Antes de Dormir

S. J. Watson · Capítulo 9 de 19

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Antes de Dormir

Sexta-feira, 16 de novembro

Eu dissera a Ben que estaria pronta em meia hora. Me sentei no banheiro e, o mais rápido que pude, escrevi isso.

Sexta-feira, 16 de novembro

Não sei o que aconteceu depois disso. O que eu fiz depois que Ben me disse que era aniversário dele? Depois que subi as escadas e descobri que as fotografias tinham sido recolocadas no lugar exatamente da mesma forma que estiveram antes de eu arrancá-las? Não sei. Talvez eu tenha tomado banho, me trocado, talvez tenhamos saído para jantar ou fomos ao cinema. Não sei dizer. Não escrevi o que aconteceu e não me lembro, apesar de ter acontecido apenas algumas horas atrás. A menos que eu pergunte a Ben, a lembrança está completamente perdida. Sinto como se estivesse ficando louca.

Esta manhã, logo cedo, acordei com ele deitado ao meu lado. Novamente um desconhecido. O quarto estava escuro, silencioso. Permaneci deitada, petrificada de medo, sem saber quem eu era nem onde estava. Só conseguia pensar em fugir, em escapar, mas não conseguia me mover.

Minha mente parecia vazia, oca, mas então palavras afluíram à superfície.

Ben. Marido. Memória. Acidente. Morte. Filho.

Adam.

Elas pairavam à minha frente, entrando e saindo de foco. Eu não conseguia conectá-las. Não sabia o que significavam. Elas giravam na minha mente, ecoando, como um mantra, e então o sonho me veio à mente, o sonho que deve ter me despertado.

Eu estava num quarto, numa cama. Em meus braços havia um corpo, um homem. Ele estava em cima de mim, pesado, suas costas largas. Me senti estranha, esquisita, minha cabeça leve demais, meu corpo muito pesado; o quarto balançava sob mim e quando abri meus olhos, o teto estava desfocado.

Eu não sei dizer quem era o homem — sua cabeça estava próxima demais da minha para que eu visse o rosto dele — mas eu conseguia sentir tudo, até mesmo os pelos de seu peito, crespos contra os meus seios nus.

Havia um gosto na minha língua, doce. Ele estava me beijando. Ele era muito bruto; eu queria que ele parasse, mas não disse nada. “Eu te amo”, murmurou ele, suas palavras perdidas entre os meus cabelos, no meu pescoço. Eu sabia que queria falar — embora não soubesse o que desejava dizer —, mas não conseguia entender como se fazia isso. Minha boca não parecia estar ligada ao meu cérebro, então permaneci ali, deitada, enquanto ele me beijava e falava entre meus cabelos. Eu me lembrava que, ao mesmo tempo que o desejava também queria que ele parasse, como eu havia pensado, quando ele começou a me beijar, que não chegaríamos a fazer sexo, mas suas mãos deslizaram pelas minhas costas até minhas

nádegas e eu deixei. E novamente, enquanto ele erguia minha blusa e colocava a mão por baixo dela, pensei: Pronto, pronto, só vou deixar que você vá até aí. Não vou fazê-lo parar, não agora, porque estou gostando.

Porque sua mão morna está sobre o meu seio, porque meu corpo está respondendo com pequenos calafrios de prazer. Porque, pela primeira vez, me sinto mulher. Mas não vou fazer sexo com você. Não essa noite. Só vou deixar você ir até aí, não além desse ponto. Então ele tirou minha blusa e abriu meu sutiã e não era mais a sua mão sobre o meu seio, e sim sua boca, e ainda pensei que logo iria fazê-lo parar. A palavra não havia até começado a se formar, se fixando na minha mente, mas quando eu a pronunciei ele já estava me puxando em direção à cama e tirando a minha calcinha, e a palavra havia se transformado noutra coisa, num gemido, em algo que eu reconhecia vagamente como prazer.

Senti algo entre meus joelhos. Era duro. “Eu te amo”, disse ele novamente, e então percebi que era o joelho dele, que ele estava forçando minhas pernas a se abrirem com o joelho. Eu não queria deixar, mas de alguma forma sabia que deveria, que já o havia deixado ir longe demais, que havia deixado minhas chances de dizer algo, de fazê-lo parar, passarem, uma a uma. E agora eu não tinha escolha. Eu havia desejado isso momentos antes, enquanto ele abria o zíper da calça e se livrava desajeitadamente da cueca, então devo querer isso agora, agora que estou embaixo do corpo dele.

Tentei relaxar. Ele arqueou o corpo e gemeu — um ruído grave, alarmante, que começou bem fundo dentro dele — e então vi seu rosto. Não o reconheci, ao menos não no meu sonho, mas agora o reconheço. Ben. “Eu te amo”, disse ele, e eu sabia que deveria dizer alguma coisa, que ele era meu marido, embora eu sentisse que o havia visto pela primeira vez naquela manhã. Eu podia impedi-lo. Podia confiar que ele seria capaz de parar o que estava fazendo.

— Ben, eu...

Ele me calou com sua boca molhada e o senti rasgar meu íntimo. Dor, ou prazer. Eu não sabia dizer onde terminava um e começava o outro.

Agarrei suas costas, molhadas de suor, e tentei me abrir para ele, inicialmente tentei aproveitar o que estava acontecendo e então, quando descobri que não conseguia, tentei ignorar. Eu pedi isso, pensei, embora ao mesmo tempo não quisesse isso. É possível querer e, ao mesmo tempo, não querer uma coisa? Pelo desejo de desafiar o medo?

