Antes de Dormir

S. J. Watson · Capítulo 13 de 19

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Antes de Dormir

Terça-feira, 20 de novembro

Eu sei que não posso parar agora. Não antes de descobrir a verdade. Eu devo isso a mim, de outra forma estarei vivendo apenas meia vida.

— Sim — falei. — Eu quero. — De qualquer forma, preciso dele para me lembrar de escrever no meu diário.

— Certo — disse ele. — Ótimo. Da próxima vez acho que deveríamos visitar outro lugar do seu passado. — Ele olhou para onde eu estava sentada. — Não se preocupe. Não aquele lugar. Acho que deveríamos visitar a casa de repouso para onde você foi transferida depois de sair da Ala Fisher. Ela se chama Waring House. — Eu não disse nada. — Não fica longe da sua casa. Posso ligar para eles?

Pensei por um instante, incerta do bem que isso poderia fazer, mas

depois percebi que não havia outra opção e que qualquer coisa seria melhor do que nada.

Respondi:

— Sim. Sim. Ligue para eles.

Terça-feira, 20 de novembro

É de manhã. Ben sugeriu que eu limpasse as janelas.

— Anotei no quadro — disse ele, enquanto entrava no carro. — Da cozinha.

O lhei. Limpar janelas, ele escrevera, acrescentando um ponto de interrogação hesitante. Será que ele achava que eu não teria tempo, será que se perguntava o que eu ficava fazendo o dia inteiro? Ele não sabe que agora passo horas lendo o meu diário, e às vezes horas escrevendo nele.

Ele não sabe que há dias em que me encontro com o Dr. Nash.

Não sei o que eu fazia antes de os meus dias serem preenchidos dessa maneira. Será que eu realmente passava todo o tempo vendo televisão, ou saindo para caminhadas, ou cuidando de tarefas domésticas? Será que passava horas e horas sentada na poltrona, ouvindo o tique-taque do relógio, me perguntando como viver?

Limpar janelas. Possivelmente alguns dias leio coisas como essa e sinto rancor, vendo aquilo como um esforço dele para controlar a minha vida, mas hoje olhei aquilo com afeição; não era nada mais sinistro do que o desejo de me manter ocupada. Sorri, mas, enquanto o fazia, pensei em como deve ser difícil morar comigo. Ele deve ter se esforçado extraordinariamente para garantir minha segurança, mas ainda assim deve se preocupar constantemente, com medo de que eu fique confusa, saia vagando por aí ou coisa pior. Eu me lembrei de que li sobre o incêndio que destruiu a maior parte do nosso passado, o incêndio que Ben jamais disse que fui eu quem comecei, muito embora provavelmente tenha sido. Vi uma imagem pairando quase ao meu alcance — uma porta em chamas, quase invisível sob a fumaça espessa, um sofá derretendo, virando cera —, mas me recusei em transformá-la numa recordação, e ela continuou sendo apenas um sonho meio imaginado. Porém, Ben me perdoou pelo incêndio, pensei, assim como deve ter me perdoado por tantas outras coisas. Olhei pela janela da cozinha e, atrás do reflexo do meu rosto, vi o gramado cortado, as sebes certinhas, o barracão, as cercas. Percebi que Ben devia saber que eu tive um caso — certamente depois que fui encontrada em Brighton, se não antes. Quanta força deve ter sido necessária para cuidar de mim depois que perdi a memória, ainda mais sabendo que quando tudo aconteceu eu estava fora de casa, planejando transar com outro. Pensei no que eu tinha visto, no diário que havia escrito. Minha mente ficara fraturada. Destruída. Mesmo assim ele ficou ao meu lado, quando outro homem talvez dissesse que eu merecia aquilo tudo e me abandonasse às moscas.

Dei as costas à janela e olhei embaixo da pia. Materiais de limpeza. Sabão, embalagens cartonadas, garrafas de plástico com gatilho de spray.

Havia um balde vermelho de plástico e eu o enchi de água quente, acrescentando um pouco de detergente e uma gota minúscula de vinagre. “E

eu, como retribuí?”, pensei. Apanhei uma esponja e comecei a ensaboar a janela, de cima para baixo. Me esgueirando por Londres, consultando médicos, fazendo vários exames, visitando nossas antigas casas e os lugares onde recebi tratamento depois do acidente, tudo sem contar nada a ele. E por quê? Porque não confio nele? Porque ele se dedicou a me proteger da verdade, de manter minha vida o mais simples e fácil possível?

Observei a água com sabão correr em pequeninos filetes e se acumular em poças lá embaixo, depois apanhei outro pano e poli o vidro até que ele ficasse brilhando.

