Amor Sem Fim
Capítulo 21
Na manhã seguinte, fui de carro com Johnny visitar uma casa em North Downs. No bolso de trás da calça levava uma bolada de setecentas e cinquenta libras em notas de vinte. Por algum motivo, as de cinquenta libras não eram aceitáveis.
Ao nos arrastarmos pela sufocante mediocridade de Tooting, ele ainda estava às voltas com o controle elétrico do assento, resmungando enquanto apertava os botões da luz para ler mapas e do computador usado nas viagens. “Quer dizer que você se deu bem... É, sempre achei que você acabaria numa boa.”
Praticamente deitado, ele me deu uma aula sobre a etiqueta em questões ligadas ao tráfico de armas. “É como nos bancos, nunca se fala em dinheiro. Ou nas agências funerárias, ninguém fala em morte. Com essa gente, não se fala em armas. Só os babacas que veem tv falam em tresoitão e pau de fogo. Se puder, evite mencionar a palavra revólver. Fale em material, encomenda, produto.”
“Eles também fornecem as balas?”
“Claro, claro, mas tem que chamar isso de alimento.”
“E alguém vai me mostrar como funciona.”
“Não, porra! Não ia pegar bem. Você vai para um bosque e aprende sozinho. Eles fazem a entrega, você enfia no bolso.” Johnny trouxe o assento de volta à posição inicial. “Tem certeza que deve andar por aí com uma arma?”
Eu não disse nada. Estava pagando a Johnny para ter sua ajuda. Não explicar as razões era um modo de proteger os dois. Ainda estávamos presos no tráfego. No rádio, o jazz havia sido desonestamente seguido por um programa de música atonal, uma agitada sucessão de pios e pancadas que estava dando nos meus nervos. Desliguei e disse: “Conte mais sobre essa gente”. Já sabia que eram antigos hippies, enriquecidos no comércio de cocaína. Tinham saído da clandestinidade na década de 80 para operar no mercado imobiliário. Agora, como as coisas não iam bem, ficaram felizes em poder me vender uma arma a um preço inflacionado.
“Comparados com o resto”, disse Johnny, “são uns intelectuais.”
“Como assim?”
“Têm livros por toda parte. Gostam de discutir as grandes questões. Pensam que são o Bertrand Russell ou sei lá quem. Você certamente vai odiar todos eles.”
Já odiava.
Ao chegarmos à autoestrada, Johnny já retornara à horizontal e caíra no sono. Em geral, nunca se levantava antes do meio--dia. A estrada, bem reta, estava calma e tive tempo de lhe dar uma boa olhada. Ele ainda usava um bigode daqueles que só se veem em filmes de faroeste, com as pontas (agora grisalhas) voltadas para baixo, quase entrando na boca. Será que, ao beijá-lo, as mulheres sentiam um toque da virilidade de Johnny ou o gosto do prato da cozinha indiana que ele comera na véspera? Trinta e cinco anos sorrindo e apertando os olhos em meio à fumaça tinham gerado rugas que chegavam a meio caminho das orelhas. As linhas do riso, ligando as narinas às extremidades dos lábios, eram sulcos aprofundados pelo desapontamento. Excetuada a inconstante clientela e uma nova companheira, nada mudara para Johnny. Mas a vida de marginal já havia perdido a originalidade, a falta de posses desejáveis não era mais uma forma de leveza, a mensagem universal vinda dos ossos e nervos estava estampada na pele e refletida no espelho. Johnny seguia em frente com seus sapatos estropiados, vivendo como um estudante, como alguém que trabalha para uma instituição de caridade, preocupado com a possibilidade de que a supermaconha cultivada por um sistema hidropônico em Amsterdam fosse forte demais e fizesse mal ao coração.
Ao sairmos da autoestrada, Johnny acordou com a mudança de tom dos pneus no asfalto. Ainda deitado, pescou um baseado bem fininho do bolso de cima do paletó e o acendeu. Duas tragadas depois, apertou o controle do assento e surgiu magicamente no meu campo de visão já soltando uma baforada. Não passou o baseado. Era algo privado, o primeiro do dia, que fumava junto com o chá e a torrada.
