Amor Sem Fim
Capítulo 11
Querido Joe,
Sinto que a felicidade circula dentro de mim como uma corrente elétrica. Fecho os olhos e o vejo como ontem à noite, debaixo da chuva e do outro lado da rua, ligado a mim por um amor que não precisa ser expresso em palavras mas é tão forte quanto um cabo de aço. Fecho os olhos e agradeço a Deus em voz alta por você existir, por permitir que eu exista no mesmo lugar e no mesmo tempo que você, por deixar que tivesse início essa estranha aventura entre nós. Eu Lhe agradeço por todas as pequenas coisas que nos unem. Esta manhã, ao acordar, vi na parede ao lado de minha cama um círculo perfeito de luz do sol — e Lhe agradeci por estar derramando essa mesma luz sobre você! Assim como, na noite de ontem, a chuva que o encharcou também me encharcou, nos aproximando ainda mais. Louvado seja Deus por me conduzir a você. Sei que encontraremos pela frente muita dor e dificuldade, porém, se é duro o caminho que Ele nos traçou, isso serve a algum propósito. O propósito Dele! Assim somos testados e fortalecidos, o que no futuro nos trará alegrias ainda maiores.
Sei que lhe devo desculpas — e essa palavra é pequena demais. Apresento-me nu, indefeso, diante de você, dependendo de seu perdão, implorando que releve minha falta. Porque você soube reconhecer nosso amor desde o primeiro minuto. Você o percebeu no olhar que trocamos no alto da colina depois que ele caiu, toda a força, o poder e a beatitude do amor, enquanto eu fui insensível e grosseiro, negando tudo, tentando me proteger, tentando fingir que nada estava acontecendo, que não podia acontecer assim — e ignorei o que você estava me dizendo com os olhos e com cada gesto seu. Pensei que seria suficiente segui-lo colina abaixo e sugerir que rezássemos juntos. Você tinha razão em ficar aborrecido comigo por eu não ver o que você já tinha visto. O que aconteceu foi tão óbvio. Por que me recusei a admiti-lo? Você deve ter me achado um insensível, um imbecil. Tinha toda a razão em me dar as costas e ir embora. Até hoje me recordo do momento em que você começou a subir a colina, mas só agora entendo que os ombros curvados e os passos lentos mostravam como você se sentiu rejeitado por mim. E solto gemidos em voz alta ao recordar meu comportamento. Que idiota! Eu poderia ter posto a perder o que nós temos. Joe, pelo amor de Deus, me perdoe, por favor.
Agora, pelo menos, você sabe que eu vi o que você viu. E, com as restrições impostas por sua situação e seu respeito pelos sentimentos de Clarissa, você me acolheu usando meios que nenhum intrometido pode interceptar, meios que só eu sou capaz de interpretar. Você sabia que eu estava fadado a encontrá-lo. Você estava esperando por mim. Por isso é que tive de lhe telefonar tão tarde naquela noite, tão logo entendi o que você me havia dito com seu olhar. Quando você atendeu o telefone, pude sentir o alívio em sua voz. Você aceitou minha mensagem em silêncio, mas não pense que não me dei conta de sua gratidão. Quando desliguei, chorei de alegria e sei que você também chorou. Agora, finalmente, a vida podia começar. Toda a espera, a solidão e as orações tinham rendido fruto, e me ajoelhei para dar graças a Deus até o sol raiar. Você dormiu naquela noite? Não creio. Você ficou acordado no escuro, ouvindo a respiração de Clarissa e pensando aonde isso tudo iria nos levar.
Joe, você realmente pôs em marcha alguma coisa especial!