Agora sei que a verdade é ainda pior. Esta manhã acordei com um sentimento quase exasperante de culpa, com as palavras Você devia ter vergonha de si mesma girando na minha cabeça. Você vai se arrepender. No começo achei que eu havia acordado com um homem que não era o meu marido e só depois descobri a verdade. Que eu o traí. Duas vezes. A primeira anos atrás, com um homem que acabaria por tirar tudo de mim, e agora novamente, com o coração se não com o resto. Desenvolvi uma paixonite ridícula e infantil por um médico que está tentando me ajudar, me confortar. Um médico cuja aparência nem sequer consigo imaginar agora, do qual não consigo recordar de ter visto antes, mas que sei que é bem mais jovem do que eu e tem namorada. E agora eu lhe disse o que sinto!

Sem querer, é verdade, mas mesmo assim eu disse. Eu me sinto mais do que culpada. Me sinto boba. Não posso nem começar a imaginar o que deve ter me levado a esse ponto. Sou patética.

Ali, enquanto limpava a vidraça, tomei uma decisão. Mesmo que Ben não compartilhe minha crença de que este tratamento vá funcionar, não posso crer que ele me negaria a chance de verificar por mim mesma. Não se for isso o que eu quero. Sou adulta, ele não é um monstro; estou certa de que posso confiar a verdade a ele, não é? Joguei a água na pia e enchi o balde de novo. Vou contar tudo ao meu marido. Esta noite. Quando ele voltar para casa. Isso não pode continuar. Continuei limpando as janelas.

Escrevi isso uma hora atrás, mas agora já não tenho mais tanta certeza.

Penso em Adam. Li a respeito das fotografias na caixa de metal, porém mesmo assim ainda não há nenhuma foto dele à mostra. Nenhuma. Não posso acreditar que Ben — que ninguém — perca um filho e depois remova todos os vestígios dele de sua casa. Não parece certo, não parece possível.

 

Poderia eu confiar em um homem capaz de fazer isso? Eu me lembrei de ler sobre o dia em que ficamos sentados em Parliament Hill, quando eu lhe perguntei isso diretamente. Ele mentiu. Folheio as páginas do meu diário agora e leio a passagem uma vez mais. “Nós não tivemos filhos?”, perguntei, e ele respondeu: “Não. Não, não tivemos.” Será que ele realmente fez isso apenas para me proteger? Poderia ele acreditar que essa é a atitude mais acertada? Não me contar nada além do necessário, do conveniente?

É o caminho mais rápido, também. Ele deve estar muito entediado de ter que repetir para mim a mesma coisa sem parar, todos os dias. Penso então que o motivo de ele abreviar as explicações e modificar as histórias não tem nada a ver comigo. Talvez seja para que ele mesmo não enlouqueça com a repetição incessante.

Sinto que estou ficando louca. Tudo é fluido, tudo é movediço. Penso uma coisa e então, um momento depois, imagino o contrário. Acredito em tudo o que meu marido diz e depois não acredito em nada. Confio nele, depois não.

Nada parece real, nada inventado. Nem eu mesma.

Gostaria de saber de uma coisa ao certo. Uma única coisa que não precisaram me contar, sobre a qual não precisei ser relembrada.

Gostaria de saber com quem eu estava, naquele dia em Brighton.

Gostaria de saber quem fez isso comigo.

Mais tarde. Acabei de falar com o Dr. Nash. Eu estava cochilando na sala de estar quando o telefone tocou. A televisão estava ligada, o som, baixinho.

Por um instante não soube onde eu estava, se estava acordada ou dormindo. Achei ter ouvido vozes que aumentavam de volume. Percebi que uma delas era a minha, e que a outra parecia ser a de Ben. Mas ele dizia

“Sua piranha desgraçada” e coisas piores. Gritei com ele. Estava com raiva, depois com medo. Uma porta bateu, sons de soco, vidro quebrando. Foi então que me dei conta de que eu estava sonhando.

Abri os olhos. Uma caneca lascada com café frio estava na mesa à minha frente e um telefone zumbia nervosamente ao lado dela. Aquele que abre. Apanhei-o.

Era o Dr. Nash. Ele se apresentou, embora sua voz já me parecesse familiar. Perguntou se eu estava bem. Eu disse que sim, e que havia lido o meu diário.

— Você sabe sobre o que conversamos ontem? — ele quis saber.

Senti um lampejo de choque. De horror. Ele havia decidido enfrentar as coisas, então. Senti um fio de esperança — talvez ele na verdade sentisse o mesmo que eu, a mesma mistura confusa de desejo e medo —, mas não durou.

