Antes de Dormir
Quinta-feira, 15 de novembro
— Acho que vou dormir no quarto de hóspedes hoje — eu disse. —
Estou triste. Você entende?
Ele dissera que sim, que viria me olhar de manhã, para ter certeza de que eu estava bem antes de sair para o trabalho, e depois me deu um beijo de boa-noite. Agora eu o ouço desligar a televisão, fechar a porta da frente à chave. Trancando-nos aqui. Não me faria nenhum bem sair vagando por aí, eu acho. Não na minha condição.
Não posso acreditar que daqui a alguns instantes, quando eu cair no sono, novamente esquecerei tudo a respeito do meu filho. As lembranças dele haviam parecido (ainda parecem) tão reais, tão vívidas. E eu me lembrei dele depois de cochilar no banheiro. Não parece possível que um sono mais duradouro seja capaz de apagar tudo, entretanto Ben e o Dr.
Nash me disseram que isso é exatamente o que irá acontecer.
Ouso torcer para que estejam errados? Estou me lembrando de mais coisas a cada dia, sabendo mais a respeito de quem sou a cada vez que acordo. Talvez as coisas estejam indo bem, talvez escrever este diário esteja fazendo minhas memórias afluírem.
Talvez hoje seja o dia que, um dia, ao olhar para trás, eu reconheça como um divisor de águas. É possível.
Estou cansada agora. Daqui a pouco vou parar de escrever, depois vou esconder meu diário, apagar a luz. Dormir. Rezo para que amanhã eu possa acordar e me lembrar do meu filho.
Quinta-feira, 15 de novembro
Estava no banheiro. Não sei por quanto tempo fiquei ali de pé. Apenas observando. Todas aquelas fotos de Ben e eu juntos, sorrindo alegremente, quando na verdade deveríamos ser três. Fitei-as, imóvel, como se pensasse que dessa forma faria a imagem de Adam surgir, transformando-se em realidade pela minha vontade. Mas isso não aconteceu. Ele continuou invisível.
Acordei sem memória alguma dele. Absolutamente nenhuma. Ainda acreditava que a maternidade era algo que me aguardava no futuro, algo vago e inquietante. Mesmo depois de ter visto meu próprio rosto de meia-idade, de descobrir que sou esposa de alguém, em breve velha o suficiente para ter netos — mesmo depois de esses fatos terem me deixado tonta —, eu não estava preparada para o diário que o Dr. Nash me contou ao telefone que eu guardava no armário. Eu não imaginava que descobriria também que sou mãe. Que eu tive um filho.
Peguei o diário. Assim que eu o li, soube que era verdade. Eu tive um filho. Eu senti isso, quase como se ele ainda estivesse comigo, dentro dos meus poros. Li o diário diversas vezes, tentando registrar na minha mente o que ele dizia.
E então eu continuei a ler e descobri que ele estava morto. Não parecia real. Não parecia possível. Meu coração resistiu àquela descoberta, tentou rejeitá-la mesmo sabendo que era verdadeira. Senti náusea. Senti a bile subir pela garganta e, enquanto a engolia, o quarto começou a rodar. Por um momento, senti que eu começava a cair no chão. O diário escorregou do meu colo e abafei um grito de dor. Fiquei de pé e me impeli para fora do quarto.
Fui até o banheiro, para olhar novamente as fotos nas quais ele deveria estar. Fiquei desesperada. Não sabia o que faria quando Ben chegasse em casa. Imaginei-o chegando, me beijando, cozinhando; pensei em nós dois jantando juntos. E então assistiríamos televisão ou seja lá o que fazemos na maioria das noites, e durante esse tempo todo eu teria de fingir que não sabia que havia perdido um filho. E então iríamos para a cama, juntos, e depois...
Parecia muito mais do que eu poderia suportar. Não consegui me conter.
Não tive muita certeza do que estava fazendo. Comecei a arranhar as fotografias, arrancá-las, rasgá-las. No que pareceu um instante, elas tinham sumido. Espalhadas pelo chão do banheiro. Flutuando na água do vaso sanitário.
Peguei este diário e o coloquei na minha bolsa. Minha carteira estava vazia, por isso peguei uma das duas notas de 20 libras que, segundo li,
estavam escondidas atrás do relógio da lareira, e saí de casa correndo. Não sabia aonde estava indo. Queria ver o Dr. Nash, mas não fazia a mínima ideia de onde ele estava ou como chegaria até ele, mesmo que soubesse aonde ir. Me senti impotente. Sozinha. E então corri.
