Adolpho Lutz: entomologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 66 de 70

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Adolpho Lutz: entomologia

Observações de vermes e larvas terrestres ou limícolas em ambiente transparente

Observações de vermes e larvas

 

terrestres ou limícolas em ambiente

transparente *

 

A observação de larvas de motucas e outros dípteros que vivem no limo e na terra úmida ao longo de valas e brejos, ou no lodo do mangue, é dificultada pela opacidade desses meios. A mesma dificuldade apresenta o estudo de muitos vermes como quetópodes, nematódeos livres e larvas de nematódeos parasitários. Muitos desses organismos podem viver bastante tempo na água, mas não são propriamente aquáticos, e os seus movimentos enérgicos e contínuos não são uma manifestação de bem-estar, mas de protesto. Na alternativa de escolher entre a lama e a água livre, eles preferem a primeira e procuram mesmo tufos de algas, e outros corpos em suspensão, para neles entrar. Isso podia ser atribuído à tendência de fugir à luz ou de esconder-se (como a princípio julguei), mas uma observação nas condições a seguir expostas prova que não é a luz que os incomoda, mas a falta de um meio resistente, embora úmido.

Investigando os estados evolutivos dos tabanídeos, reconheci, pelo estudo das observações anteriores e por pesquisas pessoais, que as larvas são geralmente terrestres ou limícolas. Não encontrei larva francamente aquática. Preferem os meios úmidos e moles, porque são ricos em animais que servem para a sua alimentação e ao mesmo tempo facilitam a locomoção. A larva do Neotabanus obsoletus Wiedemann vive no lodo do mangue, como concluí dos hábitos da fêmea adulta, que verifiquei por um trabalho longo e tedioso. Outras espécies do mesmo género, principalmente ochrophilus Lutz, foram encontradas na margem de pequenos córregos onde também havia larvas de Chrysops laetus, N. comitans Wied. Achou-se em número bastante grande na terra estrumada e irrigada de um capinzal. Nos mesmos lugares encontram-se outras larvas e vermes, principalmente oligoquetos como minhocas, Naias, Tubifex e Enchytraeus, que servem de alimento a estes.

As larvas podem ser obtidas lavando o lodo do mangue ou a terra lamacenta, colhida perto dos córregos em uma peneira. O trabalho, principalmente para o lodo do mangue, é penoso e geralmente rende pouco. Apenas as larvas de N. comitans são mais abundantes e podem mesmo ser colhidas diretamente na terra dos capinzais irrigados.

Para observar essas larvas, conservei-as, primeiramente, no ambiente natural em que se escondiam; só por outra lavagem podiam ser isoladas. Lembrei-me, então, de substituir esses meios por musgo úmido, o que deu bom resultado, porque assim eram mais facilmente reencontradas. Assim mesmo as observações eram descontínuas e pouco satisfatórias.

Procurei, então, um meio transparente, sólido, mas um tanto úmido e mole. Encontrei-o logo numa gelose, feita com 1-1,5% de ágar e água doce ou do mar, conforme as exigências dos organismos. As larvas entram logo na massa, que não deixa vestígio de sua penetração quando é bastante mole. O sifão respiratório, situado na extremidade caudal, costuma ficar perto da superfície ou da parede do vidro, mas algumas vezes afundam-se bastante; evidentemente a sua necessidade de ar é pequena, quando a larva se conserva em repouso completo, como costuma fazer dentro do ágar, durante horas. A posição pode ser mais ou menos horizontal; outras vezes imita a posição das larvas de mosquitos, com o corpo dependurado e o tubo respiratório vertical.

Muitas outras larvas e vermes penetram no ágar do mesmo modo: entre estas convém mencionar as de Psilopus e outros géneros de Dolichopodidae, encontradas também em terra estrumada, no lodo do mangue e na areia das praias, onde são mais numerosas que as larvas de motucas. Também se alimentam com sucos animais e precisam de pouco ar, o que justifica a minha hipótese, já exposta em sessão da Sociedade Dermatológica, de que a larva migrans (que produz erupções meândricas, principalmente nas extremidades de pessoas que andam descalças nas praias ou lidam com terra estrumada) seja uma forma larval nova de dolicopodida ou tabanida; todavia, sou mais em favor da primeira hipótese.

O ágar simples, derretido por meio de água quente, forma, depois de resfriar, um meio bastante transparente, mas este será ainda melhor depois de clarificação por meio de albumina. Sendo a sua função apenas de ambiente apropriado, a adição de substâncias nutritivas deve ser evitada o mais possível. Assim mesmo, pode haver um desenvolvimento de microrganismos como bactérias, diatomáceas, algas verdes etc., mas estes crescem lentamente e apenas na superfície, de modo que não impedem a observação durante muitos dias. De vez em quando convém substituir o ágar usado por outro novo.

Quetópodes de limo, minhocas, sanguessugas e outros vermes que não precisam de alimentação contínua, permanecem vivos nesse meio penetrando na sua profundidade quando é bastante mole. Sendo os dois primeiros alimento preferido das larvas de motucas que sugam o sangue vermelho contido neles, torna-se fácil a criação dessas larvas. O processo nutritivo pode ser observado detalhadamente com aumentos fracos. Nas larvas das motucas, que são bastante transparentes, pode-se observar o bolo alimentar, que mostra, a princípio, a cor vermelha; mais para trás torna-se negro pela digestão, sendo depois expelido. Os excrementos que ficam incluídos no ágar mostram a atividade do processo nutritivo e o percurso da larva.

As larvas de dípteros que entram no ágar chegam à superfície para formar casulos; podem ser retiradas e colocadas sobre um meio mais resistente, como seja gelose, com porcentagem mais elevada, facilitando assim a ecdise da mosca perfeita. As outras mudas de pele passam-se dentro do ágar; as larvas abandonam as exúvias dentro da gelose, na posição por elas ocupada na ocasião.

O ágar (de uma a duas partes por cem de água) quando coberto com uma camada fina de substância alimentar que não impede o emprego do microscópio, permite acompanhar o desenvolvimento de nematódeos livres e das larvas ou gerações livres de nematódeos parasitários. Serve também de suporte transparente para ovos que precisam de umidade e permite observar o seu desenvolvimento.

A gravura representa uma fotografia de larvas de motucas e quetópodes, conservados vivos no ágar. Mostra a facilidade com que podem ser observadas.

Larvas de mutucas e quetópodes conservadas vivas no ágar, sendo possível, dada a transparência do meio, observá-las, quer a olho nu,

quer lançando mão de lentes.

* Artigo de Adolpho Lutz, apresentado como “Trabalho do Instituto Oswaldo Cruz” e publicado em A Folha Medica, ano 1, n.12, p.91 il. Circulou também em forma de folheto ou separata (Rio de Janeiro, Canton & Beyer, 1920, 6p. il.). [N.E.]