Antes de Dormir
Parte Três | Hoje
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“Chega de segredos”, direi a meu marido. “Chega. Eu amo você, Ben, e sempre amarei. Nós erramos um com o outro, mas por favor me perdoe.
Desculpe por ter abandonado você todos esses anos atrás para estar com outro, e desculpe por jamais podermos saber quem é a pessoa que fui encontrar naquele quarto de hotel, nem o que encontrei ali. Mas por favor saiba que estou determinada a compensar tudo agora.”
E então, quando não houver mais nada entre nós a não ser amor, podemos tentar encontrar um meio de realmente ficarmos juntos.
Liguei para o Dr. Nash.
— Quero ver você mais uma vez — eu disse. — Quero que leia o meu diário.
Acho que ele ficou surpreso, mas concordou.
— Quando? — perguntou.
— Na semana que vem — respondi. — Venha buscá-lo na semana que vem.
Ele disse que viria na terça.
Parte Três
Hoje
Viro a página, mas não há mais nada. A história termina aí. Passei horas lendo.
Estou trêmula, mal consigo respirar. Sinto não apenas que vivi uma vida inteira nas últimas horas, como também que mudei. Não sou a mesma pessoa que encontrou o Dr. Nash esta manhã, que se sentou para ler o diário. Tenho um passado agora. Uma ideia de mim mesma. Sei o que tenho e o que perdi. Percebo que estou chorando.
Fecho o diário. Me obrigo a me acalmar, e o presente começa a se reafirmar. O quarto onde estou sentada. A escuridão caindo. O barulho de perfuração que consigo ouvir na rua lá fora. A xícara de café vazia aos meus pés.
Olho para o relógio perto de mim e sinto um choque. Somente agora percebo que é o mesmo relógio do diário que estive lendo, que estou na mesma sala, sou a mesma pessoa. Somente agora entendo de fato que a história que li é a minha.
Levo o diário e a caneca para a cozinha. Lá, na parede, no mesmo quadro branco que eu havia visto de manhã, está a mesma lista de sugestões em letras maiúsculas bem-feitas, o mesmo recado que eu mesma acrescentara: Fazer as malas para esta noite?
Olho para ele. Algo ali me incomoda, mas não consigo entender por quê.
Penso em Ben. Como a vida deve ser difícil para ele. Nunca ser capaz de saber com quem ele irá acordar. Nunca poder ter certeza do quanto irei me lembrar, de quanto amor serei capaz de lhe dar.
Mas e agora? Agora eu entendo. Agora sei o suficiente para que nós dois possamos viver novamente. Imagino se cheguei a ter com Ben a conversa que eu havia planejado. Devo ter tido, tão certa eu estava que era a coisa mais certa a fazer, porém não escrevi a respeito. Não escrevo nada há uma semana, na verdade. Talvez eu tenha dado o diário ao Dr. Nash antes de ter a chance de escrever algo. Talvez achasse que não havia necessidade de escrever no meu caderno, agora que eu o havia compartilhado com Ben.
Volto às primeiras páginas do diário. Lá está, com a mesma tinta azul.
Aquelas quatro palavras, rabiscadas na página embaixo do meu nome. Não confie em Ben.
Apanho uma caneta e risco-as. De volta à sala, vejo o álbum sobre a mesa. Nenhuma fotografia de Adam ainda. Nenhuma menção dele esta manhã. Nenhuma incursão ao que existe na caixa de metal.
Penso no meu livro — Para os pássaros da manhã — e então olho para o diário que estou segurando. Um pensamento me ocorre, sem querer. “E se eu tiver inventado isso tudo?”
Levanto-me. Preciso de provas. Preciso de um elo entre o que li e o que
estou vivendo, um sinal de que o passado sobre o qual estive lendo não é invenção.
Coloco o diário na bolsa e vou para a sala. O cabide está lá, ao pé das escadas, perto de um par de chinelos. Se eu subir as escadas, irei encontrar o escritório, o porta-arquivos? Irei encontrar a caixa de metal cinza na gaveta de baixo, escondida embaixo da toalha? A chave estará mesmo na última gaveta da mesa de cabeceira?
O escritório é menor do que imaginei e ainda mais organizado do que eu esperava, mas o armário está ali, cinza-chumbo.
Na gaveta de baixo há uma toalha, e embaixo dela, uma caixa. Eu a seguro, preparando-me para retirá-la. Me sinto boba, convencida de que estará vazia ou trancada.
Nenhuma das duas coisas. Dentro dela encontro meu livro. Não o exemplar que o Dr. Nash me deu — neste não há mancha de café na capa e as páginas parecem novas. Deve ser o exemplar que Ben esteve guardando esse tempo todo, esperando pelo dia em que eu soubesse o bastante para voltar a tê-lo. Eu me pergunto onde estará o meu exemplar, aquele que o Dr. Nash me deu.
Retiro meu livro e embaixo dele há uma única foto. Eu e Ben sorrindo para a câmera, embora os dois pareçam tristes. Parece recente: meu rosto é o mesmo que reconheço no meu reflexo no espelho e Ben parece igual a quando partiu esta manhã. Há uma casa no fundo, uma trilha de cascalho para carros, vasos de gerânios vermelho vivo. Atrás, alguém escreveu Waring House. A foto deve ter sido tirada no dia que ele me buscou para me trazer de volta para cá.
É isso, pensei. Não há mais fotografias. Nenhuma de Adam. Nem mesmo aquelas que encontrei aqui antes e descrevi no meu diário.
Deve haver uma explicação, digo a mim mesma. Precisa haver. Procuro entre os papéis que estão empilhados na mesa: revistas, catálogos anunciando programas de computador, um horário escolar com algumas sessões destacadas em marca-texto amarelo. Há um envelope lacrado —
que, num impulso, apanho —, mas nenhuma fotografia de Adam.
Desço as escadas e preparo uma bebida para mim. Ferver água, colocar um saquinho de chá. Não deixe tempo demais em infusão e não aperte o saquinho com as costas da colher, senão sairá muito ácido tânico e o chá vai ficar amargo. “Por que eu me lembro dessas coisas, mas não me lembro de ter dado à luz?” Um telefone toca, em algum lugar na sala. Eu o retiro — não é o que abre, mas aquele que o meu marido me deu — da
bolsa e o atendo. Ben.
