Amor Sem Fim
Capítulo 5
Como tive outra reunião naquele dia — eu pertencia à comissão que premiaria um livro científico —, Clarissa já havia saído para se encontrar com o irmão quando cheguei em casa. Eu precisava falar com ela. O esforço de parecer mentalmente são e ponderado durante três horas tinha me arrasado. No apartamento confortável e até chique, as formas e cores familiares pareciam mais densas, os aposentos davam a impressão de estar algo empoeirados. Preparei um gim-tônica e o bebi ao lado da secretária eletrônica. A última mensagem consistia apenas numa pausa, sem que se ouvisse nenhuma respiração, seguida do ruído do telefone sendo desligado. Precisava falar com Clarissa sobre Parry, sobre a chamada na noite anterior, e como ele me seguira na biblioteca, e sobre aquele meu desconforto, aquela apreensão que vinha sentindo. Pensei em me reunir a eles no restaurante, mas sabia que, a essa altura, seu irmão adúltero teria iniciado o implacável cantochão do noviço em matéria de divórcio: a dolorida autodefesa que descreve as transmutações do amor em ódio ou indiferença. Clarissa, que gostava da cunhada, estaria ouvindo com grande tristeza.
Para me acalmar, recorri à clínica vespertina de dor terceirizada, o noticiário da televisão. Naquela noite: uma sepultura coletiva num bosque da Bósnia central, o ninho de amor de um ministro que sofria de câncer, o segundo dia do julgamento de um assassino. O que me trouxe certo alívio foi a familiaridade do formato: a música marcial, a voz suave e pressurosa do apresentador, a verdade tranquilizadora de que toda infelicidade é relativa e, para encerrar, o ópio das previsões do tempo. Voltei à cozinha para preparar um segundo drinque e me sentei à mesa para bebê-lo ali mesmo. Se Parry havia me seguido o dia inteiro, então sabia onde eu morava. Se não tivesse me seguido, então meu estado mental deveria estar muito frágil. Mas fundamentalmente não estava, pois de fato ele me seguira — e isso exigia que eu pensasse com seriedade na questão. Era possível atribuir sua chamada noturna à tensão e quem sabe ao fato de estar bebendo sozinho, porém não se houvesse me seguido. E eu sabia que isso era verdade porque tinha visto os tênis brancos com os cadarços vermelhos. A menos que — e o hábito do ceticismo era prova de minha sanidade mental — o vermelho tivesse sido imaginado ou resultasse de um processo de fusão visual. Afinal de contas, o tapete da biblioteca era vermelho. Mas eu tinha percebido a cor como parte do movimento rápido de um calçado. Eu sentira a presença dele atrás de mim antes mesmo de vê-lo. Estava pronto a admitir que esse tipo de intuição não é muito confiável. Mas era ele. Tal como muitas pessoas que levam uma vida segura, logo imaginei o pior. Que razão eu lhe dera para querer me matar? Será que ele achava que eu havia zombado de sua fé? Talvez tivesse telefonado outra vez...
Peguei o telefone sem fio e apertei as teclas para saber quem nos chamara. A voz feminina computadorizada cantou um número londrino que eu desconhecia. Fiz a chamada e balancei a cabeça ao ouvir a resposta transmitida pela secretária eletrônica. Por mais razoáveis que fossem as minhas suspeitas, a confirmação ainda chegou como uma surpresa. “Por favor, deixe sua mensagem após o sinal. E que Deus o proteja.” Era a voz dele, e em duas frases. Sua fé chegava bem longe, invadia os desvãos da secretária eletrônica, os meandros de sua prosa. A que ele se referira ao dizer que sentia o mesmo que eu? O que é que ele queria?
Olhei para a garrafa de gim e decidi que não. O problema mais imediato consistia em como passar a noite até a volta de Clarissa. Se não fizesse alguma escolha consciente, iria ficar ruminando aquelas questões e bebendo. Não queria ver nenhum amigo, não precisava de diversão, nem fome tinha. Às vezes me ocorriam vazios desse gênero, e a única maneira de superá-los consistia em trabalhar. Fui para o escritório, acendi as luzes e liguei o computador, pus diante de mim os apontamentos feitos na biblioteca. Eram oito e quinze. Em três horas poderia concluir o essencial do artigo sobre o estilo narrativo na literatura científica. Já tinha os contornos de uma teoria, embora não necessariamente acreditasse nela. De toda forma, serviria a meus propósitos imediatos. Bastaria propor a tese, exibir as provas, considerar as objeções, e reafirmá-la com mais vigor na conclusão. O próprio artigo seguiria um esquema bem batido, mas que se provara muito útil para milhares de jornalistas antes de mim.
