Amor Sem Fim

Ian McEwan · Capítulo 16 de 26

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Amor Sem Fim

Capítulo 16

 

Querido Joe,

O estudante que contratei tocou minha campainha às quatro da tarde de ontem e fui encontrá-lo no portão. Dei-lhe quinhentas libras pelo trabalho de uma semana e ele me passou o maço de papéis por entre as grades. As fotocópias de trinta e cinco artigos seus. Foi embora feliz, mas... e eu? Naquele momento, eu não sabia o que me esperava de noite. Talvez tenham sido as piores horas da minha vida. Foi uma tortura, Joe, me defrontar com seus pensamentos tristes e ressequidos. E pensar nos idiotas que lhe deram um bom dinheiro pelos artigos, e nos leitores inocentes que tiveram seu dia poluído por eles!

Sentei-me na sala que minha mãe chamava de biblioteca, embora as estantes estivessem sempre bem vazias, e li cada palavra, na verdade as ouvi em minha cabeça, ditas por você diretamente para mim. Li cada artigo como uma carta enviada por você para o futuro onde nós dois estaríamos juntos. Fiquei me perguntando o que é que você estava tentando fazer comigo. Ferir-me? Insultar-me? Testar-me? Eu o odiei por aquilo, mas nunca esqueci que também o amava — e por isso continuava a ler. Ele precisa de minha ajuda, eu me dizia quando estava prestes a desistir, ele precisa que eu o libere de sua pequena gaiola da razão. Houve momentos em que duvidei se havia entendido corretamente o que Deus queria de mim. Será que me cabia entregar em Suas mãos o autor daqueles escritos odiosos contra Ele? Talvez minha missão fosse mais simples e mais pura. Quer dizer, eu sabia que você escreve sobre assuntos científicos e estava preparado para me sentir perplexo ou entediado, porém não sabia que você escrevia movido pelo desprezo.

Você provavelmente não se lembra mais do artigo que escreveu quatro anos atrás para a New Scientist sobre os últimos recursos tecnológicos empregados nos estudos bíblicos. E daí, quem se interessa pela datação por carbono do Santo Sudário de Turim? Você acha que as pessoas abandonaram sua crença ao saber que se tratava de uma fraude medieval? Você acha que a fé depende de um pedaço de tecido apodrecido? Mas foi outro artigo, onde você escreve sobre Deus, que realmente me chocou. Talvez fosse uma piada, mas isso seria até pior. Você faz de conta que sabe o que ou quem Ele é — um personagem literário, você diz, como os que a gente encontra num romance. Diz também que os melhores cérebros nesse campo estão prontos a dar um “palpite bem fundamentado” sobre a pessoa que inventou Jeová: os indícios apontam para uma mulher que viveu por volta do ano 1000 a.C., Bathsheba, a hitita que dormiu com Davi. Uma romancista inventou Deus! Os melhores cérebros prefeririam morrer a ter a ousadia de saber uma coisa dessas. Você está lidando com poderes que nem você nem ninguém na Terra são capazes de conceber. Não contente com isso, diz que Jesus Cristo também foi um personagem, inventado sobretudo por são Paulo e “quem quer que tenha escrito” o Evangelho segundo são Marcos. Rezei por você, rezei para ter forças de voltar a vê-lo, para continuar a amá-lo sem ser aniquilado. Como é possível amar a Deus e o amar ao mesmo tempo? Só por meio da fé, Joe. Não por meio de fatos, ou supostos fatos, ou da arrogância intelectual, mas confiando na sabedoria e no amor de Deus como uma presença permanente em nossas vidas, o tipo de presença que nenhum ser humano, e muito menos um personagem literário, jamais poderia ter.

