Antes de Dormir
Quarta-feira, 21 de novembro
Duas luzes brilhavam em locais que jamais haviam conhecido luz antes.
Fantasmas das profundezas.
Tive vontade de perguntar a ele se eu ainda mantinha contato com Claire, mas não queria ouvir outra mentira. Uma lula gigante pairava na escuridão, ao sabor da corrente suave. Aquela criatura jamais havia sido capturada em filme antes, disse o narrador, sob um fundo musical eletrônico.
— Você está bem? — perguntou ele. Assenti, sem tirar os olhos da tela.
Ele se levantou.
— Tenho trabalho a fazer — avisou. — Lá em cima. Daqui a pouco vou me deitar.
Então eu olhei para ele. Não sabia quem ele era.
— Sim — falei. — Até mais tarde.
Quarta-feira, 21 de novembro
Passei a manhã inteira lendo este diário e, mesmo assim, não li tudo.
Algumas páginas apenas olhei por alto, outras li e reli, tentando acreditar no que diziam. E agora estou no quarto, sentada à janela, escrevendo.
O telefone está no meu colo. Por que parece tão difícil discar o número de Claire? Impulsos neuronais, contrações musculares. Somente isso é necessário. Nada complicado. Nada difícil. Porém parece tão mais fácil apanhar uma caneta e escrever a respeito! Esta manhã fui para a cozinha. Minha vida, pensei, está construída sobre areia movediça. Muda de um dia para o outro. Coisas que creio saber que são erradas, coisas das quais tenho certeza, fatos sobre a minha vida, correspondem a anos atrás. Toda a minha história parece ficção. Dr. Nash, Ben, Adam, e agora Claire. Eles existem, porém como sombras no escuro.
Como desconhecidos, eles perpassam a minha vida uma e outra vez, conectando, desconectando. Elusivos, etéreos. Como fantasmas.
E não só eles. Tudo. É tudo inventado. Conjurado a partir do nada. Estou desesperada por chão firme, por algo real, algo que não vá sumir com o sono. Preciso me ancorar.
Abri a tampa da lata de lixo. Um calor emanou dela — o calor da putrefação e da decomposição — e um leve fedor. O cheiro doce e enjoativo de comida apodrecendo. Vi um jornal, com a seção das palavras cruzadas resolvida, um saquinho de chá solitário tingindo-a de marrom.
Prendi a respiração e me ajoelhei no chão.
Dentro do jornal havia cacos de porcelana, migalhas, uma fina poeira branca e, embaixo dele, um saco plástico fechado. Eu o retirei, pensando em fraldas sujas, decidida a abri-lo mais tarde se preciso fosse. Embaixo dele havia cascas de batatas e uma garrafa de plástico quase vazia que vazava ketchup. Empurrei as duas coisas para o lado.
Cascas de ovo — quatro ou cinco — e um punhado de cascas de cebola finas como papel. Os restos do miolo com sementes de um pimentão vermelho, um cogumelo grande, semiapodrecido.
Satisfeita, recoloquei as coisas na lata de lixo e a fechei. Era verdade.
Na noite passada, nós comemos omelete. Um prato se quebrou. Olhei dentro da geladeira. Havia duas costeletas de porco em uma bandeja de isopor. No corredor, os chinelos de Ben estavam ao pé da escada. Tudo estava ali, exatamente como descrito pelo meu diário na noite passada. Eu não havia inventado. Era tudo verdade.
E isso significava que o número de telefone era de Claire. O Dr. Nash realmente havia me ligado. Ben e eu havíamos nos divorciado.
Tenho vontade de ligar para o Dr. Nash agora. Quero lhe perguntar o que
fazer, ou melhor, pedir que ele o faça por mim. Mas por quanto tempo continuarei agindo feito visita em minha própria vida? Feito uma pessoa passiva? Preciso assumir o controle. O pensamento de que talvez eu jamais torne a ver o Dr. Nash novamente cruza a minha mente — agora que lhe contei sobre meus sentimentos, minha “paixonite” —, mas eu não o deixo criar raízes. Seja como for, preciso eu mesma falar com Claire.
Mas o que vou dizer? Parece haver tanto o que conversarmos, e ao mesmo tempo tão pouco. Tanta história entre nós, mas nada que eu conheça.
Penso no que o Dr. Nash me contou sobre o motivo pelo qual Ben e eu nos separamos. “Algo a ver com Claire.”
Tudo faz sentido. Anos atrás, quando eu mais precisava dele, menos o entendia, meu marido se divorciou de mim, e agora que estamos novamente juntos, ele me diz que minha melhor amiga se mudou para o outro lado do mundo antes de tudo isso acontecer.
Será por isso que não consigo telefonar para ela? Porque tenho medo de que ela tenha mais coisas a esconder do que eu nem sequer imagino? Será por isso que Ben parece muito pouco favorável a que eu me lembre de mais coisas? Será por isso até que ele ande sugerindo que minhas tentativas de tratamento são inúteis, para que eu jamais seja capaz de ligar uma lembrança à outra e descobrir o que aconteceu?
Não consigo imaginar que ele seja capaz de fazer isso. Ninguém seria. É
ridículo. Penso no que o Dr. Nash me disse sobre o período que passei no hospital. “Você dizia que os médicos estavam conspirando contra você, disse ele. Exibia sintomas de paranoia.”
Seria isso o que estou fazendo agora?
De repente uma lembrança me invade. E me atinge quase com violência, surgindo do vazio do meu passado para me lançar para trás, mas então some com a mesma rapidez. Claire e eu, em outra festa. “Meu Deus”, diz ela. “É tão irritante! Sabe o que eu acho que está errado? Todo mundo é tão ligado em sexo. Não passamos de animais copulando, sabe? Não importa o quanto tentemos fazer rodeios quanto a essa verdade e a disfarcemos de alguma outra coisa: no fim das contas é isso o que é.”
Será possível que comigo presa em meu inferno particular Claire e Ben tenham buscado consolo nos braços um do outro?
Olho para baixo. O telefone está desligado sobre o meu colo. Não tenho ideia de onde Ben realmente vai quando sai toda manhã, ou de onde pode parar a caminho de casa. Pode ser em qualquer lugar. E não tenho a oportunidade de ligar suspeita a suspeita, de conectar um fato a outro.
Mesmo que um dia eu descobrisse Claire e Ben na cama, no outro
esqueceria o que vi. Sou a pessoa perfeita para ser traída. Talvez eles ainda estejam se encontrando. Talvez eu já tenha descoberto os dois juntos e depois esquecido.
