Amor Sem Fim

Ian McEwan · Capítulo 15 de 26

Páginas do PDF

Amor Sem Fim

Capítulo 15

 

Na volta, saí da autoestrada e rumei para o sul, onde se erguem as Chilterns, seguindo até o campo. Estacionei exatamente onde Logan o fizera, com o carro meio inclinado no acostamento gramado. De pé, ao lado da porta do passageiro, ela teria tido uma visão desimpedida de todo o drama, do balão arrastando a cesta pelo campo até a luta com as cordas e a queda, embora não pudesse ter visto o ponto onde ele se chocara contra o solo. Imaginei-a bonita, com vinte e poucos anos, frenética, subindo desesperada a estrada até a cidadezinha mais próxima. Ou teria tomado a direção oposta, descendo para Watlington. Fiquei lá no lugar dela, pensando nos telefonemas e bilhetes secretos que teriam precedido o piquenique. Talvez se amassem. Será que, como honrado chefe de família, ele foi torturado pela culpa e pela indecisão? E que reviravolta violenta ela sofrera, do esperado encontro com o homem que adorava para o pesadelo, o momento em torno do qual sua vida passaria a girar. Malgrado o horror, antes de começar a correr ela se lembrou de arrancar algumas coisas do carro — o casaco e a bolsa, mas não o material do piquenique e o lenço de pescoço. Eu compreendia perfeitamente que ela não tivesse se apresentado. Ficou em casa, jogada sobre a cama, lendo os jornais e chorando sem parar.

Sem nenhum propósito claro, comecei a atravessar o campo. Tudo parecia diferente. Em menos de duas semanas, as sebes e árvores que o circundavam tinham ficado mais encorpadas à medida que avançava a primavera, enquanto a relva dava sinais da pujança futura. Como numa reconstituição policial, tomei a trilha que Clarissa e eu havíamos percorrido e cheguei ao local onde nos protegêramos do vento. Era como se retornasse a algum lugar vagamente lembrado dos tempos de criança. Estávamos tão felizes com o reencontro, tão à vontade um com o outro — e agora eu não era capaz de imaginar o caminho de volta para aquele estado idílico.

De lá, fui lentamente para o centro do campo e refiz o trajeto pelo qual dias antes correra. Tendo chegado ao ponto em que nossos destinos convergiram, caminhei até a borda da escarpa seguindo o rumo que o vento imprimira ao balão. Lá embaixo podia ver a vereda que trouxe Parry para dentro de minha vida. Atrás de mim, onde eu parara o carro, Logan havia estacionado. Daqui todos nós acompanhamos sua queda, mas foi também nesse lugar que meu olhar e o de Parry se cruzaram, nascendo ali sua paixão por mim, uma paixão cuja morbidez eu agora estava impaciente para pesquisar.

Foram essas as estações da minha via-sacra. Desci a colina, entrando no campo para chegar à parada seguinte. As ovelhas haviam sumido e a estradinha do outro lado da cerca viva era mais próxima do que eu me recordava. Procurei uma reentrância no solo, porém só vi o começo de uma formação de urtigas que chegava bem perto da porteira que o policial tinha pulado. Foi aqui que Parry quis rezar, e aqui iniciei minha caminhada de volta naquele dia. Repeti os movimentos, tentando entender como ele vira rejeição em minha postura.

A subida da colina foi mais penosa do que na vez anterior, quando a adrenalina dera força às minhas pernas e acelerara meus pensamentos. Agora havia uma profunda relutância nos músculos das coxas, o coração martelava nos ouvidos. Parando no topo para recuperar o fôlego, olhei a meu redor: por volta de quarenta hectares de campos e um declive acentuado. Agora que estava aqui, tinha a sensação de nunca haver partido de verdade, pois esse era o palco, o pano de fundo pintado de verde de minhas preocupações — e eu não teria me surpreendido muito caso se aproximassem de mim, vindos de diferentes direções, Clarissa, John e Jean Logan, a mulher sem nome, Parry e De Clérambault. Imaginando isso, vendo que formavam um semicírculo a fim de me empurrar para a beira da escarpa, não tive dúvida de que vinham me acusar coletivamente — mas de quê? Se soubesse, não ficaria tão exposto a ser denunciado. Uma lacuna, uma deficiência, uma falha mental tão difícil de descrever quanto a primeira aula de cálculo diferencial. Eu sempre escutaria Clarissa, embora atualmente um não confiasse no julgamento do outro, porém naquele momento quem me fascinou foi o francês que usava um jaquetão.

