Amor Sem Fim
Capítulo 19
Cheguei com vinte minutos de atraso. O lugar estava entupido de gente e, quando entrei vindo da rua, a algazarra era tamanha que tive a impressão de estar caminhando em meio a uma tempestade. Parecia haver um só tópico de conversa — o que se tornaria realidade dali a uma hora. O professor já estava sentado, embora Clarissa continuasse de pé. Mesmo do outro lado da sala, dava para ver que ela permanecia eufórica e vinha criando certa agitação ao seu redor. De joelhos aos seus pés, como se rezasse, um garçom calçava a mesa, enquanto outro lhe trazia uma nova cadeira. Ao me ver, ela saltitou em meio à barulheira, tomou minha mão e me conduziu à mesa como se eu fosse cego. Atribuí sua animação aos eflúvios comemorativos, porque não celebrávamos apenas o aniversário dela: o professor Jocelyn Kale, padrinho de Clarissa, fora nomeado para uma posição honorária no Projeto Genoma Humano.
Antes de sentar, beijei Clarissa. Ultimamente, nossas línguas nunca se tocavam, mas naquele momento o fizeram. Jocelyn fez menção de se levantar da cadeira e apertou minha mão. No mesmo instante foi trazido à mesa um balde com champanhe e regulamos o tom de nossas vozes em função do alarido geral. O balde de gelo, pousado sobre uma toalha branca, estava enquadrado por um retângulo de luz solar, e as altas janelas do restaurante exibiam retalhos de céu azul entre os prédios vizinhos. O beijo me deixou de pau duro. A crer na memória, foi tudo alegria, claridade, algaravia. A crer na memória, todas as comidas que nos trouxeram de início eram vermelhas: a brachola, os gordos pimentões assados sobre um leito de queijo de cabra, o radicchio, a tigelinha de porcelana cheia de rabanetes. Quando mais tarde me lembrei de como nos havíamos inclinado para a frente e urrado, parecia estar rememorando um evento subaquático.
Jocelyn tirou do bolso um pacotinho de papel de seda azul. Fizemos um silêncio imaginário em nossa mesa enquanto Clarissa desembrulhava o presente. Talvez tenha sido então que olhei de relance para a mesa à nossa esquerda. Um homem, que vim a saber se chamar Colin Tapp, estava lá com a filha e o pai. Ou talvez tenha reparado neles depois. Se notei naquele momento o freguês solitário que, de costas para mim, ocupava uma mesa a seis metros de distância, não ficou registro na memória. Retirado o papel azul, surgiu uma caixinha preta e, dentro dela, numa nuvem de algodão, um broche de ouro. Ainda em silêncio, ela o tirou da caixa, permitindo que o examinássemos na palma de sua mão.
Dois fios de ouro se entrelaçavam numa dupla hélice. Os filamentos eram unidos por minúsculos degraus de prata em grupos de três que representavam os pares de bases, o alfabeto de quatro letras que, graças a uma série de permutações, codifica todas as coisas vivas. Gravados nos fios helicoidais havia desenhos esféricos que sugeriam os vinte aminoácidos mapeados pelos códons de três letras. Com a luz refletida pela toalha, o broche parecia, na mão de Clarissa, mais do que uma simples representação. Podia ser a própria coisa, pronta a gerar cadeias de aminoácidos que se misturariam nas moléculas de proteína. Poderia se dividir ali mesmo, na mão dela, para dar origem a outro presente. Quando Clarissa murmurou o nome de Jocelyn, o fragor do restaurante voltou a nos envolver.
“Ah, meu Deus, que beleza!”, ela exclamou, lhe dando um beijo.
Os olhos fracos e de um tom azulado de amarelo de Jocelyn estavam úmidos. “Era de Gillian, você sabe. Ela teria gostado muito que agora fosse seu.”
Eu estava impaciente por mostrar meu próprio presente, mas permanecíamos sob a aura do presente de Jocelyn. Clarissa pregou o broche na blusa de seda cinza.
Será que eu agora me lembraria da conversa caso não soubesse o que aconteceu depois?
