Antes de Dormir
Segunda-feira, 19 de novembro
Estou ansiosa para falar com ele.
— Sim — respondi, quando ele disse que ligaria. — Sim. Por favor.
Mas ele já havia desligado. Pensei na voz da mulher, percebi que eles
deveriam estar na cama.
Tirei esse pensamento da minha cabeça. Persegui-lo seria realmente ficar maluca.
Segunda-feira, 19 de novembro
O café estava movimentado. Era de uma rede. Tudo era verde ou marrom e descartável, embora (segundo os cartazes que pontilhavam as paredes acarpetadas) de um jeito sustentável. Bebi o meu café em um copo de papel assustadoramente grande, enquanto o Dr. Nash se acomodava em uma poltrona diante daquela em que eu havia me afundado.
Era a primeira vez que eu tinha a chance de olhar para ele direito; ou pelo menos a primeira vez hoje, o que no fim dá na mesma. Ele havia ligado — para aquele telefone que se abre — não muito tempo depois de eu limpar os restos do meu café da manhã, e foi me apanhar dali a uma hora, mais ou menos, depois que eu havia lido a maior parte do meu diário. Olhei pela janela durante o trajeto de carro até o café. Me sentia confusa.
Desesperadamente confusa. Nesta manhã, quando acordei — embora não pudesse ter certeza de saber meu próprio nome —, eu sabia de algum modo que era adulta e mãe, embora não tivesse a menor ideia de que estava na meia-idade e que meu filho estava morto. Meu dia até então havia sido brutalmente desorientador, um choque depois do outro — o espelho do banheiro, o álbum de fotos, e depois, mais tarde, este diário —, culminando na crença de que não confio em meu marido. Acabei perdendo quase toda a vontade de examinar qualquer outra coisa com mais profundidade.
Agora, contudo, eu percebia que o Dr. Nash era mais jovem do que eu havia esperado, e embora eu houvesse escrito que ele não precisava se preocupar com o peso, via que isso não queria dizer que ele era tão magro quanto eu imaginara. Ele tinha certa solidez, enfatizada pelo paletó grande demais que pendia sobre seus ombros e do qual seus antebraços surpreendentemente peludos quase nunca saíam.
— Como você está se sentindo hoje? — perguntou ele, depois de se acomodar.
Dei de ombros.
— Não sei bem. Confusa, creio.
Ele assentiu.
— Prossiga.
Empurrei para um canto o biscoito que o Dr. Nash havia me dado sem que eu houvesse pedido.
— Bom, acordei meio que sabendo que era adulta. Não sabia que era casada, mas não fiquei exatamente surpresa ao ver que havia alguém na cama comigo.
— Isso é bom, porém... — começou ele.
Interrompi.
— Mas ontem eu escrevi que acordei sabendo que tinha um marido...
— Você continua escrevendo no seu diário, então? — disse ele, e assenti. — Você o trouxe hoje?
Eu tinha trazido. Estava na minha bolsa. Mas havia coisas ali que eu não queria que ele lesse, não queria que ninguém lesse. Coisas pessoais. Minha história. A única história que eu tenho.
Coisas que eu havia escrito sobre ele.
— Esqueci — menti.
Não consegui perceber se ele ficou desapontado.
— Certo — disse ele. — Não tem problema. Posso entender como deve ser frustrante, num dia se lembrar de uma coisa e no outro aquilo parecer ter se perdido novamente. Mas ainda assim é um progresso. No geral, você está se lembrando de mais coisas do que antes.
Será que isso ainda seria verdade? Nas primeiras entradas deste diário, eu escrevi que me lembrava da minha infância, dos meus pais, de uma festa com minha melhor amiga. Havia visto meu marido quando éramos jovens e recém-apaixonados, me vira escrevendo um livro. Mas desde então... Ultimamente tenho visto apenas o filho que perdi e o ataque que me deixou assim. Coisas que talvez fosse melhor esquecer.
— Você disse que estava preocupada com Ben. Com o que ele está dizendo ser o motivo da sua amnésia.
Engoli em seco. O que eu havia escrito ontem parecia distante, apagado.
Quase ficcional. Um acidente de carro. Violência num quarto de hotel. Nada disso parecia ter alguma coisa a ver comigo. Entretanto eu não tinha outra escolha a não ser acreditar que eu havia escrito a verdade. Que Ben realmente mentiu para mim a respeito de como acabei ficando assim.
— Prossiga... — pediu ele.
Eu contei a ele o que eu havia escrito, começando com a história de Ben sobre o acidente e terminando com minha lembrança do quarto de hotel, porém não mencionei nem o sexo quando a recordação do quarto de hotel apareceu, nem o cenário romântico — as flores, as velas e o champanhe — do quarto.
Observei-o enquanto eu falava. De vez em quando ele murmurava em incentivo, e até mesmo coçou o queixo e estreitou os olhos em dado momento, embora sua expressão fosse mais pensativa do que surpresa.
— Você já sabia disso, não é? — perguntei, ao terminar de contar. — Já sabia disso tudo?
Ele pousou sua bebida.
— Não exatamente, não. Sabia que não tinha sido um acidente de carro que havia causado seus problemas, embora, depois de ler seu diário outro dia, eu saiba agora que Ben lhe disse que foi isso. Também sabia que você
devia estar hospedada em um hotel na noite da sua... de seu... na noite em que você perdeu a memória. Porém, os outros detalhes que você mencionou são novidade. E, até onde sei, é a primeira vez que você mesma se lembra de alguma coisa. Isso é uma ótima notícia, Christine.
Ótima notícia? Será que ele achava que eu devia estar contente?
— Então é verdade? — perguntei. — Não foi um acidente de carro?
Ele fez uma pausa, e então disse:
— Não. Não, não foi.
— Mas por que você não me contou que Ben estava mentindo? Quando leu o meu diário? Por que você não me contou a verdade?
— Porque Ben deve ter seus motivos — explicou ele. — E não parecia certo lhe contar que ele estava mentindo. Não naquele momento.
— Então você também mentiu para mim?
— Não — respondeu ele. — Nunca menti para você. Nunca lhe disse que tinha sido um acidente de carro.
Pensei no que eu havia lido de manhã.
— Mas outro dia... — eu disse. — No seu consultório. Nós conversamos sobre isso...
Ele balançou a cabeça.
— Eu não estava falando de um acidente — disse ele. — Você me disse que Ben havia lhe contado o que aconteceu, portanto achei que você soubesse a verdade. Eu não tinha lido seu diário ainda, não se esqueça.
Provavelmente eu e você tivemos uma falha de comunicação...
Agora pude ver que aquilo podia ter acontecido: nós dois dando voltas em um assunto que não desejávamos mencionar.
— Então o que realmente aconteceu? — perguntei. — Naquele quarto de hotel? O que eu estava fazendo ali?
— Não sei de tudo — disse ele.