— Sobre visitar o lugar onde você morou depois de sair da ala psiquiátrica? — continuou ele. — Waring House?

Respondi:

— Sim.

— Bem, eu liguei para eles esta manhã. Está tudo acertado. Podemos fazer uma visita. Eles disseram basicamente para irmos quando quisermos.

— O futuro. Novamente ele parecia quase irrelevante para mim. — Estarei ocupado nos próximos dois dias — prosseguiu ele. — Podemos ir na quinta?

— Parece bom — respondi. Para mim não parecia importar quando iríamos. Eu não estava otimista quanto ao potencial daquilo como ajuda, fosse como fosse.

— Ótimo — disse ele. — Bem, eu ligo para você.

Eu estava prestes a me despedir quando me lembrei do que estivera escrevendo antes de cochilar. Percebi que meu sono não devia ter sido profundo, senão eu teria me esquecido de tudo.

— Dr. Nash? — perguntei. — Posso conversar com você sobre um assunto?

— Sim?

— Sobre Ben?

— Claro.

— Bom, é que estou confusa. Ele não me conta as coisas. Coisas importantes. Adam. Meu livro. E mente sobre outras coisas. Ele me diz que foi um acidente que fez com que eu ficasse assim.

— Certo — disse ele. Uma pausa. — Por que você acha que ele faz isso?

O Dr. Nash enfatizou o você em vez do por que.

Pensei por um segundo.

— Ele não sabe que estou anotando as coisas. Não sabe que eu sei.

Acho que é mais fácil para ele.

— Somente para ele?

— Não. Acho que é mais fácil para mim, também. Ou pelo menos ele acha que sim. Mas não é. Apenas significa que eu nem sequer sei se posso confiar nele.

— Christine, estamos constantemente modificando os fatos, reescrevendo a história para tornar as coisas mais fáceis, para fazer com que se encaixem na versão que preferimos dos acontecimentos. Fazemos isso de modo automático. Inventamos lembranças. Sem pensar. Se constantemente dissermos a nós mesmos que algo aconteceu, começamos

a acreditar que aconteceu de fato e então somos capazes até mesmo de lembrar disso. Não é isso o que Ben está fazendo?

— Creio que sim — falei. — Mas tenho a sensação de que ele está tirando vantagem de mim. Tirando vantagem da minha doença. Acha que pode reescrever a história do modo como desejar, pois eu nunca vou saber, nunca terei como saber. Mas eu sei. Sei exatamente o que ele está fazendo.

E por isso não confio nele. Ele acaba me afastando dele, Dr. Nash. Estragando tudo.

— Então — disse ele. — O que você acha que pode fazer a respeito?

Eu já sabia a resposta. Li o que escrevi esta manhã, vezes sem conta.

Que eu deveria confiar nele. Que não deveria. Que não confio. No fim tudo em que consegui pensar foi: “Isso não pode continuar assim.”

— Preciso contar a ele que estou escrevendo um diário — falei. —

Preciso contar que estou me consultando com você.

Ele não disse nada por um momento. Não sei o que eu esperava...

desaprovação? Mas, quando ele voltou a falar, disse:

— Acho que talvez você tenha razão.

Uma sensação de alívio tomou conta de mim.

— Você concorda?

— Sim — disse ele. — Ando pensando há uns dois dias que talvez seja melhor. Eu não tinha ideia de que a versão de Ben do passado seria tão diferente da que você está começando a recordar. Nenhuma ideia de como isso seria frustrante. Mas também penso que na verdade agora nós temos apenas metade do quadro. Pelo que você disse, uma parte cada vez maior de suas recordações reprimidas está começando a afluir. Pode ser útil conversar com Ben. Sobre o passado. Talvez isso ajude no processo.

— Você acha?

— Sim — disse ele. — Acho que talvez tenha sido um erro esconder a nossa terapia de Ben. Além disso, hoje conversei com a equipe de Waring House. Queria ter uma ideia de como foram as coisas por lá. Falei com uma mulher de quem você foi próxima. Uma das funcionárias. O nome dela é Nicole. Ela me disse que apenas recentemente voltou a trabalhar lá, mas ficou muito feliz em saber que você havia voltado para casa. Disse que ninguém poderia ter amado mais você do que Ben. Ele ia visitá-la praticamente todos os dias. Ela disse que ele se sentava ao seu lado, no seu quarto ou nos jardins. E tentava com todas as forças ser animado, apesar de tudo. Todos os funcionários no fim acabaram por conhecê-lo bem. Aguardavam com ansiedade a visita dele. — Ele fez uma pausa por um momento. — Por que você não sugere que Ben nos acompanhe quando formos fazer a visita? — Outra pausa. — Provavelmente seria bom eu conhecê-lo, também.