Fechei os olhos. Vi um rosto. Um desconhecido de cabelos escuros e barba. Uma cicatriz na bochecha. Ele me parecia familiar, mas eu não tinha a mínima ideia de onde eu o conhecia. Enquanto eu o fitava, seu sorriso desaparecia e foi então que gritei, no sonho. Foi nesse momento que

acordei e me vi numa cama silenciosa, ao lado de Ben e sem a menor ideia de onde eu estava.

Levantei-me da cama. Para usar o banheiro? Para fugir? Eu não sabia aonde ir, o que fazer. Se de alguma forma eu soubesse de sua existência, eu teria aberto a porta do guarda-roupa o mais silenciosamente possível e tirado de lá a caixa de sapatos que continha o meu diário, mas eu não o fiz.

Então fui para o andar de baixo. A porta da frente estava trancada, a lua brilhava azulada pelo vidro congelado. Percebi que estava nua.

Sentei nos primeiros degraus da escada. O sol nasceu, o corredor passou de azul queimado a cor de laranja. Nada fazia sentido; o sonho muito menos. Parecia real demais, e eu havia acordado no mesmo quarto que aparecia no sonho, ao lado de um homem que eu não esperava ver.

E agora, agora que li meu diário depois que o Dr. Nash me ligou, um pensamento começa a se formar. Teria sido uma recordação? Uma lembrança que consegui reter da noite passada?

Não sei. Se foi, então é um sinal de progresso, acho. Mas também quer dizer que Ben forçou-se para cima de mim e, pior ainda, enquanto ele o fazia eu vi a imagem de um desconhecido barbudo com uma cicatriz no rosto. De todas as lembranças possíveis, essa parece ser uma das mais cruéis para se reter.

Talvez não signifique nada, porém. Foi apenas um sonho. Apenas um pesadelo. Ben me ama, e o estranho barbudo não existe.

Mas como ter certeza?

Mais tarde, me encontrei com o Dr. Nash. Estávamos parados no sinal de trânsito, o Dr. Nash tamborilando os dedos no volante, não exatamente no mesmo ritmo da música que tocava no rádio — uma música pop que eu não conhecia e nem estava gostando —, enquanto eu olhava para a frente.

Eu havia ligado para ele esta manhã, logo depois de ler meu diário, após terminar de escrever sobre o sonho que pode ter sido uma lembrança. Eu precisava falar com alguém — a notícia de que eu era mãe havia sido como um pequeno rasgo na minha vida, que agora ameaçava se alargar, dilacerando-a por completo — e ele havia sugerido que antecipássemos nosso próximo encontro para hoje. Pediu que eu trouxesse meu diário. Eu não tinha dito qual era o problema, pretendia aguardar até estarmos no seu consultório, mas agora eu já não sabia se conseguiria esperar.

O sinal de trânsito ficou verde; ele parou de tamborilar os dedos no volante e o carro voltou a andar.

— Por que Ben não me conta sobre Adam? — eu me ouvi perguntar. —

Não entendo. Por quê?

Ele me olhou, mas não disse nada. Andamos um pouco mais. Um

cachorrinho de plástico estava postado no painel do carro à nossa frente, sua cabeça assentindo comicamente, e atrás dele vi os cabelos loiros de uma criança. Pensei em Alfie.

O Dr. Nash pigarreou.

— Conte o que aconteceu.

Era verdade, então. Parte de mim esperava que ele me perguntasse do que eu estava falando, mas tão logo eu disse o nome Adam, percebi como tinha sido vã aquela esperança, como tinha sido equivocada. Adam dá a sensação de ser real. Ele existe, dentro de mim, dentro da minha consciência, ocupando espaço de uma maneira que ninguém mais ocupa.

Nem Ben, nem o Dr. Nash. Nem eu mesma.

Senti raiva. Ele sabia sobre Adam o tempo todo.

— E você — falei. — Você me deu meu livro. Então por que não me contou a respeito de Adam?

— Christine — pediu ele —, me conte o que aconteceu.

Fitei o para-brisa.

— Eu tive uma lembrança.

Ele me fitou.

— É mesmo? — Eu não disse nada. — Christine, estou tentando ajudá-la.

Então contei para ele.

— Foi no outro dia — comecei. — Depois que você me deu o livro. Olhei para a fotografia que você colocou junto e, de repente, me lembrei do dia em que ela foi tirada. Não sei dizer por quê. A lembrança simplesmente veio a mim. E eu me lembrei de estar grávida.

Ele não disse nada.

— Você sabia dele? — perguntei. — Sabia de Adam?

Ele falou calmamente.

— Sim — disse. — Sabia. Está na sua ficha. Ele tinha cerca de 2 anos quando você perdeu a memória. — Ele fez uma pausa. — Além do mais, já conversamos sobre isso antes.

Eu me senti gelar. Estremeci, apesar do calor que fazia dentro do carro.

Eu sabia que era possível, até mesmo provável, que eu já tivesse me lembrado de Adam antes, mas essa verdade crua — a de que eu já havia passado por tudo isso antes, e que iria passar por isso de novo — me abalou.

O Dr. Nash deve ter percebido a minha surpresa.

— Há algumas semanas — continuou ele — você me disse que viu uma criança na rua. Um garotinho. Inicialmente você foi dominada pela sensação de que o conhecia, de que ele estava perdido, mas que estava indo para casa, para a sua casa, e que você era a mãe dele. Então você se lembrou.

Você disse isso a Ben e ele contou a você sobre Adam. Mais tarde naquele dia, você me contou tudo.

Eu não me lembrava de nada disso. Tive de lembrar a mim mesma de que ele não estava falando sobre alguma desconhecida, mas sobre mim.

— Mas você não falou mais nada sobre ele desde então?

Ele suspirou.

— Não...