— Então me diga o que sabe. — As palavras saíram em um tom irritado, mas era tarde demais para retirá-las. Observei-o limpar uma migalha inexistente das calças.
— Tem certeza de que quer mesmo saber?
Tive a sensação de que ele estava me dando uma última chance. “Você ainda pode desistir”, parecia estar me dizendo. “Pode continuar sua vida sem saber o que estou prestes a lhe contar.”
Porém, ele estava errado. Eu não podia. Sem a verdade, estou vivendo menos do que meia vida.
— Tenho — respondi.
Sua voz ficou baixa. Vacilante. Ele começava frases apenas para abortá-las algumas palavras depois. A história espiralava, como se rodeasse algo terrível, algo que seria melhor permanecer não dito. Algo que zombava da
conversa fiada a que, imagino, um café está mais acostumado.
— É verdade. Você foi atacada. Foi... — Ele fez uma pausa. — Bem, foi bem feio. Encontraram você vagando pela rua. Confusa. Não estava com nenhum documento de identificação e não tinha a menor lembrança de quem era ou do que havia acontecido. Sofreu ferimentos na cabeça. A polícia inicialmente achou que você tinha sido assaltada. — Outra pausa. —
Encontraram você enrolada em uma manta, coberta de sangue.
Gelei.
— Quem me encontrou?
— Não sei direito...
— Ben?
— Não. Ben, não. Um desconhecido. Seja lá quem for, ele a acalmou.
Chamou uma ambulância. Você foi levada para um hospital, é claro. Tinha hemorragias internas e precisou ser operada com urgência.
— Mas como descobriram quem eu era?
Por um momento terrível pensei que talvez jamais houvessem descoberto a minha identidade. Talvez tudo, a história toda, até mesmo o meu nome, tivesse me sido dado no dia em que me encontraram. Até mesmo Adam.
O Dr. Nash disse:
— Não foi difícil. Você fez check-in no hotel com o seu nome verdadeiro. E Ben já havia reportado o seu desaparecimento à polícia.
Mesmo antes de encontrarem você.
Pensei no homem que bateu à porta daquele quarto, no homem que eu estivera esperando.
— Ben não sabia onde eu estava?
— Não — disse ele. — Aparentemente ele não fazia a menor ideia.
— Nem com quem eu estava? Quem fez isso comigo?
— Não — disse ele. — Ninguém jamais foi preso. Havia pouquíssimas provas, e logicamente você não era capaz de ajudar a polícia com as investigações. Supõe-se que a pessoa que a atacou tirou tudo do quarto, depois abandonou você e fugiu. Ninguém foi visto entrando ou saindo do hotel. Aparentemente naquela noite o lugar estava movimentado — algum evento em um dos quartos, com bastante entra e sai. Você provavelmente ficou inconsciente durante algum tempo depois do ataque. Era de madrugada quando você desceu a escada e saiu do hotel. Ninguém viu você sair.
Suspirei. Percebi que a polícia devia ter encerrado o caso anos atrás.
Para todo mundo, menos para mim — até mesmo para Ben —, isso era passado, história antiga. Jamais saberei quem fez isso comigo ou por quê.
A menos que eu me lembre.
— O que aconteceu depois? — perguntei. — Depois que me levaram para o hospital?
— A operação foi bem-sucedida, mas houve efeitos colaterais. Foi difícil mantê-la estável depois da cirurgia. Principalmente sua pressão sanguínea.
— Ele fez uma pausa. — Você ficou em coma durante algum tempo.
— Coma?
— Sim — disse ele. — Correu um grande risco, mas, bem, teve sorte.
Estava no lugar certo e eles atacaram o problema por todas as frentes.
Você se recuperou. Mas então ficou evidente que a sua memória havia desaparecido. De início acharam que poderia ser algo temporário. Devido à combinação dos ferimentos na cabeça com a anoxia. Era uma suposição razoável...
— Desculpe — falei. — Anoxia?
Eu não conhecia aquela palavra.
— Desculpe — disse ele. — Falta de oxigenação.
Senti minha cabeça começar a se debater. Tudo começou a encolher e a se distorcer, como se estivesse diminuindo de tamanho, ou como se eu estivesse aumentando de tamanho. Eu me ouvi repetir:
— Falta de oxigenação?
— Sim — disse ele. — Você tinha sintomas de uma falta grave de oxigenação no cérebro. Combinava com um quadro de envenenamento por dióxido de carbono — embora não houvesse nenhuma outra prova além da anoxia — ou de estrangulamento. Havia marcas em seu pescoço que poderiam sugerir isso, mas a explicação mais provável era que você quase fora afogada. — Ele fez uma pausa enquanto eu absorvia o que ele estava me dizendo. — Você se lembra de quase ter sido afogada?
Fechei os olhos. Não vi nada além de um cartão sobre o travesseiro, onde vi as palavras Eu amo você. Balancei a cabeça.
— Você se recuperou, mas sua memória não sofreu melhoras. Você ficou no hospital por duas semanas. No começo, na unidade de tratamento intensivo, depois na ala médica geral. Quando ficou bem o bastante para ser transferida, foi trazida de volta a Londres.
De volta para Londres. É claro. Fui encontrada perto de um hotel; eu devia estar longe de casa. Perguntei onde.
— Em Brighton — respondeu ele. — Você tem alguma ideia de por que estaria ali? Alguma conexão com aquela área?
— Não — falei. — Nenhuma. Não que eu saiba, pelo menos.
— Talvez ajude voltar lá um dia. Para ver se você recorda.
Gelei. Balancei a cabeça.
Ele assentiu.
— Tudo bem. Bom, você poderia estar lá por uma série de motivos,
logicamente.
Sim, pensei. Mas havia apenas um que incorporava velas acesas e buquês de rosas e não incluía o meu marido.
— Sim — falei. — Logicamente.
Fiquei pensando se um de nós dois iria mencionar a palavra caso, e em como Ben deve ter se sentido quando soube onde eu estava e por quê.
Então eu entendi. O motivo pelo qual Ben não me deu a verdadeira explicação da minha amnésia. Por que ele iria querer me lembrar que certa vez, por mais breve que tenha sido, eu preferi estar com outro homem? Me senti gelar. Eu havia preterido o meu marido, e olhe o preço que paguei.
— O que aconteceu depois? — perguntei. — Eu voltei a morar com Ben?
Ele balançou a cabeça.
— Não, não — respondeu o Dr. Nash. — Você ainda estava muito doente. Teve de ficar no hospital.
— Por quanto tempo?
— Você ficou na enfermaria no início. Durante alguns meses.
— E depois?
— Foi transferida. — Ele hesitou; achei que eu teria de lhe pedir que continuasse, mas depois ele disse: — Para uma ala psiquiátrica.
A palavra me chocou.
— Uma ala psiquiátrica?
Imaginei um lugar assustador, cheio de gente maluca uivando, descontrolada. Não consegui me ver ali.