O trabalho era uma fuga — não duvidei disso nem naquele momento. Como não tinha resposta para minhas perguntas, pensar mais sobre elas não me levaria a lugar algum. Achando que Clarissa não voltaria antes da meia-noite, mergulhei com toda a seriedade em minha frágil argumentação. Vinte minutos depois já alcançara o estado mental desejado, o claustro inviolável do pensamento dirigido. Nem sempre consigo atingir tal estado, e fiquei grato ao fazê-lo naquela noite. Não precisava me defender do entulho habitual trazido pelas marés — retalhos de memórias recentes, lembretes de coisas a fazer, traços espectrais de desejo sexual. Minha praia estava limpa. Não me enganei levantando da cadeira para ir buscar café e, malgrado a tônica, não senti vontade de urinar.
Foi o valor dado aos diletantes na cultura do século xix que nutriu os cientistas narradores, todos aqueles senhores bem-nascidos e sem profissão definida, aqueles párocos com tempo de sobra nas mãos. O próprio Darwin, nos dias que antecederam a viagem do Beagle, sonhava em morar no campo para perseguir em paz sua paixão de colecionador e, mesmo diante das circunstâncias de vida que resultaram de sua genialidade e das voltas do destino, a Downe House era mais uma residência paroquial do que um laboratório. A forma artística prevalecente era o romance, grandes e esparramados relatos que não apenas mapeavam trajetórias individuais, mas também retratavam toda a sociedade e as questões públicas de maior relevância. A maioria das pessoas educadas lia os romances de sua época. A narração estava profundamente entranhada na alma do século xix.
Aconteceram então duas coisas. A ciência se tornou mais difícil e se profissionalizou. Nas universidades, as narrativas paroquiais foram substituídas por teorias rigorosas que eram capazes de sobreviver sem sustentação experimental e possuíam sua estética própria. Ao mesmo tempo, na literatura e em outros campos artísticos, um modernismo recém-surgido celebrava as qualidades formais e estruturais, a coerência interna e a autorreferência. Uma casta de sacerdotes protegia os templos dessa difícil arte contra as invasões do homem comum.
O mesmo ocorria com a ciência. Na física, por exemplo, uma pequena elite de iniciados europeus e americanos aceitou e aclamou a Teoria Geral de Einstein muito antes de serem coligidas as observações que a confirmaram. A teoria, que Einstein apresentou ao mundo entre 1915 e 1916, propunha, de forma ofensiva para o senso comum, que a gravitação era simplesmente um efeito causado pela curvatura do espaço-tempo forjada pela matéria e pela energia. Previa, por isso, que a luz seria desviada pelo campo gravitacional do Sol. Em 1914 já se montara uma expedição à Crimeia para observar um eclipse e testar tal previsão, porém a guerra impedira sua realização. Outra expedição seguiu em 1919 para duas ilhas remotas no Atlântico. A confirmação foi noticiada a todo o mundo, mas dados imprecisos ou inconvenientes haviam sido ignorados na ânsia de comprovar a teoria. Novas expedições partiram com o propósito de observar eclipses e verificar as predições de Einstein: para a Austrália em 1922, para Sumatra em 1929, para a União Soviética em 1936, para o Brasil em 1947. Só após o desenvolvimento da radioastronomia, na década de 50, se chegou a uma verificação experimental incontroversa, mas, em essência, todos aqueles anos de esforços práticos se revelaram irrelevantes. A Teoria da Relatividade já constava dos manuais desde os anos 20. Seu poder de integração era grande demais, ela era irresistivelmente bela.