— Christine? Você está bem? Está em casa?
— Sim — respondo. — Sim. Obrigada.
— Você saiu hoje? — pergunta ele. Sua voz parece familiar, mas um pouco fria. Lembro a última vez em que nos falamos. Não me recordo de ele haver mencionado que eu tinha uma consulta com o Dr. Nash. Talvez ele de fato não saiba, acho. Ou talvez esteja me testando, querendo ver se eu irei lhe contar. Penso no recado anotado ao lado da consulta. Não conte a Ben. Eu devo ter escrito isso antes de saber que podia confiar nele.
Quero confiar nele agora. Chega de mentiras.
— Sim — digo. — Saí para ver um médico. — Ele não diz nada. — Ben?
— falo.
— Desculpe, sim — diz ele. — Eu ouvi. — Registro sua falta de surpresa. Então ele já sabia, já sabia que eu estava me consultando com o Dr. Nash. — Estou no trânsito — continua ele. — Está meio engarrafado.
Escute, queria só verificar se você se lembrou de fazer as malas. Vamos viajar...
— Claro — digo, e depois acrescento: — Estou doida para partir! — E
percebo que estou mesmo. Vai ser bom para nós dois, acho, viajar. Pode ser um recomeço.
— Daqui a pouco estarei em casa — diz ele. — Pode tentar deixar nossas malas prontas? Ajudo quando eu chegar, mas seria melhor se a gente pudesse sair cedo.
— Vou tentar — falei.
— Há duas malas no quarto de hóspedes. Dentro do armário. Use essas.
— Certo.
— Te amo — diz ele, e então, depois de um momento longo demais, um momento em que ele já havia desligado, eu digo a ele que também o amo.
Entro no banheiro. Já sou mulher, digo a mim mesma. Adulta. Tenho um marido. Que eu amo. Lembro do que escrevi. Do sexo. Dele trepando comigo. Eu não havia escrito que tinha gostado.
Seria eu capaz de gostar de sexo? Percebo que nem mesmo isso eu sei.
Dou descarga e tiro as calças, as meias-calças, as calcinhas. Sento na borda da banheira. Como meu corpo me é estranho. Como me é desconhecido. Como posso ficar feliz em entregá-lo a outra pessoa quando eu mesma não o reconheço?
Tranco a porta do banheiro, depois abro as pernas. Ligeiramente de início, depois mais. Levanto a blusa e olho para baixo. Vejo as estrias que vi
no dia em que me lembrei de Adam, o choque do monte de pelos pubianos crespos. Imagino se alguma vez eu os raspo, se escolho não raspá-los baseada na preferência do meu marido ou na minha. Talvez essas coisas não importem mais. Não agora.
Fecho a mão em concha e pouso-a sobre meu monte pubiano. Meus dedos repousam sobre os grandes lábios, abrindo-os de leve. Toco a ponta do que deve ser meu clitóris e o pressiono, movendo os dedos suavemente ao fazer isso, já sentindo um ligeiro formigamento. A promessa da sensação, em vez da sensação em si.
Eu me pergunto o que irá acontecer mais tarde.
As malas estão no quarto de hóspedes, onde ele disse que estariam. Ambas são compactas, robustas, uma um pouco maior que a outra. Eu as levo para o quarto onde acordei esta manhã e as coloco sobre a cama. Abro a gaveta de cima e vejo minhas roupas íntimas ao lado das dele.
Escolho roupas para nós dois, meias para ele, meias-calças para mim.
Lembro de haver lido sobre a noite em que fizemos sexo e percebo que devo ter guardadas em algum lugar cintas-ligas e meias. Decido que seria bom encontrá-las, levá-las comigo. Poderia ser bom para nós dois.
Passo para o guarda-roupa. Escolho um vestido, uma saia. Calças, um par de jeans. Noto a caixa de sapatos no chão — aquela que deve ter escondido o meu diário — agora vazia. Não sei que tipo de casal nós somos quando saímos de férias. Se passamos as noites em restaurantes, ou sentados em bares aconchegantes, relaxando diante do calor rosado de uma lareira. Não sei se caminhamos, explorando a cidade e seus arredores, ou se vamos de carro a lugares cuidadosamente selecionados. Essas são as coisas que eu não sei ainda. São as coisas que tenho o resto da vida para descobrir. Para desfrutar.
Escolho algumas roupas para nós dois, quase ao acaso, e as dobro, colocando-as nas malas. Ao fazer isso sinto um lampejo de energia e fecho os olhos. Tenho uma visão, iluminada, mas tremeluzente. De início não é clara, como se pairasse, fora de alcance e de foco, e tento abrir a mente para deixá-la vir.
Me vejo de pé na frente de uma mala; uma mala macia de couro surrado. Estou empolgada. Eu me sinto jovem de novo, como uma criança prestes a sair de férias, ou uma adolescente se preparando para um encontro, imaginando como vai ser, se ele vai me convidar para a casa dele, se iremos transar. Sinto a novidade, a expectativa, posso sentir o gosto. Revolvo-o na língua, saboreando-o, porque sei que não vai durar. Abro então minhas gavetas, selecionando blusas, meias-calças, lingeries.
Incitantes. Sensuais. Lingeries que se usam apenas com o antegozo de sua
retirada. Acrescento um par de saltos altos além dos sapatos baixos que estou usando, retiro-o, volto a acrescentá-lo. Não gosto dele, mas esta noite é de fantasia, para se enfeitar, para ser diferente do que se é. Só então passo para as coisas funcionais. Apanho uma nécessaire forrada de couro vermelho e acrescento perfume, gel de banho, pasta de dente. Quero ficar bonita esta noite para o homem que eu amo, para o homem que cheguei tão perto de perder. Acrescento sais de banho. De flor de laranjeira.
Percebo que estou me lembrando da noite em que fiz as malas para ir a Brighton.