Penso nisso e de algum modo, ao mesmo tempo, também não penso.
Confio em Ben, e ao mesmo tempo não confio. É perfeitamente possível ter dois pontos de vista opostos ao mesmo tempo na mente e oscilar entre eles.
Mas por que ele iria mentir? Ele apenas acha que está fazendo o certo, digo a mim mesma. Está protegendo você. Protegendo você das coisas que você não precisa saber.
Disquei o número, claro. Não havia como não fazer isso. Ele tocou por algum tempo, e depois ouvi um clique e uma voz. “Olá”, disse ela. “Por favor deixe o seu recado.”
Reconheci a voz na mesma hora. Era a de Claire. Sem sombra de dúvida.
Deixei um recado. “Por favor, me ligue”, falei. “É Christine.”
Desci as escadas. Tinha feito todo o possível.
Esperei. Por uma hora que se transformou em duas. Passei esse tempo escrevendo no meu diário, e então, quando ela não ligou, preparei um sanduíche e o comi na sala. Enquanto eu estava na cozinha — limpando a bancada, juntando as migalhas na palma da minha mão, me preparando para esvaziá-la na pia —, a campainha tocou. O som me assustou. Pousei a esponja, sequei as mãos no pano de prato que estava pendurado na porta do fogão e fui ver quem era.
Através do vidro congelado vi a silhueta de um homem. Em vez de uniforme, ele usava o que parecia ser terno e gravata. “Ben?”, pensei, antes de perceber que ele ainda estaria no trabalho. Abri a porta.
Era o Dr. Nash. Eu sabia, em parte porque não podia ser mais ninguém, em parte porque — muito embora quando li a respeito dele esta manhã não tivesse sido capaz de imaginá-lo, e muito embora meu marido continuasse me parecendo não familiar mesmo depois de me dizer quem era — eu o reconheci. Seu cabelo era curto e estava partido ao meio, a gravata frouxa e desarrumada, havia um colete sob um paletó que não combinava com ele.
Ele deve ter visto o olhar de surpresa no meu rosto.
— Christine?
— Sim — falei. — Sim. — Não abri a porta mais do que uma fresta.
— Sou eu. Ed. Ed Nash. O Dr. Nash?
— Eu sei — falei. — Eu...
— Você leu o seu diário?
— Sim, mas...
— Você está bem?
— Sim — respondi. — Estou bem.
Ele abaixou a voz.
— Ben está em casa?
— Não. Não, não está. É que, bem, eu não estava esperando você. Nós tínhamos marcado algum encontro?
Ele se conteve por um instante, uma fração de segundo, o suficiente para interromper o ritmo da nossa conversa. Não tínhamos marcado, eu sabia. Ou pelo menos eu não havia escrito nada a respeito.
— Sim — disse ele. — Você não anotou?
Não, mas não disse nada. Ficamos ali em pé diante da porta da casa que continuo não vendo como o meu lar, olhando um para o outro.
— Posso entrar? — pediu ele.
Não respondi de início. Não tinha certeza se queria convidá-lo para entrar. Parecia errado, de algum modo. Uma traição.
Mas do quê? Da confiança de Ben? Eu não sabia o quanto aquilo ainda importava para mim. Não depois das mentiras dele. Mentiras sobre as quais passei a maior parte da manhã lendo.
— Sim — falei. Abri a porta. Ele assentiu ao entrar na casa, olhando para a direita e para a esquerda ao fazê-lo. Apanhei seu paletó e o pendurei no cabide, ao lado de um casaco de chuva que supus ser meu. — Vamos para lá — falei, apontando para a sala de estar, e seguimos.
Preparei uma bebida para nós, dei-lhe a sua, sentei-me do lado oposto com a minha. Ele nada disse, e eu tomei um gole lentamente, aguardando enquanto ele fazia o mesmo. Ele pousou sua xícara na mesa de centro entre nós.
— Você não se lembra de ter me ligado para vir? — perguntou ele.
— Não — respondi. — Quando?
A resposta dele me fez gelar.
— Esta manhã. Quando telefonei para contar onde encontrar o seu diário.
Eu não conseguia me lembrar de ele haver me ligado de manhã, e ainda não consigo, mesmo agora, depois que ele já foi embora.
Pensei em outras coisas que eu havia anotado. Um prato de melão que eu não conseguia me lembrar. Um biscoito que eu não havia pedido.
— Não me lembro — falei. A sensação de pânico começou a aumentar dentro de mim.
A preocupação varou o rosto dele.
— Você dormiu hoje? Mais do que um simples cochilo?
— Não — respondi —, não. De jeito nenhum. Simplesmente não consigo
me lembrar. Quando foi isso? Quando?
— Christine — disse ele. — Calma. Provavelmente não é nada.
— Mas e se... eu não...
— Christine, por favor. Não quer dizer nada. Você apenas se esqueceu, é tudo. Todo mundo esquece as coisas às vezes.
— Mas conversas inteiras? Isso deve ter sido apenas duas horas atrás!
— Sim — concordou ele. Falava suavemente, tentando me acalmar, porém não se mexeu. — Mas você passou por muita coisa ultimamente.
Sua memória sempre foi variável. Esquecer uma coisa não significa que você está piorando, que não vai melhorar de novo. Certo? — Assenti, tentando acreditar nele, desesperada por acreditar. — Você me pediu que viesse até aqui porque queria falar com a Claire, mas não tinha certeza se seria capaz. E queria que eu falasse com Ben em seu lugar.
— Queria?
— Sim. Você disse que não achava que conseguiria fazê-lo sozinha.
Olhei para ele, pensei em todas as coisas que eu havia escrito. Percebi que não acreditava nele. Devo ter encontrado o meu diário sozinha. Não pedi que ele viesse até aqui hoje. Não queria que ele falasse com Ben. Por que iria querer, quando tinha decidido não contar nada a Ben por enquanto? E
por que eu lhe contaria que precisava de sua presença aqui para me ajudar a falar com Claire, se eu já tinha telefonado para ela e deixado um recado?
“Ele está mentindo.” Fiquei pensando em que outros motivos ele poderia ter para aparecer aqui. O que ele talvez não se sentisse capaz de me contar.
Não tenho memória, mas não sou idiota.
— Qual é o verdadeiro motivo de você estar aqui? — perguntei. Ele se remexeu na cadeira. Provavelmente queria dar apenas uma olhada dentro da casa onde moro. Ou provavelmente queria me ver, uma vez mais, antes de eu falar com Ben. — Está com medo de que Ben não me deixe ver você depois que eu contar a ele sobre nós dois?