De repente, me lembrei do que havia lido de manhã, sobre as imagens que me mostraram enquanto eu estava deitada no aparelho de ressonância.

— Havia fotos dele! — disse. — Quando eu estava dentro do aparelho para fazer o exame! Havia fotos...

— Sim — disse ele. — Da sua ficha.

— Mas você não mencionou Adam! Por quê? Eu não entendo.

— Christine, você precisa aceitar que não posso iniciar cada sessão contando a você todas as coisas que eu sei e você não. Além disso, nesse caso, decidi que falar sobre isso não iria necessariamente fazer bem a você.

— Fazer bem a mim?

— Não. Eu sabia que seria muito perturbador para você saber que teve um filho e se esqueceu dele.

Estávamos agora entrando num estacionamento subterrâneo. A fraca luz do dia sumiu e foi substituída por uma forte luz fluorescente e pelo cheiro de gasolina e concreto. Fiquei pensando o que mais ele poderia achar que não era ético me contar, quais outras bombas-relógio eu posso estar carregando na minha cabeça, armadas e tiquetaqueando, prontas para explodir.

— Não existem mais... — perguntei.

— Não — interrompeu ele. — Você teve apenas Adam. Ele foi seu único filho.

Ele falou no passado. Então o Dr. Nash também sabia que Adam estava morto. Eu não queria perguntar, mas sabia que deveria fazê-lo.

— Você sabia que ele morreu?

Ele parou o carro e desligou o motor. O estacionamento estava escuro, iluminado apenas por algumas luzes fluorescentes, e silencioso. Não se podia ouvir nada além do barulho ocasional de alguma porta batendo, o ruído de algum elevador. Por um momento pensei que ainda havia uma chance.

Talvez eu estivesse errada. Adam estava vivo. Minha mente se iluminou com a ideia. Senti que Adam era real tão logo eu li sobre ele de manhã, entretanto sua morte não parecia verdade. Tentei imaginá-la, ou me lembrar de como devo ter me sentido ao receber a notícia de que ele havia sido morto, mas não consegui. Não parecia ser verdade. A dor do pesar certamente me atordoou. Todos os dias seriam inundados por uma dor constante, pela espera, pelo conhecimento de que parte de mim havia morrido e que eu nunca mais seria inteira novamente. Com certeza o amor que eu sentia pelo meu filho seria forte o suficiente para que eu me lembrasse da sua perda. Se ele de fato estava morto, então minha dor tinha que ser mais forte do que a minha amnésia.

Percebi que não acreditava no meu marido. Não acreditava que o meu filho estava morto. Por um momento pairou certa alegria no ar, mas então o Dr. Nash começou a falar.

— Sim — disse ele. — Eu sei.

A empolgação que tomava conta de mim se tornou o oposto. Algo pior do que decepção. Mais destrutivo; uma dor lancinante.

— Como...? — Foi tudo o que consegui dizer.

Ele me contou a mesma história que Ben havia contado. Adam nas forças armadas. Uma bomba na estrada. Ouvi tudo, determinada a encontrar forças para não chorar. Quando ele terminou de contar, fez-se uma pausa, um momento de silêncio, antes que ele colocasse sua mão sobre a minha.

— Christine — disse ele suavemente. — Sinto muito.

Eu não sabia o que dizer. Olhei para ele. Ele se inclinou em minha direção. Olhei para a sua mão, cobrindo a minha, repleta de pequenos arranhões. Eu o vi em casa, mais tarde. Brincando com um gatinho, talvez um cachorro pequeno. Vivendo uma vida normal.

— Meu marido não me conta sobre Adam — falei. — Guarda todas as fotos dele numa caixa de metal. Para a minha própria proteção. — O Dr.

Nash não disse nada. — Por que ele faria isso?

Ele olhou para fora. Vi a palavra vadia pichada na parede à nossa frente.

— Deixe-me fazer a mesma pergunta a você. Por que você acha que ele faria isso?

Pensei. Pensei em todos os motivos que consegui. Para que ele possa me controlar. Para que possa ter poder sobre mim. Para que possa me negar essa única coisa que poderia me fazer sentir completa. Percebi que não acreditava que nenhum desses motivos fossem verdadeiros. Restou apenas o fato mundano.

— Acho que deve ser mais fácil para ele. Não me contar, já que eu não me lembro.

— E por que seria mais fácil para ele?

— Porque é extremamente perturbador para mim, talvez. Deve ser uma função terrível, ter de me contar todos os dias não apenas que eu tive um filho, mas que ele morreu. E de uma forma tão terrível.

— Você consegue pensar em mais algum motivo?

Fiquei em silêncio, então percebi.

— Bem, deve ser muito difícil para ele também. Ele era o pai de Adam e, bom... — Pensei em como ele deveria lidar com a própria dor, além de lidar com a minha.

— Isso é difícil para você, Christine — disse ele. — Mas você precisa tentar entender que é difícil para Ben, também. Até mais difícil, de certa forma. Ele a ama muito, acredito, e...

— E ainda assim eu nem me lembro de que ele existe.

— Verdade — disse ele.

Suspirei.

— Eu devo tê-lo amado, um dia. Afinal de contas, me casei com ele. —

O Dr. Nash nada disse. Pensei sobre o desconhecido ao lado de quem acordei aquela manhã, nas fotos de nossa vida juntos, no sonho (ou lembrança) que eu tive no meio da noite. Pensei em Adam e em Alfie, no que eu havia feito, ou no que havia pensado em fazer. Fui tomada pelo pânico. Eu me senti como se estivesse numa armadilha, como se não houvesse saída, minha mente indo de uma coisa a outra, procurando liberdade.

Ben, pensei comigo. Posso me apoiar em Ben. Ele é forte.

