Amor Sem Fim
Capítulo 18
Na quarta-feira era o aniversário de Clarissa. Quando lhe dei um cartão, ela me beijou na boca. Agora que se convencera de que eu estava abilolado, agora que me dissera que tudo estava acabado, ela parecia exultante e generosa. Uma nova vida iria começar e ela nada tinha a perder se fosse carinhosa. Alguns dias antes, sua exuberância me inspiraria suspeitas ou ciúmes, porém agora só servia para confirmar minha convicção de que ela não pesquisara o assunto nem pensara nele. O estado de Parry não podia permanecer inalterado. Uma vez que seus sonhos não seriam realizados, o amor se transformaria em indiferença ou ódio. Clarissa achava que suas próprias emoções eram o melhor guia, que ela saberia intuitivamente chegar à verdade, quando o necessário era ter informação, capacidade de previsão, planejamento preciso. Sendo assim, era natural — embora desastroso para nós dois — que ela me considerasse louco.
Tão logo ela saiu para o trabalho, fui para meu escritório e embrulhei o presente que lhe daria durante o almoço que havíamos combinado ter com seu padrinho, o professor Kale. Reuni todas as cartas de Parry, as ordenei cronologicamente e guardei numa pasta com fecho. Recostei-me na espreguiçadeira e repassei lentamente página por página, desde o começo, pinçando e assinalando os trechos mais significativos. Digitei essas passagens, com as referências de data entre parênteses. No final, tinha quatro páginas de extratos que imprimi em três cópias, colocando-as em pastas transparentes. Essa atividade paciente me fez cair numa espécie de transe organizacional, a ilusão do administrador de que todos os males do mundo podem ser resolvidos com uma boa digitação, uma impressora a laser decente e uma caixa de clipes.
Eu estava tentando compilar uma coleção de ameaças e, embora não possuísse exemplos incontestáveis, colhi alusões e rupturas lógicas cujo efeito cumulativo não escaparia à compreensão de um policial. Era necessária a habilidade de uma crítica literária, como Clarissa, para ler entre as linhas das declarações de amor, mas eu sabia que ela não me ajudaria. Após mais ou menos uma hora, compreendi que era um erro me concentrar nas manifestações ostensivas de frustração e desapontamento — que eu iniciara tudo, que o manipulava, o atraía com falsas promessas, descumpria o compromisso de ir viver com ele. Essas afirmações, antes inquietadoras, em retrospecto eram meramente patéticas. As verdadeiras ameaças, comecei a entender, estavam alhures.
Por exemplo, um relato de como se sentia só sem mim foi interrompido por uma reflexão acerca da solidão em que ele rememorava as férias que, aos catorze anos, passou no campo com seu tio. Certo dia, Parry tomou por empréstimo uma espingarda calibre 22 e foi caçar coelhos. Movendo-se furtivamente ao longo das sebes, cem por cento alerta, concentrado na tarefa — era essa a solidão que ele adorava. A descrição seria bastante inofensiva caso ele não tivesse revivido com tamanha ênfase os prazeres da execução — “poder de morte que saltou de meus dedos, Joe, poder à distância. Posso fazer isso! Posso fazer isso!, eu costumava pensar. Acertando a criatura na corrida, vendo-a dar alguns saltos-mortais antes de cair no solo em contorções, tremelicando. Depois se imobilizava e eu chegava perto, me sentindo como o mensageiro do destino embora amasse o pequeno ser que acabara de destruir. O poder da vida e da morte, Joe. Deus o tem, mas nós, que somos feitos à Sua imagem, também o temos”.
Copiei três frases de outra carta: “Queria feri-lo. Talvez até mais do que isso. Algo pior, eu pensei, e Deus me perdoará”. Numa carta recente havia um eco do comentário feito por ele no dia em que voltei de Oxford. “Você começou tudo isso e agora não pode simplesmente sair correndo. Posso arranjar gente para fazer coisas por mim — você já sabe disso. Neste exato minuto, enquanto escrevo, dois sujeitos estão reformando o banheiro! Antigamente, eu mesmo faria isso, tendo ou não dinheiro. Mas agora estou aprendendo a delegar.” Meditei sobre essas frases um bom tempo. Qual era a conexão precisa entre minha incapacidade de fugir e a possibilidade de que as coisas fossem feitas para ele por outras pessoas? Faltava um elo. Na última carta, a propósito de nada: “Visitei ontem a Mile End Road — você sabe, onde vivem os bandidos de verdade. Procurando por outros trabalhadores!”.
