Amor Sem Fim

Ian McEwan · Capítulo 7 de 26

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Amor Sem Fim

Capítulo 7

 

Subindo em linha reta uma ligeira elevação, a avenida que passa diante de nosso edifício é ladeada de plátanos, que naqueles dias ganhavam suas novas folhas. Tão logo pisei na calçada, vi Parry de pé, sob uma árvore, a uns cem metros de distância. Ao ver-me, ele tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços, deixando-os depois cair ao longo do corpo. Começou a caminhar na minha direção, mas mudou de ideia e voltou para junto da árvore. Segui devagar a seu encontro e senti que minha ansiedade se dissolvia.

Quando me aproximei, Parry recuou ainda mais para perto da árvore, se encostou ao tronco e tentou parecer à vontade enganchando o polegar no bolso da calça. Na verdade, ele tinha uma aparência reles. Magro e ossudo, dava a impressão de ter ficado menor, não mais lembrando, apesar do rabo de cavalo, o bem-apanhado guerreiro índio. Seus olhos fugiram dos meus, ou melhor, percorreram nervosamente meu rosto e se voltaram para baixo. Ao lhe estender a mão, me senti bastante aliviado. Clarissa tinha razão, tratava-se de um sujeito inofensivo com uma estranha compulsão, na pior das hipóteses um chato, jamais o perigo que pensei ver nele. Encolhido sob a folhagem nova do plátano, fazia triste figura. O acidente e as reverberações do choque posterior haviam me perturbado, levando-me a transformar uma farsa em ameaça indefinida. Sua mão não exerceu nenhuma pressão sobre a minha. Falei-lhe com firmeza, mas também com certa bondade. Ele era moço o suficiente para ser meu filho. “É melhor você me dizer o que isso significa.”

“Tem um café...”, ele disse, indicando com a cabeça a Edgware Road.

“Aqui está bem. Tenho pouco tempo.”

O vento voltara a soprar com força, como se aguçado pela pálida luz do sol. Enquanto ajustava o casaco em torno do corpo e apertava o cinto, olhei para os pés de Parry. No lugar dos tênis, sapatos de couro marrom e macio, talvez feitos à mão. Encostei-me a um muro próximo e cruzei os braços.

Parry se afastou da árvore e ficou na minha frente, olhando para o chão. “Seria melhor se fôssemos para algum lugar”, disse em tom lamuriento.

Permaneci calado, esperando. Ele suspirou e olhou para o prédio onde eu morava, acompanhando depois um carro que passava. Contemplou então os montes imensos de cúmulos que se erguiam no céu e as unhas da mão esquerda, sem conseguir ainda me encarar. Quando por fim falou, acho que seus olhos estavam cravados numa rachadura da calçada.

“Aconteceu alguma coisa”, ele disse.

Como não continuou, perguntei: “Aconteceu o quê?”.

Ele inspirou profundamente pelo nariz. Ainda não era capaz de me encarar. “Você sabe o que é”, ele disse, ressentido.

Tentei ajudá-lo. “Você está falando do acidente?”

“Você sabe o que é, mas quer que eu diga.”

“É melhor mesmo que diga. Tenho que ir embora daqui a pouco.”

“O problema todo é saber quem controla quem, não é?” Lançou-me um olhar de desafio juvenil, mas logo baixou os olhos. “É a maior bobagem se preocupar com isso. Por que não diz logo a verdade? Não há nenhuma razão para se sentir envergonhado.”

Consultei o relógio. Essa era a hora em que meu trabalho rendia mais, e ainda tinha de ir ao centro da cidade apanhar um livro. Um táxi vazio vinha em nossa direção. Parry também o viu.

“Você pensa que está bancando o superior, mas é ridículo. Não vai conseguir fazer isso por muito tempo, você sabe disso. Tudo mudou. Por favor, pare de fazer de conta. Por favor...”

O táxi passou por nós. “Você pediu que eu o encontrasse porque tinha alguma coisa para me dizer”, falei.

“Você é muito cruel”, ele disse. “Mas é quem tem todo o poder.” Voltou a inspirar pelo nariz, como se estivesse se preparando para executar alguma acrobacia difícil. Conseguiu olhar para mim enquanto dizia: “Você me ama. Você me ama e tudo que posso fazer é retribuir seu amor”.

Eu não disse nada. Parry respirou fundo mais uma vez. “Não sei por que você me escolheu. Só sei que agora também amo você e que há uma razão para isso, um propósito.”

Tivemos de esperar que passasse uma ambulância com a sirene ululante. Eu estava pensando no que dizer, se uma demonstração de raiva o faria ir embora, porém, nos poucos segundos que decorreram até a barulheira acabar, decidi ser firme e razoável. “Olhe, sr. Parry...”

“Jed”, ele interrompeu, ansioso. “Me chame de Jed.” A inflexão interrogativa havia desaparecido.