— Sim.
— Mas por quê? Por que lá?
Ele falou baixinho, mas seu tom deixou escapar certa irritação. De repente me assaltou a certeza de que já havíamos conversado isso tudo antes, talvez muitas vezes, presumivelmente antes de eu começar a escrever o diário.
— Era mais seguro — explicou ele. — Você havia se recuperado razoavelmente bem dos ferimentos físicos àquela altura, mas seus problemas de memória estavam piores do que nunca. Você não sabia quem era, nem onde estava. Exibia sintomas de paranoia, dizia que os médicos estavam conspirando contra você. Não parava de tentar fugir. — Ele aguardou. — Você estava ficando cada vez mais rebelde. Foi transferida para sua própria segurança, além da segurança dos outros.
— Dos outros?
— Você agredia as pessoas de vez em quando.
Tentei imaginar como deve ter sido. Imaginei alguém acordando confusa todos os dias, sem saber quem era, nem onde estava, nem por que estava internada em um hospital. Pedindo respostas sem obtê-las. Rodeada de
gente que sabia mais a seu respeito do que você mesma. Deve ter sido um inferno.
Então lembrei que estávamos falando de mim.
— E depois?
Ele não respondeu. Vi seus olhos se erguerem e olharem para um ponto atrás de mim, na direção da porta, como se a observasse, aguardando. Mas não havia ninguém ali: ela não se abriu, ninguém saiu nem entrou. Fiquei imaginando se ele na verdade não estaria pensando em fugir.
— Dr. Nash — repeti —, o que aconteceu depois?
— Você ficou lá por algum tempo. — A voz dele agora era quase um sussurro. Ele já me contou isso antes, pensei, porém dessa vez sabe que vou anotar tudo e guardar a informação durante mais do que algumas poucas horas.
— Por quanto tempo?
Ele nada disse. Repeti a pergunta.
— Por quanto tempo?
Ele me olhou, seu rosto uma mistura de tristeza e dor.
— Sete anos.
Ele pagou e então saímos do café. Eu me sentia entorpecida. Não sabia o que eu estivera esperando ouvir, onde achava que havia ficado durante a pior fase da minha doença, mas não imaginei que teria sido ali. Não no meio daquela dor toda.
Enquanto caminhávamos, o Dr. Nash se virou para mim.
— Christine — disse ele —, tenho uma sugestão.
Notei a casualidade com que ele falava, como se estivesse me perguntando que sabor de sorvete eu iria querer. Aquela casualidade só podia ser forçada.
— Diga.
— Acho que talvez possa ser de alguma ajuda visitar a ala em que você ficou. O lugar onde passou todo esse tempo — disse ele.
Minha reação foi instantânea. Automática.
— Não! Por quê?
— Você está tendo lembranças — disse ele. — Pense no que aconteceu quando fomos visitar sua antiga casa. — Assenti. — Você se lembrou de algo. Acho que isso pode voltar a acontecer. Podemos desencadear mais lembranças.
— Mas...
— Não precisa fazer isso. Mas... olhe. Vou ser sincero. Já combinei tudo com eles. Eles ficariam felizes em receber você. Nós dois. A qualquer momento. Eu só precisaria ligar para avisar que estamos a caminho. E eu
iria com você. Se você se sentir incomodada ou tensa, podemos ir embora.
Será tranquilo. Prometo.
— Acha que isso pode me ajudar a melhorar? Mesmo?
— Não sei — disse ele. — Talvez.
— Quando? Quando você quer ir?
Paramos de andar. Percebi que o carro na frente do qual estávamos devia ser o dele.
— Hoje — respondeu ele. — Acho que deveríamos ir hoje. — E então ele disse algo estranho. — Não temos tempo a perder.
Não me obrigaram a ir. O Dr. Nash não me forçou a fazer aquela visita.
Mas, embora eu não me lembre (não me lembro de quase nada, na verdade), devo ter dito sim.
O trajeto não foi longo e o fizemos em silêncio. Eu não conseguia pensar em nada. Não tinha nada para dizer, nada para sentir. Minha mente estava vazia. Como se tivessem retirado todo o seu interior. Tirei o diário da bolsa — sem me importar por ter dito ao Dr. Nash que eu não o havia trazido — e escrevi essa última entrada. Eu desejava registrar cada detalhe da nossa conversa, e o fiz, em silêncio, quase sem pensar. Não conversamos enquanto ele estacionava o carro, nem
enquanto
caminhávamos pelos corredores antissépticos com seu cheiro de café velho e tinta nova. Pessoas eram transportadas em cadeiras de rodas à nossa volta, presas a bolsas de soro. Havia cartazes descolando das paredes.
Lâmpadas acima de nós vacilavam e zumbiam. Eu só conseguia pensar nos sete anos que passei ali. Parecia uma vida inteira; um tempo do qual eu nada me lembrava.
Paramos em frente a uma porta dupla. Ala Fisher. O Dr. Nash apertou um dos botões de um interfone preso à parede e murmurou algo. Ele está errado, pensei, quando a porta se abriu. Eu não sobrevivi àquele ataque. A Christine Lucas que abriu a porta daquele quarto de hotel está morta.
Outra porta dupla.
— Está tudo bem, Christine? — perguntou ele depois que a primeira fechou-se às nossas costas, cerrando-nos lá dentro. Eu não respondi. —
Aqui é uma unidade de segurança. — Fui atingida pela súbita convicção de que a porta atrás de mim estava se fechando para sempre, de que eu jamais iria sair dali.
Engoli em seco.
— Compreendo — falei.
A porta interna começou a se abrir. Eu não sabia o que veria atrás dela,
não podia acreditar que já estivera ali antes.
— Preparada? — perguntou ele.
Um longo corredor. Havia portas nos dois lados e, ao percorrê-lo, vi que elas davam para quartos com janelas de vidro. Em cada um deles havia uma cama, umas feitas, outras desfeitas, algumas ocupadas, a maioria não.
— Os pacientes daqui sofrem de diferentes doenças — explicou o Dr.
Nash. — A maioria exibe sintomas esquizoafetivos, mas há aqueles com bipolaridade, ansiedade aguda, depressão.
Olhei por uma das janelas. Uma garota estava sentada na cama, nua, olhando a televisão. Em outra, um homem estava sentado de cócoras, balançando-se, abraçado aos joelhos como se para se proteger do frio.
— Eles estão trancados aqui? — perguntei.
— Os pacientes daqui foram isolados de acordo com o Mental Health Act. Também conhecido como Estatuto. Estão aqui pelo seu próprio bem, mas contra a própria vontade.
— “Seu próprio bem?”
— Sim. Representam perigo para si mesmos ou para outros. Precisam ser mantidos em segurança.