— Que confusão — falei. —Me sinto despedaçada.

Ele se virou para me encarar.

— Gostaria de poder fazer alguma coisa para tornar isso tudo mais fácil para você.

Ele parecia estar mesmo falando a verdade, como se fosse realmente capaz de fazer qualquer coisa para me ajudar. Havia certa ternura em seus olhos, na maneira como ele pousou a mão sobre a minha, e então, naquele estacionamento mal iluminado, me vi pensando no que aconteceria se eu colocasse minha mão sobre a dele, ou se eu inclinasse a cabeça um pouco mais em sua direção, fitando seus olhos, abrindo minha boca enquanto fazia isso, apenas um toque. Será que ele também iria se inclinar em minha direção? Será que tentaria me beijar? E será que eu permitiria, se ele tentasse?

Ou pensaria que sou ridícula? Acharia um absurdo? Posso ter acordado esta manhã pensando que estou na casa dos 20, mas não estou. Tenho quase 50 anos. Quase o suficiente para ser a mãe dele. E então, em vez disso, olhei-o. Ele permaneceu completamente imóvel, olhando para mim.

Parecia forte. Forte o suficiente para me ajudar. Para me fazer enfrentar tudo aquilo.

Abri a boca para falar, sem saber o que iria dizer, mas o toque abafado de um celular me interrompeu. O Dr. Nash não se moveu, a não ser para retirar sua mão, e percebi que o telefone deveria ser um dos meus.

 

Retirei o telefone que tocava de dentro da minha bolsa. Não era o que se abria, e sim aquele que o meu marido havia me dado. No visor estava o nome Ben.

Quando vi seu nome, percebi o quanto estava sendo injusta. Ele estava sofrendo também. E tinha de conviver com isso todos os dias, sem poder conversar comigo a respeito, sem poder recorrer à esposa para apoiá-lo.

E fazia aquilo tudo por amor.

E aqui estava eu, num estacionamento com um homem que ele mal conhecia. Pensei nas fotos que havia visto aquela manhã, no álbum. Páginas e páginas de fotos de mim e de Ben. Sorrindo. Felizes. Apaixonados. Se eu fosse para casa agora e olhasse para elas, provavelmente enxergaria apenas aquilo que estava faltando. Adam. Mas são as mesmas fotos, e nelas olhamos um para o outro como se não existisse mais ninguém no mundo.

Era óbvio que fomos apaixonados.

— Ligo para ele mais tarde — disse.

Coloquei o telefone de volta na bolsa. Vou contar a ele hoje à noite, pensei. Sobre o meu diário. Sobre o Dr. Nash. Sobre tudo.

O Dr. Nash pigarreou.

— Deveríamos subir até o consultório. Começar.

— Claro — respondi.

Não olhei para ele.

Comecei a escrever no carro enquanto o Dr. Nash me levava para casa. A maior parte do que escrevi está praticamente ilegível, uns garranchos horrorosos. O Dr. Nash não falou nada enquanto eu escrevia, mas eu o vi olhando para mim enquanto eu procurava a palavra certa ou uma frase melhor. Tentei imaginar o que ele estaria pensando — antes de deixarmos o consultório, ele me perguntou se eu permitiria que ele discutisse o meu caso numa conferência para a qual havia sido convidado.

— Em Genebra — disse, sem conseguir esconder um lampejo de orgulho.

Eu disse que sim, e imaginei que logo ele me perguntaria se poderia tirar uma cópia do meu diário. “Para fins de pesquisa.”

Quando chegamos à minha casa ele se despediu, dizendo:

— Fiquei surpreso que você tenha tido vontade de escrever seu diário no carro. Você parece estar bastante... determinada. Suponho que não queira deixar passar nenhum detalhe.

Entretanto, sei o que ele quis dizer. Ele quis dizer frenética.

Desesperada. Desesperada para conseguir registrar tudo. E ele está certo.

Estou determinada. Assim que entrei em casa, terminei de escrever na mesa de jantar e fechei o diário, guardando-o de volta no lugar antes de me despir lentamente. Ben havia deixado uma mensagem no telefone. “Vamos sair hoje à noite”, dissera ele. “Para jantar. É sexta-feira...”

Despi as calças azul-marinho que havia encontrado no guarda-roupa aquela manhã e a blusa azul-clara que havia decidido ser a melhor combinação. Eu estava completamente desnorteada. Havia entregue meu diário ao Dr. Nash durante aquela consulta — ele me perguntara se poderia ler, e eu dissera que sim. Isso foi antes de ele mencionar o convite que recebeu para ir a Genebra, e agora me pergunto se foi por isso que pediu para ler.

— Isso é ótimo! — disse, ao terminar a leitura. — Muito bom mesmo.

Você está se lembrando de um monte de coisas, Christine. Várias lembranças estão começando a voltar. Não vejo por que não continuariam.

Você tem bons motivos para ficar otimista...

Mas eu não me sentia otimista. Me sentia confusa. Teria eu flertado com ele, ou ele comigo? Foi a mão dele sobre a minha, mas eu o deixei colocá-la ali e permiti que ficasse.

— Você precisa continuar escrevendo — disse ele quando me devolveu o diário, e eu respondi que o faria.

Agora, no meu quarto, tentei me convencer de que não tinha feito nada de errado. Ainda assim, me sentia culpada. Porque eu havia gostado. A atenção, o sentimento de conexão. Por um momento, no meio de tudo o mais que estava acontecendo, havia uma pontinha de alegria. Eu havia me sentido atraente. Desejável.

