Amor Sem Fim

Ian McEwan · Capítulo 4 de 26

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Amor Sem Fim

Capítulo 4

 

Embora ao acordarmos na manhã seguinte aqueles acontecimentos ainda vibrassem acima da cama, o resto do dia, com sua carga de compromissos diversificados, serviu como um bálsamo para nós. Clarissa saiu de casa às oito e meia para um seminário sobre poesia romântica na universidade. Depois, participou de uma reunião administrativa de seu departamento, almoçou com uma colega, corrigiu provas e durante uma hora supervisionou uma aluna de pós-graduação que escrevia uma tese sobre Leigh Hunt. Voltou às seis enquanto eu ainda estava fora de casa. Deu uns telefonemas, tomou um banho e saiu para jantar com o irmão, Luke, cujo casamento de quinze anos estava em crise.

Eu havia tomado meu banho pela manhã. Levei uma garrafa térmica com café para o escritório e durante quinze minutos corri o risco de sucumbir às tentações de todo freelancer: jornais, telefonemas, devaneios. Não me faltavam assuntos para sonhar acordado. Porém reagi e me obriguei a terminar o artigo sobre o telescópio Hubble para uma revista americana.

Esse projeto me interessava fazia muitos anos por encarnar um heroísmo e uma grandiosidade incomuns, por não ter propósitos bélicos ou comerciais imediatos e por responder a um impulso tão simples quanto nobre — alargar as fronteiras do conhecimento. Quando se descobriu que havia uma imperfeição de vinte e cinco centésimos de milésimo de centímetro na curvatura do espelho primário de dois metros e quarenta, a reação geral não foi de desapontamento, e sim de alegria, gozação e zombaria numa escala planetária. Desde que o Titanic afundou, temos sido muito severos com os engenheiros, encarando com ceticismo suas ambições exageradas. Aqui estava o mais comprido brinquedo no espaço até então, da altura de um prédio de quatro andares, destinado a brindar nossas retinas com maravilhas, as imagens das origens do universo, nossos próprios primórdios no começo dos tempos. Ele havia fracassado, não por causa de algum mistério algorítmico na programação do software, e sim por um erro fácil de compreender — a miopia provocada pela má execução do velho ofício de esmerilhar e polir. O telescópio Hubble se tornou um prato cheio para os humoristas na tv, a prova definitiva do ocaso industrial americano.

O Hubble era majestoso como conceito, mas a operação de salvamento foi tecnologicamente sublime. Centenas de horas de caminhadas no espaço, dez espelhos corretores fixados com uma precisão sobre-humana em torno da borda da lente defeituosa, enquanto, aqui embaixo, a sala de controle era ocupada por uma orquestra wagneriana de cientistas e computadores potentíssimos. Do ponto de vista técnico, foi mais difícil do que pôr um homem na Lua. O defeito foi corrigido, as fotografias do que era o universo doze bilhões de anos atrás nos chegaram com exatidão e nitidez, o mundo esqueceu o escárnio e se maravilhou — por um dia —, voltando depois a seus afazeres cotidianos.

Trabalhei sem interrupção por duas horas e meia. O que me preocupava naquela manhã, enquanto digitava o artigo, era uma inquietação, uma sensação física que eu não conseguia identificar precisamente. Há certos erros que nem mil astronautas podem consertar. Como o meu, ontem. Mas o que é que eu havia feito, ou deixado de fazer? Caso houvesse culpa, onde exatamente ela tivera início? Nas amarras sob o balão, ao largar a corda, mais tarde junto ao corpo, no telefone à noite? O desassossego começava na pele e ia mais fundo. Como se eu não houvesse me lavado. Mas, quando parei de digitar e repassei todos os acontecimentos, não senti culpa nenhuma. Balancei a cabeça e digitei ainda mais depressa. Não sei como fui capaz de afastar inteiramente da cabeça aquela chamada telefônica noturna, porém o fato é que consegui fundi-la em todos os problemas do dia anterior. Acho que ainda me encontrava em estado de choque e tentava escapar no trabalho.