Suponho que fui ingênuo de pensar, naquela primeira onda de sentimento que tive por você, que tudo daria certo só porque eu queria tanto que isso acontecesse. Quando o dia nasceu, ainda me faltava ler dez artigos. Tomei um táxi até sua casa. Você dormia, desconhecendo sua própria vulnerabilidade, indiferente à proteção que você desfruta de uma fonte cuja existência nega. A vida lhe tem sido muito boa, e acho que, enquanto eu esperava lá, comecei a me dar conta do quanto você é ingrato. Talvez nunca lhe ocorra agradecer pelo que tem. Tudo aconteceu por mero acaso? Você construiu tudo? Preocupo-me por você, Joe. Preocupa-me o que sua arrogância pode atrair sobre você. Atravessei a rua e encostei a mão na cerca viva. Dessa vez não havia nenhuma mensagem. Por que você iria falar comigo quando não precisa? Você acha que tem tudo, acha que pode satisfazer todas as suas necessidades por conta própria. Mas, sem ter a consciência do amor de Deus, você está vivendo num deserto. Se ao menos entendesse inteiramente o que estou lhe oferecendo! Acorde!

Você pode ter ficado com a impressão de que odeio a ciência. Nunca fui muito bem na escola e não tenho nenhum interesse pessoal pelos últimos avanços, porém sei que se trata de algo maravilhoso. O estudo e a mensuração da natureza nada mais são na verdade que uma oração prolongada. Uma celebração da glória do universo criado por Deus. Quanto mais aprendemos sobre a complexidade de Sua criação, mais entendemos quão pouco sabemos e como somos pequenos. Ele nos deu nossos cérebros, nos concedeu o esplendor da inteligência. Acho muito triste e infantil que alguém use esse dom para negar a realidade divina. Você diz que nosso conhecimento atual da química nos permite especular sobre como a vida começou na Terra. Pequenas poças de minerais aquecidas pelo sol, reações químicas, cadeias de proteínas, aminoácidos etc. A sopa primal. Deus foi expulso dessa história, você disse, e empurrado para o último refúgio, em meio às moléculas e partículas dos físicos quânticos. Mas isso não leva a lugar nenhum, Joe. Descrever como a sopa é feita não é o mesmo que saber por que ela foi feita, ou quem é o chef. Trata-se de um palavreado vazio e insignificante contra um poder infinito. Suas arengas contra Deus escondem uma súplica para que alguém o salve das armadilhas de sua própria lógica. Seus artigos são um grito lancinante nascido da solidão. Não há felicidade em toda essa negação. O que ela poderá lhe oferecer no final?

Sei que você não me ouvirá — ainda. Sua mente está fechada, suas defesas ativadas. É útil para você, e o protege, achar que eu sou louco. Socorro! Há um homem do lado de fora me oferecendo seu amor e o amor divino! Chamem a polícia, chamem uma ambulância! Não há nenhum problema com Joe Rose. Seu mundo está no lugar, tudo bem ajustado, e quem tem problemas é Jed Parry, o idiota paciente que se posta na rua como um mendigo, esperando ver de relance o ser amado para lhe oferecer seu amor. O que devo fazer para que você comece a me ouvir? Só a oração pode responder a essa pergunta, só o amor trará a solução. Mas meu amor por você não é mais do tipo suplicante. Não fico sentado junto ao telefone esperando que você me diga palavras gentis. Você não está acima de mim decidindo meu futuro, não tem o poder de me obrigar a fazer o que bem quiser. Meu amor por você é sólido e arrebatado, não se satisfará com um não, e está se movendo constantemente em sua direção, para tomar posse de você e salvá-lo. Em outras palavras, meu amor — que é também o amor divino — é o seu destino. Suas negativas e recusas, todos os seus livros e artigos, são como o bater de pé de uma criancinha cansada. É só uma questão de tempo, e você ficará grato quando o momento chegar.

Você entende? Ler seus artigos durante toda a noite me fez mais forte. Isso é obra do amor divino. Se você começa a se sentir desconfortável, é porque já estão se processando as mudanças em sua alma, e algum dia você terá prazer em dizer: “Salve-me da futilidade”. Haverá um tempo em que rememoraremos com ternura nossas trocas de mensagens, pois então já saberemos aonde elas nos conduziam e vamos rir ao pensar na força que tive de fazer para movê-lo do lugar, como você lutou para me manter à distância. Por isso, quaisquer que sejam seus sentimentos agora, por favor, não destrua essas cartas.

