Amor Sem Fim
Capítulo 20
Pela segunda vez naquela tarde, e também a segunda em toda a minha vida, eu estava sentado numa delegacia de polícia — agora na Bow Street — esperando para ser ouvido. Os estatísticos chamam isso de agrupamento aleatório, uma forma útil de lhe negar significação. Além de Clarissa e Jocelyn, havia sete outras testemunhas na sala — quatro fregueses de duas mesas próximas, dois garçons e o maître. Esperava-se que o sr. Tapp fosse capaz de depor, no dia seguinte, do seu leito no hospital. A menina e o senhor de idade ainda estavam chocados demais para falar.
Poucas horas haviam se passado e já figurávamos na manchete do jornal da tarde. Um dos garçons saiu para comprar um exemplar e, reunidos à sua volta, nos sentimos estranhamente honrados ao ver que nossa experiência era traduzida em expressões do tipo “atrocidade no restaurante”, “pesadelo no almoço” e “banho de sangue”. Inclinando ligeiramente a cabeça numa demonstração profissional de respeito, o maître chamou nossa atenção para uma frase em que eu era descrito como “o conhecido escritor científico” e Jocelyn como “o eminente cientista”, enquanto Clarissa era simplesmente caracterizada como “bonita”. Soubemos pelo jornal que Colin Tapp era subsecretário no Ministério de Indústria e Comércio. Homem de negócios antes de entrar para o Parlamento, tinha “muitas conexões, assim como muitos inimigos, no Oriente Médio”. Especulava-se sobre “um corajoso freguês” que salvara a vida de Tapp e desaparecera misteriosamente. Nas páginas internas havia material de análise acerca do fato de Londres ser “um parque de diversões de fanáticos” e um comentário acerca do fim “da vida inocente e pacífica de outrora”. Embora incrivelmente instantânea, a cobertura parecia muito familiar, como se a matéria houvesse sido preparada com antecedência e o evento que testemunháramos encenado apenas para justificar o que já fora escrito.
Dois policiais deviam tomar os depoimentos das testemunhas, mas demoraram a se organizar. Passada a excitação do jornal, voltamos a nossos lugares e se instalou um pesado silêncio. Os frequentes bocejos eram seguidos de sorrisinhos sem graça em reconhecimento de seu poder de contágio. Por fim os policiais se declararam prontos, chamando de início Clarissa e Jocelyn. Ela saiu vinte minutos depois e sentou a meu lado, esperando pelo padrinho. Desembrulhou o livro de Keats e o abriu para cheirar as páginas. Pegou depois minha mão e a apertou, aproximando a boca de meu ouvido. “É um presente fabuloso.” E então: “Olhe, Joe, trate de contar só o que você viu, está bem? Não entre naquele outro assunto”.
Por algo que me dissera anteriormente, eu já sabia que Clarissa não havia reconhecido Parry. Não ia discutir isso com ela agora. O problema era só meu. Limitei-me a fazer que sim com a cabeça e perguntei: “Você vai levar Jocelyn até a casa dele?”.
“Vou. Te espero lá em casa.”
Ele saiu, trocamos um aperto de mão e os dois se foram. Acomodei-me para esperar, preparando o que queria dizer. O maître saiu e um dos fregueses entrou, seguido por um garçom. Penúltimo a ser chamado, fui levado à sala de entrevistas por um jovem cortês que se apresentou como detetive Constable Wallace.
Antes mesmo de sentar, fui falando: “Acho melhor lhe dizer logo que sei o que aconteceu. A bala que atingiu o sr. Tapp era dirigida a mim. O homem que estava almoçando sozinho e interveio é alguém que anda me incomodando. Seu nome é Parry. Na verdade, me queixei dele à polícia hoje mesmo, mais cedo. Gostaria que o senhor entrasse em contato com o inspetor Linley na delegacia da Harrow Road. Eu até disse a ele que achava que Parry era capaz de contratar alguém para me fazer mal”.