Assim, as sinuosidades da narrativa haviam cedido lugar a uma estética da forma, tanto na arte como na ciência. Digitei noite adentro. Tinha gastado demasiado tempo com Einstein e procurava outro exemplo de teoria aceita por força de sua beleza. À medida que perdia confiança nos meus argumentos, mais rápido eu escrevia. Encontrei um tipo de argumento invertido no meu próprio passado — a eletrodinâmica quântica. Nesse caso, existia um bom volume de verificação experimental para um conjunto de ideias sobre os elétrons e a luz, mas a teoria, sobretudo na forma apresentada por Dirac, levou muito tempo para obter aceitação geral. Havia inconsistências, o arcabouço conceitual parecia desequilibrado. Em suma, a teoria não era atraente nem elegante, lembrava uma melodia cantada por alguém desafinado. Aceitação negada por motivo de feiura.
Já vinha trabalhando havia três horas, tendo escrito duas mil palavras. Cairia bem um terceiro exemplo, mas minha energia começava a declinar. Imprimi as páginas e as observei pousadas sobre minhas pernas, perplexo com o fato de que um raciocínio tão débil, com exemplos tão forçados, pudesse ter atraído minha atenção por tanto tempo. Contra-argumentos brotavam entre as linhas límpidas do texto. Que provas eu podia oferecer para sugerir que os romances de Dickens, Scott, Trollope, Thackeray e outros houvessem de fato influenciado, com uma vírgula que fosse, a apresentação de qualquer ideia científica? Além disso, meus exemplos eram extraordinariamente distorcidos. Eu tinha comparado as ciências naturais do século xix (o cachorro ardiloso na biblioteca) às ciências exatas do século posterior. Nos anais da física e da química da era vitoriana, para não ir mais longe, havia inúmeras teorias brilhantes que não continham nenhuma narrativa. E, afinal de contas, quais eram os produtos típicos da mente científica ou pseudocientífica do século xx? A antropologia e a psicanálise — puras fabulações. Assim, usando os métodos mais clássicos dos contadores de histórias e todos os artifícios da classe sacerdotal, Freud sustentou suas ideias com base na veracidade da ciência, mas não em sua falsificabilidade. E que dizer dos behavioristas e sociólogos dos anos 20? Era como se um exército de Balzacs vestindo aventais brancos houvesse tomado de assalto os departamentos e laboratórios das universidades.
Prendi minhas doze páginas com um clipe e senti seu peso. O que eu havia escrito não era verdade. Não fora escrito buscando a verdade, não era ciência. Era jornalismo para uso em revistas, em que o que conta é a facilidade da leitura. Sacudi as páginas, tentando encontrar outros consolos. Eu tinha me distraído de forma útil, poderia escrever um artigo coerente usando os contra-argumentos (o método narrativo na ciência chegou a seu ápice no século xx etc.) e, de qualquer modo, tratava-se de um primeiro rascunho que eu reescreveria alguns dias depois. Joguei as páginas sobre a escrivaninha e, quando elas aterrissaram, ouvi pela segunda vez naquele dia o estalido do assoalho atrás de mim. Havia alguém às minhas costas.
O simpático é uma parte primitiva e maravilhosa do sistema nervoso que compartilhamos com todas as demais espécies que devem sua existência continuada à rapidez em dar meia-volta, à agilidade e dureza na luta ou à celeridade na fuga. A evolução só poupa os eficientes. Terminais nervosos localizados nos tecidos mais profundos do coração secretam a noradrenalina, acelerando o bombeamento do sangue. Mais oxigênio, mais glicose, mais energia, raciocínio mais rápido, membros mais fortes. Desenvolvido no passado remoto, quando os mamíferos se bifurcaram de seus antepassados, o simpático é um sistema tão antigo que nunca temos consciência de sua operação. Nem haveria tempo para isso, ele perderia sua eficácia. Só conhecemos os resultados. O arranque que chega ao coração parece ser simultâneo à percepção do perigo: no instante mesmo em que o córtex visual e auditivo está processando e tornando compreensível o que foi captado pelo olho ou pelo ouvido, aquelas potentes gotículas já estão fazendo efeito.
Meu coração havia recebido a primeira carga gélida e aterrorizante antes mesmo que eu começasse a girar o corpo, levantar-me da cadeira e erguer as mãos, pronto a me defender ou, se necessário, atacar. Alguém que se aproxime sorrateiramente por trás pode atacar com facilidade os seres humanos modernos porque seus únicos predadores naturais são outros seres humanos e, além disso, todos os seus brinquedos, esquemas mentais e aposentos confortáveis os tornaram menos alertas. Esquilos e passarinhos devem nos olhar com escárnio.
