Adolpho Lutz: entomologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 68 de 70 · parte 1/2

Páginas do PDF

Adolpho Lutz: entomologia

Coleta, preparação, análise e determinação dos insetos importantes para a higiene

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Coleta, preparação, análise e

determinação dos insetos

importantes para a higiene *

 

Introdução. Considerações gerais sobre a

captura e a criação dos insetos

Não há necessidade de se debater aqui o importante papel dos insetos e aracnídeos hematófagos na transmissão de enfermidades humanas e animais, sobretudo nos países quentes. Basta mencioná-lo, para justificar a importância de um estudo mais preciso desses parasitas. Tal estudo deve abordar, por um lado, a morfologia e a sistemática, e por outro, a biologia. O conhecimento da primeira possibilita constatar a distribuição de cada espécie, o que é de suma importância para a disseminação de algumas enfermidades, como a febre amarela e a Tripanossomíase humana. A fronteira natural entre as diversas regiões faunística sparece excluir, a priori, uma identidade entre espécies européias e norte-americanas,assim como entre paleoárticas e neárticas. E não há dúvida de que esta regra tinha valor quase absoluto antes do descobrimento da América. No entanto, hoje em dia vários parasitas temporários de seres humanos e de seus animais domésticos se alastraram sobre amplas regiões; alguns se tornaram quase cosmopolitas, o que possibilitou uma conseqüente disseminação das enfermidades por eles transmitidas.Essa circunstância deve ser levada em consideração ao se analisar a fauna de parasitas de determinada região, para que uma mesma espécie não seja descrita reiteradas vezes com novos nomes, como foi o caso da Stegomyia

aegypti 1 .

Conhecimentos mais precisos da biologia dos parasitas são completamente indispensáveis não apenas para a constatação de seu papel como transmissores de enfermidades, mas sobretudo para a profilaxia. Ao se fazer a coleta, portanto,principalmente em regiões pouco conhecidas, é desejável que também se dê especial atenção à biologia das espécies hematófagas. Algumas delas só sugamsangue enquanto larvas, ao passo que as espécies de metamorfose incompleta são hematófagas em todos os estágios

evolutivos. 2Às vezes também é possível criar parasitas do sangue desconhecidos a partir dos primeiros estágios.

Além dos insetos hematófagos, algumas outras espécies também são consideradas transmissoras de enfermidades e deverão ser discutidas oportunamente.

A área atingida por enfermidades transmitidas por insetos aumenta diariamente.Em todo caso isto é válido especialmente para as regiões mais quentes, porém não se excluem novas descobertas em países mais frios. Médicos e viajantes podem obter ganhos científicos através da coleta e da observação, mesmo que não possuam conhecimentos especiais sobre entomologia. No entanto, são necessárias algumas instruções para a coleta etc., que serão dadas aqui.

A captura de insetos picantes e hematófagos é relativamente fácil, uma vez que eles procuram espontaneamente os seres humanos e os animais domésticos,podendo, assim, ser pegos em flagrante. Entretanto, em muitos casos só se conseguem dessa forma fêmeas adultas. Deve-se observar também que algumas espécies só picam à noite, muitas vezes só no escuro, e portanto a captura deve ser efetuada em diferentes horários. Além disso, apenas uma parte das espécies, que inclui, contudo, as mais importantes, invade as moradias humanas, e muitas apenas quando estas se localizam nas proximidades de brejos ou florestas ou nas montanhas. Algumas só são encontradas ao ar livre, onde devem ser procuradas.Estas quase sempre podem ser capturadas em cavalos mansos e outros animais domésticos amarrados em locais apropriados.

Os insetos hematófagos são, em sua maioria, alados, porém se deixam capturar facilmente depois que começam a picar. Os não alados podem ser capturados com os dedos ou com uma pinça apropriada. Os alados devem ser cobertos por um vidro, a ser fechado quando os insetos começarem a voar. é fácil fazer isso porque na maioria das vezes eles voam em direção à luz. Tubos de vidro, cuja extremidade inferior volta-se para dentro em forma de funil (nassa de vidro), ou pequenos funis, que desembocam em um tubo de vidro, permitem, seguindo o mesmo mecanismo,que se capture uma boa quantidade de exemplares. Também se podem capturar parasitas minúsculos tocando-os levemente com um pincel embebido em álcool ou água. Alguns também podem ser sugados

com um tubo de vidro apropriado (Fig. 10). Insetos ariscos e que voam rápido, como tabanídeos, devem sercapturados com uma rede para caçar borboletas.

Também se encontram insetos hematófagos em localidades habitadas por seres humanos e animais, casas, estábulos e tocas de animais silvestres. Freqüentemente pode-se identificá-los pelo abdome repleto de sangue; em outros casos o sangue foi mais ou menos digerido e transformou-se numa massa negra. Algumas espécies parecem maiores e com pigmentação mais escura após um grande consumo de sangue do que pouco depois da última metamorfose e antes de picar. São encontradas em parte em paredes, amiúde em lugares escuros, enquanto outras, que tentaram alcançar a liberdade, se encontram nos vidros de janelas fechadas. Parasitas noturnos não alados se escondem nas fendas dos móveis, do piso e das paredes. As espécies aladas não raro são encontradas em teias de aranha ou luminárias, lampiões e similares.

No momento da captura pode-se tirar proveito do fato de várias espécies voarem em direção à luz, e, além disso, também podem ser montadas armadilhas luminosas automáticas, por meio das quais os insetos caiam num recipiente contendo um líquido para conservação. Para as espécies não aladas, que se escondem durante o dia, devem ser confeccionadas armadilhas de bambu, tábuas estriadas ou perfuradas e similares.

Alguns dos parasitas humanos ou espécies de parentesco muito próximo também podem ser encontrados em galinheiros, pombais e colônias de ninhos de andorinhas nos muros das casas ou locais semelhantes. Também as cavernas e tocas de animais são habitadas por parasitas hematófagos, alados ou não.

Os machos, que não sugam sangue, consomem água, seiva de plantas (sobretudo as que contêm açúcar), mel e similares, podendo às vezes, conseqüentemente, ser capturados em fluxos de seiva, sobre flores, em frutos etc.; no entanto, o ganho é relativamente baixo.

Onde o método de cultivo puder ser utilizado, ele terá grande importância. Mesmo os primeiros estágios já fornecem indicadores muito importantes para a sistemática, ainda que não seja possível utilizá-lo como base exclusiva da classificação. Além disso ele nos fornece os machos, igualmente importantes para a sistemática, e, finalmente, obtém-se um material impecável de indivíduos hematófagos para experimentos infecciosos. Para isso usam-se ovos e larvas de fêmeas capturadas, ou material dos primeiros estágios encontrado ao ar livre. A forma como eles devem ser coletados e examinados depende de sua biologia e será discutida mais precisamente nas resenhas de cada grupo em particular.