Enquanto eu falava, Wallace me observava atentamente, embora, pensei, sem demonstrar grande surpresa. Indicou uma cadeira quando terminei. “Muito bem. Vamos começar do começo”, passando a anotar meu nome, endereço e tudo que aconteceu desde que cheguei no restaurante. O processo era necessariamente detalhista e Wallace vez por outra se interessava por coisas irrelevantes: queria saber sobre o que havíamos conversado em nossa mesa, me pedindo a certa altura que descrevesse o estado de espírito de meus companheiros; também indagou sobre a comida e quis que eu avaliasse o serviço. Perguntou-me duas vezes se tinha ouvido Parry ou os homens encasacados gritarem. Quando terminamos, leu em voz alta minhas declarações, pronunciando cada frase como se fosse um item numa lista de mercadorias. Era o tipo de prosa que me deu vontade de repudiar imediatamente. Quando chegou ao ponto: “Havia um homem almoçando sozinho numa mesa não muito distante da mesa em que almoçávamos e reconheci que esse homem era...”, tratei de interrompê-lo. “Desculpe, não foi isso que eu disse.”
“O senhor não reparou nele?”
“Eu o vi, mas de início não percebi quem era.”
Wallace franziu a testa. “Mas o senhor o tem visto um bocado, postado em frente à sua casa, em outras ocasiões...”
“Ele cortou o cabelo e estava de costas para nós.”
Wallace fez uma correção e leu até o final. Enquanto eu assinava, ele disse: “Se o senhor não se incomodar de ficar mais algum tempo aqui na delegacia, sr. Rose, gostaria de revê-lo daqui a pouco”.
“Não me incomodo de esperar”, respondi. “Tem um homem lá fora que quer me matar.” Wallace assentiu com a cabeça e sorriu — ou melhor, esticou os lábios sem os abrir.
Todas as testemunhas do restaurante haviam ido embora e agora eu dividia a sala de espera com um grupo de turistas americanos furiosos cuja bagagem, segundo entendi, fora roubada ao ser posta num ônibus em frente ao hotel. Uma jovem mulher, sentada à parte, balançava a cabeça num gesto de muda descrença e tentava, em vão, conter as lágrimas.
Enquanto esperava ao lado de Clarissa, eu havia decidido não pressionar demais a polícia. Os fatos, por si só, seriam suficientes. Minha queixa anterior estava registrada, a cena no restaurante era uma confirmação irrefutável. Parry teria de ser acusado da tentativa de assassinato e, até que isso ocorresse, eu necessitava de proteção. Agora que era o único freguês do restaurante ali presente, agora que a excitação se dissipava, senti por inteiro meu isolamento e minha vulnerabilidade. Eu estava cercado por Parry de todos os lados. Tratei de sentar de frente para a porta e longe da única janela. Cada vez que alguém entrava, sentia uma pontada fria no estômago. A paranoia me forneceu uma imagem dele, na calçada oposta à delegacia, flanqueado pelos homens em seus casacos pretos. Cheguei à porta da delegacia e olhei em volta. Não senti surpresa ou alívio por não vê-lo ali. Táxis e limusines de aluguel traziam dezenas de amantes da ópera. Eram quase sete e quinze. Ocorrera uma dobra no tempo. As pessoas alegres que passavam por mim a caminho de suas casas ou dos bares e cafés gozavam a bênção de uma liberdade de que não tinham consciência e que eu não possuía. Não carregavam um peso sobre elas, não tinham ninguém que as quisesse matar.
Uma amiga erroneamente diagnosticada com um câncer terminal certa vez me falou sobre a solidão que sentira ao sair do consultório do médico. A compaixão dos amigos apenas deixou claro que seu destino seria diferente do deles. Conhecendo gente que já morrera, sabia muito bem como a vida continuaria sem ela. As águas correriam sobre sua cabeça, os amigos ficariam penalizados mas se recuperariam, um pouco mais sábios, e os dias de trabalho, as festas, os jantares seguiriam seu curso rotineiro. Foi assim que me senti ao entrar de novo na delegacia. Não se tratava de autocomiseração, embora houvesse um quê disso; era mais como se eu estivesse me encolhendo, me fechando no âmago de meu próprio ser tão profundamente que tudo mais — os turistas irritados, a mulher infeliz — parecia se encontrar do outro lado de um grosso painel de vidro. Retornando à sala de espera, meus pensamentos nadavam sem rumo em seu pequeno aquário; ninguém tinha o que eu tinha; que bom seria se eu pudesse trocar minhas aflições por uma entrada para a ópera, ou mesmo por uma mala perdida ou o que quer que atormentava a jovem mulher.