A recordação evapora. Meus olhos se abrem. Eu não poderia saber, naquela época, que estava fazendo as malas para o homem que tiraria tudo o que eu tinha.
Continuo fazendo as malas para o homem que ainda tenho.
Ouço um carro estacionar lá fora. O motor é desligado. Uma porta se abre, depois se fecha. A chave na fechadura. Ben. Ele chegou.
Fico nervosa. Com medo. Não sou a mesma pessoa que ele deixou esta manhã; aprendi minha própria história. Descobri a mim mesma. O que ele vai achar quando me vir? O que vai dizer?
Preciso lhe perguntar se ele sabe sobre o meu diário. Se ele o leu. O
que ele acha.
Ele me chama depois de fechar a porta.
— Christine? Chris? Cheguei. — Seu tom não é cantarolante, porém; ele parece exausto. Respondo dizendo que estou no quarto. O degrau mais baixo range ao suportar o peso dele, e ouço seu suspiro enquanto o primeiro sapato é retirado e depois o outro. Ele deve estar colocando os chinelos agora, depois virá me encontrar. Sinto uma onda de prazer por conhecer seus hábitos — meu diário me deixou a par deles, embora minha memória não possa fazê-lo — mas, enquanto ele sobe as escadas, outra emoção assume as rédeas. Medo. Penso no que escrevi na frente do meu diário. Não confie em Ben.
Ele abre a porta do quarto.
— Querida! — diz.
Eu não me mexi. Continuo na beira da cama, com as malas abertas atrás de mim. Ele fica parado à porta até que eu me levante e abra os braços, depois vem me beijar.
— Como foi seu dia? — pergunto.
Ele tira a gravata.
— Oh — diz —, não vamos falar sobre isso. Estamos de férias!
Ele começa a desabotoar a camisa. Luto contra o instinto de olhar para o lado, lembrando a mim mesma que ele é meu marido, que eu o amo.
— Fiz as malas — digo. — Espero que esteja tudo certo com a sua. Eu não sabia o que você iria querer levar.
Ele tira as calças e as dobra antes de pendurá-las no guarda-roupa.
— Tenho certeza de que está bom.
— Eu só não tinha muita certeza de para onde estamos indo, por isso não sabia o que levar.
Ele se vira, e imagino se o que vi não foi um lampejo de irritação no seus olhos.
— Vou dar uma olhada, antes de colocar as malas no carro. Não tem problema. Obrigado por adiantar isso.
Ele se senta na cadeira diante da penteadeira e coloca um par de jeans desbotados. Noto o vinco perfeito feito a ferro na frente, e meu eu de 20 e poucos anos tem de resistir ao impulso de achá-lo ridículo.
— Ben? — digo. — Você sabe onde eu fui hoje?
Ele olha para mim.
— Sim. Eu sei.
— Sabe sobre o Dr. Nash?
Ele vira para o outro lado.
— Sim — diz. — Você me contou. — Eu o vejo refletido nos espelhos ao redor da penteadeira. Três versões do homem com quem casei. Do homem que eu amo. — Tudo — continua. — Você me contou tudo. Eu sei de tudo.
— Você não se importa? De eu me encontrar com ele?
Ele não se vira.
— Queria que você tivesse me contado. Mas não. Não, não me importo.
— E o meu diário? Você sabe sobre o meu diário?
— Sei — responde ele. — Você me contou. Disse que a ajudava.
Um pensamento me ocorre.
— Você o leu?
— Não — responde ele. — Você disse que era particular. Eu jamais olharia suas coisas particulares.
— Mas você sabe sobre Adam? Sabe que eu sei sobre Adam?
Eu o vejo se retrair, como se as minhas palavras tivessem sido proferidas com violência. Fico surpresa. Estava esperando que ele ficasse feliz. Feliz por não mais precisar me falar vezes sem conta que ele morreu.
Ele me encara.
— Sim — responde.
— Não há nenhuma foto — digo. Ele me pergunta o que quero dizer. —
Há fotos de nós dois, mas nenhuma dele ainda.
Ele se levanta e vem até onde estou sentada, depois se senta na cama ao meu lado. Segura a minha mão. Gostaria que ele parasse de me tratar como se eu fosse frágil, quebradiça. Como se a verdade pudesse me partir.
— Eu queria fazer uma surpresa — diz ele, estendendo a mão para baixo da cama e retirando um álbum de fotografias. — Eu as coloquei aqui.
Ele me entrega o álbum. É pesado, escuro, encadernado em algo que imita couro preto mas não muito bem. Abro a capa e dentro há uma pilha de fotos.
— Eu queria arrumá-las direito — diz ele. — Para lhe dar de presente esta noite, mas não tive tempo. Desculpe.
Olho as fotografias. Não seguem nenhuma ordem. Há fotos de Adam quando bebê, quando menino. Devem ser as que estavam na caixa de metal.
Uma se destaca. Nela ele já é um rapaz, sentado ao lado de uma mulher.
— É a namorada dele? — pergunto.
— Uma delas — diz Ben. — Aquela com quem ele ficou mais tempo.
É bonita, loira, de cabelo curto. Ela me lembra Claire. Na foto, Adam está olhando diretamente para a câmera, rindo, e ela olha de lado para ele, o rosto uma mistura de alegria e desaprovação. Eles têm um ar conspirador, como se tivessem compartilhado uma brincadeira com quem está atrás das lentes. Estão felizes. A ideia me agrada.
— Como era o nome dela?
— Helen. Ela se chama Helen.
Estremeço ao perceber que pensei nela no passado; imaginei que ela morrera também. Uma ideia me vem: e se fosse ela quem tivesse morrido em vez dele?, mas eu a reprimo antes que ela assuma forma.
— Eles ainda estavam juntos quando ele morreu?
— Sim — diz ele. — Estavam pensando em ficar noivos.
Ela parece tão jovem, tão faminta, seus olhos plenos de possibilidades, do que está à espera dela. Ela ainda desconhece a quantidade impraticável de dor que terá de enfrentar.
— Gostaria de conhecê-la — falei.
Ben tira a foto da minha mão. Suspira.
— Não temos contato — diz ele.
