Amor Sem Fim

Ian McEwan · Capítulo 8 de 26

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Amor Sem Fim

Capítulo 8

 

Disse ao motorista que me levasse a Bloomsbury. Enquanto me afundava no assento para tentar recuperar a calma, recordei os sentimentos incoerentes que me haviam assaltado na véspera ao correr para a praça no encalço de Parry. Naquele momento, ele representava o desconhecido, no qual eu projetava todo tipo de terror indefinido. Agora eu o via como um homem ainda moço, confuso e excêntrico, incapaz de me olhar de frente, tornado inofensivo por suas inadequações e carências emocionais. Em vez de uma ameaça real, ele era de fato uma figura patética, um mero incômodo que, como dizia Clarissa, poderia se transformar numa história engraçada. Talvez fosse estranho que, após um encontro tão intenso, eu pudesse varrê-lo de minha mente. Naquela hora, isso me pareceu razoável e necessário — eu já tinha desperdiçado uma boa parte da manhã. Antes que o táxi percorresse um quilômetro, meus pensamentos haviam se deslocado para o artigo que eu tencionava escrever e que começara a ser esboçado enquanto esperava por Clarissa em Heathrow.

Tinha reservado o dia para iniciar uma longa reflexão sobre o sorriso. Uma revista científica americana séria dedicaria um número inteiro ao que seu editor proclamava ser uma revolução intelectual. Biólogos e psicólogos evolucionistas estavam reformulando as ciências sociais. O modelo-padrão, que fora consensual no pós-guerra, vinha perdendo força, suscitando um reexame da natureza humana. Não chegamos ao mundo como páginas em branco ou como mecanismos capazes de aprender qualquer coisa. Nem somos “produtos” do meio que nos cerca. Se quisermos saber o que somos, é preciso saber de onde viemos. Evoluímos, como qualquer outra criatura terrestre. Chegamos ao mundo com limitações e capacitações geneticamente determinadas. Muitos de nossos traços — o formato dos pés, a cor dos olhos — são fixos, enquanto outros — como nosso comportamento social e sexual ou o aprendizado linguístico — se expressam no curso de nossas vidas. Mas esse curso não é infinitamente variável. Somos um fenômeno natural. O mundo tal como visto pelos biólogos comprova as teses de Darwin: nossos rostos expressam as emoções de modo quase igual em todas as culturas, sendo o sorriso do bebê uma sinalização social particularmente fácil de isolar e estudar. Ele está tão presente nas criancinhas Kung San do Kalahari quanto nas dos bairros ricos de Nova York, exercendo o mesmo efeito em ambos os casos. Nas palavras comedidas de Edward O. Wilson, ele “aciona uma oferta maior de amor e afeição por parte dos pais”, uma vez que, “na terminologia dos zoólogos, é um propiciador social, um sinal nato e relativamente invariante que serve como agente numa relação social básica”.

Alguns anos atrás, os editores de livros científicos só pensavam no caos. Agora imploravam por material tão variado quanto possível acerca do neodarwinismo, da psicologia evolucionista, da genética. Eu não tinha razões para reclamar, as oportunidades de trabalho se multiplicavam, mas Clarissa tomara uma atitude contrária a todo o projeto. Dizia que se tratava de um racionalismo ensandecido. “É o novo fundamentalismo”, afirmou certa noite. “Há vinte anos você e todos os teus amigos eram socialistas e culpavam o meio pelos males da humanidade. Agora estamos presos na armadilha de nossos genes e existe uma razão para tudo!” Ficou aborrecida quando li para ela a passagem de Wilson. Tudo estava sendo simplificado, ela reclamou, e, nesse processo, se perdia um significado maior. O que um zoólogo tinha a dizer sobre o sorriso de um bebê não podia ser relevante. A verdade daquele sorriso estava nos olhos e no coração de seus pais, no amor em formação que só ganhava sentido ao longo do tempo.