“Não o conheço, não sei onde mora, o que faz, quem você é. E nem quero saber nada disso. Nós nos vimos uma vez antes e posso lhe garantir que não sinto nada por você, não gosto nem desgosto...”

Parry falava em espasmos ao mesmo tempo que eu, as mãos abertas na sua frente como se quisesse afastar minhas palavras. “Por favor, não faça isso... Francamente, não é necessário que seja assim. Você não precisa fazer isso comigo.”

Paramos de falar de repente. Pensei em ir embora, subir a rua em busca de um táxi. Talvez aquela conversa estivesse piorando as coisas.

Parry cruzou os braços e adotou o tom controlado de quem fala de homem para homem. Imaginei que podia estar me parodiando. “Olhe. Você não precisa agir dessa forma. Poderia nos poupar muito sofrimento.”

“Você me seguiu ontem, não foi?”, perguntei.

Ele desviou o olhar e não respondeu, o que tomei como uma confirmação.

“De onde saiu essa ideia de que eu amo você?” Tentei imprimir sinceridade à pergunta, para não parecer apenas retórica. Na verdade, eu tinha bastante interesse em saber aquilo, embora também quisesse ir embora.

“Não”, Parry sussurrou. “Por favor, não.” Seu lábio inferior tremia.

Mas não dei trégua. “Lembro que conversamos lá embaixo da colina. Posso compreender que você tenha se sentido confuso por causa do acidente. Eu me senti.”

Nesse ponto, para minha enorme surpresa, Parry cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar. Também tentava dizer alguma coisa que só depois entendi. “Por quê? Por quê? Por quê?”, ele repetia sem parar. E, ao se recuperar um pouco: “O que é que eu fiz a você? Por que está fazendo isso comigo?”. A pergunta o fez chorar de novo. Afastei-me do muro no qual estivera encostado e dei alguns passos. Ele se aproximou, trôpego, tentando firmar a voz. “Eu não posso controlar meus sentimentos como você”, ele disse. “Sei que isso lhe dá poder sobre mim, mas não consigo evitar.”

“Acredite em mim, eu não preciso controlar sentimento nenhum.”

Ele me olhava fixamente com uma expressão de carência absoluta, de desespero. “Se isso é uma piada, então é hora de parar. Está fazendo mal a nós dois.”

“Olhe”, eu disse, “tenho que ir agora. Não quero que me procure nunca mais.”

“Ah, meu Deus”, ele se lamuriou. “Você diz isso e depois me olha desse jeito. O que é que você realmente quer que eu faça?”

Eu me sentia sufocado. Dei meia-volta e caminhei rapidamente rumo à Edgware Road. Ouvi que ele corria atrás de mim. Puxou minha manga, tentando me segurar pelo braço. “Por favor, por favor”, balbuciou. “Você não pode ir embora assim. Me diga alguma coisa, me dê um pouquinho de esperança. A verdade, ou só uma parte da verdade. Basta dizer que está me torturando. Não vou perguntar por quê. Mas, por favor, me diga que é isso que você está fazendo.”

Desvencilhei o braço e parei. “Não sei quem você é. Não entendo o que quer e não estou interessado em saber. Afinal, quando é que você vai me deixar em paz?”

De repente, ele se mostrou amargo. “Muito engraçado. Você nem está tentando ser convincente. Isso é que é o mais ofensivo.”

Pôs as mãos nas cadeiras e pela primeira vez me vi calculando o risco físico que ele representava. Eu era mais pesado e ainda fazia exercícios regulares, porém nunca havia batido em ninguém em toda a minha vida, e ele era vinte anos mais moço, com mãos grandes e ossudas — além de ser movido por uma causa desesperada, qualquer que ela fosse. Endireitei o corpo para ficar mais alto.

“Não tinha intenção de ofendê-lo”, eu disse. “Até agora.”

Parry afastou as mãos dos quadris e mostrou as palmas abertas. O que o tornava tão cansativo era a variedade de estados emocionais e a rapidez com que passava de um para outro. Razoabilidade, lágrimas, desespero, ameaça vaga — e, agora, súplica honesta. “Joe, por favor, olhe para mim, lembre quem eu sou, lembre o que você sentiu quando nos encontramos.”

O branco de seus olhos era excepcionalmente límpido. Ele sustentou meu olhar por alguns segundos antes de desviar o rosto. Eu começava a perceber seu cacoete ao falar. Depois de olhar o interlocutor no olho, ele desviava a cabeça como se estivesse se dirigindo a alguém ao lado ou a uma criatura invisível empoleirada em seu ombro. “Não nos negue”, ele disse àquele ser invisível. “Não negue o que temos. E, por favor, não faça esse jogo comigo. Sei que é difícil para você aceitar a ideia, que vai resistir a ela, mas nós estamos juntos por uma razão.”

Eu deveria ter continuado a andar, porém sua intensidade me deteve por um momento e minha curiosidade me levou a ecoar sua última palavra. “Razão?”