Outro pensamento me ocorre. Talvez ele não esteja escrevendo artigo nenhum. Talvez tenha outras razões para querer passar tanto tempo comigo. Afasto isso da minha mente.
— Não — disse ele. — Não é isso mesmo. Vim porque você me pediu que viesse. Além do mais, você decidiu não contar a Ben que está se consultando comigo. Até falar com Claire. Lembra?
Balancei a cabeça. Não lembrava. Não sabia do que ele estava falando.
— Claire está trepando com meu marido — falei.
Ele pareceu chocado.
— Christine — disse ele. — Eu...
— Ele está me tratando como uma idiota — continuei. — Mentindo para
mim sobre tudo. Bom, eu não sou idiota.
— Eu sei que você não é idiota — disse ele. — Mas não acho que...
— Eles estão trepando há anos — interrompi. — Isso explica tudo.
Porque ele me diz que ela se mudou. Porque eu não a vejo, muito embora ela supostamente seja a minha melhor amiga.
— Christine — disse ele. — Você não está pensando direito. — Ele veio se sentar ao meu lado no sofá. — Ben ama você. Eu sei. Falei com ele, quando queria convencê-lo a me deixar ver você. Ele foi totalmente fiel.
Totalmente. Disse que já havia perdido você uma vez e que não queria perdê-la de novo. Que havia assistido ao seu sofrimento todas as vezes que tentavam tratar você e não poderia mais vê-la sofrer. Ele ama você. Isso é óbvio. Está tentando protegê-la. Da verdade, suponho eu.
Pensei no que eu tinha lido de manhã. Sobre o divórcio.
— Mas ele me deixou. Para ficar com ela.
— Christine — disse o Dr. Nash. — Você não está raciocinando. Se fosse verdade, por que ele a traria de volta? De volta para cá? Ele teria simplesmente abandonado você em Waring House. Mas não foi o que ele fez. Ele cuida de você. Todos os dias.
Senti-me entrar em colapso, dobrar-me ao meio. Senti como se entendesse suas palavras, mas ao mesmo tempo não compreendesse. Senti o calor que emanava do seu corpo, vi a bondade em seus olhos. Ele sorriu quando olhei para ele. Ele pareceu ficar maior, até o seu corpo ser a única coisa que eu conseguia ver, sua respiração a única coisa que eu conseguia ouvir. Ele falou, mas não ouvi o que disse. Ouvi apenas uma única palavra.
Amor.
Não tencionava fazer o que fiz. Não planejei nada. Aconteceu de repente; minha vida se deslocou como uma tampa dura que de repente cede. Em um instante, tudo o que senti foram meus lábios sobre os dele, meus braços ao redor do seu pescoço. Seu cabelo estava úmido e eu não entendi nem quis entender por quê. Queria falar, dizer a ele o que eu sentia, mas não o fiz, porque fazê-lo seria ter de parar de beijá-lo, encerrar o momento que eu desejava que durasse para sempre. Eu me sentia mulher, finalmente. No controle. Embora eu deva ter feito isso, não lembro — não escrevi — de nenhuma outra vez em que tenha beijado alguém que não fosse o meu marido; podia muito bem ser a primeira vez.
Não sei quanto durou. Não sei nem mesmo como aconteceu, como passei de estar ali sentada no sofá ao lado dele, diminuída, tão pequena que sentia que poderia desaparecer, a começar a beijá-lo. Não me lembro de resolver fazer isso, o que não quer dizer que não me lembre de querer fazê-lo. Não lembro de como começou. Lembro apenas que passei de um estado a outro, sem nada no meio, sem nenhuma oportunidade para pensar
de modo consciente, nenhuma decisão.
Ele não me afastou com grosseria. Foi gentil. Teve essa consideração, pelo menos. Não me insultou perguntando o que eu estava fazendo, muito menos o que eu achava que estava fazendo. Simplesmente retirou seus lábios dos meus, depois minhas mãos de seus ombros, onde elas haviam pousado, e disse em voz baixa:
— Não.
Fiquei estupefata. Com o que eu havia feito? Ou com a reação dele?
Não sei dizer. Senti apenas que, por um momento, eu estive em outro lugar, e uma nova Christine entrou em cena, assumiu o controle completamente, e depois desapareceu. Não fiquei horrorizada, porém. Nem mesmo desapontada. Fiquei feliz. Feliz porque, por causa dela, algo havia acontecido.
Ele olhou para mim.
— Desculpe — disse, e eu não consegui saber o que ele estava sentindo.
Raiva? Pena? Arrependimento? Qualquer uma dessas coisas era possível.
Talvez a expressão que vi tenha sido uma mistura das três. Ele, que ainda segurava as minhas mãos, colocou-as de volta no meu colo, depois as soltou. — Desculpe, Christine — repetiu.
Eu não sabia o que dizer. O que fazer. Fiquei em silêncio, prestes a me desculpar, e então eu disse:
— Ed. Eu amo você.
Ele fechou os olhos.
— Christine — começou a dizer —, eu...
— Por favor — interrompi. — Não. Não me diga que você não sente o mesmo. — Ele franziu a testa. — Você sabe que também me ama.
— Christine — disse ele. — Por favor, você está... você está...
— O quê? — falei. — Louca?
— Não. Confusa. Você está confusa.
Ri.
— Confusa?
— Sim — disse ele. — Você não me ama. Lembra-se do que falamos sobre a confabulação? É bastante comum em pessoas que...
— Ah. Eu sei. Eu lembro. Com pessoas que não têm memória. É isso o que você acha que é?
— É possível. Perfeitamente possível.
Então eu o odiei. Ele achava que sabia tudo, que me conhecia melhor do que eu mesma. E só o que ele conhecia de verdade era a minha doença.
— Não sou idiota — falei.
— Eu sei. Sei disso, Christine. Não acho que você seja. Só acho que...
— Você deve me amar.
Ele suspirou. Agora eu o estava frustrando. Acabando com a paciência dele.
— Que outro motivo você teria para vir me ver com tanta frequência?
Para dirigir comigo por Londres, para cima e para baixo? Você faz isso com todos os pacientes?
— Sim — começou ele, mas depois: — Bem, não. Não exatamente.
— Então por quê?
— Estou tentando ajudá-la — respondeu o Dr. Nash.
— Só isso?
Uma pausa, então ele disse:
— Bem, não. Estou escrevendo um artigo, também. Um artigo científico...