Os hematófagos capturados não destinados ao depósito de ovos ou aos experimentos, e os exemplares cultivados cujos tecidos estiverem suficientemente enrijecidos e descolorados deverão ser mortos o mais rápido possível. Isso vale principalmente para as espécies aladas, que perdem facilmente os pêlos e escamas, ou são danificadas nas asas e nas pernas.

 

Conservação e preparação dos insetos

Depois de mortos os insetos coletados podem ser conservados secos ou molhados, caso não se prefira utilizá-los imediatamente para preparações microscópicas permanentes, o que no caso de espécies menores se recomenda fazer pelo menos com uma parte do material. Na conservação a seco as espécies maiores são pregadas por meio de agulhas para insetos; as espécies menores

são pregadas por meio de agulhas minuciosas 3 ou coladas em línguas de papel.

Ainda não se sabe quais são as melhores agulhas para insetos; na realidade parece não existir nenhuma que satisfaça a todas as exigências. Segundo alguns conhecidos meus, agulhas de aço laqueadas, que seriam mais resistentes, não se mostraram eficazes em países com altas temperaturas e muito úmidos, por enferrujarem facilmente e até se romperem. As agulhas Karlsbader são muito usadas, porém as mais finas são flexíveis demais; às vezes se obtêm imitações cujas pontas, além disso, são insatisfatórias. A formação de acetato de cobre e sais de aparência similar não pode ser evitada. A prata é apropriada para as agulhas minuciosas, mas parece mole demais para as mais finas, quando não é possível utilizar um material extremamente mole.

Se os insetos forem pregados com agulhas mais grosseiras, vale então a regra de que um terço deve ficar acima e dois terços abaixo da superfície central do inseto. As agulhas não podem ser curtas demais, por isso os alfinetes comuns só devem ser utilizados em casos de emergência. As moscas devem ser pregadas através do escutelo, um pouco à direita da linha central, e os percevejos através da cobertura da asa direita; para as espécies não aladas podem-se escolher posições análogas. Pregar alfinetes na região dorsoventral é tão usual que costuma valer para todas as espécies; no entanto, os mosquitos pequenos devem ser preferencialmente pregados na região bipleural para evitar que as pernas sejam arrancadas. Dessa forma, o exame também se torna mais fácil, sobretudo quando se pregam vários exemplares em uma mesma agulha. Essa forma de perfuração também é mais prática para uma reprodução fotográfica. A objeção de que as pleuras ficariam cobertas é puramente teórica, pois além de normalmente serem menos importantes, elas são apenas perfuradas, porém as partes permanecem conservadas; além disso, os pontos de entrada e saída da perfuração não precisam corresponder com precisão e, finalmente, pode-se pregar um exemplar na região dorsoventral quando vários tiverem sido coletados, o que costuma acontecer no caso dos insetos hematófagos.

Durante certo tempo os mosquitos e seus similares eram, com freqüência, perfurados por baixo, introduzindo-se as agulhas minuciosas com o auxílio de discos de papelão branco e bem fino ou de papel de carta bem grosso. Assim, as pernas ficavam apoiadas, podendo ser facilmente classificadas. No entanto, essa prática foi extinta, em vários lugares, por diversos motivos. Depois de um tempo, o papel amarelece; além disso, ele cobre demais a parte de baixo e, finalmente, causa diversos inconvenientes em caso de expedições pelo correio. Em contrapartida, a parte de baixo podia ser usada ao mesmo tempo como etiqueta, e para pregar os discos de papelão podiam-se também utilizar agulhas grossas. Para exposições e demonstrações populares, é interessante utilizar variantes desses métodos.

Em vez dos discos de papelão podem-se usar discos mais leves, de medula de plantas, feitos de medula de sabugueiro, ou melhor ainda, de medula de girassol. Existem ainda muitas outras plantas que fornecem uma medula útil. A mais bonita é,sem dúvida, a da Fatsia papyrifera, uma das araliáceas mais cultivadas nos trópicos.

Muitos colecionadores colam pequenos objetos em línguas de papel de carta triangulares, que podem ser pregadas umas sobre as outras em uma agulha e ordenadas em forma de espiral ou de leque. Desta forma podem ser acomodados inúmeros exemplares num tubo. O método é mais recomendado para espécies não aladas ou quando se tem muito material. Para colar pode-se usar bálsamo-docanadá. As soluções de borracha servem de alimento aos insetos e causam mofo.

Os exemplares coletados e pregados podem ser guardados em caixas para insetos, no entanto isso é recomendável apenas para exemplares grandes, como tabanídeos e espécies de Conorhinus. Insetos menores devem ser preferencialmente montados em tubos, onde as partes caídas podem ser reencontradas facilmente e onde eles ficam mais protegidos de luz, poeira, mofo e de insetos em busca de alimento.

Os tubos utilizados no Instituto de Manguinhos têm cerca de 8,5 cm de comprimento e 3 cm de largura, de modo que podem acomodar facilmente algumas preparações microscópicas, o que possibilita que todo o material correspondente seja conservado do mesmo modo. Os insetos pregados são espetados na cortiça; no fundo do recipiente acrescenta-se uma fina camada de algodão embebida em naftalina derretida, que, ao endurecer, adere e protege contra a formação de mofo. Os mesmos vidrinhos também servem para guardar material molhado e aceitam as etiquetas, o que permite que

a coleção fique ordenada e padronizada (Fig. 1).

Os recipientes e caixas onde os exemplares pregados são guardados e despachados devem ser revestidos por uma camada macia, onde seja possível pregar agulhas finas facilmente. O melhor e mais puro material é a medula de agave; a turfa de Hannover é muito quebradiça, e uma cortiça macia o suficiente e em chapas impecáveis não se encontra em qualquer parte. Outras substâncias geralmente não são suficientemente macias para agulhas finas; somente a parafina não deixa nada a desejar nesse sentido, porém é relativamente pesada e, além disso, parece agredir as agulhas. Para serem despachadas, as caixas escolhidas devem ser rasas, para que as agulhas que afrouxem sejam refreadas pela tampa; além disso, elas devem ser suficientemente resistentes e isoladas por fora com uma grossa camada de um bom material de embalar, ao redor do qual possa ser colocada uma segunda caixa ou pelo menos uma capa resistente de papel ou tecido.

Quanto aos conservantes devem-se mencionar álcool, glicerina e soluções de formol. O Eysell recomenda 75% de álcool para mosquitos. Eu normalmente prefiro uma mistura de partes iguais de álcool, glicerina e água com 1 a 2% de fenol. Os insetos permanecem flexíveis nessa mistura e deixam-se transferir para a gelatina de glicerina sem maiores problemas. Em fenol puro, muitas espécies pequenas se conservam de forma excelente, tornando-se ali completamente transparentes, de forma que também é possível estudar o esqueleto interno. Nesse caso, elas são drenadas por completo, para que possam ser transferidas, sem o auxílio de álcool, mas apenas de xilol ou de óleo de terebintina, para o bálsamo-do-canadá. Uma desvantagem é que infelizmente o fenol se avermelha com o passar do tempo e deve ser substituído por um novo. é possível que, em alguns casos, também seja apropriado utilizar o lactofenol.