Quase colidi com Wallace, que estivera me procurando. Ele se mostrou menos cortês e bem mais animado do que antes. “Por aqui”, ele disse, me conduzindo ao longo do corredor para a sala de entrevistas. Ao sentar, fiquei contente quando vi sobre a mesa algumas páginas de fax contendo as anotações do inspetor Linley.
Wallace me olhava com renovado interesse. Já não se tratava da transcrição rotineira do depoimento de uma testemunha. “Muito bem. Tive uma conversinha com o inspetor Linley.”
“Ótimo. Ficou sabendo das coisas.”
Ele sorriu. Estava quase exultante. “Achamos que sim. O senhor não gostará disso, sr. Rose. Mas vou lhe pedir que repasse o que ocorreu.”
“Todo o depoimento? A troco de quê?”
“Podemos começar do começo? O senhor foi o último do seu grupo a chegar. Conte-me seus movimentos esta manhã, digamos, a partir das nove horas.”
Talvez eu tenha tido um desenvolvimento mental muito lento, porém já tinha bem mais de quarenta anos quando compreendi que não é necessário aceder a um pedido só porque ele é razoável ou razoavelmente formulado.
A idade nos libera dessas coisas. A gente pode fazer o que quer e dizer não. Cruzei os braços e lhe dei um sorriso artificial. Minha recusa foi amistosa. “Desculpe, mas não vou ser capaz de melhorar o depoimento. Preciso saber o que o senhor pretende fazer.”
“A srta. Mellon saiu para trabalhar às oito e meia? Nove?”
“O senhor mandou um carro à Frognal Lane?”
“Por favor, uma coisa de cada vez. O que o senhor fez depois? Chamadas telefônicas? Escreveu um artigo...?”
Com grande esforço evitei aumentar o tom de minha voz. “Acho que o senhor não compreendeu. Esse homem é perigoso.”
Resmungando, Wallace procurou algo em meio aos papéis na sua frente, tanto nas folhas de Linley quanto nas suas. “Há uma anotação aqui.”
“Ele não vai parar na primeira tentativa. Eu gostaria de saber que o senhor está fazendo algo mais do que tomar um depoimento pela segunda vez.”
“Cá está”, disse Wallace animado, pegando uma folha cortada ao meio.
Minha voz continuava sob controle. “A menos que o senhor me diga que é mera coincidência o fato de que o homem de quem eu me queixei à polícia ao meio-dia estava sentado a alguns metros de distância enquanto...”
“Keats e Wordsworth?”, perguntou Wallace.
Fiquei momentaneamente desnorteado. Nos seus lábios, os nomes soavam como se pertencessem a suspeitos, dois malfeitores, companheiros de tragos num bar local.
“O senhor conversou sobre eles durante o almoço.”
“Sim, conversei...”
“Um dos dois estava esnobando o outro, não é? Quem era quem?”
“Wordsworth menosprezando Keats — ou é o que se diz.”
“Mas não é verdade?”
Não tinha jeito. Ele desviara totalmente minha atenção. “Bem, o único relato de que dispomos não é confiável.” Podia ver agora que no pedaço de papel de Wallace constava uma lista numerada.
“Isso deve ser muito pouco comum”, ele disse.
“O quê?”
“Ah, o senhor sabe, gente instruída como o senhor, escritores e tudo. Eles não escrevem diários? Era de imaginar que, se alguém é capaz de registrar as coisas corretamente, eles fizessem isso melhor do que ninguém.”
Não fiz nenhum comentário. Eu estava sendo conduzido para algum lugar. Melhor que ele me levasse até lá sem resistência.