— Me analisando?
— Mais ou menos — disse ele.
Tentei afastar da mente o que ele estava dizendo.
— Mas você não me contou que eu e Ben estamos separados — falei.
— Por quê? Por que não contou?
— Eu não sabia! — exclamou ele. — Só por isso. Não estava em seus arquivos e Ben não me contou. Eu não sabia!
Fiquei em silêncio. Ele se mexeu, como se fosse segurar minhas mãos novamente, depois parou e coçou a testa.
— Eu teria lhe contado — disse ele. — Se soubesse.
— Teria mesmo? Assim como me contou sobre Adam?
Ele pareceu magoado.
— Christine, por favor.
— Por que você o escondeu de mim? Você é tão mau quanto Ben!
— Meu Deus, Christine — disse ele. — Nós já conversamos sobre isso.
Fiz o que eu achei que era melhor. Ben não estava lhe contando a respeito de Adam. Eu não podia contar. Não seria certo. Não seria ético.
Eu ri. Um riso vazio, de desdém.
— Ético? O que tem de ético em esconder a existência dele de mim?
— Cabia a Ben decidir se iria ou não contar sobre Adam. Não a mim.
Sugeri que você escrevesse um diário, porém. Para que pudesse anotar o que descobrisse. Achei que seria o melhor.
— E quanto ao ataque? Para você estava ótimo se eu continuasse pensando que fui atropelada!
— Christine, não. Não estava. Ben é quem lhe disse isso. Eu não sabia que ele estava dizendo isso a você. Como poderia saber?
Pensei no que eu havia visto. Banhos de imersão perfumados a flor de laranjeira e mãos ao redor da minha garganta. A sensação de não conseguir respirar. O homem cujo rosto continuava sendo um mistério. Comecei a
chorar.
— Então por que você me contou, afinal? — perguntei.
Ele falou com bondade, mas ainda sem me tocar.
— Eu não contei — respondeu. — Não contei a você que tinha sido atacada. Isso você lembrou sozinha. — Ele tinha razão, é claro. Senti raiva.
— Christine, eu...
— Quero que você vá embora — falei. — Por favor. — Eu estava aos prantos agora, porém me sentia curiosamente viva. Não sabia o que havia acabado de acontecer, mal conseguia me lembrar do que havíamos conversado, mas tive a sensação de que algum peso horroroso havia sido retirado dos meus ombros, que alguma represa dentro de mim finalmente rompera.
— Por favor — repeti. — Por favor, vá embora.
Esperei que ele fosse discutir. Implorar para que eu o deixasse ficar.
Quase desejei que ele o fizesse. Mas ele não o fez.
— Tem certeza? — perguntou.
— Sim — respondi num sussurro. Eu me virei para a janela, determinada a não olhar mais para ele. Não hoje, o que para mim significa que talvez amanhã eu jamais chegue a vê-lo novamente. Ele se levantou, caminhou até a porta.
— Ligo para você — disse ele. — Amanhã? Seu tratamento. Eu...
— Saia — pedi. — Por favor.
Ele não disse mais nada. Ouvi a porta se fechar atrás dele.
Fiquei ali sentada durante algum tempo. Alguns minutos? Horas? Não sei.
Meu coração pulava. Eu me sentia vazia e sozinha. Em algum momento acabei indo para o primeiro andar. No banheiro olhei as fotos. Meu marido.
Ben. “O que foi que eu fiz?” Não tenho mais nada, agora. Ninguém em quem confiar. Ninguém com quem contar. Minha mente disparou, descontroladamente. Eu não parava de pensar no que o Dr. Nash tinha dito.
“Ele ama você. Está tentando protegê-la.”
Me proteger do quê, porém? Da verdade. Eu achava que a verdade era mais importante do que qualquer outra coisa. Talvez eu esteja errada.
Entrei no escritório. Ben mentiu sobre tanta coisa que não há nada que ele tenha me dito em que eu consiga acreditar. Nada.
Sabia o que precisava fazer. Eu precisava saber. Saber que eu podia confiar nele pelo menos nisso.
A caixa estava no lugar que eu havia descrito, trancada, como eu desconfiava. Não fiquei chateada.
Comecei a procurar. Eu disse a mim mesma que só iria parar depois que encontrasse a chave. Primeiro procurei no escritório. Nas outras
gavetas, na mesa. Metodicamente. Recoloquei tudo de volta no mesmo lugar onde eu havia encontrado e depois que terminei fui até o quarto. Olhei nas gavetas, embaixo das cuecas dele, dos lenços bem passados, dos coletes e das camisetas. Nada, e nada nas gavetas que eu usava, também.
Havia gavetas nas mesas de cabeceira. Eu pretendia procurar em cada uma, a começar pelo lado de Ben. Abri a gaveta de cima e vasculhei seu conteúdo — canetas, um relógio de pulso parado, uma cartela de comprimidos que não reconheci — antes de abrir a gaveta de baixo.
De início achei que estava vazia. Fechei-a devagar, mas ao fazer isso ouvi um minúsculo tilintar de metal contra a madeira. Voltei a abri-la, com o coração já batendo rápido.
Uma chave.
Eu me sentei no chão com a caixa aberta. Estava cheia. Fotos, em sua maioria. Fotos minhas com Adam. Algumas pareciam familiares — acho que eram aquelas que ele já havia me mostrado antes —, mas muitas não.
Encontrei sua certidão de nascimento, a carta que Adam escreveu para o Papai Noel. Maços de fotos dele bebê — engatinhando, sorrindo para a câmera, mamando no meu peito, dormindo enrolado em um cobertor verde
— e em todas as etapas do crescimento. A foto dele vestido de caubói, as fotos da escola, o triciclo. Elas estavam todas ali, exatamente como eu as havia descrito em meu diário.
Eu retirei todas e as espalhei pelo chão, olhando para cada uma. Havia fotos de Ben comigo também; uma em que estamos na frente do Parlamento, sorrindo, mas de modo estranho, como se nenhum dos dois soubesse da existência do outro; outra do nosso casamento, uma foto formal. Estamos na frente de uma igreja sob o céu nublado. Parecemos felizes, ridiculamente felizes, e parecemos ainda mais felizes em outra foto que deve ter sido tirada depois, em nossa lua de mel. Estamos em um restaurante, sorrindo, inclinados sobre um prato pela metade, com os rostos corados de amor e de sol.