 

— Vocês nunca se viram?

— Não — disse ele. — Só falamos brevemente ao telefone quando eu o abordei sobre a possibilidade de conhecer você. A coisa não deu muito certo...

Então entendi. Esse era o motivo pelo qual ele estava sugerindo que eu convidasse Ben. Ele finalmente desejava conhecê-lo. Queria trazer tudo às claras, garantir que o constrangimento de ontem nunca mais se repetisse.

— Tudo bem — falei. — Se você acha...

Ele disse que sim. Aguardou por um longo tempo, depois disse:

— Christine? Você me contou que leu o seu diário hoje?

— Sim — respondi.

Ele aguardou mais uma vez.

— Eu não liguei esta manhã. Não lhe disse onde ele estava.

Percebi que era verdade. Eu tinha ido sozinha ao guarda-roupa, e, embora não soubesse o que iria encontrar ali dentro, vi a caixa de sapato e a abri quase sem pensar. Eu a havia encontrado sozinha. Como se tivesse me lembrado de que o diário estaria ali.

— Isso é excelente — disse ele.

Estou escrevendo isso na cama. É tarde, mas Ben está em seu escritório, do outro lado do patamar da escada. Ouço-o trabalhando, o barulho do teclado, o clique do mouse. Posso ouvir um suspiro ocasional, o ranger da cadeira dele. Imagino-o com os olhos estreitados diante da tela, imerso em concentração. Confio que vou ouvir o computador ser desligado quando ele se preparar para dormir, de que terei tempo para esconder meu diário quando isso acontecer. Agora, apesar do que decidi de manhã e concordei com o Dr. Nash em fazer, tenho certeza de que não quero que meu marido descubra o que ando escrevendo.

Conversei com ele esta noite, quando estávamos sentados na sala de jantar.

— Posso fazer uma pergunta? — disse, e então, quando ele me olhou:

— Por que nunca tivemos filhos? — Acho que eu o estava testando. Queria incitá-lo a me dizer a verdade, a contradizer minha afirmação.

— Nunca pareceu ser o momento certo — respondeu ele. — E depois ficou muito tarde.

Empurrei meu prato de comida para o lado. Estava desapontada. Ele havia chegado tarde em casa, me chamara pelo nome ao entrar, perguntara como eu estava. “Onde está você?”, dissera ele. O tom parecia acusatório.

Gritei que estava na cozinha. Estava preparando o jantar, picando cebolas para refogá-las no azeite de oliva que eu estava aquecendo no fogão. Ele ficou parado à porta, como se hesitasse em entrar na cozinha.

Parecia cansado. Infeliz.

— Você está bem? — indaguei.

Ele viu a faca em minha mão.

— O que você está fazendo?

— Só estou preparando o jantar — expliquei. Sorri, mas ele não retribuiu o sorriso. — Achei que seria uma boa ideia fazer uma omelete. Encontrei uns ovos na geladeira e alguns cogumelos. Nós temos batatas? Não consegui encontrar nenhuma, eu...

— Eu tinha planejado jantarmos costeletas de porco — disse ele. —

Comprei algumas. Ontem. Achei que a gente podia comer isso.

— Desculpe — falei. — Eu...

— Mas não. Omelete está ótimo. Se é isso o que você quer.

Senti a conversa degringolar, descer para algum lugar aonde eu não desejava ir. Ele ficou olhando a tábua de corte, acima da qual minha mão pairava, ainda segurando a faca.

— Não — eu disse. Ri, mas ele não riu comigo. — Não tem importância.

Eu não sabia. Posso...

— Agora você já cortou as cebolas — retrucou ele. Suas palavras não tinham entonação. Eram a afirmação de um fato, sem adornos.

— Eu sei, mas... mesmo assim ainda poderíamos comer as costeletas, não?

— Você é quem sabe — disse ele. Virou-se para entrar na sala. — Vou arrumar a mesa.

Não respondi. Não sabia o que eu tinha feito, se é que tinha feito alguma coisa. Voltei para as cebolas.