Estávamos em meio a um dos nossos debates tarde da noite à volta da mesa da cozinha. Disse-lhe que ultimamente ela passava tempo demasiado na companhia de John Keats. Um gênio, sem dúvida, mas também um obscurantista segundo o qual a ciência estava privando o mundo da capacidade de se maravilhar, quando o contrário é que era verdade. Se damos valor ao sorriso de um bebê, por que não investigar sua origem? Devemos crer que todas as criancinhas compartilham uma piada secreta? Ou que Deus estica um dedo lá de cima e faz cócegas nelas? Ou, o que é menos implausível, porque aprendem a sorrir com suas mães? No entanto, como criancinhas surdas e cegas também sorriem, esse sorriso já vem programado no cérebro por boas razões evolucionistas. Clarissa disse que eu não a tinha entendido. Não havia nada de errado em examinar os fragmentos, porém era fácil perder de vista o todo. Concordei. O trabalho de síntese era crucial. Clarissa disse que eu ainda não a tinha entendido, ela estava falando do amor. Respondi que eu também, especialmente de que modo os bebês que nem sabiam falar conseguiam obter uma maior parcela de amor. Ela disse que não, eu ainda não a entendera. Paramos por ali. Sem ressentimentos. Havíamos tido essa conversa muitas vezes de formas diferentes. Dessa vez, o verdadeiro objeto era a falta de bebês em nossa vida.

Peguei o livro na Dillons e passei vinte minutos dando uma olhada nas estantes. Como estava ansioso para começar a escrever, fui de táxi para casa. Tendo pagado o motorista, voltei-me para deparar com Parry aguardando por mim junto ao portão de entrada. E que mais eu poderia esperar? Que ele iria desaparecer só porque eu estava pensando em outra coisa? Ele parecia estar um pouco envergonhado, mas não se moveu.

Começou a falar enquanto eu ainda me encontrava a alguma distância. “Você me mandou esperar, por isso esperei.”

Com as chaves na mão, hesitei, pensando em lhe dizer que nunca o havia mandado esperar, desejando lembrá-lo de sua “promessa solene”. Pensei também se não seria útil voltar a ouvi-lo para conhecer melhor seu estado de espírito. Mas me horrorizava a perspectiva de ser arrastado de novo para um drama conjugal, dessa vez num estreito caminho de tijolos entre alfeneiros recém-aparados.

Mostrei a chave e disse que ele estava bloqueando meu caminho.

Continuando a tapar minha visão da entrada, ele retrucou: “Quero conversar sobre o acidente”.

“Mas eu não quero.” Dei mais dois passos em sua direção como se Parry fosse um fantasma e eu pudesse, através dele, enfiar na fechadura a chave que trazia na mão estendida na minha frente.

Ele voltou a falar num tom lamuriento. “Olhe, Joe. Temos tanta coisa para conversar. Sei que você está sentindo o mesmo. Por que não nos sentamos e tratamos de acertar tudo?”

Empurrei-o com o ombro, emitindo um rude “dá licença”. Surpreendeu-me como ele se derreteu quando o toquei. Era mais leve do que eu imaginara. Como ele se deixou ser empurrado para o lado, pude abrir a porta.

“O importante”, ele disse, “é que vejo tudo isso do ângulo do perdão.”

Entrei no hall, pronto a barrar qualquer tentativa sua de me seguir. Mas Parry lá ficou e, ao fechar a porta, o vi através do vidro blindado articulando uma palavra que, mais uma vez, pode ter sido perdão. Subi as escadas e ainda estava do lado de fora quando ouvi o telefone tocar. Pensei que podia ser Clarissa, cumprindo o que prometera. Entrei correndo no hall do apartamento e arranquei o fone do gancho.

Era Parry. “Por favor, não fuja disso, Joe”, ele começou.

Desliguei e deixei o fone fora do gancho. Mudei de ideia e o repus no lugar. Eliminei o sinal de chamada e acionei a secretária eletrônica, que entrou em ação enquanto eu cruzava a sala de estar em direção à janela. Parry estava do outro lado da rua, de onde podia me ver, com um celular grudado à orelha. Sua voz, transmitida pelo monitor, ecoou no hall às minhas costas. “Joe, o amor de Deus vai encontrar você.” Ele olhou para cima e deve ter me visto de relance antes que me ocultasse atrás da cortina. “Sei que você está aí, posso ver você. Sei que está escutando...”

