Amor Sem Fim

Ian McEwan · Capítulo 14 de 26

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Amor Sem Fim

Capítulo 14

 

Era com uma ponta de tristeza que Clarissa às vezes dizia que eu poderia ser um pai maravilhoso. Explicava que eu tinha um jeito especial de lidar com as crianças, me comunicando facilmente com elas sem a menor condescendência. Como nunca cuidei de nenhuma criança por períodos mais longos, jamais enfrentei os verdadeiros testes do sacrifício paternal, porém acho que sou bom em matéria de ouvir e de conversar. Conheço bastante bem os sete afilhados dela. Já os recebemos durante os fins de semana, levamos alguns para passar férias no exterior e cuidamos devotadamente por uma semana de duas meninas — Felicity e Grace — que fizeram xixi na cama enquanto seus pais se estraçalhavam nas audiências sobre o divórcio. Dei uma boa ajuda ao afilhado mais velho de Clarissa, um tempestuoso garoto de quinze anos inebriado pela cultura pop e pelas normas imbecis que regem a credibilidade entre seus pares. Levei-o para beber comigo e o convenci a não abandonar o colégio. Quatro anos depois, ele ia muito bem nos estudos de medicina em Edimburgo.

Apesar disso, sempre tenho de esconder um pequeno desconforto ao encontrar uma criança. Vejo-me pelos olhos dela e me lembro como considerava os adultos quando era pequeno. Eles me pareciam umas criaturas cinzentas, que gostavam demais de ficar sentadas e bater papo, acostumadas demais a não ter nenhuma ambição. Meus pais, seus amigos, tios e tias, todos pareciam ter conformado suas vidas às prioridades de pessoas remotas e mais importantes. Para uma criança, naturalmente, se tratava apenas de uma impressão muito limitada. Anos depois, descobri em certos adultos dignidade e vibração; mais tarde ainda, essas qualidades, ou ao menos a primeira, foram manifestadas com clareza por meus pais e pela maioria dos que os cercavam. Entretanto, quando eu era um ativo e petulante garoto de dez anos, me sentia culpado ao entrar numa sala cheia de adultos, procurando cortesmente ocultar a alegria que desfrutava fora dali. Se uma pessoa idosa se dirigia a mim — todos eram idosos —, ficava preocupado por não saber se meu rosto expressava toda a pena que eu sentia.

Por isso, ao me voltar na direção dos filhos de Logan, eu me vi pelos olhos deles: mais um estranho sem graça entre os muitos que ultimamente desfilavam pela casa, um sujeito grandalhão num terno azul de linho amassado, no topo da cabeça a rodela de calvície visível de onde eles se encontravam. O que ele tinha vindo fazer ali era algo incompreensível que não lhes competia saber. Acima de tudo, era outro homem, mas não o pai deles. A garota devia ter dez anos, o menino dois a menos. Atrás deles, ainda no hall, vinha a babá, uma jovem de rosto alegre vestindo um training. As crianças me encararam e eu as encarei de volta, enquanto a mãe delas pronunciava sua ameaça de morte. Ambos usavam calças jeans, tênis e suéteres com personagens de Disney. Tinham um jeitão meio desarrumado que era bastante simpático, e não me pareceram arrasados.

“É muito feio matar alguém”, disse o menino sem tirar os olhos de mim. Sua irmã soltou uma risadinha tolerante e, como Jean estava dando instruções à babá, eu disse ao garoto: “É só uma maneira de falar. É o que a gente diz quando não gosta de alguém”.

“Se é feio matar alguém”, ele respondeu, “então também é feio dizer que vai matar.”

“Você já ouviu alguém dizer: ‘Estou com tanta fome que sou capaz de comer um cavalo’?”

Ele refletiu cuidadosamente. “Eu mesmo já disse isso”, admitiu.

“E não é feio comer um cavalo?”

“É feio aqui”, disse a menina. “Mas não na França. Lá eles comem cavalos o tempo todo.”