A mistura de glicerina, álcool e água também é usada por mim nos aparelhos de captura, fornecendo resultados muito bons.

No caso de muitos insetos, é necessário umedecê-los com álcool ou acetona para livrá-los do ar e para torná-los suscetíveis a outros líquidos.

A questão de devermos ou não esticar os dípteros é contestada veementemente pela maioria dos autores, porque com isso os insetos não ficariam em posição natural. Em muitos casos, não se pode entender a razão de tal censura valer mais para esses do que para outros insetos; além disso, o estiramento de alguns exemplares parece ser apropriado para o estudo das asas. Para tanto, não é necessário usar tábuas de esticar, porque normalmente já é possível obter posições satisfatórias com alguns alfinetes inclinados. Em casos mais complicados, pode-se pregar o alfinete pela cabeça na medula de agave até que a superfície dorsal fique apoiada sobre ela, e então fixar as asas com vidro ou tiras de papel. De resto, é possível conservar a maior parte das moscas e mosquitos com asas levemente abertas ou podem-se fazer preparações microscópicas especialmente para o estudo das asas.

Fig. 1 Montagem dos insetos.

As pernas, antenas e similares devem ficar tão acessíveis quanto possível para serem estudadas. Para isso, em geral é suficiente colocar o inseto perto de um disco de papel ou de medula de planta através do qual se tenha introduzido a agulha e sobre o qual se possam facilmente ordenar as pernas. No caso das pernas longas e frágeis dos mosquitos, é melhor deixá-las, para o transporte, num feixe, já que assim elas apóiam umas às outras e quebram com menos facilidade.

Exemplares repletos de sangue de um modo geral não são apropriados para a conservação in totum porque demoram a secar e estragam facilmente; além disso, sujam outros exemplares capturados no mesmo vidro e, finalmente, fornecem um quadro equivocado, pois o conteúdo do intestino pode se difundir e tornar partes vizinhas irreconhecíveis.

Asas enroladas, sujas ou grudadas podem, com paciência, ser limpas e desemaranhadas. Basta pincelá-las primeiro com uma solução aquosa de amoníaco ou água pura, para que as piores partes possam ser descoladas com pincel, pinças e agulhas. Colocam-se, então, alternadamente em álcool absoluto e em água, o que as leva a buscar se expandir, como cortes microscópicos. Por último, elas devem ser retiradas do álcool absoluto e colocadas em éter puro, que pode ser evaporado, evitando-se que grudem novamente, diante de um fole.

Para obter um material mais numeroso não se poderá recusar colaboração alheia. Normalmente são garotos que recebem pequenas recompensas por seus serviços e que logo pegam gosto pelo esporte de coletar. Pessoas sem formação científica que viajam para regiões afastadas ou nelas habitam conseguem, muitas vezes, coletar material interessante. Nessas ocasiões, não se deve ser tão exigente nem esperar receber todos os exemplares como nós mesmos os selecionaríamos para uma coleção. Com alguma prática, pode-se salvar boa parte desse material amiúde tão mutilado, ao passo que a determinação de material mal-conservado exige muitíssimo do examinador e só pode ser realizada por especialistas muito experientes.

 

Preparações microscópicas

Para preparações microscópicas, podem-se usar vários meios de inclusão que mostram algumas condições estruturais de forma mais ou menos clara. Para a inclusão em ar deve-se simplesmente colocar as asas entre duas lâminas finas, calafetadas então na borda, enquanto pequenos animais devem ser incluídos em células ou fechados em lâminas escavadas por meio de lamínulas apropriadas. Recomenda-se embuti-los antes numa pequena câmara de formol para evitar a formação de mofo, por exemplo. Com freqüência, a cor e a forma dos pêlos e escamas transparentes só são nitidamente identificadas em ar; também a estrutura das asas fica, dessa forma, muito clara.

Na maior parte dos casos, porém, é preferível a inclusão em meios líquidos ou sólidos. Normalmente eu uso gelatina de glicerina ou bálsamo-do-canadá. No primeiro caso, as preparações são primeiramente colocadas num líquido alcoólico para que o ar preso seja retirado, o que também pode ser feito por meio de uma bomba de ar, em seguida em glicerina diluída e, finalmente, na gelatina, preparada segundo a conhecida fórmula. Após o resfriamento, a gelatina excedente é retirada por meio de uma lâmina de barbear, a preparação é lavada e levada, por mais um dia, a uma câmara de formol, antes de ser calafetada, o que é recomendável em caso de expedição ou conservação por longo tempo.

Para a inclusão em bálsamo, as preparações devem ser, obviamente, drenadas. Para isto uso geralmente fenol puro, que penetra muito bem e, ao provocar um forte clareamento, permite que se reconheça a imagem definitiva. Antes da inclusão, as preparações passam ainda por álcool absoluto ou xilol. Pode-se usar o bálsamo comum e deixar as preparações numa incubadora em alta temperatura até que, ao resfriar, ele se solidifique, ou então se faz, a partir do bálsamo sólido, uma solução de xilol, que solidifica mais rapidamente. Para limpar o excesso de bálsamo também se pode recorrer às lâminas de barbear flexíveis. Recomenda-se também acetona para a limpeza das preparações. O calafetamento é supérfluo no caso de o bálsamo estar completamente solidificado.

Os meios líquidos não são ideais para as preparações microscópicas. Podem-se colocar pequenos hematófagos em capilares de vidro, que depois são derretidos. Para serem examinados, deve-se colocá-los numa placa de Petri, fixá-los com um pouco de cera e despejar nos capilares um líquido com aproximadamente o mesmo índice de refração, o que permite o uso de grandes ampliações. Assim se pode conseguir qualquer posição desejada e, principalmente, estudar o desenho do escudo, o que é muito difícil em preparações microscópicas, porque os pequenos dípteros teimam em se pôr de lado.

Para objetos mais pálidos é preferível usar um meio menos refrangente, como glicerina ou gelatina de glicerina; para objetos mais escuros serve fenol ou bálsamodo- canadá. Quitina escura demais pode ser completamente clareada através de uma mistura de hidróxido de potássio ou sódio com água oxigenada, de modo que até mesmo dos escuros hipoboscídeos se podem fazer preparações completas, que, no microscópio binocular com baixa ampliação, parecem modelos transparentes.

Imagos e pupas de Simulium e Culicoides, assim como larvas de moscas, dão preparações muito nítidas quando divididas ao meio por um corte longitudinal dorsoventral. Para este fim elas devem ser clareadas em fenol e levadas ao micrótomo de congelação. (O fenol congela facilmente e tem uma excelente consistência para corte.) As pupas são colocadas na superfície ventral, as imagos com as pernas para cima, de forma que se possa conduzir a lâmina por entre as pernas. As preparações feitas desta forma mostram muito bem todos os anexos de um lado, por dentro e por fora, o que é de grande valor para a distinção de espécies semelhantes. O método também é apropriado para espécies maiores, se quisermos decompô-las em cortes menos grossos e, conseqüentemente, muito mais nítidos. Os cortes mais finos e até mesmo as séries podem ser feitos com o micrótomo. A inclusão em parafina e celoidina, muito mais trabalhosa e complicada, deve ser mantida para determinados fins, mas para a determinação morfológica comum o meu método, insuperavelmente mais simples, é mais do que suficiente.