Fui até a minha gaveta de lingeries. Ali, escondido no fundo, encontrei um conjunto de calcinhas de seda pretas com sutiã combinando. Coloquei-os — essas roupas que sei que devem ser minhas, mesmo que eu não sinta que sejam —, pensando durante o tempo todo no meu diário escondido dentro do armário. O que Ben pensaria se o encontrasse? Se lesse tudo o que eu havia escrito, tudo o que eu havia sentido? Será que ele entenderia?

Fiquei de pé na frente do espelho. Ele entenderia, disse a mim mesma.

Precisava entender. Examinei meu corpo com os olhos e as mãos. Explorei-o, corri os dedos sobre seus contornos e ondulações, como se fosse algo novo, um presente. Algo que deveria ser aprendido desde o começo.

Embora eu soubesse que o Dr. Nash não flertara comigo, durante o breve momento em que pensei que ele o fizera não me senti velha. Eu me senti viva.

Não sei quanto tempo permaneci ali. Para mim o tempo é elástico, praticamente sem importância. Os anos passaram por mim sem deixar

rastros. Os minutos não existem. Eu tinha apenas o tique-taque do relógio no andar de baixo para me mostrar que o tempo estava passando. Olhei para o meu corpo. Para o peso que se acumulou nas minhas nádegas e quadris, os pelos escuros nas minhas pernas, sob meus braços. Encontrei um aparelho de barbear no banheiro e ensaboei as pernas, depois desci a lâmina fria pela minha pele. Devo ter feito isso antes, pensei, incontáveis vezes, mas ainda assim parecia algo estranho de se fazer, quase ridículo.

Feri um pouco a pele no tornozelo — uma pequena pontada de dor —, e então surgiu uma nascente vermelha que tremulou antes de começar a gotejar perna abaixo. Eu a estanquei com o dedo, espalhando o sangue como um melaço, e o levei à boca. Gosto de sabão e metal quente. Não coagulou.

Deixei que corresse pela minha pele recém-depilada, depois limpei-a com um pano molhado.

De volta ao quarto, coloquei meias e um vestido preto justo. Escolhi um colar de ouro da caixa que estava na penteadeira e um par de brincos que combinavam com ele. Sentei-me à penteadeira, coloquei maquiagem, enrolei o cabelo e passei fixador. Borrifei perfume nos pulsos e atrás das orelhas.

E durante todo o tempo em que fiz isso, uma lembrança pairava sobre mim. Eu me vi colocando um par de meias-calças, abotoando os fechos de uma cinta-liga, colocando um sutiã, mas era outra versão de mim, num quarto diferente. O quarto estava em silêncio. Havia música tocando, baixinho, e à distância eu distinguia vozes, portas se abrindo e fechando, o fraco barulho do trânsito. Eu me sentia calma e feliz. Virei-me em direção ao espelho, examinei meu rosto à luz de velas. Nada mau, pensei. Nada mau mesmo.

A lembrança estava um pouco fora de alcance. Ela tremulava sob a superfície e, embora eu pudesse ver detalhes, pedaços de imagens, momentos, ela estava funda demais para que eu pudesse ver aonde ela iria levar. Vi uma garrafa de champanhe numa mesa de cabeceira. Duas taças.

Um buquê de flores sobre a cama, um cartão. Vi que eu estava num quarto de hotel, à espera do homem que amo. Ouvi uma batida na porta, me vi levantar, andar em direção a ela, mas então acabou, como se eu estivesse vendo televisão e de repente a antena houvesse sido desconectada. Voltei a mim e me vi de volta à minha casa. Muito embora a mulher que eu via no espelho fosse uma desconhecida — maquiada e com o cabelo arrumado, aquela estranheza se tornava ainda mais pronunciada —, eu me sentia pronta. Para o quê eu não sabia dizer, mas me sentia pronta. Desci para esperar pelo meu marido, o homem com quem me casei, o homem que eu amava.

“Amo”, lembrei a mim mesma. O homem que eu amo.

Ouvi a chave dele na fechadura, a porta sendo aberta, pés sendo limpos

no capacho. Um assovio? Ou seria o som da minha própria respiração, forte e pesada?

Uma voz.

— Christine? Christine, você está bem?

— Sim — respondi. — Estou aqui.

Uma tosse, o barulho de alguém pendurando o casaco, uma maleta sendo pousada no chão.

Ele gritou para o andar de cima.

— Está tudo bem? — repetiu ele. — Telefonei para você mais cedo.

Deixei um recado.

O estalar das escadas. Por um momento, pensei que ele iria subir para o banheiro ou para o escritório, sem vir me ver primeiro, e me senti tola, ridícula por estar toda arrumada, esperando pelo meu marido de sabe-se lá quantos anos vestida com as roupas de outra pessoa. Desejei poder tirar aquela roupa, limpar a maquiagem e me transformar novamente na mulher que eu sou, mas ouvi seu resmungo enquanto ele tirava um pé do sapato e depois o outro, e percebi que ele estava se sentando para colocar os chinelos. A escada estalou novamente, e então ele entrou no quarto.

— Querida... — começou ele, e então parou.

Seus olhos percorreram meu rosto, meu corpo e subiram para encontrar os meus olhos. Não soube dizer o que ele estava pensando.

— Uau — falou. — Você está... — Ele balançou a cabeça.

— Encontrei essa roupa — falei. — Pensei que deveria me arrumar um pouco. Afinal, é sexta à noite. Final de semana.

— Sim — disse ele, ainda de pé na soleira da porta. — Sim, mas...

— Você quer ir a algum lugar?

Então me levantei e andei em direção a ele.

— Me beije — pedi, e embora eu não houvesse exatamente planejado isso, parecia ser a coisa certa a fazer, então passei meus braços ao redor do seu pescoço. Ele cheirava a sabonete, suor e trabalho. Doce, como lápis de cera. Uma lembrança flutuou por mim — eu ajoelhada no chão com Adam, desenhando —, mas não durou muito tempo.