“É verdade”, concordei. “Mas, se alguma coisa é feia aqui, não entendo por que fica certa quando se atravessa o canal da Mancha.”

Ainda lado a lado, os dois chegaram mais perto de mim. Após o que se passara, era um imenso alívio ter uma discussão sobre o relativismo moral.

A menina disse: “Em cada país as pessoas têm ideias diferentes. Na China, é uma coisa fina arrotar depois da refeição”.

“Verdade”, comentei. “Quando estive no Marrocos, me disseram para nunca dar um tapinha carinhoso na cabeça das crianças.”

“Odeio gente que faz isso”, disse a menina, sendo interrompida pela voz excitada do irmão: “Papai viu eles cortarem a cabeça de um bode na Índia”.

“E eram sacerdotes”, a menina acrescentou. A menção ao pai não causou nenhuma mudança aparente, nenhum remorso. Ele era ainda uma presença viva.

“Então”, perguntei, “será que o mundo não poderia chegar a um acordo e aceitar algumas regras?”

O garoto teve seu momento de triunfo: “Não matar ninguém”. Olhei para a menina, que concordou. E, ao ouvir o som da porta se fechando, todos nos voltamos na direção de Jean, que terminara de falar com a babá.

“Essa é a Rachael e esse é o Leo. E esse é o senhor...”

“Joe”, completei.

Leo sentou-se no colo da mãe, que entrelaçou as mãos fortemente em torno de sua cintura. Rachael caminhou até a janela e olhou para o jardim. “Aquela tenda...”, disse consigo, baixinho.

“Tenho de encontrá-la.” Jean Logan retomou nossa conversa de forma pragmática. “Pena que o senhor não a viu. Mas talvez ainda possa me ajudar. A polícia é inteiramente inútil. Um dos outros pode ter visto alguma coisa. Eu mesma não posso falar com eles, mas, se o senhor não se importar...”

“Do que você está falando, mamãe?”, Rachael perguntou da janela. Pelo tom ansioso e protetor da pergunta, feita de forma hesitante, pude sentir o quanto a menina vinha sofrendo. Devia ter havido cenas cuja repetição ela temia e precisava evitar.

“Nada, querida. Nada que interesse a você.”

Por mais que quisesse, não consegui pensar numa desculpa para me negar a atender seu pedido. Será que minha vida ia ficar subordinada totalmente às obsessões dos outros?

“Tenho os números de telefone dos empregados das fazendas”, ela disse. “Não deve ser difícil achar o do rapaz. Tenho o endereço dele. Chama-se Parry. Três telefonemas, é tudo que lhe peço.”

Era complicado demais recusar. “Está bem”, eu disse, “vou fazer isso.” No instante mesmo em que concordava, percebi que poderia censurar a informação recebida e, assim, talvez poupar maiores tristezas à família. Será que Rachael e Leo concordariam que há momentos em que é correto mentir? O menino escorregou do colo da mãe e se juntou à irmã. Tendo me agradecido com um sorriso, Jean alisou a saia com as palmas das mãos, sugerindo com aquele gesto que já era hora de eu ir embora. “Vou copiar os números para o senhor.”

Fiz que sim com a cabeça e disse: “Olhe, sra. Logan. Seu marido era um homem muito decidido e corajoso. A senhora não deve perder isso de vista”. Rachael e Leo estavam brincando perto da janela e fui obrigado a levantar a voz. “Ele estava decidido a salvar aquele menino e lutou até o final. As linhas de alta-tensão eram um perigo muito sério. O garoto podia muito bem morrer. Seu marido simplesmente não largou a corda, e envergonhou todos nós que estávamos lá.”