— Por quê? — pergunto. Já tinha planejado tudo na minha cabeça; nós daríamos apoio uma à outra. Compartilharíamos algo, uma compreensão, um amor que perfurava todos os demais, se não o de uma pela outra, então pelo menos por aquilo que havíamos perdido.
— Houve discussões — diz ele. — Complicações.
Olho para ele. Posso ver que ele não quer me contar. O homem que escreveu a carta, o homem que acreditou em mim e cuidou de mim, e que, ao final, me amou o bastante tanto para me abandonar quanto para depois voltar para mim, parece haver desaparecido.
— Ben?
— Houve discussões — repete ele.
— Antes de Adam morrer ou depois?
— As duas coisas.
A ilusão de apoio mútuo some, sendo substituída por uma sensação doentia. E se Adam e eu tivéssemos brigado também? Com certeza ele teria ficado do lado da namorada, e não da mãe...
— Adam e eu éramos próximos?
— Eram, sim — diz Ben. — Até você ir parar no hospital. Até perder a memória. Mesmo então vocês eram próximos, é claro. O mais próximos que poderiam ser.
As palavras dele me atingem como um soco. Percebo que Adam era um menininho quando perdeu a mãe para a amnésia. É claro que eu jamais conheci a noiva do meu filho; todos os dias que eu o via eram como se fosse a primeira vez.
Fecho o álbum.
— Posso levar isso conosco? — peço. — Gostaria de olhar mais um pouco depois.
Tomamos chá que Ben preparou na cozinha enquanto eu terminava de arrumar as malas para a viagem, e então entramos no carro. Verifico se estou levando minha bolsa, se meu diário continua ali dentro. Ben acrescentou mais algumas coisas à mala que fiz para ele, e além disso trouxe mais uma mala — a maleta de couro com a qual saiu de manhã — e dois pares de botas de caminhada que ficam no fundo do armário. Fiquei parada à porta enquanto ele carregava essas coisas para o porta-malas e depois esperei até que ele terminasse de conferir se as portas estavam fechadas e as janelas trancadas. Agora, pergunto a ele quanto tempo vai demorar a viagem.
Ele dá de ombros.
— Depende do trânsito. Não muito tempo, depois de sairmos de Londres.
Uma recusa em fornecer uma resposta, disfarçada da resposta em si.
Imagino se ele é sempre assim. Imagino se anos me contando a mesma coisa o esgotaram, se o entediaram a ponto de ele não mais conseguir se obrigar a me dizer nada.
Ele é um motorista cauteloso, isso consigo perceber. Segue em frente devagar, verificando o retrovisor com frequência, desacelerando ante a menor possibilidade de aproximação de uma ameaça.
Será que Adam dirigia? Suponho que sim, para estar nas forças armadas, mas será que ele dirigia quando estava de folga? Será que me
apanhava, a mãe inválida, para me levar a passeios, a lugares que achava que eu iria gostar? Ou teria ele decidido que isso não fazia sentido, que o prazer que eu pudesse ter no momento sumiria da noite para o dia, como neve derretendo em um telhado quente?
Estamos na estrada, saindo da cidade. Começou a chover; gordas gotas batem no para-brisa, conservam sua forma um instante e depois começam a deslizar rapidamente pelo vidro. À distância, as luzes da cidade banham o concreto e o vidro em um brilho laranja suave. É lindo e terrível, mas por dentro eu me debato. Quero tanto pensar no meu filho como algo que não seja abstrato, mas sem uma lembrança concreta dele isso não é possível.
Não paro de retornar à única verdade: não consigo me lembrar dele, e por isso é como se ele nunca tivesse existido.
Fecho os olhos. Lembro o que li sobre nosso filho esta tarde e uma imagem explode à minha frente — Adam quando pequeno, empurrando o triciclo azul por uma trilha. Mas mesmo enquanto me maravilho com ela, sei que não é real. Sei que não estou me lembrando de algo que aconteceu, estou me lembrando da imagem que formei na minha mente esta tarde ao ler sobre o fato, e mesmo isso era apenas uma recordação de uma lembrança antiga. Lembranças de lembranças, sendo que as da maioria das pessoas se estendem por anos, por décadas, enquanto as minhas se estendem por apenas umas poucas horas.
Sem conseguir me lembrar do meu filho, opto pela segunda coisa melhor a fazer, a única capaz de aquietar minha mente fervilhante. Não penso em nada. Absolutamente nada.
O cheiro de gasolina, espesso e doce. Sinto dor no pescoço. Abro os olhos.
Perto de mim vejo o para-brisa molhado, obscurecido pela minha respiração, e atrás dele há luzes distantes, borradas, fora de foco. Percebo que cochilei.
Estou inclinada contra o vidro, a cabeça torcida de um jeito estranho. O
carro está silencioso, o motor desligado. Olho por cima do ombro.
Ben está ali, sentado ao meu lado. Está acordado, olhando para a frente, pela janela. Não se mexe, nem mesmo parece ter notado que acordei, mas em vez disso continua olhando fixo, com a expressão vazia e ilegível na escuridão. Eu me viro para ver o que ele está olhando.
Além do para-brisa molhado de chuva está o capô do carro, e além dele uma cerca de madeira baixa, fracamente iluminada pelo brilho dos postes atrás de nós. Além da cerca não enxergo nada, apenas a escuridão, densa e misteriosa, no meio da qual pende a lua, cheia e baixa.
— Adoro o mar — diz ele, sem me olhar, e percebo que estamos estacionados no topo de um penhasco, que chegamos no litoral. — E você?
— Ele se vira para mim. Seus olhos parecem impossivelmente tristes. —
Você adora o mar, não é, Chris?
— Adoro — respondo. — Sim. — Ele fala como se não soubesse, como se nunca tivéssemos ido para a praia juntos, como se nunca tivéssemos saído de férias antes. O medo começa a arder dentro de mim, mas resisto.
Tento ficar ali, no presente, com meu marido. Tento me lembrar de tudo o que descobri com meu diário esta tarde. — Você sabe disso, querido.
Ele suspira.
— Eu sei. Você adorava o mar, mas já não sei mais nada. Você muda.