Continuamos andando. Uma mulher olhou para mim quando passei pelo seu quarto e, embora nossos olhos tenham feito contato, os dela não traíram nenhuma expressão. Em vez disso, ela se estapeou, ainda olhando para mim, e quando meu rosto se franziu, ela o fez novamente. Uma visão me atravessou rapidamente — eu visitando um zoológico quando criança, observando um tigre andando para cima e para baixo na sua jaula —, mas eu a afastei e continuei caminhando, decidida a não olhar nem para a direita, nem para a esquerda.
— Por que me trouxeram para cá? — perguntei.
— Antes de você ser transferida para cá, estava em uma ala médica normal. Numa cama, como todos os outros pacientes. Passava alguns fins de semana em casa, com Ben. Mas você foi ficando de trato cada vez mais difícil.
— Difícil?
— Você fugia. Ben precisou começar a trancar as portas de casa. Você teve ataques histéricos duas vezes, convencida de que fora ele quem a machucara, de que você estava trancafiada ali contra sua vontade. Durante algum tempo, ao voltar para o hospital você ficava bem, mas depois começou a demonstrar comportamentos semelhantes também ali.
— Então precisaram encontrar um jeito de me trancafiar — falei.
Havíamos chegado a um posto de enfermagem. Um homem uniformizado estava sentado atrás de uma mesa, escrevendo algo no computador. Ele olhou para nós quando nos aproximamos e disse que a
médica viria nos receber em um instante. Nos convidou a sentar. Eu examinei seu rosto — o nariz torto, o brinco de ouro — esperando uma faísca de familiaridade se acender. Nada. A ala me parecia completamente estranha.
— Sim — disse o Dr. Nash. — Você ficou desaparecida. Durante aproximadamente quatro horas e meia. Foi recolhida pela polícia perto do canal. Vestia apenas pijama e robe. Ben precisou ir buscá-la na delegacia.
Você não queria ir com nenhuma das enfermeiras. Não tiveram escolha.
Ele me disse então que Ben começou a fazer campanha para me transferir de lá.
— Ele acreditava que uma ala psiquiátrica não era o lugar ideal para você. E na verdade, tinha razão. Você não era perigosa, nem para si mesma nem para os outros. É até possível que o fato de estar rodeada de gente mais doente que você estivesse fazendo você piorar. Ele escreveu para os médicos, para a coordenadora do hospital, para o seu clínico geral. Mas não havia outro lugar disponível.
“Então — continuou o Dr. Nash — foi inaugurado um centro residencial para pacientes com danos cerebrais crônicos. Ben fez uma campanha vigorosa, e você foi analisada e considerada adequada, porém a verba da internação era um problema. Ben tivera de se afastar temporariamente do trabalho para cuidar de você e não era capaz de pagar as despesas, mas não aceitou um não como resposta. Ao que parece, ele ameaçou relatar a história para a imprensa. Houve audiências, requerimentos e coisas do gênero, mas no final ele conseguiu, e você foi aceita como paciente — com as despesas custeadas pelo Estado durante todo o período que ficasse internada. Você foi transferida para lá há mais ou menos dez anos.
Pensei no meu marido, tentei imaginá-lo escrevendo cartas, fazendo campanhas, ameaças. Não parecia possível. O homem que eu conheci de manhã parecia humilde, deferente. Não exatamente fraco, mas resignado.
Não parecia ser alguém capaz de fazer estardalhaço.
Não sou a única, pensei, cuja personalidade mudou por causa dos meus ferimentos.
— O lugar era relativamente pequeno — prosseguiu o Dr. Nash. —
Alguns quartos em um centro de reabilitação. Não havia muitos outros residentes. E havia muita gente para cuidar de você. Você tinha um pouco mais de independência ali. Estava segura. Apresentou melhoras.
— Mas eu não fiquei com Ben?
— Não. Ele morava na casa dele. Precisava continuar trabalhando, e não podia fazer isso e cuidar de você ao mesmo tempo. Ele decidiu que...
Uma lembrança irrompeu, levando-me subitamente de volta ao passado.
Tudo estava um pouco fora de foco e tinha uma névoa ao redor, e as
imagens eram tão claras que quase tive vontade de afastar o olhar. Eu me vejo andando por esses mesmos corredores, sendo conduzida até um quarto que eu mal entendia ser o meu. Estou usando pantufas e uma camisola hospitalar azul amarrada atrás. A mulher que está comigo é negra e usa uniforme.
— Pronto, meu bem — diz ela para mim. — Olhe quem veio visitar você! — Ela solta a minha mão e me guia até a cama.
Um grupo de estranhos está sentado ao redor da cama, me observando.
Vejo um homem de cabelos escuros e uma mulher de boina, mas não consigo distinguir seus rostos. Vim parar no quarto errado, sinto vontade de dizer. Houve um engano. Mas não digo nada.
Um menino, de 4 ou 5 anos, se levanta de onde estava sentado, na beira da cama. Ele corre na minha direção e diz “Mamãe”, e percebo que está falando comigo, e só então entendo quem é. Adam. Eu me agacho e ele corre para os meus braços; então eu o abraço e beijo sua cabeça, depois me levanto.
— Quem são vocês? — pergunto ao grupo ao redor da cama. — O que estão fazendo aqui?
O homem parece subitamente triste, a mulher de boina se levanta e diz:
— Chris. Chrissy. Sou eu. Você sabe quem eu sou, não é?
Depois anda na minha direção e vejo que ela está chorando.
— Não — digo. — Não! Saiam! Saiam!
Então eu me viro para sair do quarto e há outra mulher ali, de pé atrás de mim, e não sei quem é ela, nem como chegou aqui, e começo a chorar.
Começo a afundar em direção ao chão, mas o menino está lá, abraçando meus joelhos, e não sei quem ele é, mas ele não para de me chamar de Mamãe, de repetir aquilo sem parar, Mamãe, Mamãe, Mamãe, e eu não sei por quê, nem quem ele é, nem por que está me abraçando...
Uma mão tocou meu braço e me sobressalto como se tivesse levado uma picada. Uma voz.
— Christine? Está tudo bem? A Dra. Wilson está aqui.
Abri os olhos, olhei ao redor. Uma mulher de jaleco branco estava à nossa frente.
— Dr. Nash — cumprimentou ela. Apertou a mão dele, depois virou-se para mim. — Christine?
— Sim — falei.
— Prazer em conhecê-la — disse ela. — Meu nome é Hilary Wilson. —
Apertei sua mão. Ela era um pouco mais velha do que eu; seu cabelo estava começando a ficar grisalho, e um par de óculos em meia-lua pendia de uma corrente dourada ao redor de seu pescoço. — Como vai? —
perguntou ela, e do nada tive certeza de que já a conhecia. Ela indicou o corredor com um meneio de cabeça. — Podemos ir?
O consultório era amplo, com as paredes repletas de livros, além de pilhas de caixas abarrotadas de papéis. Ela se sentou atrás de uma mesa e indicou duas cadeiras à frente, onde eu e o Dr. Nash nos sentamos.