Começamos com a piada de que o Projeto Genoma distribuía essas joias às dúzias. Depois, Jocelyn falou sobre a descoberta do dna. Talvez tenha sido então que me virei na cadeira para dizer a um garçom que nos trouxesse água e reparei nos dois homens com a menina. Bebemos o champanhe e demos cabo das entradas. Não me lembro do que pedimos como prato principal. Jocelyn começou a nos contar sobre Johann Miescher, o químico suíço que identificou o dna em 1868. Essa era considerada uma das maiores oportunidades perdidas na história da ciência. Miescher havia obtido, de um hospital local, um suprimento regular de curativos empapados de pus. (Ricos em glóbulos brancos, Jocelyn explicou a Clarissa.) Miescher estava interessado na química dos núcleos das células, onde encontrou fósforo — uma substância improvável, que não se enquadrava nos conceitos da época. Descoberta notável, porém o estudo em que a expunha foi retido por seu professor, que passou dois anos repetindo e confirmando as experiências do aluno.
Embora eu conhecesse a história de Miescher, não foi por enfado que deixei de prestar atenção em Jocelyn, mas por inquietação, pela impaciência resultante do sentimento de liberação que me viera após a entrevista. Eu teria gostado de contar meu encontro com o inspetor Linley, o apimentando e extraindo alguma graça do relato, mas sabia que isso nos levaria de volta às questões que me separavam de Clarissa. Na mesa ao lado, a menina estava sendo ajudada a examinar o menu pelo pai, que, como eu àquela altura da vida, precisava empurrar os óculos para baixo a fim de ler as letras pequenas. A garota se apoiava carinhosamente no braço dele.
Enquanto isso, Jocelyn, desfrutando o triplo privilégio da idade, da eminência e de ter trazido o presente, continuou com sua história. Miescher não desistiu. Reuniu uma equipe e se pôs a estudar o que chamou de ácido nucleico. Foi então que descobriu as substâncias que compõem o alfabeto de quatro letras em cujo idioma toda a vida está escrita — adenina e citosina, guanina e timina. Isso não significava nada. E foi se tornando ainda mais estranho com o correr do tempo. O trabalho de Mendel sobre as leis da hereditariedade haviam tido aceitação geral e os cromossomos foram identificados no núcleo das células, suspeitando-se que ali se localizasse a informação genética. Sabia-se que o dna estava nos cromossomos, cuja estrutura química fora descrita por Miescher — que, em 1892, especulou numa carta para seu tio que o dna podia conter o código da vida, da mesma forma que o alfabeto continha os códigos para a linguagem e os conceitos.
“Estava na cara deles”, disse Jocelyn, “mas não podiam ver, não conseguiam ver. O problema, obviamente, é que os químicos...”
Era duro falar em meio à gritaria. Esperamos enquanto ele bebeu um gole d’água. A história estava sendo contada a Clarissa para dar maior brilho ao presente. Durante o tempo em que Jocelyn descansou a voz, houve um movimento às minhas costas e fui obrigado a puxar a cadeira para dar passagem à menina. Ela seguiu na direção dos banheiros. Quando a vi novamente, já estava de volta em seu lugar.
“Os químicos, você sabe, são muito poderosos, muito cheios de si. O século xix foi uma idade de ouro para eles. Adquiriram grande autoridade, porém eram tremendamente rabugentos. Veja, por exemplo, o Phobus Levine, do Instituto Rockefeller. Ele estava totalmente convencido de que o dna era uma molécula tediosa e irrelevante que continha sequências aleatórias daquelas quatro letras, acgt. Desprezou a coisa toda e, então, na melhor tradição do ser humano, isso se transformou numa questão de fé para ele, fé inabalável. Ele sabia o que sabia, e a molécula era insignificante. Nenhum dos pesquisadores mais novos conseguiu superar seu poder. O tema teve de esperar muitos anos, até os estudos de Griffith sobre bactérias na década de 20. Que foram retomados por Oswald Avery em Washington — claro, após Levine haver saído de cena. As pesquisas de Oswald se arrastaram por um tempão, até os anos 40. Veio então Alexander Todd, trabalhando em Londres nas ligações de fosfato e sacarose, e, em 1952 e 1953, Maurice Wilkins e Rosalind Franklin, seguidos por Crick e Watson. Você sabe o que a pobre Rosalind disse quando os dois lhe mostraram o modelo que haviam feito da molécula de dna? Que era simplesmente bonito demais para não ser verdade...”
A referência a nomes cada vez mais acelerada e seu assunto de estimação, a beleza na ciência, fizeram Jocelyn mergulhar num estado de muda reminiscência. Ficou remexendo no guardanapo. Tinha oitenta e dois anos. Conhecera todos eles como alunos ou colegas. E Gillian havia trabalhado com Crick, após a grande descoberta, na molécula adaptadora. Gillian, assim como Franklin, tinha morrido de leucemia.