Mudou, com os anos. Desde o que aconteceu. Às vezes não sei quem você é. Acordo e não sei quem você vai ser.
Fico em silêncio. Não consigo pensar em nada para dizer. Nós dois sabemos como não teria sentido eu tentar me defender, dizer que ele está errado. Nós dois sabemos que sou a última pessoa que sabe o quanto mudo de um dia para o outro.
— Desculpe — digo por fim.
Ele me olha.
— Ah, tudo bem. Não precisa pedir desculpas. Sei que não é culpa sua.
Nada disso é culpa sua. Estou sendo injusto, acho. Pensando só em mim.
Ele olha para o mar. Há uma única luz à distância. Um barco, sobre as ondas. Luz em um mar de negrume espesso. Ben fala:
— Vamos ficar bem, não é, Chris?
— Claro — respondo. — Claro que vamos. Este é um recomeço para nós. Agora tenho o meu diário, e o Dr. Nash vai me ajudar. Estou melhorando, Ben. Sei que estou. Acho que vou começar a escrever de novo.
Não há motivo para não fazê-lo. Vou ficar bem. Além disso, agora estou em contato com Claire, e ela pode me ajudar. — Uma ideia me vem: — Nós três poderíamos nos reunir, não acha? Como nos velhos tempos? Como na faculdade? Nós três. E o marido dela, suponho. Acho que ela disse que tinha um marido. Podemos nos encontrar, ficar juntos. Vai ser ótimo. — Minha mente se fixa nas mentiras que li, em como não fui capaz de confiar em Ben, mas faço força para afastar aquilo. Eu me relembro que tudo isso já foi resolvido. É minha vez de ser forte agora. De ser positiva. — Desde que a gente prometa que sempre será sincero um com o outro — digo —, tudo vai ficar bem.
Ele se vira para me encarar.
— Você me ama, não é?
— É claro. É claro que amo.
— E me perdoa? Por ter abandonado você? Eu não queria. Não tive escolha. Desculpe.
Seguro a mão dele. Parece ao mesmo tempo fria e quente, ligeiramente úmida. Tento segurá-la entre as minhas mãos, mas ele nem ajuda nem
resiste a meu gesto. Sua mão repousa sem vida sobre seu joelho, em vez disso. Eu a aperto, e só então ele parece notar que a estou segurando.
— Ben. Eu entendo. Eu perdoo você. — Olho nos olhos dele. Parecem embotados e sem vida, como se já tivessem visto tanto horror que não conseguem aguentar mais. — Eu amo você, Ben.
A voz dele abaixa para um sussurro.
— Me beije.
Faço como ele pede e, então, quando recuo, ele sussurra:
— De novo. Me beije de novo.
Eu o beijo uma segunda vez. Mas, embora ele me peça, não consigo beijá-lo uma terceira. Em vez disso olhamos o mar, o luar sobre as águas, as gotas de chuva no para-brisa refletindo o brilho amarelado dos faróis dos carros que passam. Só nós dois, de mãos dadas. Juntos.
Ficamos ali sentados pelo que parecem horas. Ben está ao meu lado, olhando fixamente para o mar. Vasculha a água como se estivesse à procura de algo, alguma resposta na escuridão, e nada fala. Imagino por que ele nos trouxe aqui, o que estaria esperando encontrar.
— É nosso aniversário mesmo? — pergunto. Nenhuma resposta. Ele parece não ter me ouvido, por isso repito a pergunta.
— Sim — responde ele baixinho.
— Nosso aniversário de casamento?
— Não — diz ele. — É o aniversário da noite em que nos conhecemos.
Sinto vontade de perguntar o que deveríamos comemorar, dizer que não parece comemoração nenhuma, mas isso soa cruel.
A estrada movimentada atrás de nós se aquietou, a lua se levanta no céu. Começo a ter medo de ficarmos aqui a noite inteira olhando para o mar enquanto a chuva cai. Finjo um bocejo.
— Estou com sono — digo. — Podemos ir para o nosso hotel?
Ele olha o relógio de pulso.
— Sim — diz ele. — Claro. Desculpe. Sim. — Dá partida no motor do carro. — Vamos já.
Fico aliviada. Estou ao mesmo tempo louca para dormir e com medo disso.
A estrada costeira mergulha e ascende enquanto bordeamos uma cidade. As luzes de outra, maior, começam a se aproximar, entrando em foco do outro lado do vidro úmido. A estrada se torna mais movimentada, uma marina surge com seus barcos ancorados, lojas e clubes noturnos, e então chegamos à cidade em si. À direita, todos os edifícios parecem ser hotéis, anunciando vagas sobre faixas brancas que ondulam ao vento. As ruas estão agitadas; não é tão tarde quanto pensei, ou então este é o tipo de cidade que tem vida dia e noite.
Olho para o mar. Um píer sobressai dentro d’água, inundado de luz, com um parque de diversões em sua extremidade. Vejo uma tenda em forma de cúpula, uma montanha-russa, uma bagunça. Quase consigo ouvir os gritos das pessoas enquanto giram acima do mar negro como breu.
Uma aflição que não consigo determinar começa a se formar em meu peito.
— Onde estamos? — digo. Há palavras inscritas acima da entrada do píer, destacadas em luzes brancas brilhantes, mas não consigo identificar o que dizem pelo para-brisa encharcado de chuva.
— Chegamos — diz Ben, quando dobramos uma rua lateral e estacionamos em frente a uma casa avarandada. Há um letreiro no toldo acima da porta: Rialto Guest House, diz.
Há degraus que conduzem à porta da frente, uma cerca decorada que separa o edifício da rua. Ao lado da porta há um pequeno vaso rachado que antes devia abrigar um arbusto, mas que agora está vazio. Sou tomada por um medo intenso.
— Já estivemos aqui antes? — pergunto. Ele faz que não. — Tem certeza? Parece familiar.
— Com certeza — diz ele. — Talvez tenhamos ficado em algum outro lugar aqui perto uma vez. Você deve estar se lembrando disso.