Observei-a retirar uma pasta da pilha sobre a mesa e abri-la.
— Bem, minha cara — disse ela. — Vamos dar uma olhada.
Sua imagem se congelou. Eu a conhecia. Tinha visto sua foto enquanto fazia o exame de ressonância, e, embora não a tivesse reconhecido então, eu a conhecia. Já estivera aqui antes. Muitas vezes. Sentada onde estou agora, nessa mesma cadeira ou em uma parecida, vendo-a fazer anotações em uma pasta enquanto me observava por trás dos óculos que emolduravam delicadamente seus olhos.
— Já vi você antes... — eu disse. — Eu me lembro.
O Dr. Nash olhou para mim, depois tornou a olhar para a Dra. Wilson.
— Sim — confirmou ela. — Sim, já viu. Embora não com muita frequência. — Ela explicou que havia acabado de começar a trabalhar ali quando fui transferida e que de início eu nem sequer era um dos casos dela. — Mas com certeza é bastante animador que você se lembre de mim
— continuou ela. — Você esteve internada aqui faz muito tempo. — O Dr.
Nash se inclinou para a frente e disse que talvez fosse ajudar se eu visse o quarto onde havia ficado. Ela concordou e espiou dentro da pasta, então depois de um minuto disse que não sabia qual era. — É possível que você tenha mudado de quarto com certa frequência, de todo modo — disse ela.
— Isso é muito comum. Será que poderíamos perguntar ao seu marido?
Segundo o seu arquivo, ele e seu filho, Adam, vinham visitar você quase todos os dias.
Eu havia lido a respeito de Adam naquela manhã e senti um lampejo de felicidade ao ouvir a menção do seu nome, além do alívio por ter presenciado um pouco do seu crescimento, mas balancei a cabeça.
— Não — falei. — Prefiro não ligar para Ben.
A Dra. Wilson não discutiu.
— Uma amiga sua chamada Claire parecia vir com regularidade também. E ela?
Fiz que não.
— Não temos mais contato.
— Ah — disse ela. — Que pena. Mas não importa. Posso lhe contar um pouco de como era a vida aqui naquela época. — Ela olhou rapidamente para suas anotações, depois uniu as mãos. — Seu tratamento era conduzido
basicamente por um psiquiatra consultor. Você foi submetida a sessões de hipnose, mas receio que os progressos tenham sido limitados e efêmeros.
— Ela continuou lendo. — Você não recebia muita medicação. Um sedativo, de vez em quando, embora mais para ajudá-la a dormir — as coisas podem ficar bastante barulhentas aqui, estou certa de que entende por quê.
Eu me lembrei dos uivos que havia imaginado, pensando se um dia eu teria uivado assim.
— Como era aqui? — perguntei. — Eu era feliz?
Ela sorriu.
— Em geral, sim. Você era bastante querida. Pareceu ter feito amizade com uma das enfermeiras em particular.
— Como ela se chamava?
Ela procurou nas anotações.
— Receio que não haja nada aqui. Você jogava paciência.
— Paciência?
— Um jogo de cartas. Talvez o Dr. Nash possa explicar mais tarde...? —
Ela olhou para cima. — Segundo as anotações, você por vezes era violenta
— disse ela. — Não se alarme. Não é incomum em casos como o seu. As pessoas que sofreram traumas graves na cabeça com frequência exibem tendências violentas, especialmente quando houve danos na região do cérebro que comanda o autocontrole. Além disso, os pacientes com amnésia como a sua frequentemente tendem a fazer algo que chamamos de confabulação. As coisas ao redor deles não parecem fazer sentido, portanto eles se sentem inclinados a inventar detalhes. Sobre si mesmos e sobre as pessoas ao redor, ou sobre a história deles, sobre o que aconteceu com eles. Acredita-se que isso se deva ao desejo de preencher lacunas na memória. É de certo modo compreensível. Mas pode, com frequência, levar a comportamentos violentos quando a fantasia do amnésico é contradita. A vida deve ter sido bastante desorientadora para você, principalmente quando você recebia visitas.
Visitas. De repente tive medo de haver batido no meu filho alguma vez.
— O que eu fazia?
— Você de vez em quando agredia alguns dos funcionários — disse ela.
— Mas não Adam? O meu filho?
— Não, de acordo com essas anotações, não. — Suspirei, porém não completamente aliviada. — Temos aqui algumas páginas de uma espécie de diário que você estava escrevendo — continuou ela. — Quem sabe olhá-las não ajude você? Talvez assim você ache mais fácil entender a sua própria confusão.
Isso parecia perigoso. Olhei de relance para o Dr. Nash, e ele assentiu.
Ela empurrou uma página de papel azul na minha direção e eu a segurei, de
início com medo até mesmo de olhar para aquilo.
Quando por fim o fiz, vi que ela estava coberta por garatujas desorganizadas. Em cima as letras estavam bem desenhadas e alinhadas com a pauta que atravessava a página de cima a baixo, mas chegando ao final elas ficavam grandes e bagunçadas, com centímetros de altura, formando poucas palavras em cada linha. Embora com medo do que eu pudesse ver, comecei a ler.
8:15, dizia a primeira entrada. Acabo de acordar. Ben está aqui. Logo embaixo eu escrevi: 8:17. Ignore aquela última anotação. Foi escrita por outra pessoa, e embaixo disso: 8:20. AGORA é que estou acordada. Antes eu não estava. Ben está aqui.
Meus olhos desceram para o fim da página: 9:45. Acabo de acordar, PELA PRIMEIRA VEZ, e então, algumas linhas depois: 10:07.
AGORA é que acordei definitivamente. Todas as outras anotações são mentira. AGORA é que acordei.
Olhei para cima.
— Isso realmente fui eu? — perguntei.
— Sim. Durante um longo período você pareceu acreditar constantemente que havia acabado de acordar de um sono muito longo, muito profundo. Olhe aqui. — A Dra. Wilson apontou para a página na minha frente e começou a citar algumas passagens. — “Estive adormecida por uma eternidade. Foi como estar MORTA. Acabo de acordar. Estou vendo novamente, pela primeira vez.” Aparentemente você foi incentivada a anotar o que estava sentindo, na tentativa de fazer você se lembrar do que havia acontecido antes, porém receio que você apenas ficou convencida de que todas as anotações anteriores tinham sido feitas por outra pessoa. Você começou a achar que as pessoas daqui estavam conduzindo experimentos com você, mantendo você aqui contra a sua vontade.
Olhei mais uma vez para a página, que estava completamente preenchida com anotações quase idênticas, cada uma com diferença de apenas alguns minutos. Eu me senti gelar.
— Eu estava mesmo tão mal assim? — perguntei. Minhas palavras pareceram ecoar dentro da minha cabeça.