“Vocês todos estão vivos”, ela retrucou, fazendo uma pausa e franzindo o cenho quando Leo soltou um guincho atrás das longas cortinas que ladeavam a porta-janela. Sua irmã fazia cócegas nele por cima do tecido. Jean ia lhes dizer que parassem com o barulho, porém mudou de ideia. “Não pense que isso não está passando pela minha cabeça o tempo todo. John era montanhista, explorador de cavernas e um bom marinheiro. Mas também era médico. Participava de equipes de resgate e era muito, muito cauteloso.” A cada “muito” apertava a mão ainda com mais força. “Nunca correu riscos bobos. Costumavam brincar com ele nas escaladas porque estava sempre considerando as possibilidades de uma mudança no tempo, pedras soltas ou perigos que ninguém nem imaginara. Era o pessimista do grupo. Alguns achavam até que era medroso. Mas John não se importava. Nunca correu riscos desnecessários. Logo que Rachael nasceu, ele abandonou as escaladas mais difíceis. E é por isso que essa história não faz sentido.” Ela começou a se voltar na direção das crianças, que agora faziam mais barulho do que antes, porém queria acabar de me contar tudo aquilo e a algazarra lhe garantia maior privacidade. Voltou a me encarar. “Esse negócio de se agarrar à corda... O senhor entende, pensei muito nisso e sei o que o matou.”

Finalmente havíamos chegado ao cerne da questão. Eu ia ser acusado, e tinha de interrompê-la. Queria antes contar minha versão. À guisa de encorajamento, me ocorreu a imagem de algo, alguém, caindo um instante antes que eu soltasse a corda. Mas também me lembrava do ensinamento acautelatório dos tempos distantes em que trabalhava no laboratório: ver é crer. “Sra. Logan”, eu disse. “A senhora talvez tenha ouvido alguma coisa de um dos outros, não sei. Mas posso lhe dizer com toda a honestidade...”

Ela balançava a cabeça enquanto eu falava. “Não, não. O senhor precisa me ouvir. O senhor estava lá, mas sei mais sobre o que aconteceu do que o senhor. John tinha outra faceta, compreende? Ele sempre queria ser o melhor, mas não era mais o atleta excepcional que foi um dia. Já tinha quarenta e dois anos. Isso o machucava. Era uma coisa que ele não conseguia aceitar. E, quando os homens começam a sentir isso... Nunca soube nada sobre essa mulher. Não suspeitava de nada, nunca me ocorreu essa possibilidade, nem sei se ela foi a primeira, mas de uma coisa estou certa. Ela estava observando John e, sabendo disso, ele precisava se exibir para ela, tinha de provar que era o primeiro a pegar a corda e o último a largá-la, em vez de fazer como de costume — dar uma parada e decidir qual a melhor linha de ação. É o que ele teria feito sem ela, e isso é patético. Estava se mostrando para uma mulher, sr. Rose, e agora todos nós estamos sofrendo por causa disso.”

Essa era uma teoria ou uma variante que somente a infelicidade, a demência da dor, poderia conceber. “Mas a senhora não pode ter certeza disso”, protestei. “É tão extraordinário, tão elaborado. Não passa de uma hipótese. A senhora não pode se permitir acreditar nela.”

Ela me lançou um olhar de pena antes de se voltar para as crianças. “Assim já é demais! Não podemos nem conversar!” Então se levantou, impaciente. Leo se enroscara na cortina, deixando apenas os pés visíveis. Rachael saltitava em torno dele, cantarolando alguma coisa e o cutucando, enquanto ele reagia também cantando. A menina se afastou alguns passos enquanto sua mãe desenrolava o irmão. O tom de Jean Logan não era de reprimenda, e sim de uma mera advertência carinhosa. “Desse jeito você derruba a vara da cortina outra vez. Já te disse isso ontem e você me prometeu.”

Leo reapareceu corado e feliz. Trocou um olhar com a irmã, que deu uma risadinha. Depois se recordou da minha presença e pediu desculpas à mãe sabendo que eu o ouviria: “Mas aqui é nosso palácio, eu sou o rei e ela é a rainha, e só posso sair quando ela dá o sinal”.