Comecei a atravessar o campo em direção ao carro. Era de fato uma ideia simples, mas o autor de uma teoria sobre o amor patológico, à qual dera seu nome como um noivo no altar, certamente deveria revelar, mesmo involuntariamente, a natureza do próprio amor. Para existir uma patologia, deve haver um conceito de saúde, ainda que não explicitado. A síndrome de De Clérambault era um espelho escuro e deformador que refletia, parodiando, um mundo mais luminoso onde é saudável a entrega impetuosa dos amantes. (Caminhei mais depressa. Meu carro se encontrava a uns quatrocentos metros de distância e, repassando na memória o que vira naquele dia, tive certeza de que as portas da frente estavam totalmente abertas, como asas.) Doença e saúde. Em outras palavras, o que eu poderia aprender sobre Parry que me levasse de volta a Clarissa?

O tráfego estava pesado na entrada de Londres e só duas horas depois estacionei diante de nosso prédio. No caminho havia pensado que ele poderia estar lá, mas, quando desci do carro e o vi esperando por mim, meu coração deu um salto. Parei antes de atravessar a rua. Parry se posicionara na entrada de tal forma que eu teria de passar bem rente a ele. Usava roupas formais — terno preto, camisa branca abotoada até em cima, sapatos pretos de verniz estalando de brilho. Olhava fixamente para mim, porém sua expressão não me dizia nada. Caminhei rapidamente em sua direção, imaginando que passaria raspando nele e entraria no edifício, mas Parry se plantou no meio do caminho, me obrigando a parar ou empurrá-lo. Dava a impressão de estar tenso, talvez enraivecido. Segurava um envelope.

“Você está bloqueando meu caminho”, eu disse.

“Você recebeu minha carta?”

Decidi tentar evitá-lo passando o mais rente possível à cerca de alfeneiros que ladeava o caminho, mas ele fechou a brecha e eu não queria tocá-lo.

“Deixe-me passar senão chamo a polícia.”

Ele balançou a cabeça energicamente, como se houvesse me ouvido convidá-lo para tomar um drinque. “Mas quero que você leia isso antes”, ele disse, “é muito importante.”

Peguei o envelope com a esperança de que, depois disso, ele sairia da frente. Mas não foi o suficiente. Tinha algo a me dizer. Primeiro, olhou por cima do ombro para a criatura invisível que o acompanhava. Falou com uma voz ofegante, o coração claramente disparado. Ele havia se preparado para aquele momento.

“Paguei um pesquisador e ele me arranjou todos os seus artigos. Li tudo ontem de noite, trinta e cinco ao todo. Também tenho seus livros.”

Limitei-me a olhar para ele e aguardei. Algo se alterara em sua atitude. O desejo permanecia lá, mas havia também certa dureza, uma mudança em volta dos olhos. Eles pareciam menores.

“Eu sei o que você está tentando fazer, mas não vai conseguir nunca. Nem que escreva um milhão de artigos e eu leia todos, você nunca destruirá o que eu tenho. Isso não pode ser arrancado de mim.”

Ele parecia esperar que eu o contradissesse, porém cruzei os braços e continuei à espera, concentrando minha atenção no corte que ele havia feito com a gilete ao se barbear, uma mera linha negra na bochecha, tão fina quanto um fio de cabelo. O que ele disse a seguir me pareceu naquele momento uma referência à facilidade de contratar um pesquisador, embora eu não estivesse cem por cento certo. Mais tarde, refletindo cuidadosamente sobre suas palavras, comecei a pensar que talvez fosse uma ameaça. No entanto, era fácil me sentir ameaçado, e acabei sem saber com certeza do que se tratava.

O que ele disse foi o seguinte: “Você sabe que sou bastante rico. Posso arranjar gente para fazer as coisas por mim. Tudo que eu quiser. Há sempre alguém precisando de dinheiro. O surpreendente, sabe, é como sai barato alguma coisa que você mesmo não faria?”. Sua pseudopergunta ficou suspensa no ar enquanto ele me observava.

“Tenho um telefone no carro. Se você não me deixar passar, chamo a polícia agora mesmo.”

Recebi o mesmo olhar caloroso que costumava receber anteriormente. Sua dureza se desfez quando ele aceitou, agradecido, o afeto que entendera existir em meu aviso. “Está bem, Joe. De verdade. Também é difícil para mim. Eu o compreendo tão bem quanto você me compreende. Pode se abrir comigo. Não precisa esconder tudo usando esses códigos, realmente não precisa.”

Dei um passo para trás e me voltei na direção do carro, dizendo: “Não há código nenhum. Seria melhor se você admitisse que precisa de ajuda”.

Nem terminara e ele riu, ou melhor, soltou uma gargalhada enquanto batia com as mãos nas coxas, no melhor estilo dos caubóis americanos. Deve ter visto nas minhas palavras um apelo amoroso. Estava quase gritando, de tão alegre. “Isso mesmo! Tudo e todos estão do meu lado! Está acontecendo como eu quero, Joe, e não há nada que você possa fazer!”