— Por algum tempo, sim — respondeu o Dr. Nash. — Suas anotações indicam que você só conseguia reter as lembranças por uns poucos segundos. Às vezes um ou dois minutos. Esse tempo aos poucos foi se ampliando, com o passar dos anos.
Eu não conseguia acreditar que havia escrito isso. Parecia ser obra de alguém cuja mente estava completamente fraturada. Fragmentada. Vi as palavras de novo. “Foi como estar MORTA.”
— Sinto muito — falei. — Não posso...
A Dra. Wilson tomou o papel da minha mão.
— Compreendo, Christine. É frustrante. Eu...
Então o pânico me atingiu. Eu me levantei, mas a sala começou a rodar.
— Quero ir embora — falei. — Essa não sou eu. Não pode ter sido eu.
Eu... eu nunca bateria em ninguém. Jamais. Eu só...
O Dr. Nash também se levantou, e em seguida a Dra. Wilson. Ela deu um passo à frente, trombou contra a mesa e mandou papéis pelos ares.
Uma fotografia caiu no chão.
— Santo Deus... — falei, e ela olhou para baixo, depois agachou-se para cobri-la com outra folha de papel. Porém, eu já tinha visto. — Essa era eu?
— perguntei, quase gritando. — Essa era eu?
A fotografia mostrava o rosto de uma moça. Seu cabelo havia sido afastado do rosto. De início parecia que ela estava usando uma máscara de Halloween. Um dos olhos estava aberto e fixava a câmera, o outro estava fechado por um hematoma roxo gigantesco, e os lábios estavam inchados, rosados, lacerados por cortes. As bochechas estavam distendidas, o que dava ao rosto inteiro uma aparência grotesca. Pensei em purê de fruta. Em ameixas podres, abertas.
— Essa era eu? — berrei, embora, apesar do rosto inchado e distorcido, eu percebesse que era.
* * *
Minha memória se desintegra aqui, fraturada em duas. Parte de mim estava calma, tranquila. Serena. Observou enquanto a outra parte de mim batia nas coisas e berrava e precisou ser contida pelo Dr. Nash e pela Dra. Wilson.
Você precisa se comportar, ela parecia dizer. Isso é constrangedor.
Porém, a outra parte era mais forte. Havia assumido as rédeas, se tornado a verdadeira eu. Gritei e gritei, sem parar, depois me virei e corri para a porta. O Dr. Nash veio atrás de mim. Eu escancarei a porta e saí correndo, mas para onde poderia ir? Uma imagem de portas trancadas.
Alarmes. Um homem me perseguindo. Meu filho chorando. Já fiz isso antes, pensei. Já fiz tudo isso antes.
Minha memória se oblitera.
Eles devem ter me acalmado de alguma maneira, me convencido a ir com o Dr. Nash; a próxima coisa de que me lembro é de estar sentada no carro ao lado dele, enquanto ele dirige. O céu estava começando a ficar nublado, as ruas, cinzentas, de algum modo chapadas. Ele falava, mas eu não conseguia me concentrar. Era como se minha mente tivesse tropeçado, caído de volta em alguma outra parte, e agora eu não mais pudesse
acompanhá-la. Olhei pelas janelas para as pessoas com sacolas de compras e passeando com seus cachorros, para as pessoas com carrinhos de bebê e bicicletas, e me perguntei se isso — essa busca pela verdade — era realmente o que eu queria. Sim, talvez ela me ajudasse a melhorar, mas quanto posso esperar ganhar com isso? Não espero que um dia eu venha a acordar sabendo de tudo, como as pessoas normais, sabendo o que fiz no dia anterior, quais planos tenho para o dia seguinte, que caminho tortuoso me levou até o aqui e agora, até a pessoa que hoje sou. O melhor que posso esperar é que, um dia, me olhar no espelho não seja um choque total, que eu me lembre de que me casei com um homem chamado Ben e perdi um filho chamado Adam, que eu não tenha de ver um exemplar do meu romance para saber que escrevi um livro.
Porém, até mesmo isso parece inatingível. Pensei no que eu havia visto na Ala Fisher. Loucura e dor. Mentes estilhaçadas. Estou mais perto disso, pensei, do que da recuperação. Talvez no fim das contas fosse melhor aprender a conviver com minha doença. Eu poderia dizer ao Dr. Nash que não quero mais vê-lo e queimar o meu diário, enterrando assim as verdades que já descobri, escondendo-as tão bem quanto as que ainda desconheço. Eu estaria fugindo do meu passado, mas não teria arrependimentos — em questão de algumas horas eu nem sequer saberia que meu médico e meu diário haviam existido — e então eu poderia simplesmente viver. Um dia se seguiria ao outro, desconectados. Sim, de vez em quando a lembrança de Adam viria à tona. Eu teria um dia de dor e luto, me lembraria do que perdi, mas isso não duraria. Logo eu iria dormir e, silenciosamente, esquecer.
Como seria fácil, pensei. Tão mais fácil do que isto.
Pensei na foto que eu havia visto. A imagem estava gravada em mim.
“Quem fez isso comigo? Por quê?”. Eu me lembrei da recordação que tive do quarto de hotel. Ela continuava presente, apenas ligeiramente submersa, quase ao alcance. Eu lera pela manhã que tinha motivos para acreditar que eu havia tido um caso, mas agora percebi que (mesmo que fosse verdade) eu não sabia com quem. Tudo o que eu tinha era apenas um nome, recordado quando despertei alguns dias atrás, sem a promessa de um dia poder me lembrar de mais coisas, ainda que quisesse.
O Dr. Nash continuava falando. Eu não fazia ideia sobre o quê e o interrompi.
— Estou melhorando? — perguntei.
Uma pequena pausa, durante a qual achei que ele não teria resposta, e então ele disse:
— Você acha que está?
Eu achava? Não saberia dizer ao certo.
— Não sei. Sim. Acho que sim. Consigo me lembrar de coisas do
passado, às vezes. Lampejos de lembranças. Eles aparecem quando leio o diário. Parecem reais. Eu me lembro de Claire. De Adam. Da minha mãe.
Mas eles são como fios que não consigo segurar. Balões que voam para o céu antes que eu possa agarrá-los. Não consigo recordar o meu casamento.
Não consigo me lembrar dos primeiros passos de Adam, de sua primeira palavra. Não consigo me lembrar do primeiro dia dele na escola, de sua formatura. De nada. Nem sequer sei se eu estava presente. Talvez Ben tenha resolvido que não fazia sentido me levar. — Respirei fundo. — Não consigo sequer me lembrar de receber a notícia da morte dele. Nem de enterrá-lo. — Comecei a chorar. — Sinto como se eu estivesse ficando louca. Às vezes nem mesmo acho que ele está morto. Acredita? Às vezes acho que Ben está mentindo para mim sobre Adam, assim como mentiu sobre tudo o mais.
— Tudo o mais?
— Sim — falei. — Meu romance. O ataque. O motivo pelo qual não tenho mais memória. Tudo.