— Me beije — pedi novamente. Suas mãos contornaram a minha cintura.

Nossos lábios se tocaram. Roçando, inicialmente. Um beijo de boa noite ou de despedida, um beijo em público, um beijo na frente da mãe. Não soltei seu pescoço e ele me beijou novamente. Da mesma maneira.

— Beije-me, Ben — falei. — De verdade.

— Ben — falei mais tarde. — Nós somos felizes?

Estávamos em um restaurante onde já estivemos antes, segundo ele, embora é claro que eu não me lembrasse. Fotografias emolduradas de

pessoas que pensei serem celebridades cobriam as paredes; na parede dos fundos havia um forno de pizza. Belisquei do prato de melão à minha frente. Não me lembrava de tê-lo pedido.

— Quero dizer — continuei —, estamos casados... há quanto tempo?

— Deixe-me ver — disse ele. — Vinte e dois anos. — Parecia um período impossivelmente longo. Pensei na lembrança que tive esta tarde enquanto me arrumava. Flores num quarto de hotel. Eu só poderia estar esperando por ele.

— E nós somos felizes?

Ele descansou o garfo no prato e tomou um gole do vinho branco que havia pedido. Uma família chegou e se sentou na mesa ao lado. Pais mais velhos, uma filha na faixa dos 20. Ben falou:

— Estamos apaixonados, se é o que quer saber. Eu com certeza a amo.

E então lá estava; minha deixa para dizer a ele que também o amava.

Os homens sempre dizem que amam como se estivessem fazendo uma pergunta.

Entretanto, o que eu poderia dizer? Ele é um desconhecido. O amor não acontece no espaço de 24 horas, não importa o quanto eu desejasse acreditar que acontece.

— Eu sei que você não me ama — disse Ben. Olhei para ele, chocada por um momento. — Não se preocupe, entendo a situação em que você se encontra. Na qual nós nos encontramos. Você não se lembra, mas fomos apaixonados. Perdidamente, completamente. Como nas histórias, sabe?

Romeu e Julieta, essa baboseira toda. — Ele tentou rir, mas parecia estranho. — Eu amava você e você me amava. Nós éramos felizes, Christine. Muito felizes.

— Até o meu acidente.

Ele recuou diante da palavra. Teria eu falado demais? Eu li meu diário, mas será que tinha sido hoje que ele me contou sobre meu atropelamento?

Eu não sabia, mas, ainda assim, “acidente” teria sido um chute razoável para alguém na minha situação. Decidi não me preocupar com isso.

— Sim — disse ele tristemente. — Até o seu acidente. Nós éramos felizes.

— E agora?

— Agora? Gostaria que as coisas pudessem ser diferentes, mas não sou infeliz, Chris. Eu a amo. Não gostaria de estar com nenhuma outra pessoa.

“E quanto a mim?”, pensei. “Será que eu sou infeliz?”

Olhei para a mesa ao lado. O pai levava um par de óculos ao rosto, examinando o cardápio plastificado, enquanto a esposa arrumava o chapéu da filha e tirava seu cachecol. A garota permaneceu sentada sem ajudar, fitando o nada, a boca ligeiramente aberta. Sua mão direita contraía-se por

baixo da mesa. Um fio fino de saliva escorria pelo seu queixo. O pai percebeu que eu estava olhando, então desviei o olhar rapidamente, de volta para o meu marido, tentando fingir que eu não havia olhado. Eles devem estar acostumados com isso — com pessoas desviando o olhar tarde demais.

Suspirei.

— Queria poder me lembrar do que aconteceu.

— O que aconteceu? — disse ele. — Por quê?

Pensei em todas as outras lembranças que me ocorreram. Elas haviam sido breves, transitórias. Já não existiam mais. Haviam desaparecido. Mas eu as registrara no meu diário; sabia que elas haviam existido — e que ainda existem em algum lugar. Que estavam apenas perdidas.

Eu tinha certeza de que deveria haver alguma chave, uma lembrança que destrancaria todas as outras.

— Só acho que, se eu pudesse me lembrar do meu acidente, então talvez fosse capaz de me lembrar de outras coisas também. Talvez não de tudo, mas do suficiente. Nosso casamento, por exemplo, nossa lua de mel.

Não consigo nem mesmo me lembrar disso. — Tomei um gole de vinho. Eu quase havia mencionado o nome do nosso filho antes de me lembrar que Ben não sabia que eu tinha lido sobre ele. — Simplesmente acordar e saber quem eu sou já seria uma grande coisa.

Ben estalou os dedos, apoiando o queixo nas mãos fechadas.

— Os médicos disseram que isso não vai acontecer.

— Mas eles não têm certeza, não é? Eles podem estar errados.

— Duvido.

Pousei a taça na mesa. Ele estava errado. Pensava que tudo estava perdido, que meu passado fora apagado por completo. Talvez esse fosse o momento para contar sobre os fragmentos de lembrança que eu tinha, sobre o Dr. Nash. Meu diário. Tudo.

— Mas às vezes eu me lembro de algumas coisas — falei. Ele pareceu surpreso. — Acho que as coisas estão começando a voltar para mim, em imagens.

Ele descruzou as mãos.

— Sério? Que coisas?

— Bom, depende. Às vezes quase nada. Apenas sentimentos estranhos, sensações. Visões. Um pouco como sonhos, mas parecem ser reais demais para que eu os esteja inventando. — Ele não disse nada. — Têm de ser memórias.