Agora estávamos sentados um de frente para o outro. Tínhamos jantado praticamente em silêncio. Eu lhe perguntara se estava tudo bem, mas ele apenas dera de ombros e dissera que estava. “Foi um dia cansativo”, foi só o que me disse, acrescentando apenas: “No trabalho”, quando insisti em mais explicações. A discussão tinha degringolado antes mesmo de começar de fato, e mudei de ideia quanto a contar a ele a respeito do meu diário e do Dr. Nash. Apenas belisquei minha comida, tentei não me preocupar —

afinal, pensei, ele também tem direito a ter dias ruins —, porém a ansiedade me tomava. Pude sentir a chance de falar escapulir pelas minhas mãos, e não sabia se iria acordar amanhã com a mesma convicção de que era a coisa certa a fazer. Ao fim, não consegui mais suportar aquilo.

— Mas nós quisemos ter filhos?

Ele suspirou.

— Christine, precisamos mesmo falar disso?

— Desculpe — falei. Ainda não sabia o que ele iria dizer, se é que diria alguma coisa. Talvez tivesse sido melhor deixar para lá, mas percebi que não conseguiria fazer isso. — É só que hoje aconteceu a coisa mais estranha do mundo — continuei. Estava tentando injetar leveza na voz, uma animação que eu não estava sentindo. — Achei ter me lembrado de uma coisa.

— Uma coisa?

— Sim. Ah, não sei...

— Continue — falou ele. Inclinou-se para a frente, subitamente aflito. —

O que você lembrou?

Meus olhos se fixaram na parede atrás dele. Havia um quadro pendurado ali, uma foto. Era um close das pétalas de uma flor com gotículas de água, porém em preto e branco. Parecia vagabundo, pensei. Como se pertencesse a uma loja de departamentos, e não ao lar de alguém.

— Eu me lembrei de ter tido um filho.

Ele voltou a se sentar na cadeira. Seus olhos se arregalaram, depois se fecharam completamente. Ele inspirou, deixando escapar um longo suspiro.

— É verdade? — perguntei. — Nós tivemos mesmo um filho? — Se ele mentir agora, pensei, então não sei o que irei fazer. Discutir com ele, acho.

Dizer tudo de uma só vez, numa avalanche catastrófica. Ele abriu os olhos e encarou os meus.

— Sim — respondeu. — É verdade.

Ele me contou sobre Adam, uma sensação de alívio tomou conta de mim. Alívio mesclado com dor. Todos aqueles anos, perdidos para sempre.

Todos aqueles momentos dos quais não tenho nenhuma lembrança, que jamais conseguirei trazer de volta. Senti as saudades se agitarem dentro de mim, senti como aumentavam, tanto que poderiam me engolfar. Ben me contou sobre o nascimento de Adam, sua infância, sua vida. A que escola ele havia ido, a peça de Natal da qual ele havia participado; seu dom para o futebol e para a corrida, sua frustração no resultado dos exames.

Namoradas. A vez em que um papel enrolado de modo indiscreto havia sido confundido com um baseado. Eu lhe fiz perguntas e ele as respondeu; parecia feliz por estar falando do filho, como se seu mau humor tivesse sido afastado pelas lembranças.

Eu me vi fechando os olhos enquanto ele falava. Imagens flutuavam por mim — imagens de Adam, de mim e de Ben —, mas eu não saberia dizer se eram lembranças ou fruto da imaginação. Quando ele terminou, abri os olhos e, por um momento, fiquei chocada com a pessoa que estava na minha frente, com sua velhice, com o fato de ele ser tão diferente do jovem pai que eu tinha imaginado.

— Mas não há nenhuma fotografia dele — falei. — Em lugar nenhum.

Ele pareceu incomodado.

— Eu sei — disse Ben. — Você fica chateada.

— Chateada?

Ele não disse nada. Talvez não tivesse força para me contar sobre a morte de Adam. Parecia derrotado, de alguma maneira. Exaurido. Senti culpa pelo que estava fazendo com ele, pelo que eu fazia com ele todos os dias.

— Tudo bem — eu disse. — Eu sei que ele morreu.

Ele pareceu surpreso. Hesitante.

— Você... sabe?

— Sim — falei. Estava prestes a contar-lhe sobre o meu diário, dizer que ele já havia me contado tudo aquilo antes, mas não fiz isso. O humor dele ainda parecia frágil, o ar ainda estava tenso. Isso poderia esperar. —

Simplesmente sinto isso — falei.

— Faz sentido. Eu já lhe contei isso antes.

Era verdade, claro. Assim como ele já tinha me contado antes sobre a vida de Adam. E contudo, eu percebi, uma das histórias parecia real, enquanto a outra não. Eu me dei conta de que não acreditava que o meu filho estivesse morto.

— Conte de novo — pedi.