Voltei ao hall e baixei o volume do monitor. No banheiro, joguei água fria no rosto e, com a água ainda escorrendo, perguntei o que nas minhas feições seria capaz de atrair a obsessão de alguém. Esse momento, tanto quanto aquele em que Clarissa me passou a garrafa de vinho, poderia servir como ponto de partida, pois creio que só então comecei de verdade a compreender que aquele assunto não acabaria no fim do dia. Ao caminhar de volta à secretária eletrônica, ficou claro para mim que eu estava envolvido num relacionamento.

Levantei a tampa do aparelho. A fita ainda estava correndo. Aumentei um pouco o volume e ouvi a voz de Parry entoando baixinho “... escapar disso, Joe, mas eu amo você. Você é que deu a partida nisso tudo. Não pode virar as costas agora...”.

Caminhei rapidamente até meu escritório, peguei o telefone do fax e chamei a polícia. Enquanto esperava que a ligação se completasse, me dei conta de que não sabia o que iria dizer. Atendeu uma voz de mulher, lacônica e cética, endurecida para resistir ao dilúvio diário de pânico e desgraça.

Falei no tom seco e controlado de um cidadão responsável. “Gostaria de reportar um caso de molestamento.” A chamada foi transferida para um homem cuja voz revelava a mesma calma precavida. Repeti o pedido. Houve uma hesitação mínima antes da primeira pergunta.

“O senhor é a pessoa que está sendo molestada?”

“Sou, eu venho...”

“E a pessoa que está causando o problema se encontra na sua companhia agora?”

“Agora mesmo ele está do lado de fora do meu prédio.”

“Ele já lhe fez algum mal físico?”

“Não, mas ele...”

“Ameaçou lhe fazer algum mal?”

“Não.” Compreendi que minha queixa teria de ser posta numa fôrma burocrática preexistente. Não havia na polícia nenhuma repartição suficientemente refinada para processar narrativas individualizadas. Não obtendo alívio direto pela queixa, tentei me consolar com a possibilidade de que minha história fosse amoldada aos padrões usuais, porque o comportamento de Parry certamente devia corresponder a algum crime.

“Ele fez ameaças contra seus bens?”

“Não.”

“Contra terceiros?”

“Não.”

“Está tentando chantagear o senhor?”

“Não.”

“O senhor acha que pode provar que ele tenciona lhe causar algum mal?”

“Hum, não.”

Abandonando a neutralidade oficial, a voz adotou um tom quase sincero. Acreditei haver captado um leve sotaque de Yorkshire. “Então pode me dizer o que é que ele realmente está fazendo?”

“Me telefona a qualquer hora. Me fala na...”

A voz retornou rapidamente à sua posição inicial de obediência ao formulário de perguntas. “O comportamento dele é insultante ou obsceno?”

“Não. Olhe, meu senhor. Deixe-me explicar, por favor. Ele é um maníaco, não me dá um minuto de paz.”

“O senhor sabe o que ele quer de verdade?”

Fiz uma pausa. Só então percebi outras vozes ao fundo. Talvez houvesse fileiras de policiais como ele, com fones de ouvido, recebendo sem cessar informações sobre roubos, assassinatos, suicídios, estupros sob a ameaça de uma arma branca. E lá estava eu misturado a todo o resto — tentativa de conversão religiosa à luz do dia.

“Ele quer me salvar”, respondi.

“Salvá-lo?”

“O senhor sabe, me converter. É um obsessivo. Simplesmente não me deixa em paz.”

A voz me interrompeu, a impaciência por fim vindo à tona. “Sinto muito, senhor. Isso não é um assunto policial. A menos que lhe faça mal, ou a seus bens, ou ameace fazer essas coisas, ele não está cometendo nenhum crime. Tentar convertê-lo não é ilegal.” Terminou então nossa conversa sobre uma suposta emergência com um toque pessoal de repreensão: “Em nosso país todos gozam de liberdade religiosa”.

Voltei para a janela da sala de estar e vi Parry lá embaixo. Ele já não falava para minha secretária eletrônica. Postado diante do prédio com as mãos enfiadas nos bolsos, mantinha-se tão impassível quanto um agente secreto da Alemanha Oriental.