Deu outra tragada e, como nos velhos tempos, falou sem expelir a fumaça. Que figuraça! “Vire à esquerda. Siga as indicações até Abinger.” Logo começamos a descer, deixando para trás ramos e troncos retorcidos, atravessando sombrios túneis de vegetação numa estradinha estreita, de margens elevadas. Acendi os faróis. Era necessário encostar o carro em certos pontos mais largos para deixar passar os que vinham em sentido contrário. Os motoristas trocavam muitos sorrisos amarelos e acenos de cabeça fingindo que não se importavam com o insulto da falta de espaço. Estávamos numa área rural encravada num subúrbio distante. A cada duzentos ou trezentos metros passávamos por portões feitos com tijolos e grades de ferro da década de 20 ou por porteiras com cinco tábuas e lanternas de carruagem. Surgiu de repente uma clareira nos bosques, uma encruzilhada com um pub de paredes de madeira e cem carros estacionados do lado de fora, cozinhando suas diferentes cores no calor da manhã. Um saquinho de plástico vazio, num voo sonhador, se ergueu na luz do sol e veio tocar o limpador de para-brisa. Dois cães alsacianos olhavam para o chão. Voltamos ao túnel enquanto a fumaça tomava conta do carro.
“É bom sair da cidade”, disse Johnny. Baixei o vidro da minha janela. Não queria ser vítima do fumo passivo. O bolo de notas fazia pressão na minha nádega e tudo parecia enfático demais, como se grafado invisivelmente em itálico. Talvez fosse o medo.
Dez minutos depois enveredamos por um caminho esburacado, com ervas daninhas varando o asfalto que se desintegrava.
“Incrível a força das coisas vivas”, Johnny comentou. “Não é mesmo, despontando assim, de qualquer jeito?” Tratava-se de uma grande indagação, certamente um bom treino para o grupo que em breve iríamos encontrar. Eu teria tentado formular uma resposta só para acalmar os nervos. Mas nesse justo instante vimos uma feia casa em falso estilo Tudor e as palavras morreram em minha garganta.
A entrada em curva nos levou até uma garagem para dois carros feita de blocos de cimento e pintada de violeta, a tinta desbotada aqui e ali. A porta basculante enferrujada estava trancada a cadeado. Na frente, em meio ao capim alto e às urtigas, viam-se as carcaças e entranhas de meia dúzia de motocicletas. Lugar ideal para cometer um crime com absoluta segurança. Presa a uma argola de ferro na parede da garagem, havia uma longa corrente mas nenhum cachorro na ponta. Ali paramos e descemos. As urtigas iam até a porta da frente, em estilo georgiano. Da casa vinha o som de um baixo elétrico, um acorde de três notas repetido de forma hesitante.
“E então, cadê os intelectuais?”
Johnny fez uma careta e um movimento com as mãos para baixo, como se querendo enfiar minhas palavras numa garrafa. Falou quase num sussurro ao nos aproximarmos da porta. “Vou lhe dar um conselho que você ainda haverá de me agradecer. Não brinque com esses caras. Eles não tiveram as vantagens que você teve na vida e não são, ah, muito estáveis.”
“Devia ter dito isso antes. Vamos embora.” Puxei a manga de Johnny, mas com a mão livre ele já estava tocando a campainha.
“Não tem problema”, ele disse. “É só ir de mansinho.”
Dei um passo para trás e me virei de lado, pensando em voltar a pé para a estrada, mas nesse momento a porta se abriu de um golpe e a cortesia habitual me deteve. Um forte cheiro de comida queimada e amoníaco escapou, ou explodiu, da casa, enquadrando por alguns segundos a silhueta da figura postada no umbral.
“Johnny B. Well”, disse o homem. Sua cabeça era raspada com navalha e ele exibia um pequeno bigode encerado e tingido com hena. “O que você está fazendo por aqui?”