Fui um pouco lento na jogada, mas Jocelyn tinha me dado um belo passe. Meti a mão no bolso do paletó e não pude resistir à citação famosa: “A beleza é a verdade, a verdade, a beleza...”. Clarissa riu. Já devia ter desconfiado que ganharia um livro de Keats, porém jamais sonharia com o que estava agora em suas mãos, envolto num ordinário papel pardo. Antes mesmo de acabar de desembrulhá-lo, ela o reconheceu e soltou um gritinho. A menina na mesa ao lado se virou na cadeira para ver o que estava acontecendo, até que o pai lhe deu uma cutucada no braço. Um in-oitavo em formato almaço com capas pardas e rótulo negro. Mau estado de conservação, reparos, ligeiro dano causado por água. Uma primeira edição de sua primeira coletânea, Poems, de 1817.
“Que presentes!”, disse Clarissa. Levantou-se e passou os braços por meu pescoço. “Deve ter custado milhares...” Encostou então a boca no meu ouvido, como em outros tempos. “Você é um menino muito mau para gastar esse dinheirão todo. Vou te obrigar a me foder a tarde inteira.”
Não era verdade, mas deixei correr e disse: “Ah, está bem, se isso vai te fazer se sentir melhor”. Era o champanhe, sem dúvida, além da mera gratidão, mas não deixei de me sentir contente.
Nos dias seguintes fiquei tentado a inventar ou enfeitar detalhes sobre a mesa ao lado, forçando a memória a fornecer o que nunca havia registrado, porém vi o homem, Colin Tapp, pousar a mão no braço de seu pai enquanto lhe falava, o acalmando. Também se tornou difícil separar do que senti naquele momento o que descobri depois. Tapp de fato era dois anos mais velho do que eu, sua filha tinha catorze anos, seu pai, setenta e três. Não especulei sobre a idade deles — a essa altura eu já estava bem mais concentrado, estávamos nos divertindo em minha própria mesa —, porém devo ter feito suposições sobre a relação entre os três sem me conscientizar disso, usando aquela linguagem pré-verbal que opera no interior da mente. A menina foi quem mais pude observar, ainda que de relance. Ela mantinha as costas bem retas, naquela pose adotada por alguns adolescentes para transmitir uma imagem de autocontrole e sofisticação, embora com isso causem o efeito exatamente oposto. Tinha pele morena e cabelos negros cortados bem curtos, a nuca mais pálida revelando que o corte fora recente. Ou quem sabe observei esses detalhes mais tarde, em meio ao caos ou até depois. Outro exemplo das confusões a que está sujeita a memória: consegui inserir na recordação da cena a figura do homem que, de costas para mim, almoçava sozinho. Embora só o tivesse visto no último momento, não fui capaz de excluí-lo das reconstituições posteriores.
Em nossa mesa, Clarissa voltara a sentar e a conversa passou para os jovens oprimidos, coartados ou de alguma forma bloqueados por homens mais velhos, pais, professores, mentores — ou mesmo seus ídolos. O ponto de partida havia sido Johann Miescher e seu mestre, Hoppe-Seyler, que impedira a publicação da descoberta feita pelo pupilo acerca da presença de fósforo no núcleo das células. Acontece que Seyler era também o editor da revista à qual fora submetida a comunicação de Miescher. Dali, de Miescher e Hoppe-Seyler — e eu tive tempo mais tarde de reconstruir a conversa de trás para a frente —, chegamos a Keats e Wordsworth.