Olhei para a foto e o alívio começou a tomar conta de mim. Olhei para a foto da mulher ali sentada com seu novo marido, olhando para um futuro que ela não podia e não desejava prever, e pensei no quanto compartilho com ela. Mas é tudo físico. Células e tecidos. DNA. Nossa assinatura química. Porém nada mais além disso. Ela é uma desconhecida. Não há nada que a ligue a mim, nenhuma linha de carretel que eu possa seguir para voltar a ela.
E contudo ela sou eu, e eu, ela, e pude ver que ela estava apaixonada.
Por Ben. Pelo homem com quem tinha acabado de se casar. O homem com quem ainda acordo, todos os dias. Ele não rompeu os votos que fez naquele
dia na capelinha em Manchester. Não me desapontou. Olhei para a foto e o amor brotou novamente dentro de mim.
Estava ali. No fundo da caixa, dentro de um envelope. Uma xerox de um artigo de jornal, dobrada, com as pontas bem lisas. Eu sabia o que era, quase antes mesmo de abri-la, mas mesmo assim tremi ao ler. Soldado britânico que morreu escoltando tropas na província de Helmand, Afeganistão, foi identificado pelo Ministério da Defesa. Adam Wheeler, dizia a matéria, tinha 19 anos. Nascido em Londres... Presa com clipe havia uma foto. Flores, arrumadas sobre uma sepultura. A lápide dizia: Adam Wheeler, 1987-2006.
A tristeza me atingiu, então, com uma força que duvido jamais ter sido tamanha. Deixei o papel cair e me dobrei cheia de dor, tanta que era demais até para chorar, e emiti um som quase idêntico ao uivo de um animal ferido, faminto, rezando para o seu fim chegar. Fechei os olhos e então vi. Um flash momentâneo. Uma imagem pairando à minha frente, cintilante. Uma medalha entregue a mim em uma caixa de veludo preta.
Um caixão, uma bandeira. Afastei o olhar daquilo e rezei para que aquela imagem jamais voltasse. Há lembranças que é melhor não ter. Coisas que é melhor perder para sempre.
Comecei a guardar os papéis. Eu devia ter confiado nele, pensei. Desde o início. Devia ter acreditado que ele estava escondendo as coisas de mim somente porque são dolorosas demais para que eu as enfrente de novo todos os dias. Ele só estava tentando me poupar disso, dessa verdade brutal. Guardei as fotos, os documentos, coloquei tudo como eu havia encontrado. Me senti satisfeita. Devolvi a caixa ao porta-arquivos, a chave à gaveta. Agora posso olhar sempre que eu quiser, pensei. Tanto quanto eu quiser.
Havia mais uma coisa que eu ainda precisava fazer. Tinha de descobrir por que Ben havia me deixado. E tinha de descobrir o que havia ido fazer em Brighton todos aqueles anos atrás. Precisava saber quem havia roubado a minha vida de mim. Precisava tentar uma vez mais.
Pela segunda vez hoje, disquei o número de Claire.
Estática. Silêncio. Então dois toques. Ela não vai atender, pensei. Não respondeu minha mensagem, afinal de contas. Tem algo a esconder, algo a encobrir de mim.
Quase fiquei feliz. Aquela era uma conversa que eu queria ter apenas em teoria. Não via como poderia ser outra coisa que não dolorosa. Me preparei para outro convite impessoal para deixar recado.
Um clique. Depois uma voz.
— Alô? — Era Claire. Eu soube, instantaneamente. Sua voz parecia tão
familiar quanto a minha. — Alô? — repetiu ela.
Eu não disse nada. As imagens me inundaram, em flashes. Vi o rosto dela, de cabelo curto, usando uma boina. Rindo. Eu a vi num casamento — o meu, suponho, embora não possa ter certeza — com um vestido verde-esmeralda, servindo champanhe. Eu a vi segurando um menino nos braços e entregando-o para mim com as palavras “Hora do jantar!” Eu a vi sentada à beira de uma cama, conversando com a pessoa ali deitada, e percebi que a pessoa era eu.
— Claire? — falei.
— Hã-hã — respondeu ela. — Alô? Quem é?
Tentei me concentrar, lembrar a mim mesma de que nós duas já tínhamos sido melhores amigas, não importa o que tenha acontecido anos atrás. Tive uma visão dela deitada na minha cama, com uma garrafa de vodca, rindo, me dizendo que os homens são “uns ridículos”.
— Claire? — repeti. — Sou eu. Christine.
Silêncio. O momento se alongou tanto que pareceu durar uma eternidade. Primeiro achei que ela não iria falar nada, que tinha esquecido quem eu era, ou que não queria falar comigo. Fechei os olhos.
— Chrissy! — exclamou. Uma explosão. Eu a ouvi engolir em seco, como se estivesse comendo algo. — Chrissy! Meu Deus. Querida, é você mesmo?
Abri os olhos. Uma lágrima tinha começado sua longa descida pelas linhas não familiares do meu rosto.
— Claire? — falei. — Sim. Sou eu. É a Chrissy.
— Meu Deus do céu. Puta que o pariu — disse ela, e depois de novo: —
Puta que o pariu! — A voz dela era baixa. — Roger! Rog! É a Chrissy! No telefone! — Em voz subitamente alta, ela disse: — Como você está? Onde você está? — E depois: —Roger!
— Ah, estou em casa — respondi.
— Casa?
— Sim.
— Com Ben?
Eu me senti subitamente defensiva.
— Sim — falei. — Com Ben. Você recebeu o meu recado?
Ouvi uma inspiração. Surpresa? Ou ela estava fumando?
— Hã-hã! Eu teria ligado de volta, mas você não deixou seu número. —
Ela hesitou, e por um momento me perguntei que outros motivos ela teria para não retornar a minha ligação. Ela prosseguiu. — Enfim, como você está, querida? É tão bom ouvir a sua voz! — Eu não sabia o que responder, e quando não disse nada, Claire falou: — Onde você está morando?
— Não sei ao certo. — Senti uma onda de prazer, certa de que a
pergunta dela significava que ela não estava saindo com Ben, seguida pela compreensão de que ela poderia estar me perguntando isso para que eu não suspeitasse de nada. Eu queria muito confiar nela — saber que Ben não havia me deixado por causa de algo que viu nela, algum amor que substituísse aquele que foi tomado de mim — porque isso significaria que eu poderia também confiar no meu marido. — Crouch End?
— Certo — disse ela. — Então como está tudo? Como vão as coisas?
— Bem, você sabe — falei —, não consigo me lembrar de porcaria nenhuma.