Apesar da loucura do que dissera, ele se afastou e me deixou passar. Haveria em tudo aquilo alguma premeditação? Eu não podia confiar nem mesmo na insanidade dele, e por esse simples motivo fiquei feliz de encerrar a conversa e entrar em casa. Além disso, era óbvio que a polícia não ajudaria. Nem procurei saber se ele ia ficar esperando. Não queria lhe dar a satisfação de ver que isso me incomodava. Enfiei o envelope no bolso de trás da calça e subi as escadas de dois em dois degraus. Era como um analgésico, a distância e a altura que eu abri entre nós em quinze segundos. Eu conseguia tolerar, e até mesmo apreciar, o estudo de Parry com referência a uma síndrome, mas o encontrar outra vez na rua, especialmente depois de ler sua primeira carta, me assustara. Meu medo lhe daria um grande poder. Eu já podia me imaginar preferindo não voltar para casa. Chegando diante da porta do apartamento, me perguntei se de fato ele havia feito uma ameaça: se era fácil contratar um pesquisador, também seria fácil pagar alguns marginais para me dar uma surra e me deixar à beira da morte. Talvez eu estivesse exagerando na interpretação. A ambiguidade alimentava meu medo — em matéria de ameaça, a dele possuía muitos matizes.

Era o que eu pensava ao abrir a porta e entrar no hall. Fiquei lá por alguns instantes, recuperando o fôlego, lendo o silêncio e a qualidade do ar. Embora sua bolsa não estivesse no chão junto à porta nem seu casaco pendurado na cadeira, senti na pele que Clarissa voltara do trabalho e que havia algo errado. Chamei seu nome e, não ouvindo nada, passei para a sala de visitas, que tem a forma de um L. Precisei entrar alguns metros na sala a fim de me certificar de que ela não estava lá. Pensei ouvir um som no hall, de onde acabara de sair, e chamei seu nome de novo. Como os edifícios têm seus próprios arquivos de sons, estalidos e cliques geralmente produzidos por pequenas variações de temperatura, achei normal não encontrar ninguém lá quando voltei, embora continuasse certo de que Clarissa estava no apartamento. Entrei no quarto de dormir, imaginando que ela podia estar tirando um cochilo. Os sapatos que usava para trabalhar estavam lado a lado no chão, e as cobertas da cama tinham uma marca côncava onde ela se deitara. Não havia sinal de que usara o banheiro. Dei uma busca rápida nos outros aposentos — a cozinha, o escritório dela, o quarto das crianças — e verifiquei a tranca na porta que dava para o telhado. Foi então que, mudando de ideia, concebi uma sequência lógica: ela chegara em casa, tirara os sapatos, deitara na cama por algum tempo, calçara outros sapatos e saíra. Ansioso após o encontro com Parry, eu simplesmente lera errado o ar do apartamento.

Fui à cozinha para encher a chaleira. Depois caminhei sem pressa até meu escritório, onde a encontrei. Era tão óbvio, mas foi um tremendo choque. Eu a vi como se pela primeira vez. Ela estava descalça, largada em minha cadeira giratória, de costas para a escrivaninha e de frente para a porta. Com tudo que acontecera naquele dia, eu devia ter adivinhado. Devolvi seu olhar enquanto entrava no escritório e perguntei: “Por que não me respondeu?”.

“Achei que este era o primeiro lugar em que você olharia.” Quando franzi a testa, ela continuou: “Você não pensou que eu remexia em sua escrivaninha enquanto está na rua? Não é assim que a coisa funciona entre nós ultimamente?”.

Sentei-me extenuado no sofá. Estar assim tão inteiramente errado era uma forma de liberação. Nenhuma necessidade de lutar, nenhuma razão para desfilar argumentos.

Ela estava calma, e com muita raiva. “Estou sentada aqui há meia hora, tentando me convencer a abrir uma dessas gavetas e dar uma lida nas tuas cartas. E sabe de uma coisa? Não consegui ficar suficientemente curiosa. Isso não é terrível? Não me interesso por teus segredos e, se você não tem nenhum, isso também não importa. Se você tivesse pedido para ler minhas cartas, eu teria dito que sim, vá em frente. Não tenho nada a esconder de você.” Sua voz, trêmula, subiu um tom. Nunca a tinha visto tão furiosa. “Você até deixou a gaveta aberta para que eu soubesse ao chegar. É uma afirmação, uma mensagem, de você para mim, um sinal. O problema é que não sei o que significa. Talvez esteja sendo muito burra. Por isso, me explique agora, Joe. O que é que você está tentando me dizer?”

OceanofPDF.com