Clarissa era agora nossa fonte de informações, conquanto Jocelyn, além de dominar sua área de atuação profissional, soubesse um pouco de quase tudo. Assim, tendo lido a biografia escrita por Gittings, ele conhecia a famosa história da visita feita pelo jovem Keats ao poeta que reverenciava. Eu sabia da visita porque Clarissa havia me contado. Em fins de 1817, Keats passou um tempo numa hospedaria chamada Fox and Hounds, perto de Box Hill, em North Downs, onde terminou o longo poema Endymion. Lá ficou durante uma semana, caminhando pelas colinas de calcário num transe de excitação criativa. Tinha vinte e um anos, acabara de escrever um sério e bonito poema sobre a paixão e, ao voltar para Londres, estava exultante. Soube então, com imensa alegria, que seu herói, William Wordsworth, se encontrava na cidade. Keats tinha lhe enviado um exemplar do Poems com a dedicatória: “A W. Wordsworth, com a sincera Reverência do Autor”. (Era esse o livro que eu devia dar a Clarissa, mas ele pertencia à Biblioteca da Universidade de Princeton e, segundo ela, muitas de suas páginas ainda estavam unidas umas às outras, nunca tinham sido abertas.) Keats se nutrira da poesia de Wordsworth, tendo caracterizado The excursion como “uma das três coisas que nos dão alegria nos dias de hoje”. Colhera em Wordsworth a ideia da poesia como uma vocação sagrada, a mais nobre missão. Depois de persuadir seu amigo, o pintor Haydon, a arranjar um encontro, os dois saíram a pé do ateliê em Lisson Grove para visitar o grande gênio na Queen Anne Street. Em seu diário, Haydon observou que Keats manifestara “o maior e mais puro prazer” com relação à entrevista.
Wordsworth, então com quarenta e sete anos, era conhecido por seu temperamento casmurro, mas foi bastante cordial com Keats e, após alguns minutos de conversa banal, lhe perguntou no que estava trabalhando. Haydon se adiantou e respondeu por Keats, pedindo que este declamasse a ode a Pã constante do Endymion. Ao que Keats, caminhando de um lado para outro na frente do grande homem, recitou em “seu estilo quase de cantochão (e muito emocionante)...”. Foi nesse ponto que Clarissa, lutando contra o clamor do restaurante, citou:
Seja ainda o refúgio inimaginável
Dos pensamentos solitários, aqueles que nos escapam
Até os confins do céu,
Depois deixando o cérebro vazio:
E, quando o inflamado jovem terminou, Wordsworth, aparentemente incapaz de suportar por mais tempo sua adoração, quebrou o silêncio com um chocante veredicto de repúdio ao dizer com secura: “uma peça de paganismo bem bonitinha”. Segundo Haydon, a frase “foi insensível e indigna de um grande gênio com relação a quem o adorava tanto como Keats — que ficou profundamente ferido” e jamais o perdoou.
“Mas dá para confiar nessa história?”, perguntou Jocelyn. “Acho que no livro do Gittings se diz que não devemos acreditar nela.”
“E não devemos mesmo”, retrucou Clarissa, começando a enumerar as razões para tal.
Se eu houvesse me levantado enquanto ela falava e me virado na direção da porta do restaurante, teria visto, por cima de uma multidão de cabeças falantes, dois homens entrarem e conversarem com o maître. Um deles era alto, mas não creio que eu teria notado isso. Soube depois, porém um truque da memória me forneceu a imagem como se eu estivesse de pé naquela hora: o recinto apinhado, o homem alto, o maître balançando afirmativamente a cabeça e gesticulando de forma vaga na nossa direção. E então, no reino da fantasia, o que é que eu poderia ter feito para convencer Clarissa e Jocelyn, bem como os estranhos da mesa ao lado, a abandonarem suas refeições e correrem comigo escada acima a fim de encontrar um caminho alternativo que nos levasse à rua? Durante várias noites de insônia voltei para implorar que saíssem. Olhem, digo para os vizinhos de mesa, vocês não me conhecem, mas venho de um futuro contaminado e sei o que está para acontecer. Trata-se de um erro, não precisa acontecer. Poderíamos escolher outro desenlace. Descansem na mesa seus garfos e facas e me sigam, depressa! Não, por favor, confiem em mim! Basta confiar em mim! Vamos!
Mas eles não me veem ou ouvem. Continuam a comer e a falar. Assim como eu.
“Seja como for, a história é mantida viva. O famoso fora”, comentei.
“É”, Jocelyn disse com entusiasmo. “Não é verdade, mas precisamos disso. Uma espécie de mito.” Olhamos para Clarissa. Em geral ela se mostrava reticente com respeito àquilo que conhecia realmente bem. Anos antes, numa festa, depois de alcançar um razoável grau de intoxicação etílica, eu tivera de me pôr de joelhos para conseguir que ela recitasse de cor “La belle dame sans merci”. Mas agora, como estávamos ao mesmo tempo celebrando e tentando esquecer, era melhor seguir falando.