Nós duas rimos. Foi uma sensação boa, essa erupção de uma emoção que não era tristeza, mas durou pouco, seguida pelo silêncio.
— Você parece bem — disse ela depois de algum tempo. — Bem mesmo. — Contei que eu estava escrevendo de novo. — Sério? Uau.
Demais. O que está escrevendo? Um romance?
— Não — falei. — Seria meio difícil escrever um romance quando não consigo me lembrar de nada de um dia para o outro. — Silêncio. — Estou apenas escrevendo sobre o que está acontecendo comigo.
— Certo — disse ela, depois nada. Fiquei pensando que talvez ela não entendesse completamente a minha situação e tive medo do tom dela.
Pareceu frio. Imaginei como as coisas haviam ficado na última vez que nos vimos. — E aí, como você tem passado? — perguntou ela.
O que dizer? Senti um ímpeto de deixar que ela visse o meu diário, deixar que o lesse, mas obviamente eu não podia fazer isso. Ou pelo menos ainda não. Parecia haver tanto a dizer, havia tanto que eu queria saber.
Minha vida inteira.
— Não sei — respondi. — É difícil...
Eu devo ter soado chateada, porque ela disse:
— Chrissy, querida, qual é o problema?
— Nada — falei. — Estou bem. Só... — A frase morreu.
— Querida?
— Não sei. — Pensei no Dr. Nash, nas coisas que eu tinha dito a ele.
Poderia eu ter certeza de que ele não iria falar com Ben? — É que me sinto confusa. Acho que fiz uma burrice.
— Ah, tenho certeza de que isso não é verdade. — Outro silêncio (um cálculo?) e depois ela disse: — Escute. Posso falar com Ben?
— Ele saiu — respondi. Eu me senti aliviada por nossa conversa parecer ter passado a algo concreto, factual. — Está no trabalho.
— Certo — disse Claire. Silêncio novamente. A conversa pareceu subitamente absurda.
— Preciso ver você — falei.
— “Preciso”? — repetiu ela. — E não “quero”?
— Não — comecei a dizer. — Obviamente eu quero...
— Relaxe, Chrissy — disse ela. — Estou brincando. Quero ver você também. Estou morrendo de vontade.
Eu me senti aliviada. Estivera pensando que a nossa conversa talvez vacilasse até parar, acabasse com uma despedida educada e a vaga promessa de nos falarmos de novo outro dia, e então outra avenida para o meu passado se trancaria para sempre.
— Obrigada — falei. — Obrigada.
— Chrissy — disse ela. — Senti tanto a sua falta. Todos os dias. Todo santo dia esperei que esse maldito telefone tocasse, torcendo para que fosse você, mas sem nunca sequer imaginar por um segundo que seria mesmo. — Ela fez uma pausa. — Como... como está sua memória agora?
Quanto você sabe?
— Não sei direito — falei. — Mais do que antes, acho. Mas ainda não me lembro de muita coisa. — Pensei em todas as coisas que eu havia anotado, todas as imagens minhas e de Claire. — Eu me lembro de uma festa — continuei. — Fogos de artifício no terraço de um prédio. Você pintando. Eu estudando. Mas nada depois disso, na verdade.
— Ah! — exclamou ela. — A grande noite! Meu Deus, isso parece ter sido há tanto tempo! Preciso atualizar você quanto a um monte de coisas.
Um monte.
Não entendi o que ela quis dizer, mas não perguntei. Isso pode esperar, pensei. Há coisas mais importantes que preciso saber.
— Você alguma vez chegou a se mudar? — indaguei. — Para fora do país?
Ela riu.
— Sim. Por uns seis meses. Conheci um cara, anos atrás. Foi um desastre.
— Para onde? — perguntei. — Para onde você foi?
— Barcelona — respondeu ela. — Por quê?
— Ah — falei —, por nada. — Me senti na defensiva, constrangida por não saber esses detalhes da vida da minha amiga. — Foi só algo que alguém me disse. Que você tinha ido para a Nova Zelândia. Devem ter se enganado.
— Nova Zelândia? — disse ela, rindo. — Que nada. Nunca fui para lá.
Jamais.
Então Ben tinha mentido sobre isso, também. Eu ainda não sabia por que, não conseguia imaginar um motivo para ele sentir a necessidade de remover Claire completamente da minha vida. Seria como tudo o mais sobre o que ele mentiu, ou escolheu não me contar? Seria para o meu próprio bem?
Era mais uma coisa que eu teria de perguntar a ele, quando tivéssemos a conversa que eu sabia que precisávamos ter. Quando eu contasse a ele tudo o que eu sei — e como descobri.
Falamos mais um pouco, nossa conversa pontuada por longas lacunas e falações desesperadas. Claire me contou que havia se casado, depois se divorciado, e que agora morava com Roger.
— Ele é acadêmico — disse ela. — Da área de Psicologia. O maldito quer que eu me case com ele, algo que eu não tenho a mínima pressa de fazer. Mas eu o amo.
Era bom conversar com ela, escutar sua voz. Parecia fácil, familiar.
Quase como voltar para casa. Ela exigia pouco, parecia entender que eu tinha pouco a oferecer. No fim ela parou e pensei que talvez estivesse prestes a se despedir. Percebi que nenhuma de nós havia mencionado Adam.
— Então — disse ela, em vez disso. — Me conte sobre Ben. Há quanto tempo vocês estão, bem...?
— Juntos? — completei. — Não sei. Eu nem sabia que havíamos nos separado.
— Tentei ligar para ele — disse ela.
Fiquei tensa, embora eu não soubesse dizer por quê.
— Quando?
— Hoje à tarde, depois que você ligou. Achei que ele é quem devia ter lhe dado o meu telefone. Ele não atendeu, mas afinal, só tenho um número antigo do trabalho dele. Me disseram que ele não trabalha mais lá.
Senti um medo espreitar. Olhei ao redor do quarto, estranho e hostil.
Tive certeza de que ela estava mentindo.
— Vocês dois se falam com frequência? — perguntei.
— Não. Ultimamente, não. — Um novo tom surgiu em sua voz.
Sussurrado. Eu não gostei daquilo. — Faz alguns anos que não. — Ela hesitou. — Fiquei tão preocupada com você.
Senti medo. Medo de que Claire dissesse a Ben que eu havia ligado para ela antes que eu tivesse a chance de conversar com ele.
— Por favor, não ligue para ele — pedi. — Por favor, não conte que liguei para você.
— Chrissy! — exclamou ela. — Mas por que não?
— Simplesmente prefiro assim.