“Telefonei ontem à noite, lembra?”
“Lembro, mas marcamos para o sábado.”
“Hoje é sábado, Steve.”
“Nada disso. É sexta, Johnny.”
Ambos me olharam. Eu tinha procurado me informar sobre o ataque no restaurante e os jornais estavam no carro, espalhados no banco de trás. “Na verdade, é domingo.”
Johnny balançou a cabeça. Sua expressão era a de quem houvesse sido traído. Steve me encarou com asco. Desconfiei que não foi pelos dois dias perdidos, e sim pelo meu “na verdade”. Ele tinha razão, não soou bem ali, mas o encarei de volta. Ele cuspiu algo branco nas urtigas e disse: “Você é o cara que quer comprar uma arma e algumas balas”.
Johnny localizara um objeto interessante no céu. Disse: “Vai nos convidar para entrar ou não?”.
Steve hesitou. “Se é domingo, tem gente vindo para o almoço.”
“É. Nós.”
“Isso era ontem, Johnny.”
Fizemos um esforço para rir. Steve deu um passo para o lado, permitindo que entrássemos no malcheiroso hall.
Quando a porta se fechou, ficamos praticamente no escuro. À guisa de explicação, Steve disse: “Estávamos fazendo torradas e o cachorro cagou no chão todo da cozinha”. Seguimos a silhueta de Steve rumo ao interior da casa. Não sei como, mas a informação sobre o cachorro fez a arma parecer muito cara por setecentas e cinquenta libras.
Desembocamos numa grande cozinha. Uma nuvem de fumaça azulada pairava à altura do ombro, iluminada pelas porta-janelas da extremidade oposta. Um homem de macacão e botas de borracha lavava o chão com o detergente não diluído que retirava de um balde de zinco. Cumprimentou Johnny o chamando pelo nome e a mim com um aceno de cabeça. Não havia sinal de cachorro. Diante do fogão, uma mulher mexia uma panela. Seus cabelos lisos caíam até a cintura. Veio em nossa direção com movimentos lentos e ondeantes, e logo reconheci seu tipo. Na Inglaterra, a era hippie tinha sido dominada pelos rapazes. Um tipo de moças quietas sentava de pernas cruzadas nas margens das rodinhas, tomava as suas e trazia o chá. E então, assim como a Primeira Grande Guerra acabou com a criadagem nas mansões, essas moças desapareceram da noite para o dia quando soou a primeira fanfarra do movimento feminista. De repente, não eram mais vistas em lugar nenhum. Mas Daisy tinha ficado. Ao chegar junto a mim, se apresentou. Obviamente, ela sabia o nome de Johnny e o pronunciou quando tocou no seu braço.
Calculei que tinha uns cinquenta anos. Os cabelos lisos e compridos eram a última amarra que a prendia ao cais de sua juventude. Enquanto o fracasso se refletira sob a forma de rugas no rosto de Johnny, no de Daisy estava presente na curva para baixo de sua boca. Ultimamente, tenho notado essas bocas em algumas mulheres da minha idade. Uma vida inteira de serviços sexuais sem receber nada em troca. Os homens eram uns filhos da puta, o contrato social era injusto e a própria biologia, uma inconveniência. O peso de todas essas frustrações contorcia suas bocas, as forçando para baixo, Cupido deixando pender a cabeça em pesar. À primeira vista parecia ser um sinal de desaprovação, mas as bocas contavam uma história mais profunda de tristeza, conquanto suas proprietárias não soubessem o que estava sendo dito sobre elas.
Disse a Daisy meu nome. Ela manteve a mão pousada no braço de Johnny, embora se dirigisse a mim. “Estávamos tomando o café da manhã mais tarde. Tivemos que começar de novo.”
Minutos depois nos encontrávamos sentados em volta da comprida mesa da cozinha, cada qual com sua tigela de mingau de aveia e uma torrada fria. Na minha frente estava Xan, o sujeito que antes limpava o chão. Seus imensos e carnudos antebraços não tinham pelos. Deu a impressão de não ir com a minha cara.