 

Determinação

A determinação dos insetos capturados exige conhecimentos especiais, que podem ser obtidos através de instrução direta, que é a melhor maneira de fazê-lo, mas também através da vasta literatura existente a respeito e através da comparação com exemplares determinados de forma segura, pressupondo que se tenha formação em ciências naturais e certo talento para observar. Quem quiser examinar material raro e em parte novo, deve primeiro adquirir suficientes conhecimentos gerais e especializados. Descrever uma espécie sem considerar a literatura existente leva facilmente a confusões, como demonstram os numerosos sinônimos de espécies comuns e cosmopolitas. Além disso, a maior parte da descrição na literatura mais antiga é insuficiente e então fica-se restrito à comparação entre os tipos, que muitas vezes revela resultados muito surpreendentes. Algumas descrições são curtas e superficiais demais; mas o erro principal está no fato de que as características das espécies são ignoradas e, em compensação, as características dos gêneros são descritas detalhadamente. Para evitar esse erro recomenda-se a elaboração de chaves para a determinação; mas elas devem ser claras e precisas.

Para a determinação é desejável que se disponha de vários exemplares frescos ou pelo menos bem conservados; se possível, deve haver exemplares de ambos os sexos e uma série de indivíduos, para que se possam identificar variações. Com muita freqüência será necessário amolecer os exemplares, pelo menos em parte, para poder reconhecer, por exemplo, o desenho dos olhos dos tabanídeos. Para isso eles são colocados num recipiente fechado contendo areia úmida ou serragem, o mais esterilizada possível. Além disso, acrescenta-se um anti-séptico volátil, como fenol, naftalina, nitrobenzeno e similares, para evitar a incômoda formação de mofo. Em geral é suficiente uma permanência de 12 horas na câmara úmida, que não deve ser sujeita a grandes diferenças de temperatura para que não se formem gotas de precipitação. Os exemplares mofados são limpos, com um pincel fino, apenas depois de secos; aí então eu uso, quando necessário, uma mistura de álcool e éter, com um pouco de fenol, para evitar que o mofo se desenvolva de novo.

 

Exame dos órgãos internos e externos

Ao examinar, não se devem dispensar as lentes de aumento. As lupas manuais não são práticas, exceto em excursões; as lupas para preparações podem ser úteis às vezes, porém é melhor utilizar um microscópio, o qual, além de proporcionar grandes ampliações, também oferece ampliações de menor grau, como as que são usadas para fotografar. Em alguns casos, também serão utilizadas ampliações fortes e até a mais forte, esta última para examinar preparações microscópicas feitas anteriormente. Os antigos entomologistas ignoraram muitas peculiaridades estruturais importantes para a sistemática, sem dúvida apenas porque não utilizavam ampliações suficientes.

O estudo da morfologia externa dos insetos que picam e de suas larvas normalmente não exige preparações especiais. Só as partes da boca costumam ficar tão escondidas que um desmembramento se torna necessário para identificá-las nitidamente. Quando completas, elas são formadas, como é o caso das fêmeas nematóceras que picam, por sete partes, que podem estar tão encaixadas umas nas outras a ponto de terem a aparência de um órgão. Para separá-las, pode-se mergulhar a tromba alternadamente em álcool e água ou então usar uma solução alcalóide de H O , cujas bolhas de gás separam as partes. Um corte 2 2

transversal mediano na base da tromba leva as partes a se separarem. Se faltarem as mandíbulas nas fêmeas dos mosquitos, pode-se tranqüilamente supor que não se trata de uma espécie hematófaga.

Observe-se primeiro o lábio inferior [Labium], que carrega curtos labelos em sua extremidade. Ele se assemelha ao resto da pele em termos de cor, pêlos e escamas, e não é usado para picar. As outras partes apresentam tons amarelos, vermelhos ou marrons de quitina e são, com exceção dos dentes laterais terminais, lisas e afiadas. Por isso são denominadas estiletes ou, quando finas e compridas, cerdas que picam. No Labium se encontra o lábio superior (labro ou epifaringe), que forma um sulco oco voltado para baixo, no qual se aloja a hipofaringe, também chamada de língua, que pode ser identificada pelo canal salivar. Ao lado destas partes se encontram as mandíbulas emparelhadas (em cima) e as maxilas (embaixo); a esta última pertencem, localizados mais para a parte externa, os palpos maxilares, que são compostos por várias articulações e pilosos e, muitas vezes, também possuem escamas.

Nos muscídeos que picam, nem todos os estiletes aparecem formados; em compensação, o lábio inferior também pode participar da picada. No entanto, os compactos órgãos usados para picar dão a impressão de serem um simples tubo.

A melhor maneira de fazer a preparação das partes internas, no caso dos insetos maiores, é sob água ou sob uma solução fisiológica, em uma tigela com parafina escurecida, sendo a fixação necessária feita com agulhas finas para insetos. Às vezes parece mais apropriado abrir o abdome pela parte dorsal. Prepara-se o canal do intestino, e eventualmente também as genitálias e o sistema nervoso.

Com o uso de vermelho neutro, as partes internas se tingem, in totum, imediatamente, podendo ser usadas para preparações.

No caso de culicídeos menores e outros insetos, realiza-se a preparação sobre a lâmina. Obtém-se facilmente o intestino separando-se o abdome e o tórax e soltando-se do primeiro os últimos anéis, em parte por meio de corte, em parte por meio de um puxão, retirando-se com isso de dentro do tubo abdominal as vísceras a eles ligadas. Mais difícil é preparar, retirando do denso tecido muscular do tórax, o esôfago e as glândulas salivares. é bom lembrar que nos culicídeos estas últimas se encontram no dorso da base do primeiro par de pernas. Retirando-se as outras partes do tórax, essa região pode ser desfiada e estendida. Às vezes também é possível retirar as glândulas juntamente com a cabeça, ao fazer com esta movimentos pendulares. No caso dos culicídeos, cujas glândulas salivares são as mais examinadas, elas são compostas por um curto tubo central e dois tubos laterais, que são um pouco diferentes em sua estrutura. Os tubos laterais ainda podem conter cecos. Em algumas moscas, a glândula salivar toda é composta apenas por um longo tubo. Os canais excretores são nitidamente anelados nos culicídeos, como as traquéias; o tecido glandular é composto por grandes células em forma de bolhas.

Dentro da cavidade bucal e junto a ela se encontram dispositivos que, funcionando como bombas, possibilitam a sucção. Freqüentemente o esôfago apresenta uma barriga de sucção pediculada maior, e às vezes também divertículos menores. Ele tem continuidade em um tubo digestivo, que geralmente consegue comportar uma grande quantidade de sangue. A desembocadura dos vasos malpighianos separa-o do intestino delgado, cuja parte final, o reto, às vezes apresenta formações próprias, comumente denominadas de glândulas.