Terminei o artigo, corrigi-o e o passei por fax para Nova York, cinco horas antes do prazo fatal. Telefonei para a delegacia de polícia em Oxford e, após ser transferido para três departamentos em sequência, fui informado de que haveria uma investigação sobre a morte de John Logan, que a audiência da promotoria provavelmente teria lugar dali a seis semanas e que todos nós deveríamos comparecer.

Peguei um táxi para o Soho a fim de me encontrar com um produtor de rádio no seu escritório. Ele queria que eu fizesse um programa sobre as verduras nos supermercados. Respondi que isso estava fora de minha área de conhecimento e o produtor, Eric, me surpreendeu ao se pôr de pé e fazer um discurso apaixonado. Disse que a demanda durante todo o ano por ervilhas, morangos e coisas do gênero estava destruindo o meio ambiente e as economias de vários países africanos. Repeti que esse não era meu campo e dei o nome de algumas pessoas que ele poderia contatar. Então, embora mal o conhecesse, ou talvez por causa disso, me aproveitei de seu impulso caloroso e lhe contei a história toda. Não pude me conter. Precisava contar para alguém. Eric ouviu pacientemente, fazendo os ruídos e os movimentos de cabeça apropriados, conquanto me olhasse como se eu estivesse contaminado, trazendo para seu escritório a mais recente mutação do vírus do infortúnio. Eu poderia ter interrompido o relato ou inventado um final qualquer. Mas fui até o fim porque não conseguia parar. Estava contando tudo aquilo para mim mesmo e, em matéria de plateia, um peixinho-dourado teria me servido tão bem quanto um produtor radiofônico. Quando terminei, ele se despediu às pressas — tinha outra reunião, iria me procurar para discutir outra ideia —, e me senti conspurcado ao pisar de volta na imunda Meard Street. A sensação sem nome retornou, dessa vez sob a forma de um formigamento na nuca e uma dorzinha na barriga que, pela terceira vez naquele dia, deu origem a uma vontade pouco confiável de evacuar.

Passei a tarde na sala de leitura da Biblioteca de Londres, pesquisando alguns dos mais obscuros contemporâneos de Darwin. Queria escrever sobre o desaparecimento das narrativas de “casos” na literatura científica, pois achava que a geração de Darwin tinha sido a última a se permitir o luxo de utilizar esses relatos informais nos artigos publicados. Encontrei uma carta enviada à revista Nature em 1904, parte de uma longa troca de correspondência em que se debatia a consciência dos animais e, em especial, a possibilidade de que os mamíferos superiores, tais como os cães, fossem capazes de prever as consequências de suas ações. O autor da carta tinha um amigo cujo cachorro manifestava clara preferência por uma poltrona muito confortável junto à lareira da biblioteca de sua casa. Certa noite, quando foram tomar um cálice de porto na biblioteca após o jantar, o missivista pôde testemunhar o comportamento do cachorro. Enxotado da poltrona por seu dono, que lhe tomou o lugar, o cão passou alguns minutos sentado ao lado da lareira, num silêncio contemplativo, e depois foi até a porta e ganiu, pedindo para sair. O dono levantou-se, solícito, e atravessou o aposento, quando então o animal disparou na direção contrária e voltou a tomar posse de seu lugar predileto. Durante alguns segundos, seu focinho expressou uma sensação de triunfo absoluto.

O autor concluía que o cachorro deve ter formulado um plano, com uma visão do futuro que ele tentou moldar praticando um logro deliberado. E seu prazer com o êxito da manobra teria exigido a intervenção da memória. O que eu admirei na carta foi como o poder e as atrações da narrativa haviam toldado o senso crítico do autor. Segundo os mais elementares critérios de pesquisa científica, a historinha, apesar de encantadora, não tinha a menor validade. Não provava nenhuma teoria, não definia nenhum termo, correspondia a um exemplo único e irrelevante, baseava-se num risível antropomorfismo. Era fácil alterar o relato a fim de aplicá-lo a um autômato ou até mesmo a uma criatura obrigada a viver perpetuamente no presente: enxotada da poltrona, ocupa a segunda melhor posição (junto à lareira para desfrutar do calor, e não para fazer planos) até que sente vontade de urinar, vai até a porta tal como havia sido treinada, de repente repara que seu lugar preferido está vago de novo, esquece por ora a sinalização da bexiga e volta para tomar posse da poltrona, a expressão de triunfo nada mais sendo que uma manifestação imediata de prazer — ou mera projeção mental do observador.