Ela deu um longo suspiro, depois pareceu brava.
— Olha aqui, que diabos está acontecendo?
— Posso explicar — falei.
— Tente.
Não consegui me obrigar a mencionar Adam, mas contei sobre o Dr.
Nash, sobre a lembrança no quarto de hotel e sobre como Ben insiste em dizer que eu sofri um acidente de carro.
— Acho que ele não me conta a verdade porque sabe que isso vai me chatear — eu disse. Ela não respondeu. — Claire? — falei. — O que eu poderia estar fazendo em Brighton?
O silêncio se alongou entre nós.
— Chrissy — disse ela —, se você quer mesmo saber, então eu vou lhe contar. Ou o que eu sei, pelo menos. Mas não pelo telefone. Quando a gente se encontrar. Prometo.
A verdade. Ela pairava à minha frente, cintilando, tão próxima que era quase possível estender a mão e pegá-la.
— Quando você pode vir me ver? — perguntei. — Hoje? Esta noite?
— Prefiro não encontrar você na sua casa — respondeu ela. — Se você não se importa.
— Por que não?
— Só acho que... bom... é melhor a gente se encontrar em outro lugar.
Posso convidar você para um café?
Havia certa jovialidade na voz dela, mas parecia forçada. Falsa. Imaginei que ela estaria com medo, mas respondi:
— Tudo bem.
— No Alexandra Palace? — disse ela. — Tudo bem para você? É fácil chegar lá saindo de Crouch End.
— Tudo bem — respondi.
— Legal. Sexta? Encontro você às 11. Combinado?
Eu disse que sim. Tinha de concordar.
— Tudo bem — falei.
Ela me disse quais ônibus pegar e anotei os detalhes em uma folha de papel. Então, depois que conversamos por mais alguns minutos, nos despedimos, e eu peguei meu diário e comecei a escrever.
— Ben? — falei, quando ele chegou em casa. Ele estava sentado no sofá da sala, lendo o jornal. Parecia cansado, como se não tivesse dormido direito.
— Você confia em mim? — perguntei.
Ele levantou os olhos do jornal. Seus olhos cintilaram ao reviverem, acesos com amor, mas também com algo mais. Algo que parecia quase medo. Não era de espantar, suponho; essa pergunta em geral é feita antes de uma confissão de que essa confiança foi um erro. Ele afastou o cabelo da testa.
— Claro que sim, querida — respondeu. Ele se aproximou e se acomodou no braço da poltrona onde eu estava, tomando uma de minhas mãos entre as suas. — É claro.
De repente não tive certeza se desejava continuar.
— Você conversa com Claire?
Ele olhou para baixo, para os meus olhos.
— Claire? — repetiu. — Você se lembra dela?
Eu tinha esquecido que até pouco tempo — até a lembrança da festa dos fogos de artifício, na verdade — Claire não existia para mim.
— Vagamente — respondi.
Ele olhou para o outro lado, para o relógio sobre a lareira.
— Não — disse ele. — Acho que ela se mudou. Anos atrás.
Me encolhi, como se sentisse dor.
— Tem certeza? — perguntei.
Não conseguia acreditar que ele continuava mentindo para mim. Parecia pior que ele mentisse sobre isso do que mentisse sobre tudo o mais. Isso, com certeza, seria algo sobre o que não havia por que não ser sincero, não é? O fato de Claire ainda morar na cidade não me causaria nenhum sofrimento, poderia inclusive ser algo que — caso eu a visse — ajudasse a minha memória a melhorar. Então por que a desonestidade? Um pensamento sombrio entrou em minha cabeça — a mesma suspeita negra
—, mas eu a afastei.
— Tem certeza? Para onde ela foi? — Me conte, pensei. Ainda não é tarde demais.
— Não lembro direito — falou ele. — Para a Nova Zelândia, acho. Ou para a Austrália.
Senti a esperança se afastar ainda mais, mas sabia o que eu precisava fazer:
— Tem certeza? — perguntei, e joguei verde. — Tenho a vaga lembrança de que ela uma vez me disse que estava pensando em se mudar para Barcelona, morar lá algum tempo. Anos e anos atrás, deve ter sido. —
Ele não disse nada. — Tem certeza de que ela não foi para lá?
— Você se lembrou disso? — perguntou ele. — Quando?
— Não sei — respondi. — É só uma impressão.
Ele apertou a minha mão. Me consolando.
— Provavelmente é só sua imaginação.
— Mas parecia tão real. Tem certeza de que não foi Barcelona?
Ele suspirou.
— Não. Barcelona, não. Definitivamente ela foi para a Austrália.
Adelaide, acho. Não tenho certeza. Foi há muito tempo. — Ele balançou a cabeça. — Claire — disse, sorrindo. — Não penso nela há anos. Há anos e
anos e anos.
Fechei os olhos. Quando eu os abri, ele estava sorrindo para mim.
Quase parecia idiota. Patético. Tive vontade de esbofeteá-lo.
— Ben — falei, com a voz pouco mais que um sussurro. — Eu falei com ela.
Eu não sabia como ele iria reagir. Ele não fez nada, era como se eu não tivesse dito nada, mas então seus olhos cintilaram.
— Quando? — perguntou. Sua voz era dura como vidro.
Ou eu contava a verdade, ou admitia que estivera escrevendo a história dos meus dias.
— Esta tarde — falei. — Ela me ligou.
— Ela ligou para você? — disse ele. — Como? Como ela ligou para você?
Decidi mentir.
— Ela disse que você tinha dado o meu telefone para ela.
— Que telefone? Ridículo! Como poderia ter feito isso? Tem certeza de que era ela?
— Ela disse que vocês se falavam de vez em quando. Até recentemente.
Ele soltou minha mão e ela caiu sobre o meu colo, um peso morto. Ele se levantou, girando até me encarar.
— Ela disse o quê?
— Ela me contou que vocês dois mantinham contato. Até alguns anos atrás.
Ele se inclinou para perto. Senti cheiro de café em seu hálito.
— Essa mulher simplesmente ligou para você do nada? Tem certeza de que era ela mesmo?
Revirei os olhos.
— Ora, Ben! Quem mais poderia ser? — Sorri. Nunca achei que essa conversa seria fácil, mas ela parecia estar repleta de uma seriedade de que eu não gostei.
Ele deu de ombros.