Quando os ovos estão desenvolvidos, os ovários ocupam a maior parte do corpo posterior. Com exceção do órgão de incubação dos pupiparos, as outras partes do aparelho sexual feminino são pequenas. Os receptacula semini muitas vezes têm uma parede tão grossa e escura que podem ser identificados na preparação microscópica pela parede estomacal.

Os órgãos genitais internos do macho são formados por testículos, vasa deferentia e glândulas acessórias, e têm menos significado prático que os órgãos fálicos da extremidade posterior do abdome, que servem à cópula e que são bastante complicados e importantes para a sistemática. Diferenças genitais secundárias são observadas, sobretudo nas antenas, nos palpos, na forma dos olhos, na formação das garras e, finalmente, no número de partes da boca. Na maioria das vezes, os machos também são menores.

As larvas, em geral aquáticas, dos nematóceros que picam têm uma nítida cápsula cefálica, com antenas, palpos e partes da boca completas, que servem, porém, para mastigar e que trabalham umas contra as outras. Além disso, ainda há ocelos e cerdas, estas na borda da cabeça e nas partes da boca. Chamam a atenção em especial os dentes fortes no final dos maxilares, assim como a placa labial ou mental dentada, que é valiosa para a determinação e, associada ao tubo respiratório, permite determinar todos os culicídeos. O tipo de respiração e os órgãos úteis a ela variam muito nas larvas dos diversos grupos, assim como a pele, que ora é lisa e transparente, ora tem pêlos e cerdas, estas podendo ser emplumadas e ramificadas. As pupas são mais uniformes; os membros da imago são cobertos pela pele do cefalotórax; somente os estigmas se abrem nas suas costas em pequenas antenas respiratórias protuberantes. O abdome é móvel e possui barbatanas caudais.

No caso do tipo das larvas de mosca, como as dos tabanídeos e dos muscídeos, os apêndices na extremidade não diferenciada da cabeça são insignificantes. Quanto às partes da boca, identificam-se apenas dois ganchos maxilares paralelos, nos quais se encaixa um forte e comprido esqueleto de faringe, sendo ambos compostos por quitina compacta escura e úteis para a sistemática, ainda que as diferenças não sejam tão expressivas. Além disso, nos anéis também há saliências e tocos de pés com coroas de ganchos retráteis, que servem para a locomoção; os anéis também possuem, na maioria das vezes, inúmeras pontas e espinhos. Estas formações e placas de estigmas, junto com o esqueleto da faringe e as dimensões gerais, fornecem pontos de referência para a determinação dos gêneros e espécies, que, no entanto, é muito difícil e ainda está pouco desenvolvida até o momento.

As larvas dos muscídeos e ostrídeos, porém não as dos tabanídeos, empupam na última pele das larvas, que, nos muscídeos, forma um tonelzinho regular. A larva do antomiídeo Aricia pici, parasita cutâneo de filhotes de aves, produz uma verdadeira teia, como as larvas de pulgas. Para o estudo da morfologia de larvas e pupas, as peles descartadas são bastante úteis por serem transparentes; pode-se, dessa forma, buscar sua evolução sem sacrificar um exemplar.

 

Parte especial

 

Dípteros

Do ponto de vista higiênico-médico serão observados:

Os dípteros cujas fêmeas sugam sangue antes de depositar ovos.

Os dípteros com larvas hematófagas.

Os dípteros importantes como transmissores mecânicos de enfermidades.

Entre os dípteros podemos diferenciar: nematóceros, braquíceros e hipoboscídeos. Esta classificação simples é suficiente para as necessidades práticas; ela corresponde aos termos populares mosquitos, moscas e pupiparas.

Aos mosquitos acrescento as espécies cujas antenas possuem mais de três membros. Em parte pelo corpo delgado, em parte pelas pernas longas, estas podem ser consideradas mosquitos; mas elas também possuem, em parte, hábito de moscas.

As espécies que sugam sangue vermelho se encontram nas seguintes famílias: culicídeos, quironomídeos, psicodídeos e simuliídeos. (Incluir os blefarocerídeos entre elas é decididamente um erro.)

Para a distinção vale a seguinte chave, que, porém, só considera os gêneros hematófagos, ou seja, os psicodídeos flebótomos, os quironomídeos de quatro gêneros da subfamília dos Ceratopogoninae:

1. Corpo e pernas longos e finos, antenas muito mais longas do

que grossas, veia costal abrangendo toda a borda da asa

………………. 2

Corpo e pernas proporcionalmente longos e finos, antenas

bastante grossas pelo menos na metade basal, mas não muito

longas ……… 3

2. Tromba muito mais longa que a cabeça; asas escamadas;

primeiros estágios na água

………………………………………………… culicídeos

Tromba não mais longa que a cabeça, asas pilosas; primeiros

estágios terrestres …………………………………………

psicodídeos (flebótomos)

3. Antenas não mais longas que a cabeça, membros curtos e

uniformes, asas hialinas; primeiros estágios em águas correntes

….. simuliídeos

Antenas muito mais longas que a cabeça, membros de duas

formas.

Asas cruzadas em estado de repouso, raramente hialinas, na

maior parte das vezes com manchas ou pêlos …………

quironomídeos

(subfamília dos Ceratopogoninae).

Permitam-me aqui alguns comentários sobre a nomenclatura popular dos nematóceros hematófagos. Pode-se atribuir o fato de existirem na literatura inúmeras citações baseadas em interpretações equivocadas dos dados dos viajantes à falta de

termos para denominá-los. Apesar de o termo 4 moskito ser utilizado

para toda sorte de mosquitos 5 e até mesmo para pequenas moscas, ele deveria ficar reservado para os culicídeos (em alemão Stechmücken, Schnaken ou Gelsen; em francês cousins). O termo em inglês sandflies, que às vezes é traduzido para o alemão (Sandfliegen) deveria limitar-se, como o termo francês proveniente da linguagem dos índios marengoin (em português maruim), aos ceratopogonídeos marítimos; as espécies do interior podem ser denominadas de Gnitzen ou com o nome norte-americano Punkies. Os simuliídeos não possuem um termo geral popular; o termo Kriebelmücke, utilizado em alguns livros, está começando a ser introduzido na Alemanha, ao passo que o termo Columbascermücke só é usado para uma ou duas espécies; a melhor opção seria escolher o nome em latim e evitar o uso do termo Sandfliege quando se tratar de simuliídeos, os quais, salvo raras exceções, podem ser distinguidos facilmente. Para os flebótomos, desconhecidos na Alemanha, também é melhor usar o nome em latim: quando muito poderíamos usar o nome Pappatacimücken, mas é melhor empregá-lo apenas como nome de espécie. Também aqui os termos Sandfliege e sandfly deveriam ser abolidos.