Depois de preparar uma garrafa térmica de café e alguns sanduíches, fui me encafuar no escritório, que dá para outra rua, a fim de ler minhas notas — ou melhor, as folhear, porque não conseguia me concentrar. A perseguição de Parry vinha agravar uma insatisfação mais antiga. Às vezes, sobretudo quando estou infeliz por algum motivo, me conscientizo do fato de que todas as ideias com que trabalho derivam da mente de outras pessoas. Eu me limito a coligir e digerir a pesquisa feita por elas de modo a transmiti-la ao leitor comum. Dizem que tenho o dom de escrever com clareza. Sou capaz de compor uma narrativa decente partindo dos tropeços, recuos e êxitos acidentais que estão por trás de quase todos os grandes avanços científicos. É verdade que alguém precisa servir como intermediário entre o pesquisador e o público em geral, oferecendo as explicações mais complexas, o que o técnico envolvido no trabalho de laboratório não pode se permitir por estar ocupado demais ou por ser cauteloso demais. É verdade também que ganhei um bocado de dinheiro ao me balançar como um macaco-aranha nas mais altas árvores da floresta científica então em voga — dinossauros, buracos negros, mágica quântica, caos, supercordas, neurociência, Darwin revisitado. Meus livros de capa dura, belamente ilustrados, geraram documentários de tv, debates radiofônicos e conferências nos locais mais aprazíveis do planeta.

Nos meus maus momentos, volta a sensação de que sou um parasita e a certeza de que provavelmente não me sentiria assim caso não possuísse um bom diploma de físico e um doutorado em eletrodinâmica quântica. Eu devia estar na luta, trazendo minha ínfima contribuição à massa gigantesca do conhecimento humano. Entretanto, quando terminei a universidade, estava inquieto após sete anos de estudo rigoroso. Viajei por toda parte, sem rumo ou razão e por tempo demasiado. Voltando finalmente para Londres, abri um negócio com um amigo. A ideia era vendermos um dispositivo, em essência um conjunto de circuitos engenhosamente sincronizados, que eu havia desenvolvido durante o período de pós-graduação. A peça diminuta se propunha a melhorar o desempenho de certos microprocessadores e, segundo imaginávamos, todos os computadores do mundo precisariam contar com nosso produto. Uma companhia alemã pagou nossas passagens aéreas para Hanover na primeira classe e, durante uns dois anos, acreditamos que seríamos bilionários. Mas o pedido de patente foi recusado. Uma equipe que trabalhava num parque científico nas imediações de Edimburgo havia chegado lá antes de nós utilizando recursos eletrônicos superiores. Além do mais, como nessa época a indústria de computadores rumava em outra direção, nossa empresa nunca vendeu uma ação e a turma de Edimburgo também não foi adiante. Quando retornei à eletrodinâmica quântica, o buraco no meu currículo já era grande demais, minhas habilidades matemáticas estavam enferrujadas e, antes mesmo de fazer trinta anos, eu já parecia velho demais para entrar num jogo tão competitivo.

Ao sair da última entrevista, já sabia — pela gentileza excessiva com que fui levado à porta por meu antigo professor — que minha carreira acadêmica fora a pique. Desci a Exhibition Road sob a chuva, pensando no que poderia fazer. Quando passei em frente ao Museu de História Natural, a chuva se tornou torrencial e, junto com outras dezenas de pessoas, busquei abrigo na instituição. Sentei-me perto da réplica do diplódoco e, enquanto secava, fiquei estranhamente feliz ao apreciar o comportamento das pessoas. Grupos numerosos frequentemente me provocam certa misantropia. Dessa vez, contudo, me pareceu que a curiosidade e o espanto demonstrado pelos visitantes os enobreciam. Quem entrava, independentemente de sua idade, era atraído pelo majestoso animal e se maravilhava. Entreouvindo conversas, o que me impressionou, além do entusiasmo, foi o nível generalizado de ignorância. Um menino de dez anos perguntou a três adultos que o acompanhavam se uma criatura como aquela teria caçado e comido seres humanos. Pelas respostas, ficou claro que o cronograma evolucionário dos adultos estava profundamente fora de esquadro.