Tendo sentado na cabeceira, Steve juntou as mãos em prece, ergueu a cabeça e fechou os olhos, inspirando profundamente pelo nariz. No fundo de alguma caverna nasal, o acaso modelara o ranho disponível na forma de flautas de duas notas, cuja melodia fomos obrigados a escutar. Ele prendeu a respiração por um tempo inconfortavelmente longo, soltando depois o ar sem pressa. Tratava-se de uma demonstração de respiração controlada, ou meditação, ou uma prece de ação de graças.
Impossível deixar de olhar para seu bigode, totalmente diferente do de Johnny. Vividamente tingido de uma cor de laranja queimada, era reto como um lápis, terminando em pontas prussianas enceradas com esmero. Levei a mão à boca para encobrir um sorriso. Sentia-me meio febril, flutuando no ar. O choque do tiroteio de ontem, aquela compra temerária, o medo como pano de fundo — tudo se combinava para me dar a impressão de que eu não estava realmente ali, e correndo assim o risco de fazer ou dizer algo idiota. Meu estômago dava cambalhotas e eu me sentia inquieto, com vontade de rir, reforçando a sensação de estar aprisionado naquela mesa. Deve ter sido o fumo passivo no carro. Eu não era capaz de conter a torrente de comparações suscitadas pelo bigode de Steve. Dois pregos enferrujados despontando de suas gengivas. Os mastros pontudos de um barco a vela que montei quando garoto. Cabides para toalhas.
Não brinque com esses caras... Eles não são muito estáveis. Tão logo me lembrei das advertências de Johnny, tão logo me ocorreu que eu não podia rir, tive certeza de que estava perdido. Ocultei a primeira explosão de ar pelo nariz sob a forma de uma fungada reversa, erguendo a colher com o mingau para reforçar a manobra. Mas ninguém tinha começado a comer e ninguém estava falando. Todos esperavam por Steve. Quando seus pulmões se encheram a ponto de estourar, ele baixou a cabeça raspada e expirou, fazendo tremer as pontas do bigode como se fosse um roedor excitado. De onde eu me encontrava, a aparência humana parecia abandonar o navio naufragante de seu rosto. Um trem de imagens não solicitadas da infância entrava e saía de minha espiral de ansiedade e hilaridade. Tentei enxotá-las, mas o poder evocativo do ridículo bigode varria tudo na sua frente: um levantador de peso da era vitoriana numa tampa de lata de biscoitos, o parafuso no pescoço de Frankenstein, um despertador barato com um mostrador pintado indicando quinze para as três, o Dormidongo no chá do Chapeleiro Maluco, o Rato numa encenação escolar da peça O sapo da Mansão Sapo.
Era esse o homem que estava me vendendo uma arma.
Não havia nada que eu pudesse fazer. A colher em minha mão tremia. Depositei-a cuidadosamente sobre a mesa, cerrei os maxilares e senti o suor brotando no lábio superior. O riso começava a sacudir meu corpo, diretamente situado na linha de visão do desconfiado Xan. O ranger vinha de minha cadeira, o cacarejar abafado vinha de mim mesmo. Tendo expelido tanto ar dos pulmões, eu sabia que faria uma barulheira ao inspirar, porém minhas escolhas estavam agora limitadas ao embaraço ou à morte. O tempo se tornou mais lento à medida que eu cedia ao inevitável. Girei na cadeira, cobri o rosto com as mãos e fiz uma inspiração estrepitosa. Enquanto meus pulmões se enchiam, ficou evidente que o frouxo de riso não pararia por ali. Ocultei o seguinte por meio de um espirro tonitruante. Eu agora já estava de pé, assim como todos os demais. Uma cadeira caiu com estrondo.
“É o detergente”, ouvi Johnny dizer.