— Mas por que você acha que ele faria algo assim?
Um pensamento me ocorreu.
— Porque eu estava tendo um caso? — eu disse. — Porque eu o traí?
— Christine — falou ele. — Isso é improvável, não acha?
Eu nada disse. Ele tinha razão, é claro. No fundo eu não acreditava que as mentiras dele pudessem de fato ser uma vingança prolongada por algo que havia acontecido anos e anos atrás. A explicação provavelmente era muito mais corriqueira.
— Sabe — disse o Dr. Nash —, eu acho que você está melhorando. Está se lembrando das coisas. Com muito mais frequência do que quando nos conhecemos. Esses lampejos de memória são certamente um sinal de progresso. Significam que...
Eu me virei para ele.
— Progresso? Você chama isso de progresso? — Eu estava quase gritando agora, a raiva transbordando como se eu não fosse mais capaz de contê-la. — Se isso é progresso, então não sei se é o que quero! — As lágrimas vieram em profusão agora, incontroláveis. — Não quero!
Fechei os olhos e me entreguei à tristeza. A sensação de estar indefesa, de algum modo, era melhor. Não senti vergonha. O Dr. Nash falou comigo, dizendo primeiro para eu não ficar desapontada, que as coisas agora ficariam bem, e depois para eu me acalmar. Eu o ignorei. Eu não podia e não queria me acalmar.
Ele parou o carro. Desligou o motor. Abri os olhos: havíamos saído da estrada principal e diante de mim havia um parque. Por entre minhas lágrimas embaçadas, vi um grupo de garotos — adolescentes, suponho —
jogando futebol, usando duas pilhas de casacos para marcar o gol. Havia começado a chover, mas eles não interromperam o jogo. O Dr. Nash se virou para me encarar.
— Christine — disse ele. — Sinto muito. Talvez ir até lá hoje tenha sido um erro. Não sei. Achei que poderíamos desencadear outras lembranças. Eu estava errado. Seja como for, você não deveria ter visto aquela foto...
— Nem mesmo sei se foi a foto — falei. Tinha parado de soluçar agora, mas meu rosto estava úmido e eu sentia uma grande massa de muco escorrendo do nariz. — Você teria um lenço de papel? — pedi. Ele esticou o braço pela frente do meu corpo para olhar no porta-luvas. — Foi tudo —
prossegui. — Ver aquelas pessoas, imaginar que eu já estive assim um dia.
E o diário. Não consigo acreditar que fui eu que escrevi aquilo. Não consigo acreditar que eu estava tão mal assim.
Ele me entregou um lenço de papel.
— Mas não está mais — disse ele. Eu apanhei o lenço da mão dele e assoei o nariz.
— Talvez eu esteja pior — falei, baixo. — Eu escrevi que foi como estar morta. Mas isso...? Isso é pior. É como morrer todos os dias. Sem parar...
Preciso melhorar. Não consigo me imaginar seguindo desse jeito por muito tempo. Eu sei que vou dormir esta noite e que amanhã irei acordar novamente sem saber de nada, e o mesmo no dia seguinte, e no dia depois dele, para sempre. Não consigo imaginar isso. Não consigo enfrentar isso.
Isso não é vida, é apenas uma existência, saltar de um momento para o outro sem ter ideia do passado, nem planos para o futuro. É como penso que deve ser a vida dos animais. O pior é que eu nem mesmo sei o que eu não sei. Pode haver muitas coisas aguardando para me ferir. Coisas sobre as quais jamais sonhei.
Ele pousou a mão sobre a minha. Caí em seus braços, sabendo o que ele faria, o que deveria fazer, e ele o fez. Abriu os braços e me abraçou, e eu deixei.
— Está tudo bem — disse ele. — Está tudo bem.
Pude sentir seu peito sob a minha bochecha e respirei, inalei seu aroma
— de roupa limpa e, vagamente, de alguma outra coisa. De suor e sexo. A mão dele estava nas minhas costas e eu a senti se movimentar, senti que tocava o meu cabelo, minha cabeça, de leve no início, mas então com mais firmeza quando recomecei a soluçar.
— Vai ficar tudo bem — disse ele num sussurro, e eu fechei os olhos.
— Só quero lembrar o que aconteceu na noite em que fui atacada. De algum modo sinto que, se eu conseguisse me lembrar disso, então eu me lembraria de tudo.
Ele falou baixinho:
— Não existe prova de que esse seja o caso. Nenhum motivo para...
— Mas é o que eu acho — interrompi. — Eu sei, de algum jeito.
Ele me apertou. Com suavidade, tanta suavidade que quase não senti.
Senti seu corpo firme contra o meu e inspirei profundamente o seu cheiro, e, ao fazê-lo, lembrei de outro momento em que fui abraçada. Outra recordação. Meus olhos estão fechados, exatamente como agora, e meu corpo é apertado contra o de outra pessoa, embora seja diferente. Não quero que esse homem me abrace. Ele está me machucando. Luto, tento me afastar, mas ele é forte e me puxa para si. Ele fala. Piranha, diz ele.
Vadia. E, embora eu queira discutir com ele, não o faço. Meu rosto está pressionado contra a camisa dele, e, como com o Dr. Nash, estou chorando, berrando. Abro os olhos e vejo o tecido azul da sua camisa, uma porta, uma penteadeira com três espelhos e um quadro — a pintura de um pássaro —
em cima dela. Vejo seu braço, forte, musculoso, com uma veia saltada ao longo dele. Me solte!, digo, e então começo a girar, e a cair, ou então é o chão que se levanta até mim, não sei. Ele agarra o meu cabelo e me arrasta até a porta. Viro a cabeça para ver seu rosto.
É então que me falha a memória mais uma vez. Embora eu me lembre de ter visto o seu rosto, não consigo recordar o que vi. Não tem feições, é vazio. Como se incapaz de lidar com esse vácuo, minha mente começa a alternar entre os rostos que conheço, oferecendo possibilidades absurdas.
Vejo o Dr. Nash. A Dra. Wilson. O recepcionista da Ala Fisher. Meu pai. Ben.
Vejo até mesmo o meu rosto, rindo enquanto ergo o punho para um golpe.
Por favor, choro, por favor, não. Mas meu atacante de diversos rostos me bate mesmo assim, e sinto gosto de sangue. Ele me arrasta pelo chão, e então estou no banheiro, sobre azulejos frios, pretos e brancos. O chão está úmido de vapor condensado, o banheiro cheira a flor de laranjeira, e eu me lembro de como eu estivera ansiosa para me banhar, para ficar bonita, pensando que talvez eu ainda estaria na banheira quando ele chegasse, e então ele se juntaria a mim, e faríamos amor, fazendo ondas na água cheia de sabonete, encharcando o chão, nossas roupas, tudo. Porque finalmente, depois de todos aqueles meses de dúvida, tinha ficado claro para mim. Eu amo este homem. Finalmente eu sei. Eu o amo.