Quando cheguei aí de manhã cedinho, eu o odiava pelo que você havia escrito. Queria feri-lo. Talvez até mais do que isso. Algo pior, eu pensei, e Deus me perdoará. No táxi, a caminho, imaginei que você me diria com toda a frieza que Deus e Seu Filho Único eram meros personagens, como James Bond ou Hamlet. Ou que você mesmo podia criar a vida num tubo de ensaio caso dispusesse de um punhado de elementos químicos e alguns milhões de anos. Não é apenas o fato de negar Deus — você quer tomar o lugar Dele. Esse tipo de orgulho pode destruí-lo. Há mistérios em que não devemos tocar, precisamos aprender a ser humildes. Odiei-o, Joe, por sua arrogância. Você quer ter a última palavra em tudo. Sei bem, depois de ler trinta e cinco artigos seus. Não há uma dúvida, uma hesitação, uma única admissão de desconhecimento. Você está sempre apresentando a última verdade sobre bactérias, partículas, agricultura, insetos, os anéis de Saturno, harmonia musical, a teoria do risco, migração de aves... Meu cérebro parecia uma máquina de lavar roupa — girando e revirando sua roupa suja. Você pode me criticar por odiá-lo ao ver as coisas que enchem sua cabeça — satélites, nanotecnologias, biocomputadores, motores a hidrogênio? Não passa de um comércio. Você compra tudo, elogia tudo, é pago para fazer propaganda das mercadorias de outras pessoas. Em quatro anos de jornalismo, nem uma só palavra sobre as coisas verdadeiras, como o amor e a fé.

Talvez eu esteja zangado por causa da impaciência com que aguardo o início de nossa vida em comum. Lembro-me de que, numas férias de verão, fui com minha turma fazer caminhadas na Suíça. Certo dia, passamos uma manhã chatíssima subindo uma trilha pedregosa. Todos nós reclamamos — fazia tanto calor e aquele esforço parecia inútil, mas o professor nos obrigou a seguir em frente. Pouco antes do almoço, chegamos a um prado alpino, uma imensa área ensolarada coberta de flores e gramíneas, com musgos de um verde elétrico enfeitando as margens de um riacho. Tratava-se de um lugar milagroso. Éramos um grupo de garotos barulhentos, porém de repente todos se calaram. Alguém disse num sussurro que era como se estivéssemos entrando no paraíso. Foi um grande momento em minha vida. Penso que, quando superarmos nossas dificuldades, quando você vier para cá e estivermos juntos, será como chegar naquele prado. Nunca mais subiremos trilhas pedregosas! Diante de nós, muita paz e todo o tempo para desfrutá-la.

Há uma última coisa que devo lhe dizer. Irrompi em sua vida, assim como você irrompeu na minha. É natural que você deseje que isso não houvesse acontecido. Sua vida está prestes a virar de pernas para o ar. Você precisa dizer isso a Clarissa, precisa tirar suas coisas daí, se é que não prefere se livrar de quase tudo. Você terá de se explicar perante todos os amigos, não apenas por mudar de endereço, mas pela revolução em suas crenças. Dor e incômodo, coisas que você não quer. Em certos momentos você desejará que eu nunca houvesse perturbado sua vida ordenada e prazerosa. Desejará que eu não existisse. Isso é compreensível, não se sinta culpado. Ficará com raiva e tentará me enxotar porque eu represento o choque, a comoção. Mas é assim que tem de ser. É a trilha íngreme e pedregosa! Você deve pôr para fora tudo que sente. Xingue-me, jogue pedras na minha cabeça, me bata — se tiver coragem para tanto. Porém há uma coisa que não deve jamais fazer enquanto estivermos a caminho de nosso prado — e isso é me ignorar, fingir que nada esteja acontecendo, negar a dificuldade, a dor ou o amor. Não passe por mim como se eu não estivesse lá. Nenhum de nós pode ser enganado. Nunca negue minha realidade, porque no final negará a si mesmo. O desespero que senti diante de sua rejeição de Deus tinha algo a ver com meu sentimento de que você também estava me rejeitando. Aceite-me, e você se verá aceitando Deus sem nenhum problema. Por isso, me prometa. Mostre-me sua fúria ou amargor. Não me importo. Nunca o abandonarei. Mas jamais, jamais tente fingir para si próprio que eu não existo.

Jed

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