Ele era um amigo de verdade. Ali estava o pretexto. Mas, andando trôpego em meio à confusão, eu ainda tinha de derrotar a imagem do bigode de Steve. Atravessei a cozinha bufando e tossindo, quase cego pelas lágrimas, rumo a uma das porta-janelas que pareceu se abrir à minha chegada. Desci aos tropeções os degraus de madeira até me ver num gramado de terra ressequida e alguns dentes-de-leão.
Observado por todos, me virei de costas para a casa e cuspi antes de respirar fundo. Quando por fim me acalmei, ergui a cabeça e vi, bem na minha frente, preso por um fio elétrico ao esqueleto enferrujado de uma cama, um cachorro, sem dúvida o que havia emporcalhado o chão da cozinha. Ele se pôs de pé com alguns arrancos espasmódicos e inclinou a cabeça para o lado, balançando o rabo de um modo tentativo, quase apologético. Que outro animal, além de nós e dos primatas, é capaz de sentir por algum tempo uma vergonha tão abjeta? O cachorro me olhou e eu o olhei, sentindo que ele queria me atrair para algum tipo de cumplicidade entre espécies diferentes. Mas eu não estava disposto a deixar isso acontecer. Dei meia-volta e caminhei com passos firmes de regresso à casa, dizendo em voz alta: “Desculpe! Amoníaco! Alergia!”. E o cão, desprovido de uma gramática criativa e dos recursos de velhacaria de que eu dispunha, se deixou cair de novo no seu espaço de terra nua à espera do perdão.
Logo estávamos outra vez sentados ao redor da mesa, com as portas e janelas abertas de par em par, e o tema da conversa eram as alergias. Xan dava a suas assertivas um tom de verdade inquestionável ao adorná-las com a palavra basicamente.
“Basicamente”, ele disse, me encarando, “sua alergia é uma forma de desequilíbrio.”
Quando retruquei que aquela era uma afirmação tecnicamente infalsificável, ele ficou satisfeito. Comecei a crer que talvez não me detestasse. Ele lançava sobre o mingau de aveia o mesmo olhar hostil com que antes me distinguira. O que imaginei ser uma expressão facial era de fato sua fisionomia em repouso. Eu tinha sido enganado pela curvatura do lábio superior, que algum acidente genético congelara num ricto semelhante ao dos animais quando mostram os dentes em ameaça.
“Basicamente”, ele continuou, “toda alergia tem uma razão, e as pesquisas mostram que, em mais de setenta por cento dos casos, suas raízes podem remontar basicamente às necessidades frustradas na primeira infância.”
Fazia tempo que eu não ouvia aquele tipo de alegação, uma percentagem tirada do nada, a pesquisa sem fonte, a mensuração do imensurável. Era um argumento muito juvenil.
“Eu faço parte dos menos de trinta por cento”, respondi.
Daisy se levantara para servir mais mingau. Falou na voz baixa de quem sabe a verdade mas não se dispõe a lutar por ela. “Há um aspecto planetário dominante especialmente ligado aos sinais terrestres e à décima casa.”
A essa altura, Johnny se animou. Ele se mantivera tenso desde que nos sentamos de novo, provavelmente preocupado com a possibilidade de que eu me comportasse mal. “Foi a Revolução Industrial. Antes de 1800 ninguém tinha alergia, ninguém nem tinha ouvido falar de febre do feno. Aí, depois que começaram a jogar toda essa merda química na atmosfera, e depois na água e na comida, o sistema imune das pessoas foi pras picas. Não fomos feitos para engolir essa titica toda...”
Johnny estava esquentando os motores quando Steve o interrompeu. “Me desculpe, Johnny. Mas isso é uma tremenda babaquice. A Revolução Industrial mudou nossa cabeça, e é daí que vêm as doenças todas.” Virou-se de repente para mim. “E qual é a sua opinião?”
Eu era de opinião que alguém devia pegar a arma. “Comigo sem dúvida tem a ver com a cabeça. Quando estou me sentindo bem, o amoníaco não me faz mal nenhum.”
“Você está infeliz”, disse Daisy. Ela franziu a boca revirada para baixo e bastante infeliz. “Posso ver um bocado de amarelo sujo em sua aura.” Se a mesa fosse mais estreita, ela teria tentado pegar minha mão.