Esperei, torcendo para que ele me perguntasse mais, que quisesse que eu contasse tudo o que eu havia visto, bem como de que forma eu conseguia me lembrar das recordações que havia tido.

Mas ele não falou. Continuou olhando para mim, com tristeza. Pensei nas lembranças sobre as quais escrevi, naquela em que ele me oferece vinho na cozinha da nossa primeira casa.

— Tive uma visão de você — falei. — Bem mais jovem...

— O que eu estava fazendo? — ele quis saber.

— Não muita coisa — respondi. — Estava só de pé na cozinha. — Pensei na garota com o pai e a mãe, sentados a apenas alguns metros de distância. Minha voz virou um sussurro. — Me beijando.

Ele sorriu.

— Achei que, se sou capaz de me lembrar de uma coisa, então talvez eu seja capaz de me lembrar de várias...

Ele pegou minha mão.

— Mas amanhã você não vai se lembrar de ter tido essa lembrança.

Esse é o problema. Você não tem uma base sobre a qual construir suas memórias.

Suspirei. O que ele dizia era verdade; eu não poderia continuar escrevendo sobre tudo o que acontece comigo pelo resto da vida, principalmente se eu tiver de ler todos os registros diariamente.

Olhei para a outra mesa, para a família ao nosso lado. A garota comia um minestrone de forma vacilante, molhando o babador de pano que a mãe havia colocado ao redor do seu pescoço. Eu podia vislumbrar a vida deles; despedaçada, presos na função de responsáveis, um papel do qual eles haviam esperado estarem livres muitos anos antes.

Nós estamos na mesma situação, pensei. Também preciso que me alimentem na boca. Então percebi que, assim como aqueles pais e sua filha, Ben me ama de uma maneira que jamais poderá ser recíproca.

E, ainda assim, talvez fôssemos diferentes. Talvez nós ainda tivéssemos esperança.

— Você quer que eu melhore? — perguntei.

Ele pareceu surpreso.

— Christine — disse ele. — Por favor...

— Talvez exista alguém com quem eu possa me consultar. Um médico?

— Nós já tentamos isso antes...

— Mas talvez valha a pena tentar novamente. As coisas estão progredindo a cada dia. Quem sabe há um novo tratamento?

Ele apertou a minha mão.

— Christine, não há nenhum tratamento novo. Acredite em mim, nós tentamos de tudo.

— O quê? — perguntei. — O que nós tentamos?

— Chris, por favor. Não...

— O que nós tentamos? — perguntei. — O quê?

— Tudo — respondeu ele. — Tudo. Você não tem ideia de como foi. —

Ele parecia incomodado. Seus olhos iam de um lado para o outro, como se esperasse ser atingido por alguma coisa, mas não soubesse de que direção viria o golpe. Eu poderia ter deixado a pergunta morrer nesse momento, mas não o fiz.

— Como foi, Ben? Eu preciso saber. Como foi?

Ele não disse nada.

— Me diga!

Ele levantou a cabeça e engoliu em seco. Parecia aterrorizado, o rosto vermelho, os olhos arregalados.

— Você esteve em coma — disse. — Todos pensavam que iria morrer.

Mas eu, não. Eu sabia que você era forte, sabia que você sairia daquela.

Que iria melhorar. E então, um dia, me ligaram do hospital e disseram que você havia acordado. Acharam que era um milagre, mas eu sabia que não era. Era você, minha Chris, voltando para mim. Você estava entorpecida, confusa. Não sabia onde estava e não conseguia recordar nada sobre o acidente, mas me reconheceu e também à sua mãe, embora não soubesse exatamente quem éramos. Eles falaram para não nos preocuparmos, que perda de memória era normal após ter sofrido ferimentos tão graves, que aquilo iria passar. Mas então... — Ele deu de ombros, baixou os olhos para fitar o guardanapo que segurava nas mãos. Por um momento pensei que não fosse continuar.

— Então o quê?

— Bem, você parecia estar piorando. Fui visitá-la um dia e você não fazia a menor ideia de quem eu era. Achou que eu era um médico. E então também se esqueceu de quem você era. Não conseguia lembrar o próprio nome, o ano em que nasceu. Nada. Eles perceberam que você também havia parado de formar novas memórias. Fizeram testes, tomografias, tudo.

Mas os resultados não foram bons. Disseram que o acidente havia danificado sua memória. Que seria algo permanente. Que não havia cura, não havia nada que eles pudessem fazer.

— Nada? Eles não fizeram nada?

— Não. Disseram que a sua memória tanto poderia voltar como não voltar mais, e que quanto mais tempo se passasse sem que você a recuperasse, mais provável seria que a perdesse para sempre. Disseram que a única coisa que eu poderia fazer era tomar conta de você. E isso é o que tenho tentado fazer. — Ele segurou minhas mãos entre as dele, acariciando meus dedos, roçando o metal da minha aliança.

Ben se inclinou para a frente, de forma que sua cabeça ficasse a apenas alguns centímetros de distância da minha.

— Eu amo você — sussurrou ele, mas eu não consegui responder, então

ficamos o resto do jantar praticamente em silêncio. Eu sentia um ressentimento crescendo dentro de mim. E raiva. Ele parecia tão determinado em dizer que ninguém poderia me ajudar! Tão inflexível.

Subitamente não me senti mais inclinada a contar a ele sobre o meu diário, nem sobre o Dr. Nash. Queria manter os meus segredos por um pouco mais de tempo. Senti como se eles fossem a única coisa minha que me restava.

Chegamos em casa. Ben fez café e fui ao banheiro. Então escrevi o máximo que pude sobre o que acontecera até então, tirei minha roupa e a maquiagem. Vesti a camisola. Outro dia chegava ao fim. Logo eu iria adormecer e meu cérebro começaria a deletar tudo. Amanhã vou passar por tudo isso novamente.