“Não é verdade, mas espelha a verdade. Wordsworth era arrogante ao ponto de ser extremamente desagradável com outros escritores. Gittings coloca bem a questão ao dizer que ele estava na segunda e difícil metade dos quarenta. Depois de fazer cinquenta anos, se acalmou, ficou menos macambúzio, todos à sua volta puderam respirar. A essa altura Keats já tinha morrido. Há sempre alguma coisa deliciosa no fato de jovens gênios serem rechaçados pelos poderosos. Vocês lembram do sujeito da Decca que rejeitou os Beatles. Sabemos que Deus, sob a forma de história, se vingará...”
Os dois homens provavelmente estavam se esgueirando entre as mesas em nossa direção. Não tenho certeza disso. Escarafunchei esses últimos trinta segundos e só tenho certeza de duas coisas: uma é que o garçom nos trouxe os sorbets; a outra é que comecei a sonhar acordado. Coisa que faço com frequência. Quase por definição, não fica vestígio dos devaneios, eles na verdade escapam ao conhecimento até os confins do céu e depois deixam nossos cérebros vazios. Mas retornei tantas vezes àquele momento que o recuperei ao lembrar que tivera início com a afirmação de Clarissa de que “a essa altura Keats já tinha morrido”.
As palavras, o memento mori, me fizeram entrar em órbita. Ausentei-me por alguns instantes. Vi-os juntos, Wordsworth, Haydon, Keats, numa sala da casa de Monkton na Queen Anne Street e imaginei a soma de cada sensação e pensamento dos três, e depois todo o resto, o caimento das roupas, o ranger das cadeiras e assoalhos, a ressonância de suas vozes nos próprios peitos, o calorzinho do renome, o conforto ou desconforto dos sapatos, as coisas nos bolsos, o impacto de seus passados recentes sobre os diferentes futuros, as molduras existenciais cada vez maiores e mais frágeis de cada um naquela fase de suas vidas — tudo isso tão luminosamente evidente quanto o agitado e barulhento restaurante, e tudo isso finito, acabado, assim como Logan sentado em meio ao capim.
O que leva um minuto para ser descrito não tomou mais do que dois segundos de minha atenção. Voltei da viagem e, para compensar a breve ausência, contei a Clarissa e Jocelyn uma história que também girava em torno de um gênio desprezado. Um editor aposentado, casado com uma física amiga minha, me disse que, na década de 50, rejeitara um romance intitulado Estranhos de dentro para fora. (A essa altura os dois homens deviam estar a uns três metros de distância, bem atrás de nossa mesa. Creio que nem chegaram a nos ver.) Quanto ao editor, o dado interessante é que ele só descobriu o erro trinta anos depois, quando apareceu uma velha pasta no lugar onde trabalhava. Ele não se lembrava do nome do autor no texto datilografado — lia dezenas a cada mês — nem lera o livro quando publicado. Ou, pelo menos, logo que saiu. O autor, William Golding, além de reintitulá-lo O Senhor das Moscas, havia eliminado o longo e enfadonho capítulo inicial que desencorajara meu amigo.
Preparava-me para expor minha retumbante conclusão — que o tempo nos protege de nossos piores erros —, porém Clarissa e Jocelyn já não me ouviam. Bem que eu notara algum movimento ao lado. Agora, seguindo a direção de seus olhares, me voltei para trás. Os dois homens, que haviam parado junto à mesa vizinha, pareciam ter sofrido queimaduras em todo o rosto. A pele deles exibia uma coloração rosada, sem brilho, típica de bonecas ou ataduras médicas, mas nada que se encontrasse em seres humanos. Compartilhavam uma expressão vazia, de robôs. Mais tarde soubemos se tratar de máscaras de látex, mas naquele instante eram uma visão chocante, antes mesmo de eles entrarem em ação. A chegada do garçom com nossas sobremesas em tigelinhas de aço inoxidável propiciou um alívio passageiro. Os dois homens usavam casacos pretos, que lhes davam a aparência de padres. Havia algo de cerimonioso na imobilidade de ambos. Meu sorbet era de lima-da-pérsia, de um verde tão pálido que quase poderia passar por branco. Eu já tinha pegado a colher, sem chegar a usá-la. Todos em nossa mesa olhavam desavergonhadamente para a outra mesa.