Tento relaxar. Saímos do carro. Há um bar ao lado da pousada e pelos seus janelões vejo dezenas de pessoas bebendo e uma pista de dança pulsando, nos fundos. A música vibra, abafada pelo vidro. — Vamos fazer o check-in e depois volto para apanhar a bagagem, certo?
Puxo o casaco para perto do corpo. O vento agora está frio, a chuva, pesada. Subo os degraus apressadamente e abro a porta da frente. Há uma placa grudada com fita adesiva no vidro: “Não há vagas”. Entro no saguão.
— Você fez reserva? — pergunto, quando Ben se junta a mim. Estamos em um corredor. No fim dele uma porta está entreaberta, e de trás dela vem o som de uma televisão no volume máximo, competindo com a música do bar ao lado. Não há balcão de recepção, e sim um sino sobre uma mesinha e uma placa que nos convida a tocá-lo caso se queira chamar a atenção.
— Sim, é claro — responde Ben. — Não se preocupe. — E toca o sino.
Por um instante nada acontece, depois um rapaz sai de um cômodo em algum lugar nos fundos da casa. É alto e desajeitado, e noto que, apesar de
ser grande demais para ele, sua camisa está para fora das calças. Ele nos cumprimenta como se estivesse nos aguardando, embora sem ser simpático, e espero enquanto ele e Ben completam as formalidades.
Está na cara que aquele hotel já viu dias melhores. O carpete está desgastado em alguns pontos, e a pintura ao redor das portas está arranhada e manchada. Do outro lado do saguão há outra porta, na qual se lê “Sala de Jantar”, e nos fundos há várias outras portas atrás das quais, imagino, devem ficar a cozinha e os quartos dos funcionários.
— Levo vocês até o quarto, sim? — diz o rapaz alto quando ele e Ben terminam. Percebo que ele está falando comigo; Ben está saindo, provavelmente para apanhar as malas.
— Sim — respondo. — Obrigada.
Ele me entrega uma chave e subimos as escadas. No primeiro patamar há diversos quartos, mas passamos por eles e subimos mais um lance. A casa parece encolher à medida que subimos; os tetos ficam mais baixos, as paredes mais próximas. Passamos por outro quarto e então ficamos ao pé de um último lance de escadas, que deve levar ao topo da casa.
— Seu quarto fica lá em cima — diz ele. — É o único.
Eu agradeço, e então ele se vira e desce novamente as escadas enquanto subo até o nosso quarto.
Abro a porta. O quarto está escuro e é maior do que eu esperava, ali no alto da casa. Vejo uma janela em frente, e através dela uma fraca luz cinzenta brilha, replicando a silhueta de uma penteadeira, uma cama, uma mesa e uma poltrona. A música do clube ao lado pulsa, despida de sua clareza, reduzida a tons baixos embotados e rangentes.
Fico parada. O medo me domina novamente. O mesmo medo que experimentei em frente à pousada, porém pior. Sinto-me gelar. Algo está errado, mas não consigo ver o quê. Inspiro profundamente, mas não consigo levar ar suficiente aos pulmões. Sinto como se eu estivesse prestes a me afogar.
Fecho os olhos, como se esperando que o quarto parecesse diferente quando os abrisse, mas não é o que acontece. Sou tomada por um medo avassalador do que irá acontecer quando eu acender a luz, como se aquela simples ação predissesse o desastre, o fim de tudo.
O que vai acontecer se eu deixar o quarto coberto pela escuridão e descer as escadas em vez disso? Eu poderia passar calmamente pelo homem alto, depois pelo corredor, então por Ben se necessário, e sair, deixar o hotel.
Mas eles pensariam que fiquei louca, claro. Me encontrariam e me trariam de volta. E o que eu iria alegar? Que a mulher que não se lembra de nada teve uma sensação que não gostou, feito um pressentimento? Eles iriam me achar ridícula.
Estou com meu marido. Vim para cá para me reconciliar com ele. Estou a salvo com Ben.
E assim acendo a luz.
Há um clarão enquanto meus olhos se acostumam com a luz e então vejo o quarto. Não tem nada de mais. Nada com que se amedrontar. O
carpete é cinza, as cortinas e o papel de parede exibem estampas florais, mas elas não combinam entre si. A penteadeira está desgastada, com três espelhos e o quadro desbotado de um pássaro acima dela, a poltrona é de vime com estofado de outra estampa floral, e a cama está coberta por uma colcha laranja com estampa em losangos.
Posso ver como o quarto deve ser decepcionante para alguém que o reservou para umas férias, mas, embora Ben o tenha reservado para nós, não é decepção o que sinto. O medo agora se transformou em pavor.
Fecho a porta atrás de mim e tento me acalmar. Estou sendo boba.
Paranoica. Preciso me ocupar. Fazer alguma coisa.
Faz frio no quarto e uma ligeira corrente agita as cortinas. A janela está aberta e vou até lá para fechá-la. Olho para fora antes de fazê-lo. Estamos bem alto; os postes estão lá embaixo; gaivotas estão pousadas em silêncio sobre eles. Olho por cima dos telhados, vejo a lua fria no céu, e, à distância, o mar. Vejo o píer, o burburinho, as luzes piscando.
E então eu as vejo. As palavras, sobre a entrada do píer.
Píer de Brighton.
Apesar do frio, e muito embora eu esteja tremendo, sinto uma gota de suor se formar em minha testa. Agora tudo faz sentido. Ben me trouxe para cá, para Brighton, para o lugar do meu desastre. Mas por quê? Acharia ele mais provável que eu me lembre do que aconteceu se estiver de volta à cidade onde minha vida foi arrancada de mim? Que irei me lembrar de quem fez isso comigo?
Eu me lembro de ter lido que o Dr. Nash certa vez sugeriu que eu viesse para cá e que eu havia lhe dito não.
Ouço passos nas escadas, vozes. O homem alto deve estar trazendo Ben para cá, para o nosso quarto. Os dois devem estar trazendo as malas juntos, erguendo-as pelos degraus e ao redor dos patamares difíceis. Logo Ben estará aqui.
O que irei lhe dizer? Que ele está errado e que estar aqui não vai ajudar? Que eu quero voltar para casa?