Quando cheguei à rua virei à esquerda, em direção ao parque. Era uma tarde ensolarada. A luz alaranjada se refletia nos carros estacionados e nas poças d’água deixadas pela chuva da manhã, mas estava frio. Minha respiração fumegava ao meu redor. Fechei meu casaco, embrulhei o cachecol sobre minhas orelhas e segui apressada. Folhas caíam das árvores, flutuavam ao sabor do vento, amontoavam-se na sarjeta numa massa marrom.
Desci do meio-fio. Som de freios. Um carro parou ruidosamente. Uma voz masculina, abafada por detrás dos vidros.
— Saia da frente! — disse a voz. — Vaca idiota!
Levantei a cabeça. Eu estava no meio da rua, com um carro parado na minha frente, o motorista gritando enfurecido. Tive uma visão: eu, meus ossos entre os metais, sendo atingida, arremessada, e então deslizando sobre a capota do carro ou por baixo dele, ficando ali enrolada, o fim de uma vida arruinada.
Poderia ser assim tão simples? Iria uma segunda colisão acabar com aquilo que a primeira havia começado, tantos anos atrás? Sinto como se já estivesse morta há vinte anos, mas é a isso que tudo vai levar, no fim das contas?
Quem sentiria a minha falta? Meu marido. Um médico, talvez, embora para ele eu seja apenas uma paciente. Mas não há mais ninguém. Poderia meu círculo social ter se tornado assim tão restrito? Teriam meus amigos me abandonado, um por um? Como eu seria esquecida rapidamente se viesse a morrer.
Olhei para o homem no carro. Ele, ou alguém como ele, fez isso comigo. Me roubou tudo. Me roubou até de mim mesma. E entretanto aí está ele, vivendo.
Ainda não, pensei. Ainda não. Seja como fosse que a minha vida iria terminar, eu não queria que fosse assim. Pensei sobre o romance que eu havia escrito, o filho que eu havia criado, até mesmo sobre a festa com os fogos de artifício, tantos anos atrás. Ainda tenho memórias para desenterrar. Coisas por descobrir. Minha própria verdade para encontrar.
Murmurei “desculpe” e continuei correndo. Atravessei a rua e entrei por um portão que dava no parque.
* * *
Havia uma casinha no meio do gramado. Um café. Entrei, comprei um café e me sentei em um dos bancos, esquentando minhas mãos no copo de isopor. Do outro lado do café havia um parque infantil. Um escorregador, balanços, um gira-gira. Um garotinho estava sentado num brinquedo em formato de joaninha que era fixado ao chão por uma grande mola. Observei-o se balançando para a frente e para trás, com um sorvete na mão apesar do frio.
Veio à minha mente uma visão de mim mesma e outra garotinha no parque. Eu nos vi subindo as escadas que levavam a uma casinha de madeira, de onde iríamos escorregar para o chão num escorregador de metal. A altura parecia enorme naquela época, mas olhando para o parque agora, vejo que deve ter sido apenas um pouco mais alta do que sou agora.
Sujaríamos nossos vestidos e seríamos repreendidas pelas nossas mães, depois voltaríamos para casa saltitando, segurando um saco de balinhas ou um pacote de batatas fritas.
Seria isso memória? Ou imaginação?
Observei o garotinho. Ele estava sozinho. O parque parecia vazio.
Apenas nós dois, no frio, sob o céu repleto de nuvens negras. Tomei um gole do meu café.
— Ei! — disse o menino. — Ei! Moça!
Olhei para ele, depois baixei o olhar e fitei minhas mãos.
— Ei! — gritou ele mais alto dessa vez. — Moça! Me ajuda! Me roda!
Ele se levantou da joaninha e foi em direção ao gira-gira.
— Me roda, moça! — disse o garoto. Ele tentou girar o brinquedo de metal, mas, apesar do esforço, evidente em seu rosto, o brinquedo permaneceu praticamente imóvel. Desistiu, parecendo frustrado. — Por favor? — pediu ele.
— Você vai conseguir — falei. Tomei um gole do meu café. Decidi que esperaria ali até a mãe dele voltar de seja lá onde tivesse ido. Vou ficar de olho nele.
O garoto subiu no gira-gira, ajeitando-se até ficar exatamente no meio do brinquedo.
— Me roda! — pediu ele mais uma vez. Seu tom estava mais grave. Suplicante. Desejei não ter vindo para cá, tive vontade de mandá-lo embora.
Me senti deslocada do mundo. Estranha. Perigosa. Pensei nas fotos que havia arrancado da parede e deixado espalhadas pelo chão do banheiro.