Eu próprio estava confortavelmente instalado numa grande poltrona de couro com braços bem acolchoados. Meu campo de visão abrangia três outros associados da biblioteca, cada qual munido de um livro ou revista, todos dormindo a sono solto. Do lado de fora, o tráfego estridente de St. James Square, incluindo as motocicletas de entrega, exercia um efeito soporífero como às vezes ocorre quando alguém se movimenta freneticamente diante de nós. Na sala de leitura, a água murmurava ao correr por velhos canos invisíveis e, mais perto, o assoalho estalou quando alguém, ocultado pela estante de revistas, caminhou alguns passos, parou por um ou dois minutos e voltou a se afastar. Em retrospecto, dei-me conta de que aquele ruído tinha rondado por quase meia hora a periferia de minha consciência. Perguntei-me se seria razoável pedir àquela pessoa que ficasse parada ou pegasse uma pilha de revistas e fosse sentar em silêncio. Meu algoz entrou em ação — quatro passadas lentas e rangedoras, e por fim se fez a paz. Tentei focalizar a atenção no autor da carta e na capacidade mental dos cachorros, mas agora meus pensamentos estavam dispersos. Quando algo se movimentou do outro lado da sala, fiz questão de não tirar os olhos da página, embora não estivesse mais lendo. Mas acabei cedendo, e tudo que vi de relance foi um sapato branco e algo vermelho ao se fechar com um suspiro a porta de vaivém que separava a sala de leitura das escadas.

Depois que o desocupado barulhento saiu, transferi minha irritação para os administradores. O prédio era famoso por seus ruídos, em especial pelo zumbido das lâmpadas fluorescentes ao longo das estantes, problema aparentemente insolúvel. Talvez me sentisse mais feliz na Biblioteca Wellcome. A coleção de ciência na Biblioteca de Londres era mesmo ridícula, talvez com base na premissa de que o mundo podia ser suficientemente compreendido por meio de obras de ficção, livros de história e biografias. Será que os analfabetos científicos que dirigiam a instituição (e ousavam se dizer instruídos) de fato acreditavam que a literatura era a maior conquista intelectual de nossa civilização?

Essa arenga interna deve ter durado uns dois minutos. Eu estava envolto nela, invisível para mim mesmo. Saí daquele marasmo graças à afirmação de uma autoconsciência que nem mesmo o autor da carta poderia atribuir ao cachorro de seu amigo. Obviamente, não era o assoalho rangedor ou a administração da biblioteca o que me agitava — e sim meu estado emocional, a condição mental e visceral que eu ainda não conseguira desvendar. Recostei-me na poltrona e recolhi meus apontamentos. Até então, não tinha me apercebido das pistas dadas pelo tipo de sapato e pela combinação de cores. Fiquei olhando para a página pousada sobre as pernas. Antes que meus pensamentos perdessem o foco, as últimas palavras que eu escrevera haviam sido intencionalidade, intenção, tentativa de assumir controle sobre o futuro. Ao escrever essas palavras, tinha em mente um cão, mas, ao relê-las agora, comecei a ficar inquieto. Não conseguia expressar o que sentia. Enxovalhado, contaminado, louco, algo que se manifestava no plano físico mas também tinha uma projeção moral. É falso dizer que não há pensamento sem linguagem. Eu possuía um pensamento, uma sensação, uma percepção, e buscava a palavra que a expressasse. Assim como a culpa estava para o passado, o que estaria, em igual relação, para o futuro? Intenção? Não, não se tratava de influenciar o futuro. Presságio. Ansiedade com relação ao futuro, repugnância com relação ao futuro. Culpa e pressentimento numa linha que ligava o passado ao futuro e cujo fulcro era o presente — o único momento em que a percepção podia ser vivenciada. Não era exatamente medo. O medo é algo demasiadamente focado, ele tem um objeto. Pavor era forte demais. Receio do futuro. Vamos lá, apreensão. Sim, isso mesmo, ou quase. Apreensão.