Volto na direção da porta. Vou ajudar a trazer as malas, e então vou
desfazê-las, e vamos dormir, e então amanhã...
De repente, compreendo. Amanhã voltarei a não saber de nada. É isso o que Ben deve estar trazendo na maleta. Fotos. O álbum. Ele terá de se valer de tudo o que tem para me explicar novamente quem ele é e onde estamos.
Fico pensando se trouxe ou não meu diário, depois me lembro de o ter colocado na bolsa. Tento me acalmar. Esta noite eu o colocarei embaixo do travesseiro e amanhã eu o encontrarei e o lerei. Vai ficar tudo bem.
Ouço Ben no patamar. Está conversando com o homem alto, acertando as coisas para o café da manhã.
— Provavelmente vamos preferir tomar o nosso no quarto. — Ouço-o dizer. Uma gaivota grita à janela e me assusta.
Caminho em direção à porta e então eu vejo. À minha direita. Um banheiro, com a porta aberta. Uma banheira, um vaso sanitário, uma pia.
Mas é o chão que chama minha atenção, que me enche de horror. É
azulejado e o padrão é incomum; branco e preto alternados em diagonais desvairadas.
Fico boquiaberta. Me sinto gelar. Acho que ouço um grito saindo da minha garganta.
Eu sei, então. Reconheço o padrão.
Não foi só Brighton que eu reconheci.
Já estive aqui antes. Neste quarto.
A porta se abre. Não digo nada quando Ben entra, mas minha mente rodopia. Será este o quarto onde eu fui atacada? Por que ele não me disse que estávamos voltando para cá? Como ele pôde no começo nem querer me contar sobre o ataque e agora me traz até o quarto onde tudo aconteceu?
Vejo o homem de pé em frente à porta e quero chamá-lo, pedir para que fique, mas ele dá as costas para ir embora e Ben fecha a porta. Agora somos só nós dois.
Ele se vira para mim.
— Está tudo bem com você, meu amor? — pergunta. Assinto e digo que sim, mas a palavra parece ter sido forçada para fora de mim. Sinto as reviravoltas do ódio em meu estômago.
Ele segura meu braço. Aperta um pouco forte demais; mais força e eu diria algo, menos, e eu duvidaria que ele tivesse notado alguma coisa.
— Tem certeza? — pergunta ele.
— Sim — digo. Por que ele está fazendo isso? Deve saber onde
estamos, o que isso significa. O tempo todo ele deve ter planejado isso. —
Sim, estou bem. Só um pouco cansada.
E então entendo. O Dr. Nash. Ele deve ter algo a ver com isso. Senão por que Ben — depois de todos esses anos, quando podia ter feito isso, mas não o fez — iria resolver me trazer até aqui agora?
Os dois devem estar em contato. Talvez Ben tenha ligado para ele, depois do que eu lhe contei sobre nossos encontros. Talvez em algum momento da semana passada — a semana da qual nada sei — eles tenham planejado tudo.
— Por que não vai se deitar? — sugere Ben.
Eu me ouço dizer:
— Acho que vou. — Eu me viro na direção da cama. Estariam eles em contato o tempo inteiro? O Dr. Nash poderia estar mentindo sobre tudo. Eu o imagino telefonando para Ben depois de se despedir de mim, contando sobre meu progresso ou sobre a falta dele.
— Boa menina — diz Ben. — Eu queria ter trazido champanhe, acho que vou comprar um. Tem uma loja, acho. Não é longe. — Ele sorri. — Depois volto para ficar com você.
Eu me viro para encará-lo e ele me beija. Agora, aqui, seu beijo se demora. Ele roça os meus lábios com os dele, passa a mão pelos meus cabelos, afaga minhas costas. Sinto o impulso de me afastar. Sua mão desliza pelas minhas costas, vindo repousar sobre a parte de cima das minhas nádegas. Engulo em seco com dificuldade.
Não posso confiar em ninguém. Nem no meu marido, nem no homem que alega estar me ajudando. Eles vêm trabalhando juntos, preparando este dia, o dia em que, claramente, decidiram que eu deveria enfrentar o horror do meu passado.
“Como ousam!”, penso. “Como ousam!”
— Certo — digo. Viro a cabeça de leve, empurro-o com suavidade para que ele me solte.
Ele se vira e sai do quarto.
— Vou trancar a porta — Avisa, ao fechá-la atrás de si. — Precaução nunca é demais... — Ouço a chave se virar na porta por fora e começo a entrar em pânico. Será que ele vai mesmo comprar champanhe? Ou vai se encontrar com o Dr. Nash? Não posso acreditar que ele tenha me trazido para este quarto sem me dizer nada; mais uma mentira, assim como as outras. Eu o ouço descer as escadas.
Torcendo as mãos, sento na beirada da cama. Não consigo acalmar minha mente, não consigo focar em um único pensamento. Em vez disso minha mente dispara, como se, em uma mente desprovida de memória, cada ideia tivesse espaço demais para crescer e se mexer, colidir com as
demais em uma chuva de faíscas antes de sumir à distância.
Eu me levanto. Estou furiosa. Não consigo encarar a ideia de ele voltar, servir champanhe, ir para a cama comigo. Nem consigo suportar a ideia da sua pele contra a minha, ou de suas mãos sobre meu corpo durante a noite, me pegando, me apertando, me incitando a me entregar a ele. Como poderia, se não há nenhum eu para entregar?
Eu faria qualquer coisa, penso. Qualquer coisa, menos isso.
Não posso ficar aqui, neste lugar onde a minha vida foi arruinada e tudo arrancado de mim. Tento imaginar quanto tempo tenho. Dez minutos?
Cinco? Abro a mala de Ben. Não sei por quê; não estou pensando no motivo, nem em como, somente que preciso me mexer enquanto Ben está longe, antes de ele voltar e as coisas mudarem novamente. Talvez eu queira encontrar as chaves do carro, forçar a porta e descer as escadas, sair para a rua chuvosa e ir até o carro. Embora não tenha sequer certeza de que sei dirigir, talvez eu tencione tentar, entrar e me afastar, me afastar para bem longe.
Ou talvez deseje encontrar uma foto de Adam; sei que elas estão aqui.
