau estado, muito claras, com pêlos maiores apenas nas franjas, a membrana com pontilhado fino, resolvido por fortes poderes em cílios microscópicos.

Descrição tirada do preparado microscópico de uma fêmea, apanhada num aparelho de luz, onde as asas ficaram encolhidas. Todavia é tão bem caracterizada pelo desenho das pernas e outros caracteres de tipo original que não ia deixar de descrevê-la. A organização indica tratar-se de um inseto predatório.

 

VIII. Palpomyia multilineata n. sp.

(Est. 8, fig. 2. Est. 9, fig. 6 e 6a)

Cor geral pardo-ocrácea com faixa mediana longitudinal no ventre. Comprimento cerca de 2mm.

♂ Cabeça e tromba pardo-amarelados. Antenas e palpos ocráceos, estes com cinco segmentos distintos, sendo os dois primeiros curtos; o terceiro, munido na metade apical de órgão cupuliforme distinto, é mais comprido, o quarto curto; o último um pouco mais comprido, claviforme, com algumas cerdinhas terminais. Antenas com toro grande, o penacho, pouco aberto, alcança o último segmento que tem um prolongamento cônico comprido.

Tórax castanho e em cima mais escuro, com cerdas espaçadas, curtas ou compridas.

Abdome: os primeiros seis segmentos amarelados, em cima com cinta basal parda, dilatada no meio em forma de mancha arredondada, os últimos anéis e a pinça anal pardos. Embaixo, uma faixa larga, mediana e longitudinal, formada por linhas pretas muito finas e conchegadas, que passa sobre os seis primeiros anéis, sendo, todavia, interrompida nas membranas intersegmentais.

Com poder forte percebe-se que cada linha está formada por pequenos riscos transversais. Do quinto anel para trás há pêlos muito espaçados.

Pernas amareladas, o último par acima do metatarso pardo de sépia, sendo, porém, os joelhos brancos. Fêmures e tíbias com poucos pêlos curtos e finos, ápice da última tíbia com esporões curtos. Pés, embaixo, com poucos espinhos finos, singelos ou em pares, de cor parda. Unhas quase direitas, inermes.

Asas hialinas, iguais, com algumas manchas, em forma de nuvens escuras, formadas por pontos muito finos.

Halteres com haste clara, o capítulo pardo.

♀ parecida com o ♂, apresentando apenas as diferenças próprias do sexo e as unhas bastante desiguais.

Descrição feita de preparados microscópicos de um ♂ e uma ♀, ambos coletados em Manguinhos, no aparelho de Luz.

 

IX. Palpomyia fuscivenosa n. sp.

(Est. 8, fig. 3)

Cor geral ocrácea, passando a pardo. Comprimento do corpo ca. de 1,6 (♂) e 1,0mm. (♀). Comprimento da asa 1,0; largura ca. de 0,4mm.

♂ Cabeça ocrácea, os apêndices acinzentados. Probóscida muito curta, palpos mais compridos com pêlos claros, escassos. Primeiro segmento palpal curto, segundo e quarto do mesmo comprimento, um tanto maior, sendo quase 2/3 do quinto, o terceiro com mais de 1/5 de comprimento do que o quarto e com órgão palpal pouco distinto na metade apical; o último artículo com algumas cerdinhas terminais. Antenas, até perto do ápice, escondidas no penacho pouco espesso, o antepenúltimo segmento mais comprido do que o penúltimo, ambos com verticilo basal; o último mais curto do que o anterior, ovóide, sem prolongamento, apenas com uma cerdinha subapical.

Tórax pardo-amarelado, escudo, escutelo e metatórax mais escuros, com cerdas espaçadas curtas e fortes.

Abdome pardo, as membranas intersegmentais mais claras, uma fileira mediana transversal de cerdas eretas, rodeando os segmentos; há outras cerdas iguais na parte basal, muito volumosa, da pinça anal.

Pernas muito claras, largamente marcadas de pardo nos joelhos e estreitamente em várias outras articulações. Tíbias anteriores por trás com esporões apicais. Metatarso anterior bastante curto, embora seja mais longo que o tarso vizinho, o do meio muito comprido, o último de comprimento regular, em baixo com pente de espinhos claros.

Unhas iguais e inermes, bastante compridas e finas.

Asas hialinas, as nervuras marcadas de preto, a transversal e a parte defletida da nervura terceira com largas manchas pardas.

♀ Com quatro estiletes fortes, a pigmentação das asas mais intensa; pelo resto difere do macho pelos caracteres sexuais.

Descrição tirada de um ♂ e uma ♀, apanhados em Manguinhos, à luz.

 

X. Palpomyia dorsofasciata n. sp.

(Est. 8, fig. 9. Est. 9, fig. 7)

♀ Cabeça parda, tórax amarelado, abdome e pernas esbranquiçadas. Comprimento ca. de 2mm.