Temos tantas coisas para nos dizer, tanto tempo a recuperar. Começou a exploração no fundo do oceano, porém a superfície permanece tranquila. O que estou tentando dizer é que você viu minha alma (tenho certeza disso) e sabe como penetrar mais fundo dentro de mim, embora não conheça praticamente nada dos pormenores de minha vida — como eu vivo, onde moro, meu passado, minha história. É só a crosta, eu sei, mas nosso amor tem de incluir tudo. Já conheço muito sobre sua vida. Fiz disso minha ocupação, minha missão. Você me atraiu para sua vida cotidiana e exigiu que eu a entendesse. E o fato é que não posso lhe negar nada. Se algum dia eu tiver de fazer uma prova sobre você, vou tirar dez, não cometerei um único erro. Você ficará muito orgulhoso de mim!
Por isso, aí vai minha crosta. Sei que muito em breve você estará aqui. É uma bela casa, situada numa pequena curva da Frognal Lane, cercada de gramados, com um pátio interno no centro que ninguém pode ver, mesmo quem consegue passar do portão (poucos o fazem além do carteiro) e chega à porta de entrada. É a réplica em miniatura de um palacete francês. Tem até janelas com persianas pintadas de um verde desbotado e um cata-vento em forma de galo no telhado. Minha mãe, que morreu de câncer quatro anos atrás, herdou a casa da irmã, a qual, por sua vez, a recebeu numa partilha de divórcio poucas semanas antes de morrer num acidente de carro. Estou contando isso porque não quero que você fique com uma falsa impressão sobre minha família. Minha tia teve um casamento terrível com um escroque que enriqueceu no mercado imobiliário, mas o resto da família sobreviveu com empreguinhos bem banais. Meu pai morreu quando eu tinha oito anos. Tenho uma irmã mais velha que vive na Austrália, mas não fomos capazes de descobrir seu paradeiro quando mamãe morreu, além do quê, por algum motivo, ela não é mencionada no testamento. Possuo um punhado de primos que nunca vejo e, pelo que sei, sou o único na família que continuou a estudar depois dos dezesseis anos. Assim, aqui estou, rei no castelo que Deus me concedeu para algum propósito que só Ele conhece.
Posso sentir sua presença ao meu redor. Acho que não vou voltar a lhe telefonar. É desagradável por causa de Clarissa e, ao escrever, fico mais perto de você. Eu o imagino sentado aqui ao meu lado, vendo o que estou vendo. Estou sentado diante de uma pequena mesa de madeira na varanda coberta do segundo andar, que é uma continuação do escritório e dá para o pátio interno. A chuva cai sobre duas cerejeiras em flor. Como o galho de uma delas penetra pela balaustrada, estou suficientemente próximo para ver como a água toma a forma de contas ovais coloridas pelo rosa pálido das flores. O amor me deu olhos novos, vejo tudo com muita clareza e em grande detalhe. Os veios das velhas vigas, cada folha da relva molhada lá embaixo, as patinhas negras (que me fizeram cócegas) da joaninha que passeou por minha mão um minuto atrás. Tenho vontade de tocar e acariciar tudo que vejo. Enfim estou acordado. Sinto-me tão vivo, o amor me fez ficar tão alerta!
Por falar em toques e na grama molhada, me lembrei de uma coisa. Quando você saiu ontem de tarde de casa e roçou com a mão o topo da cerca de alfeneiros, de início não entendi. Caminhei alguns passos e passei os dedos pelas folhas que você tinha tocado. Peguei em cada uma e foi um choque quando percebi que havia uma diferença com relação às que você não tocou. Senti uma vibração, parecia que meus dedos iam se queimar nas bordas daquelas folhas úmidas. Então compreendi. Você as tinha tocado de uma forma especial, transmitindo uma mensagem. Você pensou que eu não ia perceber, Joe? Tão simples, tão engenhoso, tão carinhoso. Que maneira fabulosa de ouvir falar de amor — através da chuva, das folhas, da pele —, a mensagem bordada na delicada criação de Deus, se revelando em forma de calor pelo toque de meus dedos. Eu poderia ter ficado lá por uma hora, maravilhado, caso não me importasse em ser deixado para trás. Queria saber para onde você ia me levar em meio à chuva.