Vou apanhar apenas uma, e depois sair do quarto e correr. Vou correr e correr, e então, quando não puder correr mais, vou ligar para Claire, ou para qualquer um, e dizer que não consigo mais aguentar e implorar ajuda.
Mergulho as mãos no fundo da mala. Sinto metal e plástico. Algo macio.
E então um envelope. Eu o retiro, pensando que pode conter fotografias, e vejo que é o mesmo que vi no escritório em nossa casa. Eu devo tê-lo colocado na mala de Ben ao arrumar a bagagem, na intenção de lembrá-lo que ainda não tinha sido aberto. Eu o viro e vejo a palavra Particular escrita na frente. Sem pensar, eu o abro e retiro seu conteúdo.
Papel. Páginas e mais páginas. Reconheço-as. As linhas azul-claras, as margens vermelhas. Estas páginas são iguais às do meu diário, do caderno em que tenho escrito.
E então vejo a minha própria caligrafia e começo a entender.
Eu não li toda a minha história. Há mais. Páginas e páginas a mais.
Encontro meu diário na bolsa. Eu não havia notado antes, mas depois da última página escrita, toda uma seção fora removida. As páginas foram extirpadas com todo o cuidado, cortadas com uma navalha ou lâmina de barbear, perto da lombada.
Cortadas por Ben.
Sento no chão, com as páginas espalhadas à minha frente. Ali está a semana que faltava na minha vida. Leio o resto da história.
A primeira entrada está datada de “Sexta-feira, 23 de novembro”. O mesmo dia em que encontrei Claire. Eu devo ter escrito aquilo à noite, depois de falar com Ben. Talvez nós tivéssemos tido a conversa que eu estava planejando, no fim das contas. “Estou aqui sentada”, começa, no chão do banheiro, na casa onde, supostamente, acordei todas as manhãs. Tenho este diário na minha frente, esta caneta na minha mão. Escrevo porque é tudo em que consigo pensar em fazer.
Há bolas de lenço de papel ao meu redor, encharcadas de lágrimas e sangue. Quando pisco, minha visão fica vermelha. O
sangue pinga no meu olho com a mesma rapidez com que consigo limpá-lo.
Quando olhei no espelho, vi que há um corte na pele acima do meu olho, e meu lábio também está cortado. Quando engulo, sinto o gosto metálico do sangue.
Quero dormir. Encontrar um lugar seguro em algum lugar, fechar os olhos e descansar, como um animal.
Isso é o que eu sou. Um animal. Vivo momento a momento, dia a dia, tentando entender o mundo em que me encontro.
Meu coração dispara. Leio de novo o parágrafo, meus olhos atraídos vezes sem conta para a palavra “sangue”. O que havia acontecido?
Começo a ler rápido, minha mente tropeçando nas palavras, movendo de linha em linha. Não sei quando Ben vai voltar e não posso arriscar que ele pegue estas páginas antes de eu ter terminado. Agora pode ser a minha única chance.
Decidi que era melhor falar com ele depois do jantar. Comemos na sala de estar — salsicha, purê, os pratos equilibrados nos joelhos —
e quando os dois tinham terminado perguntei se ele poderia desligar a televisão. Ele pareceu relutante.
— Preciso falar com você — eu disse.
A sala pareceu quieta demais, preenchida apenas com o tiquetaque do relógio e o zumbido distante da cidade. E minha voz, vazia.
— Querida — disse Ben, colocando seu prato sobre a mesa de centro entre nós dois. Havia um pedaço de carne semimastigado num dos cantos do prato, ervilhas flutuavam no molho ralo. — Está tudo bem?
— Sim — respondi. — Está tudo bem. — Eu não sabia como continuar. Ele olhou para mim, de olhos arregalados, esperando. —
Você me ama, não ama? — falei. Sentia quase como se eu
estivesse reunindo provas para me garantir contra qualquer decepção posterior.
— Sim — disse ele. — É claro. Por que isso tudo? O que foi?
— Ben — falei —, eu amo você também. E entendo seus motivos para fazer o que anda fazendo, mas eu sei que você está mentindo para mim.
Praticamente assim que terminei a frase eu me arrependi de tê-la começado. Eu o vi reagir mal. Ele me fitou com os lábios entreabertos, como se fosse dizer algo, os olhos magoados.
— Como assim? — disse ele. — Querida...
Agora eu tinha de continuar. Não havia escapatória da corrente onde eu havia começado a nadar.
— Eu sei que você está fazendo isso — não me contar as coisas — para me proteger, mas isso não pode mais continuar.
Preciso saber.
— O que quer dizer? — perguntou ele. — Não andei mentindo para você.
Senti uma onda de raiva.
— Ben — falei —, eu sei a respeito de Adam.
O rosto dele mudou, então. Eu o vi engolir em seco e olhar para o lado, para um dos cantos da sala. Ele bateu algo da manga do seu pulôver.
— O quê?
— Adam — repeti. — Eu sei que nós tivemos um filho.
Eu meio que esperava que ele me perguntasse como eu sabia, mas então percebi que essa conversa não era incomum. Já a tivemos antes, no dia em que vi meu livro, e em outros dias nos quais também me lembrei de Adam.
Vi que ele estava prestes a falar, mas não queria mais ouvir nenhuma mentira.
— Eu sei que ele morreu no Afeganistão — falei.
A boca dele se fechou, depois se abriu de novo, quase comicamente.
— Como você sabe disso?
— Você me contou — falei. — Semanas atrás. Você estava comendo um biscoito, e eu estava no banheiro. Eu desci as escadas e lhe contei que eu tinha me lembrado que tivemos um filho, me lembrado até mesmo do nome dele, e então nos sentamos e você me contou que ele tinha sido morto. Você me mostrou algumas fotos, que estavam lá em cima. Fotos minhas e dele, e cartas que ele escreveu. Uma carta para o Papai Noel... — A tristeza me
tomou novamente. Parei de falar.
Ben estava me encarando.
— Você se lembrou? Como?
— Andei anotando as coisas. Durante algumas semanas. Tanto quanto consigo me lembrar.