“É verdade”, eu disse, vendo aí minha chance. “É por isso que estou aqui.” Olhei para Steve, que desviou a vista. Fez-se um silêncio que ficou mais denso enquanto eu esperava. Johnny estava acompanhando tudo com aquele ar desesperançado que lhe era característico: será que ele havia cometido um erro?
O silêncio tinha a ver com quem falaria primeiro. Foi Xan. “Não somos basicamente o tipo de gente que teria uma arma em casa.”
Como não prosseguiu com o raciocínio, Daisy o ajudou. “Nos doze anos que está conosco, nunca foi usada.”
Steve entrou rápido, dizendo algo que ela já devia saber muito bem. “Mas foi oleada e limpa com frequência.”
Ao que ela lhe disse, embora também para meu governo: “É, mas não porque esperássemos usá-la”.
Houve uma pausa confusa. Ninguém sabia onde estava. Xan começou de novo. “O negócio é que não aprovamos essa arma...”
“Nem nenhuma arma”, disse Daisy.
Steve esclareceu: “É uma pistola Stoller 32, produzida antes que a fábrica fosse vendida pelos noruegueses de volta para o conglomerado holandês e alemão que desenvolveu o projeto original. Tem um mecanismo de disparo de ação dupla, feito de carbureto, que...”.
“Steve”, disse Xan em tom paciente. “Basicamente, esse troço chegou em nossas mãos numa outra época, quando tudo era maluco e diferente, quando talvez pudéssemos precisar dele.”
“Em legítima defesa”, complementou Steve.
“Estivemos falando um bocado sobre isso antes de vocês chegarem”, disse Daisy. “Não gostamos da ideia de que ela vai ser simplesmente levada por alguém e, sabe como é...”
Como Daisy parou por ali, perguntei: “Vocês vão vender ou não?”.
Xan cruzou os poderosos antebraços. “Não é bem assim. E não é por causa do dinheiro.”
“Bom, espera aí”, interrompeu Steve. “Isso também não é verdade.”
“Jesus!”, retrucou Xan com um toque de irritação. Ele não conseguia engatar seus pensamentos com palavras, era difícil, as pessoas ficavam interrompendo. Sua atitude começava a se compatibilizar com a fisionomia. “Olha”, ele disse, “houve um tempo em que o dinheiro era tudo. Só se pensava no dinheiro. Pode-se dizer que era quase simples. Não estou dizendo que estava errado, mas veja o que aconteceu. Não saiu nada como as pessoas queriam. Não se pode pensar nisso separado do resto. Não se pode pensar em nada isoladamente. Tudo está relacionado, hoje sabemos disso, ficou claro, é uma sociedade. É basicamente holístico.”
Steve se debruçou na direção de Daisy e disse, em tom teatral, detrás da mão: “Qual é a dele?”.
Daisy dirigiu-se a mim. Talvez ela ainda estivesse pensando em minha infelicidade. “É simples. Não somos contra a venda, mas queremos saber o que você pensa fazer com a arma.”
“Vocês ficam com o dinheiro, eu fico com a pistola”, respondi.
Johnny voltou a entrar em ação. O negócio que ele tinha intermediado podia estar indo por água abaixo. “Olhe, Joe precisa ser discreto. Tanto para o bem dele como para o nosso.”
Não gostei que ele houvesse repetido meu nome. Podia ficar pairando no ar daquela cozinha durante semanas, como tudo mais, e depois ser usado.
“Mas escute...”, Johnny tocou meu braço. “Você podia dizer alguma coisa para tranquilizar nossos amigos.”
Todos me olhavam fixamente. Através da porta-janela escancarada ouvimos o vira-lata ganir, um som apertado que ele parecia estar tentando suprimir. Agora eu só queria ir embora — com ou sem pistola. Olhei ostensivamente para o relógio e disse: “Vou dizer em quatro palavras e chega. Alguém quer me matar”.