Ainda sentado lá, comecei a repassar as poucas noções disparatadas que eu próprio tinha sobre os dinossauros. Lembrava como Darwin havia relatado, no livro A viagem do Beagle, a descoberta de grandes ossos fossilizados na América do Sul e como era crucial, para sua teoria, a datação desses vestígios. Os argumentos do geólogo Charles Lyell o tinham convencido de que a Terra era muito mais antiga do que os quatro mil anos prescritos pela Igreja. Recentemente, se discutira se os dinossauros tinham sangue quente ou frio, predominando por fim a primeira hipótese. Havia novas provas geológicas dos diversos cataclismos que perturbaram a vida na Terra. Aquela imensa cratera no México bem podia ter sido causada pelo meteoro que acabou com o império dos dinossauros e permitiu que expandissem seu nicho as criaturas parecidas com ratos que corriam em volta das patas daqueles monstros, propiciando assim o florescimento dos mamíferos e, consequentemente, dos primatas. Também circulava a ideia atraente de que os dinossauros não foram extintos — e sim, atendendo a um imperativo evolucionário do meio ambiente, teriam se transformado nos inofensivos pássaros que visitam nossos jardins.

Ao sair do museu, eu já tinha rabiscado o projeto de um livro nas costas da carta em que o professor confirmara a entrevista. Passei três meses lendo e seis meses escrevendo. A irmã do meu ex-sócio era pesquisadora de imagens e, num gesto simpático, concordou em ser paga mais tarde. O livro foi publicado num momento em que nada que tratasse de dinossauros poderia fracassar, e o meu alcançou suficiente êxito para garantir a encomenda de outro, agora sobre os buracos negros. Iniciei assim a nova carreira e, à medida que obtive outros sucessos, as possibilidades de arranjar trabalho na área da ciência foram se reduzindo. Eu era um jornalista, um comentarista, posto à margem de minha profissão original. Jamais voltariam aqueles dias, arrebatadores em retrospecto, em que eu conduzia pesquisas originais para minha tese de doutorado sobre o campo magnético do elétron, em que frequentava conferências acerca do problema da eliminação dos infinitos nas teorias renormalizadas — não como observador, mas como participante menor embora ativo. Agora, nenhum cientista, e nem mesmo um técnico de laboratório ou porteiro de universidade, voltaria a me levar a sério.

Naquele dia — com o café e os sanduíches no escritório, com Parry à espreita na calçada, com a dificuldade em avançar no tema do sorriso —, o sentimento veio forte e me obrigou a refletir sobre tudo que me levara até ali. De vez em quando ouvia o clique da secretária eletrônica ao ser ativada. Mais ou menos de hora em hora chegava à janela da sala de estar para verificar e o via sempre lá, olhos fixos na porta de entrada, como um cachorro amarrado diante de uma loja. Só numa das vezes ele me chamava do celular. Na maior parte do tempo, se mantinha imóvel, os pés ligeiramente afastados, as mãos nos bolsos, com uma expressão no rosto que, pelo que eu podia perceber, sugeria concentração — ou talvez uma felicidade iminente.

Quando olhei de novo às cinco da tarde, ele já se fora. Demorei-me à janela, imaginando poder ver sua silhueta no espaço que ele tinha ocupado, um pilar de ausência brilhando na luz crepuscular. Fui até a secretária eletrônica, que registrava trinta e três mensagens no mostrador de caracteres vermelhos. Usei a função que permitia saltar de uma para outra e encontrei a voz de Clarissa. Ela esperava que eu estivesse bem, voltaria às seis e me amava. Como havia três recados de trabalho, chegavam a vinte e nove as contribuições de Parry. Enquanto refletia sobre esse número, a fita começou a rodar. Aumentei o som. A voz parecia vir de um táxi. “Joe. Brilhante essa sua ideia de usar as cortinas. Entendi logo. Só quero dizer outra vez que também sinto o mesmo. De verdade.” A emoção fez com que ele pronunciasse as duas últimas palavras num tom mais agudo.

As cortinas? Voltei à sala de visitas para examiná-las. Estavam penduradas como sempre haviam estado. Nunca as abríamos de todo. Puxei uma para o lado, esperando tolamente descobrir alguma pista.

Depois fui sentar outra vez no escritório, não para trabalhar, e sim para ruminar tudo aquilo enquanto esperava por Clarissa. Mais uma vez, pensei em como me tornara o que era, em como poderia ter sido diferente e, ridiculamente, em como eu talvez fosse capaz de retomar as pesquisas originais e descobrir algo novo antes de fazer cinquenta anos.

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