Na minha frente, os três dorminhocos não se mexiam. A porta de vaivém foi diminuindo seu movimento pendular até que só sobrou uma reverberação molecular, bem próxima de algo simplesmente imaginado. Quem era aquela pessoa que acabara de sair? Por que tão repentinamente? Levantei-me. Quer dizer que se tratava de apreensão. Eu havia sentido aquilo durante o dia todo. Simples, era uma forma de medo. Medo das consequências. Durante o dia inteiro eu sentira medo. Será que tinha sido muita estupidez de minha parte não reconhecer o medo desde o começo? Não era o medo uma emoção elementar, que no famoso estudo multicultural de Ekman se equiparava à repugnância, à surpresa, à raiva e à alegria? Afinal de contas, o medo e seu reconhecimento nos outros estão associados à atividade neural nas amídalas cerebelosas, profundamente inseridas na parte de nossos cérebros que deriva dos primeiros mamíferos e de onde partem reações instantâneas. Mas minha reação não havia sido imediata. Meu medo se escondera atrás de uma máscara. Contaminação, confusão, algaravia. Eu estava com medo do meu medo porque não conhecia ainda sua causa. Temia o que ele poderia provocar em mim e o que me obrigaria a fazer. E eu não conseguia parar de olhar para a porta.

Pode ter sido uma ilusão gerada pela persistência visual ou um atraso de percepção produzido pelo tropeço de algum neurônio, mas me pareceu que eu estava ainda afundado na macia poltrona de couro, observando aquela porta, enquanto já me movia em sua direção. Desci de dois em dois os largos degraus cobertos com um tapete vermelho, girei no primeiro patamar agarrado ao balaústre, venci o último vão de escadas em três passadas e penetrei no hall de entrada rompendo a calma pré-digital dos balcões de reservas e de catalogação. Driblei alguns associados, o livro de sugestões e uma profusão de mochilas escolares e casacos até alcançar a porta principal e chegar à rua. A praça estava coalhada de carros e vazia de pedestres. Eu procurava um par de tênis brancos com cadarços vermelhos. Esgueirei-me, veloz, entre os veículos que latejavam pacientemente. Sabia com precisão onde me posicionaria para vigiar as portas da biblioteca: no canto nordeste, defronte à antiga embaixada da Líbia. De passagem, olhei de relance para a esquerda ao longo da Duke of York Street. Calçadas vazias, rua cheia. Os carros eram agora nossos cidadãos. Cheguei à esquina, perto da cerca. Não vi ninguém, nem ao menos um bêbado no parque.

Fiquei lá algum tempo, olhando a meu redor e retomando o fôlego. Encontrava-me no lugar exato em que a policial Yvonne Fletcher fora assassinada com um tiro disparado por um líbio de uma das janelas do prédio situado do outro lado da rua. Aos meus pés jazia um punhadinho de cravos-de-defunto amarrados com um fio de lã, quem sabe trazido por alguma criança. O vidro de geleia no qual as flores tinham sido postas estava caído de lado, embora ainda guardasse um restinho de água. Sem deixar de olhar a meu redor, ajoelhei-me e repus as flores no vidro. Ao colocá-lo mais perto da cerca, onde era menor o risco de ser chutado outra vez, não pude deixar de pensar que isso talvez me traria sorte ou, melhor dizendo, alguma proteção, sabendo perfeitamente que com base nesse tipo de ato propiciatório, destinado a conjurar as imprevisíveis forças do mal, religiões inteiras haviam sido fundadas e complexos sistemas de pensamento tinham visto a luz do dia.

Por fim voltei à sala de leitura.

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