Ele me contou sobre a guerra, sobre a bomba na estrada. Tentei permanecer o mais calma que pude. Ele falou do funeral de Adam, sobre a salva de tiros que havia sido disparada sobre o caixão, sobre a bandeira do Reino Unido enrolada ao redor dele. Tentei forçar minha mente a buscar as lembranças, até mesmo das que eram tão difíceis, tão horrendas, assim como essa. Não veio nada.

— Quero ir até lá — pedi. — Quero ver o túmulo dele.

— Chris — disse Ben. — Não sei se...

Percebi que, sem memória, eu teria de ver a prova de que ele estava morto, senão eu conservaria para sempre a esperança de que ele talvez não estivesse.

— Eu quero — insisti. — Eu preciso.

Ainda assim, achei que ele fosse dizer não. Dizer que não achava aquilo uma boa ideia, de que talvez aquilo me chateasse demais. O que eu faria então? Como poderia obrigá-lo?

Mas ele não fez isso.

— Vamos no fim de semana — disse. — Prometo.

Alívio mesclado com terror, deixando-me anestesiada.

Tiramos a mesa. Fiquei diante da pia, mergulhando os pratos que ele me passava na água quente e cheia de detergente, esfregando-os, devolvendo-

os para ele para que os secasse, o tempo inteiro evitando o meu reflexo na janela. Eu me obriguei a pensar no funeral de Adam, me imaginei de pé no gramado em um dia nublado, perto de um monte de terra, olhando para um caixão suspenso sobre o buraco cavado no chão. Tentei imaginar a salva de tiros, o corneteiro solitário tocando enquanto nós — sua família, seus amigos — soluçávamos em silêncio.

Mas não consegui. Não fazia tanto tempo assim, contudo, eu não vi nada. Tentei imaginar como devo ter me sentido. Devo ter acordado naquela manhã sem sequer saber que era mãe; primeiro, Ben provavelmente precisou me convencer de que eu tinha um filho, depois, que passaríamos aquela mesma tarde enterrando-o. Imagino não horror, mas entorpecimento, descrença. Irrealidade. Uma mente não é capaz de suportar tanto de uma só vez e com certeza nenhuma consegue lidar com isso, especialmente a minha. Visualizei-me sendo instruída quanto ao que vestir, conduzida para fora de casa até um carro que aguardava, acomodada no banco de trás.

Talvez no trajeto eu tenha me perguntado de quem seria aquele funeral.

Possivelmente a mim pareceria o meu.

Olhei para o reflexo de Ben na janela. Ele deve ter sido obrigado a lidar com isso tudo, e em um momento que sua própria tristeza estava no auge.

Talvez tivesse sido menos pesado, para todos nós, se ele não tivesse me levado ao funeral. Com um calafrio, me perguntei se ele não teria feito exatamente isso.

Ainda não sabia o que lhe contar a respeito do Dr. Nash. Agora ele parecia cansado de novo, quase deprimido. Sorriu apenas quando meu olhar cruzou o dele e eu sorri. Talvez mais tarde, pensei, mas se haveria um momento melhor eu não sabia. Não conseguia deixar de pensar que eu era a culpada pelo humor dele, ou por alguma coisa que eu tinha feito ou por alguma coisa que eu não tinha feito. Percebi o quanto eu gostava desse homem. Não poderia dizer se o amava ou não — e ainda não posso — mas isso é porque eu não sei muito bem o que é o amor. Apesar da lembrança nebulosa e vacilante que tenho de Adam, sinto amor por ele, o instinto de protegê-lo, o desejo de lhe dar tudo, o sentimento de que ele é parte de mim e que sem ele sou incompleta. Por minha mãe, também, quando minha mente a visualiza, eu sinto um amor diferente. Uma ligação mais complexa, com advertências e reservas. Uma ligação que não entendo completamente.

Mas Ben...? Eu o acho atraente. Confio nele — apesar das mentiras que ele me contou, sei que ele só tem o meu bem em vista —, mas seria eu capaz de dizer que o amo, quando tenho apenas a vaga consciência de conhecê-lo há poucas horas?

Eu não sabia. Porém, queria que ele fosse feliz, e, em algum nível, entendia que eu desejava ser a pessoa que o faria feliz. Preciso me

esforçar mais, decidi. Assumir o controle. Este diário pode ser uma ferramenta para melhorar a vida de nós dois, não apenas a minha.

Eu estava prestes a perguntar como ele estava quando aquilo aconteceu.

Devo ter soltado o prato antes de ele o apanhar; ele se espatifou no chão

— acompanhado do “Merda!” balbuciado de Ben — e se estilhaçou em centenas de pedacinhos.