Em outros trechos havia invocações assustadoras da faceta sombria de Deus. “O amor divino”, ele escreveu, “pode tomar a forma da ira. Pode se revelar a nós mediante uma calamidade. Essa é a difícil lição que levei a vida inteira para aprender.” E, relacionado a isso: “O amor divino nem sempre é doce. Como poderia ser, quando tem de perdurar, quando você não pode jamais se desfazer dele? É um calor que pode queimá-lo, Joe, que pode consumi-lo”.
A correspondência de Parry continha pouquíssimas citações bíblicas. Como sua religião era sonhadoramente vaga no que concerne aos elementos específicos da doutrina, ele parecia não se afiliar a nenhuma igreja em particular. Sua crença tinha contornos muito pessoais, se vinculando em geral à perspectiva de avanço e realização individuais. Eram comuns as referências à Providência Divina, a seu “caminho” e como nada o impediria de segui-lo, ao destino — o dele e o meu estando indissoluvelmente ligados. Frequentemente se confundiam os conceitos de Deus e do seu próprio eu. O amor de Deus pela humanidade e seu amor por mim não eram categorias distintas. Como sem dúvida Deus estava “dentro” dele e não nos céus, sua crença na divindade permitia que ele atendesse os chamados da intuição e da emoção. Uma estrutura tão perfeitamente amorfa era ideal para uma mente perturbada. Não havia restrições impostas por filigranas teológicas ou normas religiosas, nenhuma coação social ou exigência sectária a respeitar, nenhuma das molduras morais que tornam as religiões viáveis por mais falhas que sejam suas cosmogonias. Parry só ouvia a voz interna de seu Deus particular.
Sua única concessão a uma fonte externa eram algumas referências à história de Jó, e mesmo nesse caso não era certo que ele houvesse lido os textos originais. “Você parecia desconfortável”, escreveu certa vez sobre o fato de me ver na rua. “Parecia até estar com alguma dor, porém isso não deve levá-lo a duvidar de nós. Lembre-se de quanta dor Jó sentiu, embora Deus nunca tivesse deixado de amá-lo.” Mais uma vez, a premissa implícita era que Deus e Parry constituíam uma unidade, podendo entre eles acertar a questão de nossos destinos comuns. Outra referência suscitava a possibilidade de que eu fosse Deus. “Estamos ambos sofrendo, Joe, ambos atormentados. Caberia saber qual de nós dois é Jó.”
Parry não estava do lado de fora quando saí, no final da manhã, levando um envelope pardo com os extratos meticulosamente documentados e o presente de Clarissa no bolso. Parei para olhar à minha volta, imaginando que ele poderia surgir de trás de uma árvore. A mudança na sua rotina me deixava preocupado. Eu não o via desde a manhã do dia anterior. Agora, tendo lido tudo sobre a síndrome e compreendendo seu potencial, eu preferia que ele estivesse num lugar onde pudesse vê-lo. A caminho da delegacia, olhei para trás algumas vezes a fim de verificar se ele me seguia.
Era uma hora calma do dia, mas mofei por um tempão na sala de espera. Ali onde a necessidade de ordem do ser humano bate de frente com sua propensão a causar tumultos, onde a civilização se choca contra os descontentes, há muita fricção, muito desgaste. Isso era visível nos linóleos esfarrapados diante de cada porta, na rachadura sinuosa que subia pelo vidro fosco atrás do balcão de recepção, no ar quente e cansado que obrigava os visitantes a tirar seus paletós e os policiais a só andar em mangas de camisa. Era também visível na postura encurvada dos dois rapazes que vestiam blusões pretos e olhavam para os pés, se odiando mutuamente a tal ponto que nem conseguiam se falar, bem como nas palavras gravadas a canivete no braço da cadeira em que eu me sentara, num frouxo desafio ou numa ansiedade crescente: merda merda merda. E o vi também na palidez fluorescente do rosto balofo e redondo do inspetor Linley quando ele por fim me conduziu letargicamente a uma sala de entrevistas. Dava a impressão de que só de raro em raro saía à luz do dia. E não era mesmo necessário, já que toda a confusão acabava desfilando por ali.