Wallace consultou a lista. “Escute isto”, ele disse. “É muito interessante. Item número um: o grupo do sr. Tapp chegou meia hora depois do senhor...” Ele ergueu o dedo para sustar minha negação. “Quem disse isso foi o professor Kale. Item dois, também do professor: o sr. Tapp foi ao banheiro, e não sua filha. Item três: o professor Kale diz que não havia ninguém sentado sozinho perto da sua mesa. E a srta. Clarissa Mellon diz que um indivíduo estava sentado sozinho perto da sua mesa mas que ela nunca o viu antes. Revelou-se bastante segura disso. Item quatro: segundo a srta. Mellon, a arma já estava à vista quando os dois homens se aproximaram da mesa da família Tapp. O número cinco é de todas as testemunhas com exceção do senhor: um dos homens falou alguma coisa numa língua estrangeira. Três acham que era árabe, um acha que era francês, os outros não têm certeza. Nenhum dos três fala árabe. O que disse que era francês não fala essa língua nem nenhuma outra. Item seis...”
Wallace mudou de ideia sobre o item seis. Dobrou o papel e o enfiou no bolso de cima do paletó. Inclinou-se para a frente, com os cotovelos sobre a mesa, e falou num tom confidencial, com uma pontinha de pena. “Vou dizer uma coisa para seu governo. O sr. Tapp sofreu um atentado dezoito meses atrás no vestíbulo de um hotel em Adis Abeba.”
Houve um silêncio durante o qual pensei que era muito injusto que o homem atingido por engano tivesse sido anteriormente alvejado de propósito. Numa hora dessas só me faltava mesmo uma coincidência irrelevante.
Wallace pigarreou baixinho. “Não precisamos repetir tudo. Vamos conversar sobre os sorvetes. O garçom disse que estava trazendo os sorvetes para a mesa quando os tiros começaram.”
“Não é o que me lembro. Começamos a tomar os sorvetes e, logo depois, eles ficaram cobertos de sangue.”
“O garçom diz que o sangue chegou até ele. Os sorvetes estavam respingados de sangue quando ele os pôs sobre a mesa.”
“Mas eu me lembro de tomar umas duas colheres.”
Senti um desapontamento que não me era estranho. Ninguém se punha de acordo sobre nada. Vivíamos num nevoeiro de percepções pouco confiáveis e só parcialmente compartilhadas, as informações que os sentidos nos passavam vinham distorcidas por um prisma de desejo e opinião que também deformava nossas memórias. Víamos e lembrávamos em benefício próprio e nos persuadíamos no processo. A objetividade implacável, em especial sobre nós mesmos, sempre foi uma estratégia social fadada ao fracasso. Descendemos dos indignados e apaixonados contadores de meias verdades que, a fim de convencer os outros, ao mesmo tempo convenciam a si próprios. Ao longo dos séculos fomos sendo selecionados pelo sucesso e, com o sucesso, veio nosso defeito, fundamente vincado em nossos genes como sulcos de carroça nas estradas de terra: quando não é de nosso interesse, somos incapazes de concordar com o que está diante de nossos olhos. Crer é ver. Por isso há divórcios, disputas de fronteira e guerras, por isso a estátua da Virgem Maria verte lágrimas de sangue e a de Ganesha bebe leite. E é por isso que a ciência e a metafísica são empreendimentos tão corajosos, invenções tão impressionantes, mais importantes do que a roda e a agricultura, criações humanas que contrariam características essenciais da própria natureza humana. A verdade pela verdade. Mas isso não é suficiente para nos salvar de nós mesmos, os sulcos são fundos demais. Não se pode encontrar a redenção privada na objetividade.
Mas exatamente que interesses meus eram servidos pelo relato que fazia do almoço no restaurante?
Wallace repetia pacientemente uma pergunta: “Qual era o sabor do sorvete?”.
“Maçã. Se o sujeito disser que era qualquer outra coisa, então estamos falando sobre dois garçons diferentes.”
“Seu amigo, o professor, disse que era baunilha.”
“Só me diga uma coisa. Por que o senhor não interroga o Parry?”
Um músculo se contraiu ao longo da mandíbula de Wallace e suas narinas se dilataram quase imperceptivelmente. Ele sufocava um bocejo. “Está em nossa lista. Vamos chegar lá. Nossa prioridade no momento é encontrar os pistoleiros. Mas, sr. Rose, se não se importa, vamos continuar a tratar do sorvete. Maçã ou baunilha?”