A pessoa que vi caminhando rapidamente em minha direção, com os braços estendidos para a frente como um sonâmbulo de desenho animado, era Clarissa e, sabe-se lá graças a que complexas intervenções de meus centros nervosos superiores, fui capaz de converter de forma plausível os gestos de terror primitivo num abraço ternamente dado e recebido: quando seus braços envolveram meu pescoço, fui atingido por uma pontada de amor que, na verdade, era inseparável do alívio que senti.
“Ah, Joe”, ela disse, “senti tanta falta de você o dia todo, eu te amo tanto! Tive uma noite terrível com Luke. Ai, meu Deus, como eu te amo.”
E, ai, meu Deus, como eu a amava. Por mais que pensasse em Clarissa, na lembrança ou por antecipação, o fato de tê-la outra vez — sua pele, sua voz, a qualidade exata do amor que transitava entre nós, sua simples presença animal — sempre me trazia, juntamente com a familiaridade, um toque de surpresa. Talvez esse tipo de amnésia tenha alguma função: os indivíduos incapazes de afastar seus corações e suas mentes do ente amado estão fadados a fracassar nos embates da vida e não deixam nenhuma herança genética. Bem no centro do meu escritório, plantados sobre o diamante amarelo do tapete bokhara, Clarissa e eu nos beijamos e abraçamos. E, em meio aos beijos, ouvi os primeiros fragmentos da loucura de seu irmão. Luke estava abandonando sua bonita e adorável mulher, as gêmeas magricelas e a casa no estilo Queen Anne em Islington para viver com uma atriz que conhecera três meses antes. Eis aí um caso de amnésia em grande escala. Enquanto comiam as coquilles Saint-Jacques, ele disse a Clarissa que estava contemplando a ideia de largar o emprego e escrever uma peça de teatro, na verdade um monólogo a ser interpretado por uma mulher, que talvez pudesse ser encenada num teatrinho que ficava em cima de um salão de cabeleireiros em Kensal Green.
“Antes de irmos para o paraíso”, comecei, e Clarissa terminou: “Passando por Kensal Green”.
“Coragem irresponsável”, comentei. “Ele deve estar correndo atrás do seu pau duro.”
“Coragem de merda!” Ela respirou fundo e me fuzilou com os olhos verdes. “Uma atriz! Ele está correndo atrás de um clichê!”
Por um segundo eu me tornara seu irmão. Reconhecendo isso, ela me puxou mais para perto e me beijou. “Joe, me deu vontade de ter você o dia todo. Depois de ontem, e da noite anterior...”
Ainda abraçados, fomos do escritório para o quarto. Enquanto Clarissa continuava a me contar mais sobre os problemas do casal e eu descrevia o artigo que havia escrito, nos preparamos para a viagem noturna rumo ao sexo e ao sono. Eu já tinha percorrido uma boa distância naquela noite desde que entrara em casa querendo falar com Clarissa apenas sobre Parry. O trabalho me envolvera num véu de contentamento abstrato, e com sua chegada, apesar da triste história que ela contara, eu tinha me recuperado por completo. Não sentia medo de nada. Ao nos deitarmos, de rostos colados como na noite anterior, faria algum sentido perturbar nossa felicidade com o relato do telefonema de Parry? Diante de tudo que havíamos vivido no dia anterior, poderia eu destruir nossa ternura com as suspeitas angustiantes de ter sido seguido? As luzes haviam sido diminuídas, em breve seriam apagadas. O fantasma de John Logan ainda permanecia no quarto, mas não nos ameaçava mais. Parry ficaria para amanhã. Toda a urgência se dissipara. De olhos fechados, tracei na escuridão absoluta os belos lábios de Clarissa. Num gesto carinhoso, ela mordeu com força o nó do meu dedo. Há momentos em que o cansaço é o melhor afrodisíaco, eliminando qualquer outro pensamento, conferindo a membros pesados um movimento sensual em câmera lenta, promovendo a generosidade, a aceitação, o abandono total. Caímos de nossos dias respectivos como insetos sacudidos de uma rede.
Ao lado da cama, no escuro, o telefone permaneceu em silêncio. Muitas horas antes eu o tirara da tomada.
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