Segundo um amigo que trabalhara por três anos na seção policial de um tabloide sensacionalista, eu só conseguiria fazer com que eles se interessassem minimamente pelo meu caso se registrasse uma queixa formal contra o tratamento dado até então ao assunto. Assim eu seria capaz de ir além da mulher de óculos que tomava conta do balcão da recepção. Como a queixa teria ao menos de ser processada, eu poderia explicar meu problema a alguém situado um pouco mais acima na pirâmide hierárquica da delegacia. Mas esse amigo me alertou para que não esperasse muito: meu interlocutor estaria de olho na aposentadoria e numa vida tranquila. Sua missão consistia em abafar as queixas enquanto dava a impressão de cuidar delas.
Linley me indicou uma das duas cadeiras de metal do tipo que se pode empilhar. Encaramo-nos por cima de uma mesa de fórmica decorada com círculos de café. Toda a superfície fria de minha cadeira parecia estar coberta com uma fina camada de gordura. O fundo serrado de uma garrafa de Coca-Cola servia como cinzeiro. Ao lado, um saquinho de chá usado se equilibrava em cima de uma colher. A sujeira transmitia um desafio lacônico: a quem eu a denunciaria?
Registrada a queixa, Linley me telefonara para saber do que se tratava. Naquela ocasião, fiquei na dúvida se ele era bem esperto ou uma besta quadrada. Tinha uma dessas vozes estranguladas que os comediantes às vezes usam para caracterizar os burocratas. A de Linley sugeria certo grau de imbecilidade. Por outro lado, ele não havia falado muito. Mesmo agora, ao abrir a pasta, nenhum “bom dia” ou “onde estávamos” nem grunhidos. Apenas o silvo eletrônico do ar passando por seus pelos nasais. Em meio a silêncios como aquele, pensei, os suspeitos e as testemunhas acabavam falando mais do que queriam. Por isso, também fiquei calado enquanto ele folheava as páginas cobertas da caligrafia inclinada com que fizera as anotações.
Linley ergueu os olhos sem me encarar. Olhava para meu peito. Só quando respirou mais fundo, antes de começar a falar, é que seus olhos cruzaram de relance com os meus. “Quer dizer que o senhor vem sendo molestado e ameaçado por esse indivíduo. O senhor deu parte disso e não foi atendido corretamente.”
“Exato.”
“O molestamento consiste em...?”
“Como lhe disse antes”, comecei, tentando ler de cabeça para baixo o que ele escrevera. Será que não me ouvira? “Ele me manda três ou quatro cartas por semana.”
“Obscenidades?”
“Não.”
“Sugestões libidinosas?”
“Não.”
“Insultos?”
“Na verdade, não.”
“Então são coisas de cunho sexual.”
“Não parece ser sobre sexo. É uma obsessão. Ele está totalmente fixado em mim. Não pensa em outra coisa.”
“Ele telefona para o senhor?”
“Não mais. Agora são só as cartas.”
“Ele está apaixonado pelo senhor.”
“Ele sofre de uma enfermidade, a síndrome de De Clérambault. É uma forma de delírio. Acha que eu comecei tudo, está convencido de que o encorajo com sinais secretos...”
“O senhor é psiquiatra, sr. Rose?
“Não.”
“Mas é homossexual.”
“Não.”
“Como se encontraram?”
“Já lhe disse. O acidente com o balão.”
Ele pinçou uma página de suas anotações. “Acho que não tenho nenhum registro disso.”
Fiz um breve relato do acidente enquanto ele apoiava nas mãos a cabeça pesada e simétrica, ainda pouco propenso a tomar nota da história. Quando acabei, perguntou: “E como começou?”.
“Ele me telefonou naquela noite.”
“Ele disse que o amava e o senhor desligou. Isso deve tê-lo deixado muito preocupado.”
“Fiquei perturbado.”
“E então conversou sobre o assunto com sua esposa.”
“Na manhã seguinte.”
“Por que a demora?”
“Estávamos muito cansados e estressados depois do acidente.”