Viera aqui para ficar em paz. Não para isso.
Olhei para o menino. Ele havia se mexido, estava novamente tentando fazer o brinquedo girar, suas pernas mal tocando o chão onde ele pisava, na plataforma do gira-gira. Parecia tão frágil. Desamparado. Fui até ele.
— Me roda! — falou. Forcei o peso do meu corpo contra as barras de
ferro. O brinquedo era surpreendentemente pesado, mas senti que começou a ceder e girei junto com ele para que ganhasse velocidade.
— Lá vamos nós! — eu disse, e me sentei na beirada da plataforma.
Ele soltou gritinhos animados, agarrando a barra de metal com as mãos, como se estivéssemos girando bem mais rápido do que de fato estávamos.
Suas mãos pareciam frias, quase azuladas. Ele trajava um casaco verde que parecia leve demais, um par de jeans dobrados nos tornozelos. Imaginei quem o teria deixado sair de casa sem gorro, cachecol nem luvas.
— Cadê a sua mamãe? — perguntei. Ele deu de ombros. — Seu papai?
— Não sei — disse ele. — Mamãe disse que o papai foi embora. Ela disse que ele não ama mais a gente.
Olhei para o menino. Ele disse aquilo sem esboçar dor nem frustração.
Para ele, era o simples relato de um fato. Por um momento o gira-gira deu impressão de estar parado, o mundo girando ao nosso redor em vez de nós girando dentro dele.
— Mas aposto que a sua mamãe ama você, não é? — disse eu.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Às vezes — respondeu.
— Mas às vezes não?
Ele parou.
— Acho que não. — Senti um golpe no peito, como se algo estivesse se revirando. Ou acordando. — Ela diz que não. Às vezes.
— Que pena — falei. Observei o banco no qual eu estivera sentada se aproximar de nós, depois se afastar. E continuamos girando, sem parar.
— Qual o seu nome?
— Alfie — respondeu.
Estávamos começando a girar mais devagar, o mundo parava atrás do menino. Meus pés tocaram o chão e impulsionei, fazendo-nos girar novamente. Disse o nome dele como se para mim mesma. Alfie.
— Às vezes, a mamãe diz que ela estaria melhor se eu morasse em outro lugar — disse ele.
Tentei continuar sorrindo, manter o tom alegre.
— Aposto que ela está brincando quando diz isso.
Ele deu de ombros.
Meu corpo inteiro enrijeceu. Imaginei se ele gostaria de vir comigo. Para casa. Para morar comigo. Imaginei como seu rosto se iluminaria, mesmo dizendo que não deveria ir a lugar algum com desconhecidos. “Mas não sou desconhecida”, eu diria. Iria pegá-lo no colo — ele seria pesado e teria um perfume doce, como chocolate — e juntos iríamos até o café. “Que suco você quer?”, eu perguntaria, e ele pediria suco de maçã. Compraria o suco para ele, depois alguns doces, e iríamos embora do parque. Ele seguraria a
minha mão enquanto caminhávamos de volta para casa, a casa que eu divido com meu marido, e aquela noite eu cortaria a carne para ele e faria purê de batatas e então, uma vez que estivesse de pijama, leria uma história antes de cobrir seu corpinho com o lençol, e o beijaria suavemente na testa. E amanhã...
Amanhã? Eu não tenho amanhã, pensei. Assim como também não tenho um ontem.
— Mamãe! — gritou ele. Por um momento pensei que estivesse falando comigo, mas ele pulou do brinquedo e correu em direção ao café.
— Alfie! — gritei, mas então vi uma mulher andando em nossa direção, segurando um copo plástico em cada mão.
Ela se abaixou quando ele a alcançou.
— Você está bem, campeão? — disse ela, enquanto ele corria para os seus braços, então olhou por cima dele, para mim. Seus olhos se estreitaram, seu rosto ficou sério. “Não fiz nada de errado!”, tive vontade de gritar. “Me deixe em paz!”
Mas não fiz isso. Olhei para o outro lado e, depois que ela levou Alfie embora, desci do gira-gira. O céu estava escurecendo, ficando azul-escuro.
Eu me sentei no banco. Não sabia que horas eram ou há quanto tempo eu tinha saído. Mas sabia que não poderia retornar para casa, pelo menos não ainda. Não poderia encarar Ben. Não poderia suportar ter de fingir que não sabia nada a respeito de Adam, que não tinha a mínima ideia de que tive um filho. Por um momento, senti vontade de contar tudo para ele. Sobre o meu diário, o Dr. Nash. Sobre tudo. Mas afastei o pensamento da minha cabeça. Eu não queria ir para casa, mas não tinha para onde ir.