“Isso vai ajudá-lo a encontrar os pistoleiros?”
“O que ajuda é saber que nossas testemunhas estão dando o melhor de si. Tudo reside nos detalhes, sr. Rose.”
“Então foi maçã.”
“Qual dos homens era mais alto?”
“O que carregava a arma.”
“Qual o mais magro?”
“Diria que os dois não eram nem gordos nem magros.”
“O senhor se lembra de alguma coisa sobre as mãos deles?”
Não lembrava, mas fiz a encenação completa, franzindo a testa, inclinando a cabeça, fechando os olhos. Os neurocientistas dizem que pacientes sujeitos a um exame de ressonância magnética apresentam intensa atividade no córtex visual quando solicitados a rememorar alguma cena. No entanto, a memória oferece uma imagem muito pobre, pouco mais do que uma sombra, quase invisível, o eco de um sussurro. Não é possível examinar tal imagem em busca de novas informações. Ela se desfaz ao ser examinada de perto. Vi as mangas dos longos casacos pretos tão turvas quanto daguerreótipos borrados e, sob elas, nada. Coisa nenhuma. Mãos, luvas, patas, cascos. “Não lembro nada sobre as mãos deles.”
“Continue a tentar, por favor. Havia um anel, por exemplo?”
Invoquei mentalmente uma mão parecida com a minha e a enfeitei com o anel que Clarissa me dera, de ouro e prata, o bom gosto transparecendo no formato elegante e no tamanho pequeno. Ela teve de passar manteiga no nó de meu dedo para colocá-lo. Houve tempo em que nos dava prazer o fato de eu não ser capaz de tirá-lo com facilidade. “Não consigo me lembrar”, eu disse, acrescentando logo depois, ao me pôr de pé: “Estou indo embora”.
Wallace levantou-se também. “Gostaria que o senhor ficasse para nos ajudar.”
“E eu gostaria que o senhor me ajudasse.”
Ele contornou a mesa. “Parry não está por trás disso, acredite em mim. Embora isso não signifique que o senhor não precisa de ajuda.” Enquanto falava, remexeu no bolso do paletó. Tirou de lá um envelope prateado com pílulas, que brandiu diante de meu rosto. “Sabe o que é isto? Tomo duas antes do café da manhã. Quarenta miligramas. Dose dupla, sr. Rose.”
Enquanto eu caminhava às pressas pelo corredor, me veio de novo aquela sensação de que estava encolhendo, cada vez mais isolado. Talvez fosse mesmo autocomiseração: um louco estava tentando me matar e tudo que os defensores da lei podiam fazer era sugerir que eu tomasse Prozac.
Já estava escuro quando desci do táxi na entrada da rua e comecei a andar em direção ao nosso prédio usando os plátanos para não ser visto. Ele não estava no lugar usual ou mais adiante, onde se ocultava quando Clarissa saía. Nem se encontrava às minhas costas ou numa das ruas transversais, ou mesmo atrás da cerca de alfeneiros, ou do outro lado do edifício. Entrei no vestíbulo e parei para ouvir. De um dos apartamentos do andar térreo veio um abafado clímax sinfônico, banal e exagerado, talvez Bruckner; de algum lugar acima, ao longo do teto, chegou o ruído de água correndo no cano. Subi as escadas devagar, me encostando à parede externa nas curvas. Não achava que ele havia encontrado uma maneira de entrar no prédio, mas os rituais de cautela eram reconfortantes. Entrei e passei a tranca na porta. Soube imediatamente, pelo ar parado, que Clarissa já estava dormindo no quarto das crianças, o que foi confirmado pelo bilhete que ela deixara sobre a mesa da cozinha. “Morta de cansaço. Falo contigo de manhã. Amor, Clarissa.” Olhei para a palavra amor, tentando extrair algum significado, ou esperança, do A maiúsculo. Verifiquei as trancas das claraboias e fui de aposento em aposento acendendo as luzes e me certificando de que as janelas estavam bem fechadas. Feito isso, me servi de uma boa dose de grapa e fui para o escritório.