“E como ela vem reagindo a tudo isso?”
“Está aborrecida. Essas coisas têm causado muita tensão entre nós.”
Linley olhou para o lado e fez questão de franzir os lábios vagarosamente. “Ela fica zangada com o senhor por causa disso? Ou o senhor com ela?”
“Isso vem criando dificuldades em nosso relacionamento. Sempre fomos muito felizes.”
“O senhor já teve algum problema psiquiátrico, sr. Rose?”
“Nenhum.”
“Complicações no trabalho, esse tipo de coisas?”
“Nada disso.”
“Mas o jornalismo é um negócio duro, não é mesmo?”
Concordei com a cabeça. Estava começando a odiar Linley e seu curioso rosto de lua cheia. Quebrei a pausa que se seguiu: “Tenho boas razões para crer que esse sujeito vai se tornar um perigo. Vim aqui em busca de ajuda”.
“Perfeitamente”, disse Linley. “Eu faria o mesmo. Tudo indica que a lei sobre esse tipo de coisa vai ser endurecida. Quer dizer que ele se planta em frente à sua casa e o incomoda quando o senhor sai.”
“Costumava fazer isso. Agora, só fica lá, parado. Se tento falar com ele, se afasta.”
“Então ele não está realmente...” Deixou a frase inconclusa e examinou, ou fingiu examinar, as anotações. Balbuciou: “Temos aqui o molestamento, hum...”. E então, numa voz animada, me perguntou: “E a questão das ameaças?”.
“Copiei algumas passagens. Elas não são óbvias. É preciso ler com atenção.”
O inspetor Linley se acomodou na cadeira para ler e, enquanto ele mantinha os olhos baixos, estudei seu rosto. O repelente não era a palidez, mas sua redondeza sobre-humana. Um círculo quase perfeito, tendo ao centro o nariz em forma de botão, englobava tanto a cúpula branca e calva como a curva do queixo adiposo. E esse círculo estava inscrito na superfície de uma esfera também quase perfeita. Sua testa era protuberante, as bochechas se projetavam abaixo dos olhinhos cinzentos e a curva era retomada na área azulada e sem covinhas que separava o nariz do lábio superior.
Ele deixou cair minhas folhas sobre a mesa, entrelaçou as mãos atrás da cabeça e contemplou o teto por alguns segundos, olhando finalmente para mim com um toque de pena. “Em matéria de predadores, sr. Rose, ele é um gatinho. O que o senhor quer que nós façamos? Que o prendamos?”
“O senhor tem de compreender a intensidade de sua obsessão e a frustração que está se acumulando. Ele precisa saber que não pode fazer o que quiser...”
“Não há nada aqui de ameaçador, ofensivo ou insultuoso nos termos da lei.” Linley agora falava mais depressa. Queria me ver pelas costas. “Nada que fira nenhuma norma. Não poderíamos nem ao menos o advertir. Ele ama a seu Deus e, lamentavelmente, também ama o senhor, mas não violou a lei.” Pegou as folhas e as deixou cair de novo. “Quer dizer, onde está realmente a ameaça?”
“Se o senhor ler com atenção e raciocinar de forma lógica, vai entender a insinuação de que ele é capaz de arranjar alguém, contratar alguém, para me dar uma surra.”
“Não convence. O senhor devia ver o que nos aparece aqui. Ele não arrebentou seu carro, arrebentou?, nem brandiu uma faca na sua cara, nem derramou a lata de lixo na entrada da sua casa. Nem mesmo o xingou. Será que o senhor e sua esposa já pensaram em convidá-lo para tomar um chá e conversar?”
Eu estava apreciando minha capacidade de manter a calma. “Olhe, é um caso clássico. Síndrome de De Clérambault, erotomania, molestamento, chame do que quiser. Venho estudando isso com cuidado. Os trabalhos sobre o assunto mostram que, quando ele se dá conta de que não vai conseguir o que deseja, existe um risco real de violência. O senhor poderia ao menos mandar alguns homens à sua casa para ele saber que está registrado na polícia.”