Percebi que não possuo ambições. Não posso tê-las. Tudo o que quero é me sentir normal. Poder viver como todas as outras pessoas, construir experiências em cima de experiências, cada dia moldando o dia seguinte.

Quero crescer, aprender coisas novas, melhorar com as experiências vividas. Ali, no banheiro, pensei na minha velhice. Tentei imaginar como será. Será que ainda irei acordar, com meus 70 ou 80 anos, pensando que ainda estou no início da minha vida? Será que vou acordar sem ter a menor ideia de que meus ossos são velhos, minhas juntas rígidas e pesadas? Não consigo imaginar como vou lidar com isso, quando descobrir que minha vida ficou para trás, que já aconteceu e eu não construí nada. Nenhuma lembrança querida, nenhuma riqueza de experiência, nenhum conhecimento acumulado que possa ensinar a alguém. O que somos senão o acúmulo de nossas próprias memórias? Como irei me sentir quando olhar no espelho e ver o reflexo da minha avó? Não sei, mas não posso me permitir pensar a respeito agora.

Ouvi Ben entrar no quarto. Percebi que não conseguiria guardar meu diário no guarda-roupa, então deixei-o sobre a cadeira ao lado da banheira, sob as roupas que eu tinha acabado de despir. Eu vou colocá-lo no lugar mais tarde, assim que Ben adormecer. Apaguei as luzes e entrei no quarto.

Ben estava sentado na cama, olhando para mim. Eu não disse nada, mas sentei ao lado dele. Percebi que ele estava nu.

— Eu amo você, Christine — disse, e então começou a me beijar, meu pescoço, minhas bochechas, meus lábios. Seu hálito era quente e tinha um leve odor de alho. Não queria que ele me beijasse, mas não o repeli. Eu pedi isso, pensei. Ao vestir aquele vestido idiota, ao colocar maquiagem e perfume, ao pedir que ele me beijasse antes de sairmos de casa.

Virei o rosto na direção dele e, embora não quisesse, beijei-o também.

Tentei imaginar nós dois na casa que havíamos acabado de comprar juntos, arrancando as roupas a caminho do quarto, nosso almoço por preparar na cozinha. Disse a mim mesma que deveria tê-lo amado naquela época — do contrário, por que teria me casado com ele? —, por isso não havia motivo para não amá-lo agora. Disse a mim mesma que o que eu estava fazendo era importante, uma expressão de amor e gratidão, e quando sua mão subiu para o meu seio não tentei impedi-lo, mas disse a mim mesma que aquilo era natural, normal. Também não tentei impedi-lo quando ele desceu as mãos por entre as minhas pernas e tocou minha vagina, e fui saber apenas depois, muito depois, que quando comecei a gemer baixinho não foi pelo o que ele estava fazendo. Não foi por prazer, de forma alguma, foi por medo, por causa do que vi quando fechei os olhos.

Eu, num quarto de hotel. O mesmo que vi enquanto me arrumava naquela tarde. Vejo as velas, o champanhe, as flores. Ouço a batida na porta, me vejo colocando na mesa a taça na qual estava bebendo, levanto e abro a porta. Sinto excitação, ansiedade; o ar está pleno de promessas.

Sexo e redenção. Estendo o braço, seguro a maçaneta da porta, fria e dura.

Respiro fundo. Finalmente vai ficar tudo bem.

E então, um buraco. Um branco na minha memória. A porta se abrindo, girando na minha direção, mas não consigo ver quem está do outro lado.

Ali, na cama com meu marido, o pânico tomou conta de mim, do nada.

— Ben! — gritei, mas ele não parou, não parecia me ouvir. — Ben! —

repeti. Fechei os olhos e apertei-os. Fui levada de volta ao passado.

Ele está no quarto. Atrás de mim. Esse homem, como ousa! Eu me viro, mas não vejo nada. Dor, queimando. Uma pressão na minha garganta. Não consigo respirar. Ele não é o meu marido, não é Ben, mas suas mãos estão por todo o meu corpo, suas mãos e sua carne, me cobrindo. Tento respirar, mas não consigo. Meu corpo, tremendo, macio, transforma-se em nada, em cinzas e ar. Água nos meus pulmões. Abro os olhos, mas não vejo nada além de vermelho. Vou morrer aqui, neste quarto de hotel. Meu Deus, penso. Nunca quis isso. Nunca pedi isso. Alguém tem que me ajudar.

Alguém tem que aparecer aqui. Sim, cometi um erro terrível, mas não mereço esse castigo. Não mereço morrer.

Eu me sinto desaparecer. Quero ver Adam. Quero ver o meu marido.

Mas eles não estão aqui. Ninguém está aqui além de mim e desse homem com as mãos ao redor da minha garganta. Me sinto descer por um buraco.

Cair na escuridão. Não posso dormir. Não posso dormir. Não. Posso. Dormir.

A lembrança se foi, subitamente, deixando um vazio, uma lacuna terrível. Meus olhos se abrem. Estou de volta à minha casa, na cama, meu marido dentro de mim.

— Ben! — gritei, mas era tarde demais. Com grunhidos abafados, ele ejaculou. Me segurei nele, abraçando-o o mais forte que pude e então, após um momento, ele beijou meu pescoço e me disse novamente que me

amava e depois:

— Chris, você está chorando...

Os soluços vieram, incontroláveis.

— O que aconteceu? — perguntou. — Machuquei você?

O que eu poderia dizer? Tremi enquanto minha mente tentava processar o que havia acontecido. Um quarto de hotel cheio de flores. Champanhe e velas. Um desconhecido com as mãos ao redor da minha garganta.