Amor Sem Fim

Ian McEwan · Capítulo 26 de 26

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Amor Sem Fim

Apêndice II

 

Carta escrita pelo sr. J. Parry no final de seu terceiro ano de internação e recolhida pelo corpo de enfermeiros. O original consta da pasta do paciente. Fotocópia enviada ao dr. R. Wenn a seu pedido.

 

Terça-feira

Querido Joe,

Acordei de madrugada. Saí da cama, vesti o robe e, sem perturbar a turma da noite, fui me postar diante da janela que dá para o leste. Veja como eu sou afável quando você me trata bem! Você tem razão, as árvores se tornam pretas quando o sol se levanta detrás delas. Os galhos bem no topo se entrelaçam contra o pano de fundo do céu como fios nas entranhas de certas máquinas. Mas eu não estava pensando nisso, porque era um dia sem nuvens e o que se ergueu acima dos telhados, dez minutos depois, foi nada menos do que a resplandecência da glória e do amor de Deus. Nosso amor! Primeiro, me banhando, depois me aquecendo através da vidraça. Lá fiquei, os ombros para trás, os braços caídos ao longo do corpo, respirando fundo. As lágrimas rolando como sempre pelo rosto. Mas que alegria! O milésimo dia, minha milésima carta, e você me diz que está certo o que venho fazendo! De início, você não via sentido nisso e maldizia nossa separação. Agora sabe que cada dia que eu passo aqui o aproxima um pouquinho mais daquela luz gloriosa, de Seu amor; e você sabe hoje o que antes não sabia porque já está perto o bastante para sentir que se volta inevitável e alegremente na direção do calor que ela emite. Não há mais retorno, Joe! Quando você Lhe pertencer, também me pertencerá. Toda essa felicidade quase me deixa sem jeito. Eu deveria ser um prisioneiro. Há grades nas janelas, o dormitório é trancado à noite, passo o dia na companhia de idiotas que arrastam os pés, balbuciam palavras sem nexo, babam nas camisas, e os que não fazem isso precisam ser fisicamente contidos. Os enfermeiros, sobretudo os homens, são pessoas violentas que realmente mereciam estar internadas e de algum modo escaparam para o outro lado. Fumaça de cigarro, janelas que não podem ser abertas, urina, anúncios de tv. Este é o mundo que lhe descrevi mil vezes. Eu devia estar afundando. Em vez disso, sinto que tenho mais razões para viver do que antes. Nunca experimentei tamanha sensação de liberdade. Estou voando alto, sou tão feliz, Joe! Se eles soubessem o quanto eu seria feliz aqui, teriam me mandado embora. Preciso parar de escrever para abraçar a mim mesmo. Estou conquistando nossa felicidade dia a dia, e não me importo se isso consumir toda a minha vida. Mil dias — esta é minha carta de aniversário para você. Você já sabe, porém tenho de dizer outra vez que o adoro. Vivo para você. Amo você. Muito obrigado por me amar, obrigado por me aceitar, obrigado por reconhecer o que estou fazendo por nosso amor. Mande-me uma nova mensagem em breve, e lembre-se: na fé reside a alegria.

Jed

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