— Desculpe! — disse, mas Ben não olhou para mim. Agachou-se, xingando entre dentes. — Pode deixar que eu faço isso — continuei, mas ele me ignorou e em vez disso começou a recolher os pedaços maiores e a reuni-los na mão direita.

— Desculpe — repeti. — Sou tão desastrada!

Não sei o que eu esperava. Perdão, creio, ou que ele me dissesse que não era nada. Mas em vez disso Ben exclamou: “Porra!” Deixou cair os restos do prato no chão e começou a chupar o polegar esquerdo. Gotas de sangue se espalharam pelo piso.

— Você está bem? — perguntei.

Ele olhou para mim.

— Sim, sim. Me cortei, só isso. Filho de uma...

— Deixa eu ver.

— Não foi nada — disse ele.

Levantou-se.

— Deixa eu ver — repeti. Estendi o braço para segurar a mão dele. —

Vou pegar um Band-Aid. Ou algo para fazer um curativo. Nós temos...?

— Pelo amor de Deus! — exclamou ele, dando um tapa para afastar a minha mão. — Deixa para lá! Está bem?

Fiquei estupefata. Eu via que o corte era fundo; o sangue se empoçava na extremidade do ferimento e corria em uma linha fina pulso abaixo. Eu não sabia o que fazer, o que dizer. Ele não havia exatamente gritado, mas também não tinha feito nenhum esforço para esconder sua irritação. Nós nos encaramos, num limbo, equilibrados à beira de uma discussão, cada um esperando que o outro falasse, ambos sem saber o que havia acontecido, o quão importante era aquele momento.

Não consegui suportar.

— Desculpe — falei, embora parte de mim se ressentisse disso.

O rosto dele se suavizou.

— Tudo bem — disse ele. — Também sinto muito. — Fez uma pausa.

— Só estou tenso, acho. Foi um dia cansativo.

Apanhei um pouco de papel-toalha e lhe estendi.

— Acho melhor você se limpar.

Ele o pegou da minha mão.

— Obrigado — disse ele, limpando o sangue do pulso e dos dedos. —

Vou subir. Tomar uma chuveirada. — Ele se inclinou para a frente e me beijou. — Tudo bem?

Ele se virou e saiu da cozinha.

Ouvi a porta do banheiro se fechar, uma torneira se abrir. O aquecedor ao meu lado ganhou vida. Reuni o resto dos cacos e depois os coloquei na lata de lixo, enrolando-os primeiro com papel, depois varrendo os fragmentos minúsculos antes de finalmente limpar o sangue. Depois que terminei, fui para a sala de estar.

O telefone que abre estava tocando, abafado pela minha bolsa. Eu o atendi. Era o Dr. Nash.

A televisão continuava ligada. Acima de mim eu escutava o ranger das tábuas do assoalho enquanto Ben andava de um cômodo para o outro. Eu não queria que ele me escutasse falando em um telefone que ele não sabe que eu tenho. Sussurrei:

— Alô?

— Christine — disse a voz. — É Ed. O Dr. Nash. Pode falar agora? Se hoje à tarde ele parecera calmo, quase reflexivo, agora sua voz tinha um tom de urgência. Comecei a sentir medo.

— Sim — respondi, baixando ainda mais a voz. — O que foi?

— Escute — disse ele. — Você já falou com Ben?

— Sim — falei. — Mais ou menos. Por quê? Qual o problema?

— Você contou a ele sobre seu diário? Sobre mim? Você o convidou para ir a Waring House?

— Não. Eu estava prestes a fazer isso. Ele está lá em cima; eu... O que aconteceu?

— Desculpe — disse ele. — Provavelmente não é nada com que se preocupar. É que alguém de Waring House acabou de me ligar. A mulher com quem falei hoje de manhã, Nicole. Ela queria me passar um número de telefone. Disse que aparentemente a sua amiga Claire ligou para lá querendo falar com você e deixou o telefone dela.

Fiquei tensa. Ouvi a descarga e o som de água caindo na pia.

— Não entendo — falei. — Recentemente?

— Não — disse ele. — Duas semanas depois de você voltar para casa.

Quando ela viu que você não estava mais lá, pegou o número de telefone de Ben, mas, enfim, eles disseram que ela voltou a ligar mais tarde dizendo que não conseguia falar com ele. Perguntou se poderiam lhe fornecer o seu endereço. Eles não podiam fazer isso, lógico, mas pediram que ela deixasse seu telefone, para o caso de um dia você ou Ben ligarem. Nicole encontrou um bilhete no seu arquivo depois de nós conversarmos hoje de manhã e

então me ligou para me passar o número.