Os relatos a respeito de grandes enxames repentinos de mosquitos dificilmente relacionam-se aos culicídeos. Estes podem de fato surgir em grandes quantidades no verão e após as chuvas, ao passo que, em caso de frio e de clima seco quase desaparecem. No caso de algumas pragas bovinas, sobretudo na Hungria e nos Estados Unidos, trata-se de simuliídeos, que aparecem aos montes e, além disso, podem apresentar certa tendência à migração. No caso das pragas humanas, tratase, na maior parte das vezes, de ceratopogonídeos, que podem surgir em grandes quantidades em mangues, mas também em regiões pantanosas e florestais.

 

Sistemática dos Culicidae

Existem alguns gêneros de mosquitos que não picam, e, por causa de seu parentesco próximo, já foram freqüentemente considerados culicídeos, a saber Corethra (com Corethrella e Sayomyia), Pelorempis e Mochlonyx. Eles precisam então formar um grupo próprio frente aos euculicídeos. é melhor que sejam totalmente separados, como fez Claus. Este os descreve, juntamente com os quironomídeos, como culiciformes, um nome que pode acabar restando para eles depois da exclusão dos quironomídeos heterogêneos. Eles também são apresentados como Corethrinae e Mochlonycinae e só nos interessam aqui porque podem ser confundidos com os Culicidae verae em seus diferentes estágios. Após sua exclusão, os Culicidae podem ser definidos da seguinte maneira:

Diptera nematocera de hábito delgado, com tromba longa, reta

ou arqueada no final; antenas de aproximadamente 14

artículos, alongadas, com exceção do toro arredondado, com

pêlos, que quase sempre são mais espessos no macho; palpos

com pelo menos dois membros alongados, os demais com

formações diversas; olhos em formato de rins, que ocupam a

maior parte da cabeça. Nenhum ocelo. Corpo delgado e, assim

como as longas e finas pernas, coberto de pêlos e escamas.

Abdome com pelo menos sete segmentos visíveis e uniformes.

Asas circundadas pela veia costal, com 6-7 veias longitudinais

(duas das quais forcadas) e várias veias transversais próximas

ao centro da asa. Veias longitudinais densamente cobertas por

escamas, que formam longas franjas independentes em toda a

borda posterior da asa. Ovos capazes de flutuar, alongados,

individuais ou em massa. Larvas sempre aquáticas,

normalmente com um tubo respiratório nítido e arcos branquiais

na extremidade posterior. Pupas móveis, com um cefalotórax

grosso e rígido, antenas respiratórias e corpo posterior móvel

com barbatanas caudais.

Inicialmente haviam sido diferenciados três gêneros de culicídeos: Anopheles, Culex e Aedes, que hoje são considerados tipos de subfamílias; depois foram acrescentados a eles mais alguns, para os quais vale, em parte, o mesmo. Tendo a prática da coleta se difundido em todo o planeta, foram adicionadas a eles algumas novas subfamílias, mas, sobretudo, foi criada uma grande quantidade de novos gêneros. O número de espécies não pode ser determinado precisamente, mas não está longe de quinhentos.

A família dos Culicidae se divide em Siphonatae e Asiphonatae, conforme as larvas possuam ou não um tubo respiratório nítido e fechado. Ao último grupo pertence até o momento apenas a subfamília dos anofelinos, que têm grande importância para a medicina. Eu dividi os Asiphonatae em Orthorynchae e Ankylorhynchae, em função de a tromba ser, em vida, reta ou arqueada para baixo na ponta. Estas últimas contêm espécies extremamente belas e marcantes, mas que não sugam sangue, enquanto as larvas vivem apenas como predadoras. Os Orthorhynchae se dividem em Metanotopsilae, com um metanotum bem liso, e Metanototrichae, que possuem ali alguns pêlos e, às vezes, também escamas. Quase todas estas últimas pertencem aos trópicos; no entanto só se tornaram mais conhecidas recentemente, ao passo que os primeiros gêneros formados são praticamente só de Metanotopsilae. Os dois grupos se subdividem em Heteropalpae e Micropalpae; estes possuem palpos curtos em ambos os sexos, aqueles possuem palpos longos no macho

Para os Orthorhynchae temos então a seguinte divisão, na qual incluo os gêneros mais importantes:

Os gêneros de importância maior para a medicina são apenas os Culex e Stegomyia, cujas espécies estão, em parte, adaptadas ao homem e ao seu meio ambiente e exigem uma discussão especial.

 

Do ponto de vista higiênico-biológico, os culicídeos podem ser divididos de diversas formas. Em primeiro lugar, diferenciamos as espécies que picam das que não picam. Das primeiras, só picam as fêmeas, que, sem se alimentar de sangue, geralmente não conseguem formar seus ovos. A informação de que os machos de algumas espécies também picam, eu considero equivocada. Convencime pessoalmente de que os machos da Stegomyia aegypti não picam, assim como as fêmeas dos Megarhinus, sobre as quais também se afirmou que picavam. Em todos os machos e nas fêmeas que não picam faltam duas das cerdas que picam (mandíbulas) e, portanto, eles podem ser identificados pela sua anatomia. Ambos se alimentam de seiva de plantas, néctar e similares e podem ser encontrados sugando flores ou frutos. No cativeiro, as espécies que picam também podem ser alimentadas com água com açúcar, mel diluído, bananas, tâmaras e similares, só que então elas não botam ovos.

Fig. 2 Megarhinus haemorrhoidalis (F.) Larva e Pupa (ampliadas).

Diferenciamos, também, os habitantes de casas, florestas e brejos. Dos primeiros fazem parte algumas espécies que depositam seus ovos principalmente nas águas usadas pelo homem, nas quais as larvas ficam protegidas contra os predadores. Seus locais usuais de incubação são garrafas, potes, vasos de plantas e de flores, latas de conserva, baldes, barris de chuva e reservatórios menores de água que contenham água potável ou de chuva, ao passo que em brejos e águas paradas de maior extensão eles são inexistentes. Estas espécies se propagam com o homem e suas moradias, das quais os próprios mosquitos também fazem parte; entretanto, às vezes eles voam ao ar livre, e acabam entrando facilmente nas casas vizinhas, o que é importante para a transmissão de enfermidades. São principalmente algumas espécies de Culex e Stegomyia que, pelo menos em regiões mais quentes, são encontradas, inclusive no interior das grandes cidades. Também há outras espécies que se habituam às casas quando estas se encontram nas proximidades de seus ninhos. No entanto, elas não fazem parte dos mosquitos caseiros porque também ocorrem em lugares completamente desabitados e não são encontradas nas ruas fechadas das cidades.

Dos habitantes do brejo fazem parte os mosquitos que são chocados em águas paradas naturais de todos os tipos e que, em geral, podem ser encontrados em seus arredores, embora possam também procurar casas ou florestas nas proximidades.