Leo continuou a falar e Jean o censurou de forma muito amena. No entanto, eu já não ouvia mais nada. Era como se uma renda delicada se reparasse sozinha por força de sua própria complexidade. Tudo veio de um golpe, parecendo impossível que eu houvesse esquecido: a grande residência era o palácio de Buckingham, o rei era Jorge v, a mulher do lado de fora do palácio era francesa, tudo se passando pouco após a Primeira Grande Guerra. Ela viajou para a Inglaterra várias vezes a fim de se postar diante dos portões do palácio na esperança de ver o rei, por quem estava apaixonada. Nunca o havia encontrado e nunca o encontraria, mas ele monopolizava todos os seus pensamentos.

Já de pé, reparei que Rachael me dizia alguma coisa que não entendi, embora eu concordasse com a cabeça o tempo todo.

A tal mulher estava convencida de que toda a sociedade londrina comentava seu caso de amor com o rei, que estava muito perturbado. Numa das visitas, não achando vaga em nenhum hotel, concluiu que o rei usara de sua influência para impedir que ela permanecesse em Londres. Entretanto, tinha certeza absoluta de que o rei a amava. Ela correspondia a seu amor, conquanto também se queixasse amargamente dele. Jorge v a rechaçava, embora nunca deixasse de alimentar suas esperanças. Enviava-lhe sinais que só ela compreendia, fazendo-a saber que — por mais inconveniente, embaraçoso e inapropriado que fosse aquilo — ele a amava e sempre amaria. Mergulhada nas trevas do delírio, acreditava que o rei usava as cortinas do palácio de Buckingham para se comunicar com ela. Seu amor desesperado e amargurado foi identificado como uma síndrome pelo psiquiatra francês que a tratou, cujo nome passou a representar aquele tipo de paixão mórbida: De Clérambault.

Quando Jean Logan me viu de pé, presumiu que eu estivesse de partida e, indo até uma escrivaninha, anotou nomes e números num pedaço de papel.

As crianças se aproximaram de novo e Rachael disse: “Lembrei de outra”.

“É mesmo?”, perguntei. Era difícil concentrar-me nela.

“A professora disse que em quase todo o mundo as pessoas não têm lenços e, por isso, não é feio assoar o nariz assim.” Pinçou o nariz com o indicador e o polegar, afastou os outros dedos da narina, e fez um barulhão ao soprar o ar para fora. Seu irmão soltou um grito de alegria. Peguei o papel dobrado que Jean me ofereceu e, todos juntos, passamos da sala para o hall marrom a caminho da porta de entrada. Antes mesmo de alcançá-la, eu já voltara a pensar em De Clérambault. Na síndrome de De Clérambault. O nome soava como um toque de clarim me convocando para minhas próprias obsessões. Agora eu tinha uma pesquisa a fazer e sabia exatamente por onde começar. Uma síndrome oferecia um referencial de predição e certo alívio. Eu estava quase feliz quando ela abriu a porta e nós quatro nos amontoamos no caminho pavimentado de tijolos para dizer adeus. Era como se finalmente eu houvesse sido convidado por meu velho mestre para reassumir a função de pesquisador.

Jean Logan me agradeceu pela visita e eu disse que telefonaria tão logo houvesse feito as chamadas. Agora que me preparava para sair, as crianças se distanciaram. Eu voltava a ser um estranho. Pinçando o nariz, produzi uma versão bem-comportada do som de Rachael. Condescendentes, eles me retribuíram com sorrisos forçados. Obriguei-os a apertar minha mão. Caminhando em direção à rua, não pude deixar de sentir que minha partida os devolveria à ausência do pai. A família estava agrupada diante da porta, as mãos de Jean pousadas nos ombros das crianças. Tendo chegado ao carro e aberto a porta, me voltei para dar o último adeus, porém os três já haviam entrado em casa.

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