“Houve uma troca entre nós lá no alto da colina, depois que ele caiu. Foi pura energia, pura luz?” Tendo superado sua ansiedade imediata, Parry se animou e voltou a dar uma inflexão interrogativa às afirmações. “O fato de que você me ama e que eu amo você não tem importância. É apenas o meio...”

O meio?

Notando minha testa franzida, ele adotou o tom de quem explica alguma coisa a um débil mental. “Para levá-lo a Deus, por meio do amor. Você vai lutar loucamente contra isso porque está muito distante de seus sentimentos? Mas eu sei que Jesus está dentro de você. De alguma forma, você também sabe disso. É por esse motivo que você luta tanto usando sua educação, seu poder de raciocínio, sua lógica e essa maneira superior de falar, como se estivesse acima de tudo? Pode fingir que não sabe do que estou falando, talvez porque queira me ferir e me dominar, mas o fato é que eu chego trazendo dádivas. O propósito é conduzi-lo a Jesus, que está dentro de você e que é você. Essa é que é a verdadeira dádiva do amor. É realmente muito simples?”

Ouvi a arenga tentando não demonstrar meu pasmo. Ele era tão sincero e inofensivo, parecia tão arrasado e falava tanta bobagem que realmente me inspirou pena.

“Olhe”, eu disse da forma mais simpática possível. “O que é que você quer exatamente?”

“Quero que você se abra a...”

“Está bem, está bem. Mas o que é que você quer mesmo de mim? Ou comigo.”

Ele teve dificuldade em responder. Contorceu-se e olhou para a criatura pousada em seu ombro antes de dizer: “Quero me encontrar com você”.

“Para fazer o quê?”

“Para conversarmos... nos conhecermos melhor.”

“Só falar? Nada mais?”

Ele não respondeu nem olhou para mim.

“Você fica usando a palavra amor. Está falando de sexo? É isso que você quer?”

Ele claramente achou que a pergunta era perversa. O tom lamuriento retornou. “Você sabe muito bem que não podemos falar disso assim. Já lhe disse, meus próprios sentimentos não são importantes. Há um propósito que não se pode esperar que você conheça por enquanto.”

Ele continuou a dizer coisas desse gênero, mas eu já mal as ouvia. Como era extraordinário estar de pé na minha rua, vestindo um sobretudo naquela fria manhã de uma terça-feira de maio e conversando com um estranho em termos mais apropriados para um casal de amantes ou em crise matrimonial! Como se eu tivesse caído por uma fenda em outra vida, com outras preferências sexuais, outro passado, outro futuro. Nessa outra existência em que eu fora parar, um homem podia me dizer: Não podemos falar disso assim e Meus próprios sentimentos não são importantes. Também me espantava como era fácil eu não dizer: Quem é você, seu filho da puta? Que merda é essa que você está falando? A linguagem usada por Parry provocava em mim respostas predeterminadas, acionava velhos circuitos emocionais. Eu necessitava fazer um esforço consciente para eliminar a sensação de que devia algo àquele homem, de que não estava sendo razoável ao lhe negar alguma coisa. Em parte, eu agia como um personagem nesse drama conjugal, muito embora o lar nada mais fosse que uma calçada cheia de cocô de cachorro.

Também me perguntei se não precisaria de ajuda. Parry sabia onde eu morava, conquanto eu nada soubesse sobre ele. Interrompi-o. “É melhor que você me dê o seu endereço.” O tipo de pedido que ele certamente iria interpretar erroneamente. Puxou do bolso um cartão com seu nome e um endereço na Frognal Lane, em Hampstead. Guardei-o na carteira e me afastei às pressas porque outro táxi dobrara a esquina e vinha em nossa direção. De certo modo, ainda sentia pena de Parry, mas era evidente que conversar com ele não ajudaria em nada. Ele corria a meu lado.

“Aonde é que você vai agora?”, perguntou como uma criança curiosa.

“Por favor, não me aborreça nunca mais”, respondi, fazendo sinal para o táxi.

“Eu sei o que você sente de verdade. E, se está querendo me testar, isso é inteiramente desnecessário. Jamais vou abandonar você.”

O táxi parou e abri a porta, já começando a ficar com raiva. Tentei fechar a porta e vi que Parry a segurava. Ele não estava tentando entrar no táxi, porém tinha uma última coisa a dizer.

Inclinando-se para a frente, sussurrou em meio às pulsações do motor a diesel: “Eu sei qual é o seu problema. É porque você é uma pessoa muito boa. Mas, Joe, o sofrimento tem que ser enfrentado. A única solução é nós três conversarmos juntos”.

Eu havia decidido não lhe dizer mais nada, mas não pude me conter. “Três?”

“Clarissa. É melhor lidar com isso de frente...”

Não deixei que ele terminasse a frase. “Vamos embora”, disse ao motorista, usando as duas mãos para puxar a porta que Parry mantinha aberta.

Olhei para trás quando o táxi arrancou. Ele estava na rua, acenando tristemente para mim mas, sem dúvida, com a expressão de um homem abençoado pelo amor.

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