No silêncio que se seguiu, todo mundo, inclusive eu, conferiu o número de palavras.
“Então é em legítima defesa”, disse Xan, a esperança ressoando em sua voz.
Dei de ombros numa espécie de afirmativa. Seus rostos expressavam a indecisão. Queriam o dinheiro e queriam a absolvição. Embora aqueles traficantes de cocaína, aqueles agentes imobiliários fraudulentos estivessem empobrecidos, algumas concepções vagas os incitavam a assumir uma postura moral — e eles queriam que eu os ajudasse. Comecei a me sentir melhor. Quer dizer que eu é que era o malfeitor. De repente, fui liberado. Peguei a bolada e pus na mesa. Qual a utilidade de barganhar?
“Por que vocês não contam?”, perguntei.
Ninguém se moveu de imediato, e então, num relampejar, a mão de Steve ganhou da de Xan por uma fração de segundo. Daisy seguia tudo com atenção. Era para valer. Talvez eles estivessem vivendo na base de mingau e torrada.
Steve contou as notas em alta velocidade, como um funcionário de banco. Ao terminar, pôs tudo no bolso e me disse: “Está certo. Agora, Joe, você pode ir pra casa do caralho!”.
Para não perder a compostura, participei da risada nervosa que tomou conta da mesa.
Reparei então que Xan não estava rindo. Ele esperava com os braços cruzados, as feições ferozes não dando nenhuma indicação sobre o que faria. No antebraço direito, um músculo (que eu não tinha) se contraía ritmicamente a compasso com um movimento invisível da mão. Quando o riso cessou, ele falou, embora não na voz com que antes defendera a tese do holismo. O tom era agora mais agudo e áspero, a língua batendo secamente no céu da boca. Ele permanecia imóvel, porém eu podia ver a agitação debaixo de sua pele, a pulsação na base do pescoço. Meu sangue passou a correr mais rápido. “Steve, põe o dinheiro na mesa e vai buscar a pistola”, disse Xan.
Steve se ergueu, acompanhado a cada centímetro pelo olhar de Xan. “Muito bem”, ele disse baixinho, começando a se afastar da mesa.
Xan pulou da cadeira. “Esse dinheiro não vai para a caixinha.”
Sem se virar e continuando a andar, Steve respondeu com igual certeza: “Estão me devendo”.
O objeto mais próximo de Xan era a tigela vazia de mingau. Pegando-a com o polegar e o indicador como se fosse um frisbee, ele a atirou com força, mantendo a mão esquerda estendida e aberta para conservar o equilíbrio. A tigela não acertou o pescoço de Steve por alguns centímetros, indo se espatifar contra a moldura da porta.
“Não!”, gritou Daisy. Havia algo da mãe impaciente e cansada naquele grito. Sem outra palavra, ela saiu da cozinha. Vimos as costas que se afastavam, os cabelos balançando na altura da cintura. Ouvimos seus passos na escada. Johnny olhou para mim. Sabia o que ele estava pensando. Agora a responsabilidade pela briga era toda nossa. Na verdade, toda minha, porque Johnny, acomodado na cadeira, enrolava um baseado, mexendo a cabeça e suspirando ao ver como seus dedos tremiam.
Steve dera meia-volta e retornava à mesa. Xan caminhou na direção dele e, o pegando pela frente da camisa, tentou empurrá-lo contra a parede. “Não começa”, ele disse com a respiração ofegante, “põe o dinheiro na mesa.” Mas não era tão fácil empurrar Steve. Ele tinha um corpo duro e compacto, uma expressão cruel. Os dois homens ficaram no meio da cozinha, se empurrando um ao outro, ambos respirando com dificuldade. Estavam tão próximos que uma luz especial parecia iluminar seus rostos.