Sempre tive dois cadernos de endereços. O pequeno, de capa dura, é o que uso diariamente e levo nas viagens. Nos últimos vinte anos, o esqueci duas ou três vezes em quartos de hotéis e, uma ocasião, numa cabine telefônica em Hamburgo, sendo obrigado a substituí-lo. O outro é um caderno grande, já todo amarfanhado, que mantenho desde os vinte anos e nunca sai do escritório. Obviamente, serve de reserva quando perco o pequeno, mas ao longo do tempo ganhou em importância ao representar uma história pessoal e social. Ele traça a explosiva complexidade dos próprios números de telefone: o código de área de Londres, com três letras, tem um quê de belle époque. Endereços abandonados mapeiam a mobilidade horizontal ou vertical de muitos amigos. Há nomes que seria inútil transcrever: pessoas que morreram, saíram da minha vida, se desentenderam comigo ou simplesmente perderam sua identidade — há dezenas de nomes que hoje não significam nada para mim.
Acendi o abajur junto à espreguiçadeira e me acomodei com a grapa e o caderno aberto na primeira página, começando a virar as páginas repletas de anotações, examinando o palimpsesto na esperança de encontrar alguma conexão criminal. Afinal de contas, talvez eu tivesse vivido uma vida muito limitada, porque não conhecia ninguém mau, ou mau de uma forma organizada. Em H, encontrei um conhecido que vendia carros de segunda mão pouco confiáveis. Ele morrera de câncer. Em K, um velho amigo de escola de temperamento depressivo que trabalhara por algum tempo num cassino. Desapareceu de vista tragado por um casamento rancoroso, e sua mulher, psiquiatra de profissão, foi quem arranjou que ele se submetesse a um tratamento de eletrochoques. Mais tarde foram morar na Bélgica.
Continuei a repassar os amigos e várias gradações de conhecidos, a maioria dos quais bem decentes. Quem sabe um ou dois mentirosos, um preguiçoso, um fanfarrão e um megalômano, mas ninguém com tentáculos na ilegalidade, nenhum marginal de verdade. Na altura do N, esbarrei numa moçoila inglesa que conheci no outono de 1968 quando dividimos um saco de dormir em Cabul e em Mazar-i-Sharif. Alguns anos depois, de volta à Inglaterra, ela se interessou pelo furto sistemático de lojas, mas terminou como diretora de uma escola em Cheltenham. Absoluta falta de tenacidade. Também na letra N encontrei John Nolan, acusado vinte anos antes de... assassinato. Durante uma festa regada a álcool, ele havia jogado um gato do segundo andar, o qual caíra em cima da grade pontiaguda de um parque. Devidamente acionado pela Sociedade Protetora dos Animais, teve de pagar uma multa de cinquenta libras, porém não perdeu seu emprego como fiscal de impostos.
Esse repositório de relacionamentos humanos e breves posses, que eu vinha ampliando e revendo por mais de um quarto de século, continha uma única história de maldade moderna. Os outros figurantes eram selecionados demais, peculiares demais em seus defeitos de caráter para atrair o interesse do sistema de justiça criminal. O alfabeto de meu grupo social descrevia um grau limitado de fracasso e uma bela dose de sucesso, tudo ocorrendo dentro de uma faixa estreita de educação e renda. Em geral, nenhuma riqueza extraordinária, mas o suficiente para uma vida confortável. Simplesmente não havia a menor necessidade de tomar o dinheiro dos outros. Talvez a criminalidade da classe média seja um fenômeno essencialmente mental ou algo que aconteça mais na cama e em volta dela. Agressão, sequestro, estupro e assassinato constituem o objeto de fantasias sombrias quando apropriado. Mas é algo menor do que um imperativo moral que nos impede de praticar essas coisas, e sim o bom gosto, uma forma de polidez. Clarissa me dera a conhecer a observação de Stendhal: “Le mauvais goût mène aux crimes”.