Cabeça, tromba e toro das antenas pardo-avermelhado, como também os palpos, menos o último segmento que vira para o cinzento. Não se percebe um artículo basal distinto; parece completamente unido ao segundo, formando um segmento comprido e subcilíndrico; o antepenúltimo também é comprido e delgado, sem escavação; o penúltimo é curto e o último claviforme, com algumas cerdinhas subterminais, de cor clara, como existem também disseminadas em todo o palpo.

Os estiletes da tromba com a base grossa, formando reunidos um cone. Antenas com toro grande; o flagelo muito claro, com oito segmentos basais piriformes, o primeiro uma e meia vez mais comprido do que o segundo, os últimos cinco muito alongados, os dois últimos progressivamente mais compridos, o último com prolongamento cilíndrico. Olhos grandes e escuros. Entre a cabeça e o tórax há um pescoço bem acentuado.

Tórax ocráceo claro, dos lados e atrás há manchas pardacentas; percebem-se também algumas fileiras de pequenas cerdas lembrando espinhos.

Abdome esbranquiçado, intumescido por numerosos ovos de cor branca e com forma de banana. De cor parda, aparecem apenas o receptaculum seminis e seis manchas dorsais, formando retângulos transversais que apresentam várias lacunas claras.

Pernas quase glabras, esbranquiçadas, apenas com as extremidades articulares pardo-ocrácea e, no último par, com o joelho e o ápice da tíbia enfuscados no mesmo o esporão curto com a ponta enegrecida; na parte apical de todos os fêmures existem algumas cerdinhas e, nos pés, alguns espinhos curtos, de cor parda, perto das articulações, salientando-se em todas as pernas um par de cerdas perto da base e no lado inferior do último tarso; perto do ápice do mesmo há alguns pêlos pequenos, de cor clara e duas formações quitinosas com aspecto de papilas e cor pardoamarelada. Unhas, formando um só pedaço, pardo-amareladas, muito salientes na base e constituídas por dente lateral e garra aguda, muito curvada.

Asas claras, com pêlos apenas na margem, o resto finamente pontilhado de pelinhos microscópicos, a extremidade da terceira nervura, como também o ápice da costa e a base da terceira, unidos em forma de nervura transversal, muito enfuscados, formando duas estrias transversais; as nervuras IV e V com forquilha e nascendo na base da asa; entre estas e abaixo da quinta, decorrem linhas elevadas hialinas, da base até perto do ápice da asa, que se pode considerar veias espúrias.

Halteres: a haste curta e a base do capítulo, que tem uma grossura extraordinária, são brancas, a face terminal, muito abaulada, é enfuscada.

A descrição foi tirada de um preparado microscópico bom, contendo o único exemplar conhecido, que foi pegado em Manguinhos, no aparelho de luz. é tão transparente que se distinguem facilmente todos os músculos.

 

Explicação das estampas:

Est. 8

Fig. 1. Ceratopogon bromelicola ♀, asa.

Fig. 2. Palpomyia multilineata ♀, asa.

Fig. 3 Palpomyia fuscivenosa ♀, asa.

Fig. 4 Forcipomyia squamitibia ♀, asa.

Fig. 5 Antrichopogon flavipes ♀, asa.

Fig. 6 Forcipomyia squamosa ♀, asa.

Fig. 7 Johannseniella fluviatilis ♀, asa.

Fig. 8 Culicoides pachymerus ♀, asa.

Fig. 9 Palpomyia dorsofasciata ♀, asa.

O aumento é de cinqüenta vezes para todas as figuras.

Est. 9

Fig. 1. Culicoides pachyments ♀, perna de trás. X50.

Fig. 2 Forcipomyia squamosa, abdome do ♂. X50.

Fig. 3 Forcipomyia squamosa, ovos X50.

Fig. 4 Forcipomyia squamitibia, perna de trás X50.

Fig. 4a Forcipomyia squatimitibia ♀, escama da perna X300.

Fig. 5 Palpomyia spinosa ♀, perna de trás X50.

Fig. 6 Palpomyia multilineata ♀, abdome X50.

Fig. 6a Palpomyia multilineata ♀, estrias do abdome X300

Fig. 7 Palpomyia dorsofasciata ♀, abdome com ovos X50.

 

* Trabalho de Adolpho Lutz publicado em 1914 nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (t.6, fasc.2, p.81-99), em português e alemão (duas colunas), neste último idioma com o título “Beitrag zur Kenntnis der Ceratopogoninen Brasiliens. Dritte Mitteilung. Dritter Nachtrag und Beschreibung nicht blutsaugender Arten”. O artigo concluído no Instituto Oswaldo Cruz, em junho de 1913, dá continuidade a “Contribuição para o estudo das 'ceratopogoninas' hematófagas encontradas no Brasil', primeira memória concluída em março de 1912 e publicada no mesmo ano; e a “Contribuição para o estudo das ceratopogoninas hematófagas do Brasil. Parte sistemática”, segunda memória concluída em maio de 1912 e publicada no ano seguinte. Nesta terceira memória, entre as páginas 98 e 99, figuram as estampas n.8 e 9, de autoria de Rudolph Fischer, impressas na companhia litográfica de Hartmann e Gustav Reichenbach (São Paulo – Rio de Janeiro). [N.E.]