“A casa me deve, vocês dois me devem”, disse Steve. “Agora tira essa porra dessa mão de cima de mim.” Mas não esperou que a ordem fosse cumprida. Sua mão esquerda voou na direção da garganta de Xan e a apertou. Xan puxou o braço livre para trás num grande arco e, de mão aberta, atingiu o rosto de Steve. O som da pancada foi semelhante ao do estouro de uma bola de encher e a força do impacto os separou. Por um instante permaneceram petrificados, se atirando depois um contra o outro e se engalfinhando. O animal de quatro pernas balançou e se deslocou de lado na direção da mesa. Johnny e eu ouvíamos apenas os grunhidos sufocados. Cabeças baixas, olhos fechados, lábios repuxados mostrando os dentes, eles se agarravam e abraçavam como dois amantes.
Alguém tinha de ceder. Xan encaixou a mão embaixo do queixo de Steve e começou a forçar a cabeça dele para trás. Nenhuma musculatura de pescoço poderia resistir àquele braço horrivelmente poderoso, mas foi um esforço enorme, as carnes tremendo, porque Steve enganchara o polegar numa narina de Xan e tentava atingir o olho. Obrigado a afastar o corpo, Xan chegou ao limite do alcance do braço. Como a cabeça de Steve continuava a se inclinar para trás, Xan aproveitou para lhe dar uma gravata com o braço direito, a mão esquerda puxando o outro pulso para apertar o nó. Avancei na direção deles. Steve aos poucos tombava de joelhos. Ele gemia e suas mãos faziam movimentos erráticos, batendo de leve nas pernas de Xan.
Dei dois tapinhas com as costas da mão no rosto de Xan e me abaixei para falar perto de seu ouvido. “Você vai matar ele. É isso mesmo que você quer?”
“Não se mete. Isso já vem de longe.”
Tentei puxá-lo pela orelha para que me olhasse. “Se ele morrer, você vai ficar em cana o resto da sua vida.”
“Estou cagando pra isso!”
“Johnny”, gritei. “Você tem que ajudar!”
Daisy entrou de novo na cozinha. Segurava com as duas mãos uma caixa de sapatos, dando a impressão de estar exausta. Sua boca retorcida para baixo era um apelo para que víssemos o que ela era obrigada a suportar — os homens de sua vida lutando para obter a vantagem mecânica que permitiria a um deles quebrar o pescoço do outro.
“Pega”, ela sussurrou. “Pega, pega!”
Endireitei o corpo e a tomei da mão de Daisy. Era pesada, tive de usar ambas as mãos para sustentar a frágil caixa de papelão. Steve gemeu de novo e olhei para Johnny. Ele me lançou uma expressão de súplica e fez um sinal com a cabeça na direção da porta. “É isso mesmo”, disse Daisy com firmeza, “melhor vocês irem embora.”
O esgotamento que ela transmitia me fez pensar se aquilo não era alguma espécie de ritual doméstico ou um prelúdio excessivamente ensaiado para uma complexa aliança sexual. Por outro lado, achei que devíamos tentar salvar a vida de Steve.
Johnny me puxou pela manga. Afastamo-nos alguns passos. Ele murmurou em meu ouvido: “Se acontecer alguma coisa, não quero ser testemunha”.
Como ele tinha razão, cumprimentamos Daisy com um aceno de cabeça e, dando uma última olhada na direção da cabeça de Steve submetida ao torno tremelicante do antebraço de Xan, atravessamos às pressas o lúgubre hall rumo à porta.
Tão logo entramos no carro, Johnny puxou um baseado e o acendeu. Era a última droga que eu desejaria àquela altura. Muito melhor parar para tomar um uísque em algum lugar e recobrar a calma. Liguei o motor e retornei pelo caminho esburacado.
“É gozado, sabe”, disse Johnny em meio à fumaça. “Já estive aqui outras vezes e tivemos umas discussões muito interessantes.”
Peguei a estrada e estava prestes a responder quando o telefone tocou. Eu o tinha deixado carregando no isqueiro do carro.
Era Parry. “Joe, é você?”
“Sim, sou eu.”
“Estou aqui no seu apartamento, sentado ao lado de Clarissa. Vou passar para ela, está bem? Está me ouvindo? Joe? Está me ouvindo?”
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