Os mosquitos da floresta estão ligados a condições especiais somente encontradas em florestas ou grupos de árvores. Eles vivem em porções de água nas axilas das folhas das bromeliáceas, em sua maioria epifíticas, nos internódios das bambusáceas condutoras de água e assim por diante, provavelmente também em cavidades de árvores, onde haja água da chuva estagnada; no entanto, geralmente eles estão ligados a apenas um desses tipos de local de incubação e, por isso, é ali que devem ser procurados para a criação. Em casas distantes de florestas e árvores epifíticas eles praticamente nunca são encontrados, mas podem penetrar nas moradias construídas à margem ou dentro da floresta. No Brasil, um anofelino que só é chocado em bromeliáceas silvestres desempenha um papel importante na transmissão da malária onde há obras de estradas e estradas de ferro, onde pode, sozinho, causar grandes epidemias. Como a maioria das moscas silvestres tem muita sede de sangue, não podem ser completamente excluídas como possíveis transmissores de enfermidades.

Fig. 3 Megarhinus haemorrhoidalis (F.): imago masculino (ampliado).

Há ainda entre os mosquitos espécies que gostam do dia, do crepúsculo ou da noite. Provavelmente isso se deve ao fato de os órgãos da visão serem adaptados a determinadas quantidades de luz e só funcionarem bem quando há tais quantidades. A luz do sol e o ar seco são evitados por muitas espécies, que também não os suportam por muito tempo; porém, em casas, na floresta e à sombra das árvores ou quando a luz está mais fraca, também se é atacado durante o dia por diversas espécies, que são ativas justo nesse período e se distinguem freqüentemente por terem uma coloração e um brilho metálico marcantes, como a ianthinosoma e a maioria das espécies silvícolas. A maioria delas ainda demonstra, porém, uma preferência especial pelas horas mais claras do crepúsculo, formando, dessa forma, uma transição para as espécies que só se tornam ativas no auge do crepúsculo, das quais se sabe que fazem parte os anofelinos, transmissores de malária. Estas, por sua vez, fazem uma transição para as formas que picam até mesmo quando a noite está completamente escura, denunciandose por seu zumbido; provavelmente elas se orientam apenas pelo olfato. Ambos os grupos, e até mesmo as moscas diurnas, também picam sob luz artificial, sendo até atraídos por ela. A título de experiência, podem-se levar moscas diurnas a picar no escuro, se elas forem colocadas perto da pele.

Sabe-se que existem relações interessantes entre o horário do surgimento das microfilárias no sangue periférico e o horário durante o qual os transmissores de enfermidades picam.

O antigo gênero Anopheles transformou-se recentemente numa subfamília que engloba muitos gêneros. Estes se diferenciam sobretudo em seus pêlos e escamas, e a determinação não pode ser feita a olho nu. Para fins práticos, porém, os transmissores de malária podem continuar a ser designados como Anopheles porque os novos gêneros são interpretados como subespécies.

Para o coletor é suficiente reconhecer a fêmea do Anopheles; os machos, mais raros, são encontrados por comparação, pois eles se distinguem das fêmeas unicamente pelas características sexuais. Estas possuem palpos que são quase tão compridos quanto a tromba, formando, com ela, uma espécie de tridente, ao qual parece estar associado o nome Gabelmücke (mosca-tridente); mas eles são finos e não têm muitos pêlos, como é o caso dos machos. As antenas devem ser emplumadas, mas não de forma espessa, o que indicaria tratar-se de um macho; este também pode ser identificado pela tenaz aderente, às vezes nítida, às vezes mais escondida. Nos anofelinos, o escutelo não é trilobado e sim unilobado. A coloração se limita ao branco e ao preto, com algumas tonalidades amarelas e marrons, mas não há cores metálicas coloridas. As asas raramente têm uma só cor, na maioria das vezes são manchadas, com escamas claras e escuras formando alguns traços mais curtos e outros mais compridos ao longo das veias costais e longitudinais, o que faz surgir um tipo característico. A postura peculiar ao sentar e principalmente ao picar é muito característica e raramente está ausente. Aqui a extremidade traseira se eleva e a cabeça se abaixa, às vezes tanto que, ao picar, o inseto fica de cabeça para baixo. Quando repousam nas paredes, esses mosquitos finos lembram pequenos pregos ou pinos, possuindo nomes, no Brasil, relacionados a esta característica. De dia ficam tranqüilos e surgem apenas ao escurecer em maiores quantidades. Eles pousam rapidamente sem zumbir muito e sem formar enxames, por isso quase não chamam a atenção; suas picadas também quase não são sentidas por algumas pessoas. Às vezes eles pousam em bando sobre os pés de pessoas descalças. Parecem ser atraídos pelo olfato, e preferem seres humanos e animais suados. Ao serem capturados em cavalos, raramente as pessoas são picadas, mesmo que os animais estejam cobertos de anofelinos na barriga e nos flancos, como se observa freqüentemente em regiões pantanosas à noite. Ambos os sexos gostam também de voar em direção à luz e podem ser atraídos por meio de lanternas.

As larvas dos anofelinos são identificadas pela falta de um tubo respiratório fechado e pelo hábito de se manterem na superfície da água em posição horizontal. Sua pequena cabeça arredondada freqüentemente permanece virada em 180o, de forma que, por um lado, a boca e, por outro lado, as costas com o estigma ficam voltados para cima enquanto ela se alimenta. Ao serem tocadas, costumam permanecer na superfície dando saltos para os lados. A coloração varia; às vezes a larva tem cor de oliva, às vezes é verde da cor da grama, o que parece depender da alimentação; somente a espécie das bromeliáceas é vermelha. Em porções de água maiores, elas são encontradas principalmente na margem, nas partes rasas, onde não são capturadas por peixes com tanta facilidade, não raro também nos orifícios formados pelas pegadas de cavalos e bois na região úmida da margem. As pupas não são muito diferentes das dos outros culicídeos.

Segue uma chave para a determinação de alguns gêneros importantes na prática:

1. Escamas largas, ovais nas asas manchadas …………

Cyclolepidopteron

Sem elas

………………………………………………………………………. 2

2. Escudo e dorsum abdominis com escamas nítidas

……………… Cellia

Escudo piloso

………………………………………………………………… 3

3. Abdome com tufos de escamas espaçados na lateral

………….… Arribalzagaia

Sem eles

……………………………………………………………………… 4

4. Abdome piloso

………………………………………………………………. 7

Abdome parcialmente escamado

……………………………………….. 5

5. Escamas somente na parte ventral ……………………..

Myzorhynchus

Dorsum abdominis com escamas nítidas na extremidade

………….. 6

6. Somente o segmento genital com escamas ……………

Myzorhynchella

Os últimos três anéis nitidamente escamados …………

Manguinhosia

7. Escamas das asas longas e estreitas ………………………..

Myzomyia

Escamas das asas lanceoladas ………………………………..

Anopheles

Das espécies não mencionadas, Nyssorhynchus e Neocellia não me parecem suficientemente diferentes de Cellia. Asas sem manchas são encontradas, sobretudo, no gênero Anopheles, e então em Chagasia e Stethomyia. Esse primeiro gênero é extremamente importante para a Europa e a América do Norte. Na América Central e na América do Sul a Cellia é mais abundante que todas as outras espécies juntas e parece ser a única responsável por epidemias ao longo dos cursos dos rios, como o são as Myzomyia para epidemias nas florestas montanhosas.