Cada vez mais frustrado, continuei a folhear meu compêndio existencial, ignorando lampejos de curiosidade ou a vaga culpa causada por certos nomes, até chegar às áreas desérticas e longínquas que vão de U a Z e englobam o oásis das derradeiras possibilidades oferecidas pelo W. Em meio aos bucólicos e esmaecidos Wood, Wheatfield, Water e Warren, escritos a lápis numa caligrafia elaborada que já não era minha, constava o nome de Johnny B. Well, não um criminoso segundo minha definição, mas, a meu juízo, com tantas conexões quanto um neurônio.
Seu nome era John Well, o B tendo sido tomado emprestado por ele, ou para ele, do jovem herói de Chuck Berry, que tocava guitarra com a facilidade de quem toca uma campainha. Se bem me lembro, nada foi tão fácil para nosso Johnny na época em que, usando apenas os meios de transporte público, rodava por todos os subúrbios do norte e do sul de Londres fazendo entregas de maconha e haxixe nos apartamentos daqueles que não queriam se dar ao trabalho de sair à rua. De qualquer ângulo que se veja a questão, ele não passava de um traficante de drogas, mas o termo era duro demais, ignominioso demais porque Johnny B. Well fazia mais o tipo dono de loja, um dedicado comerciante de vinhos finos ou o atarefado proprietário de uma mercearia de alto padrão. Ele não exagerava nos preços, só lidava com artigos da mais alta qualidade e tinha um conhecimento exaustivo de seus produtos. Era também de uma honestidade a toda prova — cuidadoso e exato ao contar as notas de cinco libras, ostensivamente escrupuloso ao devolver o adiantamento quando uma transação fracassava. Inofensivo e discreto, podia frequentar qualquer ambiente. Nos seus infindáveis e cansativos deslocamentos — porque todas as vendas iniciais eram seladas ou precedidas por uma cachimbada da paz —, ele poderia sair de um chá com um especialista em oftalmologia para um banho na casa de um advogado amigo dele, daí para um jantar com a corriola de um cantor de rock, passando depois a noite num ninho de enfermeiras.
Ele tinha um apartamento minúsculo, pouco mais do que um depósito de vassouras, em Streatham. Certa noite, Johnny abriu a porta para quatro indivíduos que usavam máscaras sorridentes de Jimmy Carter — faz mesmo um tempão! — e traziam pés de cabra. Não falaram uma única palavra e não o tocaram. Afastando-o para o lado com os ombros, destroçaram o apartamento — o que terá tomado uns cinco segundos cravados — e se foram. O crime organizado estava ocupando o lugar dos hippies.
Foi dos primeiros casos de racionalização do mercado. Até então, a importação e a distribuição ficaram a cargo de empreendedores com espírito aventureiro, figuras solitárias e supostamente impregnadas das doutrinas filosóficas orientais que carregavam todo o seu oloroso estoque em volumosas mochilas. Os homens de terno e os pés de cabra tornaram o sistema mais enxuto e democrático, reduzindo a linha de produtos ao haxixe de terceira categoria oriundo do Paquistão e o fazendo chegar aos bares, arquibancadas de campos de futebol e prisões.
Durante alguns meses pareceu que Johnny B. Well seria obrigado a arranjar outro emprego, até que a mesma organização que destruíra seu apartamento lhe ofereceu proteção. Um pequeno salário e comissão de vendas. Foi então que ele se viu forçado a alargar sua rede de contatos, motivo pelo qual eu acreditei que podia me ajudar agora. Alguns ambiciosos rapazes que ocupavam uma chambre séparée nos fundos do bar The Dog, em Tulse Hill, passaram a ser seus empregadores. Eles tinham muitos amigos e lhe deram numerosas incumbências. Os bandidos o tomaram pelo comerciante honesto que ele era, permitindo que Johnny circulasse entre eles sem ser molestado ou tratado com escárnio. Ao mesmo tempo, ele foi capaz de continuar a abastecer sua velha e exigente clientela com a linha de artigos especiais — folhas costuradas em forma de cartucho da Nigéria, bastões tecidos de Natal ou da Tailândia, novas variedades sem sementes do condado de Orange, folhas levíssimas e douradas do Líbano. Sob o novo regime, um dia típico de Johnny podia exigir uma degustação de cerveja com gente moderninha no almoço e, com os grã-finos que os esnobavam, um chá vespertino.