Linley se pôs de pé, mas permaneci obstinadamente sentado. Ele já estava segurando a maçaneta. Sua demonstração de paciência era uma forma de zombaria. “No tipo de sociedade que nós temos, ou desejamos ter, sem falar na falta de pessoal, não podemos mandar policiais à casa do cidadão A só porque o cidadão B leu alguns livros e decidiu que há um cheiro de violência no ar. Nem podem os meus homens estar em dois lugares ao mesmo tempo, observando esse sujeito e protegendo o senhor.”
Eu ia responder, porém Linley abriu a porta e saiu. Falou-me do corredor. “Mas eu lhe digo o que vou fazer. Vou mandar nosso guarda do quarteirão lhe fazer uma visita na próxima semana. Ele tem dez anos de experiência em problemas comunitários e estou certo de que fará sugestões úteis.” Foi-se embora e o ouvi dizer em voz alta, supostamente para os rapazes com os blusões pretos na sala de espera: “Quê? Fazer queixa? Vocês dois? Brincadeira! Agora, escutem. Façam o favor de desaparecer da minha frente, porra, ou dou um jeito de perder aquele prontuário”.
Como estava atrasado para o almoço, subi a rua com passadas rápidas, olhando por cima do ombro à procura de um táxi. Eu devia estar furioso ou alarmado, porém, de algum modo, o chega pra lá de Linley fora instrutivo. Eu havia feito duas tentativas de interessar a polícia. Não precisava me chatear outra vez. Talvez tenha sido o peso do presente de Clarissa no bolso que trouxe meus pensamentos de volta a ela — e a toda a nossa infelicidade. Eu não podia levar a sério sua insistência em que estava tudo acabado entre nós. Sempre me parecera que nosso amor era do tipo que duraria para sempre. Agora, andando às pressas pela Harrow Road, motivado também por uma frase pronunciada pelo inspetor Linley, me descobri relembrando seu aniversário anterior, quando celebramos sem um pingo de complicação em nossas vidas.
A frase era “em dois lugares ao mesmo tempo”, e a memória era de uma manhã bem cedo. Eu a havia deixado dormindo e desci para fazer o chá. Provavelmente recolhi a correspondência no chão do hall e, separando os cartões de aniversário, os coloquei numa bandeja. Enquanto esperava que a água esquentasse, passei os olhos no material que gravaria à tarde para um programa radiofônico. Lembro-me bem porque depois o usei como primeiro capítulo de um livro. Poderia haver uma base genética para a crença religiosa, ou era apenas agradável imaginar que isso fosse verdade? Se a fé conferisse uma vantagem seletiva, haveria um grande número de meios para garantir sua efetivação, embora nenhum deles capaz de ser comprovado. Suponhamos que a religião desse status, especialmente para a casta de sacerdotes — daí adviria uma grande vantagem social. E se a fé transmitisse força na adversidade, o poder da consolação, a possibilidade de sobreviver aos desastres que destruiriam quem não contasse com o amparo divino? Talvez ela oferecesse aos crentes uma convicção apaixonada, a força bruta da perseverança.
Possivelmente isso se aplicaria tanto aos grupos como aos indivíduos, gerando coesão e identidade, bem como o sentimento de que você e seus companheiros tinham razão, até mesmo — ou especialmente — quando estavam errados. Com Deus ao seu lado, estimulado por uma unidade tresloucada, armado de uma certeza horripilante, você arremete contra a tribo vizinha, matando e estuprando, e sai da refrega imbuído de sua retidão moral, glorificado pela vitória que seus deuses lhe haviam prometido. Repita-se isso cinquenta mil vezes em cada mil anos, e o intrincado conjunto de genes que determinam a convicção incomprovada tem tudo para se espalhar pela população. Essas ideias ficaram entrando e saindo da minha cabeça até que a água ferveu e preparei o chá.