Minha cabeça bate no chão. Uma, duas, três vezes. Minha visão fica turva e dobrada, depois volta. Meus ouvidos estão zunindo, e ele grita alguma coisa, mas não consigo ouvir o quê. O grito ecoa, como se houvesse dois homens, os dois me segurando, os dois torcendo o meu braço, os dois agarrando chumaços do meu cabelo enquanto se ajoelham sobre as minhas costas. Eu imploro para que ele me deixe em paz, e há duas de mim, também. Engulo. Sangue.
Minha cabeça é impulsionada para trás. Pânico. Estou de joelhos. Vejo
água, bolhas, já sumindo. Tento falar, mas não consigo. A mão dele envolve a minha garganta, e não consigo respirar. Sou lançada para a frente, para baixo, para baixo, tão rápido que acho que jamais vai parar, e então minha cabeça está dentro da água. Flor de laranjeira na minha garganta.
Ouvi uma voz.
— Christine! — dizia. — Christine! Pare!
Abri os olhos. De algum modo, eu estava fora do carro, correndo. Pelo parque, o mais rápido que podia, e atrás de mim corria o Dr. Nash.
Sentamos em um banco de concreto, forrado com ripas de madeira. Uma delas estava faltando, e a outra cedia embaixo de nós. Senti o sol contra a minha nuca, vi suas longas sombras sobre o chão. Os garotos ainda jogavam futebol, embora o jogo a essa altura devesse estar chegando ao fim; alguns deles estavam indo embora, outros conversavam, uma das pilhas de casacos tinha sido removida, deixando o gol sem delimitação. O
Dr. Nash me perguntou o que aconteceu.
— Me lembrei de algo — eu disse.
— Sobre a noite em que você foi atacada?
— Sim — respondi. — Como você sabe?
— Você estava gritando — disse ele. — Dizia “Me solte”, sem parar. — Era como se eu estivesse lá — expliquei. — Desculpe.
— Por favor, não se desculpe. Quer me contar o que você viu?
A verdade é que não. Senti como se algum instinto muito antigo me dissesse que essa era uma recordação que era melhor guardar para mim.
Mas eu precisava da ajuda dele, sabia que podia confiar nele. Eu lhe contei tudo.
Quando terminei, ele ficou em silêncio por um momento e depois disse:
— Mais alguma coisa?
— Não — falei. — Acho que não.
— Você não se lembra de como ele era? O homem que atacou você?
— Não. Não consigo vê-lo de jeito nenhum.
— Nem do seu nome?
— Não. Nada. — Hesitei. — Você acha que pode ajudar saber quem fez isso comigo? Vê-lo? Lembrar dele?
— Christine, não existe nenhuma prova verdadeira que sugira que se lembrar do ataque vá ajudar.
— Mas poderia?
— Essa parece ser uma das suas lembranças mais profundamente reprimidas...
— Então poderia?
Ele ficou em silêncio, depois disse:
— Sei que já sugeri isso, mas talvez ajude ir até lá...
— Não — retruquei. — Nem fale nisso.
— Podemos ir juntos. Você ficaria bem, prometo. Se você voltasse lá...
Em Brighton...
— Não.
— Talvez então se lembrasse...
— Não! Por favor!
— Talvez pudesse ajudar...
Olhei para as minhas mãos, cruzadas sobre meu colo.
— Não posso voltar lá — eu disse. — Simplesmente não posso.
Ele suspirou.
— Tudo bem — disse. — Podemos conversar sobre isso outra hora, talvez.
— Não — sussurrei. — Não posso.
— Tudo bem — disse ele. — Tudo bem.
Ele sorriu, mas pareceu desapontado. Eu fiquei ansiosa para lhe dar alguma coisa, para que ele não desistisse de mim.
— Dr. Nash?
— Sim?
— Outro dia escrevi algo que me ocorreu. Talvez seja relevante, não sei.
Ele voltou-se para mim.
— Continue. — Nossos joelhos se tocaram. Nenhum de nós se afastou.
— Quando acordei, eu meio que sabia que estava na cama com um homem. Eu me lembrei de um nome, mas não era o nome de Ben. Fiquei pensando se não seria o nome da pessoa com quem eu estava tendo um caso. O homem que me atacou.
— É possível — disse ele. — Pode ser o começo da lembrança reprimida emergindo. Qual era o nome?
De repente não quis lhe dizer, não quis dizer o nome em voz alta. Senti que se fizesse isso eu tornaria as coisas reais, traria meu agressor de volta à existência. Fechei os olhos.
— Ed — sussurrei. — Eu imaginei que estava acordando com alguém chamado Ed.
Silêncio. O tempo de uma batida de coração, que pareceu durar para sempre.
— Christine — disse ele. — Esse é o meu nome. Eu me chamo Ed. Ed Nash.
Minha mente disparou por um instante. Meu primeiro pensamento foi que ele havia me atacado.
— O quê? — exclamei, em pânico.
— Esse é o meu nome. Já lhe disse isso antes. Talvez você nunca tenha anotado. Meu nome é Edmund. Ed.
Percebi que não podia ter sido ele. Ele mal era nascido naquela época.
— Mas...
— Talvez você esteja confabulando — disse ele. — Como a Dra. Wilson explicou.
— Sim — falei. — Eu...
— Ou talvez você tenha sido atacada por alguém com o mesmo nome que eu...
Ele sorriu de forma estranha ao dizer isso, tornando a situação mais leve, mas ao fazê-lo revelou que já havia pensado naquilo que somente mais tarde — depois que ele me deixou em casa, na verdade — me ocorreu. Eu havia acordado feliz esta manhã. Feliz por estar na cama com um homem chamado Ed. Mas não era uma lembrança, era uma fantasia.
Acordar com esse homem chamado Ed não era algo que eu já havia feito no passado, e sim — embora meu consciente, minha mente ativa não soubesse quem ele era — algo que eu queria fazer no futuro. Eu desejo dormir com o Dr. Nash.
E agora, por acaso, inadvertidamente, eu contei isso a ele. Revelei o que provavelmente sinto por ele. Ele foi profissional, é claro. Nós dois fingimos não dar importância ao acontecido, e ao fazê-lo revelamos exatamente quanta importância havia nisso. Voltamos andando para o carro e ele me levou para casa. Conversamos sobre amenidades. O clima. Ben. Há poucas coisas sobre as quais podemos conversar; há arenas inteiras de experiência das quais estou completamente excluída. Em determinado ponto, ele disse
“Vamos ao teatro hoje”, e notei seu cuidado em usar o plural. Não se preocupe, tive vontade de dizer. Conheço o meu lugar. Mas não disse nada.
Não queria que ele me achasse amargurada.
Ele me disse que ligaria amanhã.
— Se você tiver certeza de que ainda deseja continuar.