Era uma vida solitária e dura, bem mais dura do que tocar uma campainha. E Johnny B. Well nunca ficou rico. Ele era zeloso demais, honesto demais, drogado demais. Nunca pegava táxis. Que outro traficante esperaria trinta e cinco minutos por um ônibus calçando sapatos tão velhos? Ele mantinha uma fé simples e inebriante em sua condição de filantropo, convencido de que certas resinas e folhas, uma vez queimadas e inaladas, estavam pouco a pouco melhorando o astral da humanidade, e que as lutas públicas e privadas cessariam à medida que bons fluidos prevalecessem e as almas se abrissem para receber a luz. Enquanto isso, com a chegada da década de 80, os homens de terno que portavam pés de cabra, assim como os advogados, especialistas e cantores de rock, cuidavam apenas de ganhar dinheiro.
Em meu escritório, o círculo de luz dentro do qual eu estava sentado parecia ter ficado menor e mais claro. A grapa fora consumida, conquanto eu não me lembrasse de haver bebido os últimos goles. Olhei para o nome de Johnny na caligrafia elaborada e para os sete dígitos que o acompanhavam. Quem poderia me dar ajuda melhor? Por que não tinha pensado nele antes? Por que não tinha pensado nele imediatamente? A resposta era que eu não o via fazia onze anos.
Como muitos antes de mim, eu chegara lentamente à conclusão de que o álcool é a mais recomendável substância estimulante para uma pessoa de meia-idade que sofre as pressões inevitáveis de quem tem êxito na vida. Legal, aceito socialmente, seu vício moderado passa facilmente desapercebido em meio a igual vício de tantas outras pessoas. Em suas infinitas e engenhosas manifestações, o drinque que seguramos — tão colorido, tão delicioso ao paladar — triunfa por sua própria forma: como líquido, pertence ao mesmo domínio do leite, do chá, do café, da água e consequentemente da vida. Beber é algo natural, enquanto inalar a fumaça de uma planta em combustão está muito distante do simples ato de respirar, tanto quanto a ingestão de pílulas se distancia da alimentação, não existindo nenhuma penetração natural que se pareça com a de uma agulha (se excetuarmos a picada de um inseto). Um uísque de malte com água pura, uma taça de Chablis na temperatura correta talvez só melhorem de maneira modesta sua visão do mundo, mas não lhe afetarão a integridade pessoal e a continuidade das libações no futuro. Obviamente, cumpre considerar a embriaguez, com tudo que ela implica em matéria de grosseria, vômitos e violência, assim como o vício desenfreado, com sua carga de abandono físico e mental a caminho de uma morte degradante e angustiosa. Mas essas são simplesmente as consequências do abuso, que decorrem da fraqueza humana, dos defeitos de caráter, tanto quanto um bom bordeaux flui da garrafa. Não se pode culpar a substância. Até biscoitos de chocolate causam suas vítimas, e tenho um velho amigo que, durante trinta anos, levou uma vida útil e satisfatória com um suprimento regular de heroína não batizada.
Parei na semiobscuridade do hall e apurei os ouvidos: só os estalidos da madeira e do metal ao se contraírem e, no mais fundo das instalações hidráulicas, um fio de água em fuga. Da cozinha, os sussurros da geladeira e, mais ao longe, o ronronar tranquilizante da cidade adormecida. De volta ao escritório, me sentei com o telefone no colo, refletindo sobre aquele momento, o ponto sem retorno. Eu estava prestes a sair do espaço iluminado pelo medo e por fantasias meticulosas rumo a um mundo de duras realidades. Sabia que cada ação e cada acontecimento levaria a outros, até que o trem não estivesse mais sob meu controle. Se eu tinha dúvidas, essa era a hora de recuar.
Johnny atendeu no quarto toque e eu lhe disse meu nome. A resposta não tardou um segundo.
“Joe! Joe Rose. Ei, como é que você anda?”
“Bem, mas estou precisando de ajuda.”
“É mesmo? Tenho aqui um material muito interessante...”
“Não, Johnny. Não se trata disso. Preciso de sua ajuda. Preciso de um revólver.”
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