Mas retornemos à superfície do mar. Eu dava aulas de inglês para estrangeiros num lugar perto de Leicester Square. Era suportável, embora eu nunca tivesse conseguido fazer camaradagem com outros professores. Havia uma falta de seriedade geral que me irritava. Acho que falavam mal de mim pelas costas porque eu levava a religião a sério — coisa fora de moda hoje em dia! Logo que ganhei o dinheiro e a casa, abandonei o emprego e me mudei. Imaginei que seria algo temporário, que estava esperando. Sempre tive a convicção de que este lugar incrivelmente bonito me foi concedido com algum propósito. Num dia estou morando numa quitinete miserável em Arnos Grove, no dia seguinte, num palacete em Hampstead, com uma pequena fortuna no banco. Havia necessariamente um desígnio nisso, e pensei que meu dever, como o tempo comprovou, consistia em me manter calmo, atento aos silêncios, sempre pronto. Eu rezava, meditava e às vezes fazia longas caminhadas no campo, sabendo que, cedo ou tarde, o propósito Dele seria revelado. Minha responsabilidade era estar alerta, preparado para captar o primeiro sinal. E, apesar de toda essa preparação, isso me escapou! Devia ter entendido quando nossos olhares se encontraram no alto da colina. Só à noite, de volta ao silêncio e à solidão desta casa, é que comecei a compreender. E por isso telefonei para você... Mas agora estou andando em círculos!
Esta casa está esperando por você, Joe. A biblioteca, o salão de sinuca, a sala de estar com sua linda lareira e enormes sofás antigos. Temos até um cinema em miniatura (vídeos, naturalmente), uma sala de ginástica e uma sauna. Encontraremos obstáculos pela frente, sem dúvida. Cadeias de montanhas! A mais alta de todas sendo sua negação de Deus. Mas já entendi isso, como você sabe muito bem. Na verdade, você provavelmente planejou tudo assim. É um jogo que está fazendo comigo, parte sedução, parte provação. Você está querendo testar os limites da minha fé. Fica horrorizado por eu ser capaz de perceber tão facilmente seus truques? Espero que isso lhe dê prazer, como sinto prazer quando você me guia com suas mensagens, com esses códigos que penetram diretamente na minha alma. Eu sei que você chegará a Deus, tanto quanto sei que é meu dever levá-lo a Ele por meio do amor. Ou, em outras palavras, seu afastamento de Deus será vencido graças ao poder curativo do amor.
Joe, Joe, Joe... Vou confessar: cobri cinco folhas com seu nome. Você pode rir de mim — mas não demais. Pode ser cruel comigo — mas não demais. Por trás desses jogos em que estamos envolvidos, existe um propósito que não cabe a mim ou a você questionar. Tudo que fazemos juntos, tudo que somos está sob os cuidados de Deus, e nosso amor deve sua existência, forma e significado ao amor Dele. Temos tanta coisa para conversar, tantos pormenores interessantes. Ainda precisamos discutir tudo que se refere a Clarissa. Acho justo que você tome a frente e me diga o que acha melhor. Quer que eu fale com ela? Eu gostaria muito de fazer isso. Não significa que eu ficaria feliz, é claro, e sim que estou preparado. Ou deveríamos nos sentar, os três, e resolver as coisas numa conversa? Tenho certeza de que existem maneiras de lidar com isso fazendo-a sofrer menos. Mas tem de ser uma decisão sua, e vou esperar para saber o que você decidir que é melhor. Senti sua presença, bem junto a meu braço, enquanto escrevia. A chuva parou, os passarinhos voltaram a cantar e o dia está ainda mais radioso. Terminar esta carta é como partir. Não posso deixar de sentir que, a cada vez que me afasto de você, eu o estou decepcionando. Jamais esquecerei aquele momento lá embaixo da colina, como você me deu as costas, rejeitado, chocado com minha recusa em reconhecer já então o nosso amor. Nunca deixarei de repetir que sinto muito. Joe, você algum dia me perdoará?
Jed
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