Eu não entendi.

— Mas por que eles simplesmente não me enviaram o número pelo correio? Ou para Ben?

— Bem, Nicole disse que enviaram. Mas que nunca tiveram resposta de vocês. — Ele fez uma pausa.

— Ben é quem cuida da correspondência — falei. — Ele a apanha de manhã. Bem, fez isso hoje, pelo menos...

— Ben lhe deu o número de Claire?

— Não — respondi. — Não. Ele disse que faz anos que nós duas perdemos contato. Ela se mudou logo depois que nos casamos. Para a Nova Zelândia.

— Certo — disse ele, e depois: — Christine? Você já me disse isso antes, mas... bem... o número do telefone dela não é um número internacional.

Senti um pavor crescente, embora ainda não pudesse identificar o motivo.

— Então ela voltou?

— Nicole disse que Claire costumava sempre visitar você em Waring House. Que ia para lá tanto quanto Ben. Nicole nunca ouviu dizer que ela tivesse se mudado. Nem para a Nova Zelândia nem para lugar nenhum.

Senti como se tudo estivesse de repente decolando, como se as coisas estivessem se movimentando rápido demais para que eu pudesse acompanhar. Ouvi Ben no andar de cima. Agora a água tinha parado de correr, o aquecedor estava em silêncio. Deve existir alguma explicação racional, pensei. Precisa existir. Senti que tudo o que eu precisava fazer era desacelerar as coisas para poder acompanhá-las e conseguir descobrir o que era. Queria que ele parasse de falar, que retirasse tudo o que disse, mas ele não o fez.

— Tem mais uma coisa — disse Nash. — Desculpe, Christine, mas Nicole me perguntou como você estava e eu contei. Ela disse que estava surpresa de você ter voltado a morar com Ben. E perguntou por quê.

— Certo. — Eu me ouvi dizer. — Continue.

— Desculpe, Christine, mas ouça. Ela disse que você e Ben se divorciaram.

A sala oscilou. Agarrei o braço da cadeira para me apoiar. Aquilo não fazia sentido. Na televisão uma mulher loira gritava com um homem mais velho, dizendo que o odiava. Eu tive vontade de gritar também.

— O quê? — falei.

— Ela disse que você e Ben estavam separados. Que Ben abandonou você. Mais ou menos um ano depois da sua transferência para a Waring

House.

— Separados? — repeti. Parecia que a sala estava recuando, tornando-se cada vez menor, quase sumindo. Desaparecendo. — Tem certeza?

— Sim. Parece que sim. Foi o que ela me disse. Ela disse que achava que tinha alguma coisa a ver com a Claire. Não quis me contar mais nada.

— Com a Claire?

— Sim — disse ele. Mesmo com toda a minha confusão, pude perceber o quanto ele estava achando difícil aquela conversa, ouvia a hesitação em sua voz, a lentidão para escolher a melhor palavra. — Não sei por que Ben não está lhe contando tudo — continuou o Dr. Nash. — Até este momento, eu achava que ele estivesse agindo corretamente. Para proteger você. Mas agora? Agora eu não sei. Não dizer que Claire continua morando aqui? Não mencionar o divórcio? Não sei. Não parece certo, mas suponho que ele deva ter seus motivos. — Eu não disse nada. — Achei que talvez fosse melhor você conversar com a Claire. Quem sabe ela tenha algumas respostas.

Talvez ela possa até mesmo conversar com Ben. Não sei. — Outra pausa.

— Christine? Você tem uma caneta aí? Quer o telefone dela?

Engoli em seco.

— Sim — respondi. — Sim, por favor.

Estendi o braço para apanhar o jornal que estava sobre a mesa de centro e a caneta ao lado dele e anotei num canto o número que ele me passou. Ouvi a porta do banheiro ser destrancada e Ben andar até o patamar da escada.

— Christine? — disse o Dr. Nash. — Eu ligo para você amanhã. Não conte nada a Ben. Não antes de descobrirmos o que está acontecendo.

Certo?

Eu me ouvi concordar e me despedir. Ele me disse para não esquecer de anotar isso no meu diário antes de dormir. Escrevi Claire perto do número, sem saber ainda o que eu iria fazer. Rasguei o pedaço de papel e o coloquei na minha bolsa.

Não disse nada a Ben quando ele desceu, nada quando ele se sentou no sofá à minha frente. Fixei os olhos na televisão. Um documentário sobre a vida selvagem. Os habitantes do fundo do mar. Um veículo submarino não tripulado explorava uma fossa submarina com movimentos irregulares.