Eu me levantei e comecei a caminhar enquanto o céu escurecia.
A casa estava um breu. Eu não sabia o que esperar quando abri a porta da frente. Ben deve ter sentido a minha falta; ele disse que estaria em casa às 5 horas. Imaginei-o andando de um lado para o outro da sala de estar —
por algum motivo, embora não o tenha visto fumar de manhã, minha imaginação adicionou um cigarro aceso à cena — ou talvez ele tivesse saído, estivesse dirigindo pelas ruas à minha procura. Imaginei equipes de polícia e voluntários pelas ruas, batendo de porta em porta com uma foto minha, e me senti culpada. Tentei dizer a mim mesma que, muito embora não tivesse memória, eu não era uma criança, não era uma pessoa desaparecida, pelo menos ainda não, mas mesmo assim entrei em casa pronta para me desculpar.
Chamei o nome dele em voz alta.
— Ben?
Não houve resposta, mas senti, em vez de ouvir, um movimento. O
estalo do assoalho em algum lugar no andar acima, uma alteração quase imperceptível no equilíbrio da casa. Chamei novamente, dessa vez mais alto.
— Ben?
— Christine? — respondeu uma voz. Ela soou fraca, quebrada.
— Ben? — repeti. — Ben, sou eu. Estou aqui.
Ele surgiu acima, de pé no topo das escadas. Ele parecia ter estado dormindo. Ainda vestia as roupas que usara para ir trabalhar de manhã, mas agora a camisa estava amarrotada e para fora das calças, e os cabelos estavam emaranhados, enfatizando sua expressão de choque, com um toque quase cômico de eletricidade. Uma lembrança flutuou por dentro de mim — aulas de ciência e geradores Van de Graaff —, mas não emergiu.
Ele começou a descer as escadas.
— Chris, você chegou!
— Eu... eu precisava de um pouco de ar — expliquei.
— Graças a Deus. — Ele veio até onde eu estava e pegou minha mão.
Segurou-a, como se para me cumprimentar ou para ter certeza de que eu era real, mas não a moveu. — Graças a Deus!
Me fitou, com olhos arregalados, brilhantes. Reluziam sob a luz fraca como se ele tivesse chorado. Como ele me ama, pensei. Meu sentimento de culpa se intensificou.
— Desculpe — falei. — Não tive a intenção de...
Ele me interrompeu.
— Ora, não vamos nos preocupar com isso, certo?
Levou minhas mãos em direção aos seus lábios. Sua expressão mudou, parecia que sentia prazer, que estava feliz. Todos os sinais de ansiedade sumiram. Ele me beijou.
— Mas...
— Você está em casa agora. Isso é o mais importante. — Deu uma piscadela e então colocou os cabelos mais ou menos em ordem. — Muito bem! — exclamou, colocando a camisa para dentro das calças. — O que me diz de ir lá em cima tomar um banho? E então sair? O que você acha?
— Acho que não — respondi. — Eu...
— Ora, Christine. Nós deveríamos! Você parece estar precisando se alegrar!
— Mas, Ben, não estou com vontade.
— Por favor? — disse ele. Pegou minha mão novamente, apertando-a de leve. — Significaria muito para mim. — Pegou minha outra mão e juntou ambas dentro da mão dele. — Não sei se eu lhe disse de manhã. Hoje é meu aniversário.
O que eu poderia fazer? Não tinha vontade de sair. Mas, pensando bem, não tinha vontade de fazer nada. Disse que faria o que me pediu, tomaria um banho e veria como me sentiria depois disso. Subi as escadas. O humor dele me incomodou. Parecera tão preocupado, mas logo que apareci sã e salva a preocupação se evaporou. Será que ele realmente me amava tanto assim? Acreditava tanto em mim que sua única preocupação era que eu estivesse bem, não importando onde eu estivera?
Entrei no banheiro. Talvez ele não tenha visto as fotos espalhadas pelo chão e tenha realmente acreditado que saí apenas para dar uma volta.
Ainda me restava tempo para cobrir meus rastros. Para esconder a minha raiva e o meu pesar.
Tranquei a porta depois de entrar. Puxei o cordão e acendi a luz. O chão havia sido limpo. Lá, organizadas ao redor do espelho como se nunca houvessem sido removidas, estavam as fotos, cada uma delas perfeitamente restaurada.