— Você não sabe, mas já houve gente que tentou se aproximar de você, há tempos. A imprensa. Jornalistas. Pessoas que leram a seu respeito, sobre o que aconteceu, e que queriam o seu lado da história, ou simplesmente só para bisbilhotar e descobrir o quanto você está mesmo mal, ou ver o quanto mudou. Já fingiram ser outras pessoas antes, só para fazer você falar. Médicos. Psicólogos que acham que podem ajudar você.
Homeopatia. Medicina alternativa. Até curandeiros.
— Ben — falei. — Ela foi minha melhor amiga durante anos. Eu reconheci a voz dela. — O rosto dele desabou, derrotado. — Você andou
conversando com ela, não foi? — Notei que ele estava abrindo e fechando a mão direita, fechando-a num punho e depois tornando a abri-la. — Ben? —
repeti.
Ele olhou para cima. Seu rosto estava vermelho, seus olhos, úmidos.
— Certo — disse ele. — Certo. Eu falei com Claire. Ela me pediu para manter contato com ela, para contar como você estava. Nós nos falamos uma vez há algum tempo, brevemente.
— Por que você não me contou? — Ele não respondeu. — Ben. Por quê?
— Silêncio. — Você simplesmente decidiu que era mais fácil afastá-la de mim? Fingir que ela tinha se mudado? É isso? Assim como você fingiu que eu não escrevi um livro?
— Chris — começou ele. Então: — O quê...?
— Não é justo, Ben — falei. — Você não tem o direito de guardar essas coisas para si. De me contar mentiras só porque é mais fácil para você.
Não tem o direito.
Ele se levantou.
— Mais fácil para mim?— disse ele, aumentando o tom. — Mais fácil para mim? Você acha que eu lhe contei que Claire mora no exterior porque era mais fácil para mim? Você está errada, Christine. Errada. Nada disso é fácil para mim. Nada disso. Não conto que você escreveu um livro porque não consigo suportar lembrar o quanto você desejava escrever o próximo, nem ver sua dor quando percebe que jamais irá fazer isso. Eu lhe disse que Claire mora no exterior porque não consigo suportar ouvir a dor na sua voz quando você percebe que ela a abandonou naquele lugar. Que a abandonou lá à própria sorte, como todo mundo. — Ele aguardou uma reação. — Ela lhe contou isso? — perguntou ele quando nenhuma resposta veio, e pensei, não, ela não contou, e na verdade hoje li no meu diário que ela costumava me visitar sempre
Ele repetiu.
— Ela lhe contou isso? Que parou de visitar você quando percebeu que 15 minutos depois de sair você se esquecia da existência dela? Claro, ela pode ligar no Natal para saber como você está, mas fui eu quem ficou ao seu lado, Chris. Eu que visitava você todo santo dia. Eu que estava lá, eu que esperei, rezando para que você melhorasse o suficiente para que eu pudesse tirar você de lá e trazê-la para cá, para morar comigo, em segurança. Eu. Não menti para você porque era fácil para mim. Nunca se atreva a cometer o erro de achar que foi isso. Nunca!
Lembrei de ter lido o que o Dr. Nash me contou. Olhei dentro dos olhos de Ben. “Mas você não ficou”, pensei. “Você não ficou ao meu lado.”
— Claire me disse que você se divorciou de mim.
Ele parou, depois deu um passo para trás, como se houvesse levado um
soco. Sua boca se abriu, depois se fechou. Foi quase cômico. Por fim, uma única palavra escapou.
— Piranha.
Seu rosto se derreteu em fúria. Achei que ele iria me bater, mas descobri que não me importava.
— Você se divorciou de mim? — perguntei. — É verdade?
— Querida...
Eu me levantei.
— Me conte — pedi. — Me conte! — Ficamos em pé de frente um para o outro. Eu não sabia o que ele iria fazer, não sabia o que eu queria que ele fizesse. Só sabia que precisava que ele fosse sincero. Que não me contasse mais mentiras. — Só quero a verdade.
Ele deu um passo para a frente e caiu de joelhos diante de mim, tentando segurar minhas mãos.
— Querida...
— Você se divorciou de mim? É verdade, Ben? Me diga! — Sua cabeça pendeu, depois ele olhou para mim, com os olhos arregalados, com medo.
— Ben! — gritei. Ele começou a chorar. — Ben. Ela me contou sobre Adam, também. Ela me disse que nós tivemos um filho. Eu sei que ele morreu.
— Desculpe — disse ele. — Lamento muito. Achei que era o melhor. —
E então, entre leves soluços, ele disse que me contaria tudo.
A luz havia sumido completamente, a noite havia substituído o crepúsculo.
Ben acendeu um abajur e nos sentamos, banhados por seu brilho róseo, um de frente para o outro, à mesa de jantar. Havia uma pilha de fotografias entre nós, as mesmas que eu havia visto antes. Fingi surpresa enquanto ele me passava cada uma, me contando sua origem. Ele se demorou nas fotos do nosso casamento — contando que dia lindo estava fazendo, como tinha sido especial, explicando como eu estava linda — mas então começou a ficar irritado.
— Nunca deixei de amar você, Christine — disse ele. — Você precisa acreditar nisso. Foi a sua doença. Você teve de ir para aquele lugar, e, bem... eu não pude... não pude suportar. Eu teria ido com você. Teria feito qualquer coisa para ter você de volta. Qualquer coisa. Mas eles... eles não...
eu não podia ver você... disseram que era o melhor.
— Quem? — perguntei. — Quem disse? — Ele ficou em silêncio. — Os médicos?
Ele olhou para mim. Estava chorando, os olhos bordejados de vermelho.
— Sim — disse ele. — Sim. Os médicos. Disseram que era melhor. Que era o único jeito... — Ele enxugou uma lágrima. — Fiz o que me pediram.
Antes não tivesse feito. Antes tivesse lutado por você. Fui fraco e burro. —
Sua voz se suavizou em um sussurro: — Parei de ver você, sim — disse ele —, mas foi pelo seu próprio bem. Embora isso quase tenha me matado, fiz isso por você, Christine. Você precisa acreditar em mim. Por você e pelo nosso filho. Mas eu nunca me separei de você. Não de verdade. Não aqui. — Ele se inclinou e segurou a minha mão, pressionando-a contra a camisa. — Aqui, sempre fomos casados. Sempre ficamos juntos. — Senti o algodão cálido, úmido de suor. As batidas rápidas do seu coração. Amor.
Fui tão boba, pensei. Eu me deixei pensar que ele fez essas coisas para me magoar, quando na verdade ele me diz que as fez por amor. Eu não deveria condená-lo. Deveria em vez disso tentar entender.