Na noite anterior, Clarissa juntara o cabelo numa trança amarrada com uma fita de veludo preto. Quando cheguei com o chá, os cartões de aniversário e o jornal da manhã, ela estava sentada na cama, desfazendo a trança e ajeitando os cabelos. Estar na cama com a pessoa amada é uma coisa boa, mas retornar a ela com o calor acumulado durante toda a noite é ainda mais doce. Brindamos com o chá, lemos os cartões e começamos a agarração de aniversário. Clarissa pesa uns trinta e cinco quilos menos do que eu e às vezes gosta de começar por cima. Ela se embrulhou nos lençóis, como se eles fossem a cauda de um vestido de noiva, e montou em mim ainda sonolenta. Naquela manhã, fizemos uma brincadeira. Fiquei deitado de costas fingindo que lia o jornal. Enquanto ela me atraía suspirando, se remexendo e tremelicando, fiz de conta que nem notara sua presença, virando as páginas e franzindo a testa ao ler uma matéria. Ela sentiu alguma excitação masoquista ao ser ignorada, como se não fosse vista, como se não estivesse lá. Aniquilada! Logo depois, se dedicou a destruir minha concentração no jornal, me arrastando da agitada arena pública para um universo mais denso, feito só dela. Agora era eu que precisava ser obliterado e, juntamente comigo, tudo que não era ela.
Entretanto, nessa ocasião ela não teve êxito porque, durante um breve período, eu consegui o que Linley havia declarado ser impossível para seus policiais. Apesar de excitado, na verdade continuei a ler sobre a Rainha, que iria visitar uma cidade chamada Yellowknife nos remotos Territórios do Noroeste do Canadá — uma região do tamanho da Europa com cinquenta e sete mil habitantes, a maioria dos quais, aparentemente, bêbados e arruaceiros. Enquanto Clarissa saracoteava em cima de mim, o que chamou minha atenção foi um parágrafo acerca do horrível clima do Território, em especial duas frases desconectadas do resto do texto: “Recentemente, uma tempestade de neve se abateu sobre um campo de futebol ao norte de Yellowknife. Incapazes de escapar para um lugar seguro, os dois times morreram congelados”. “Escute isso”, disse a Clarissa. Mas ela me olhou, e parei por ali. Eu pertencia a ela.
O ato de ler e compreender ativa algumas funções do cérebro que são distintas mas se superpõem, enquanto a região que comanda a função sexual se insere num nível mais baixo e mais antigo em termos evolucionários, compartilhado com um grande número de organismos, conquanto ainda capaz de operar juntamente com funções superiores, tais como a memória, a emoção e a fantasia. Lembro-me tão bem daquela manhã do aniversário de Clarissa — cartões e envelopes rasgados espalhados pela cama, a luz do sol se intrometendo por uma abertura entre as cortinas — porque aquela nossa brincadeirinha pela primeira vez na vida me propiciou a experiência de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Excitado por Clarissa, totalmente aceso e agradecido, eu estava concomitantemente envolvido na tragédia que se escondia detrás da pequena notícia do jornal, os dois times dispersados em meio à partida pelas violentas rajadas de vento para morrer com as chuteiras no pé num campo agora tornado invisível pela neve que caía. Durante a cópula, todas as criaturas são vulneráveis ao ataque, mas a seleção natural, ao longo dos milênios, deve ter provado que o êxito reprodutivo era favorecido por uma atenção concentrada. Melhor que um ou outro casal fosse eventualmente devorado em pleno êxtase do que diluir um vigoroso impulso de procriação. Mas o fato é que, durante muitos segundos, eu desfrutei salutar e simultaneamente de dois prazeres antagônicos e adoráveis: ler e foder.
“Você não acha”, perguntei a Clarissa mais tarde, no banheiro, “que eu sou um bom exemplo de onde a evolução ainda pode levar o ser humano?”
Clarissa, a especialista em Keats, estava sentada num tamborete forrado de cortiça, nua, toda encurvada, pintando as unhas do pé — parte das comemorações do aniversário. “Não”, ela respondeu. “Você está é ficando velho, e seja como for” — e imitou nesse ponto alguém que costumava participar de muitos programas radiofônicos — “a mudança evolucionária, a especiação, é algo que só pode ser conhecido em retrospecto.”
Um ano depois, a congratulei internamente pelo uso correto do linguajar técnico e, quando o táxi parou, me dei conta de quão intensamente eu ressentia a perda de nossa vida em comum, sem saber como poderíamos recuperar aquele amor, aquela intimidade espontânea e divertida. Clarissa achava que eu estava doido, a polícia achava que eu era um idiota, e uma única coisa era clara: a tarefa de nos colocar de volta onde antes tínhamos estado seria minha e só minha.
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