Culex 6 e Stegomyia , que encerram os mosquitos caseiros mais importantes, têm fêmeas com palpos curtos, ao passo que os dos machos são longos e possuem tufos pilosos nas extremidades. As asas sem manchas são quase hialinas; o corpo posterior e as pernas apresentam, às vezes, anéis claros e escuros.

Culex quinquestriatus 7 , mais conhecida como fatigans Wied, é vagarosa durante o dia; as fêmeas, disformes de tão cheias do sangue sugado, permanecem durante horas no mesmo lugar. A espécie é identificada pelo tomento dourado amarronzado do escudo dorsal, que é coberto de pequenas escamas cor de bronze semelhantes a pêlos, enquanto os anéis do abdome variam de branco a amarelo acastanhado na base, e de marrom a preto na ponta; as pernas marrons amareladas não possuem anéis e apresentam no máximo alguns pontos mais claros nos joelhos. Os machos são identificados pelas antenas emplumadas, pelos palpos longos e pelo adbome fino, mais fortemente piloso, e que possui uma tenaz aderente na extremidade.

Fig. 4 Cellia argyrotarsis e albimana ♂ e ♀ (ampliadas).

 

Fig. 5 Cellia argyrotarsis ♂ (ampliada).

Os ovos são alongados e tão unificados em grupos escafóides, que ficam em posição vertical na superfície da água, na qual as larvas penetram ao eclodirem através do pólo inferior. Elas possuem, na extremidade posterior, um tubo respiratório dorsal um pouco inclinado para trás e em formato de um cone deitado, com dois pentes na base formados por espinhos de escamas. Quando esse tubo está em contato com o ar na extremidade superior, o corpo fica pendurado na água, inclinado para baixo. A cabeça é mais larga que o tórax e as antenas são muito grandes.

Culex pipiens 8 é tão disseminada nas zonas mais frias quanto nas mais quentes. Por sua aparência e comportamento semelhantes já foram muito confundidas.

A 9 Stegomyia aegypti (= fasciata e calopus )é fácil de ser distinguida das duas: ela é preta e branca e possui pernas conspicuamente aneladas, enquanto o escudo tem uma figura branca, muito característica, da forma de uma lira. Ela se distingue microscopicamente da Culex pelas escamas largas e planas na cabeça posterior, enquanto as da Culex são levantadas e, em parte, se dividem em duas pontas.

Os machos, facilmente diferenciáveis, voam de forma peculiar para lá e para cá durante o dia nas moradias, enquanto as fêmeas procuram picar, sendo, ao mesmo tempo, atrevidas e medrosas. Por isso elas geralmente picam os indivíduos que estão dormindo ou que ao menos estão bem quietos. Ambos os sexos preferem pousar sobre matéria escura, porém são muito mais difíceis de capturar que

os de 10 Culex quinquestriatus .

Os ovos são depositados individualmente sobre a água. A cabeça e as antenas das larvas são menores e o tubo respiratório, quase da forma de uma azeitona, mais curto. As larvas também são mais flexíveis e mais ágeis que as do Culex.

Para a determinação das inúmeras outras espécies de culicídeos, tenho de indicar as obras especiais e me limitar a dar mais algumas informações gerais.

Os ovos dos culicídeos podem ser encontrados em seus locais de incubação; no cativeiro, eles podem ser obtidos colocando-se as fêmeas repletas de sangue num cilindro, com suas duas extremidades tapadas com gaze, que fique mergulhado em água. Recipientes como esse também servem para deixar as fêmeas sugarem. (Locais apropriados para ficarem podem ser obtidos incluindo-se tiras de papel, cana de capim e similares.) Algumas espécies também depositam ovos sobre algodão umedecido. Quando se quer guardar mosquitos e outras espécies hematófagas por mais tempo em pequenos recipientes, é melhor mantê-los na mais absoluta escuridão entre os períodos em que picam e durante o amadurecimento dos ovos ou durante a evolução dos parasitas, porque assim eles se conservam melhor.

 

Fig. 6 Larva de Myzomyia lutzi (ampliada).

Em porções de água menores as larvas podem ser pescadas com tigelas ou peneiras. Em porções de água maiores utilizam-se redes; o mais apropriado é um funil de cobre com um dispositivo prendendo-o a uma vara que tenha um apoio na parte de baixo.

Sobre a extremidade11 do funil coloca-se, com um fecho de baioneta, uma pequena peneira, que depois é retirada e colocada numa tigela com água. O mesmo instrumento, munido de um funil de vidro que desemboque num cilindro de vidro, serve para obter, mediante a retirada da vegetação, mosquitos vivos e apropriados para observação, que nela se encontravam pousados.

Fig. 7 Culex sugando sangue. De Osborn (ampliada).

 

Os culicídeos não devem ser tocados em razão de sua fragilidade. Eu os aspiro dos vidros de cultivo com um tubo de vidro curvado como um joelho, que na extremidade mais curta é cortado diagonalmente e na extremi- De Osborn (ampliada). dade mais longa possui um diafragma de gaze ou de rede metálica fina, sobre

o qual é ajustada uma longa mangueira de borracha (Fig. 10). Esta é colocada em volta do pescoço para que a extremidade de vidro possa ser confortavelmente controlada, enquanto se fazem curtas aspirações na extremidade de borracha. Seguindo a corrente de ar, os mosquitos entram no tubo de vidro, a partir do qual eles podem ser soprados para outros recipientes previamente examinados. Com o mesmo instrumento pode-se capturar com grande facilidade nas paredes e nos vidros das janelas até mesmo os mais frágeis

mosquitos. (Fig. 10).

Fig. 8 Larva e pupa do Culex pungens (quinquestriatus). Segundo

Howard (ampliada).

 

Fig. 9 Stegomyia aegypti (= calopus) (macho e fêmea ampliados).

Manual dos microorganismos patogênicos. 3.ed. X.

 

Fig. 10 Tubo de aspiração.

Com uma fina gaze de arame e um bom esparadrapo podem-se construir bons vidros para coleta a partir de vidros quebrados, gargalos de garrafas, cilindros de lâmpadas e similares, cortando-os perpendicularmente com um laço incandescente de arame e cobrindo-os numa extremidade com uma capa de gaze de arame, que é colada na borda com um esparadrapo, enquanto a outra extremidade é fechada com um chumaço de algodão. Por intermédio de uma ponta cônica os arames são empurrados até formarem uma abertura redonda com a espessura de um lápis, através da qual os mosquitos tanto podem ser soprados para dentro quanto sair voando, e que pode ser fechada em seguida com um tampão ou com algodão. Para evitar perdas com mosquitos infectados, podem-se fazer todas as manipulações sob um mosquiteiro ou numa câmara sem janelas em forma de cubo totalmente revestida de tela branca, cujos lados tenham aproximadamente 2 m de comprimento, e cuja estrutura seja composta de ripas finas. Numa câmara como essa, que deixa passar luz e ar suficientes, pode-se encontrar facilmente cada

Continuar: parte 2 de 2