Os intrusos ficaram lá parados, observando nossos vizinhos, que por sua vez os olhavam, intrigados, esperando. A menina olhou para o pai e voltou a encarar os homens. O mais velho descansou o garfo e, embora desse a impressão de que iria falar, continuou calado. Uma série de possibilidades desfilou rapidamente diante de mim: uma brincadeira de estudantes; vendedores; o homem, Colin Tapp, era médico ou advogado e aqueles eram pacientes ou clientes dele; alguma nova versão do telegrama animado; gente louca da família vinda para causar confusão. O vozerio, que diminuíra em nossas imediações, tinha retomado o nível anterior. Quando o mais alto dos dois homens tirou do casaco um objeto preto, uma vara de condão, me inclinei pela ideia do telegrama animado ou coisa parecida. Mas o que fazia seu companheiro ao se virar lentamente para trás e examinar o salão? Não se deteve em nossa mesa, que estava tão próxima. Seus olhos, lembrando os de um porco dentro dos buracos da pele artificial, nunca cruzaram com os meus. O mais alto, se preparando para executar sua mágica, apontou a vara de condão na direção de Colin Tapp.
E o próprio Tapp de repente se adiantou um segundo a todos nós. Suas feições mostraram o que não havíamos compreendido sobre a mágica. Seu pasmo, congelado num ricto de terror, não teve tempo de encontrar palavras para nos dizer o que só ele sabia. A bala silenciada atravessou sua camisa branca no ombro e o ergueu da cadeira, o atirando contra a parede. O impacto de alta velocidade lançou uma nuvem de borrifos de sangue em cima da toalha de nossa mesa, em cima de nossas sobremesas, de nossas mãos, de nossas vistas. Meu primeiro impulso foi simples e defensivo: não acreditei no que via. Os lugares-comuns têm fundamento na realidade: não acreditei nos meus olhos. Tapp desabou sobre a mesa. Seu pai ficou petrificado, nenhum músculo de seu rosto se moveu. Quanto à menina, ela fez a única coisa possível — desmaiou, sua mente se fechando diante da atrocidade. Escorregou de lado na cadeira em direção a Jocelyn, que — num gesto instintivo para um antigo esportista — estendeu a mão e a agarrou pelo braço. E, se não impediu que ela caísse, evitou que batesse com a cabeça.
Enquanto ela caía, o homem levantou a arma de novo e apontou para o topo da cabeça de Tapp, no que seria sem dúvida o tiro fatal. Mas foi então que o indivíduo que comia sozinho pulou da cadeira e, soltando o que soou como um ganido, se lançou de braço esticado na direção da arma. Desviando o cano a tempo, fez com que a segunda bala se alojasse no alto da parede. Muito embora ele tivesse cortado o cabelo bem curto, como pude deixar de reconhecer Parry?
Em nossa mesa, ninguém foi capaz de se mover ou de falar. Os dois homens partiram rumo à porta. O mais alto enfiou o revólver e o silenciador dentro do casaco enquanto corria. Não vi Parry ir embora, porém ele deve ter seguido em outra direção, escapando por uma das saídas de emergência. Só duas mesas haviam assistido ao evento. Delas talvez tenha escapado um grito, seguido por muitos segundos de paralisia. Mais além, ninguém ouviu nada. A algazarra, o tilintar de talheres nos pratos continuaram imbecilmente sem pausa.
Olhei para Clarissa. Um dos lados de seu rosto estava avermelhado. Ia lhe dizer algo quando compreendi tudo, o entendimento me chegando por inteiro e sem esforço, naquele relâmpago neurológico de pensamento pré-verbal que num átimo engloba a relação e a estrutura, que sabe a conexão entre as coisas melhor do que as próprias coisas. O refúgio inimaginável. Nossas duas mesas — sua composição, o número de pessoas, os sexos, as idades relativas. Como Parry teria sabido?
Tinha sido um erro. Nada pessoal. Um contrato, e dera errado. Era para ter sido eu.
Mas não senti nada, nem ao menos a sensação de triunfo ao ver confirmadas minhas suspeitas. Tudo havia acontecido antes da invenção das emoções, antes da ramificação dos pensamentos, antes do pânico e da culpa, antes de todas as escolhas. Por isso continuamos sentados lá, imóveis, em estado de choque, enquanto à nossa volta a balbúrdia da hora do almoço amainava à medida que a compreensão do que acontecera foi se espalhando em círculos concêntricos a partir de nosso silêncio. Dois garçons corriam em nossa direção, seus rostos distorcidos pelo espanto, e eu sabia que só quando eles chegassem onde estávamos é que a história poderia prosseguir.
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